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Segunda, 20 Maio 2013 14:39

O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, terá apresentações no Recife

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No corre-corre de um grande centro urbano, as pessoas parecem não notar umas as outras, mas um acidente no trânsito faz com que se interliguem por um breve momento. É o que acontece quando um anônimo atropelado ganha a atenção de inúmeros passantes. Não especificamente pela possibilidade da sua morte, que fatalmente acontece, mas pelo pedido inesperado que ele faz a um jovem que corre em seu socorro: um beijo, desejo prontamente atendido. A inusitada cena dos dois homens se beijando em meio ao caos da cidade grande é flagrada por dezenas de pessoas munidas de aparelhos celulares e o caso ganha repercussão imediata nas redes sociais.

Esta parcela de modernidade, com imagens compartilhadas em tempo quase real na Internet, não estava presente na obra original de Nelson Rodrigues, a peça “O Beijo no Asfalto”, escrita em 1961, mas faz parte da encenação pernambucana assinada pelo diretor Claudio Lira, que será apresentada no Teatro Barreto Júnior nos dias 25 e 26 de maio, às 20h. A montagem estreou no Rio de Janeiro em agosto de 2012, integrando o projeto “Nelson Brasil Rodrigues: 100 Anos do Anjo Pornográfico”, iniciativa da Funarte.

Em seguida, foi apresentada em Recife, dentro do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos. Fomentada pela Funarte, a peça inicia em maio sua turnê. Nos dias 18 e 19 será apresentada em Natal, depois João Pessoa (21 e 22) e Recife (25 e 26). Também está confirmada sua participação no Porto Alegre em Cena (07, 08 e 09 de setembro).

Esta versão de “O Beijo no Asfalto” respeita o texto original, mas não teme acrescentar detalhes contemporâneos à trama, como a referência às redes sociais e as inserções de imagens em vídeo, num paralelo ao imediatismo atual da mídia, suprimindo ainda todas as referências ao universo carioca. Tanto que a história passa a acontecer no centro de qualquer grande cidade.

A trama mostra a reviravolta que acontece na vida do jovem Arandir, que socorre um desconhecido atropelado e, atendendo a um pedido deste à beira da morte, lhe dá um beijo na boca. Um repórter presencia o fato e vê no ato de um homem beijar outro homem a possibilidade de ganhar dinheiro. O caso ganha grande espaço na imprensa, sendo explorado com extrema crueldade tanto por jornalistas quanto por policiais sem ética e que não temem invadir a privacidade familiar.

A partir deste embaraçoso ato de misericórdia – um beijo na morte – presenciado por um repórter sensacionalista, um escândalo social se avoluma. Explorando o caso, Amado Ribeiro, o tal jornalista, e Cunha, um delegado corrupto, destroem a reputação de Arandir, um homem puro até então, e de sua família, levando todos a um desfecho trágico e surpreendente.

A exploração da imprensa é tanta, que a história ganha outros contornos, retratando os dois homens como amantes em um crime passional. A partir daí, a vida do jovem se transforma num inferno e nem mesmo sua mulher, Selminha, acredita que ele é inocente, ainda mais diante das insinuações do pai dela, Aprígio, que sempre manteve o pé atrás com o genro. Há referências reais a toda esta história.

“A peça aborda algo que eu quero dizer e me incomoda muito: essa imprensa que manipula a opinião pública e, principalmente, o ranço preconceituoso que as pessoas mantêm até hoje. Não só na questão da homossexualidade, mas num âmbito mais geral”, diz o encenador Claudio Lira, que ressalta como grande qualidade da escrita rodriguiana esse revelar tão cru da hipocrisia na sociedade.

Com “O Beijo no Asfalto”, Lira promove um retorno às suas origens no palco, ainda como ator. “No início da década de 1990, fiz um curso com Almir Rodrigues, grande ator e diretor, hoje afastado da cena por problemas de saúde, e passamos muito tempo estudando as obras de Federico García Lorca e Nelson Rodrigues. O objetivo era unir seus dois universos num espetáculo, mas o projeto não se concretizou. Em 2010, consegui encenar “Um Rito de Mães, Rosas e Sangue”, adaptação minha a partir das três tragédias rurais de Lorca, espetáculo ainda em atividade; e, agora, consigo mergulhar numa das obras de Nelson, o que é uma grande honra para mim, pois o considero um dos maiores dramaturgos do Brasil”, comemora.

Com vários outros trabalhos como encenador, em peças como “Alheio”, “Versos do Nós” e “Maçã Caramelada”, Claudio Lira diz que teve muita dificuldade em construir as cenas mais violentas propostas por Nelson – há embates terríveis entre Arandir e seus opositores – e, como traço de sua própria personalidade, resolveu dar à montagem um caráter mais clássico e psicológico, tanto que incorporou um inédito coro uníssono ao desenrolar da história, com personagens que usam máscara neutra sem personalidade individual e mais coletiva, numa áurea mítica, sensorial e, por que não, poética.

Tais figuras, vestidas com ternos, funcionam como um bloco de gente que, se não comenta a ação verbalmente, como na tragédia grega, acompanha o desenrolar dos acontecimentos enquanto presença crítica e, por vezes, participativa. Assim como a sociedade que rumina opiniões, muitas vezes clandestinamente nas redes sociais. São figuras sem identidade revelada, mas prontas para julgar fatos e pessoas.

Originalmente, toda a história acontece durante um dia e meio, portanto, as cenas desenrolam-se como quadros de um videoclipe, em sucessão vertiginosa, pontuada por trilha sonora que mescla sons urbanos a melodias originais, concebida por Adriana Milet, e inserções de vídeo – algumas em tempo real – da videomaker Tuca Siqueira.

A iluminação é assinada por Luciana Raposo e o cenário, figurinos e adereços pela dupla Claudio Lira e Andrêzza Alves. A produção executiva é de Andrêzza Alves e Renata Phaelante. “É esta sobreposição de elementos cênicos – dos figurinos masculinizados, das projeções em vídeo, da trilha musical quase constante, da luz forte que nos remete aos cortes cinematográficos e ao cenário composto por várias portas giratórias em 360 graus – que me interessa ao contar esta história, algo que eu quero dizer, tendo como molho o sarcasmo presente em Nelson ao tirar chacota da sociedade”, complementa o encenador.

Última modificação em Segunda, 20 Maio 2013 14:51

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