Editor

.

Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

    Leia mais ...
Sexta, 07 Fevereiro 2014 13:33

Questão social, não policial

Escrito por 
Avalie este item
(0 votos)

Por Cesar Vanucci *

“Não se viu, a propósito dos rolezinhos, um debate sobre as
causas estruturais que permitiram a essas mobilizações aflorar.”
(Senador Cristovam Buarque)

Fixei a atenção por momentos nos assim denominados rolezinhos. Precisei de curto tempo para concluir que a questão levantada é social, não policial. Pitadas de preconceito e de despreparo profissional é que andam conferindo ao caso dimensão despropositada. A contribuição da mídia sensacionalista revelou-se significativa para o espalhafato criado a respeito. Ou seja, desses encontros marcados em “shoppings” por jovens da periferia socialmente desguarnecida.

A história reclama diálogo urgente para que sejam desfeitos mal-entendidos. O debate terá que ser calcado num bom começo de conversa. Isso implica no reconhecimento taxativo do direito à livre circulação de qualquer cidadão, independente da categoria social, em todo e qualquer centro comercial. Em tudo quanto é lugar de convergência pública. A vedação pura e simples dessa prerrogativa cidadã, que está atrelada à liberdade constitucional de ir e vir, caracteriza inapelavelmente apartação social. Agressão a um direito fundamental, à democracia. Rescende a “apartheid”, para relembrar, desgostosamente, vocábulo repulsivo empregado para designar práticas segregacionistas ainda aplicadas em certas paragens deste nosso mundo velho de guerra sem porteira.

Assim vistos os acontecimentos, o melhor a fazer é partir imediatamente para a construção do diálogo. Comungo do ponto de vista do Prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, quando propõe que “as cidade têm de ser discutidas”, sugerindo sejam abertos espaços públicos para que seus habitantes de todas as faixas etárias e classes possam desfrutá-las. E, quando também pontua que a incompreensão de muita gente face ao assunto tem suscitado reações marcadas por exageros. “Mas nada, que uma boa conversa não resolva”, como sublinha.

O que os rolezinhos vêm fazendo é, na verdade, denunciar uma sociedade desumana, injusta e segregadora, como também constata o filósofo Leonardo Boff, entre outros categorizados observadores da conjuntura social. Cristovam Buarque, senador da República, é outra voz respeitada a partilhar da mesma percepção. Admite: os rolezinhos “desnudam o sistema de apartação implícita, sem leis.” Alerta ainda: “Daqui para a frente, os “shoppings” (...) terão um papel positivo no conforto social, mas a “guerrilha cibernética” (o senador refere-se aí às redes sociais utilizadas para a programação dos encontros dos jovens) é uma realidade com a qual vamos conviver. Ou assume-se a segregação explicita, ou promove-se a miscigenação social.”

Não era pra ser, mas virou problema, por ausência de bom senso no trato da questão. Moças e rapazes das camadas menos aquinhoadas financeiramente, a exemplo de rapazes e moças das camadas afortunadas, possuem todo o direito do mundo em programar pelas redes sociais encontros em lugares de afluência pública, os shoppings incluídos. Despiciendo registrar que ninguém, nenhum poder articulado, pode estabelecer restrições a esses contatos via internet, nem tampouco impedir sejam os encontros realizados em consequência de posturas preconceituosas de classe. De outra parte, habitualmente inábil na lida social, como fartamente demonstrado, a polícia não pode adotar na vigilância contra eventuais excessos praticados em locais públicos, o estilo “leão de chácara” de boate. Não se ajusta ao seu papel institucional exigir de quem frequente centros comerciais carteirinha indicativa de capacidade pecuniária como consumidor.

Fique claro, ainda, de outra parte, que encontros de jovens em lugares públicos não podem se aprestar a palco de arruaças e confusões. E que às autoridades competentes cumpre a obrigação de saber distinguir, com precisão e equilíbrio, a diferença de comportamento entre os que comparecem a tais locais para papear com amigos, usufruir momentos de lazer, adquirir mercadorias e os que – certeiramente, uma minoria insignificante – estejam ali a fim de infringir regras de convivência social. Confundir, por puro preconceito, jovens das periferias com marginais é insano e injusto. A turma dos rolezinhos dispõe de aparelhos de TV e de acesso aos demais veículos de comunicação de massa. Como os jovens de lares abonados financeiramente, são submetidos a um bombardeio midiático permanente, chamando atenção para as ofertas de produtos nas vitrinas multienfeitadas e coloridas das lojas dos shoppings. Adquirir produtos ou simplesmente admirá-los, por singelo prazer, hábito de tanta gente, não configura ato passível de condenação.

O Poder Público precisa saber extrair dos fatos as lições devidas. A abertura de espaços comunitários para a convivência humana é fator de grande significação nas politicas de integração social. A escola de tempo integral, com qualidade cultural, faz parte dessas politicas.

Resumindo toda essa “melódia”: em se tratando do Brasil, corremos riscos maiores com o “rolezão” da exclusão social acionada a partir de atitudes precipitadas e de intolerâncias descabidas, do que com os tais rolezinhos, manifestação juvenil que, na base de um papo legal, pode ser perfeitamente escoimada de algum possivel exagero que carregue em seu bojo.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

twitter

Apoio..................................................

mercado_etico
ive
logotipo-brahma-kumaris