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Sábado, 02 Fevereiro 2013 04:19

Por quem os sinos dobram

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Por Cesar Vanucci *

“Incêndio na Kiss. Socorro.”

(Mensagem postada no Facebook por Michele Froehlich Cardoso, uma das vítimas fatais da tragédia em Santa Maria)

Os sinos de Santa Maria dobram não apenas pelas inocentes vítimas, seus desolados familiares, mas por todos nós. Ao entrar para o rol das descomunais tragédias que poderiam ter sido evitadas, palco de incêndio que contabilizou o maior número de mortes nos últimos 50 anos no Brasil, causando comoção nacional e internacional, a cidade conhecida como “coração do rio Grande” colocou-nos a todos nós em estado de choque, parceiros na dor infinita da comunidade. De certa maneira, fez-nos sentir um tanto quanto cúmplices do estado de coisas que permitiu o desencadeamento do apavorante incidente. Sim, os sinos dobram também por nós, enquanto membros da coletividade, por revelarmo-nos omissos, desatentos, indiferentes a regras elementares de prevenção e segurança ambientais.

Quando se toma conhecimento de que as vítimas morreram asfixiadas, carbonizadas, pisoteadas, numa casa noturna sem autorização legal para operar, funcionando em espaço inadequado para grandes aglomerações, não dispondo de funcionários treinados para atender emergências, despojados, todos eles, de qualquer orientação preventiva acerca dos riscos do emprego de apetrechos suscetíveis de provocarem combustão espontânea em ambientes fechados; quando se está ciente também de que o cenário desse dantesco drama revelava-se desprovido de saídas de emergência, de placas de sinalização, de portas ou janelas que pudessem favorecer a evacuação rápida do público aos primeiros sinais de alerta; todos nós, pais de família, educadores, autoridades, damo-nos conta, aturdidos, de que isso pôde ocorrer e pode voltar a ocorrer mais adiante por força de conivência deplorável, da parte de muitos inconsciente, mas nem por esse motivo destituída de suma gravidade. Essa convivência, complacência, tolerância descabida, ou que outro nome tenha, têm permitido o funcionamento, à mingua de fiscalização rígida, por este país-continente afora, de centenas (talvez milhares) de estabelecimentos frequentados por nossos jovens que exibem instalações com pontos em comum com as dependências da boate”Kiss”.

O indiciamento no inquérito policial dos proprietários da boate, do músico que acionou o sinalizador, seus companheiros de banda, provavelmente dos seguranças que, ao invés de ajudarem, teriam criado obstáculos à saída da multidão espavorida, não fecha, a rigor, a cadeia das responsabilidades diretas ou indiretas que vêm à tona a uma avaliação mais aprofundada dos fatos. Se a casa noturna não dispunha de um mínimo de requisitos para desenvolver suas atividades, por que permanecia, então, de portas abertas acolhendo constantemente festejos com grande participação popular? Quem ou qual órgão avalizou irresponsavelmente e por tempo dilargado essa infringência constante de regras essenciais?

A dor imensa que se abateu sobre a Nação, a onda de solidariedade que se ergueu à volta do incidente em terras gaúchas convocam-nos a reflexões nesta hora. Deriva daí, de pronto, o reconhecimento da necessidade de adoção de providências urgentes para se evitar que tragédias assim se repitam. Somos sabedores de que, em outras partes do mundo, em consequência de negligências, omissões, falhas na fiscalização, ganância, e outros fatores, tal como se vê por aqui, episódios semelhantes, ou até de proporção mais avantajada, ocorreram recentemente. Nos Estados Unidos (dois), na Rússia, na China, na Argentina, para mencionar alguns deles. Mas isso não traz consolo algum, quando choramos os mortos de Santa Maria. Serve unicamente para robustecer a certeza de que a imprevidência e a irresponsabilidade não são defeitos detectados apenas entre nós no trato da coisa pública.

O que toca agora promover, como fruto da reflexão, é ação. Muita e fecunda ação. Ação em ampla escala em prol de uma legislação com regras nacionais, calcadas em estudos da ABNT, para o tema da segurança contra incêndios. Ação que implante sistemas de prevenção e fiscalização mais rígidos, de maneira a impedirem possa uma festa de congraçamento fraterno mudar de feição, de repente, não mais do que de repente, transformando-se numa balada de horrores.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

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