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Terça, 02 Março 2010 15:02

“Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras"

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Por Francisco Roberto Caporal

O título é uma frase do conterrâneo Érico Veríssimo e serve bem para ilustrar o que temos observado em nossas sociedades quando tratamos da questão ambiental. Pelo menos desde o início dos anos 70, estão bastante claras as evidências dos sérios danos ambientais resultantes do desenvolvimentismo construído a partir de estratégias de crescimento econômico ilimitado em sociedades baseadas no consumo e desperdício.

As inúmeras conferências que ocorreram pós Estocolmo-72, não serviram para nada. O que vimos é que foram gastos muita tinta e muito papel para teorizar sobre boas intenções. A conferência Rio 92 foi, talvez, a melhor demonstração da inconsistência da tecnocracia quando se trata do enfrentamento dos problemas ambientais. 

O balanço da problemática socioambiental tem mostrado que os impactos diretos e as externalidades geradas pelo modelo de crescimento e consumo estão absolutamente sem controle, apesar dos acordos e outros protocolos firmados entre países ao longo de mais de quatro décadas de estudos e negociações. O fracasso da conferência de Copenhague é só mais uma demonstração da ineficácia da estratégia montada pela tecnocracia estatal e pelas instituições de Bretton Woods que as patrocinam (ONU, FAO, Banco Mundial, etc.).

A conclusão que se pode chegar é que se não houver ampla participação da sociedade organizada e ambientalmente consciente nada vai mudar.  Tudo o que se construiu até hoje, no marco dos enfoques ecotecnocráticos, apenas tem servido para mostrar a falta de seriedade dos discursos institucionais sobre desenvolvimento sustentável. O que se observa, sim, é que apesar dos belos discursos de iminentes autoridades sobre a necessidade de retomarmos uma trajetória de proteção ambiental, de preservação dos recursos naturais, com redução dos impactos causados pelas atividades econômicas, o que encontramos na prática são políticas de estímulo ao consumo, políticas que patrocinam a continuidade dos mesmos processos econômicos que são responsáveis pelos impactos socioambientais. Por sorte, ainda há os que tentam construir “moinhos de vento” diante da inexorável evidência do imperativo socioambiental de nossa época.

Estimulados por uma crescente consciência da responsabilidade ambiental, para esses, está evidente que o compromisso com a sustentabilidade, neste planeta de recursos finitos (alguns quase esgotados), só tem sentido se nascer de uma forte solidariedade intra e intergeneracional. Sustentabilidade ambiental, antes de nada, é a busca da preservação de recursos naturais escassos e limitados, para que nossos filhos e netos possam dispor da base de recursos da qual necessitarão para que possam vir a ter uma vida digna e com qualidade.

O que anima é que no Brasil são milhares as experiências urbanas e rurais que vêm demonstrando que outro caminho de desenvolvimento é possível. Na nossa área de trabalho, a Agroecologia como uma nova ciência para um futuro sustentável, tem dado sustentação teórica, técnica e metodológica para uma multiplicidade de iniciativas de produção agropecuária de base ecológica, que preservam o meio ambiente e ao mesmo tempo oferecem alimentos sadios para a população. Isso demonstra que é possível uma agricultura diferente daquela imposta pela Revolução Verde, pelas grandes monoculturas e pela atual ditadura dos transgênicos.

Os tempos de mudança já começaram e precisamos estimular estratégias ambientalmente mais sustentáveis para evitar que a caminhada da nossa civilização continue em direção ao abismo. É sobre estes temas que trataremos na sequência de nossos artigos.

Francisco Caporal é engenheiro agrônomo, doutor pelo programa de Agroecologia Campesinado e Historia da Universidade de Córdoba (Espanha) e presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Última modificação em Terça, 02 Março 2010 20:43

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