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Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

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Quinta, 02 Abril 2015 21:52

Voltando aos reclames governamentais

Escrito por

Por Cesar Vanucci *


“Os gastos com publicidade durante os governos tucanos em Minas
dariam para construir duas novas cidades administrativas.”
(Carlos Alberto Teixeira de Oliveira,
presidente da Associação dos Economistas MG)

Semanas atrás andamos comentando neste espaço o despropósito dos gastos publicitários governamentais nos níveis federal, estadual e municipal. Lembramos que a opinião pública acompanha com total desagrado essa frenética disputa por espaço midiático que os setores mencionados vivem travando com anunciantes de grande porte, ao estilo do “Magazine Luiza”, “Ricardo Eletro”, “Casas Bahia”, marcas de cerveja e de veículos. Complementamos o registro com uma momentosa ilustração. Nos últimos dias do ano transcorrido, em todos os intervalos do chamado “horário nobre”, até mesmo na hora do foguetório da despedida de 2014, nos estertores a bem dizer do mandato, o Governo de Minas manteve-se ruidosamente empenhado na divulgação de peças publicitárias na televisão chamando com insistência a atenção do distinto público para o “colosso” de realizações promovidas em favor da coletividade.

Até aquele momento, espantados com o que víamos na telinha, ainda desconhecíamos os impressionantes dados oficiais sobre os exorbitantes aportes de recursos em propaganda feitos no curso das gestões administrativas do PSDB no Estado. Não sabíamos, por exemplo, que a dinheirama aplicada sob a rubrica “publicidade” entre 2003 e 2013 daria para construir duas novas “cidades administrativas” da imponência da que foi implantada à margem da rodovia que leva ao Aeroporto Internacional de Confins. Quem nos colocou a par dessa desconcertante revelação, numa análise esmiuçada das contas públicas estampada em edição do “Mercado Comum”, março de 2015, foi o conceituado economista Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, presidente da ASSEMG (Associação dos Economistas de Minas Gerais) e do IBEF Nacional (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças). As informações são parte de um alentado estudo que traz outros dados desnorteantes relativos à economia brasileira e mineira. No que concerne especificamente à publicidade paga pelo Governo de Minas Gerais no período reportado, o autor do trabalho se louva em levantamento feito junto ao Tribunal de Contas do Estado. Fica demonstrado que os dispêndios a esse título, em valores atualizados de 2013, atingiram a altitude everestiana de 2 bilhões, 172 milhões e 58 mil reais. Para que se possa ter uma ideia mais ampla do significado desse incrível gasto, é bom saber que a soma apontada é 27 por cento superior ao patrimônio líquido do BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais), ou seja, um bilhão setecentos e dez mil reais no final de 2013. A média anual dos recursos aplicados em publicidade pelo governo mineiro alcançou, nos períodos administrativos referidos, a impressionante cifra de 197 milhões, quinhentos e dez mil reais. Em 2013 o valor apurado foi de 254 milhões 180 mil reais.

A lembrança ainda muito acesa de que parte substancial dos reclames oficiais conferia ênfase toda especial aos assim chamados “choque de gestão” e “déficit zero”, fundamentais na programação administrativa dos governos tucanos, produz compreensível impacto no espírito popular diante de outras revelações surgidas da análise dos números da economia estadual.

A descomunal dívida pública deixada é, por exemplo, de apenasmente 88 bilhões 272 milhões 50 mil reais (Uai! E o “déficit zero”?). Valor superior à receita anual do Estado, que chegou em 2014 a 73 bilhões 347 milhões. Desponta aí, indisfarçavelmente, lembrando o que ocorre hoje em matéria de dívida pública na Comunidade Europeia das Nações, um certo toque de tragédia grega na vida financeira do Estado.

Mas não se restringem a esses dados os registros chocantes. Minas foi também o Estado que, nos últimos anos, mais se endividou em moeda estrangeira. Em dezembro do ano findo, o volume da dívida externa de Minas totalizava 9 bilhões 396 milhões, correspondendo a 21,8 por cento da receita corrente líquida. De outra parte, o relatório de gestão fiscal e o orçamento fiscal da Secretaria da Fazenda relativos ao período janeiro/dezembro de 2014 expuseram uma situação inesperada e extremamente penosa do ponto de vista da gestão financeira. Com receitas da ordem de 73 bilhões 347 milhões e despesas estimadas em 75 bilhões 512 milhões, as contas públicas acusaram um déficit de quase 2 bilhões. Isso foi detectado na precisa hora da mudança do comando administrativo.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) é articulista colaborador do Blog Viva Pernambuco.

Quinta, 20 Novembro 2014 21:07

Não ao talebanismo

Escrito por

Por Cesar Vanucci*


“O radical é alguém com os dois pés
firmementeplantados no ar.”
(Franklin Delano Roosevelt )

 

A sabedoria popular ensina de maneira singela que, nas rotinas da vida, uma coisa é uma coisa e uma outra coisa é outra coisa.
Fazer oposição politica com legitimidade, altivez combativa, censurando com inabalável vigor, sem molestar regras comportamentais respeitosas, atos considerados danosos ao sagrado interesse publico; vergastar procedimentos impróprios detectados na gestão dos negócios públicos são atitudes corretas, merecedoras de aplausos. Configuram com precisão o papel atribuído aos oposicionistas no xadrez politico. Coadunam-se perfeitamente com a essência democrática.
Sair alucinadamente por aí, ocupando ruas e praças, ou utilizando histericamente redes sociais para pregações carregadas de preconceitos e intolerâncias; promover passeatas com faixas contendorefrãos subversivos, pedindo “impeachment”e a substituição do regime democrático que, mercê de Deus, nos rege, por ditadura, já isso aí constitui postura inaceitável. Mais do que isso, abominável. Bate de frente com a vontade coletiva e o sentimento nacional.
É preciso que esse talebanismo sem eira nem beira, que anda botando a cara pra fora, conheça na justa amplitude a repulsa que suscita na consciência cívica brasileira. E, apesar do reconhecimento de que essas patéticas e civicamente indigentes reações estejam sendo praticadas apenas por meia dúzia de três ou quatro gatos pingados, é preciso também que a grande maioria dos democratas, tanto da oposição quanto da situação politica, não se furte a traduzir sua indignação. Faça ver a todos eles, de forma clara, que a sociedade brasileira assumiu, há um bocado de tempo, sem tergiversações, uma opção indesviável nos rumos do futuro. Rechaça toda e qualquer manifestação despojada de bom senso proveniente dessas lateralidades ideológicas incendiárias.
O anseio que povoa a alma brasileira é a construção, com o concurso das forças politicas e segmentos produtivos, de um Estado social e economicamente pujante.De um Estado cioso das prerrogativas e privilégios que só a democracia temcondições plenas de assegurar. Esse compromisso com um processo civilizatório que respeite a dignidade humana não pode ser perturbado impunemente por minorias extremistas barulhentas. O povo sente-se em desconforto diante daqueles que empregamo rancorpara alvejar, gratuitamente, com palavreado pornográfico, a valorosa gente nordestina e, também, as categorias mais humildes de nossa comunidade. Quem assim se comporta para expressar rejeição descabida aos resultados de uma irrepreensível eleição, acatada por adversários sensatos e respeitosos quanto aos ditames do jogo democrático, não passa de desatinado radical.
E o radical é alguém permanentemente de mal com a vida. Alguém que tem os dois pés firmemente plantados no ar, como lembra magistralmenteFranklin Delano Roosevelt, um dos artífices da vitória aliada que lançou por terra as ambições desvairadas do radicalismo nazifascista.

* O jornalista César Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Terça, 28 Outubro 2014 15:09

Dados dignos de atenção

Escrito por

Por Cesar Vanucci*


“Os avanços são significativos,
mas há muitos avanços ainda por fazer.”
(Antônio Luiz da Costa, professor).

 

Nem tanto a terra, nem tanto ao mar. O barco, na rota econômica, pode não estar navegando num mar de rosas. Mas, nem tampouco em águas encapeladas. Os “boletins meteorológicos” emitidos por manjados “catastrofistas de plantão” divulgam um mundaréu de informes equivocados e conclusões precipitadas. Dados abundantes apontam para realidade diferente.

O cientista politico e historiador Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira andou coletando elementos que colocam em realce aspectos sugestivos da atualidade social, econômica e cultural brasileira. As revelações se contrapõem ruidosamente a diagnósticos e analises costumeiramente publicados na grande mídia. As fontes utilizadas desfrutam de conceito técnico. Ei-las: ONU, OMS, UNCF, Banco Mundial, IBGE, Ministério da Educação, “Washington Post”, Índice de GIN.

O PIB brasileiro era em 2002 de R$1,48 trilhões. Saltou para R$ 4,84 trilhões em 2013. Tal avanço alçou-nos a sétima posição entre as economias nacionais mais pujantes. Já o PIB “per capita” pulou de R$7,6mil em 2002 para R$ 24,1 mil no ano passado. Em 2013, a dívida liquida do setor público correspondia a 34 por cento do PIB. Houve melhora acentuada também nesse item, uma vez que o valor da divida de 2002 equivalia a 60 por cento do PIB.

O Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, instituições oficiais com destacada participação no processo de desenvolvimento, elevaram expressivamente a lucratividade nos períodos cotejados (2002 e 2013). Aqui estão os resultados registrados nos balanços anuais de cada um deles: BB – R$ 2 bilhões e R$ 18,8 bilhões; Caixa Econômica Federal – R$ 1,1 bilhões e R$ 6,7 bilhões; BNDES – R$ 540 milhões e R$ 8,15 bilhões.

Mercado sempre atraente para investimentos estrangeiros diretos, o Brasil acusou em anos recentes extraordinário avanço nessa modalidade de captação de recursos. Em 2002, o dinheiro aplicado por investidores externos atingiu a cifra de 16,6 bilhões de dólares. Em 2013, o montante apurado foi de 64 bilhões de dólares. Também no tocante às reservas internacionais nossos indicadores são formidáveis. Chegaram, no final do ano passado, a 375,8 bilhões de dólares. É oportuno saber que tais números mostram-se superiores aos Produtos Internos Brutos de vários países importantes em diferentes continentes. É bom não perder de vista também que essas reservas giravam em torno de 37 bilhões de dólares há 12 anos. “O índice Bovespa”, volta e meia lembrado nas avaliações econômicas, fechou em 2013 com 51.507 pontos. A pontuação no final de 2002 era de 11.868. A dívida externa em relação às reservas, calculada em 557 por cento ante de 2003, é estimada agora em 81 por cento.

O volume da safra agrícola brasileira colhida em 2013 (180 milhões de toneladas) praticamente dobrou em relação à safra de 2002 (97 milhões de toneladas).

Em matéria de produção de veículos, atentemos para esses números: 1,8 milhões de unidades em 2002; 3,7 milhões de unidades em 2013.

Maior empresa do Brasil e da América Latina, a Petrobras alcançava em 2002 valores de mercado estimados em R$ 15,5 bilhões. As estimativas atuais colocam-na no patamar dos R$ 104,9 bilhões. De outra parte, o lucro médio anual auferido pela estatal petrolífera chegava até 2002 a R$ 4,2 bilhões. De lá pra cá passou a ser de R$ 25,6 bilhões.


Nossas exportações somavam, em 2002, 60,3 bilhões de dólares. Em 2013, os valores atingidos com exportações foram de 242 bilhões de dólares. A taxa SELIC era de 18,9 por cento em 2002. Ainda bastante elevada, é hoje de 10,90 por cento.

O notável incremento do transporte aéreo registrado no Brasil de alguns anos para cá, vem traduzido nestes números: 33 milhões de passagens aéreas vendidas em 2002; 100 milhões, em 2013.

No artigo vindouro, iremos nos reportar aos dados de inclusão social levantados no trabalho do cientista social acima mencionado.


*O jornalista Cesar Vanucci (cantonios1yahoo.com.br) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Terça, 30 Setembro 2014 20:21

Fervor democrático

Escrito por

“A democracia é boa, principalmente
porque os outros sistemas são piores.”
(Nehru, estadista indiano)

*Por Cesar vanucci

Os que não botam fé pra valer na pujança democrática brasileira e que procuram, continuamente, azedar com atos e palpites histéricos a convivência entre contrários no campo das ideias e dos posicionamentos políticos, não estão se dando conta dos avanços extraordinários que se operam no Brasil, a cada momento, no tocante ao aprimoramento institucional. O país vai abrindo, com firmeza, ininterruptamente, como poderoso navio quebra-gelo desbravando regiões glaciais, os caminhos que conduzem à consolidação plena do sistema de procedimentos e regras políticos pelos quais a sociedade de há muito optou.
Já os setores mais lúcidos da sociedade se regozijam com as conquistas institucionais. Mas existe também, entre os bem intencionados, gente que não percebe, ainda, como se estivesse a compartilhar das teses derrotistas dos irremovíveis céticos de plantão, que essa assimilação de normas democráticas e republicanas em nossa realidade política, feita de forma razoavelmente remansosa, sem turbulências insanáveis, confere-nos hoje lugar de invejável proeminência no plano internacional. Nem todos os países, inclua-se na relação os mais desenvolvidos, mostram-se, na verdade, capacitados a articular um processo eleitoral tão transparente, com tamanha eficiência, com cronograma executado impecavelmente, prestes a ser acompanhado de apurações velozes e inquestionáveis, como esse que a Nação brasileira vive nestes dias em atmosfera de justificável euforia. Nas manchetes do mundo inteiro as eleições brasileiras são sempre – e agora acontece outra vez - saudadas como um momento de especial grandeza cívica. Prova mais que provada do amadurecimento político da brava gente brasileira. Da força imbatível das instituições democráticas que, mercê de Deus, nos regem.
Em tempos deixados pra traz o andar das coisas não era bem esse. As eleições costumavam ser marcadas por tremores sísmicos variáveis. E nem é o caso de relembrar abalos de maiores proporções que implicaram em graves perturbações à ordem constituída. A tranquilidade comunitária ficava afetada. A economia punha-se receosa face a suposições acerca de eventuais alterações futuras de rumo. As taxas de inflação e o câmbio exprimiam expectativas nervosas. Mas isso virou passado. O cenário de agora é outro, quão diferente! Os resultados das urnas, quaisquer que sejam, são acolhidos, por todos, vencedores e perdedores, como fruto de um jogo democrático modelar e como uma projeção legítima do verdadeiro sentimento das ruas. Pela voz dos eleitores o que o pleito expressa, de forma peremptória e definitiva, é uma manifestação da própria consciência cívica nacional. Não há contestá-la. Nem questioná-la. As opções tomadas nascem da soberana vontade popular.
O regime democrático possui, a exemplo das doutrinas religiosas, seus cânones sagrados. Mesmo quando as escolhas nascidas da vontade popular possam parecer insatisfatórias a nível de meras avaliações pessoais, não se pode perder de vista que um processo político, como qualquer outra ação humana, reflete o jeito de ser humano, com seus inerentes méritos e imperfeições. A democracia absorve os traços paradoxais do comportamento humano. Não deixa de ser boa por causa disso. Até mesmo porque – relembrando Nehru e Churchill, que disseram coisas muitíssimo parecidas em momentos diferentes –, em que pesem os notórios defeitos da sistemática política, tocada pela falibilidade de seus militantes, ela sobrepuja iniludivelmente, em termos de apreço à dignidade humana e de respeito aos direitos fundamentais, todos os demais sistemas até aqui inventados com o propósito de conduzir os destinos político-administrativos da espécie.
Em suma, o processo eleitoral de agora descortina-se como marco refulgente na história republicana brasileira. Estampa, novamente, o grau elevado de sensibilidade política e o amadurecimento democrático alcançado por este nosso Brasil brasileiro. Um país na rota indesviável do progresso. Hoje, mais do que nunca, face às grandes conquistas sociais e econômicas acumuladas, preparadíssimo para a invasão do futuro.

O jornalista Cesar vanucci escrteve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Sexta, 12 Setembro 2014 20:39

Filme de pavor

Escrito por

Por Cesar Vanucci *


"Comparados com os filmes de agora, os filmesde
pavorde outrora provocam bocejos e tédio nos meninos do pré-escolar."
(Josefina Cantidio, professora)

 

Vasculhando as ladeiras da memória, deparo-me com as imagens de um filme visto quando tinha entre 9 e 10 anos de idade, no cine Royal, em Uberaba. Consegui driblar, naquele dia, a implacável vigilância do comissário de menores. Vetado para menores de 14 anos, o filme tinha por título "O Polvo".Animo-me a toma-lo como o primeiro momento de pavor de que tive real consciência.

A ação se passava numa ilhota perdida na imensidão oceânica. Havia um farol operado por duas pessoas. O bicho que dava título à fita era de tamanho descomunal. Ameaçava, tetricamente, com seus gigantescos tentáculos, os moradores da ilha. Fiquei um bom tempo assombrado com aquelas cenas arrepiantes. Imagino que, concebido artesanalmente, em branco e preto, utilizando parcos recursos cenográficos e efeitos especiais paupérrimos condizentes com a tecnologia da época, o celuloide não conseguiria arrancar hoje, de uma criança da mesma idade, nada além de um bocejo e olhar de enfado.

O mundo mudou e o cinema com ele mudou também. As crianças de agora são bombardeadas diuturnamente por diferentes versões de terror, brotadas menos da ficção e muito mais de uma realidade cruel, que permite sejam os horizontes infantis na convivência social incessantemente alargados. O pavor para elas, como para os adultos, deixou de ser esporádico. Não carece ser alimentado apenas pela fantasia literária. Adquiriu múltiplas facetas. Sofisticou-se, se é que assim se pode dizer. Passou a ocupar espaço permanente na aventura cotidiana. Povoa as ruas. É trazido bruscamente pra dentro dos lares. Banalizou-se, sem deixar, contudo, de produzir impactos nunca vistos em extensão e intensidade em qualquer outro período da história.

Das guerras de antigamente – como as de agora e as de sempre, abomináveis – ouvia-se falar coisas arrepiantes. Mas já os aspectos chocantes dos entreveros belicosos destes nossos dias, incomparáveis em ferocidade e destruição, costumam ser vistos quase que ao mesmo tempo e hora em que ocorrem. E isso por conta de sistemas tecnológicos avançadíssimos, direcionados acampos de batalha ao invés de serem destinadosa espaços onde as pessoas de boa vontade se esforçam por construir o bem estar humano.

As cenas de tortura de prisioneiros no Iraque, na Síria, na Líbia, na Somália, no Afeganistão e noutras paragens conturbadas, as notícias sobre crueldades aplicadas pelos russos na Chechênia, por militares americanosaos reclusos em Guantánamo -alguns deles, como já ficou documentado, detidos por engano no Afeganistão -, os carros e os homens bombas que executam ensandecidas tarefas em tantos lugares, os massacres em Gaza, a guerra fraticida na Síria são sinais do pavor interminável dessabeligerância envolvendo países, etnias e crenças radicais que a insânia humana se esmera em espalhar.

Agreguem-se a elas as cenas dos corpos estraçalhados pelas ações terroristas, os edifícios destruídos com gente dentro nas rotineiras retaliações a terroristas e presumíveis colaboradores, as informações e imagens sobre sequestros, fome, pandemias que grassam em regiões miseráveis e alguns filmes modernos de pavor e ter-se-á configurado o quadro de horrores da hora presente. É um quadro composto de lancesde tal perversidade que acaba fazendo de uma novaprojeçãode "O Polvo",aqui e agora,certeiramente, uma distração inocente, inofensiva, sem recomendação de censura para guris entre a fase da desamamentação e o pré-escolar. Tá danado.
*O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

"Educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade".  A frase, da física e economista Rose Marie Muraro, falecida no último dia 21 de junho, chamou-me a atenção no artigo de Leonardo Boff, publicado em 23 de junho no site do Mercado Ético. Ao ler o texto, no qual ele narra a trajetória e um pouco do pensamento da intelectual com a qual trabalhou e partilhou conhecimento, achei interessante reproduzí-lo no Blog Viva Pernambuco. Segundo Boff, mulher de profunda fé e espiritualidade, Rose Marie sonhava com as capacidades humanas de transformar a tragédia anunciada numa crise purificadora rumo a uma sociedade que se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra. Também tenho esse desejo. Boa leitura!

 

Por Leonardo Boff    

No dia 21 de junho concluiu sua peregrinação terrestre no Rio de Janeiro uma das mulheres brasileiras mais significativas do século XX: Rose Marie Muraro (1930-2014). Nasceu quase cega. Mas fez desta deficiência o grande desafio de sua vida. Cedo instituiu que só o impossível abre o novo; só o impossível cria. É o que diz no seu livro Memórias de uma mulher impossível (1999,35). Com parquíssima visão formou-se em física e economia. Mas logo descobriu sua vocação intelectual: de ser uma pensadora da condição humana especialmente da condição feminina.
Foi ela que no final dos anos 60 do século passado, suscitou a polêmica questão de gênero. Não se limitou à questão das relações desiguais de poder entre homens e mulheres mas denunciou relações de opressão na cultura, nas ciências, nas correntes filosóficas, nas instituições, no Estado e no sistema econômico. Enfim deu-se conta de que no patriarcado de séculos reside a raíz principal deste sistema que desumaniza mulheres e também homens.
Realizou em si mesma um impressionante processo de libertação, narrado no livro Os seis meses em que fui homem (1990,6ª edição). Mas a obra quiçá mais importante de Rose Marie Muraro tenha sido Sexualidade da Mulher Brasileira: corpo e classe social no Brasil (1996). Trata-se de uma pesquisa de campo em vários Estados da federação, analisando como é vivenciada a sexualidade, tomando em conta a situação de classe das mulheres, coisa ausente nos pais fundadores do discurso psicanalítico. Neste campo Rose inovou, criando uma grelha teórica que nos faz entender a vivência da sexualidade e do corpo consoante as classes sociais. Que tipo de processo de individuação pode realizar uma mulher famélica que para não deixar o filhinho morrer, dá o sangue de seu próprio seio?
Trabalhei com Rose por 17 anos como editores da Editora Vozes: ela responsável pela parte científica e eu pela parte religiosa. Mesmo sob severo controle dos órgãos de repressão militar, Rose tinha a coragem de publicar os então autores malditos como Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso Paulo Freire os cadernos do CEBRAP e outros. Depois de anos de longa discussão e estudo em conjunto reunimos nossas convergências num livro que considero seminal Feminino & Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças (Record 2010).
Destaco apenas uma frase dela: “educar um homem é educar um indivíduo, mas educar uma mulher é educar uma sociedade”.
Sem deixar nunca de lado a questão do feminino (no homem e na mulher) voltou-se cedo aos desafios da ciência e da técnica moderna. Já em 1969 lançava Autonomação e o futuro do homem e previa a precarização do mundo do trabalho.
A crise econômico-financeira de 2008 levou-a colocar a questão do capital/dinheiro com o livro Reinventando o capital/dinheiro (Ideias e Letras 2012), onde enfatiza a relevância das moedas sociais e complementares e as redes de trocas solidárias que permitem aos mais pobres garantirem sua subsistência à revelia da economia capitalista dominante.
Outra obra importante, realmente rica em conhecimentos, dados e reflexões culturais se intitula Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade: querendo ser Deus? (Vozes 2009). Neste texto ela se confronta com a ponta da ciência, com a nanotecnologia, a robótica, a engenharia genética e a biologia sintética. Vê vantagens nessas frentes, pois não é obscurantista. Mas pelo fato de vivermos dentro de uma sociedade que de tudo faz mercadoria, inclusive a vida, percebia o grave risco de os cientistas presumirem poderes divinos e usarem os conhecimentos para redesenharem a espécie humana. Daí o subtítulo: Querendo ser Deus? Essa é a ingênua ilusão dos cientistas.
O que nos salvará não é essa nova Revolução Tecnológica mas, como diz Rose, é a “Revolução da Sustentabilidade, a única que poderá salvar a espécie humana da destruição…pois a continuarmos como está, não estaremos em um jogo ganha-perde e sim no terrível jogo perde-perde que significará a destruição de nossa espécie, na qual todos perderemos” (Reinventando o Capital/dinheiro, 238).
Rose possuía um sentimento do mundo agudíssimo: sofria com os dramas globais e celebrava os poucos avanços. Nos últimos tempos Rose via nuvens sombrias sobre todo o planeta, pondo em risco o nosso futuro. Morreu preocupada com as buscas de alternativas salvadoras. Mulher de profunda fé e espiritualidade, sonhava com as capacidades humanas de transformar a tragédia anunciada numa crise purificadora rumo a uma sociedade que se reconcilie com a natureza e a Mãe Terra. Conclui seu livro Os avanços tecnológicos com esta sábia frase: ”quando desistirmos de ser deuses poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é, mas que intuímos desde sempre”(p. 354)
Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.

Segunda, 09 Junho 2014 20:03

Envelhecer jovem

Escrito por

Por Frei Betto*  

O título pode parecer paradoxal, mas faz sentido. Hoje em dia quase ninguém curte a velhice. Ou se assume como velho. Mesmo quem já atingiu idade avançada costuma fazer questão de dar a impressão de ser mais jovem.  

Chamar alguém de “velho” é quase uma ofensa. Eu, que velho estou, costumo brincar que sou “seminovo”, como em revendas de veículos. O carro é velho, mas o adjetivo ajuda a iludir o freguês.  

Ficar velho está cada vez mais caro. Tanto para o governo, obrigado a arcar com o crescente número de aposentadorias e pensões, e atendimento pelo SUS, quanto para o cidadão, impelido a investir em plano de saúde, academia de ginástica, medicamentos fitoterápicos e alimentação saudável, como frutas e legumes orgânicos.   Agora a Cellectis, empresa francesa de biotecnologia, coloca no mercado a iPS (sigla em inglês para designar células-tronco de pluripotência induzida). A última novidade em medicina regenerativa.  

Para produzir iPS basta introduzir quatro genes em células maduras e, assim, estas regridem ao estado de células-tronco. Esse processo, descoberto pelo cientista japonês Shinya Yamanaka, assegurou-lhe o prêmio Nobel de Medicina, em 2012. As células-tronco obtidas por esse método (iPS) teriam a mesma capacidade que caracteriza as células embrionárias: transformar-se em novos tecidos e órgãos.  

Quem deseja evitar a natural degradação de seu organismo e, desde já, estocar células da pele para que se tornem iPS, basta recorrer à empresa francesa Scéil, braço da Cellectis. A saúde em idade provecta não custa barato. A Scéil cobra US$ 60 mil (pouco menos de R$ 140 mil) para coletar as células, e uma taxa anual de US$ 500 (cerca de R$ 1,1 mil) para armazená-las. Por enquanto esse luxo está disponível apenas nos EUA, Reino Unido, Suíça, Dubai e Cingapura.  

“As pessoas devem poder viver jovens”, alardeia André Choulika, presidente da Cellectis. Por enquanto é um luxo adotar esse procedimento de recauchutagem genética, mas pode-se recorrer, a preços mais em conta, a cirurgias plásticas por mero capricho estético. De preferência em regiões predominantemente frias, para justificar o uso de cachecol e luvas. Pescoço e mãos são traiçoeiros à vaidade senil: denunciam que o nosso corpo e a nossa idade não são tão jovens quanto o rosto remodelado.  

No México, o Instituto de Medicina Regenerativa promete operar curas via células-tronco. Basta extrair 200 mililitros de gordura da coxa do paciente e, em seguida, colher cerca de 130 milhões de células-tronco para implantá-las no órgão enfermo. O procedimento custa, em média, US$ 13,5 mil (em torno de R$ 30 mil).  

Além de jovialidade perene, muitos buscam a imortalidade (sem entrar para academias de letras). Como o limite natural da célula humana é de 130 anos, há esperança de que, graças às células-tronco, haja possibilidade de substituir células envelhecidas, com prazo de validade vencido, por novas.  

O título de pessoa mais velha do mundo é atribuído à francesa Jeanne Calment, que viveu 122 anos (1885-1997). Passeou de bicicleta até os 100 anos, andou até os 115, e tinha o hábito de beber um copo de vinho e fumar um cigarro todo dia.  

O boliviano Carmelo Flores Laura, índio Aimara, alega ter 123 anos, graças às longas caminhadas como pastor de gado e ovelhas. Para o Guinness de Recordes, ninguém ainda superou a japonesa Misao Okawa, de 115 anos. A chinesa Alimihan Seyiti afirma ter 127 anos. Seus maiores prazeres são beber água gelada, e cantar e brincar com crianças.  

O curioso é que, em geral, vive muito quem não teme morrer. E sobretudo quem imprime à sua vida um sentido altruísta. A ansiedade de prolongar a existência a qualquer custo pode gerar na pessoa um estresse que lhe abrevia os dias.   Vi na TV, há tempos, Datena entrevistando um casal longevo, habitantes da zona rural paulista. Ele com 111 anos, ela com 108. O marido se mostrava mais lúcido que a mulher. O entrevistador perguntou a ele a que atribuía tão longa existência. Dieta? “Adoro um torresminho”, reagiu o homem. E beber? Não se fez de rogado: “Uma cachacinha antes da comida cai muito bem. ” E fumar? perguntou Datena. “Fumar? Nem pensar. Parei desde os 108. ”  

Importa na vida é ser feliz. E a felicidade não resulta da soma de prazeres nem do acúmulo de bens. É fruto do sentido que se imprime à existência.  

* Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.

Este artigo foi publicado no dia 4 de junho no site do Mercado Ético (www.mercoetico.com.br )

Segunda, 09 Junho 2014 19:55

A tevê que a gente vê

Escrito por

Por Cesar Vanucci*

“Precisa dessa torrente publicitária oficial toda para falar dos notáveis  feitos de nossos diligentes administradores públicos, precisa?”  

(Antônio Luiz da Costa, professor)

 

Os que vivem se queixando das condições caóticas do trânsito de BH; da violência solta nas ruas; da assistência insatisfatória nos postos de atendimento à saúde; da insuficiência de planos de proteção às crianças, jovens e idosos andam certeiramente mal informados, pelo que nos é dado a observar, com relação a todas as questões acima colocadas. Se se dessem ao mínimo esforço de acompanhar, como é de nosso habito fazer, os sedutores reclames publicitários divulgados pelas administrações públicas nas esferas municipal, estadual e federal, na frenética disputa travada por espaço nos intervalos televisivos com o “Ricardo Eletro” e a “Casas Bahia”, esses exigentes reclamantes estariam devidamente inteirados de que as coisas, em todas as áreas citadas, ao contrário de suas insistentes alegações, correm às mil maravilhas, sim senhor! Ipso facto, como era de costume dizer-se em tempos passados, todo esse queixume choramingador carece de fundamento, não é mesmo, gente boa?

O “Manhattan Connection”, da “Globo News”, chamou para entrevista o correspondente do “Financial Time” no Brasil. Pelo que se revelou  na introdução, a atenção do programa pelo depoimento do jornalista inglês estaria focada numa alegação sua a respeito do suposto declínio registrado, de dois anos pra cá, na situação econômica brasileira. Com notória dificuldade para se expressar no idioma falado no Brasil, o entrevistado permaneceu o tempo todo sob o fogo cruzado dos entrevistadores, que deixaram expressamente demonstrado interesse maior em divulgar suas próprias opiniões pessoais sobre a conjuntura econômica, carregando pesado nas críticas ao governo, do que em saber, na verdade, o que o colega estrangeiro realmente estaria matutando. Se algum dia, nalgum curso de jornalismo, alguém se dispuser a exibir um exemplo lapidar de uma “anti-entrevista” na televisão é só recorrer aos arquivos do “Manhattan Connection” e projetar a matéria então levada ao ar.

A louvação, em verso e prosa, da “excelência incomparável” do futebol praticado em gramados europeus, promovida com entusiástica insistência por alguns nomes exponenciais da crônica esportiva brasileira, animou-nos a acompanhar, pela televisão, do primeiro minuto ao derradeiro momento da prorrogação, o confronto entre as boas equipes do Real Madrid e do Atlético de Madrid. Esta foi a primeira vez que este desajeitado escriba se dispôs a assistir por inteiro a um jogo de futebol não envolvendo seleção ou clube brasileiros. Confessamos, em lisa verdade, haver apreciado bastante o que contemplamos, mas sem essa de achar que estaríamos presenciando o suprassumo em matéria futebolística. Algo fantástico, de qualidade infinitamente superior àquilo que, centenas de vezes, anos a fio, vimos acompanhando nas arenas de futebol do Brasil, ou em estádios de outros países, onde a seleção e clubes brasileiros desfilam sua arte. Alguns atores do espetáculo de Lisboa podem ser apontados, no máximo, como tão bons quanto numerosos atletas brasileiros que habitualmente atuam por aqui. Esta, nossa sincera opinião. Supomos, então, à vista destas impressões pessoais, que as chances do escrete de vir a arrebatar a Copa são bastante promissoras. Esperar, pra ver, né? Queremos ainda dizer, a respeito da interessante disputa que concedeu ao Real Madrid mais um titulo na versão europeia da “Libertadores”, que deixaram   forte pressão as cenas mostradas referentes ao grau de vibração da torcida espanhola. Foram bem demonstrativas de que o futebol, no duro da batatolina, é mesmo paixão universal. A ansiedade geral, a alegria pela vitória e a desolação pela derrota, estampadas nos semblantes dos adeptos dos times contendores, tiveram sabor bastante familiar. Tudo se revelou demasiadamente parecido com aquilo que os torcedores brasileiros costumam aprontar por ocasião dos nossos (frequentes) clássicos.

 *O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

O texto abaixo, assinado por Mariana Martins e Mariana Moreira, foi postado neste dia 29 de maio, na sessão Intervozes, da Revista Carta Capital. E analisa que grande parte dos veículos de Pernambuco ignora a mobilização social contra o projeto Novo Recife e a ocupação nos armazéns do Cais José Estelita. Vale apena a leitura.

Ocupe EstelitaPor Mariana Martins e Mariana Moreira*

Um dos professores mais antigos do curso de comunicação social da Universidade Federal de Pernambuco, Paulo Cunha, postou em sua página no Facebook: “Acho que amanhã vou no cemitério de Santo Amaro, fazer uma visita ao túmulo do jornalismo pernambucano”. Esta frase, escrita ainda no dia 22 de maio, pela manhã, dizia muito sobre o silêncio da imprensa de Pernambuco a respeito do início da demolição do Cais José Estelita, área histórica e um dos principais cartões-postais do Recife, e da ocupação feita por manifestantes, que impediram a demolição completa dos armazéns de açúcar, no fim da noite do dia 21. Atividades estão sendo realizadas e, último no fim de semana, a ocupação recebeu visitas e manifestações de apoio de recifenses ilustres.

Pode-se dizer que a postagem de Cunha foi também um presságio do que viria. A ocupação já entra no seu sétimo dia, e o comportamento da maior parte da mídia local é o de ignorar a mobilização social contra o projeto Novo Recife e o acampamento permanente de dezenas de pessoas na área. Apenas um dos três jornais da capital noticiou linhas descontextualizadas sobre o fato. Nenhuma das matérias passava de seis parágrafos, insuficientes para contextualizar a história que existe desde 2008, e que em 2012 tomou novos rumos e ganhou novos atores.

Breve contextualização (tentando dar conta do que a mídia não conta)

O Recife está entre as cidades do Brasil em que houve maior valorização imobiliária nos últimos cinco anos. Esta valorização fez com que áreas antes “desvalorizadas”, do ponto de vista imobiliário, fossem alvo de especulações, principalmente áreas históricas e de preservação ambiental, como o Cais José Estelita e as poucas áreas de mangue que ainda sobreviviam na cidade.

O Projeto Novo Recife prevê a construção de 12 torres de até 40 pavimentos no Cais José Estelita. O empreendimento é uma ação de um consórcio de grandes construtoras do estado, também chamado Consórcio Novo Recife, formado pelas empresas Moura Dubeux, Queiroz Galvão, G.L. Empreendimentos e Ara Empreendimentos. Assim como vários outros empreendimentos de grande impacto na capital pernambucana, o Projeto Novo Recife não foi antecedido do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), que, após feito, deve ser apresentado à população, para que possibilite o exercício da gestão democrática, como manda o Estatuto da Cidade (Lei 10.257, de 10 de Julho de 2001.).

Quando o Projeto Novo Recife chegou a conhecimento público, pessoas e organizações sociais passaram a se mobilizar para discutir formas de intervenções populares na discussão dos rumos e nos processos de ocupação da cidade. Desde 2012, o grupo "Direitos Urbanos – Recife", de caráter não partidário, tem aglutinado e mobilizado manifestações, ocupações, audiências públicas, denúncias ao Ministério Público, dentre outras atividades para defender a área do Cais José Estelita. A área toda, além de sua beleza estética e de representar parte da identidade visual da cidade, tem grande valor histórico por permitir, ainda hoje, uma percepção de qual foi o padrão de ocupação da cidade que se consolidou ao longo do tempo. Em poucas palavras, o Cais José Estelita, sejamos contra ou a favor da sua demolição, é parte da história do Recife e uma discussão sobre os seus rumos não pode ser tangenciada exclusivamente pelos interesses do capital imobiliário e sem a devida transparência pública e participação social. Isso pode até soar démodé, mas ficou conhecido como democracia.

Para além da sociedade organizada, Ministério Público Federal, Estadual, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e alguns parlamentares também fazem parte da luta para que o poder do capital imobiliário não atropele os direitos urbanos da capital pernambucana, e defendem a ampliação do debate do entre poder público e sociedade na decisão dos rumos da cidade. Mesmo com uma constante mobilização social e com o projeto sendo questionado social e judicialmente, o Projeto Novo Recife avançou sombreado pelos interesses políticos e econômicos dos diversos atores envolvidos no processo e sob o silêncio cúmplice e conivente da mídia local.

Na noite do último dia 21, foi iniciada a demolição dos armazéns de açúcar do Cais José Estelita. Imediatamente, manifestantes foram para o local e impediram a continuidade da demolição. No dia seguinte, a demolição foi oficialmente embargada por força de uma liminar do IPHAN, que alega descumprimento da celebração do Termo de Ajuste de Conduta entre o empreendedor e o instituto, que tenta garantir a proteção dos registros referentes à produção de conhecimento sobre a área em questão. O Ministério Público Federal, por sua vez, questiona a validade do leilão que deu ao consórcio a propriedade da referida área.

Saiba mais

Cobertura on-line dos principais jornais locais

Seguindo a linha da falta de informação dos jornais locais, nacionalmente as notícias sobre os manifestantes que montaram acampamento na área a ser demolida foram insignificantes, para não dizer inexistentes – visto que não houve, a princípio, um monitoramento dos veículos, mas também não há notícias de que o fato foi noticiado nacionalmente pelos principais veículos tradicionais. Dentro e fora do Recife, com exceção das redes sociais e blogs da imprensa alternativa, as pessoas seguem desinformadas sobre o que acontece em uma das áreas mais emblemáticas da cidade.

Vale também uma contextualização sobre os principais veículos de mídia do Recife, e da força política que esta capital tem para a estrutura de comunicação regional de grandes emissoras do país. É no Recife que se encontra a sede da Rede Globo Nordeste, que é uma das cinco concessões da Rede Globo de Televisão no país, a única na região. São três os principais jornais locais: Jornal do Commercio, ligado ao grupo João Carlos Paes Mendonça (JCPM), um dos maiores grupos econômicos do Estado; Diário de Pernambuco, ligado aos Diários Associados; e a Folha de Pernambuco, ligada ao grupo EQM, que tem suas bases no setor sucroalcooleiro.

O Jornal do Commercio, único dos três principais jornais locais a noticiar o fato em sua versão eletrônica, deu ao todo, desde o último dia 21, cinco matérias em sua página na internet, sendo uma no dia 21, três no dia 22 e uma no dia 23.

Nas edições eletrônicas dos jornais Diário de Pernambuco e Folha de Pernambuco, as buscas pelas palavras-chave “Estelita”, “Cais José Estelita” e “Ocupe Estelita” não obtiveram como respostas matérias entre os dias 21 e 27 de maio.

As únicas cinco matérias do Jornal do Commercio, por sua vez, passam longe de informar sobre o que está acontecendo no Cais José Estelita e a mobilização contra o projeto Novo Recife. Apenas uma matéria tem um vídeo que mostra pessoas que estão no movimento “Ocupe Estelita”, mas o texto não traz uma declaração sequer de qualquer integrante do movimento. Uma das matérias afirma que os manifestantes não quiseram dar entrevista. Contudo, matérias do mesmo dia no site do G1 Pernambuco trazia declarações e documentos publicados pelo grupo. De uma forma geral, as matérias do JC são curtas e citam apenas o IPHAN, a exposição de motivos do órgão para suspender as obras, e o Consórcio Novo Recife por meio de notas emitidas pelo grupo. O mesmo não foi feito com as notas divulgadas pelo outro lado.

Apesar de não ter sido pauta de nenhum dos jornais locais, no domingo o Cais foi ocupado por dezenas de pessoas e foram organizadas atividades lúdicas e shows com apoiadores da ocupação. Outro fato importante ignorado pelos jornais foi a campanha que artistas locais estão promovendo nas redes sociais, com cartazes em apoio ao movimento e em defesa do patrimônio histórico.

A cobertura da Globo Nordeste e seus veículos

Ao contrário dos jornais locais, o G1 Pernambuco foi o site com matérias mais contextualizadas, trazendo depoimentos e a exposição de motivos dos manifestantes do Ocupe Estelita. Contudo, a postura da TV não foi a mesma.

Uma das matérias mais questionáveis do ponto de vista jornalístico foi a exibida no NE TV 1ª Edição do dia 24 de maio, com o título Arquitetos do Novo Recife mostram vantagens do projeto para o Recife. A matéria é uma propaganda do projeto, em que somente os arquitetos do consórcio falam sem que nenhuma opinião divergente tenha sido ouvida. Inúmeros arquitetos e urbanistas também já se manifestaram publicamente contra a intervenção. Depois de três dias sem matérias sobre o fato, na tarde do dia 27, o NE TV 1ª Edição trouxe notícias das manifestações que ocorreram na véspera no acampamento. O foco da cobertura foi o engarrafamento causado pela mobilização na avenida em que fica o Cais.

O direito à informação e o lucro dos jornais

Uma breve análise sobre a infeliz constatação da morte do jornalismo pernambucano passa, logicamente, por uma leitura política dos fatos, mas, sobretudo, por uma leitura econômica do modelo de negócio do jornalismo. Esse modelo, que já dava sinal de inanição, deu sinal de falência, perdeu por completo a linha e sobrepôs desmedidamente o financiamento à atividade fim dos veículos, que é a notícia. Aqui, vale ressaltar, que não apenas o jornalismo pernambucano sofre desse mal, é verdade, mas este episódio foi capaz de revelar um amadorismo e uma subserviência inaceitáveis até mesmo ao que se pode chamar de padrões mínimos (se é que isso existe) do jornalismo.

Não dar nenhuma linha sobre o ocorrido em suas páginas na internet (pois nesse veículo não se tem sequer a desculpa do espaço), como aconteceu em dois jornais citados, é deliberadamente o maior vexame que um veículo de comunicação pode acumular em sua história (vide contos da ditadura). Veicular descontextualizada e propagandisticamente a notícia, como fizeram dois outros veículos, é o segundo maior vexame que um veículo de comunicação pode dar. Nem mesmo a sofisticação da censura de outrora foi reivindicada por estes míseros e submissos veículos de propagada. A cobertura foi tão amadora que uma abordagem parcial passou a ser quase que louvável diante do silêncio. Constrangedor até para quem admite tal feito.

Felizmente, muitos comunicadores e jornalistas, censurados e mutilados nos veículos em que trabalham, estão bravamente apoiando a ocupação nas redes sociais e produzindo para sites alternativos. E, para além dos jornalistas, cidadãos/as do Recife que apoiam a causa tornaram-se cada um e cada uma produtores e difusores de informação em uma escala de dignidade incalculável pela mídia tradicional.

Enquanto isso, o silêncio dos veículos da capital pernambucana segue diretamente proporcional à quantidade de anúncios das imobiliárias nos classificados e por todos os lados, cantos e recantos dos folhetins do Recife.

* Mariana Martins é jornalista recifense e membro do Intervozes; Mariana Moreira é jornalista recifense.

Quarta, 28 Maio 2014 21:11

Como nascem os preconceitos

Escrito por

Por Frei Betto*
García Márquez, em Doze contos peregrinos, conta a história de um cachorro que, todos os domingos, era encontrado no cemitério de Barcelona, junto ao túmulo de Maria dos Prazeres, uma ex-prostituta.
Com certeza se inspirou nas histórias reais de Bobby, um terrier de Edimburgo, Escócia, que durante catorze anos guardou o túmulo de seu dono, enterrado em 1858. Pessoas comovidas com a sua fidelidade cuidavam de alimentá-lo. O animal foi sepultado ao lado e, hoje, há ali uma pequena escultura dele e uma lápide, na qual gravaram: “Que a sua lealdade e devoção sejam uma lição para todos nós.”
Em Tóquio, ergueram também uma estátua, na estação Shibuya, em homenagem a Hachiko, cão da raça Akita que todos os dias ali aguardava seu dono retonar do trabalho. O homem morreu em 1925. Durante onze anos o cachorro foi aguardá-lo na mesma hora em que ele costumava regressar. Hoje, a estação tem o nome do animal.
Cães e seres humanos são mamíferos e, como tal, exigem cuidados permanentes, em especial na infância, na doença e na velhice. Manter vínculos de afeto é essencial à felicidade da espécie humana. A Declaração da Independência dos EUA teve a sabedoria de incluir o direito à felicidade, considerada uma satisfação das pessoas com a própria vida.
Pena que atualmente muitos estadunidenses considerem a felicidade uma questão de posse, e não de dom. Daí a infelicidade geral da nação, traduzida no medo à liberdade, nas frequentes matanças, no espírito bélico, na indiferença para com a preservação ambiental e as regiões empobrecidas do mundo.
É o chamado “mito do macho”, segundo o qual a natureza foi feita para ser explorada; a guerra é intrínseca à espécie humana, como acreditava Churchill; e a liberdade individual está acima do bem-estar da comunidade.
O darwinismo social é uma ideologia cujos hipotéticos fundamentos já foram derrubados pela ciência, em especial a biologia e a antropologia. Basta ler os trabalhos do pesquisador Frans de Waal, editados no Brasil pela Companhia das Letras. Essa ideologia foi introduzida na cultura ocidental pelo filósofo inglês Herbert Spencer, que no século XIX deslocou supostas leis da natureza, indevidamente atribuídas a Darwin, para o mundo dos negócios.
John D. Rockfeller chegou ao ponto de atribuir à riqueza um caráter religioso ao afirmar que a acumulação de uma grande fortuna “nada mais é que o resultado de uma lei da natureza e de uma lei de Deus.”
Na natureza há mais cooperação que competição, afirmam hoje os cientistas. O conceito de seleção natural de Darwin deriva de sua leitura de Thomas Malthus, que em 1798 publicou um ensaio sobre o crescimento populacional. Malthus afirmava que a população que crescer à velocidade maior que o seu estoque de alimentos seria inevitavelmente reduzida pela fome.
Spencer agarrou essa ideia para concluir que, na sociedade, os mais aptos progridem à custa dos menos aptos e, portanto, a competição é positiva e natural. E os que são cegos às verdadeiras causas da desigualdade social alegam que a miséria decorre do excesso de pessoas neste planeta, e que medidas rigorosas de limitação da natalidade devem ser aplicadas.
Nem Malthus nem Spencer se colocaram uma questão muito simples que, em dados atuais, merece resposta: se somos 7 bilhões de seres humanos e, segundo a FAO, produzimos alimentos para 12 bilhões de bocas, como justificar a desnutrição de 1,3 bilhão de pessoas? A resposta é óbvia: não há excesso de bocas, há falta de justiça.
Quanto mais são derrubadas barreiras entre classes, hierarquias, pessoas de cor de pele diferente, mais os privilegiados e seus ideólogos se empenham em busca de possíveis justificativas para provar que, entre humanos, uns são naturalmente mais aptos que outros.
Outrora os nobres eram considerados uma espécie diferente, dotada de “sangue azul”. Como quase não tomavam sol e tinham a pele muito branca, as veias das mãos e dos braços davam essa impressão.
Com a Revolução Industrial, gente comum se tornou rica, superando em fortuna a nobreza. Foi preciso então uma nova ideologia para tranquilizar aqueles que galgam o pico da opulência sem olhar para trás. “Que o Estado e a Igreja cuidem dos pobres”, insistiam eles. E tão logo o Estado e a Igreja passaram a dar atenção aos pobres (e é bom frisar, sem deixar de cuidar dos ricos, que o digam o BNDES e a Cúria Romana), como no caso do Estado de bem-estar social, do socialismo e da Teologia da Libertação, os privilegiados puseram a boca no trombone, demonizando as políticas sociais, acusadas de gastos excessivos, e a “opção pelos pobres” da Igreja.
Preconceitos e discriminações não nascem na natureza. Brotam em nossas cabeças e contaminam as nossas almas.
* Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.

Quarta, 28 Maio 2014 20:36

A Copa é nossa!

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“O principal papel do escrete é o de profeta
do grande Brasil!

(Nelson Rodrigues, em 1962)

 

Parar logo com isso! Com esse papo irreal produzido pelas minorias barulhentas, por desconhecimento de causa ou má fé, desvinculadas do verdadeiro sentimento nacional. Fazer cessar os ruídos do desalento, que nada tem a ver com a índole popular. Tirar do ar os brados retumbantes do pessimismo mórbido, com seus efeitos contaminantes parecidos com os da gripe aviária. A Nação se amofina com esse tipo de reação.
Parar com esse chororô anêmico, desnutrido, tão despojado de brasilidade! Derrotismo forjado em fantasias é algo que roça as fimbrias do delírio esquizofrênico. O Brasil inteiro, todos sabemos, esconjura a estridência baderneira volta e meia infiltrada em manifestações populares de cunho pacifico e compreensivelmente reivindicatório. Recomenda enfaticamente que as manifestações genuínas, fruto saudável da pujança democrática, mercê de Deus reinante, não se estiolem em passeatas sem rumo, sem objetivo certo, sem senso de oportunidade. Não existe crise alguma capaz de se sobrepor ao Brasil. Nem que ela tivesse irrompido por aqui com a mesma impetuosidade e turbulência com que se manifestou noutros países nos diversos continentes.
Parar, repetimos, com esse papo desagregador! O Brasil é que nem o mar. Contemplando-o, não há como descrevê-lo com palavras alusivas apenas a ligeiros enjoos de alguma travessia de curta duração.
Chegou a hora, nesta véspera da grande festa mundial do futebol, de substituir esses ruídos desarmoniosos! Fazer soar, no lugar, clarins festivos de alvorada. Providenciar ruflar majestático de tambores. Botar pra fora todo clangor de emoções de que sejamos capazes. Despejar nas ruas batucada de escola de samba em pleno apogeu carnavalesco, coro cadenciado de arquibancadas para anunciar que a Copa chegou! E que a Copa é nossa!
A proclamação – tá na cara – reflete, naturalmente, antes de tudo mais, generoso anseio da alma das ruas. A conquista do titulo é sonho acariciado por milhões.
Que os deuses do futebol, que compõem de certa maneira uma espécie de torcida organizada de nosso escrete, possam dizer, na hora em que a bola estiver rolando nos gramados, amém às nossas preces!
Mas é preciso entender também que a Copa não nos pertence tão somente por conta do hexa. O País assumiu, perante o mundo, a responsabilidade de criar as condições necessárias, do ponto de vista político, econômico, turístico, psicológico, de promover uma competição eletrizante, de brilhantismo sem similar na história dessa paixão universal denominada futebol. Com a colaboração de todos, os brasileiros vamos ter que honrar esse compromisso. Esmerando na organização dos grandes espetáculos programados. Acolhendo com carinho e hospitalidade as levas de turistas. Contribuindo para que a imagem autêntica, verdadeira do País, de sua gente, de suas potencialidades e virtudes, possa ser projetada lá fora em todo esplendor, revelando ao mundo a certeza de que somos uma Nação com clara vocação de grandeza, com inequívoca vocação conquistadora em relação ao futuro. Uma Nação que cultiva a esperança, o humanismo como dogmas de fé no enorme esforço despendido em favor da construção humana e de um mundo mais fraterno e igualitário.
Chegada a hora!
A Copa é nossa! Vamos mostrar orgulhosamente, a todos, que cada brasileiro entende muito bem ser o futebol, como lembrado na palavra de José Lins do Rego, um soberbo “agente de confraternidade”. E, também, alardear, com justa ufania, os motivos pelos quais nos fizemos conhecidos, nos olhares do mundo, como o “país do futebol”!

*O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quinta, 08 Maio 2014 15:42

Estão em todas

Escrito por

“Se o doleiro tivesse sido condenado no processo Banestado, possivelmente não estaria delinquindo novamente.”

(Promotor Claudio Esteves, do Paraná)


Por Cesar Vanucci *

Nos vastos domínios que se estendem do Oiapoque ao Chuí, complementados pelas milhas marítimas que dão a configuração exata do território continental brasileiro, não existe viva alma sequer que nunca haja ouvido falar deles. Nem mesmo os solitários integrantes das derradeiras tribos amazônicas a serem ainda contatadas pelos sertanistas da FUNAI.
Esses escolados trambiqueiros, frajolas de imaculado “colarinho branco”, que circulam desenvoltos nas altas esferas mundanas, trocando amistosos tapinhas nas costas com figuraços do poder politico e econômico, participando de reuniões charmosas, regadas com o “legítimo”, registradas em fotos galantes nas colunas, estão em todas. Ou quase todas. Farejam e fomentam mutretas tempo inteiro. Craques consumados na arte de extrair e repassar informações privilegiadas, garantem inestimável ajuda para que sejam engordadas as contas secretas de sua selecionada clientela em bancos da Suíça e Ilhas Cayman. São criaturas emblemáticas no contexto da corrupção. Nem é preciso o registro expresso de seus nomes para que sejam de pronto identificados. Estão sempre em cartaz. Revezam-se na interpretação dos enredos no teatro das falcatruas.
Falemos primeiro do doleiro paranaense ora apontado como pivô de maracutaias que rendem, dia sim, outro também, vistosas manchetes. Ele ocupa o palco das malfeitorias há pelo menos duas décadas. Desde os tempos da megalavagem de dinheiro via Banestado, ocorrência que jaz um tanto esquecida. Age nacionalmente. Não quer saber de vínculos partidários. Optou pelo “ecumenismo” nas ações fraudulentas solícitamente coordenadas a mando de bandalhos de diferentes siglas. Corteja e é cortejado por gente poderosa, que não esconde sua gratidão pelos serviços executados.
Olhando bem as coisas, o estilo de atuação do doleiro paranaense é parecido com o daquele “banqueiro de bicho” das plagas goianas, também volta e meia no centro de maquinações de alguma tramoia rendosa qualquer. As parcerias firmadas por este outro manjado personagem do “cast” da corrupção garantem-lhe prestígio e proteção em círculos também de abrangente espectro político. Os comparsas filiam-se a diferentes legendas. São, igualmente, companheiros incondicionais para o que der e vier, no caso da barra pesar em demasia.
A situação do doleiro e do “banqueiro de bicho” guarda semelhança no tocante às técnicas operacionais empregadas e nos aliciamentos de pessoas, com outro desses insinuantes caras. Este, também, um “bambambã” em proezas audaciosas boladas com propósitos de “vencer na vida” a qualquer preço. Banqueiro festejado, de olho guloso em “oportunidades” variadas, é um cara que já andou se emaranhando, luas passadas, nas malhas da lei. Desvencilhou-se da encrenca, pelo menos temporariamente, salvo pelo gongo graças a um providencial “habeas corpus”. Medida de segurança essa, específica, hiper criticada nos meios jurídicos. Aconteceu, também, algo inesperado que tornou ainda mais desconcertante o episódio. Os encarregados do inquérito de indiciamento do referido cidadão viram-se implacavelmente alvejados à conta do laborioso trabalho investigativo por eles produzido.
A história desses delinquentes de alto coturno e a de outros mais tem – repita-se - muito em comum. Os figurinos de atuação são idênticos. Mesmo monitorados, eles continuam a desfrutar de incompreensível impunidade, circunstancia que lhes assegura sobra de tempo pra, de repente, se envolverem em novas aprontações. Isso acontece, entre outras razões, por obra de processos enervantemente morosos.
Até agora, como sabido, um único entre os operadores desses esquemas mafiosos foi julgado e condenado. O articulador do “mensalão mineiro” e do “mensalão federal”.
Tanto quanto os demais, esse aí demonstrou engenho e criatividade na aglutinação dos componentes dos bandos favorecidos e nas fórmulas adotadas de lesão ao patrimônio público. Não revelou “preferencia” a correntes políticas. Envolveu-se com representantes de quase todas. Ou seja, com elementos que, na cena social, conseguem permanecer, por certo tempo, “acima de qualquer suspeita”. Alguns deles, ao lado do governo. Outros, contrários ao governo. Outros mais, nem a favor, nem contra o governo, muito pelo contrário. Uma turma, felizmente minoria no cenário político, mas a exemplo dos operadores das mutretas, seus eficientes comparsas, endiabrada da breca, como era de costume dizer-se em tempos antigos.


*O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quarta, 30 Abril 2014 21:32

O editado e o inédito

Escrito por

Frei Betto*, publicado originalmente em O Mercado Ético
Meu amigo Alfredo não entende por que continuo frade, crítico ao capitalismo e convencido de que verdade e palavra de Jesus coincidem.
Não cabe na cabeça dele minha opção de não formar uma família e ter “desperdiçado” as oportunidades que a vida me ofereceu de sucesso profissional como leigo.
Aos 22 anos fui assistente de direção de José Celso Martinez Corrêa na montagem de “O rei da vela”, peça de Oswald de Andrade. Aprendi o ofício e fiquei tentado a dedicar-me de corpo e alma à direção teatral.
Aos 23, trabalhei como chefe de reportagem da “Folha da Tarde”, em São Paulo. E em 2004 renunciei à função de assessor especial da Presidência da República.
Segundo Alfredo, “tivesse cabeça, você não estaria enfiado em uma cela de convento, vivendo de minguados direitos autorais e eventuais palestras remuneradas.”
Embora Alfredo e eu sejamos amigos, há entre nós enorme diferença no modo de encarar a vida. Ele é alto executivo de uma empresa multinacional, tem um casal de filhos, possui fazenda e casa de praia, e adora passar temporadas em Nova York.
Em matéria de religião, ele cultiva um agnosticismo que não o impede de ser devoto de São Judas Tadeu e trazer no pescoço um cordão de ouro com a medalha de Nossa Senhora das Graças.
Repito sempre a Alfredo: “Você é um homem editado.” Devidamente moldado, como um boneco de gesso, pela cultura capitalista-consumista que respiramos.
Ele gosta de exibir roupas de grife, frequentar clubes sofisticados e restaurantes da moda, e trocar de carro a cada 15 mil km rodados.
Prefiro ser um homem inédito. Não invejo o estilo de vida de Alfredo, nem duvido de que ele seja feliz assim. Recuso-me, porém, a submeter-me aos “valores” do sistema que exalta a competividade, e não a solidariedade, e gera tanta desigualdade social.
Minha felicidade estaria em risco se eu me deixasse possuir por bens materiais que me exigiriam cuidados constantes. Minha existência não é norteada por status, finanças ou patrimônio. É o sentido solidário que imprimo à vida que me faz feliz. Nem me considero mais feliz que a média. Felicidade não se compara.
O poço no qual sacio a minha sede é aberto ao Transcendente. E me faz muito feliz não ter que me preocupar com bens materiais, pois nada possuo, exceto as roupas que visto, os livros que coleciono e um carro Fox básico que me foi presenteado.
Quem muito possui, muito tem a perder. Não é o meu caso. Meu bem mais precioso é também o de Alfredo e de todos nós – a vida. Sei que um dia haverei de perdê-la, como ocorre a todos. Alfredo fica horrorizado quando se toca neste tema. Ele quase se julga imortal. Porque terá muito a perder quando a morte chegar.
Esta diferença é marcante entre nós: o sentido que imprimo à minha vida justifica a minha morte. Não é o caso de meu amigo nem de homens e mulheres editados. Eles nutrem sempre a ambição de terem mais e mais. O necessário jamais é suficiente para eles. Não suportam a ideia de terem um futuro de quem mora de aluguel, anda de ônibus, e vai ao shopping apenas para ver as vitrines e tomar sorvete.
O homem e a mulher editados são aqueles que apostam tudo no sistema no qual vivem e acreditam. O homem e a mulher inéditos olham além do próprio umbigo e ficam indignados com tanta miséria e injustiça. Empenham suas vidas na busca de outros mundos possíveis. Acreditam em ideiais e utopia. E são felizes justamente por se sentirem como a cortiça na água, que nunca submerge. Por isso, raramente sofrem desilusões, temem o fracasso ou se enchem de medicamentos para evitar a baixa autoestima.
O homem inédito é apenas alguém que não se deixa editar por nenhuma força – política, econômica, religiosa – que insiste em fazer dele o que não é.
O homem e a mulher editados apreciam autoajuda. O homem e a mulher inéditos preferem a outroajuda.
* Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.

http://www.freibetto.org/> ; twitter:@freibetto.

Sexta, 25 Abril 2014 15:59

Umas e outras

Escrito por

“Um pequeno grande equívoco.”

(Marcelo Neri, presidente do IPEA)

 

Por Cesar Vanucci *


Violência contra a mulher. Depois da celeuma levantada pelos dados divulgados, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) retornou a público para dizer que ocorreu um erro na tabulação da pesquisa relativa à violência contra a mulher. Se falha houve quanto aos aspectos metodológicos aplicados na consulta; se faltou rigor técnico na apuração dos dados; se o fato se originou de “um pequeno grande equivoco”, já que “estamos numa curva de aprendizado”, como tentou justificar Marcelo Neri, presidente da instituição; se tudo isso realmente rolou, uma coisa permaneceu estridentemente gravada no espirito popular. Setores ponderáveis da sociedade brasileira, percentual elevado de mulheres incluídas, confessaram-se muitíssimo intolerantes e preconceituosos na avaliação do comportamento feminino rotineiro. Mesmo que tenha havido queda na revisão procedida, de 65% para 25%, o índice que bota culpa nas mulheres, por conta das “vestes ousadas”, pela incidência de estupros é aberrante, assustadoramente alto. Roça as franjas do mais genuíno talebanismo.

Decisões em favor do crescimento. Parcela expressiva da opinião pública não atentou devidamente para o relevante significado econômico e social de algumas medidas na esfera da gestão pública anunciadas recentemente. As decisões tomadas dizem respeito aos leilões de concessão à iniciativa empresarial contemplando a construção e modernização de rodovias – tronco nas diferentes regiões do país. Inseridas na segunda etapa do PIL (Programa de Investimentos em Logística), os leilões promovidos atingem trechos rodoviários superiores a 4 mil quilômetros, implicando em investimentos globais de 28 bilhões de reais. São obras de pavimentação e duplicação a serem efetivadas, segundo os planos traçados, ao longo de cinco anos. As rotas correspondentes as tais concessões atravessam territórios de avantajada produção agropastoril. Com os investimentos a serem aplicados garantirão condições acentuadamente mais propícias no transporte de cargas valiosas aos portos marítimos de escoamento de bens exportáveis. O esquema de licitações adotado prevê, ainda, na região norte, a utilização de aquavia pelo rio-mar Amazonas para a circulação de riquezas destinadas ao mercado internacional. Apontado pelo governo federal como essencial no processo de desenvolvimento, traduzindo um salto de qualidade em matéria de gestão pública, como entendido por produtores, exportadores e analistas econômicos, o sistema de concessões estabelecido para rodovias vai ser agora, também, estendido às ferrovias, atividades portuárias e de produção energética. Tudo leva a crer que desse conjunto de providencias resultará contribuição preciosa para acelerar o crescimento nacional. Boas falas.


Epidemia de cesáreas. O secretário Nacional de Atenção à Saúde, do Ministério da Saúde, médico mineiro Helvécio Magalhães, ex-secretário Municipal de Saúde de Belo Horizonte no governo Fernando Pimentel, reconhece uma situação constrangedora para todos nós, cidadãos brasileiros, médicos, mães. Contrariando regras de bom senso e de sentido humanitário aplicáveis à saúde pública, violentando recomendações da Organização Mundial de Saúde, “existe uma epidemia de cesárias no País!” Ignorância, comodismo, ausência de critério médico rígido concorrem para a anômala situação. Só no SUS, 42% dos partos implicam em procedimentos cirúrgicos. A média nacional de cesarianas executadas é maior: 53%. A indiferença geral que circunda a momentosa questão ajuda a explicar episodio recente, indicativo da gravidade assumida pelo problema, acrescido de variável que escancara uma clara violação de direitos humanos. Em Torres, no Rio Grande do Sul, contra sua própria vontade, uma gestante foi levada a hospital sob escolta policial e submetida à força a uma cesárea, por conta de medida judicial definida a pedido dos médicos que a atenderam.

*O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Por Aron Belinky*
Ecochato, natureba, biodesagradável… Não é de hoje que piadinhas refletem o conflito entre o apelo fácil e sensual do consumismo e o discurso geralmente moral e limitador de quem, querendo ser sustentável, acaba ficando insuportável. A fantasia coletiva e o desejo individual falam mais alto que o fato evidente de que – como decorrência dos limites planetários – o modelo de produção e consumo que nos trouxe até aqui não será capaz de prover bem-estar aos bilhões de pessoas que, de fora, assistem à festa dos incluídos. E agora? Como mudar um sistema no qual – por convicção, ilusão, conveniência ou falta de opção – aposta a maioria da humanidade?
O difuso movimento pela sustentabilidade enfrenta um duplo desafio: não só mostrar que superou a dicotomia ambiental versus social mas também não ser visto como um estraga prazeres retrógrado, saudosista e excludente. Na publicação de pesquisa realizada pelo Instituto Akatu, em 2010, resumimos uma proposta:
“Para ganhar os corações, mentes e bolsos dos consumidores, a Sustentabilidade, a RSE e o Consumo Consciente precisam ser apresentados não como conceitos sofisticados, mas traduzidos em práticas e propostas concretas. E essas não podem ser percebidas pelo público como imposições restritivas, mas sim como uma boa alternativa ao consumismo vazio, angustiante e insustentável. Vistas como o caminho mais curto, barato e desejável rumo à felicidade, que é, ao final, o que todos almejamos”.
Em 2012 o Akatu realizou nova pesquisa, avançado nesse caminho com metodologias inéditas na área. O relatório Rumo à Sociedade do Bem-Estar resume seus resultados, e traz interessantes perspectivas, com destaque para uma “priorização de desejos” utilizando o modelo de Escalonamento por Máximas Diferenças, mais conhecido como MaxDiff. Trata-se uma ferramenta amplamente utilizada no marketing para mensurar quanto certos atributos desejáveis são mais (ou menos) preferidos pelo público quando comparados a outros atributos, também desejáveis.
RESULTADOS PROVOCANTES
Sem saber que o assunto era sustentabilidade, 800 consumidores de todo o Brasil, das classes A, B, C e D, priorizaram 16 “desejos”, sobre oito temas do seu cotidiano. Os entrevistados também não tinham como saber que esses “desejos” apontavam para caminhos diferentes: metade rumando para uma sociedade mais sustentável, metade seguindo o atual modelo consumista. O que se viu foi surpreendente e animador: em todas as classes de renda (e também de idade, região etc.) predominou a preferência pelo “caminho sustentável” (veja gráfico ao lado). A publicação do Akatu traz conclusões detalhadas, e pode ser baixada aqui. Sem deixar de reconhecer possíveis limitações, é uma metodologia consistente, que trouxe resultados provocantes. Um exemplo ilustra bem a situação encontrada: misturadas entre as 16 frases que representavam os “desejos” propostos aos entrevistados, estavam as seguintes: “Quero ter tempo para estar junto com as pessoas de que gosto” e “Quero comprar presentes para agradar as pessoas de que gosto”.
Evidentemente, a primeira frase aponta para um caminho mais sustentável, enquanto a segunda reproduz o consumismo vigente. Numa escala de 0 a 10, o índice médio de preferência dos consumidores da classe A pela primeira frase foi de 9,5 e, pela segunda, 2,2. Na classe B, esse placar foi 8,8 contra 2,2. Na classe C, 8,2 contra 2,6 e, na classe D, 7,6 contra 3,3.
Importante notar que essas frases estavam misturadas com todas as demais, e não foram confrontadas diretamente entre si (o que poderia trazer o viés da resposta “politicamente correta”).
Os dados mostram que, quanto mais baixa a renda, menor a diferença na preferência dada ao caminho sustentável frente ao consumista (um resultado esperável, considerando-se a carência e a frustração de quem vive à margem da festa do consumo). Mas mostram também que, apesar disso, mesmo entre os mais carentes, não é o consumismo que mais diretamente dialoga com as aspirações dos entrevistados, mas sim os valores do bem-estar e do bem viver.
Para quem trabalha por uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável, a boa notícia é que há demanda pelo que temos a oferecer. O desafio, que persiste, é traduzir nossa mensagem: em vez de frustrar sonhos e castrar aspirações com um discurso apocalíptico ou por demais racionalista, aprender a falar ao desejo do consumidor, a mostrar caminhos atraentes e viáveis. Reconhecer a voz das ruas e dialogar com ela é o primeiro e necessário passo.
*Aron Belinky é coordenador do Programa Finanças Sustentáveis do GVces. Anteriormente, foi também o responsável pelas pesquisas do Instituto Akatu mencionadas neste artigo. Artigo publicado no site Página 22; reproduzido com adaptações conforme licença Creative Commons.

Segunda, 14 Abril 2014 19:16

Essas agências de risco...

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Por Cesar Vanucci *
“Coisa mais sem pé nem cabeça: um órgão técnico qualquer, com sede em lugar distante, meter-se por aí a aplicar notas sobre as atividades econômicas e sociais de países e empresas dos quais nada ou pouco conhece!”

(Domingos Justino, educador).


O semblante encrespado, assumindo pose majestática própria de alguém que se acredita investida, por desígnios divinos, da sagrada e tormentosa missão de anunciar pra patuleia a data fatal do juízo final, a toda poderosa economista-chefe da “Standar & Poor´s” comunicou, com pompa solene, o rebaixamento da nota de classificação do Brasil. A manjada turma do contra vibrou com a novidade. A impávida economista-chefe voltaria, pouco depois, a ocupar o púlpito, exibindo mesma fleuma doutoral, característica dos que se rejubilam em desempenhar papel de “papagaio falante” do senhor “deus-mercado”. Caprichando pra valer na entonação da fala, de modo a que as frases proferidas conseguissem traduzir, com precisão, incisos conceitos, arremessou outras notas de rebaixamento estipuladas por sua agencia, alvejando um punhado de prosperas empresas brasileiras, entre elas, o Banco do Brasil, a Petrobras, a Caixa Econômica Federal, o Banco Itaú, o BNDEs, a Sul América Seguros, o Bradesco, a Eletrobrás.

E não é que parte da grande mídia, fazendo o jogo de grupos políticos tendenciosos, ávidos por conturbar a qualquer preço a economia nestes momentos preliminares da campanha eleitoral, resolve sem mais essa nem aquela dar eco exagerado a essa prosa desatinada? Resolve conceder credito gracioso (será que o vocábulo fica bem colocado?) a essa papagaiada toda? Decide transformar meros palpites técnicos, de origem estrangeira e altamente suspeitosos, em dogmas de fé com consistência granítica?

Expliquem-nos, por favor. Que pessoal é esse que, volta e meia pinta no pedaço com panca presunçosa distribuindo notas de desempenho a torto e a direito, interferindo intempestivamente na intimidade doméstica dos chamados países emergentes? De qual fonte do poder provem essa marota delegação conferida a uma meia dúzia de órgãos alienígenas que saem soltos por aí, ditando regras em terras e propriedades distanciadas de seus pontos de origem, alvejando atividades produtivas empenhadas na construção nacional? Por que razão vários órgãos da mídia acolhem sem vacilo e sem questionar os fajutos argumentos propalados por essas agencias em “boletins de mérito” instituídos sabe–se lá a mando de quais conveniências?
Interessa muita à cidadania conhecer a fundo todo esse cabuloso enredo. As “agencias de classificação de riscos”, comportando-se como “suprema corte”, ao emitirem suas “infalíveis” sentenças, acham-se subordinadas a algum poder legalmente reconhecido? No ver de abalizados analistas não passam, no duro da batatolina, de aberrações jurídicas. Tais analistas entendem ainda tratar-se de órgãos que não carregam consigo, no exercício de sua despoliciada e inglória empreitada, qualquer laivo de legitimidade. A impressão que passam é de um bando ruidoso de vulgares oportunistas, intrujões saídos das sombras, que atuam sempre em sintonia com as maquiavélicas aprontações da mega especulação. Mega especulação esta escancaradamente engajada, na hora atual, desafiando a sociedade brasileira, em patrocinar novo assalto especulativo a nossa florescente economia.

O tema rende mais uma fulminante e decisiva indagação. Alguém por aí em plenas condições de esclarecer devidamente o porquê de esses gringos sabichões terem se conservado em ensurdecedor silencio, sem disposição para divulgar “notas” e emitir “alertas”, frente a “bolha imobiliária” que explodiu devastadoramente em seus domínios territoriais e que mergulhou o mundo, quase que por inteiro, numa crise econômica tida socialmente como a mais cruel dos últimos tempos? Hein? E ai, gente boníssima?

*O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Segunda, 14 Abril 2014 15:24

Alimentos 0 km, além do marketing

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Por Esther Vivas*
Falar de produto 0 km está na moda. O movimento Slow Food começou a promover este conceito nos anos 1990 em defesa de uma alimentação local, saudável e de qualidade. O que chamam de comida “boa, limpa e justa”, em oposição à comida “fast food”. No entanto, agora, inclusive bancos como o Catalunyacaixa promovem seus serviços com este lema: “Banco 0 km, banco de proximidade”. O local, e mais ainda num contexto de crise, vende. Mas, o que queremos dizer quando falamos de 0 km? Trata-se de uma moda, de uma marca ou de uma aposta na mudança?
O pessoal do Slow Food tem isso claro. Promover os alimentos 0 km implica em apoiar uma agricultura local, de proximidade, ecológica, de estação, camponesa, resgatar variedades antigas que estão desaparecendo, comprar diretamente do pequeno produtor, recuperar a nossa gastronomia. Uma cozinha na qual não há lugar para os transgênicos ou para aqueles cultivos que contaminam o meio ambiente e a nossa saúde. Uma alimentação que defende produzir, distribuir e consumir à margem da agroindústria e dos supermercados. Comer bem, em suma, em benefício da maioria, seja no campo ou na cidade.
Uma proposta que pegou. Tanto que alguns a utilizam inclusive como mero instrumento de marketing, esvaziando-a de conteúdo, com o único objetivo de vender mais. O Catalunyacaixa é o expoente máximo. Não tem vergonha em definir-se, na Catalunha, como “banco 0 km”, e acrescenta “trabalhando aqui e para as pessoas daqui”. Embora dissesse melhor: “enganar e trapacear aqui e para as pessoas daqui”. Os supermercados não ficam de fora. Agora, o Carrefour, Mercadona, Alcampo, Eroski, El Corte Inglés dizem apostar no local. Esquecem, no entanto, que suas práticas, precisamente, acabaram com o comércio, o emprego e a agricultura locais.
Em tempos de crise, a alimentação com bandeira vende. Consumo nacional e alta qualidade. Na França, há anos, a extrema direita reclama o “Made in France”, isso sim, sangue puro. Antes, o Partido Comunista francês abraçava esta consigna. Nos Estados Unidos, os conservadores, nos anos 1990, fizeram campanha com a consigna “Buy American” contra o Tratado de Livre Comércio da América do Norte. E aqui, agora, alardeia-se o “Hecho en España”. Primeiro o de casa. Exigir local, ao contrário, nada tem a ver com uma questão de bandeiras, mas de justiça. O leitmotiv do 0 km encontra-se nas antípodas do que defendem os que levantam estandartes.
Trata-se de promover uma produção e um consumo de proximidade com o imprescindível olhar da soberania alimentar, devolvendo a capacidade de decidir das pessoas, apostando em um mundo rural vivo, com total respeito à “Mãe Terra” e em aliança e solidariedade com os outros povos. O contrário dos chovinismos e racismos. Nada a ver com o agronegócio e o poder financeiro. Apenas dessa maneira a defesa do local faz sentido.
* Tradução de espanhol para português de André Langer para Ihu.unisinos.br.
Publicado originalmente no jornal espanhol Público

Quarta, 09 Abril 2014 21:39

Reintegrar-se no espaço e no tempo

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Por Leonardo Boff

A partir dos anos 70 do século passado ficou claro para grande parte da comunidade científica que a Terra não é apenas um planeta sobre o qual existe vida. A Terra se apresenta com tal dosagem de elementos, de temperatura, de composição química da atmosfera e do mar que somente um organismo vivo pode fazer o que ela faz. A Terra não contém simplesmente vida. Ela é viva, um superorganismo vivente, denominado pelos andinos de Pacha Mama e pelos modernos de Gaia, o nome grego para a Terra viva.
A espécie humana representa a capacidade de Gaia ter um pensamento reflexo e uma consciência sintetizadora e amorosa. Nós, humanos, homens e mulheres, possibilitamos à Terra apreciar a sua luxuriante beleza, contemplar a sua intrincada complexidade e descobrir espiritualmente o Mistério que a penetra.
O que os seres humanos são em relação à Terra é a Terra em relação ao cosmos por nós conhecido. O cosmos não é um objeto sobre o qual descobrimos a vida. O cosmos é, segundo muitos cosmólogos contemporâneos (Goswami, Swimme e outros), um sujeito vivente que se encontra num processo permanente de gênese. Caminhou 13,7 bilhões de anos, se enovelou sobre si mesmo e madurou de tal forma que num canto dele, na Via Láctea, no sistema solar, no planeta Terra, emergiu a consciência reflexa de si mesmo, de donde veio, para onde vai e qual é a Energia poderosa que tudo sustenta.
Quando um ecoagrônomo estuda a composição química de um solo, é a própria Terra que estuda a si mesma. Quando um astrônomo dirige o telescópio para as estrelas, é o próprio universo que olha para si mesmo.
A mudança que esta leitura deve produzir nas mentalidades e nas instituições só é comparável com aquela que se realizou no século 16 ao se comprovar que a Terra era redonda e girava ao redor do sol. Especialmente, a transformação de que as coisas ainda não estão prontas, estão continuamente nascendo, abertas a novas formas de autorrealização. Consequentemente, a verdade se dá numa referência aberta e não num código fechado e estabelecido. Só está na verdade quem caminha com o processo de manifestação da verdade.
“Não temos a idade que se conta a partir do dia do nosso nascimento. Temos a idade do cosmos”
Importa, antes de mais nada, importa reintegrar o tempo. Nós não temos a idade que se conta a partir do dia do nosso nascimento. Nós temos a idade do cosmos. Começamos a nascer há 13,7 bilhões de anos, quando principiaram a se organizar todas aquelas energias e materiais que entram na constituição de nosso corpo e de nossa psique. Quando isso madurou, então nascemos de verdade, e sempre abertos a outros aperfeiçoamentos futuros.
Se sintetizarmos o relógio cósmico de 13,7 bilhões de anos no espaço de um ano solar, como o fez Carl Sagan no seu livro Os dragões do Eden (N.York, 1977, 14-16), e querendo apenas realçar algumas datas que nos interessam, teríamos o seguinte quadro:
A primeiro de janeiro ocorreu o Big Bang. A primeiro de maio o surgimento da Via Láctea. A nove de setembro, a origem do sistema solar. A 14 de setembro, a formação da Terra. A 25 de setembro, a origem da vida. A 30 de dezembro, o aparecimento dos primeiro hominídeos, avós ancestrais dos humanos. A 31 de dezembro, os primeiros homens e mulheres. Nos últimos 10 segundos de 31 de dezembro foi inaugurada a história do homo sapiens/demens, do qual descendemos diretamente. O nascimento de Cristo ter-se-ia dado precisamente às 23 horas 59 minutos e 56 segundos. O mundo moderno teria surgido no 58º segundo do último minuto do ano. E nós, individualmente? Na última fracção de segundo antes de completar meia-noite.
Em outras palavras, somente há 24 horas o universo e a Terra têm consciência reflexa de si mesmos. Se Deus dissesse a um anjo “procure no espaço e identifique no tempo a Denise ou o Edson ou a Silvia”, certamente não o conseguiria porque eles são menos que um pó de areia vagando no vácuo interstelar e começaram a existir há menos de um segundo. Mas Deus, sim, porque Ele escuta o pulsar do coração de cada filho e filha seus, porque neles o universo converge em autoconsciência, em amorização e em celebração.
Uma pedagogia adequada à nova cosmologia nos deveria introduzir nestas dimensões que nos evocam o sagrado do universo e o milagre de nossa própria existência. Isso em todo o processo educativo, da escola primária à universidade.
Em seguida faz-se mister reintegrar o espaço dentro do qual nos encontramos. Vendo a Terra de fora da Terra, nós descobrimos um elo de uma imensa cadeia de seres celestes. Estamos numa dos 100 bilhões de galáxias, a Via Láctea. Numa distância de 28 mil anos-luz de seu centro; pertencemos ao sistema solar, que é um entre bilhões e bilhões de outras estrelas, num planeta pequeno mas extremamente aquinhoado de fatores favoráveis à evolução de formas cada vez mais complexas e conscientizadas de vida: a Terra.
Na Terra nos encontramos num Continente que se independizou há cerca de 210 milhões de anos, quando a Pangea (o continente único da Terra) se fraturou e ganhou a configuração atual. Estamos nesta cidade, nesta rua, nesta casa, neste quarto, e nesta mesa, diante do computador, a partir de onde me relaciono e me sinto ligado à totalidade de todos os espaços do universo.
Reintegrados no espaço e no tempo, nos sentimos como Pascal diria: um nada diante do Todo e um Todo diante do nada. E nossa grandeza reside em saber e celebrar tudo isso.
Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.

Quarta, 02 Abril 2014 20:39

1964: os generais sob a estratégia americana

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Por Luiz Alberto Moniz Bandeira*
A partir da vitória da Revolução Cubana, em 1960, as atenções dos Estados Unidos voltaram-se mais e mais para a América Latina. A Junta Interamericana de Defesa (JID), por sugestão dos Estados Unidos, aprovou a Resolução XLVII, em dezembro daquele ano, propondo que as Forças Armadas, consideradas a instituição mais estável e modernizadora no continente, empreendessem projetos de “ação cívica” e aumentassem sua participação no “desenvolvimento econômico e social das nações”. Pouco tempo depois, em janeiro de 1961, ao assumir o governo dos Estados Unidos, o presidente John F. Kennedy (1961 – 1963) anunciou sua intenção de implementar uma estratégia tanto terapêutica quanto profilática, com o objetivo de derrotar a subversão, onde quer que se manifestasse. E o Pentágono passou a priorizar, na estratégia de segurança continental, não mais a hipótese de guerra contra um inimigo externo, extracontinental (União Soviética e China), mas a hipótese de guerra contra o inimigo interno, isto é, a subversão. Essas diretrizes, complementando a doutrina da contra-insurreição, foram transmitidas, através da JID e das escolas militares no Canal do Panamá, às Forças Armadas da América Latina, região à qual o presidente Kennedy repetidamente se referiu como the most critical area e the most dangerous area in the world ["a área mais crítica" e "a área mais perigosa no mundo"].
O surto de golpes desfechados pelas Forças Armadas no continente a partir de então decorreu não somente de fatores domésticos, mas, sobretudo, da mudança na estratégia de segurança do hemisfério pelos Estados Unidos. O objetivo da intervenção das Forças Armadas no político era o alinhamento às diretrizes de Washington dos países que se recusavam a romper relações com Cuba.
Embora golpes de Estados fossem quase rotineiros na América Latina, os que ocorreram a partir de 1960 não decorreram das políticas nacionais. Antes, constituíram batalhas da Terceira Guerra Mundial oculta [hidden World War Three], um fenômeno de política internacional, resultante da Guerra Fria. E aí era necessário criar as condições objetivas, tanto econômicas quanto sociais e políticas, que compelissem as Forças Armadas a desfechá-los. A essa tarefa, a CIA se dedicou, através de spoiling operations, operações de engodo, uma das quais consistia em penetrar nas organizações políticas, estudantis, trabalhistas e outras para induzir artificialmente a radicalização da crise e favorecer a derrubada do governo por meio de um golpe militar.
No Brasil, desde que os comandantes das Forças Armadas não conseguiram impedir que o vice-presidente João Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), assumisse o governo, em agosto de 1961, em virtude da renúncia do presidente Jânio Quadros, a CIA começou a dar assistência aos diversos setores da oposição que conspiravam para derrubá-lo. Em 1962, a CIA gastou entre US$ 12 milhões e US$ 20 milhões financiando a campanha eleitoral de deputados de direita, através de organizações que seus agentes criaram, como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e a Ação Democrática Parlamentar. O número de deputados cuja campanha essas e outras frentes da CIA elegeram não compensou. Mas as spoiling operations prosseguiram.
Em meados de 1963, o Pentágono tratou de elaborar vários planos de contingência a fim de intervir militarmente no Brasil caso o presidente João Goulart, reagindo às pressões econômicas dos Estados Unidos, inflectisse mais para a esquerda, ultranacionalista, no estilo do governo do presidente Getúlio Vargas.
Mais ou menos à mesma época, em 13 de junho de 1963, a Embaixada do Brasil em Washington, sob a chefia do embaixador Roberto Campos, enviou ao Itamaraty o documento Política Externa Norte-Americana – Análise de Alguns Aspectos, anexo 1 e único ao Ofício nº 516/900 (Secreto), no qual comentou que as pressões do Pentágono estavam a levar os Estados Unidos a reconhecer e a cultivar “relações amistosas com as piores ditaduras de direita”, pois “do ponto de vista dos setores militares de Washington tais governos são muito mais úteis aos interesses da segurança continental do que os regimes constitucionais”.
Os agentes da CIA, entrementes, executavam as mais variadas modalidades de operações políticas (PP), covert actions [ações encobertas] e spoiling actions. Em 12 de setembro de 1963, cabos, sargentos e suboficiais, principalmente da Aeronáutica e da Marinha, liderados pelo sargento Antônio Prestes de Paulo, sublevaram-se, em Brasília, e ocuparam os prédios da Polícia Federal, da Estação Central da Rádio Patrulha, da Rádio Nacional e do Departamento de Telefones Urbanos e Interurbanos. O movimento serviu como provocação e contribuiu para colocar a oficialidade das Forças Armadas a favor do golpe de Estado. A campanha da CIA prosseguiu, instigando greves tanto nas cidades como nas fazendas, e com outras ações, cada vez mais radicais, para que caracterizassem uma guerra revolucionária, denunciada pelo deputado Francisco Bilac Pinto, da UDN, em vários discursos na Câmara Federal, nos quais acusava o presidente Goulart de apoiá-la. E, a fim de que se afigurasse uma insurreição comunista em andamento, entre 25 e 27 de março de 1964, José Anselmo dos Santos, conhecido como “cabo Anselmo”, mas na verdade um estudante universitário infiltrado entre os marinheiros pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar) em colaboração com a CIA, liderou centenas de marinheiros, que decidiram comemorar o aniversário da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, desacatando a proibição do ministro da Marinha, almirante Sílvio Mota, e correram para a sede do Sindicato dos Metalúrgicos, no Rio de Janeiro, a fim de comprometer os trabalhadores com o movimento. Os fuzileiros, enviados para invadir o sindicato, desalojar e prender os marinheiros, terminaram por aderir ao motim. O Exército teve de intervir para sufocá-lo.
O episódio visou a encenar uma repetição da revolta no encouraçado Potemkin, que desencadeou na Rússia a revolução de 1905. Esse motim agravou os efeitos da revolta dos sargentos e empurrou o resto dos oficiais legalistas para o lado dos conspiradores. As Forças Armadas não podiam aceitar a quebra da hierarquia e da disciplina. Goulart já havia perdido então quase todo o respaldo militar. Entre 31 de março e 1° de abril, ele ouviu de muitos oficiais superiores que eles não estavam contra seu presidente, mas “contra o comunismo”, fantasma que servia como pretexto ao golpe.
Quatro dias antes do golpe, o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, telefonou a Washington e demandou o envio de petróleo e lubrificantes para facilitar as operações logísticas dos conspiradores, além do deslocamento de uma força naval. Em 30 de março, a estação da CIA no Brasil transmitiu a Washington, segundo fontes em Belo Horizonte, que “uma revolução levada a cabo pelas forças anti-Goulart terá curso esta semana, provavelmente em poucos dias”, e marcharia para o Rio de Janeiro. No mesmo dia, no momento em que o presidente João Goulart discursava para os sargentos no Automóvel Club, o secretário de Estado, Dean Rusk, leu para o embaixador Lincoln Gordon, por telefone, o texto do telegrama n° 1.296, sugerindo que, como os navios carregados de armas e munições não podiam alcançar o Sul do Brasil antes de dez dias, os Estados Unidos poderiam enviá-las por via aérea. Ele receava que naquelas poucas horas houvesse uma acomodação, o que seria deeply embarrassing para o governo norte-americano.
O motim dos marinheiros, em 26 de março, constituiu a provocação que o general Humberto de Alencar Castello Branco esperava para induzir a maioria dos militares a aceitar a ruptura da legalidade. O golpe estava previsto para depois da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, no Rio de Janeiro, marcada para 2 de abril e financiada pela CIA. Porém, o general Olímpio Mourão Filho, comandante da IV Região Militar, com sede em Juiz de Fora (MG), afoitou os acontecimentos.
Os militares brasileiros, decerto, não teriam desfechado o golpe se não contassem com a cobertura dos Estados Unidos. Porém, para que os Estados Unidos pudessem fornecer ajuda militar, seria preciso dar aparência de legitimidade ao golpe. E por telefone, de seu rancho no Texas, em 31 de março, o presidente Lyndon B. Johnson deu luz verde ao secretário de Estado assistente para a América Latina, Thomas Mann.
O golpe de Estado estava consumado, coadjuvado pelo senador Auro de Moura Andrade, que declarou, ilegalmente, a vacância da Presidência. O deputado Pascoal Ranieri Mazzilli, o primeiro na linha de sucessão como presidente da Câmara Federal, assumiu o governo. Não se observou nenhuma formalidade legal.
Não obstante, o embaixador Lincoln Gordon recomendou ao Departamento de Estado o reconhecimento do novo governo e o presidente Lyndon B. Johnson telegrafou imediatamente a Mazzilli para felicitá-lo. O reconhecimento diplomático era um dos elementos necessários para o estabelecimento da autoridade do governo. O objetivo da pressa fora justificar o atendimento a qualquer pedido de auxílio militar por parte do novo governo.
O golpe de Estado que derrubou em 1964 o presidente João Goulart e se autoproclamou “Revolução Redentora” tipificou o conjunto das operações que a CIA desenvolveu e aprimorou. No seu diário, o agente da CIA Philip Agee, então alocado em Montevidéu, assinalou que a queda de Goulart fora, “sem dúvida, devida amplamente ao planejamento cuidadoso e a campanhas consistentes de propaganda que remontaram pelo menos à eleição de 1962″. Goulart sabia-o. Ao chegar a Brasília, em 1° de abril, ele disse ao deputado Tancredo Neves que a CIA havia inspirado a sublevação, reiterando o propósito de não se render. E seguiu para o Rio Grande do Sul onde percebeu que também não havia condições de resistência.
A satisfação foi tão grande em Washington que, em 3 de abril, às 12h26, o secretário de Estado assistente para a América Latina,Thomas Mann, telefonou para o presidente Lyndon B. Johnson: “Espero que esteja tão satisfeito em relação ao Brasil quanto eu”. Johnson respondeu: “Estou”. Mann continuou: “Acho que é a coisa mais importante que aconteceu no hemisfério em três anos”. Johnson arrematou: “Espero que nos deem algum crédito em vez do inferno”.
* Luiz Alberto Moniz Bandeira é doutor em ciência política, professor titular de história da política exterior do Brasil na Universidade de Brasília, autor de mais de 20 obras publicadas, entre as quais O Governo de João Goulart – As Lutas Sociais no Brasil (1961-1964) – Editora Unesp, Presença dos Estados Unidos no Brasil, Formação do Império Americano (Da Guerra contra a Espanha à Guerra no Iraque) e A Segunda Guerra Fria – Geopolítica e Dimensões Estratégicas dos Estados Unidos (Das rebeliões na Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio).

Terça, 01 Abril 2014 21:00

O todo poderoso “mercado”

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

"A Bolsa despencou por causa de um feriado nos Estados Unidos."
(É o que propalou a mídia, algum tempo atrás)

 

As pessoas que desejam o melhor ao Brasil, notadamente as que atuam na comunicação social, bem que poderiam firmar um pacto no sentido de desmistificar e desqualificar as forças contrárias aos interesses nacionais que se movimentam por aí, com irresponsável desenvoltura, travestidas de "mercado".

Fico pasmado, dia sim outro também diante das reações cotidianas do tal "mercado". Onipotente, esse ser incorpóreo, com lampejo de vida estritamente ectoplásmico, é “convocado” a opinar a respeito de tudo, Ele funciona como uma espécie de sismógrafo viciado, medindo a conjuntura econômica a serviço escancarado dos grupos de assalto especulativo. Interpreta as coisas a seu exclusivo talante. Não se dá ao mais leve escrúpulo de disfarçar as contradições gritantes dos posicionamentos de encomenda. Mantém sob controle, a soldo, um batalhão de prestimosos colaboradores. Gente fervorosamente engajada em esforço conspiratório contrário às nossas aspirações de progresso. É só por tento no que tais colaboradores, que atendem pelos apelidos de "analistas", agências de risco etc., costumam aprontar a cada vez que nas áreas política, administrativa, tecnológica, produtiva – considerados aí os setores produtivos primário, secundário e terciário – se delineiem iniciativas ou atitudes estimuladas pelos interesses brasileiros de caráter desenvolvimentista. Tudo serve de pretexto para as soezes tentativas de apequenar-nos diante de nossos próprios olhos. Para fazer-nos crer que, os brasileiros, somos ineficientes, despreparados, sem condições, portanto, de almejar acesso a brevês que assegurem autonomia de voo mais ampla na conquista de novos espaços econômicos e sociais no contexto mundial.

O monitoramento feito pelo "mercado" é tendencioso e implacável. Por inexistir uma constatação à altura das impertinências praticadas, o "mercado" passa a ideia de infalibilidade. Defende com fervor frenético seus bolorentos dogmas. Suas reações têm força, para alguns, de édito real ao tempo em que as monarquias eram levadas a sério. São recebidas como clausulas pétreas no contrato comunitário em círculos não afeiçoados ao exercício da divergência democrática. Em face dessas circunstâncias, o "mercado" não se acanha de insultar a inteligência dos cidadãos, de alvejar despudoradamente o bom senso. Ele, "mercado", sabe muito bem que suas opiniões encontram sempre boa divulgação, agências de risco para respaldá-las, porta-vozes solícitos para justificá-las.

O "mercado", visto está, não se peja um tiquinho que seja, em lançar mão de arguições absurdas, quando colocado diante de pedidos de explicações dos setores mais lúcidos da opinião pública, com relação ao que ocorra de estranho na economia. Mantém engatilhado um pretexto extravagante para ocultar os incessantes ataques especulativos acobertados. Está aqui, como amostra, um exemplo dos procedimentos escalafobéticos que adota, sempre confiante na extremada simploriedade popular.

Num momento de razoável euforia face aos anúncios da ligeira reação nos negócios, da expansão significativa na balança comercial, da superação prematura da meta do "superávit primário"; justo nesse preciso momento, tempos passados, a Bolsa despencou. As taxas do dólar e do euro se elevaram e o "risco Brasil" (olha aí!) subiu. O que foi mesmo que o "mercado" saiu apregoando a respeito? Acredite, se quiser: a "causa" de toda a ebulição negativa foi um feriado ocorrido no meio de semana nos Estados Unidos.

A "explicação" é dada assim, com a mesma cara-de-pau com que se estaria levantando a hipótese maluca de que os "resultados adversos" decorreriam de uma crise de disenteria que acometeu os habitantes de uma vila na parte setentrional da Capadócia.

Valha-nos Nossa Senhora da Abadia D'Água Suja!


* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Sexta, 07 Fevereiro 2014 13:33

Questão social, não policial

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Não se viu, a propósito dos rolezinhos, um debate sobre as
causas estruturais que permitiram a essas mobilizações aflorar.”
(Senador Cristovam Buarque)

Fixei a atenção por momentos nos assim denominados rolezinhos. Precisei de curto tempo para concluir que a questão levantada é social, não policial. Pitadas de preconceito e de despreparo profissional é que andam conferindo ao caso dimensão despropositada. A contribuição da mídia sensacionalista revelou-se significativa para o espalhafato criado a respeito. Ou seja, desses encontros marcados em “shoppings” por jovens da periferia socialmente desguarnecida.

A história reclama diálogo urgente para que sejam desfeitos mal-entendidos. O debate terá que ser calcado num bom começo de conversa. Isso implica no reconhecimento taxativo do direito à livre circulação de qualquer cidadão, independente da categoria social, em todo e qualquer centro comercial. Em tudo quanto é lugar de convergência pública. A vedação pura e simples dessa prerrogativa cidadã, que está atrelada à liberdade constitucional de ir e vir, caracteriza inapelavelmente apartação social. Agressão a um direito fundamental, à democracia. Rescende a “apartheid”, para relembrar, desgostosamente, vocábulo repulsivo empregado para designar práticas segregacionistas ainda aplicadas em certas paragens deste nosso mundo velho de guerra sem porteira.

Assim vistos os acontecimentos, o melhor a fazer é partir imediatamente para a construção do diálogo. Comungo do ponto de vista do Prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, quando propõe que “as cidade têm de ser discutidas”, sugerindo sejam abertos espaços públicos para que seus habitantes de todas as faixas etárias e classes possam desfrutá-las. E, quando também pontua que a incompreensão de muita gente face ao assunto tem suscitado reações marcadas por exageros. “Mas nada, que uma boa conversa não resolva”, como sublinha.

O que os rolezinhos vêm fazendo é, na verdade, denunciar uma sociedade desumana, injusta e segregadora, como também constata o filósofo Leonardo Boff, entre outros categorizados observadores da conjuntura social. Cristovam Buarque, senador da República, é outra voz respeitada a partilhar da mesma percepção. Admite: os rolezinhos “desnudam o sistema de apartação implícita, sem leis.” Alerta ainda: “Daqui para a frente, os “shoppings” (...) terão um papel positivo no conforto social, mas a “guerrilha cibernética” (o senador refere-se aí às redes sociais utilizadas para a programação dos encontros dos jovens) é uma realidade com a qual vamos conviver. Ou assume-se a segregação explicita, ou promove-se a miscigenação social.”

Não era pra ser, mas virou problema, por ausência de bom senso no trato da questão. Moças e rapazes das camadas menos aquinhoadas financeiramente, a exemplo de rapazes e moças das camadas afortunadas, possuem todo o direito do mundo em programar pelas redes sociais encontros em lugares de afluência pública, os shoppings incluídos. Despiciendo registrar que ninguém, nenhum poder articulado, pode estabelecer restrições a esses contatos via internet, nem tampouco impedir sejam os encontros realizados em consequência de posturas preconceituosas de classe. De outra parte, habitualmente inábil na lida social, como fartamente demonstrado, a polícia não pode adotar na vigilância contra eventuais excessos praticados em locais públicos, o estilo “leão de chácara” de boate. Não se ajusta ao seu papel institucional exigir de quem frequente centros comerciais carteirinha indicativa de capacidade pecuniária como consumidor.

Fique claro, ainda, de outra parte, que encontros de jovens em lugares públicos não podem se aprestar a palco de arruaças e confusões. E que às autoridades competentes cumpre a obrigação de saber distinguir, com precisão e equilíbrio, a diferença de comportamento entre os que comparecem a tais locais para papear com amigos, usufruir momentos de lazer, adquirir mercadorias e os que – certeiramente, uma minoria insignificante – estejam ali a fim de infringir regras de convivência social. Confundir, por puro preconceito, jovens das periferias com marginais é insano e injusto. A turma dos rolezinhos dispõe de aparelhos de TV e de acesso aos demais veículos de comunicação de massa. Como os jovens de lares abonados financeiramente, são submetidos a um bombardeio midiático permanente, chamando atenção para as ofertas de produtos nas vitrinas multienfeitadas e coloridas das lojas dos shoppings. Adquirir produtos ou simplesmente admirá-los, por singelo prazer, hábito de tanta gente, não configura ato passível de condenação.

O Poder Público precisa saber extrair dos fatos as lições devidas. A abertura de espaços comunitários para a convivência humana é fator de grande significação nas politicas de integração social. A escola de tempo integral, com qualidade cultural, faz parte dessas politicas.

Resumindo toda essa “melódia”: em se tratando do Brasil, corremos riscos maiores com o “rolezão” da exclusão social acionada a partir de atitudes precipitadas e de intolerâncias descabidas, do que com os tais rolezinhos, manifestação juvenil que, na base de um papo legal, pode ser perfeitamente escoimada de algum possivel exagero que carregue em seu bojo.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

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