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Quarta, 20 Fevereiro 2013 16:53

À espera de um novo João XXIII

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Por Cesar Vanucci *

“A mensagem de Roma é humilde como uma quadra popular e grandiosa como uma catedral de verdades eternas.”

(Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde)

 

Bento XVI sai de cena de forma surpreendente. Deixa de sua passagem pela cátedra de Pedro o registro de uma atuação sem a reluzencia de seus predecessores mais próximos. A decisão que tomou, reconhecendo-se despojado de condições físicas e psicológicas para dar continuidade à missão que lhe foi atribuída, causou compreensível comoção. Trouxe à tona, sem dúvida, sua grandeza de caráter e, também, seu estilo discreto e sua visão extremamente racional das coisas deste mundo. Mas a renúncia ficará lembrada, lá na frente, como ato invulgar que provocou apenas rastro efêmero de estupefação. Não como um instante histórico em que teria ocorrido a ruptura de uma obra pessoal pontilhada de realizações, por meio das quais a Igreja teria dado avanços de monta na propagação da mensagem evangélica.

Bento XVI adquiriu notoriedade pelo conservadorismo entranhado e brilhantismo teológico de feição imobilista. Será, assim, merecidamente celebrado como eficiente burocrata da fé. Nunca como alguém predestinado a ascender, a qualquer tempo - como aconteceu, por exemplo, com seu antecessor próximo, João Paulo II -, a um lugar entre os luminares do pensamento religioso de todos os tempos.

É bastante sugestivo, quando se analisa o ato inesperado de Bento XVI, a identificação, por ele próprio admitida, que tinha com o Papa Celestino V, cujo tumulo visitou em Áquila, nos Apeninos, em 2009, quando do terremoto que atingiu a região. Esse Celestino V, lá por volta de 1294, aos 80 anos, resolveu abdicar das funções pontifícias. Recolheu-se a um mosteiro, entregando-se à meditação mística. Sua renúncia, 719 anos transcorridos, é o precedente mais próximo que se tem da decisão tomada por Ratzinger.

A humanidade inteira sabe. Há uma mensagem de Roma a ser transmitida a todos os homens, em todas as latitudes. Todos, mesmo os não católicos, se dão conta da importância dessa mensagem. Ela chega do fundo e do alto dos tempos. É mensagem de sabedoria. Dá voz, como lembra Tristão de Ataíde, ao amor contra o ódio, à justiça contra a exploração, à paz contra a violência, à esperança contra o desespero. O mesmo autor resume de forma lírica o teor desse recado: ele é humilde como uma quadra popular e grandioso como uma catedral de verdades eternas.

Essa mensagem não pode abrir mão, obviamente, dos valores essenciais da fonte original. Mas também não pode, por outro lado, em nome de dogmas e preconceitos rançosos, alguns de cunho nitidamente maniqueísta, instituídos pela mera vontade humana, olvidar os desafios novos, as alternativas de comportamento social nascidas da abertura da consciência humana para a realidade de um mundo em ebulição.

Para a Igreja, como depositária da mensagem, e para o personagem elevado à cátedra suprema do magistério encarregado de transmitir a mensagem, voltam-se naturalmente as expectativas e esperanças de uma humanidade confusa, sufocada pela estridência de estranhas propostas econômicas, políticas, sociais em voga, ávida por orientação que a ajude encontrar os caminhos seguros da paz, da concórdia e do bem-estar social. Por essa razão, a escolha do sucessor de Bento XVI galvaniza atenções. O que as multidões passam, então, a aguardar é a escolha de um Papa que seja capaz de empreender um diálogo sereno, respeitoso, amadurecido com todas as vertentes do pensamento religioso moderno, estabelecendo as bases duradouras de uma convivência universal saudavelmente ecumênica. É a escolha de um Pontífice que se proponha a reavaliar posicionamentos da Igreja acerca de temas candentes, como a sexualidade na vida moderna, a distribuição justa das riquezas sociais, a necessidade de mudanças na ordem econômica, as transformações comportamentais da sociedade e tantos outros desafios relevantes, alguns deles no próprio âmago da instituição, como o celibato sacerdotal, a ordenação de mulheres, por aí. O que a sociedade humana espera é a designação de um sucessor de Pedro que se mire no esplendoroso exemplo de João XXIII. Um Papa que soube promover, a seu tempo, a mais arrojada experiência de abertura empreendida até então nos domínios da Igreja, reabastecendo de esperança a eterna mensagem, na tentativa de torná-la mais atraente para ser ouvida mais longe.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

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