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Domingo, 06 Junho 2010 19:22

A economia nada é sem um projeto de vida

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Por Marcus Eduardo de Oliveira, da Adital

O economista William Stanley Jevons, nascido em 1835, na cidade inglesa de Liverpool, certa vez afirmou que “feliz é aquela pessoa que, mesmo com poucos recursos, tem a realização no seu trabalho diário e a garantia de um futuro melhor”.

Na esteira desse comentário feito por Jevons, é possível argumentar que, de fato, mesmo sem recursos financeiros suficientes não é “impossível” atingir-se um elevado grau de felicidade; ainda que a felicidade, como bem sabemos, seja algo muito subjetivo. Logo, conclui-se então que a felicidade definitivamente não repousa na obtenção de dinheiro. Muito dinheiro ou pouco, não determina se uma pessoa é (está) ou não feliz.

Visto de outra forma, o contrário da felicidade, também não está vinculado, na medida econômica, à ausência de dinheiro. Não ter dinheiro não significa que se está infeliz por conta disso.

Conquanto, cabe perguntar se a economia, por ser uma ciência social - uma ciência que na visão de muitos lida o tempo todo com o “estudo do dinheiro” - têm algo a ver com esse papo de se obter ou não felicidade, de ser ou de apenas estar feliz? Não seria esse um assunto específico para se levar com os amigos numa mesa de bar, filosofando entre um gole e outro? Por que encontrar justamente esse tipo de assunto misturado em meio de análises de economia?

A resposta é simples: felicidade envolve, na essência, pensar antes nas pessoas. Em se tratando de pessoas, isso envolve, por conseqüência, visualizar a condição humana e, a condição humana, por sua vez, envolve e contempla determinados aspectos que são inerentes à ciência econômica. Simples, não! Economia então, por esse prisma, tem tudo - e mais um pouco - a ver com a vida das pessoas, até mesmo porque essa ciência é social e, por ser social, necessita ser humana à medida que é feita pelos homens e para os homens, com uma única tentativa: efetivar a dignidade das pessoas.

A economia (enquanto ciência e atividade produtiva) tem tudo a favor para valorizar a vida das pessoas. Toda ciência social, aliás, guardada as diferenças entre os campos específicos em que atua, deve (ou deveria) ser posta a serviço de ajudar no progresso de cada um de nós.

Talvez seja por isso que o trabalho humano mais essencial certamente é o de cuidar das pessoas e do planeta que nos acolhe. Deixar de fazer isso, ou fazer com menoscabo, é ver prosperarem problemas como a fome, pobreza, desigualdades, mortes precoces vitimadas por doenças evitáveis, além da degradação ambiental.

Tais ocorrências - estejamos certos disso - podem perfeitamente serem associadas a sistemas econômicos imperfeitos. Superar, pois, essa imperfeição pelos caminhos onde transita a ciência econômica é perfeitamente possível. Para tanto, a Economia precisa dar mais atenção à questão do bem-estar das pessoas. Foi assim que Alfred Marshall, um dos mais eminentes economistas de todos os tempos, se posicionou quando defendeu que “a suprema finalidade da economia é elucidar a questão social”.

Tal assertiva marshalliana corrobora, sobremaneira, com a análise que dá conta que o principal e o mais alto interesse dos estudos econômicos reside no fato de que as decisões econômicas tomadas tanto no nível privado quanto público interfere sensivelmente na qualidade de vida das pessoas.

Especialmente em relação à Economia, existe certa tendência em acreditar que o campo de análise e preocupação dessa disciplina deve repousar continuadamente sobre a abordagem social, ainda que determinados segmentos da Economia insistam em ignorar o ser humano.

A verdade, contudo, é que pouca atenção tem sido dada pelos manuais técnicos em relação à problemática social. No entanto, tentando superar essa deficiência, muitos dos principais postulados da Economia, por estarem e se apresentarem constantemente em nossos afazeres diários, passam a ocupar posição de destaque, e, dessa forma, se condiciona a ocupar um lugar proeminente no objetivo de levar melhoria à vida humana.

Indiscutivelmente, a questão sócio-econômica permeia nosso dia a dia, percorrendo vários segmentos da sociedade. Não é à toa então que, por exemplo, o tema da Campanha da Fraternidade de 2010, “Economia e vida humana”, bem como seu lema principal, “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”, acerta em cheio a ciência econômica e nos remete, de certa forma, a uma profunda reflexão de como a Economia pode atuar na ajuda ao bem-estar coletivo. A pergunta que fica é a seguinte: como conseguir orientar uma economia no sentido de que ela crie as melhores condições para a harmonia social?

Tudo isso me parece estar envolto na temática que diz respeito à própria atuação da economia, até mesmo porque é de fundamental importância não perder de vista que a ciência econômica, em sua essência, é uma ciência feita para “todo homem”, e é também, “de todos os homens”.

Se o fito fundamental da Economia é proporcionar “desenvolvimento” de todos e para todos, nada mais plausível então do que fazer dessa ciência uma escada de fácil trânsito para essa realização.

Nesse pormenor, nossa análise principal aqui contextualizada parte do seguinte pressuposto: a Economia necessita, para se firmar definitivamente como uma ciência que estuda a vida dos homens, construir ao seu redor uma engenharia social que seja capaz de captar as constantes ações individuais que envolvem a vida das pessoas.

Nesse arcabouço social não pode escapar a idéia de que os sistemas econômicos devem promover, primeiramente, a felicidade e o bem-estar humanos. É por isso que entendemos que cabe também à Ciência Econômica desenvolver uma visão solidária da vida. A Economia, acreditemos nisso, nada é sem um projeto de vida.

Em certa medida, é necessário provocar essa reflexão em torno de se visualizar a atividade econômica como uma ferramenta indispensável para “estudar” a melhoria das condições de vida das pessoas.

É imprescindível então valorizar a condição da economia enquanto ciência à medida que essa se lança num projeto maior de melhoria coletiva da vida. Essa é a razão precípua de apoiarmos um novo modo de se fazer Economia. Um novo modo que contemple, primeiramente, uma “Economia Social e Humana”. Social, no sentido de envolver o estudo sistemático das relações sociais fartamente enraizadas no seio da sociedade e, humana, à medida que prioriza o atendimento às necessidades das pessoas e faça disso um verdadeiro projeto de vida.

Enaltecer esses laços em torno das análises econômicas nos parece, a contento, uma interessante saída para fazer da Economia a “grande” ciência responsável pelo resgate integral da valorização individual num mundo repleto de injustiças, de desequilíbrios e má-querença.

Se concluirmos então que a convergência aponta para a valorização dos laços que formam a condição de vida humana, nada mais justo que “usar” o cabedal de conhecimentos da ciência econômica a fim de disponibilizá-los para esse nobre serviço.

Com o instrumental analítico de que dispõe a Economia, é possível criar-se suficientes e adequadas condições de esforçarmo-nos para viver de modo a promover o progresso da raça humana. Com isso, espera-se que as forças econômicas cooperem para com as necessidades sociais. Alcançando isso, certamente todos ganharemos!

* Economista e professor do UNIFIEO, da FAC-FITO e da Faculdade de Vinhedo. Mestre pela USP e Especialista em Política Internacional.

Última modificação em Segunda, 07 Junho 2010 15:43

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