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Quinta, 16 Dezembro 2010 02:37

Movimento espírita e cidadania

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cidadania1Por Acácio de Carvalho, no Blog Meus Escritos Mal Descritos

“1825... o homem caminhava lentamente para o cadafalso... a garoa molhava a cidade do Recife, como se a natureza afirmasse o seu estado de tristeza, diante do ato de injustiça que iria ser cometido. Frente ao carrasco, a coragem daquele homem era impressionante. Os seus algozes não estavam presentes, preferiam chafurdar-se nos vícios inebriantes do poder e da sedução. Não houve criatura capaz de levá-lo à corda, pois todos sabiam que ele era um homem bom, justo, quase santo. A pena, então, foi substituída pelo fuzilamento. Seu crime? Sonhar com a liberdade, com a igualdade entre os homens, lutar pela verdadeira independência, pela abolição dos escravos, idealizar um mundo melhor, ser um verdadeiro cidadão...” 

Assim passou pela Terra, frei Joaquim do Amor Divino Rebelo Caneca, o frei Caneca. Religioso que compreendeu que o seu papel não era apenas de celebrar missas e fazer batizados. E como ele, tantos outros heróis, precursores de novas eras, que anteviam o futuro, liderando os homens de sua época. Frei Caneca levou às últimas conseqüências o seu ideal, um ideal de cidadania. E o que é cidadania, senão a expressão de seus direitos e deveres numa comunidade?

A etimologia da palavra vem do grego clássico, onde os cidadãos da pólis reuniam-se na ágora, praça central da cidade-estado, para deliberar coletivamente sobre as ações a serem tomadas. Era o primeiro exemplo de democracia, no longo processo evolutivo percorrido pelas sociedades de nosso planeta rumo aos cimos espirituais, ainda tão almejados hoje.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, fruto do pensamento libertário da Revolução Francesa, foi um passo adiante. A criação da Liga das Nações, posteriormente, Organização das Nações Unidas, consolidou, no horror do pós-guerra, o desejo da Humanidade de ver os seus direitos universais sendo respeitados e defendidos. Ainda hoje, os homens lutam por dignidade, respeito, moradia, trabalho, educação, justiça...

Mas não podemos negar que estas conquistas foram balizadas por exemplos, como o de Frei Caneca, como o de Mahatma Gandhi no campo político, de Martin Luther King, de Joaquim Nabuco, de Zumbi dos Palmares na área de direitos humanos, e muitos outros...

Atitudes incompreendidas pelos poderosos da época, mas extremamente afinadas com o pensamento ético cristão. Sim, com o pensamento cristão, pois o que recomendaria o Cristo, ao ver a iniqüidade da escravidão, se ele afirmou que todos somos iguais? Que faria Jesus, diante de um povo subjugado a outro, colonizador e explorador? Recolheria-se em Jerusalém? Ou enfrentaria os césares e os fariseus (como o fez) com a sua coragem?

Creio que ainda não compreendemos verdadeiramente o sentido do cristianismo. Notadamente o movimento espírita, que possui, em seu escopo doutrinário, princípios éticos e assertivas de vanguarda, capazes de colaborar para a transformação do mundo!

Ao conhecermos a doutrina espírita, um novo mundo abre-se diante de nós: de repente, obtemos explicações sobre a vida após a morte, compreendemos os mecanismos reencarnatórios, a lei universal de evolução, os fenômenos mediúnicos... Conhecemos o porquê da vida, o que somos, de onde viemos, aonde vamos. Estudamos as nossas tarefas individuais, familiares e coletivas. Ao mergulharmos na interpretação do espiritismo, achamos justificativas para as desigualdades sociais, entendemos a história da humanidade sob uma ótica integrada, interpretamos a economia, a sociologia e verificamos que o papel do espírito é ser um cidadão integral, ativo, atuante no mundo em que vivemos.

Revisitamos o sentido do cristianismo, sob uma nova ótica, holística, cósmica. Vemos Jesus como o coordenador-geral de nosso planeta, amparando-nos e inspirando-nos em nossa reforma interior, trazendo à Terra espíritos iluminados para confirmar os caminhos já apontados por ele próprio, há dois milênios... Tratamento espiritual, palestras, livros, seminários... o encantamento com a prática espírita! Encontramos o rumo de nossa felicidade no amor ao próximo! Mas, e depois?

O tempo vai passando e agregamo-nos à instituição, ela passa a fazer parte de nós, pela grandeza do espiritismo. Corremos os primeiros riscos, de nos enclausurarmos em nossas casas, vivermos um mundo paralelo, agradável, compensador. Corremos o risco de esquecer que a doutrina é proativa, evolucionista, libertária. Que recomenda a ação social, a mudança do mundo, a participação nos processos  de transformação. Trocamos os fins pelos meios.

A doutrina espírita bem aplicada propicia iluminação de consciências, emancipação do pensamento, redução de angústias, transformação moral e melhoria da sociedade. Mas para isso, precisamos rever o seu processo de atuação, pois o espiritismo precisa ser vivenciado e não apenas teorizado. Acontece que nós não estamos acostumados a pensar; repetir fórmulas prontas é mais fácil. Acomodamo-nos e adotamos uma postura passiva; a maioria de nós apenas assiste palestras e orbita em um mundo limitado, sob o manto de uma falsa religiosidade. Somos apenas uma caricatura daquilo que Kardec projetou.

O movimento espírita precisa adotar características de vanguarda, com mecanismos atualizados de divulgação, através de estudos em grupo, vivências grupais com aspectos terapêuticos, internet, televisão, eventos, fóruns, integração social, trabalhos voluntários, parcerias com organizações não-governamentais, etc. Precisamos ir às ruas! Os centros precisam facilitar o processo de auto-conhecimento e construção própria da realidade de seus participantes, criando cidadania, repensando o seu modus operandis.

Definitivamente, precisamos mudar o nosso modo de agir no movimento espírita. Estamos anos atrasados em relação a outras instituições religiosas, que têm uma atuação social muito mais intensa. Os nossos representantes “oficiais” (quem são eles?)  estão calados, mudos, estáticos. Parece até que estamos anestesiados diante do quadro social que enfrentamos, não percebemos que estamos vivendo o momento mais importante de nossa existência espiritual, encarnados na Terra nesta era de transição.

Espírita, onde estás que não te ouço? Vês as crianças abandonadas na Rua do Imperador? Ou os “cheira-cola” dos sinais? Ouves o choro das crianças e adolescentes sexualmente exploradas e dos velhos desamparados? A violência urbana te incomoda? Que fazes contra o desemprego? Pensas que nada tens com isso? Que nada deves fazer? Questionas dialeticamente as instituições em que tomas parte, com o intuito de aprimorá-las? Ou te calas, dizendo: “esperemos, ainda não chegou a hora”? Participas de movimentos sociais, de organizações não-governamentais? Lutas contra os privilégios das minorias? Tens atuação política, de alto nível, educativa e transformadora?

Onde estão os líderes espíritas, neste mundo que pede mudanças? Onde estão os cidadãos espíritas, que sabem que a evolução se processa aqui, no plano material? Calam-se, omissos...

Ah, Caneca, quanto do teu espírito idealista ainda precisamos...

* Acácio de Carvalho (acaciocarvalho.blogspot.com)

 

Última modificação em Quinta, 16 Dezembro 2010 02:44

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