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Quinta, 25 Outubro 2012 20:36

Adeus ao Mestre

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Por Cesar Vanucci *

“Avançar sempre em direção do futuro.”

(Da homilia de Juvenal Arduini, na missa de seus 90 anos de vida em dezembro de 2008)

 

Uma das cabeças pensantes mais bem dotadas deste País acaba de deixar-nos, Mas isso - desolador sinal dos tempos -, não mereceu qualquer registro especial na grande mídia. Juvenal Arduini, o personagem em foco construiu obra pujante como filósofo, sociólogo e teólogo. Pregador eletrizante contagiou saudavelmente gerações universitárias inteiras. Viu suas idéias projetadas em livros esplêndidos, de rico conteúdo humanístico e espiritual, debatidas em simpósios, encontros, ciclos de estudos, aqui e alhures, por pessoas sinceramente empenhadas na busca de explicações acerca do sentido da vida.

Juvenal foi uma dessas criaturas admiráveis, dotadas de sabedoria incomum, que colocam os talentos do espírito a serviço do mundo, aqui e agora! Criaturas importantíssimas na construção humana de todos os dias! Por comunicarem da vida a essência. Por saberem interpretar os sinais. Por saberem olhar as estrelas e dar rumo ao navio. Por trabalharem os melhores impulsos das pessoas. Por saberem também iluminar com jatos de claridade, despejados de mente privilegiada e de coração generoso, os caminhos a percorrer, sobretudo quando se mostrem trevosos e arriscados em função da intolerância, do desamor, da injustiça e da fanatice rancorosa.

Há muita gente por aí, aquinhoada de dons singulares, que não sabe ou não quer deles fazer uso adequado. Se, por acaso, se lhes bate uma idéia generosa, de proveito social, costumam estacar diante das conveniências do jogo mundano dos interesses clandestinos. E a idéia, condenada ao enclausuramento, não ganha força em palavras e muito menos em ações. São desertores da causa social. Aplicam mal os talentos. Acumulam débitos na contabilidade da história. Deixam a bola rolar sem assumir compromisso com as apostas da vida.

Já este nosso Juvenal Arduini que acaba de partir, desfalcando nossos quadros da inteligência e da cultura, revelou-se sempre inteirissimo na postura assumida, com a qual procurou incessantemente refletir a natureza das coisas. Dono de inteligência invulgar, própria dos iluminados, ofereceu-nos um documentário vivo do emprego pertinente e fecundo dos talentos dados por Deus. Pelo vigor das idéias e disposições interiores, pela juventude de espírito.

Tornou-se lenda. Foi personagem magnífico de substanciosos capítulos na história da construção humana. Todos que travaram contato com ele, a qualquer tempo, sabiam disso. Gente de dentro e de fora da Igreja. Gente que compartilhava dos conceitos e concepções que defendia. E até mesmo gente que se contrapunha a esses conceitos, mas que não conseguia se desvencilhar do fascínio de seu verbo e do reconhecimento da universalidade de sua pregação.

Arduini teve participação em eventos decisivos ligados à expansão da consciência e conquistas sociais. Em momentos difíceis, quando valiosos ideais de vida eram colocados sob ameaça, o seu desassombro, autoridade intelectual e moral e serena avaliação dos acontecimentos representaram para milhares de cidadãos, uma âncora firme, um abrigo e um acalento. É inevitável a recordação, sem intuitos de atingir personagens menores, à época encastelados em poderosos bastiões do farisaísmo emborcado na contramão da história, da presença marcante de Juvenal Arduini nas batalhas pelos direitos civis, alvejados impiedosamente por muitos nos chamados anos de chumbo. Ele travou essas batalhas no púlpito, em livros, em salas de aulas, conferências e discursos de formatura. Deixou à mostra, o tempo todo, guarnecido de fé e esperança, inabaláveis crenças cívicas, democráticas, humanísticas no superior destino do homem, desenhado nos desígnios de Deus. Fê-lo com altivez num cenário povoado, na época, por extremismos políticos e religiosos, exasperante insensibilidade social, injustiças e incompreensões, tomadas como referência a cidade de Uberaba e outras cidades mais na região do Triângulo Mineiro.

Gerações inteiras vão guardar, com ternura, as imagens de sua presença cintilante nas pregações da célebre “missa dos universitários”. De sua indormida atuação espiritual num santuário conhecido por Hospital São Domingos, dedicado à celebração perene da vida, fundado, mantido e administrado pelas fabulosas Irmãs Dominicanas.

No livro “Hermenêutica – história e futuro”, um dos muitos suculentos e preciosos frutos de seu talento criativo como escritor, sociólogo, filósofo, pensador de escol, que contempla a vida como refulgente aventura poética, ele nos repassou, com riqueza de pormenores, lances portentosos do trabalho desenvolvido pelas dominicanas no Hospital São Domingos. Falava da “essência borbulhante do fenômeno hospitalar”, do “espaço de esperança”, da “moradia de acolhimento” e da germinação cultural para o bem da verdade que emana da instituição.

Em suma, a história de nossos tempos localizou Arduini a desenvolver monumental trabalho de conscientização social. Fiel à doutrina social da Igreja, comprometido com o amanhã da vida, sintonizado em pensadores vigorosos do porte de Teilhard de Chardin, nosso jovem mestre não fez em vida, até os 94 anos de idade, outra coisa, em vasta quilometragem apostólica, medida em anos-luz, do que ensinar que a salvação do homem não vem dos extremos ideológicos, nem das lateralidades geográficas. Vem do Alto.

Vai fazer-nos baita falta.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.