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Sexta, 28 Setembro 2012 19:41

O destempero radical árabe

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Por Cesar Vanucci *

“O fanatismo religioso é mais perigoso que o ateísmo e mil vezes mais prejudicial.”

(Voltaire)

 

A Secretária de Estado Hilary Clinton está com a razão. Um filmeco asqueroso, tanto na forma quanto no conteúdo, produzido com nefandos propósitos, não poderia, por si só, desencadear esse tsunami de protestos que estremece, outra vez, o costumeiramente turbulento mundo árabe. A busca das explicações para esse avassalador destempero radical tem que ir além, muito além da mera projeção das imagens e diálogos distorcidos, retratando a figura de Maomé, sagrada para o Islã, postos a circular nas redes sociais.

O caso guarda conotações com outros incidentes recentes, como, por exemplo, o produzido por aquele pastor norte-americano, fundamentalista amalucado, que algum tempo atrás, diante das câmeras de televisão, botou fogo em exemplares do Alcorão. Outros seguidores de teorias incendiárias anti islâmicas surgem também do nada, volta e meia, tornando públicas provocações que encontram sempre uma mídia receptiva para propagá-las. São episódios que deixam à mostra inocultável intuito de açular desatinos de extremistas religiosos. Mas, tanto quanto o filme, considerado de extrema vulgaridade, não conseguem, jeito maneira, falar verdade, macular a trajetória de um líder reconhecidamente influente da história humana. Uma avaliação serena, bem objetiva, que se faça do filme e das outras despropositadas ocorrências, em círculos providos de bom senso, dentro e fora do islamismo, poderá suscitar naturalmente reações de repúdio. Mas não a ponto de estimular, com absoluta certeza, algo que lembre de leve a onda de desvario que tomou conta das ruas e praças árabes com todas as consequências funestas que aí estão.

Isso conduz a inevitável reflexão. Se o meio sensato de analisar o assunto é esse, como explicar a erupção da violência fora de controle? A pergunta comporta um conjunto de respostas surpreendentes e enigmáticas. Tanto quanto surpreendentes, incoerentes e charadisticos costumam se revelar os rumos políticos árabes desde sempre. Fica evidenciado, primeiramente, que o filme, por mais grotesco que seja, está sendo manipulado ao gosto pela ferocidade radical de diferentes tendências no afã de fortalecer manobras junto a religiosos fanáticos na conquista de espaços políticos. Multidões com reduzida capacidade de discernimento das coisas são orquestradas a bel prazer por tais lideranças. Absorvem com fervor mórbido suas exacerbadas conclamações. Abra-se parêntese para relembrar que a história humana é, desoladoramente, permeada de manifestações desse gênero. Envolvendo tudo quanto é corrente religiosa. O fundamentalismo é enfermidade universal. Parece até incurável.

Recorde-se, ainda, a propósito, que as lideranças radicais sob o foco das atenções são múltiplas. Obedecem a orientações diversificadas. São divididas, geralmente, por encolerizadas discordâncias. Um verdadeiro saco de gatos, pode-se afirmar. O que confere ao problema graus de dramaticidade e complexidade ainda maiores.

Outro ingrediente de peso no processo é de cunho político. A confusão imperante nos territórios conflagrados (na verdade, permanentemente conflagrados), pode-se dizer sem intenção de trocadilho, é das arábias. Para tanto contribuem poderosamente os maquiavélicos esquemas geo-político-econômicos que ditam o comportamento das potências com disposições hegemônicas, os Estados Unidos em realce. São tamanhas as trapalhadas no campo diplomático, com os apoios ora dados a ditadores cruéis, ora aos adversários desses ditadores (que acabam se tornando, também, via de regra, déspotas cruéis), que as ações políticas em questão correm sempre o risco de ser recebidas com descrédito popular. Os ocidentais falam em democracia, mas garantem, como acontece na Arábia Saudita e no Bahrein, a permanência no poder de alguns dos mais fechados e tirânicos regimes políticos do planeta.

Para os extremistas políticos e religiosos desses ermos não fica difícil, à vista das contradições comportamentais das grandes potências, insuflarem massas fanáticas à pratica de atos insanos. A percepção que se passa a ter, em tais redutos, é de que elas não se importam com o derramamento de sangue nem com a dignidade dos árabes. O sentimento antiamericano é também fortemente propagado em decorrência da inexistência de uma política firme e vigorosa no sentido da implantação, há décadas esperada, do Estado da Palestina. Por que, até hoje, isso não foi resolvido? A pergunta deixa um clamor de indignação no ar.

Um derradeiro comentário. Não deixam de ser intrigantes essas provocações tacanhas, sem eira nem beira que, a intervalos, são feitas, via redes sociais e demais recursos midiáticos, por indivíduos desconhecidos, à cata ou não de celebridade instantânea. Ponho-me a matutar com os botões do pijama que, talvez, essas ações não sejam produzidas apenas por irresponsáveis desocupados. Talvez façam parte de complô urdido, sabe-se lá porque mentes doentias, com o objetivo mesmo de manter os ânimos acirrados, de ampliar divergências, de criar dificuldades. Uma forma solerte de impedir, naquele pedaço do mundo, possa frutificar, algum dia, uma convivência harmoniosa, amena e respeitável, na melhor configuração ecumênica, entre homens e mulheres de diferentes nacionalidades, etnias e crenças.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

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