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Sexta, 16 Agosto 2013 18:45

Para pais novos e mais velhos

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Texto e foto: Silvia Marcuzzo

Mais um segundo domingo de agosto passou. Uns pais vão, outros surgem. Uns nem sabem o que significa isso, outros acham que devem tudo a quem colocou a sementinha na mamãe. Ter um pai presente, que atua em vários palcos da vida, transmite segurança, amor, conhecimento, não é para qualquer um. Talvez seja apenas para alguns novos seres que estão despontando nos últimos anos.

Dedico esse post aos que descobriram os encantos da paternidade tardia. Meu marido, por exemplo, disse que se soubesse que era tão bom ser pai, teria tido filho antes. Ele foi pai aos 44. Tem sido frequente descobrir homens que não tinham tido a coragem ou a oportunidade de ter filhos estarem compreendendo o que é passar noites em claro, trocar fraldas etc. Muitos acabam tendo o coração mais mole que o da mãe. Abrem o precedente, dão mais chances, são menos incisivos.

O fato é que todo dia dos pais é uma data que mexe com muita gente. Comigo também. Se por um lado, em tempos de Facebook, as homenagens aos pais são como cascatas de postagens que despejam gratidão e palavras de carinho, por outro atiça outros lados daqueles que não tiveram um pai como os de propagandas de família feliz.

Meu pai, por exemplo, foi um homem de muitos predicados, porém não era um pai, digamos assim, cheio de amor pra dar. Era fechado e de pouca conversa, a não ser se fosse sobre Vale Vêneto ou sobre a cultura italiana. Uma vez, lá pelos meus 8 anos, perguntei pra minha mãe o que era a palavra “puta”. Minha mãe, mandou eu perguntar para meu pai, que imediatamente respondeu: Vai olhar no dicionário. Em seguida, voltei com outra dúvida: Pai, o que é prostituta?

Acabei entendendo o significado mais tarde. Enfim, fico pensando… se hoje somos o que somos com pais de uma geração, cuja educação foi calcada em pudores, temores e sem brincadeiras entre crianças e adultos, como serão nossos filhos quando ficarem mais velhos? Se por um lado naquele tempo foi dureza – havia muito mais crianças para se divertir, não se tinha problemas de segurança e se vivia situações que entraram em extinção, que nem todo dinheiro do mundo e nem a tecnologia podem comprar – por outro, não ter tudo que se queria, nem ter a compreensão tão almejada nem na escola, nem em casa, nos deixava mais versáteis para enfrentar os desdobres da vida. Hoje, nossos filhos nos questionam tudo e querem respostas imediatas.

Eu adorava brincar com bonecas de papel, de casinha de fofoleti, cujos móveis eram feitos de caixinhas de fósforo, de se esconder até tarde da noite com uma turma de amigos da vizinhança. Bons tempos aqueles de “campinho”, onde os guris jogavam bola e as festas de São João reuniam uma gurizada em volta de uma enorme fogueira, cujas brasas ardiam por mais de um dia.

Se em casa, a linha era dura, o negócio era estar na rua. E naquele tempo ninguém vivia enjaulado. Os muros, quando existiam, eram baixos para se sentar em frente à casa. A casa do vizinho era uma extensão da nossa. Os pátios, imensos, cheios de árvores frutíferas. E as consequências de se condenar o uso da pílula, provocavam a chegada de mais gente para brincar. Não era algo planejado, pensado, discutido. Simplesmente nascia mais um.

Sou a última, “a rapa do tacho”, como dizem por aqui. Nasci aos 46 minutos do segundo tempo e com uma diferença de quase uma década do meu irmão anterior a mim. Peguei uma época muito diferente. Vim ao mundo quando meu pai tinha quase 50 anos. Bem na idade onde muitos amigos estão tendo o seu primogênito. Apenas hoje entendo o significado de coisas intangíveis que ele deixou. Por essas e por outras que me sinto um exemplar autêntico da “transição civilizatória”. Aprendi a tocar piano, fiz datilografia, fui a primeira da família a ter um computador (um DX2 66, comprado com URV). Saí de casa para estudar na capital, contrariando os desejos de meus pais que queriam que eu tivesse ficado no interior e sido professora. Demorei pra casar e só fui ter filho com 36.

Com o passar dos anos, meu pai foi amolecendo. Uns anos antes de falecer aos 89 anos, em 2010, confessou para meu marido que ao ver como meu filho era tratado por ele, dava-se por conta de como deveria ter sido diferente como pai. Minha esperança é de que com pais mais experientes, o futuro seja melhor, com mais gente consciente. Pois com a idade vamos conectando mais uma coisa e outra. Percebemos que a mais valiosa herança é o exemplo e que o melhor da vida precisa ser dividido com quem nos deu o que não pedimos, mas que sem isso não estaríamos lendo esse texto

* Sobre Silvia Marcuzzo

É jornalista e trabalha a temática socioambiental desde 1993. Já transitou em diversos “ecossistemas” e arranjos energéticos do jornalismo. Ao passar por assessorias de ONGs, governos e consultorias para empresas, em Porto Alegre, São Paulo e Brasília, sempre manteve a convicção de que é possível melhorar a relação entre os “ambientes” e a comunicação. Por isso, fundou a ECOnvicta Comunicação para Sustentabilidade.

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