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Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

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Taiza Brito

Taiza Brito

Do site Ciclo Vivo (www.ciclovivo.com.br)
Sustentabilidade vai além de políticas públicas, preservação do meio ambiente e tudo que está envolvido em uma esfera governamental e social. Apesar do necessário apoio das autoridades, há uma maneira mais fácil de levar o tema para o dia-a-dia: mudar as atitudes e adquirir novos hábitos nos lares, diminuindo o impacto no planeta. Abaixo, seguem cinco dicas de como é possível ajudar o meio ambiente no conforto do lar:
– Está precisando organizar os brinquedos do seu filho ou gostaria de ter puffs para receber seus amigos mais confortavelmente? Que tal criar, a custo quase zero, uma estante de nichos de caixotes de feira e puffs de garrafas pet ou pneu usado? Basta caprichar no acabamento, para que além de úteis, fiquem sofisticados. Os caixotes podem ser decorados com criatividade e os puffs podem ser forrados com tecidos de cores variadas.
– Opte por produtos de limpeza biodegradáveis, eles possuem um impacto bem menor no meio ambiente. Hoje no mercado é possível encontrar desde desinfetantes à detergentes que não possuem em sua composição agentes químicos derivados do petróleo. Outra opção é produzir você mesma seu produto de limpeza. Uma receita simples é misturar ¼ de Bicarbonato de Sódio, 2 litros d’água e ½ xícara de vinagre e está pronto. Agora é só partir para a limpeza.
– Recicle o seu lixo. As sobras de alimentos crus, cascas de legumes, casca de ovos, verduras, borra de café, podem e devem ser tratados no espaço onde eles foram gerados, ou seja, na sua cozinha. Só na cidade de São Paulo o volume de lixo por dia é de 19 toneladas e 52% desse montante é de lixo orgânico. Todo esse resíduo vai para o aterro sanitário aumentando o volume e poluindo o meio ambiente. Para minimizar esse impacto e ainda produzir adubo da melhor qualidade para suas plantinhas, basta construir uma composteira com três baldes sobrepostos e algumas minhocas e em 45 dias você terá húmus e biofertilizante líquido próprio para adubar suas plantas e enriquecê-las de nutrientes, sabor e saúde.
– Plante em qualquer lugar da casa que tenha no mínimo quatro horas de incidência solar e crie ali uma horta vertical. A vantagem é que ela ocupa um espaço mínimo e normalmente você irá utilizar um espaço “improdutivo” da casa: a parede. Nela você pode plantar desde temperos para incrementar seus pratos, até mesmo verduras e legumes para alimentar sua família. Adube sua hortinha com o húmus que produziu.
– Reutilize o máximo possível. Diminuir o consumo é uma das atitudes mais sustentáveis para preservar os poucos recursos naturais que ainda nos resta. Potes de sorvete, caixas de sapato, e até recipientes vazios de xampus e condicionadores podem virar artigos de grande utilidade em seu dia-a-dia. Por exemplo: Aquela horta vertical pode ser construída com latas de leite pintas e penduradas em sua varanda.

Terça, 30 Setembro 2014 19:13

Aplicativo incentiva o consumo consciente

Do site Consumidor Consciente

Por meio do consu.me é possível localizar estabelecimentos que recebem as melhores notas para preços, atendimento e qualidade do produto ofertado
A eCRM123, empresa de tecnologia focada em relacionamento com consumidores, acaba de apresentar o aplicativo consu.me para celulares e tablets. Através do app os consumidores podem localizar os estabelecimentos que melhor equilibram preço, atendimento e qualidade do produto ofertado. A seleção é feita pelos próprios usuários, que curtem e atribuem notas às empresas nas redes sociais – como hashtags para avaliar –, avaliando os três critérios.
Ao dar uma nota para determinada companhia, é gerada uma média global chamada “índice consu.me” que serve para ajudar as pessoas a consumirem de maneira inteligente e consciente, sempre aproveitando os estabelecimentos que recebem as melhores notas e, assim, evitando decepções.
O consumidor ainda pode ser premiado por sua avaliação, seja ela boa ou ruim. “Por meio do consu.me, ficamos sabendo que uma empresa está sendo observada e recebendo notas por seus serviços prestados”, comenta José Jarbas, CEO da eCRM123 e idealizador do projeto.
O índice consu.me funciona mais ou menos como a bolsa de valores, já que sofre flutuações e fica disponível no site da empresa em forma de gráficos. O consumidor pode reavaliar a companhia após novas experiências boas ou ruins, causando mudança no índice.
“O propósito [do consu.me] é que o consumidor possa conhecer mais lugares para frequentar e comprar, baseado no que realmente interessa, como bom atendimento, preço justo e produtos de qualidade. A grande maioria da população compra um serviço ou produto devido à propaganda que a empresa faz, mas isso nem sempre é a melhor opção”, explica o CEO.
“Algumas pessoas adoram, por exemplo, achar lugares especiais que normalmente são pequenos e escondidos, porém excelentes. Na mesma hora surge a vontade de divulgar para os amigos. Com o consu.me um pequeno restaurante pode ter uma reputação muito maior do que aquela rede que talvez tenha sido boa no passado, mas com a fama, ficou desleixada e despreocupada com o consumidor. E o melhor é que, neste caso, se melhorarem o atendimento o índice pode subir”, completa Jarbas.
O Aplicativo está disponível na Google Play e, em breve, na Apple Store em três idiomas.

Sexta, 12 Setembro 2014 20:39

Filme de pavor

Por Cesar Vanucci *


"Comparados com os filmes de agora, os filmesde
pavorde outrora provocam bocejos e tédio nos meninos do pré-escolar."
(Josefina Cantidio, professora)

 

Vasculhando as ladeiras da memória, deparo-me com as imagens de um filme visto quando tinha entre 9 e 10 anos de idade, no cine Royal, em Uberaba. Consegui driblar, naquele dia, a implacável vigilância do comissário de menores. Vetado para menores de 14 anos, o filme tinha por título "O Polvo".Animo-me a toma-lo como o primeiro momento de pavor de que tive real consciência.

A ação se passava numa ilhota perdida na imensidão oceânica. Havia um farol operado por duas pessoas. O bicho que dava título à fita era de tamanho descomunal. Ameaçava, tetricamente, com seus gigantescos tentáculos, os moradores da ilha. Fiquei um bom tempo assombrado com aquelas cenas arrepiantes. Imagino que, concebido artesanalmente, em branco e preto, utilizando parcos recursos cenográficos e efeitos especiais paupérrimos condizentes com a tecnologia da época, o celuloide não conseguiria arrancar hoje, de uma criança da mesma idade, nada além de um bocejo e olhar de enfado.

O mundo mudou e o cinema com ele mudou também. As crianças de agora são bombardeadas diuturnamente por diferentes versões de terror, brotadas menos da ficção e muito mais de uma realidade cruel, que permite sejam os horizontes infantis na convivência social incessantemente alargados. O pavor para elas, como para os adultos, deixou de ser esporádico. Não carece ser alimentado apenas pela fantasia literária. Adquiriu múltiplas facetas. Sofisticou-se, se é que assim se pode dizer. Passou a ocupar espaço permanente na aventura cotidiana. Povoa as ruas. É trazido bruscamente pra dentro dos lares. Banalizou-se, sem deixar, contudo, de produzir impactos nunca vistos em extensão e intensidade em qualquer outro período da história.

Das guerras de antigamente – como as de agora e as de sempre, abomináveis – ouvia-se falar coisas arrepiantes. Mas já os aspectos chocantes dos entreveros belicosos destes nossos dias, incomparáveis em ferocidade e destruição, costumam ser vistos quase que ao mesmo tempo e hora em que ocorrem. E isso por conta de sistemas tecnológicos avançadíssimos, direcionados acampos de batalha ao invés de serem destinadosa espaços onde as pessoas de boa vontade se esforçam por construir o bem estar humano.

As cenas de tortura de prisioneiros no Iraque, na Síria, na Líbia, na Somália, no Afeganistão e noutras paragens conturbadas, as notícias sobre crueldades aplicadas pelos russos na Chechênia, por militares americanosaos reclusos em Guantánamo -alguns deles, como já ficou documentado, detidos por engano no Afeganistão -, os carros e os homens bombas que executam ensandecidas tarefas em tantos lugares, os massacres em Gaza, a guerra fraticida na Síria são sinais do pavor interminável dessabeligerância envolvendo países, etnias e crenças radicais que a insânia humana se esmera em espalhar.

Agreguem-se a elas as cenas dos corpos estraçalhados pelas ações terroristas, os edifícios destruídos com gente dentro nas rotineiras retaliações a terroristas e presumíveis colaboradores, as informações e imagens sobre sequestros, fome, pandemias que grassam em regiões miseráveis e alguns filmes modernos de pavor e ter-se-á configurado o quadro de horrores da hora presente. É um quadro composto de lancesde tal perversidade que acaba fazendo de uma novaprojeçãode "O Polvo",aqui e agora,certeiramente, uma distração inocente, inofensiva, sem recomendação de censura para guris entre a fase da desamamentação e o pré-escolar. Tá danado.
*O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

O Blog do Julio, publicado no site do Mercado Ético (www.mercadoetico.com.br), sempre traz notícias interessantes sobre sustentabilidade e dicas de atitudes que contribuem para melhorar o mundo no nosso entorno. No post de 11 de setembro, o blogueiro mirim fala sobre experiência Brasil afora de bibliotecas montadas em lugares inusitados. Confira! É o maior barato!


Do Blog do Júlio, no site do Mercado Ético, em 11/09/2014

 

E aí galera?
Ler é demais! E o melhor é que dá para fazer em qualquer lugar: em casa, no ônibus, num café, numa praça e até numa biblioteca…hahaha.
Tem muitas iniciativas bacanas pelo Brasil incentivando a leitura em espaços inusitados. Tem livros a disposição em ponto de ônibus, em açougue ou numa borracharia. Estes locais servem de inspiração para encurtar os caminhos entre as pessoas e os livros, usando muita criatividade.

Enquanto o ônibus não vem


Que tal começar uma nova leitura, enquanto espera o busão? Em Belo Horizonte, o projeto Ponto do Livro está na rua há sete meses, em quatro paradas de ônibus da cidade, duas das quais no entorno da Praça da Liberdade. Os títulos, à mostra em displays de plástico transparentes, estão ali para serem escolhidos por um novo dono. Quem quiser também pode deixar e doar seus exemplares por lá mesmo. Pelo menos 8 mil livros já foram distribuídos dessa forma.
Um kg de cultura, por favor!



Na Asa Norte de Brasília, o Açougue Cultural T-Bone é o ponto de encontro para programação musical – como shows de grandes nomes da MPB, na rua onde ele está localizado – e projetos de incentivo à leitura. Um deles faz especial sucesso. Logo em frente ao estabelecimento, há uma Estação Cultural, espaço com livros disponíveis para empréstimo sem burocracia, com iluminação própria e computador com acesso à internet. Iniciativa do Açougue Cultural, as estações se multiplicaram para outras quatro localidades da capital federal.
Saindo de uma fria

Também em Brasília, uma geladeira foi reformada pelo Projeto Refresque Ideias e virou uma biblioteca comunitária e muito diferente em plena Praça da 32, em Guará 2. O exterior foi embelezado pelos traços dos grafiteiros Mamá, Micro Svc, Julimar dos Santos e Thls Rafael. E o lado de dentro foi recheado de livros disponíveis pra quem quiser pegá-los emprestado.
Borrachalioteca

Como o próprio nome indica, é uma inusitada fusão de borracharia e biblioteca. Há 12 anos, o espaço dedicado a pneus começou a abrigar 70 livros para empréstimo. Hoje são mais de 16 mil títulos à disposição dos moradores de Sabará, na Região Metropolitana de BH. A borracharia é a matriz e o endereço mais famoso do que virou uma rede de bibliotecas, também presentes em outros três espaços da cidade.
Pedala, que lá vem história!

Outro nome autoexplicativo é o Bibliocicleta. É isso aí rapaziada, a “magrela” virou uma biblioteca itinerante que se desloca entre comunidades da Grande Salvador, levando livros e material didático a escolas, igrejas, praças e outros espaços. Feito com material reaproveitado, um suporte é encaixado na bike e serve para expor os títulos disponíveis.
Desde o ano passado, uma bibliocicleta circula por São Paulo, por meio de uma parceria com a ONG Design Possível.
E o que tem no baú?

Um dos projetos de leitura itinerante mais antigos do país, a Biblioteca Voltante, do Sesc, foi criada há 60 anos e segue levando livros e revistas pelas estradas de Minas. Um caminhão baú vai até os municípios e fica estacionado o dia todo. Os moradores podem escolher as obras que querem levar para casa. Em um intervalo, que varia entre 8 e 15 dias, esse caminhão retorna e é feita a devolução dos livros. Durante a visita às diferentes cidades, o baú também se transforma em palco para apresentações culturais. A última parada foi dia 9 de setembro em Santana dos Montes. E trem bão!!!

Sexta, 29 Agosto 2014 14:46

Será possível consumir sem alienar-se?

Gabriela Leite, do Outras Palavras

Imagine-se entrando em um supermercado para comprar uma garrafa de cerveja. Chegando lá, além de escolher pelo preço ou pelo sabor, você também pode analisar. Rejeita a marca que desrespeita os direitos dos trabalhadores. Evita aquela que faz publicidade machista. Por fim, escolhe a que utiliza ingredientes orgânicos. Na prateleira de cosméticos, pula os que ainda fazem testes em animais. Assusta-se ao perceber que uma das marcas faz parte de multinacional de alimentos. Finalmente, escolhe o creme hidratante da empresa que usa energia renovável.
Essa é a ideia do aplicativo Buycott (um trocadilho de “buy” — comprar, em inglês — com “boycott” — boicote). Criado por Darcy Burner, uma ex-desenvolvedora norte-americana da Microsoft, o programa para celulares ligados à internet baseia-se numa ferramenta do próprio capitalismo: o código de barras… Estimula os usuários escaneá-los, com o próprio telefone. E, ao identificar cada produto, associa seu fabricante a um banco de dados que pode tornar-se cada vez mais completo. Oferece todas as informações disponíveis: desde se o produto utiliza químicos cancerígenos até se a empresa apoia o direito dos transexuais.
O software é participativo. As classificações dos produtos são chamadas de campanhas, e podem ser criadas por qualquer usuário, dentro de algumas categorias. Algumas delas: direitos dos animais, justiça econômica, meio ambiente, comida, direitos humanos, direitos das mulheres. O usuário escolhe participar das campanhas que quiser e, em seguida, pode passar a escolher um produto de acordo com seus princípios pessoais.
No Brasil, ainda é bastante difícil achar produtos que estejam em listas. Isso pode ser rapidamente alterado. Depende apenas de que usuários da internet comecem a registrar produtos e criar campanhas. Isso permitiria diversos tipos de boicote: contra empresas que financiam certos políticos; contra uma indústria que esteja na lista do trabalho escravo; ou alguma marca cujo presidente mostrou-se contra os direitos das mulheres, por exemplo. Para testar, escaneamos o código de barras de dois produtos. O primeiro foi uma câmera Canon. Sobre ela, o aplicativo avisou: “você apoia esta marca por responsabilidade ecológica”, e mostrou que a marca está na lista positiva de “Energia limpa e renovável”. Acessamos seu site e vimos que realmente há uma campanha de reciclagem de toners de suas impressoras, por exemplo.
Já no momento em que fotografamos o código de barras de um cosmético da L’Oreal, o Boycott advertiu: “evite este produto”. Em seguida, explica: a marca faz parte do conglomerado da Nestlé. Por isso, está na lista suja de uma campanha de boicote à multinacional. O movimento adverte que o presidente da empresa, Peter Brabeck-Latmathe, já afirmou que “o acesso à água não é um direito humano”, e sua a indústria rouba a água potável de uma pequena comunidade no Paquistão, deixando seus habitantes passarem sede.
A L’Oreal ainda pertence a outra campanha: a “Long live Palestine, boycott Israel” (“longa vida à Palestina, boicote Israel”). Esta é uma das de mais sucesso nas últimas semanas, como afirma a página de trends do aplicativo — já tem 230 mil seguidores. “A L’Oreal estabeleceu Israel como seu centro comercial no Oriente Médio e aumentou o investimento e atividades manufatureiras”, alerta. Se acreditar que deve haver um boicote econômico a Israel, após o massacre na faixa de Gaza das últimas semanas, o consumidor pode escolher não comprar a marca. Se fizesse isso sozinho, sua ação não seria nem levemente sentida pela marca de cosméticos. Mas, em rede, essa atitude tende a crescrer consideravelmente — e, talvez, pode chegar até a incomodar a gigante Nestlé.
Por séculos, o consumo tem sido uma das bases do processo de alienação capitalista. Ao comprar algo, legitimamos e fortalecemos relações sociais que ignoramos. É como se nossos valores éticos fossem irrelevantes ou impotentes, e devêssemos consumir levando em conta apenas fatores superficiais: preço, aparência, publicidade, suposta “qualidade” do produto. Agora, parece que a tecnologia pode ser utilizada para atitudes distintas. Haverá consciência social suficiente para que elas se disseminem?

"Educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade".  A frase, da física e economista Rose Marie Muraro, falecida no último dia 21 de junho, chamou-me a atenção no artigo de Leonardo Boff, publicado em 23 de junho no site do Mercado Ético. Ao ler o texto, no qual ele narra a trajetória e um pouco do pensamento da intelectual com a qual trabalhou e partilhou conhecimento, achei interessante reproduzí-lo no Blog Viva Pernambuco. Segundo Boff, mulher de profunda fé e espiritualidade, Rose Marie sonhava com as capacidades humanas de transformar a tragédia anunciada numa crise purificadora rumo a uma sociedade que se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra. Também tenho esse desejo. Boa leitura!

 

Por Leonardo Boff    

No dia 21 de junho concluiu sua peregrinação terrestre no Rio de Janeiro uma das mulheres brasileiras mais significativas do século XX: Rose Marie Muraro (1930-2014). Nasceu quase cega. Mas fez desta deficiência o grande desafio de sua vida. Cedo instituiu que só o impossível abre o novo; só o impossível cria. É o que diz no seu livro Memórias de uma mulher impossível (1999,35). Com parquíssima visão formou-se em física e economia. Mas logo descobriu sua vocação intelectual: de ser uma pensadora da condição humana especialmente da condição feminina.
Foi ela que no final dos anos 60 do século passado, suscitou a polêmica questão de gênero. Não se limitou à questão das relações desiguais de poder entre homens e mulheres mas denunciou relações de opressão na cultura, nas ciências, nas correntes filosóficas, nas instituições, no Estado e no sistema econômico. Enfim deu-se conta de que no patriarcado de séculos reside a raíz principal deste sistema que desumaniza mulheres e também homens.
Realizou em si mesma um impressionante processo de libertação, narrado no livro Os seis meses em que fui homem (1990,6ª edição). Mas a obra quiçá mais importante de Rose Marie Muraro tenha sido Sexualidade da Mulher Brasileira: corpo e classe social no Brasil (1996). Trata-se de uma pesquisa de campo em vários Estados da federação, analisando como é vivenciada a sexualidade, tomando em conta a situação de classe das mulheres, coisa ausente nos pais fundadores do discurso psicanalítico. Neste campo Rose inovou, criando uma grelha teórica que nos faz entender a vivência da sexualidade e do corpo consoante as classes sociais. Que tipo de processo de individuação pode realizar uma mulher famélica que para não deixar o filhinho morrer, dá o sangue de seu próprio seio?
Trabalhei com Rose por 17 anos como editores da Editora Vozes: ela responsável pela parte científica e eu pela parte religiosa. Mesmo sob severo controle dos órgãos de repressão militar, Rose tinha a coragem de publicar os então autores malditos como Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso Paulo Freire os cadernos do CEBRAP e outros. Depois de anos de longa discussão e estudo em conjunto reunimos nossas convergências num livro que considero seminal Feminino & Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças (Record 2010).
Destaco apenas uma frase dela: “educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade”.
Sem deixar nunca de lado a questão do feminino (no homem e na mulher) voltou-se cedo aos desafios da ciência e da técnica moderna. Já em 1969 lançava Autonomação e o futuro do homem e previa a precarização do mundo do trabalho.
A crise econômico-financeira de 2008 levou-a colocar a questão do capital/dinheiro com o livro Reinventando o capital/dinheiro (Ideias e Letras 2012), onde enfatiza a relevância das moedas sociais e complementares e as redes de trocas solidárias que permitem aos mais pobres garantirem sua subsistência à revelia da economia capitalista dominante.
Outra obra importante, realmente rica em conhecimentos, dados e reflexões culturais se intitula Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade: querendo ser Deus? (Vozes 2009). Neste texto ela se confronta com a ponta da ciência, com a nanotecnologia, a robótica, a engenharia genética e a biologia sintética. Vê vantagens nessas frentes, pois não é obscurantista. Mas pelo fato de vivermos dentro de uma sociedade que de tudo faz mercadoria, inclusive a vida, percebia o grave risco de os cientistas presumirem poderes divinos e usarem os conhecimentos para redesenharem a espécie humana. Daí o subtítulo: Querendo ser Deus? Essa é a ingênua ilusão dos cientistas.
O que nos salvará não é essa nova Revolução Tecnológica mas, como diz Rose, é a “Revolução da Sustentabilidade, a única que poderá salvar a espécie humana da destruição…pois a continuarmos como está, não estaremos em um jogo ganha-perde e sim no terrível jogo perde-perde que significará a destruição de nossa espécie, na qual todos perderemos” (Reinventando o Capital/dinheiro, 238).
Rose possuía um sentimento do mundo agudíssimo: sofria com os dramas globais e celebrava os poucos avanços. Nos últimos tempos Rose via nuvens sombrias sobre todo o planeta, pondo em risco o nosso futuro. Morreu preocupada com as buscas de alternativas salvadoras. Mulher de profunda fé e espiritualidade, sonhava com as capacidades humanas de transformar a tragédia anunciada numa crise purificadora rumo a uma sociedade que se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra. Conclui seu livro Os avanços tecnológicos com esta sábia frase: ”quando desistirmos de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é, mas que intuímos desde sempre”(p. 354)
Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.

A torcida japonesa foi a grande atração do jogo entre as seleções do Japão e Costa do Marfim, ocorrido no último dia 14 de junho, no Recife, pela Copa do Mundo. E não pela forma de torcer. Mas pela civilidade com a qual já são conhecidos no mundo inteiro. O time perdeu por 2 a 1 para a Costa do Marfim, mas os japoneses torcedores foram os grandes vencedores. Ao final da partida, ajudaram a coletar o lixo deixado nas arquibancadas. As imagens correram o mundo nas redes sociais, ganhando apoio e mensagens de respeito à iniciativa. Confira abaixo o texto sobre o assunto publicado pelo site do Ciclo Vivo. 


Por Thaís Teisen, do CicloVivo, publicado originalmente em 17/06/2014
A estreia do Japão na Copa do Mundo não foi das melhores em termos de futebol, mas a torcida japonesa deu uma lição de civilidade ao mundo. Após a partida, parte dos torcedores orientais ajudou a coletar o lixo deixado nas arquibancadas.
Mesmo tendo perdido o jogo para a Costa do Marfim por 2×1 e de virada, a torcida japonesa não se deixou abater pelo resultado desfavorável. Depois do apito final e com as arquibancadas quase vazias, o que se viu foi um exemplo de cultura e cidadania, com torcedores ajudando a manter a limpeza do estádio após a grande festa.
As imagens dos japoneses com sacos de lixo nas mãos e recolhendo as embalagens do chão foram compartilhadas nas redes sociais e a iniciativa ganhou reconhecimento mundial. O fã clube Nora Guardiola, do Barcelona, replicou as fotos em seu perfil no twitter e tocou fãs do time catalão.
Um dos comentários destaca que ações como essas são raras. “Difícil de acreditar que ainda existam pessoas tão maravilhosas como essas neste mundo moderno”, disse um dos fãs. Em geral, as mensagens são de respeito às pessoas e à iniciativa.
O jogo aconteceu em Recife, no último sábado e contou com a presença de mais de 40 mil torcedores. O exemplo japonês serve de incentivo a torcidas em todo o mundo, para que o espetáculo do esporte seja ainda mais completo.

Passada mais de uma semana do início da Copa do Mundo no Brasil, muitos se perguntam sobre de que forma o evento pode contribuir para a conservação do tatu-bola, mascote oficial do evento. A imagem estilizada do animal, batizado de Fuleco, que atrai principalmente as crianças, está em toda propaganda do evento. Mas há algo concreto sendo feito em defesa deste animal de origem nordestina? O texto abaixo, da Agência Brasil, traz informações sobre estas questões.


Por Andreia Verdélio, da Agência Brasil
Com o início da Copa do Mundo no Brasil, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) promove o Plano de Ação Nacional (PAN) para a conservação do tatu-bola, mascote oficial do evento. O PAN Tatu-bola tem como objetivo a redução do risco de extinção do Tolypeutes tricinctus, o tatu-bola-do-Nordeste, e a avaliação adequada do estado de conservação do Tolypeutes matacus, o tatu-bola-do-Centro-Oeste.
O tatu-bola faz parte de um grupo de 11 espécies de tatu existentes no Brasil e é primo do tamanduá e das preguiças. As principais ameaças à sobrevivência são, principalmente, a caça predatória e destruição do habitat causadas pela expansão da agropecuária, intensificada na última década.
Ele ganhou esse nome pois tem três cintas móveis no dorso, que o permite fechar completamente sua carapaça, formando uma bola. Esse é seu mecanismo de defesa contra predadores naturais.
O T. tricinctus, espécie exclusivamente brasileira, vive nos ambientes da caatinga e cerrado e integra a Lista Oficial das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, classificada como “em perigo”, e a Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), na categoria “vulnerável”.
A meta do ICMBio, durante os cinco anos de vigência do plano, é reduzir o risco de extinção do T. tricinctus, elevando-o, pelo menos, à categoria de “vulnerável”.
Já o T. matacus habita o Pantanal e áreas vizinhas de cerrado, porém é mais comum na Bolívia, Argentina e no Paraguai. Com o PAN, essa espécie será mais bem estudada, uma vez que se encontra na categoria Dados Insuficientes, por falta de informações em sua área brasileira.
Para atingir a meta, foi criado um Grupo de Assessoramento Estratégico e estabelecidas 38 ações, em seis objetivos específicos: atualizar as áreas de ocorrência das espécies de tatu-bola e avaliar suas principais ameaças; mobilizar as comunidades locais e a sociedade em geral, sobre a importância da proteção da espécie; ampliar o conhecimento sobre a biologia e a ecologia para o direcionamento de estratégias de conservação; ampliar, qualificar e integrar a fiscalização para coibir a caça; reduzir a perda de habitat nos próximos cinco anos e promover a conectividade entre as populações do tatu-bola-do-Nordeste.
Os PANs são instrumentos de gestão para troca de experiências entre entidades com o intuito de orientar as ações prioritárias para conservação da biodiversidade. É uma ferramenta definida pelo governo a partir do Programa Pró-Espécie, instituído em fevereiro deste ano, que busca minimizar ameaças e o risco de extinção de espécies.
Existem, no momento, 44 planos de conservação de espécies ameaçadas sendo implantados pelo ICMBio em todas as regiões do Brasil, envolvendo 362 tipos de animais dos biomas marinho, Caatinga, Cerrado, Amazônia, Pampa e Pantanal.
O PAN Tatu-bola foi anunciado formalmente em 22 de maio, Dia Internacional da Biodiversidade, com outras medidas do Ministério do Meio Ambiente para a preservação de espécies ameaçadas, incluindo o tatu-bola. O pacote de ações de proteção da fauna brasileira foi publicado no Diário Oficial da União.
A elaboração do PAN Tatu-bola foi coordenada pelo ICMBio, com o apoio da Associação Caatinga e do Grupo Especialista em Tatus, Preguiças e Tamanduás da IUCN e colaboração de representantes de outras 15 instituições. O plano será coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação do Cerrado e Caatinga, com coordenação executiva da Associação Caatinga.


Notícia publicada pelo site do  Instituto Carbono Brasill, assinado por Jéssica Lipinski, relata que desde o início deste mês de junho, o governo francês está executando um programa piloto para estimular a bicicleta como meio de transporte. E o melhor é que os trabalhadores que estão participando do teste estão recebendo incentivos financeiros para utilizarem a bicicleta para se deslocarem ao local de seus empregos.
O programa, que está em uma fase de seis meses de experimentação, oferece como bonificação um pagamento de 0,25 centavos de euro – o equivalente a 0,77 centavos de Real – para cada quilômetro rodado com a bicicleta no percurso casa-trabalho.
O esquema foi adotado por 20 companhias, que no total empregam aproximadamente 10 mil pessoas, e, além de melhorar a saúde pública, visa reduzir a poluição do ar e o consumo de combustíveis fósseis.
Frederic Cuvillier, ministro dos transportes francês, afirmou que “os custos do transporte público e dos carros já são subsidiados”, e que ele quer que a bicicleta se torne “um modal separado de transporte”. O plano tem como objetivo aumentar em 50% o uso de bicicletas, e caso mostre ter sucesso, será testado em uma escala maior.
Em outros países da Europa, há planos semelhantes em andamento, em que os trabalhadores também são pagos por quilômetro rodado com bicicleta, ou recebem incentivos fiscais ou apoio financeiro para a compra de bicicletas.
Segundo um recente estudo alemão, o uso de bicicleta pode aumentar a expectativa de vida em até 14 meses, e outras pesquisas também apontam para mais benefícios do modal, como o desenvolvimento das habilidades motoras e o abandono do sedentarismo.

Segunda, 09 Junho 2014 20:03

Envelhecer jovem

Por Frei Betto*  

O título pode parecer paradoxal, mas faz sentido. Hoje em dia quase ninguém curte a velhice. Ou se assume como velho. Mesmo quem já atingiu idade avançada costuma fazer questão de dar a impressão de ser mais jovem.  

Chamar alguém de “velho” é quase uma ofensa. Eu, que velho estou, costumo brincar que sou “seminovo”, como em revendas de veículos. O carro é velho, mas o adjetivo ajuda a iludir o freguês.  

Ficar velho está cada vez mais caro. Tanto para o governo, obrigado a arcar com o crescente número de aposentadorias e pensões, e atendimento pelo SUS, quanto para o cidadão, impelido a investir em plano de saúde, academia de ginástica, medicamentos fitoterápicos e alimentação saudável, como frutas e legumes orgânicos.   Agora a Cellectis, empresa francesa de biotecnologia, coloca no mercado a iPS (sigla em inglês para designar células-tronco de pluripotência induzida). A última novidade em medicina regenerativa.  

Para produzir iPS basta introduzir quatro genes em células maduras e, assim, estas regridem ao estado de células-tronco. Esse processo, descoberto pelo cientista japonês Shinya Yamanaka, assegurou-lhe o prêmio Nobel de Medicina, em 2012. As células-tronco obtidas por esse método (iPS) teriam a mesma capacidade que caracteriza as células embrionárias: transformar-se em novos tecidos e órgãos.  

Quem deseja evitar a natural degradação de seu organismo e, desde já, estocar células da pele para que se tornem iPS, basta recorrer à empresa francesa Scéil, braço da Cellectis. A saúde em idade provecta não custa barato. A Scéil cobra US$ 60 mil (pouco menos de R$ 140 mil) para coletar as células, e uma taxa anual de US$ 500 (cerca de R$ 1,1 mil) para armazená-las. Por enquanto esse luxo está disponível apenas nos EUA, Reino Unido, Suíça, Dubai e Cingapura.  

“As pessoas devem poder viver jovens”, alardeia André Choulika, presidente da Cellectis. Por enquanto é um luxo adotar esse procedimento de recauchutagem genética, mas pode-se recorrer, a preços mais em conta, a cirurgias plásticas por mero capricho estético. De preferência em regiões predominantemente frias, para justificar o uso de cachecol e luvas. Pescoço e mãos são traiçoeiros à vaidade senil: denunciam que o nosso corpo e a nossa idade não são tão jovens quanto o rosto remodelado.  

No México, o Instituto de Medicina Regenerativa promete operar curas via células-tronco. Basta extrair 200 mililitros de gordura da coxa do paciente e, em seguida, colher cerca de 130 milhões de células-tronco para implantá-las no órgão enfermo. O procedimento custa, em média, US$ 13,5 mil (em torno de R$ 30 mil).  

Além de jovialidade perene, muitos buscam a imortalidade (sem entrar para academias de letras). Como o limite natural da célula humana é de 130 anos, há esperança de que, graças às células-tronco, haja possibilidade de substituir células envelhecidas, com prazo de validade vencido, por novas.  

O título de pessoa mais velha do mundo é atribuído à francesa Jeanne Calment, que viveu 122 anos (1885-1997). Passeou de bicicleta até os 100 anos, andou até os 115, e tinha o hábito de beber um copo de vinho e fumar um cigarro todo dia.  

O boliviano Carmelo Flores Laura, índio Aimara, alega ter 123 anos, graças às longas caminhadas como pastor de gado e ovelhas. Para o Guinness de Recordes, ninguém ainda superou a japonesa Misao Okawa, de 115 anos. A chinesa Alimihan Seyiti afirma ter 127 anos. Seus maiores prazeres são beber água gelada, e cantar e brincar com crianças.  

O curioso é que, em geral, vive muito quem não teme morrer. E sobretudo quem imprime à sua vida um sentido altruísta. A ansiedade de prolongar a existência a qualquer custo pode gerar na pessoa um estresse que lhe abrevia os dias.   Vi na TV, há tempos, Datena entrevistando um casal longevo, habitantes da zona rural paulista. Ele com 111 anos, ela com 108. O marido se mostrava mais lúcido que a mulher. O entrevistador perguntou a ele a que atribuía tão longa existência. Dieta? “Adoro um torresminho”, reagiu o homem. E beber? Não se fez de rogado: “Uma cachacinha antes da comida cai muito bem. ” E fumar? perguntou Datena. “Fumar? Nem pensar. Parei desde os 108. ”  

Importa na vida é ser feliz. E a felicidade não resulta da soma de prazeres nem do acúmulo de bens. É fruto do sentido que se imprime à existência.  

* Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.

Este artigo foi publicado no dia 4 de junho no site do Mercado Ético (www.mercoetico.com.br )

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