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Quarta, 03 Outubro 2012 12:53

Que globalização é essa?

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Por Cesar Vanucci *

 

 "As combinações oportunisticas da economia costumam levar, às vezes, a grandes desastres do ponto de vista humano"

(Antônio Luiz da Costa)

 

Que ordem econômica mundial mais frouxa é essa que entra em alucinado parafuso a um mero estalar de dedos de um especulador qualquer, envolvido em trapaça bursátil, refestelado em iate de luxo das "cote d'azur" da vida?

Que mané globalização é essa a espalhar desassossego e temor no espírito simples da gente do povo por causa de um parecer de um tecnocrata que ninguém conhece, de uma instituição que ninguém nunca antes ouviu falar, com nome lembrando marca de absorvente feminino, onde são atribuídas notas escolares aos países, como se nações inteiras pudessem ser tratadas que nem alunos de jardim de infância na cata das primeiras noções do aprendizado básico?

Que políticas econômicas desvairadas são essas, tão decantadas pela mídia, que permitem aos "donos" dos negócios do mundo, colocados acima do bem e do mal, deitar e rolar por cima da vida, do patrimônio, da saúde, do emprego dos outros, em latitudes geográficas economicamente desprotegidas? E a submeterem multidões à mercê das reações volúveis das bolsas de valores, instituições tão distanciadas da rotina amarga e da capacidade de percepção das camadas humildes quanto a Constelação Zeta Reticuli?

Que situação mais aloprada é essa em que se convoca, descerimoniosamente, para pagar a conta das empreitadas mal sucedidas no jogo internacional, pessoas que nunca aplicaram em ações e que de bolsas só conhecem, pela televisão, aquela caricatural coreografia de um bando frenético, parecendo dançarinos engravatados de "rock pauleira", celulares ou mini-receptores colados aos ouvidos, berrando a plenos pulmões frases ininteligíveis e produzindo gestos ainda menos compreensíveis? Abra-se uma pausa, nesta cruciante sequência de interrogações, para relembrar, com o espírito acariciado pelo arrebatante humor da cena, o genial comediante Peter Sellers. Num filme antológico em que vive um personagem puro e ingênuo, fissurado por televisão, vemo-lo, todo sorrisos, no recinto da bolsa, a retribuir com gestos os acenos insistentes dos desatinados apostadores à volta. Obtem-se ali o retrato da perplexidade que se apodera do homem comum diante de certos rituais cabalísticos mundanos que a comédia humana insiste em criar para diferenciar quem, supostamente, sabe das coisas, dos que nada sabem.

Mas que globalização, Santo Deus, é essa que não consegue, depois de tanta malvadeza introduzida no cotidiano de tanta gente, em tantos lugares, trazer uma promessa, um mero aceno sequer de benefício aos menos favorecidos? E que, pelo contrário, parece achar-se empenhada, o tempo todo, em só fazer crescer as desigualdades? E que celebra como feito heróico, retumbante, a "habilidade gerencial" de administradores faltos de sensibilidade social que desconhecem outros processos para reduzir custos e melhorar resultados senão o desemprego constante, o corte em despesas sociais e a rotatividade da mão-de-obra na base de custos progressivamente menores?

Que baita inversão de valores é essa que permite sejam assim ressuscitados, por conta da embromação e fajutice de minorias ousadas, conceitos da pré-história econômica, recauchutados para vigir em vastas porções territoriais onde se revele baixo o poder das exigências sociais e onde são apresentados como o supra-sumo do pensamento de vanguarda, como expressão pronta e definitiva, das políticas sociais avançadas supostamente praticadas nos países do primeiro mundo?

Esta confusão econômica passa a ideia de que o mundo tem de oscilar entre a turbulência e a depressão. Nesse mundo só existiria atenção para as previsões desconcertantes e suspeitosas de ilustres desconhecidos. Em geral PHDs. De preferência, estrangeiros. Se algum deles, numa overdose de autossuficiência, num instante de mau humor, nascido, quem sabe dizer?, de uma intempériezinha doméstica, resolver largar falação e atribuir pontuação sobre os níveis de risco das economias emergentes, o melhor a fazer é sair de baixo. Cascar fora. Tudo corre o risco de desmoronar.

O pessoal com poder de decisões se mobiliza para enfrentar a crise a bombordo. E alguma reforma periférica, atingindo a população, acontece. Mas, se num cenário mais sério, consentâneo com as aspirações humanas, uma outra figura, PHD em espiritualidade e saber humanístico qualquer, um Gandhi, um Helder Câmara, um João Paulo II, um Luther King, à mesma hora do douto e ignoto economista, resolve lançar às lideranças, aos que traçam os rumos políticos, uma exortação para que ponham em andamento reformas vitais de cunho social, a repercussão será bem diferente. Haverá, seguramente, manifestações ruidosas de aplausos, louvores à clarividência desses luminares do pensamento humanístico. Tudo nesse diapasão. Mas não se conhecerá, fatalmente, a curto e médio prazo, qualquer iniciativa que dê consistência prática às generosas idéias. O exemplo surrealista tem a ver com a realidade.

Conclusão inapelável: essa ordem econômica mundial que aí está e que funciona de jeito tão irracional, injusto e perverso, tem mais é que ser refeita. A convivência humana reclama, ardentemente, por práticas fraternas, solidárias, por ações sérias e respeitosas de complementaridade econômica e social entre os países. São estes os valores em condições de fazer deste um mundo melhor.

Afinal de contas, que globalização é essa que não contempla o crescimento econômico e a ascensão social de todos os países igualitariamente?

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

 

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