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Sexta, 22 Fevereiro 2013 13:44

O desabafo do Papa

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Por Cesar Vanucci *

 

“Ficamos sem fala.”

(Cardeal Giovanni Lajola)

 

Depois da inesperada renúncia, outra atordoante surpresa. Declarações incisivas que soaram como um recado impactante sobre os descaminhos que estariam sendo trilhados, por integrantes da Cúria Romana, na condução das atividades da Igreja.

Bento XVI, nos derradeiros pronunciamentos como Sumo Pontífice, fez revelações que levantam fundadas suspeitas de que a abdicação ao trono de Pedro não teve como única motivação a alegada falta de vigor físico e psicológico. Para o ato que produziu comoção mundial, notadamente nos círculos católicos, terá concorrido também, com certeza – há que se deduzir das manifestações vindas agora a lume – uma rede de intrigas montada nos bastidores do Vaticano com o fito de debilitá-lo e de impedir mudanças importantes na vida da milenar instituição.

Os depoimentos, em tom de desabafo, são de irrecusável significado histórico. Denunciam situações que estariam em desacordo com a linha de atuação pontifícia e que não podem deixar de ser vistas como instrumentos de desestabilização de seu sagrado magistério. As frases proferidas por Ratzinger nas homilias que o mundo ouviu em clima novamente de espanto são, no ver de analistas conceituados, muito reveladoras.

Vejamos algumas delas. “A face da Igreja, às vezes, é desfigurada. Penso em particular nos golpes contra a unidade da Igreja, as divisões no corpo eclesial. Por isso, Jesus denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que deseja aparecer, os hábitos que procuram o aplauso e a aprovação...” “Viver a Quaresma em uma mais intensa e evidente comunhão eclesial, superando individualismos e rivalidades, é um sinal humilde e precioso para aqueles que estão distantes da fé ou indiferentes.” “Muitos estão prontos a estraçalhar as roupas diante de escândalos e injustiças – naturalmente cometidos pelos outros -, mas poucos parecem dispostos a agir sobre o próprio “coração”, a própria consciência e as próprias intenções, deixando que o Senhor transforme, remova e converta.” “Nossa tarefa é trabalhar para que o verdadeiro Concilio (...) prevaleça e a Igreja seja verdadeiramente renovada.”

Quem melhor resumiu o impacto causado pela retórica papal foi o Cardeal italiano Giovanni Lajolo: “Ficamos sem fala.”

A leitura que respeitados “vaticanistas” fazem desses pronunciamentos é de que Bento XVI exprimiu como pôde, ciente de suas limitações, com palavras vigorosas mas resguardando a dignidade do cargo, sua amargura diante de episódios constrangedores provocados por elementos que gozavam de sua confiança e que se perderam em gestos de indesculpável infidelidade. As inconfidências do mordomo desleal; os desatinos do Banco do Vaticano, engolfado em transações escabrosas até com chefões da Máfia; a corrupção e desmandos detectados em relatórios subscritos por vários Cardeais inconformados com certos rumos do palácio apostólico; as reações de alguns purpurados da Cúria às medidas punitivas contra clérigos que fizeram vista grossa aos numerosos casos de pedofilia que abalaram tantas comunidades; essas coisas todas e outras mais constituiriam o verdadeiro fundamento do desencanto expresso por Bento XVI.

Sinalizando evidências de que, embora partidário de reformas, não soube ou não conseguiu, por força de intransponíveis óbices domésticos, promovê-las, o Papa resignatário estaria, agora, empenhado em abrir caminho para a ascensão de um sucessor capaz de sacudir estruturas e levar avante uma renovação verdadeira, como tanto se almeja, no seio da Igreja.

Hora propicia, voltamos a dizer, para a entrada em cena de alguém com o perfil de um João XXIII. Alguém, tocado pelo Espírito Santo, como se prevê nas escrituras sagradas, que proceda, talvez – por que não? -, de uma parte do mundo onde a presença católica se revele, em número de fiéis e devoção, mais vigorosa. A América Latina, o Brasil, por exemplo.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

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