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Quinta, 14 Novembro 2013 19:30

As revelações do embaixador

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Por Cesar Vanucci *

 

“A guerra do Iraque poderia ter sido evitada.”

(José Mauricio Bustani, Embaixador do Brasil na França)

 

Em entrevista ao jornalista Paulo Moreira Leite, da revista “IstoÉ”, o embaixador brasileiro na França, José Mauricio Bustani, faz revelações que ajudam a entender como funcionam as coisas no terreno geo-político-econômico, neste nosso mundo velho de guerra. Mostra a quanto pode chegar o poder de influência das grandes potências em processos de decisão capazes de imprimir novos, inesperados e indesejáveis rumos nas vidas de nações inteiras.

Bustani é fundador e foi o primeiro diretor-geral da Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas). A instituição acaba de ser agraciada com o Nobel da Paz. Por pressão dos Estados Unidos, o brasileiro foi afastado em 2002 do posto de presidente, por sustentar a versão de que o Iraque não dispunha de arsenal de armamento químico, nem tampouco representava ameaça à paz mundial, ao contrário do que apregoava a Casa Branca nos momentos que antecederam a invasão daquele país por tropas americanas e inglesas.

As autoridades iraquianas, segundo Bustani, já estavam comprometidas com a Opaq no sentido de aderirem ao pacto contra o emprego das armas químicas. É bom recordar que tanto os Estados Unidos quanto a Rússia, signatários com outros 148 países do pacto em questão, possuem até hoje, na avaliação do brasileiro, algo por volta, respectivamente, de 20% a 30% do arsenal que compuseram, ao longo dos anos, nessa modalidade de engenhos de destruição. O fato demonstra a suprema desfaçatez e incoerência da retórica que as superpotências adotam no combate que alegam mover à disseminação de armamentos químicos.

O diplomata brasileiro relata, com pormenores, o fato de haver sido procurado por um representante estadunidense, John Bolton, com ultimato para que deixasse a organização em 24 horas, devido à posição assumida na questão do Iraque. Explica também que o então chanceler Celso Lafer, no governo FHC, confessou saber que o governo dos Estados Unidos estava a exigir sua saída da Opaq, sem que da parte do Itamaraty fosse promovida qualquer diligência contrária à descabida pretensão.

 A ação de Washington mostrou-se eficaz. Numa inédita conferência política, convocada pelos EUA, não prevista no estatuto da instituição, a maioria dos países consultados cedeu à pressão norte-americana, opinando contrariamente à permanência de Bustani no cargo. O número de votos contrários foi quase igual ao de abstenções. O governo brasileiro de então pouco fez pelo seu representante. Não demonstrou interesse em aglutinar votos favoráveis junto a países da América Latina, Ásia e África.

A destituição do cargo, nos termos ocorridos, foi a única até hoje registrada num organismo internacional. O diplomata brasileiro, inconformado, recorreu à Organização Internacional do Trabalho. Teve ali ganho de causa, tendo sido contemplado com uma indenização, doada integralmente à Opaq.

O Embaixador do Brasil registra, ainda, no depoimento, “uma outra história que poucos conhecem”. Mandou proceder, certo dia, por suspeitas de que estivesse sendo espionado, uma varredura completa em seu gabinete na Opaq. Ao derrubar uma parede, deparou-se, tomado de espanto, com um sofisticado aparato eletrônico, na mais acabada configuração exibida nos filmes de espionagem, capaz de captar qualquer tipo de conversação. Isso aconteceu à época em que, contrariando a vontade do governo estadunidense, recusou-se a confirmar, por não constituir a verdade dos fatos apurados, a existência no Iraque do formidando estoque de armas químicas que a Casa Branca alegava existir naquele país e que deu origem à devastadora guerra desencadeada pelo xerife Bush, com a prestimosa ajuda de seu fiel aspençada, Toninho Blair.

Guerra essa, como sabido, deflagrada em contraposição a uma expressa recomendação da ONU e dos países membros dessa organização. E que, depois da destruição do país invadido e do tétrico balanço de vidas dizimadas, várias centenas de milhares sobretudo entre a população civil, teve o “mérito” de instaurar o “invejável sistema democrático” hoje vigente, mercê de Alá e do Pentágono, nos “pacificados” domínios do antigo império persa.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

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