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Terça, 02 Abril 2013 14:49

Derrapagens na Fórmula 1

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Por Cesar Vanucci *

“Ele agiu por conta própria.”

(Declaração do porta-voz da Red Bull/Renault a respeito da atitude do piloto Sebastian Vettel na corrida da Malásia)

 

Na prova da Fórmula 1 da Malásia, o piloto Sebastian Vettel ultrapassou o companheiro de equipe Mark Webber, garantindo com o gesto o melhor lugar do pódio. Só que ganhou uma reprimenda por haver tocado a corrida “por conta própria”, contrariando “ordens superiores” e provocando com a atitude de independência e a ousadia demonstradas uma “crise” na Red Bull/Renault, marca automobilística que chancela a participação de ambos nas pistas. Os dois pilotos subiram, na verdade, à cobiçada tribuna reservada ao trio vitorioso da corrida. Mas aos patrocinadores o que interessava mesmo era que as posições ficassem invertidas.

O piloto que, “indisciplinadamente”, descumpriu as ordens, desfazendo um arranjo prévio devidamente costurado nos bastidores do “circo”, foi devidamente advertido. Viu-se constrangido a vir a público, por surreal que isso pareça, mode desculpar-se pela “falta grave cometida”. E, com certeira certeza, já se comprometeu, a esta altura do campeonato, a respeitar religiosamente, daqui em diante, as regras traçadas do jogo. Ou seja, numa disputa em que esteja defendendo a escuderia garantidora de seus polpudos salários, jamais se deixará levar, de novo, pela emoção esportiva descontrolada e meter-se a besta de sair na frente dos competidores sem receber a conveniente autorização superior para tanto...

Não houve – pasmo dos pasmos -, por parte tanto dos pilotos envolvidos no cabuloso episódio, quanto por parte dos dirigentes da Red Bull/Renault, a mais leve preocupação no sentido de ocultar, de quem quer que fosse, os veículos de comunicação inclusive, o desassossego vivido em suas fileiras diante dessas, chamemos assim, “divergências de posições” entre o que foi ordenado ao piloto e o que foi por ele executado durante a prova. É como se todos estivessem dizendo: “Calma, pessoal, o jogo é esse, todo mundo da Fórmula 1 tá calvo de saber que é sempre assim. A ninguém é lícito desrespeitar as regras. Quem não estiver a fim de acatá-las, que cuide de deixar a pista...”

Este não foi o único lance desconcertante da prova da Malásia, pelo que o noticiário nosso de cada dia andou revelando. Outra escuderia viveu situação parecida. O piloto Nick Rosberg, da Mercedes, preparava-se para ultrapassar o companheiro de equipe Lewis Hamilton, então em terceiro lugar, quando recebeu enfática advertência para “conter-se”. O acordo do dia previa que a vez de subir ao pódio seria de Hamilton. Ao contrário do compatriota alemão Sebastian Vettel, Rosberg resolveu acatar, provavelmente entre resmungos e ranger de dentes, a enérgica admoestação, abrindo mão para o companheiro do direito de galgar o pódio. Chegou a dizer para algumas pessoas, em tom de desabafo: “Lembrem-se desta prova!” Mas, obediente como tão bem se ajusta ao perfil de um autêntico e intimorato piloto da Fórmula 1, não quis saber de espichar conversa. Sentiu-se, por certo, parcialmente compensado com a provável promessa de Hamilton de, futuramente, quem sabe até já na disputa do circuito de Xangai, próxima etapa percorrida pelo circo, retribuir-lhe a “gentileza”.

Essas situações constrangedoras, antiesportivas, profissionalmente repugnantes do ponto de vista ético, são parte indissociável do cotidiano da Fórmula 1. Outros pilotos, inclusive brasileiros, já se envolveram em maquinações desse gênero. Tudo é encarado nesses redutos com descarada naturalidade e assimilado como razoável, até pelos veículos de comunicação, embora violente escancaradamente a lógica do esporte.

Os absurdos detectados no campeonato automobilístico guardam equivalência, nas devidas proporções, com a situação imaginária de uma partida entre duas seleções nacionais de futebol em que o resultado fosse antecipadamente pactuado.

Aliás, falando verdade, essa situação não é tão imaginaria assim, como se poderia de início supor. Tem-se como certo que já aconteceu numa Copa Mundial. A da Argentina. Os “hermanos”, já com uma derrota no torneio, precisavam de uma vitória com a margem absurda de cinco gols de vantagem sobre a seleção peruana para chegarem à final. Era o que estipulava o regulamento da competição, alterado por razões óbvias mais tarde. O outro escrete em condições de aspirar, na chave da Argentina, o direito de participar da final era o Brasil, único invicto, até aquele momento. E não é que os argentinos chegaram lá e, depois, “abiscoitaram” o título? Tudo se deu por obra e arte da ditadura militar argentina, que aliciou na espúria jogada o governo peruano, as Federações futebolísticas dos dois países, com a concordância explicita dos atletas, assegurando gratificações polpudas ao time do Peru, para que amolecesse o jogo.

Falou-se pouco dessa tramóia, porque a época desaconselhava manifestações que colocassem sob suspeita a lisura, a honestidade, a integridade moral dos ditadores de plantão dos países do chamado “cone sul”.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

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