Editor

.

Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

    Leia mais ...
Terça, 06 Agosto 2013 20:00

Quanto vale um artista?

Escrito por 
Avalie este item
(3 votos)

Abaixo, publico texto da jornalista Débora Nascimento, escrito para o Blog da Revista Continente (http://www.revistacontinente.com.br/blog/?p=1502), que trata com muita sensibilidade sobre a saúde do mestre Dominguinhos ou sobre quano valia sua saúde. Belo texto, como já atestou o jornalista Schneider Carpeggiani. Vale apena ser lido!

Por Débora Nascimento

Uma das coisas que mais me chocaram nas últimas semanas foram os comentários de uma notícia sobre o estado de saúde de Dominguinhos, publicada alguns dias antes da morte do artista. A matéria tratava, na realidade, do montante da dívida do cantor com o Hospital Sírio Libanês, a qual a família alegava não ter como pagar. Era simplesmente perturbadora a falta de respeito e empatia dos leitores, na linha “se ele não tem como pagar, que vá para o SUS!”, “por que não juntou dinheiro para a velhice?!”, “como um artista não tem dinheiro?!” e por aí vai.

Fora a crueldade evidente nessas falas, que é uma questão à parte, é incrível constatar também como as pessoas ainda ligam arte a (muito) dinheiro. A vaga ideia de se ficar rico sendo artista é algo tão frágil quanto qualquer sonho às duas da madrugada. Não custa lembrar que dois dos maiores gênios da humanidade, só para citar os da música, Beethoven e Mozart, morreram pobres.

Essa idealização de lucro financeiro com canções surgiu depois dos anos 1950, com a explosão da música pop, a massificação do rádio e da TV como popularizadores de artistas e composições, a chegada da juventude como público consumidor, o uso de estádios como espaços para shows, com uma capacidade 20 vezes maior para abrigar pagantes do que as casas e clubes noturnos. Vale ressaltar que, mesmo somando todos esses aspectos, somente alguns poucos nomes conseguiam chegar ao patamar dos realmente bem pagos.

Nos anos 1950, um ícone do porte de Carmen Miranda precisava fazer dois shows por noite para poder ganhar de acordo com seu talento e fama. Nessa década, Luiz Gonzaga viajava de carro em busca de locais para fazer show. Chegava a negociar com prefeitos a apresentação em algum espaço público, como cinemas. A arrecadação não era tanta, mas, em compensação, havia os lucros com as vendagens de LPs, algo também não muito portentoso, já que o número de discos vendidos por um artista vinculado a uma gravadora era (e ainda é) um dos grandes mistérios da humanidade. Thriller, de Michael Jackson, é um exemplo. Já se falou em 37, em 44, em 56 milhões de cópias (e isto em publicações da mesma época). Ninguém sabe ao certo quanto vendeu (e vende) o disco; até o Rei do Pop deve ter morrido sem saber.

E por falar em reinado… Se Luiz Gonzaga, que era o Rei do Baião, e um showman nato, não conseguia engrenar num esquema profissional de apresentações, imagine o tímido Dominguinhos, que era um (baita) discípulo?

Engana-se quem pensa que esses artistas recebem rios de dinheiro. Só quem se dá bem nessa área é quem consegue estar bem paramentado com produtores, agentes e assessores. Mas os que praticam o “do it yourself” geralmente sofrem com os percalços do mercado. Soma-se a isso o fato de que mesmo o forró sendo um gênero musical que toca o ano inteiro em diversas regiões do país, um artista não consegue agendar anualmente muitos shows de grande porte, pois estes geralmente envolvem uma casa de show apropriada ou apresentação em palco aberto, vinculada a algum governo municipal ou estadual, que trabalham com os esquemas dos ciclos festivos, Carnaval, São João e Réveillon.

Os eventos em pequenas casas de shows geralmente pagam cachês ínfimos, algo que não cabe (cabia) ao porte de um nome como Dominguinhos, que, para completar, ainda era um senhor de 72 anos, com um famoso medo de viajar de avião, para complicar.

Pensei em escrever este texto por conta dos comentários dos “internautas” na matéria sobre o estado de saúde do adorável sanfoneiro. Mas agora seu corpo já é coisa do passado. O que nos resta é “apenas” o registro de suas imagens, de sua voz. Dominguinhos agora pertence à nossa memória. Sua vida de (mais um) garoto pobre do Nordeste que conseguiu superar todas as adversidades pode e deve ser um referencial para as novas gerações.

Pensei em redigir este post sob o título de “Quanto vale um artista?”, para pensarmos mais sobre isso. Mas seja qual for o valor que qualquer um, contratante ou público, pense que um artista deva ter, esse “cálculo” deve começar por quem tem respeito e verdadeiro amor à arte. E quanto aos anônimos e seus muitos comentários cruéis nos portais de notícia, só tenho a lastimar por este país.

MAIS

Dominguinhos é o narrador de O Milagre de Santa Luzia (2008), documentário que narra a história da sanfona/fole/concertina/acordeom/harmônica no país e entrevista os principais expoentes das regiões, como Osvaldinho, Camarão, Genaro, Arlindo dos Oito Baixos, Gilberto Monteiro, Borguettinho… É uma produção bonita, que merece ser guardada como lembrança de Dominguinhos e desses mestres que parecem estar se extinguindo – ou é impressão minha? Senão, vejamos: o instrumento é bastante caro, sua afinação e manutenção são uma problemática à parte, pouquíssimos jovens se interessam em aprender ou não têm acesso a quem os ensine, não há uma sistematização de partituras e acordes dos clássicos do estilo, e, para completar, os grandes instrumentistas não são tão “populares” quanto os do sertanejo “universitário”, para que possam despertar o fascínio em novos herdeiros musicais. Ou seja, salvem os sanfoneiros!

 

 

twitter

Apoio..................................................

mercado_etico
ive
logotipo-brahma-kumaris