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Quinta, 07 Março 2013 19:39

Preconceito é fogo

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Por Cesar Vanucci *

“O preconceito é filho da ignorância.”

(William Hazl)

 

Historinhas desimportantes, que não rendem manchete, para ser lidas por pessoas de reta intenção, posto que desinformadas, que sustentam com ardor a tese de que, entre nós, no Brasil, o preconceito racial é pura balela. Pois sim!

 Deu no jornal. O casal, de aparência escandinava, acompanhado de um menor, filho adotivo, negro retinto como se costuma dizer, percorria o salão de produtos importados da agência de carros à cata de um modelo super arretado. Bem abonados financeiramente, adquirentes em potencial de um veículo luxuoso, marido e mulher eram atendidos pelo próprio dono da agência, um craque na especialidade de farejar bons negócios. De súbito, o amistoso papo entre as partes é interrompido por um choro doído de criança. Todos param pra ver o que está rolando. Alguém da loja, usando do muque, está botando pra fora “um pivete atrevido, além do mais de cor, que andava a esmo pelas dependências do estabelecimento, xeretando tudo, importunando a clientela e funcionários”. O pivete inconveniente outro não era senão o filho adotivo (dodói) do casal. A venda do importado, logicamente, não se concretizou e o proprietário e colaboradores foram devidamente espinafrados do primeiro ao quinto (como se costumava dizer em tempos de antigamente), pelos pais injuriados.

 Indoutrodia, num restaurante sofisticado da Capital da República. A jovem, integrante do alto escalão burocrático de importante Ministério, deixando o toalete, retorna à mesa que reúne familiares e amigos. Eis que um cidadão, sentado com outras pessoas em mesa ao lado, acerca-se dela, cheio de mesuras, um tom de voz entre solidário e discreto, para alertá-la sobre uma provável situação de risco. “Queira desculpar-me, disse ele, mas acho prudente a senhora fazer uma verificação de seus pertences. Agorinha ainda, na hora em que a senhora foi com as amigas ao reservado, eu vi aquele crioulo que está ali perto do bar, fuçando sua bolsa. Boa coisa ele não deve ter aprontado. Sabe cumé essa gentinha. Esse restaurante está perdendo a classe. Qualquer um está podendo entrar.” A resposta deixa o solícito vizinho de mesa estonteado, imobilizado, aniquilado e mudo. “Escute aqui, seu mequetrefe, aquele crioulo ali perto do bar, que você surpreendeu mexendo em minha bolsa, é ninguém mais, ninguém menos que meu marido. Sem que isso tenha nada a ver com a condição dele de poder frequentar livremente este ou qualquer outro local, esse crioulo, fique sabendo, é um mestre renomado em física quântica.”

 Dia desses, numa escola da periferia. A professora chama quatro alunos, todos de tez clara, moradores do aglomerado localizado nas cercanias do educandário. Sugere-lhes, mais uma vez (já havia tratado do assunto na semana passada), que em suas idas e vindas diárias às aulas procurem, como medida de segurança, se deslocar sempre em grupo com colegas, seus vizinhos, companheiros também de classe, de epiderme negra. “Eu sei que vocês moram perto uns dos outros, mas nunca os vejo chegando, nem voltando juntos pra casa.” Um dos garotos interpelados, com o assentimento em gestos de cabeça dos demais, deixa cair atordoante revelação. “A senhora tá com a razão, fessora. Nós, falar verdade, gostamos muitos de todos esses colegas. Fazemos parte até do mesmo time de pelada no morro. Mas o que sucede é que quando pinta polícia no caminho da gente, nós somos sempre abordados e revistados, quando em companhia deles. Eles são sempre abordados.”

 Entreouvido, sábado desses, na porta de uma loja granfina de “Shopping”. Madame bem apessoada, com traje vistoso, reluzente sortimento de jóias distribuído pelas mãos e pescoço bem cuidados, contempla com conhecidas ao redor, a vitrina de uma loja feminina de alta classe. Chama a atenção para pormenor intrigante. “Observem vocês: os manequins dessa loja são todos pretos. Parece até que os produtos são ofertados exclusivamente para crioulos. O dono bem que poderia melhorar um pouco isso, colocando, vá lá, um ou outro manequim preto e o resto tudo “normal”, vocês não concordam?”

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

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