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Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

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Segunda, 09 Abril 2012 20:17

As clareiras abertas por Daniken

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Em tempos passados e primordiais, a Terra recebeu
visitas de seres desconhecidos, procedentes do Cosmo.”
(Erich von Daniken)

Erich von Daniken rodou pelo Brasil, sem o alarde, pelo menos na etapa cumprida em Beagá, que uma presença tão ilustre fizesse por merecer. A esplêndida palestra dada no Centro de Cultura Nansen Araújo do Sesiminas deixou-nos robustecidos na convicção de que as linhas basilares das idéias vanguardeiras que defende a respeito da suposta visita de astronautas, em tempos remotos, ao nosso planeta permanecem extremamente atuais.

As afirmações instigantes de seu primeiro livro – Eram os deuses astronautas? – que alcançou vendagens só sobrepujadas pela Bíblia, conservam o frescor primaveril de uma tese novidadeira, que todo mundo intui, naturalmente, possa vir a ser, a qualquer hora, confirmada. Suas declarações, ao contrário do que se imagina em redutos fundamentalistas, contêm inequívoco apelo místico. Acercam-se, de algum modo, daquilo que José Gabriel Fuentes, diretor do Observatório do Vaticano, arguido acerca da viabilidade da vida extraterrena, comenta: “Da mesma maneira que existe uma grande quantidade de criaturas na Terra, também podem existir outras formas de vida – até inteligentes – que também foram criadas por Deus.” Daniken vem se consagrando, uma vida inteira, à estóica, muitas vezes, ridicularizada tarefa de tentar provar a viabilidade da existência de vida inteligente fora desta minúscula ilhota perdida, chamada Terra, nesse oceano interminável de inexplicabilidades denominado Cosmos. Seus mais de trinta livros, traduzidos em 25 idiomas, com 63 milhões de cópias, documentam com argumentos poderosos e imagens desnorteantes, muitos deles interpretados de registros sagrados, a possibilidade deste nosso mundo, antes dos tempos de hoje, já haver abrigado outras formas de vida inteligente providas de avançados recursos tecnológicos.

O jornalista Rafael Cury, dirigente do Instituto Galileo Galilei, de Santa Catarina, órgão que patrocinou a vinda de Daniken ao Brasil (Brasília, Rio, São Paulo, Blumenau e Belo Horizonte), incumbiu-me, desvanecedoramente, da apresentação do famoso pensador à seleta platéia que participou do evento no Sesi.

Em breve fala, expliquei que a apresentação de um personagem desse gabarito seria, na verdade, dispensável. Disse sentir-me no papel de um locutor que, num estádio de futebol, houvesse sido designado, antes do espetáculo programado, pra fazer uma apresentação de Pelé. Mas como o protocolo apontava a conveniência daquela palavra introdutória, esforçando-me por torná-la breve, iria valer-me de informações a respeito do personagem, posto que fascinantes, óbvias por demais.

Daniken – acentuei – é o que se pode chamar de um contemporâneo do futuro. Alguém que enveredou, com empenho e desassombro, mata densa adentro, com espírito desbravador, abrindo picadas e formando clareiras na busca do conhecimento, de forma a permitir ao ser humano o exercício da curiosidade e da visão ilimitada para descobrir o por quê das coisas. Mostrou-nos que, pra enxergar mais longe, temos que olhar por cima dos muros que nos rodeiam. Proceder como aqueles navegadores do desbravamento marítimo: olhar as estrelas pra dar rumo ao navio. Brindou-nos com interpretação mítica deslumbrante do futuro, estimulando-nos a repensar o papel do homem no contexto do Universo. Aguçou nossa sede de conhecimento no sentido de entender melhor os prodígios da vida e pra formular perguntas, muitas perguntas, mesmo sabedores de que sempre nos defrontaremos com novas e mais perturbadoras perguntas do que com respostas. Lembrei, também, que nos sítios arqueológicos espalhados pelo mundo – alguns já por mim prazerosamente percorridos – os guias passam aos turistas as informações constantes da cartilha que lhes é dada, mas costumeiramente acrescentam informações a respeito de teorias bastante diferentes sobre o que realmente teria acontecido naqueles lugares, mencionando aí, sempre, o que se conta nos livros de von Daniken. Ou seja, a participação de seres inteligentes de outras civilizações em momentos significativos da construção humana. Concluí afirmando que as assertivas do escritor suíço colocam-no, no vasto cenário da inteligência humana, num patamar que acena com a mudança de paradigmas culturais engessados, visando a assimilação de conceitos descortinadores nos horizontes do conhecimento.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Quarta, 04 Abril 2012 21:00

Dois gênios da raça

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

Millôr e Chico, gênios insubstituíveis.”
(Jornalista Hélio Fernandes)

 

Confesso, em lisa e reta verdade, não saber bem pra onde mandar a reclamação. O que sei, escorado em compreensível inconformismo – não apenas meu, mas de um bocado de gente – é que a retirada de cena do palco da vida, assim sem mais nem menos, quase ao mesmo tempo, de dois legítimos gênios da raça, só pode mesmo ser interpretada como um baita despropósito. Uma censurável inadvertência do destino.

Mas, logo eles, o Chico e o Millôr? Com tanta celebridade de araque, inflada pelos "ouropéis" da fatuidade mundana, a dar sopa rasa aí na praça? Mas, logo esses dois super craques, titulares absolutos do escrete da inteligência, sem ninguém à vista no banco de reservas com o devido preparo para preencher seus postos? Convenhamos, os fados não se mostraram, desta feita, nada condescendentes com a cultura brasileira.

Percorro as alamedas da memória, a atenção desperta pra toda sorte de referências, revendo personagens que marcaram presença no plano do humor criativo, em diferentes momentos e cenários, desde as magistrais performances de Charlie Chaplin no cinema mudo até nossos dias. Chega-me rápido a constatação de que não andou pintando artista algum no pedaço com o talento de Francisco Anísio de Oliveira Paula Filho. Alguém que se mostrasse capaz de compor, com tamanho engenho e encantamento, tipos humanos tão identificados com a genuína alma das ruas. Poderá surgir, nalgum instante, o argumento de que, malgrado o ofuscante talento de Chico, a arte desse maranguapense (ufa!) inolvidável não conseguiu alcançar, ao contrário do que ocorreu com outras figuras exponenciais reveladas pelo cinema, sobretudo de Hollywood, ressonância mundial. O contra-argumento correto é de que, se culpa existe nesse caso, o prodigioso criador das mais de duzentas convincentes e saborosas caracterizações que arrancaram gargalhadas incontroláveis e magnetizaram multidões não tem nada a ver com isso. Afora dos domínios futebolísticos, ou, mais recentemente, de uma que outra modalidade esportiva olímpica, ou de nossa maravilhosa mpb, pouco se sabe lá fora do engenho de brasileiros bem providos de dons. Isso ajuda a explicar, por exemplo, o fato de romancistas e poetas do quilate de um Guimarães Rosa, de um Jorge Amado, de um Érico Veríssimo ou Carlos Drummond de Andrade, para ficar apenas numa amostragem de personagens destacados de nossa pujante seara literária, jamais terem tido os nomes lembrados para o Nobel.

Chico, proclame-se com justa ufania, projetou-se mesmo como o maior naquilo que fez. Um gênio sem igual. Arrisco até a endossar o que o jornalista Hélio Fernandes disse a respeito dele e de seu irmão Millor Fernandes: “gênios insubstituíveis”. Foi, além do mais, um cidadão nobre, de imenso coração e caráter.

Anos atrás, pela circunstância de frequentar amiúde a residência, no Rio de Janeiro, de meu saudoso irmão Augusto Cesar Vanucci, à época diretor da linha de shows e programas humorísticos da Rede Globo, participei de incontáveis encontros com elementos do mundo artístico. Esses prazenteiros contatos consolidaram em meu espírito a impressão de que os colegas de Chico dedicavam-lhe dose de admiração e apreço que ia muito além do esperado nos estritos termos da convivência profissional. O pessoal tinha-o na conta de líder, de amigo fraternal. Ele era o cara.

Este mestre da comunicação que acaba de nos deixar, brasileiríssimo na concepção do humor universal que nos legou, não tem como não ser reconhecido por todos como uma instituição nacional.

 

Um filósofo magistral


“O Millôr fazia rir pensando.”
(Zuenir Ventura, escritor)

 

Alguém afirmou, parece ter sido o Ziraldo, que Millôr Fernandes foi o maior filósofo brasileiro de todos os tempos. Recordo-me que, muitos anos atrás, num texto de Paulo Francis topei também com a afirmação de que Millôr era o escritor brasileiro mais completo. O que sabia, dentre todos, expressar-se com melhor precisão. Ou algo parecido.

Ambos têm razão de sobra no que disseram. Millôr Fernandes, escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor, cartunista utilizou magistralmente o humor para tornar públicas suas interpretações filosóficas do intrincado jogo da vida. Deixou impressas, no extenso itinerário intelectual percorrido, cintilações verdadeiramente geniais. Seus horizontes criativos foram de amplitude pode-se dizer cósmica. A erudição, sabedoria, acuidade social, poder de criatividade e senso de humor que compunham seus múltiplos talentos permitiram-lhe construir obra pujante e definitiva, fadada a permanecer como referência maiúscula na criação intelectual da língua pátria.

Millôr disparava sempre uma palavra precisa, impecável, para definir os lances do cotidiano, pra comentar as instigantes reações comportamentais dos seres que habitam este nosso amalucado planeta. Irreverente, desassombrado, mordaz, exercitou esplendidamente a crítica social, vergastando, com estilo inconfundível, as imposturas e a hipocrisia nas avaliações que fazia dos atos e decisões das lideranças descomprometidas com o bem comum. Combateu, com firmeza, os desvarios dos tempos autoritários, burlando a censura implacável e entregando à reflexão dos leitores escritos antológicos.

De certa feita, como paraninfo de uma turma de jornalistas, numa hora considerada ainda delicada do ponto de vista político, marcada por incertezas quanto à retomada democrática, produziu um discurso singular. A ode que fez à democracia surpreendeu e magnetizou o público, que acabou cobrindo sua fala com verdadeira ovação. Cessadas as ruidosas manifestações, o escritor explicou, entre gargalhadas e novos aplausos frenéticos, que as palavras que acabara de proferir haviam sido, todas elas, extraídas de pronunciamentos de um dignitário do poder autoritário. Quis, certamente, com o intrigante e bem humorado gesto, transmitir num estilo muito seu, a lição de que a retórica empregada nas ditaduras exalta sempre, descerimoniosamente, os valores mais elevados da convivência humana, enquanto que, na prática, os dirigentes se empenham mesmo é em jugulá-los, sob a enganosa alegação de que estão cuidando de resguardá-los.

Esse intelectual admirável, que ao deixar de ser visto contribuiu para que seu País se tornasse menos inteligente, presenteou-nos em seus livros, peças, charges, poemas, hai-kais, com frases inesquecíveis, reveladoras do conhecimento aprofundado que tinha da alma humana. Eis aqui, para deleite duradouro, algumas delas:
“Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem”. “Calúnia na internet a gente tem que espalhar logo, porque sempre é mentira”. “O dinheiro não dá felicidade. Mas paga tudo o que ela gasta”. “Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor”. “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”. “O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”. “O capitalismo não perde por esperar. Em geral, ganha 6% ao mês”. “Todo homem nasce original e morre plágio”. “Quando todo mundo quer saber é porque ninguém tem nada com isso”.

Isso aí. Millôr Fernandes, essa outra instituição legitimamente brasileira, confere vida, na verdade, àquilo que proclamava Bielinsk: “O que vive no povo inconscientemente e em estado virtual, encontra-se revelado e realizado no gênio”.

* O jornalista Cesar Vanucc (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ), escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

 

 

Quarta, 21 Março 2012 16:02

Profecias apocalípticas

Escrito por

Por Cesar Vanucci *


“Haverá escuridão total.”
(Princesa Kaoru Nakamaru, da casa real japonesa,
alertando para os dias de trevas que se aproximam)


Os profetas do apocalipse estão com tudo e com toda prosa. Anunciam, com fervorosa convicção, que chegado o final dos tempos. Utilizam interpretações de livros sagrados de diferentes correntes do pensamento espiritual e filosófico, de códigos ditos maias, astecas, incas, egípcios, para embasar suas teses e teorias acerca da iminência de catástrofes avassaladoras, inimagináveis.

Este ano de 2012 vem sendo apontado como decisivo nessa linha de conjeturas. Algo muito sério, capaz de transformar tudo, de desmontar implacavelmente as estruturas de vida consolidadas nesta ilhota perdida na vastidão oceânica do espaço cósmico conhecida por Terra, está prestes a acontecer. As previsões mais propagadas dizem respeito a reações incontroláveis da Natureza, a conflito bélico com emprego de energia nuclear, a uma colisão inesperada do planeta com asteróide de grande dimensão.

Não deixa de ser intrigante anotar que, entre autores das predições sombrias, ao lado de estudiosos de fenômenos exotéricos, de fanáticos religiosos, figuram também conhecidos cientistas.

Chega-nos ao conhecimento, que da extensa relação dos profetas do holocausto faz parte também, curiosamente, impensável personagem da mais enraizada casa real das poucas que ainda resistem, no cenário mundial, ao sopro político renovador que sacode os tempos de hoje. Estou falando da casa real japonesa que, diferentemente de várias monarquias da Europa e de outros continentes, mais toleradas do que propriamente assimiladas, conserva ainda nos dias atuais vínculos de genuína sacralidade com a cultura religiosa da população. Imperador no Japão é figura transcendente. De descendência divina. Hiroito integrou o “eixo do mal” que desencadeou a 2ª Guerra Mundial. Ao contrário de Hitler e Mussolini, seus parceiros em façanhas abomináveis, garantiu-se tranquilamente no poder. Os vencedores do conflito não o chamaram a prestar contas dos malfeitos em Nuremberg. A veneração popular ao representante de uma monarquia milenar contou tanto ou mais quanto as estratégias geopolíticas em jogo, na decisão tomada de não se molestar Sua Alteza Imperial.

Entra aqui, agora, em cena a princesa Kaoru Nakamaru, figura respeitada da casa real nipônica. Uma mulher culta, com formação em política internacional e jornalismo, aclamada em 1973 pela revista “Newsweek” como “entrevistador nº 1 do mundo”, descrita pelo “Washington Post”, como “uma dessas raras mulheres com sensibilidade de destaque internacional”. Autora de 40 livros, empenhada na causa da paz, criou um Instituto com ramificações mundiais, entrevistando e contatando dignitários famosos, abrindo portas para conversações nos lugares mais difíceis. Para dar um exemplo, a Coréia do Norte.

Ela sustenta a tese de que o poder político, a riqueza, a fama não fazem as pessoas felizes e que a felicidade se projeta de corações abastecidos de amor, harmonia e paz.

Explicado tudo isto a respeito da princesa, vamos tomar conhecimento, em seguida, de incríveis declarações de sua autoria que acabam de vir a público e que se acham alinhadas com as profecias apocalípticas que correm mundo. Na “Pythagoras Conference Global 2012”, Kaoru jogou no ar afirmações inquietantes. Depois de dizer, clara e categoricamente, que se comunica com seres inteligentes de outros mundos e de registrar que no interior de nosso planeta existe uma civilização muito desenvolvida, Nakamaru revelou – olha só a precisão da data – que, de 22 de dezembro deste ano em diante, por três dias e três noites, quando a Terra vai passar para a quinta dimensão, a humanidade não conseguirá mais usar a eletricidade. “Haverá escuridão total, dia e noite sem sol, sem estrelas, sem mídia de massa, sem nenhuma informação.” Acrescentou que, em muitos lugares, uma pequena elite acredita que poderá ser salva, em cidades subterrâneas que estão implantando. Mas “essas pessoas não vão estar de fato seguras”, arrematou.

Às profecias já divulgadas, junte-se mais esse prognóstico estranho, com o registro assaz instigante de sua origem.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Terça, 14 Fevereiro 2012 20:58

Decisão republicana e democrática

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“Compartilho do pensamento de Louis Brandeis:

“Nas coisas do poder, o melhor detergente é a luz do sol.”

(Ministro Carlos Ayres Brito, prestes a assumir a Presidência do STF, numa declaração em que assevera que ganho acima do teto é inadmissível)

 

A momentosa decisão do Supremo Tribunal Federal rejeitando, mesmo por placar apertado, a forte pressão de alguns órgãos representativos da categoria dos magistrados e conservando incólume a autonomia de investigação constitucionalmente assegurada do Conselho Nacional de Justiça, fez muito bem à Democracia. Desfez em parte o indisfarçável mal-estar produzido perante a opinião pública por certas reações corporativistas de claro achincalhe às decisões moralizadoras do Conselho.

Tais decisões – recordemo-nos -, inicialmente adotadas pelo corregedor Gilson Dipp e, mais adiante, com maior ênfase, pela corregedora Eliana Calmon, trouxeram a lume chocantes revelações. Revelações acerca de salários pagos que afrontam as regras gerais de remuneração estabelecidas para os servidores públicos. Revelações referentes a movimentações financeiras suspeitosas e a pagamentos milionários despropositados, à guiza de ajuda de custo, atribuídos a juízes e funcionários.

As auditorias efetuadas permitiram a descoberta de que no Estado do Rio de Janeiro, pra ficar num exemplo, alguns desembargadores, por conta de incabíveis benefícios que eles próprios resolveram se outorgar, chegam a apropriar-se de vencimentos mensais de até 150 mil reais, quantia infinitamente superior aos 26 mil reais instituídos como teto oficial remuneratório para agentes públicos. Teto esse, por sinal, que corresponde à remuneração atribuída ao presidente da mais alta Corte Judiciária do País.

Ainda falando do que acontece apenas no Rio de Janeiro, um servidor judiciário de posto elevado, cujo nome vem também associado a atividades fraudulentas múltiplas, foi pilhado em movimentações na conta pessoal da ordem de 283 milhões de reais, num único exercício. Tem mais: essa avultada soma é parte de um montante apurado de quase 600 milhões de reais em transações bancarias “consideradas atípicas”. São operações que envolvem 205 integrantes do setor judiciário em vários Estados, consoante levantamento feito pelo Conselho de Atividades Financeiras (Coaf), por determinação do Conselho Nacional de Justiça.

Diante dos dados enunciados e de outras irregularidades não menos perturbadoras, outra não poderia ser, em verdade, convenhamos, a atitude dos doutos Ministros, senão preservar o poder de decisão investigatório do CNJ. Seu posicionamento, à altura das melhores tradições da judicatura brasileira, revelou bom senso, sentimento republicano, desejo de saudável transparência e crença nos valores democráticos. Rechaçou argumentos pueris, nascidos de caprichos e excessos corporativistas. Respondeu satisfatoriamente ao clamor altivo da sociedade como um todo. E, certeiramente, atendeu à aspiração da imensa maioria dos magistrados brasileiros. Uma maioria, estamos certos, que vê nessa ação desvirtuada de uma minoria enredada em procedimentos contrapostos aos padrões éticos e retilíneos desejáveis na atuação da nobre categoria um fator de intranquilidade social. Uma gritante distorção, a ser convenientemente extirpada, da imagem impoluta que a opinião pública conserva, por razões de sobra, de sua conduta profissional.

Nessa história toda há que se louvar ainda a postura destemida da Corregedora Eliana Calmon. Os agravos e doestos de que tem sido alvo por parte de um reduzido grupo não ofuscaram, afortunadamente, o brilho do trabalho por ela executado. Um trabalho que rendeu reconhecimento para que pudesse ocupar, com todo mérito, um lugar de realce na admiração e  apreço das ruas.

O que todos os setores sinceramente engajados na discussão do palpitante tema passam a desejar, a partir dessa resolução do Supremo, é que a Reforma Judiciária seja apressada. Seja incluída, ao lado da Reforma Política, da Reforma Tributária e de outras mais, no rol dos estudos prioritários exigidos, neste momento, pela ânsia brasileira de progresso, em nome do aprimoramento do exercício das coisas públicas em nosso País.

*  O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog semanalmente.

Quinta, 09 Fevereiro 2012 20:50

Câncer de Mama

Escrito por

Por Paiva Netto*

Sábado (4/2) foi o Dia Mundial Contra o Câncer, e domingo (5/2) o Dia Nacional da Mamografia. Aproveito as datas para chamar a atenção sobre um mal que acomete cada vez mais pessoas.

Reportagem feita por Sabrina Craide, da Agência Brasil, informa que “o câncer de mama é o segundo tipo mais frequente da doença no mundo (atrás do câncer de pulmão) e deverá ter aproximadamente 52,7 mil novos casos no país este ano, de acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca)”.

Conforme ressalta o Inca, “o exame clínico da mama deve ser feito uma vez por ano pelas mulheres entre 40 e 49 anos. E a mamografia deve ser realizada a cada dois anos por mulheres entre 50 e 69 anos, ou segundo recomendação médica”. E mais: “Embora a hereditariedade seja responsável por apenas 10% do total de casos, mulheres com história familiar de câncer de mama, especialmente se uma ou mais parentes de primeiro grau (mãe ou irmãs) foram acometidas antes dos 50 anos, apresentam maior risco de desenvolver a doença. Esse grupo deve ser acompanhado por médico a partir dos 35 anos. (...)”

Quando detectado nos estágios iniciais, as chances de cura são de aproximadamente 95%. Contudo, aponta Ricardo Caponero, diretor técnico-científico da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), “ainda falta conscientização das mulheres para a importância da realização periódica da mamografia. (...) Apenas 30% das mulheres fazem o exame”. Desde 2009, o exame tem cobertura gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), direito assegurado pela Lei 11.664/2008. Em prol de sua saúde, as mulheres não podem abrir mão desse benefício.

PREVENÇÃO

Para melhor conhecimento de todos sobre o assunto, vale consultar o site do Inca, www.inca.gov.br. Vejam, por exemplo, algumas dicas de prevenção:

“Evitar a obesidade, através de dieta equilibrada e prática regular de exercícios físicos, é uma recomendação básica para prevenir o câncer de mama, já que o excesso de peso aumenta o risco de desenvolver a doença. A ingestão de álcool, mesmo em quantidade moderada, é contraindicada, pois é fator de risco para esse tipo de tumor, assim como a exposição a radiações ionizantes [raios x, por exemplo] em idade inferior aos 35 anos”.

 

AGRADECIMENTO

Recebi do coronel Sila Pereira Rocha, comandante do 5o Grupamento de Bombeiros Militar, agradecimento ao apoio da Legião da Boa Vontade às vítimas das cheias dos rios Paraíba do Sul e Muriaé, que atingiram diversas cidades banhadas por eles no norte fluminense.

“Vale salientar a participação da LBV, que, mesmo antes da primeira solicitação de água potável para os municípios de Campos dos Goytacazes e Cardoso Moreira, já se antecipou com uma entrega de 42 toneladas de água mineral, que foram disponibilizadas para vários municípios atingidos.”

Prosseguiu o comandante: “Sinto-me no dever de parabenizar a LBV pela presteza, solidariedade e seriedade com que tratou os assuntos de apoio aos desabrigados e desalojados. (...) Apresento protesto de mais elevada estima e consideração”.

Grato, coronel Sila. É como costumo dizer, Força Armada e Civil, tudo é Brasil!

 

José de Paiva Netto,Presidente da LBV.

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Terça, 07 Fevereiro 2012 20:55

Uma vitória da biodiversidade

Escrito por

Por Washington Novaes*

É muito importante e bem-vinda para o Brasil a notícia de que o professor Bráulio de Souza Dias, secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, está ascendendo ao cargo de secretário executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica, a convite do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Competente e experimentado na área – onde atua há muito tempo –, Bráulio concorreu com outros 66 indicados para o cargo. Sua principal tarefa – dificílima – será levar à prática o protocolo assinado em Nagoya em 2010 que pede a ampliação, para 17% da superfície planetária, das áreas de conservação da biodiversidade em terra e para 10% das de ecossistemas marinhos e costeiros, incluídos os mangues. O protocolo, ao qual já aderiram 70 países, precisa ser ratificado por pelo menos 50 – mas somente seis já o fizeram.

Entre as metas para o período que vai até 2020 está a de chegar a um acordo entre países – e em cada um deles, entre empresas, cientistas e povos tradicionais que detêm o conhecimento – sobre repartição de benefícios em produtos derivados da biodiversidade. E também tornar prioritário o tema da biodiversidade, que o próprio secretário executivo reconhece que ainda não é relevante para as sociedades, principalmente em meio a uma crise econômica (Valor, 23/1). Talvez por isso mesmo, especialistas calculam entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões as perdas anuais nessa área. A perda líquida de florestas no mundo, por exemplo, chegou à média de 145 mil quilômetros quadrados anuais entre 1990 e 2005 (30/11, 2011), segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Ainda assim, no último ano as florestas correspondiam a 30% da superfície terrestre.

Mas, diz ainda a FAO, em 25% da superfície do planeta a desertificação é total, por causa de erosão do solo, degradação da água e perda da biodiversidade; em 8% a degradação é moderada; em 36%, “leve”. Como, nesse quadro, conseguir aumentar a produção de alimentos em 70% até 2050, para atender pelo menos mais 2 bilhões de pessoas e eliminar a fome de pelo menos 1 bilhão – sem falar que o investimento necessário para isso terá de ser de US$ 100 bilhões anuais? Nesse quadro, lembra o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) que já estamos consumindo recursos naturais 30% além da capacidade de reposição do planeta.

É uma riqueza enorme desperdiçada. Edward Wilson, um dos maiores especialistas na área, lembra que, embora saibamos muito pouco, já estão identificadas 280 mil espécies de plantas (que podem chegar a 320 mil), 16 mil de nematoides (que podem ser 15 milhões), 900 mil de insetos (talvez 5 milhões). Podemos ter de 5 milhões a 10 milhões de espécies. Em uma tonelada de terra fértil podem estar 4 mil de bactérias. O comércio mundial de produtos naturais já está perto de US$ 4 trilhões anuais (talvez um quarto do comércio total), o de medicamentos derivados de plantas, em US$ 250 bilhões/ano. Robert Costanza e outros economistas da Universidade da Califórnia calcularam em US$ 180 trilhões anuais (o triplo do PIB mundial) o valor dos serviços que a natureza presta gratuitamente – fertilidade do solo, regulação do fluxo hídrico, regulação do clima -, se estes tivessem de ser substituídos por ações humanas.

Por aqui mesmo a questão é grave, com a perda de florestas na Amazônia ainda acima de 7 mil quilômetros quadrados anuais, o cerrado já sem vegetação em 50% da área (85 mil km2 perdidos em sete anos) – no país que tem entre 15% e 20% da biodiversidade planetária. Uma esperança está no fato de que o governo federal recolhe em consulta pública sugestões da sociedade (academia, governos, populações tradicionais, segmentos sociais) para um plano estratégico destinado a implementar até 2020 as recomendações da convenção. E também estuda como avançar na complicada questão da repartição dos frutos da exploração da biodiversidade. Pensa-se até em criar uma taxa de 3% sobre o faturamento público – as empresas não concordam (O Globo, 22/1).

É preciso correr. Como lembra Bráulio, a cada ano estamos descrevendo em média mil espécies novas no Brasil, que se somam às 41.121 espécies vegetais já conhecidas, 9.100 marinhas, 2.600 de peixes, dezenas de milhares de animais: “Estamos sentados em um baú de ouro e não sabemos o que fazer com ele” (Estado, 2/9/2010). Mas em Nagoya se calculou que serão necessários US$ 300 bilhões anuais (cem vezes mais do que hoje) em financiamentos dos países industrializados aos demais para cuidarem da biodiversidade. Porque em cem anos 75% da biodiversidade de plantas alimentares já se perdeu – 22% das espécies de batata, feijão, arroz ainda podem ser perdidas. Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, chega a propor que o capital natural seja incluído nos cálculos do produto interno bruto (PIB) de cada país.

A posição brasileira será única se isso acontecer. Como já tem sido lembrado aqui, além da maior biodiversidade, temos 13% da água superficial do mundo, território continental, possibilidade de matriz energética “limpa” e renovável. O Brasil pode ser uma “potência ambiental”, diz Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento no Ministério da Ciência e Tecnologia – chamando a atenção para as questões graves na Amazônia e no Cerrado. Às quais é preciso acrescentar as que sobrevirão se o novo Código Florestal aceitar muitas das propostas que estão na mesa; se o governo não prestar atenção à proposta do professor Aziz Ab’Saber de criar, em lugar dele, um Código da Biodiversidade específico para cada bioma, cada região; se continuar esquecida a proposta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) de desmatamento zero na Amazônia e forte investimento, ali, na formação de cientistas para trabalharem com a biodiversidade.

Caminhos há, certamente. E a ascensão de um brasileiro à secretaria executiva da Convenção sobre Diversidade Biológica pode dar forte impulso a eles.

*Washington Novaes, jornalista. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

(Outras Mídias)

Segunda, 06 Fevereiro 2012 14:39

Ápice da boçalidade

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Pode bisbilhotar. É a fofoca em horário nobre e em escala nacional.

 Não fique de fora, espie à vontade.”

(Pedro Bial, apresentador do BBB)

Nessa mixórdia toda, o que menos conta é o estupro ao vivo e a cores que, aliás, não aconteceu. Vê lá se o BBB carece de qualquer ingrediente escabroso extra para alcançar de forma estrepitosa, como do gosto dos que o produzem, o ápice da boçalidade!

A tal cena de sexo explícito que tanta polêmica rendeu, admitida consensualmente pelos personagens atracados sob as cobertas e, inequivocamente, pelos que conduziram as lascivas filmagens não passa mesmo, no duro da batatolina, de baixaria encaixada no enredo mode fazer crescer ibope. O mau gosto dominante no mais difundido “reality show” em exibição, como todos os demais um desfile de barbaridade e vulgaridade que empobrece culturalmente a televisão, é congênito. Mal de raiz, por assim dizer. Está na essência, no conceito do programa. Não é agora que as barreiras éticas e, até mesmo, legais estão sendo transpostas. Isso vem acontecendo desde o começo da nefasta série. Desde quando a Globo resolveu abdicar de sua privilegiada condição em ocupar o espaço nobre concedido ao BBB com entretenimento de qualidade nascido do engenho e arte da talentosa equipe de produtores, atores, diretores e intérpretes responsável, no passado, pelo assim denominado “padrão global”.

Esquecida de que o padrão global mencionado tem proporcionado à rede e seus colaboradores prêmios sem conta de ressonância mundial, na faixa dos espetáculos musicais, na dramaturgia e no jornalismo. Decisões despojadas de sensibilidade cultural e educativa levaram à desastrada opção de se por no ar, já neste momento em 12ª versão, um produto simplesmente inqualificável. Um programa de origem estrangeira extraído da sarjeta televisiva. Uma “atração” que cria, a todo instante, circunstâncias facilitadoras para que se possa rodar filmete pornô “adaptado ao ambiente familiar”, com o deseducativo intuito de impressionar platéia pouco exigente, que se deixa enredar pela babaquice e indigência intelectual das “celebridades instantâneas” convocadas a “estrelá-lo”.

Não há como deixar de consignar, no episódio, que muitas reações furibundas derivadas das cenas do tal estupro que não houve, entre elas, de força realçante, o ato “moralizador” da Globo excluindo do “palco” o modelo profissional de epiderme escura por haver se comportado de “forma inadequada”, rescendeu a rematada hipocrisia. Puro farisaísmo. O que se viu e se reprovou é o que sempre se vê. Pra fins de “moralização” em regra da coisa, a posição correta a tomar é reformatar o programa por inteiro. Melhor do que isso: retirá-lo para sempre da grade. Ocupar o espaço nobre mal utilizado com produto artístico e cultural de qualidade tolerável. Um produto que possa trazer, sim, resultados lucrativos, mas que não se apreste à disseminação da burrice, da mediocridade, da futilidade e da anti-cidadania.

No mais, é como disse um leitor, outro dia: os “bês” do programa querem dizer babaquice, besteiragem e boçalidade, apenas isso. Ou como lembra, em tirada bem humorada, um outro leitor: não vai demorar muito pra direção do BBB excluir outro figurante pelo fato de haver sido pilhado em flagrante lendo um livro.

 *  O jornalta Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalemnte para o Blog.

Terça, 24 Janeiro 2012 00:01

Esse tal de Capitão Astiz

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

Nas masmorras da ditadura argentina e no campo
 de batalha deixou evidenciado o mesmo desassombro.”

(Antônio Luiz da Costa, professor)

Esse tal de capitão Alfredo Astiz, que vem de ser, juntamente com outros dezessete comparsas, condenado à prisão perpétua pela Justiça argentina, em razão de atrocidades cometidas durante a ditadura militar em seu país, é protagonista de um episódio de estrepitoso surrealismo ocorrido durante a “Guerra das Malvinas”. Algo que produziu duradoura estupefação.

Tristemente celebrizado pela bestial ferocidade empregada no extermínio de criaturas indefesas, entre elas doze fundadoras do movimento “Mães da Praça de Maio”, duas freiras francesas e uma adolescente sueca, detida “por equívoco”; um dos cabeças do terrorismo de Estado que levou à eliminação de milhares de seres humanos nos porões do regime militar, ele foi escolhido a dedo, por sua apregoada condição de “estrategista militar” e de “líder corajoso e resoluto”, para comandar a primeira frente de resistência das tropas argentinas que se posicionaram nas ilhas contestadas com vistas ao inevitável enfrentamento das forças britânicas.

Sua atuação deixou todos, até os próprios inimigos, boquiabertos. Nem bem a primeira fileira dos soldados gurkas, temidos combatentes da legião estrangeira inglesa, botou pra fora dos lanchões de desembarque as cabeças envoltas em turbantes, e já o “desassombrado” chefe militar, aos brados e com gestos frenéticos, danou a agitar a bandeira branca de rendição. A cidadela sob seus cuidados acabou sendo conquistada sem que se disparasse um único tiro.  Capturado nessas condições - extremamente desonrosas para um chefe militar depositário da irrestrita confiança dos ditadores portenhos engajados na tresloucada aventura bélica das Malvinas - o cara por muito pouco não foi extraditado para a França ou Suécia. Nesses países, seus hediondos crimes, julgados à revelia, renderam-lhe penas severas. Negociações, por sinal intermediadas pela Embaixada brasileira em Londres, impediram a entrega do demoníaco “Anjo Loiro” aos tribunais franceses. Um indivíduo asqueroso, pelo que se viu, de extrema “valentia” no trato com presos e desafetos a qualquer título colocados sob sua custódia e de atordoante covardia no campo de batalha na defesa do que acreditava ser parte sagrada do território pátrio.

Da série de crimes “por equívoco” que se lhe é creditada consta também vítima brasileira. Trata-se de um integrante de grupo artístico que acompanhava Vinicius de Moraes em turnê pela Argentina. Ao que se divulgou na época, o músico saiu do hotel, em Buenos Aires, à noite, durante toque de recolher, para compra de cigarros. Teve a infelicidade de topar com uma patrulha militar, pelo que se soube, chefiada pelo próprio Astiz. Nunca mais foi visto.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

estupro-bbb12Por Washington Araújo*

Não demorou muito e o BBB é caso de polícia. Mais, é caso de estupro. Mais, é caso do habitual descaso com que a programação da tevê aberta brasileira é tratada tanto pela sociedade quanto pelas instâncias governamentais.

A 12ª edição de um dos programas mais fúteis dentre a enormidade de produção de lixo televisivo nem chegou a completar uma semana de existência e já mostrou a que veio: vender cabeças vazias em corpos sarados e uma série quase interminável de comportamentos humanos aceitáveis na esfera privada e patéticos quando transbordam para a esfera pública.

Na noite de sábado [14/1], festa no BBB. Prenúncio de comas alcoólicos e certeza de danças variando entre o sensual e o erótico, ritmo alucinante, luzes piscando e tudo contribuindo para a exposição, sem reservas, dos instintos humanos. Na madrugada de domingo, o Twitter passa a movimentar um sem número de mensagens denunciando Daniel de ter estuprado Monique, tudo captado pelas lentes do BBB, tanto imagem de cobertor em movimento quanto som. O problema, segundo o Twitter, é que apenas um dos dois parece estar vivo – apresenta, vamos dizer, sinais vitais. Este seria o Daniel. Não tardou para que hashtag #DanielExpulso viesse a ser um dos tópicos mais comentados do domingo.

E a onda se espraia na internet com força de tsunami: todos se unem para pedir a cabeça do Daniel e, de quebra, criticar ferozmente a existência de um programa como o Big Brother Brasil. Muitos questionam a correção em classificá-lo como programa. Muitos anunciam que irão boicotar a marca de automóveis Fiat, aquela que premia os carros entre os participantes e entre a audiência, e muitos clamam por intervenção do governo na grade de programação da tevê aberta.

Caso de polícia

Na tarde da segunda-feira [16/1], investigadores da polícia vão ao Projac (centro de produção da emissora, localizado na Zona Oeste do Rio) para apurar a suspeita de que Daniel teria abusado sexualmente de Monique durante a madrugada do último domingo [15/1]. A essa altura, Monique, a presumida vítima, é chamada no “confessionário” para dar explicações sobre o que aconteceu entre ela e Daniel na madrugada de segunda-feira. A moça parece não dizer coisa com coisa, algo como “não sei muito bem”, “acho que não passamos disso”, “ele seria muito mau-caráter se tivesse se aproveitado de mim”, e por aí vai.

Logo, as notícias na internet, em particular no sítio G1, da TV Globo, produtora e responsável pela “atração”, passam a divulgar que a moça negou a ocorrência de estupro e replicam a fala do diretor-geral do reality show, J.B. Oliveira, o Boninho. “Ela não confirmou que teve sexo e disse que tudo o que aconteceu foi consensual. Não dá para garantir que houve sexo, muito menos estupro. Eles estavam debaixo do edredom e de lado. Mas o mais importante é que ela [Monique] estava consciente de tudo. Ela me disse que na hora que o clima esquentou pediu para ele [Daniel] sair da cama”. Não ficaria por aí: “O que está acontecendo nada mais é que racismo”.

Ainda na segunda-feira, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Iriny Lopes, enviou ofício ao Ministério Público do Rio de Janeiro solicitando que o órgão “tome providências em relação ao suposto estupro que teria acontecido dentro do programa Big Brother Brasil 2012, exibido pela TV Globo.”

Nesta mesma noite, Pedro Bial lê em teleprompter a nota oficial da TV Globo dando conta da expulsão de Daniel por “haver infringido gravemente o regulamento do BBB”. É evidente o clima de constrangimento, sentimento que nem deveria existir em se tratando do BBB, que bem poderia ser visto como uma gincana ininterrupta de constrangimentos… à condição humana. Patética a figura de Bial. Porque ele é aquele jornalista que cobriu a histórica derrubada do muro de Berlim, em novembro de 1989, e mostra à larga que o seu talento é melhor aproveitado fazendo o que faz há 12 anos seguidos no BBB: uma mistura de mestre-de-cerimônias com animador de picadeiro e bedel de escola primária com direito a filosofices tão rasas quanto o programa em que foi aceito como sumo pontífice. Fez o caminho de volta sem ao menos ter ido.

Silêncio da imprensa

Em um país que busca combater a violência contra a mulher em seus muitos aspectos e, em especial, combater o crime de estupro, chama a atenção o silêncio da grande imprensa em torno do caso. Sim, porque pedidos pela expulsão de Daniel e punições à TV Globo não partiram dos jornais Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e muito menos da emissora-líder na desconfortável posição de facilitar a ocorrência de estupro, com tudo gravado, segundo a segundo, e retransmitido para todo o Brasil. As denúncias começaram na forma de “piados” (twitter, em inglês), passaram pelo Facebook e tomaram forma nos tais blogues sujos (para a grande imprensa) e alternativos (para a cidadania).

No espaço de 24 horas, muitas águas rolaram nos desfiladeiros oceânicos da internet. Muitos levantaram o assunto na forma de algo adredemente planejado pela emissora do Jardim Botânico carioca para alavancar a audiência do BBB nesta sua 12ª edição. Outros tantos foram mais enfáticos e exigiram nada menos que a suspensão do programa por tempo ilimitado ou, ao menos, pelo tempo em que durarem as investigações policiais. Mas isto é pedir muito quando estão em jogo interesses unicamente comerciais. Porque o dinheiro não tem nem pátria, ética, nem moral, nem costumes. Tem apenas a densidade que seu proprietário a ele conceda. E nesses tempos em que a liberdade é vista como garantia de expressão dos instintos humanos básicos a qualquer momento, o sucesso nada mais é que conseguir esticar ao máximo seus quinze minutos de fama (lembram do Andy Warhol?), amealhar bens materiais e financeiros sem qualquer escrúpulo, usando os meios mais torpes para sua consecução. Neste contexto, não há muito o que esperar.

Nos últimos três anos escrevi no Observatório da Imprensa críticas ao conteúdo, formato, estilo, produção e transmissão do Big Brother Brasil. Tratei de estética, de conteúdo, de ética e de direitos humanos. Abordei a questão da privacidade e o circo de horrores que a qualquer momento poderia vir a ser a marca registrada do BBB. Depois, resolvi não mais escrever. Porque é difícil falar para o deserto, ou pior, para o vácuo. Mas com a chegada da polícia ao Projac julguei oportuno voltar a tratar do “assunto”. Não porque o programa mereça, mas sim porque é um momento propício para debater sobre a sociedade que temos e a sociedade que queremos.

E qual o papel da mídia, enquanto espelho da realidade, na formulação dessa nova sociedade, uma sociedade que seja justa, igualitária, fraterna, inclusiva e promotora dos direitos humanos?

*Washington Araújo é mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo. 

Segunda, 09 Janeiro 2012 19:44

Sustentabilidade faz bem para o planeta e o bolso

Escrito por

sustentabilidade-2Por Juan Quirós*

A cerca de sete meses da realização da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, é fundamental que governos e a sociedade mobilizem-se e se debrucem sobre o tema, considerando ser o evento uma grande oportunidade de se conter a tempo as consequências do efeito estufa, resgatar a qualidade ambiental e equacionar o abastecimento de água e a segurança alimentar. A humanidade está atrasada na agenda de sua sobrevivência, considerados os pífios resultados de iniciativas como o Protocolo de Kyoto e a Agenda 21, documento basilar da Rio 92.

Em todo esse contexto, é fundamental o engajamento das empresas, que, independentemente das decisões governamentais, podem fazer muito. Felizmente, observa-se, no universo corporativo dos mercados emergentes, que cresce o número de organizações preocupadas com a questão e que muitas delas estão se beneficiando de iniciativas que aliam progresso ao desenvolvimento sustentável, mantendo práticas ambientais sensatas e crescimento social e econômico responsável.

Em nosso país, o conceito emergiu com força na década de 1990. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), 46% das empresas entrevistadas afirmam que têm políticas de sustentabilidade e 37% possuem um departamento específico dedicado ao assunto. Contudo, os números mostram que o conceito ainda não está devidamente incorporado na totalidade das organizações: é estratégico para 32%, pontual para 30%, informal para 23%, existente, mas não aplicado, em 11%, e inexistente em 4%. Como se observa, temos muito a avançar.

Uma contribuição relevante no sentido de sensibilizar as empresas e a sociedade quanto à importância das práticas sustentáveis é a disseminação ampla de suas vantagens. Exemplos inequívocos destes benefícios encontram-se nas chamadas construções sustentáveis, caracterizadas pela presença de painéis de energia solar, captação de água da chuva – dispositivo de redução do consumo e reúso da água –, utilização de materiais novos recicláveis que possam ser usados nas reformas, fonte de energia eólica, filtros e sensores de dióxido de carbono – melhorando a qualidade do ar interno –, aproveitamento de ventilação e iluminação naturais, paisagismo com espécies nativas, e mínima ocupação do solo, favorecendo a permeabilidade.

Edificações com tais características propiciam economia de 30% de energia e até 50% de água, além de redução de até 60% na geração de resíduos sólidos e 35% de dióxido de carbono. Além dos benefícios ambientais e impactos positivos na qualidade da vida dos funcionários das empresas ou moradores de edifícios residenciais, esses avanços na concepção arquitetônica fazem muito bem ao bolso dos proprietários. No caso de prédios comerciais, obtêm-se, em média, acréscimo de 10% a 20% por metro quadrado no aluguel e 3,5% na ocupação. No caso de prédios residenciais, é de 14% a sobrevalorização.

O avanço dos conceitos de sustentabilidade na arquitetura e construção suscita enormes oportunidades no tocante ao desenvolvimento de produtos, materiais, serviços e tecnologia. Implica, porém, os desafios de estimular todo esse movimento nos sistemas produtivos e incentivar a pesquisa e a inovação. O compromisso com a sustentabilidade não pode mais ser adiado. Se na Rio 92 a situação do planeta era de alerta, na Rio+20, é de emergência. Mais do que nunca, as empresas devem ser agentes de desenvolvimento e o poder público, instrumento de transformação.

* Juan Quirós é presidente do Grupo Advento e vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e da Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base).

Segunda, 09 Janeiro 2012 18:48

Verso e reverso

Escrito por

caminhos20opostos_20foto_20j20heffnerPor Cesar Vanucci*

 "As ideologias radicais, não importa sua coloração, nem suas supostas e inflamadas discordâncias, são verso e reverso de uma mesma moeda

(Antônio Luiz da Costa, professor)

O fundamentalismo ultraconservador apavora tanto quanto o extremismo terrorista. Pode-se dizer mesmo que um e outro representam, na verdade, verso e reverso de uma mesma moeda. São expressões incendiárias de uma visão distorcida da realidade humana. Uma contrafação do sentido verdadeiro da vida. Agridem a consciência social. Alvejam os direitos elementares. Desprezam os sentimentos e emoções puros e espontâneos que regem a boa convivência comunitária. Geram deuses e ícones falsos. Abominam o diálogo entre contrários, instrumento de convergência que ajuda na construção de mundo melhor. Alimentam preconceitos aviltantes, racismo impiedoso, idiossincrasias incuráveis, ódios fratricidas, totalitarismos ferozes.

Espicham a tal ponto sua interpretação arcaica das coisas que passam a enxergar as conquistas do espírito, os avanços da ciência como blasfêmias heréticas. Chegam, não poucas vezes, a identificar riscos funestos à paz, à harmonia cotidiana, como agora acontece nos Estados Unidos, por obra e graça do chamado “Tea Party”, num simples anúncio de um atendimento de saúde universalizado; ou como ocorre, também neste justo instante, em certos países do mundo árabe intoxicados pelo radicalismo religioso, na mera aspiração das mulheres de desfrutarem do direito de acesso a uma carteira de habilitação de motorista.

Esse pessoal desvairado, pelos males que se revela capaz de aprontar, enche o mundo de medo. Ou seja, mesmo constituindo parcelas, embora aguerridas e atuantes, flagrantemente minoritárias no conjunto da sociedade, têm o “dom” de espalhar freneticamente por onde atuam o mais amaldiçoado dos instintos rasteiros, a nos valermos da definição do medo cunhada por Shakespeare.

* Martelo de novo, com carradas de razão, a tecla. Só no primeiro semestre deste ano, os quatro maiores bancos do País obtiveram, somados, lucros da ordem de R$ 22 bilhões e 900 milhões. Tais números, como de praxe, nessa espiral ascendente ininterrupta de resultados excepcionais que pontilha a trajetória do sistema bancário em nosso País, revelaram-se superiores aos do mesmo período do ano anterior, ficando assim distribuídos pelas organizações: Itaú, R$ 7.1 bi; Banco do Brasil, R$ 6.3 bi; Bradesco, R$ 5.4 bi; Santander, R$ 4.1 bi. A proverbial lucratividade do nosso operoso complexo bancário, incomparável com relação a qualquer outro país, traduzida nessa amostra de números correspondentes a apenas quatro instituições, suscita inapelavelmente uma indagação. À vista de toda essa dinheirama, não é o caso de se imaginar a instituição, por iniciativa do Governo, de um fundo para programas sociais relevantes com recursos derivados de tributação que incida sobre a lucratividade excessiva desse e de outros setores escandalosamente favorecidos pela política econômica vigente? Uma decisão dessas, corretíssima do ponto de vista político e social, não representaria uma forma de reforçar o caixa para a expansão de serviços essenciais nas áreas da saúde e educação?

 * O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva pernambuco semanalmente.

Quarta, 04 Janeiro 2012 20:38

O que o brasileiro leu em 2011

Escrito por

habito-da-leituraPor Deonísio da Silva

A média de venda em países desenvolvidos é 13 livros por ano, por habitante. No Brasil, há poucos anos era inferior a um livro por ano, mas depois que os governos passaram a fazer compras relevantes de livros previamente selecionados, este índice subiu para dois livros anuais por habitante. Em resumo, o brasileiro lê pouco. Mas há uma contradição nisso tudo: o mercado editorial brasileiro é um dos maiores do mundo.

Foi nesse contexto que, do ponto de vista dos negócios editoriais, o autor nacional foi um desastre para as editoras em 2011, especialmente os autores do que se entende por literatura – romance, contos, crônicas, poesia, biografia, ensaio.

No romance, gênero literário por excelência, a solitária exceção foi Jô Soares, com o romance As Esganadas (Companhia das Letras, 88.391 exemplares vendidos). Esse romance é sucesso, não pela qualidade literária inegável, com tramas muito bem urdidas, mas porque o autor é conhecido do público por causa da televisão.

O livro de qualidade pode vender pouco e isso não lhe tira os méritos. De modo análogo, pode vender bastante e ter ou não ter qualidade. Jô Soares concilia qualidade literária e desempenho comercial. Que editor não quer um autor com tal perfil?

Primeiro da lista

Nos romances vindos de traduções, houve também uma solitária exceção, a de Umberto Eco, com Cemitério de Praga (Editora Record, 46.420 exemplares vendidos). O autor italiano é um fenômeno mundial desde que, ensaísta e professor universitário conhecido de poucos, ganhou a mídia internacional e a lista dos exemplares mais vendidos em todo o mundo com o romance O Nome da Rosa.

Vejamos o que ocorreu com as editoras que publicaram Umberto Eco e Jô Soares. No Grupo Editorial Record, que engloba diversas editoras, o destaque de vendas para escritores brasileiros foi A Riqueza do Mundo (7.984 exemplares vendidos), da romancista, poeta e cronista Lya Luft. Mas este seu livro, destaque em vendas, não é romance e, sim, um livro que mistura crônicas e ensaios, um dos quais dá título ao volume.

Entre os 59 livros mais vendidos do grupo, apenas 23 títulos tiveram desempenho de vendas acima de 2.000 exemplares. Em compensação, os dez livros mais vendidos da Record venderam no conjunto 299.546 exemplares, média de 30.000 exemplares por livro.

O campeão de vendas da Companhia das Letras foi Steve Jobs, de Walter Iaacson. A biografia do ícone de tablets e celulares de sucesso internacional vendeu 109.658 exemplares.

Sem anúncios

Em 2011, foram lançados no Brasil muitos livros de qualidade, de autores nacionais como de estrangeiros, mas não foi dada a devida atenção ao óbvio nos negócios: o marketing.

A mídia deu sua quota de colaboração nos tropeços ao esconder livros importantes, mas é preciso que jornais, revistas, tevês, rádios, blogues etc. sejam procurados, não apenas para solicitação de apoios gratuitos, mas como parceiros de negócios editoriais.

Ouvimos, vemos e lemos anúncios de cinema, de teatro, de músicas e até de telenovelas, mas livros só muito raramente são anunciados.

[Deonísio da Silva é escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor e um dos vice-reitores da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)]

desenvolvimento-sustentavelPor Marcus Eduardo de Oliveira (*) 

Um dos pontos mais importantes discutidos nos meandros da economia ambiental diz respeito ao seguinte fato: fazer com que a economia pare de crescer não significa, consequentemente, que irá parar de se desenvolver. O que os economistas com uma visão mais apurada da questão ambiental desejam é justamente obter desenvolvimento. O que esses mesmos economistas tanto condenam é um crescimento conseguido sob as ruínas da degradação do capital natural. Assim, a economia ambiental não se coloca (e nunca se colocou) contra o desenvolvimento, mas sim contra as elevadas taxas de crescimento que inflam a economia à custa de piorar, substancialmente, o meio ambiente, e, por conseguinte, a qualidade de vida.

Em termos de definição, cumpre aduzir que crescimento é o aumento na produção, na parte física; em outras palavras é “mais quantidade”. Desenvolvimento, por sua vez, supera essa idéia e busca “mais qualidade”.

Com tecnologia e inovação, é possível produzir a mesma quantidade de bens, porém, de forma eficaz, com qualidade e respeito ambiental. A idéia fundamental então é a seguinte: toda e qualquer produção deve servir para repor, e não para acumular. Hoje, vivenciamos o contrário. A preocupação primeira e o anseio da economia tradicional é, tão somente, produzir para acumular.

Entender isso passa primeiramente pela necessidade de se ter em conta que desenvolvimento não está ligado a crescimento econômico, o que não quer dizer que crescimento não seja importante, antes, é de fundamental importância, mas desde que pautado pela prudência e não pela deterioração/dilapidação dos recursos naturais.

Trata-se, em nosso entendimento, de pura e cristalina ilusão achar que fazendo a economia crescer atinge-se, por conseqüência, o desenvolvimento. O processo entendido como “desenvolvimento econômico” (qualidade) não só é desejável como é perfeitamente possível, ainda que não haja crescimento (mais quantidade) da economia.

A questão primordial nos parece ser essa: se continuarmos evidenciando uma economia sob as bases do processo produtivo que responde apenas (e em nome) pelos (dos) ganhos do mercado de capitais, não se logrará sucesso algum, visto que esse mercado somente tem olhos para a “quantidade”.

O que é necessário fazer e, isso não é tarefa fácil, é direcionar à produção para o atendimento exclusivo das necessidades humanas, que não necessariamente passam pela questão do “ter”. Para isso é imprescindível colocar a economia a serviço das pessoas, rompendo-se assim com a situação tradicional que tem vigorado por longo tempo que insiste em colocar as pessoas a serviço da economia.

Urge entender, definitivamente, uma premissa relativamente simplista: a economia, em larga medida, precisa fazer sua volta às origens que remontam aos tempos em que estava incubada nos aspectos teóricos da Filosofia Moral, quando os clássicos, na elaboração de seus primeiros “tratados”, orientavam à economia (atividade produtiva) para que, com isso, as pessoas pudessem atingir bem-estar comum; sob as lentes do utilitarismo, felicidade plena.

Na esteira desse comentário, é de bom alvitre salientar que a felicidade, embora encontre morada em uma base conceitual de total subjetividade, nunca esteve ligada a posse de dinheiro.

Dentro dessa perspectiva, não é o mercado então, como insistem alguns e como a economia tradicional quer fazer prevalecer, um lugar “sagrado” onde se encontra à venda uma mercadoria chamada “felicidade”. Felicidade não é (e nunca foi) uma “mercadoria”; logo, não tem preço!

Compreender isso, de certa forma, ajuda a romper com a lógica de que a economia deve ser vista meramente como uma ciência que dita e direciona os rumos apenas do mercado em seu bel-prazer, como se o mercado fosse unicamente responsável por gerar felicidade e bem-estar a todos.

Antes disso, é oportuno salientar que a economia - sendo uma disciplina pertencente ao campo das humanidades - deve estar preocupada exclusivamente com o bem-estar das pessoas, tomando a noção básica de que se trata de uma ciência feita pelas pessoas e para as pessoas. Por sinal, a economia nasceu para isso; para fazer as pessoas prosperarem no aspecto mais básico e elementar: atingindo qualidade de vida.

Querer medir o desempenho (melhoria) de uma sociedade pelo que se pode (ou se deseja) comprar num shopping center é reduzir a vida a uma mera questão mercadológica, tipificando as coisas pelo sistema de preços.

Definitivamente, a ciência econômica precisar superar essa visão antiga e prosperar sobre a afirmação de que depende totalmente das coisas da natureza, daí a necessidade suprema em se praticar a preservação e a sustentabilidade, para que, com isso, ocorra sua efetiva consolidação de ciência social capaz de se colocar ao serviço de melhorar a vida das pessoas.

 
*Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO, em São Paulo. Mestre pela Universidade de São Paulo (USP), com passagem pela Universidad de La Habana (Cuba). Especialista em Política Internacional (FESP).
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Terça, 03 Janeiro 2012 20:40

Otimismo em tempos de crise

Escrito por

Le-Havre-23Ago2011_04Por Bruno Carmelo*, do Discurso-Imagem

Chega aos cinemas um dos filmes mais premiados em festivais durante 2011, o francês Le Havre, realizado no entanto por um finlandês, Aki Kaurismäki. Por um lado, Le Havre apresenta o mesmo estranhamento de todos os filmes anteriores do diretor: luzes artificiais, atores voluntariamente inexpressivos, diálogos entonados como discursos políticos, ações mínimas, música onipresente. Para os fãs de um cinema de estranhamento, esta obra apresenta o reconforto de se encontrar exatamente as escolhas típicas do diretor – e a possível frustração de não se encontrar nada além disso.

Por outro lado, este filme é um conto, algo curioso em pleno contexto de crise econômica, pessimismo social (os franceses acabaram de ser classificados como os mais pessimistas do mundo em relação ao futuro do país) e durante a época de Natal. Le Havre talvez não possa ser considerado como um conto de Natal propriamente dito, pela ausência deste período do ano na história, mas está presente o tradicional otimismo exagerado e ingênuo.

Nesta história simples, um garoto negro tenta passar ilegalmente da cidade do Havre, na França, a Londres. A polícia descobre seus planos a passa a persegui-lo – pelo menos em princípio. A diferença é que, contra a dicotomia maldade-bondade, neste filme todos são solidários: Marcel Marx, pobre engraxador de sapatos, aceita acolher o garoto, os vizinhos não hesitam em ajudar, mesmo o policial de aparência soturna (capa preta, chapéu preto) colabora a esconder o garoto. E a esposa de Marcel, doente, se recupera.

“Com o passar dos anos, eu fico cada vez mais pessimista, e meus filmes mais otimistas”, havia explicado aos jornais franceses o diretor finlandês. De fato, Le Havre é um filme sem obstáculos, formado por um ideal de comunidade solidária e humanista digno dos sonhos socialistas mais doces. Não há política nem sociedade neste filme que usa, mesmo assim, a voz off do Ministro da Imigração francês da época, Eric Besson, lançando discursos xenofóbicos contra a “delinquência estrangeira”.

Ora, esta voz está distante, parece vir de um mundo sem conexão com a pequena cidade-título onde se passa a ação. Se existe de fato a sociedade islamofóbica e paranoica da França atual, Le Havre (“o porto”, em português) parece não fazer parte dela. O filme cria precisamente um porto de solidariedade, de caridade e fraternidade, isolado num país fantasma. Estranha maneira de se retratar a sociedade: não pelo que o diretor acredita que ela é, mas pelo que ele julga que ela poderia ser.

No final, críticos e espectadores acabaram defendendo ou atacando a obra pelas mesmas razões: seu otimismo liso, ideal, cor de rosa. Uns disseram que é exatamente disso que o povo precisa em época de crise: que o cinema de autor faça “bons filmes com bons sentimentos”, ao invés de deixar a tarefa aos estúdios americanos conservadores. Outros defenderam que tal ingenuidade seria avessa ao “cinema de autor”, cuja tarefa seria a de suscitar a reflexão, e não se limitar a trazer pouco de reconforto nos períodos difíceis. Resta ao espectador decidir se ele busca, no cinema atual, uma voz que acalenta ou uma voz que interpela.

Ficha técnica

Le Havre (2011) – Filme franco-alemão-finlandês dirigido por Aki Kaurismäki.Com André Wilms, Kati Outinen, Blondin Miguel, Jean-Pierre Darroussin, Evelyne Didi, Pierre Étaix, Roberto Piazza.

*Bruno é editor do Blog Discurso-Imagem

 

Sexta, 30 Dezembro 2011 17:07

Para pensar e praticar em 2012

Escrito por

feliz_2012-5910*Por Silvia Marcuzzo

Pense se precisa mesmo usar, comprar ou retirar algo da natureza.

Verifique o que você tem em casa, antes de comprar.

Se for adquirir algo, considere seu tempo de vida útil. Quanto mais durar, melhor.

Antes de encaminhar para reciclagem, veja se alguém pode reutilizar o que você está dispensando.

Se você se importa com a educação, com o futuro do seu filho, procure se informar sobre questões socioambientais tanto da sua cidade quanto do planeta.

Repasse informações que considera importante para outras pessoas.

Você é o exemplo para seu filho, sobrinho, amigo.

Se você leu até aqui e se deu por conta da premissa básica “pensar global, agir local” e não sabe o que fazer primeiro, vá até a cozinha, tome um copo d´água.

Analise, entenda de onde veio a água que você bebeu. O caminho que ela percorreu até entrar em sua boca.

O que precisou ser feito para a água potável estar disponível?

Assim como a água matou a sua sede, o que você faz para saciar a sua vontade de ter um mundo melhor?

Se racionalmente não consegue compreender a relação da sua atitude com o universo que o cerca, quem sabe você pode ser tocado pela emoção.

Isso só acontece se você estiver aberto. Significa que você precisa gostar de ver os pássaros voando, de contemplar uma cachoeira ou apreciar um pôr-do-sol, enfim compreender os mecanismos da natureza.

Agora, se não se importa com os outros (por tabela não deve estar gostando muito de você), o melhor mesmo é ver uma possibilidade de cuidar da cabeça ou do coração.
Pois o mundo está como está porque as pessoas não estão se dando por conta com o que está acontecendo com elas mesmas.

*Silvia Marcuzzo é jornalista e trabalha a temática socioambiental desde 1993. Já transitou em diversos “ecossistemas” e arranjos energéticos do jornalismo. Ao passar por assessorias de ONGs, governos e consultorias para empresas, em Porto Alegre, São Paulo e Brasília, sempre manteve a convicção de que é possível melhorar a relação entre os “ambientes” e a comunicação. Por isso, fundou a ECOnvicta Comunicação para Sustentabilidade.

Quinta, 29 Dezembro 2011 20:28

Revendo um filme "maldito"

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“ Os vícios de outrora são os costumes de hoje”

(Sêneca)

De princípio, uma baita curiosidade. Ao depois, certa surpresa, quase derivando para aturdimento. Junto, sorrisos e, pra arrematar, irrefreável riso. Correu assim, sem tirar nem por, o meu reencontro agora com um filme visto com mistura de deleite e sobressalto há mais de meio século. Minha Nossa Senhora da Abadia D’Água Suja, como os costumes se alteram no cotidiano da vida!

Noite dessas, revi na telinha o “ Les Amants”, de Louis Malle, filme apontado como “maldito” quando do lançamento em 1958. Recordo-me bem, vasculhando a jeito as ladeiras da memória, da pororoca de registros desairosos que a fita acumulou em curto período de projeção. A fúria do ultra puritanismo foi de tal monta que as autoridades competentes, de um governo (JK) considerado o mais aberto a manifestações culturais de vanguarda que o País ao longo de sua história já havia experimentado, não tiveram outra alternativa senão a de proibirem a exibição nos cinemas. Uma leve insinuação de cena erótica supostamente nunca dantes mostrada deu origem às reações. Nas portas das salas de projeção fileiras de pessoas de mãos dadas, algumas carregando terços, exprimiam sua zanga com relação àquela obra blasfema, herética, demoníaca, que agredia, segundo se propagou, a moral, os bons costumes, os valores familiares e religiosos mais sagrados.

Em púlpitos, tribunas, colunas de jornais essas reações coléricas também explodiam. Apreciadores de cinema que ousaram, naqueles momentos turbulentos, desafiar o veto dos autoproclamados censores de plantão, assistindo ao filme no curto espaço de tempo em que em foi mantido em cartaz, eram mimoseados com ensurdecedores apupos. Colocaram-se sob ameaça mesmo de constrangimentos físicos. O Chefe de Polícia, que detinha poderes quase equivalentes aos de um Ministro militar, veio a público para assegurar sua total disposição de resolver a pendência, se preciso na marra, caso tardasse a sair a decisão judicial desfazendo aquela pouca vergonha.

Creio chegada a hora de fornecer ao distinto público, sobretudo aos que não viram “ Les amants”, algumas informações acerca da fita. Drama francês, como já dito, dirigido por Louis Malle, expoente da chamada “Nouvelle Vague”, e estrelado pela fascinante Jeanne Moreau, com Alairr Cunn, Jean-Mare Bory e Judith Magre nos demais papéis de realce, o filme, rodado em preto e branco, narra a história de uma relação amorosa extraconjugal. Do ponto de vista estético e das interpretações é uma obra, ainda hoje, digna de louvor, o que explica o “Leão de Ouro” conquistado no Festival de Veneza, um dos muitos prêmios que conseguiu arrebatar.  

A “cena escandalosa”, de cunho amoroso, que provocou a ira santa levada às ruas pode ser apontada hoje, em comparação com as cenas de qualquer filme romântico exibido em vesperais infantis, como uma singela referência pudica enquadrada na mais edulcorada concepção de relacionamento afetivo bolada na literatura de madame Delly. Oportuno relembrar, como outro indicador da atmosfera puritana então vigente, que à mesma época uma reação nesse mesmo tresloucado figurino cercou também outro filme, este brasileiro, “O Padre e a moça”, de  Joaquim Pedro de Andrade.

Depois de haver revisto “Les Amants”, tantos anos decorridos, sinto-me tentado, com absoluta tranqüilidade de espírito, a registrar aqui uma sincera recomendação. Em eventual seleção de fitas visando proporcionar saudável entretenimento a religiosas reclusas, sugiro, respeitosamente, às dignas e zelosas Superioras das congregações que refuguem produções fílmicas românticas produzidas nestes confusos tempos atuais, substituindo-as por sessões corridas dessa terna e lírica criação artística de Louis Malle, por seu conteúdo mais  edificante.              

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog.

Quarta, 28 Dezembro 2011 18:45

Solidariedade é a chave das metas do milênio

Escrito por

e36Por Nassir Abdulaziz Al-Nasser*

De todos os desafios de nosso tempo, garantir a segurança alimentar é primordial, afirma o presidente da Assembleia Geral da ONU, Nassir Abdulaziz Al-Nasser.

A experiência mostra que a cooperação Sul-Sul e a triangular, apoiadas por um adequado financiamento, são ferramentas cruciais para dar resposta aos desafios de desenvolvimento de nosso tempo. A cooperação Sul-Sul apenas complementa, não substitui a Norte-Sul. Todas estas associações são pertinentes diante dos desafios da economia global e do desenvolvimento sustentável.

E, de todos os desafios, garantir a segurança alimentar é primordial. Quase 925 milhões de pessoas em todo o mundo vão dormir com fome todas as noites, e a grande maioria está no Sul do planeta. A comunidade internacional foi capaz de reduzir consideravelmente esses números, mas há muito por fazer nos próximos anos. Nossa resolução para observar criticamente as estratégias contra a insegurança alimentar demonstrará nossa solidariedade com essas populações vulneráveis.

As observações da Organização das Nações Unidas (ONU) em matéria de desenvolvimento sustentável, incluindo a mudança climática, a biodiversidade e a desertificação, deixam claro que devemos ser mais vigilantes. Precisamos ampliar a busca de soluções inovadoras e sustentáveis para a insegurança alimentar.

Para isto, podemos compartilhar lições aprendidas e espalhar estratégias e tecnologias de sucesso no Sul para, entre outras coisas:
1. Melhorar a produtividade agrícola;
2. Elevar a proteção social e reforçar a resiliência dos mais vulneráveis;
3. Administrar os ecossistemas frágeis;
4. Melhorar a nutrição;
5. Combater as enfermidades.

Estes enfoques deveriam contribuir para a concretização dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, cujo prazo terminará em 2015. Também teremos que atender a produção de energias renováveis e modelos de agronegócio que funcionem para colocar alimento suficiente à mesa. Muitos países do Sul tiraram milhões e milhões de pessoas da pobreza extrema e da fome.

Essas nações têm à sua disposição suficientes conhecimento e capacidade técnica que podem ser usados para melhorar intercâmbios Sul-Sul de informação, experiências e técnicas com a visão de elevar a produtividade agrícola e ampliar a distribuição de alimentos para beneficiar mais populações.

Por exemplo, a Aliança Mundial de Terras Áridas – Associados pela Segurança Alimentar busca fortalecer a cooperação entre as nações de territórios secos e desenvolver soluções inovadoras e melhores práticas que possam ser compartilhadas amplamente com países de todo o mundo.

Outro exemplo é o Grande Muro Verde da União Africana, cujo fim é plantar um corredor de árvores através do continente, do Senegal no oeste até Djibuti no leste, para dar respostas simultâneas a problemas ambientais e de pobreza, como degradação e erosão dos solos e avanço da desertificação.

Tais iniciativas foram concebidas para apoiar e complementar esforços a fim de conseguir os ODM, especialmente o primeiro, erradicar a extrema pobreza e a fome, e o sétimo, assegurar a sustentabilidade ambiental.

Com a solidariedade Sul-Sul podemos aprender com os países que estão reformando leis consuetudinárias e práticas para que as mulheres tenham igual acesso à terra e a outros bens produtivos que contribuem para a segurança alimentar. Assim, as mulheres ocuparão o lugar que lhes cabe por direito nas sociedades.

O investimento em pesquisa agrícola é outra área importante da cooperação Sul-Sul, que pode ajudar a financiar melhor os estudos sobre cultivos tropicais dos quais dependem milhões e milhões de pobres.

Os acordos entre instituições agrícolas líderes do Sul global seriam um grande passo adiante no fortalecimento das capacidades nacionais para alimentar seus cidadãos, incrementar sua produção e participar das cadeias de fornecimento agroalimentar criadas para dar resposta à crescente demanda por alimentos de populações em rápido crescimento.

Como presidente da Assembleia Geral da ONU, tenho o compromisso de promover a cooperação Sul-Sul e triangular como uma parte importante de uma unificada associação global. Apenas tal associação, baseada no diálogo aberto e no mútuo entendimento, pode conseguir uma ação coletiva eficaz em um mundo globalizado e interdependente.

* O autor é embaixador do Catar e atual presidente da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Direitos exclusivos IPS.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde

Terça, 27 Dezembro 2011 22:00

Mídia, Chevron e Petrobras

Escrito por

Por Cesar Vanucci*

“Não faltará rigor nessa apuração!”
(Ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, a propósito
do vazamento de óleo da plataforma da “Chevron
”)

Houve-se bem o Governo Brasileiro em ordenar sejam interrompidas, por tempo indeterminado, as operações da Chevron no Brasil. A quarta maior petroleira do mundo pisou feio na bola no episódio do vazamento de óleo no Campo do Frade, na Bacia de Campos. Recorreu a trapaças inimagináveis na construção de sua interpretação dos fatos. Foi longe demais da conta na marota tentativa de engazopamento da opinião pública em que se lançou, começando pelo Parlamento e órgãos de fiscalização.

Favorecida pelo incompreensível e, pode-se dizer mesmo, cúmplice comedimento de parte influente da mídia na divulgação da grave ocorrência ambiental, a empresa norte americana fez de tudo para ocultar as verdadeiras proporções do incidente. Tratava-se, garantiu, de vazamento provocado por “uma rachadura no solo do oceano”. Um “fenômeno perfeitamente natural”, ousou afirmar. A versão pinoquiana foi reduzida a estilhaços em curto espaço de tempo. A alegação,  constatou-se, não passava de embuste, deboche puro.

As informações liberadas a respeito de colossal mobilização de recursos extraordinários que estaria promovendo, objetivando conter o vazamento foram  desmentidas, uma a uma. A petroleira sustentou haver requisitado, de imediato, 17 embarcações para as operações de emergência. Mentira. Naquela fase dos trabalhos, deslocou para o local do desastre um único navio. Ao anunciar um plano emergencial de abandono do poço que vinha sendo perfurado, sonegou outro dado fundamental: não dispunha dos equipamentos necessários à execução do plano com a rapidez exigida. O equipamento teve que ser trazido de fora. Só entrou em funcionamento algum tempo depois, sem que os órgãos competentes tivessem sido devidamente notificados de sua chegada. Disso resultou o retardamento de providencias consideradas essenciais. As tapeações da Chevron chegaram ao ápice    do atrevimento quando mandou confeccionar um vídeo com imagens adulteradas do incidente. A intenção de, uma vez mais, ludibriar a boa fé alheia ficou manifesta. As cenas editadas “provavam” que a dimensão do desastre ambiental havia sido sensivelmente menor.

Coube a diligentes oficiais da Policia Federal deixar exposta ainda mais a arrogância e impertinência da empresa. A ação policial comprovou a utilização na área pesquisada, na Bacia de Campos, de uma sonda com capacidade para perfurações além de 7 mil metros. O fato evidenciou que a petroleira infringiu também, clamorosamente, regras pactuadas quanto às suas atribuições na prospecção que lhe foi confiada. Na verdade, as camadas de petróleo na região explorada podem ser alcançadas a profundidades que tornam dispensáveis sondas desse porte. A ação levada a termo escondia o propósito de facilitar à Chevron acesso, de forma ilegal, clandestina, à camada de pré-sal. Acesso esse não cogitado na outorga de prospecção concedida.

Não há, pois, usando de franqueza, como calar a estranheza diante da tonitruante constatação de que essas coisas todas, de suma gravidade, não conseguiram, apesar dos sinais e indícios abundantes e pertubadores, atrair com a intensidade desejável as atenções da grande mídia. Pergunta-se, então, com certa inquietação quanto a natureza das respostas que possam ser colhidas: e se no lugar ocupado pela estrangeira Chevron, como ré que é de crime bem configurado contra o interesse público, contra o interesse nacional, estivesse colocada a brasileiríssima Petrobras? A cobertura das ocorrências gravíssimas na bacia de Campos teria sido tão controlada, tão parcimoniosa, quanto a que foi dada, no tocante à candente questão, por quase todos os nossos grandes veículos de comunicação? Hein?

O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco*

 

Quinta, 22 Dezembro 2011 02:14

A arte de ouvir

Escrito por

escutaPor Henning Mankell* | Tradução: Paulo Cezar de Mello

Cheguei à África com um objetivo: queria ver o mundo do lado de fora da perspectiva egocentrista europeia. Podia ter escolhido a Ásia ou a América do Sul. Acabei na África porque a passagem aérea para lá era mais barata.

Vim e fiquei. Durante quase 25 anos, vivi em Moçambique em períodos alternados. O tempo passou e eu não sou mais jovem. Na realidade, estou chegando à velhice. Mas a minha razão de levar essa existência escarranchada, com um pé na areia africana e outro na neve europeia— na melancólica região de Norrland, Suécia, onde cresci —, tem a ver com a vontade de ver com clareza, de compreender.

O modo mais simples de explicar o que aprendi com minha vida na África é recorrer à parábola sobre a razão de os seres humanos possuírem duas orelhas mas só uma língua. Por que isso? Provavelmente porque precisamos ouvir duas vezes mais do que falar.

Na África, ouvir é um princípio orientador. Princípio que tem se perdido na tagarelice ininterrupta do mundo ocidental, onde ninguém parece ter tempo nem mesmo desejo de ouvir quem quer que seja. Pela minha própria experiência, percebi como a necessidade que tenho de responder a uma pergunta durante uma entrevista para a TV ficou mais urgente do que era dez, quem sabe cinco anos atrás. É como se tivéssemos perdido completamente a capacidade de ouvir. Falamos, falamos e acabamos amedrontados pelo silêncio, o refúgio daqueles que ficam sem saber o que responder.

Sou velho o bastante para lembrar a época em que a literatura sul-americana emergiu na consciência popular e mudou para sempre nossa visão da condição humana e do significado de ser humano. Agora, penso que chegou a vez da África.

Por toda parte, gente do continente africano escreve e conta estórias. Com certeza, a literatura africana logo estará pronta a irromper na cena mundial — assim como aconteceu com a literatura sul-americana anos atrás, quando Gabriel García Márquez e outros conduziram uma revolta tumultuosa e altamente emocional contra verdades arraigadas. Brevemente um jorro literário africano oferecerá uma nova perspectiva sobre a condição humana. O escritor moçambicano Mia Couto, por exemplo, criou um realismo mágico africano que mistura linguagem escrita com as grandes tradições orais da África.

Se formos capazes de ouvir, vamos descobrir que muitas narrativas africanas apresentam estruturas completamente diferentes do que estamos acostumados. Eu simplifico demais, claro. No entanto, todo mundo sabe que há verdade no que estou dizendo: a literatura ocidental é normalmente linear; vai do começo ao fim sem grandes digressões no espaço ou no tempo.

Não é o que acontece na África. Aqui, em vez de narrativa linear, existem narrativas desimpedidas e exuberantes que saltam para trás e para frente no tempo e fundem passado e presente. Alguém que morreu há muito tempo pode intervir sem cerimônia numa conversa entre duas pessoas perfeitamente vivas. Isto só para dar um exemplo.

Os nômades que ainda habitam o deserto de Kalahari são conhecidos por contar estórias entre si durante suas caminhadas de um dia inteiro para procurar raízes comestíveis e animais de caça. Com frequência há mais de uma estória se desenrolando ao mesmo tempo. Às vezes, três ou quatro estórias seguem paralelas. Mas, antes de voltar para o local onde passarão a noite, eles procuram entrelaçar as estórias ou separá-las de vez, dando a cada uma sua própria conclusão.

Uns tantos anos atrás, sentei-me em um banco de pedra do lado de fora do Teatro Avenida em Maputo, Moçambique, onde eu trabalho como consultor artístico. Era um dia quente, e estávamos fazendo um intervalo nos ensaios a fim de dar uma escapada lá para fora, esperando que soprasse uma brisa fresca. Fazia tempo que o sistema de ar condicionado do teatro deixara de funcionar. Devia fazer mais de 38 graus lá dentro enquanto trabalhávamos.

Dois velhos africanos estavam sentados no banco, mas havia lugar também para mim. Na África, compartilha-se mais do que apenas água, um hábito fraternal. Mesmo quando se trata de sombra, as pessoas são generosas.

Ouvi os dois falarem de um terceiro homem velho que havia morrido recentemente. Um deles disse: “Eu estava de visita em sua casa. Ele começou a me contar uma estória assombrosa sobre algo que aconteceu quando ele era jovem. Mas a estória era longa. Veio a noite e concordamos que eu devia voltar no dia seguinte para ouvir o resto. Só que, quando eu voltei, ele tinha morrido.”

O homem caiu em silêncio. Resolvi que não deixaria aquele banco enquanto não escutasse a resposta que o outro daria ao que tinha ouvido. Tive um sentimento instintivo de que isso seria importante.

Finalmente, ele também falou:

“Não é um jeito bom de morrer — antes de ter contado o final da sua estória.”

Enquanto eu ouvia aqueles dois velhos, ocorreu-me que um termo para nomear nossa espécie, mais verdadeiro do que Homo sapiens, poderia ser Homo narrans, a pessoa que narra, que conta estórias. O que nos diferencia dos animais é o fato de que podemos escutar os sonhos, medos, alegrias, tristezas, desejos e frustrações das outras pessoas — e elas, por sua vez, podem escutar os nossos.

Muita gente comete o erro de confundir informação com conhecimento. Não se trata da mesma coisa. Conhecimento implica interpretar a informação. Conhecimento implica ouvir.

Então, se eu estou certo em dizer que somos criaturas narradoras, e na medida em que nos permitimos ficar quietos por um momento às vezes, a eterna narrativa irá prosseguir.

Muitas palavras serão escritas no vento e na areia, ou acabarão em algum obscuro jazigo digital. Mas o contador de estórias seguirá em frente até que o último ser humano pare de ouvir. Então, podemos enviar a grande crônica da humanidade para o universo infinito.

Quem sabe? Talvez haja alguém lá fora, desejando ouvir…

* Henning Mankell é autor de muitos livros, entre os quais os romances policiais protagonizados pelo personagem Kurt Wallander. O artigo foi publicado em 10 de dezembro de 2011 pelo New York Times

Quarta, 21 Dezembro 2011 22:23

Histórias de Natal

Escrito por

natalPor Cesar Vanucci*

“A expansão prodigiosa do mundo atual dá ao mistério do Natal uma dimensão nova.”

(Jacques Joew)

Acho uma baita falta de consideração e muito pouco ético esse negócio das pessoas desencarnarem no Natal ou nas imediações do Natal. Falar verdade, a observação se aplica também a outros instantes de sublimação coletiva, como, por exemplo, vitória na Copa do Mundo. Horas assim não se aprestam a adeuses doloridos, nem separações bruscas. Natal é celebração de vida e não momento de partida. Suas evocações simbólicas falam alvissareiramente de chegada e de permanência. Dependesse de minha vontade, o governo editaria medida provisória proibindo, em caráter irrevogável, que as pessoas morressem nesse dia. As lideranças partidárias no Congresso seriam convocadas para aprovar a peremptória decisão com a mesma ligeireza com que, no apagar das luzes da temporada parlamentar, costumam votar indecorosas vantagens pecuniárias.

Esse meu inconformismo com o "encantamento" que acomete alguns no período de comemoração natalina está associado à lembrança  de um Natal da meninice. Um episódio que deixou marca nas ladeiras da memória. Preparávamo-nos, todos, na mais santa alegria, para os festejos. Os semblantes eram dominados pela idéia da trégua, do repouso, da confraternização em seu significado mais puro e autêntico. O aspecto mercantil do evento não havia atingido ainda patamar que permitisse essas ousadas e modernosas tentativas de se substituir, como símbolo natalino, a meiga figura nazarena da manjedoura pelo peru da sadia. De repente, o impacto  de uma ocorrência brutal. Vieram nos contar que um garotinho da vizinhança, companheiro de inocentes estripulias, havia perdido a vida numa enchente de córrego provocada por chuva forte.

Sentimos, todos, uma dificuldade grande para absorver aquele aparente triunfo da morte sobre a vida, justamente num momento de celebração da vida em plenitude. O incidente, naquela precisa hora, não passava de um tremendo contra-senso. Claro, que a rolagem dos anos trouxe a explicação. Mas o sinal daquela brusca ruptura com a vida ficou.

De outro Natal da infância já trago lembrança doce e terna. Meus pais, Antonio e Antonia, me levaram pelo braço pra ver as prateleiras apinhadas de brinquedos da Livraria São Bento, na rua do Comércio,  Uberaba. Pelo que entendi, o local era uma espécie de entreposto usado por Papai Noel para guardar os presentes que iria enfiar chaminé abaixo nas casas dos meninos de bom comportamento. Deixei minha cartinha, com pedido, nas mãos de da. Sinhá Brasil, gerente do estabelecimento.

Em casa, antes do sono chegar, as mãos postas e a alma feliz, renovei na oração que mamãe ensinou o pedido ao velhinho do trenó. Na manhã seguinte, ao lado da cama avistei o pequeno bilhar que desejava receber como presente. O mano Augusto Cesar jurava haver testemunhado a chegada de Papai Noel  no quarto, de madrugada, pé ante pé,  para fazer a entrega dos presentes encomendados. As reverberações mágicas daquele precioso instante estão presentes em todas as celebrações natalinas deste amigo de vocês. Que se vale do grato ensejo para desejar-lhes um Feliz Natal e um próspero Ano Novo.

* Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) e escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Terça, 29 Novembro 2011 21:27

O recado de Zumbi

Escrito por

300px-ZumbidospalmaresPor Cesar Vanucci *

"Sou negro, como é negra a noite.

 Sou negro como as profundezas d'África"

(Langston Hughes, poeta negro norteamericano)

De tempos distantes chegam até nós, nesta hora de celebrações, o clamor e a ânsia de liberdade de Palmares. A lendária figura de Zumbi se introduz nas atenções populares, em toda sua grandeza épica, carregando sonhos e esperanças de libertação. São sentimentos válidos não apenas para aquele momento vivido e sofrido do holocausto negro, em que o abençoado irredentismo do herói da raça cravou presença na história. Aproveitam a todos os instantes, épocas e lugares onde a insanidade encontra terreno propício para cultivar o germe da divisão dos homens pela cor e pela etnia.

A mensagem de Zumbi, evocada nas comemorações da "Semana da Consciência Negra", é de ofuscante atualidade. Aborrece o desvario radical, as posturas acomodadas, as reações hipócritas. As atitudes cotidianas que asseguram, em tantas partes e setores deste planeta azul, a cobrança implacável e interminável de um tributo de dor e humilhação às pessoas de epiderme escura. Contra elas, em nome de ostensiva ou encapuzada, mas sempre despropositada e falsa supremacia racial, são colocadas em movimento, mais exacerbadas aqui, mais brandas ali, as engrenagens do ódio, da ignorância e da opressão e, também, da indiferença e da omissão, que conseguem às vezes magoar e ferir tanto quanto.

Sendo de conteúdo universal, dizendo respeito a uma questão de essência no capítulo dos direitos fundamentais do ser humano, o recado de Zumbi dos Palmares foi feito para alcançar todos aqueles territórios do Atlas Geográfico em que se pratica discriminação, em que se cultiva racismo. Serve de reforço no combate ao segregacionismo em que se acha empenhada a poderosa sociedade democrática do país de Martin Luther King. Experimentando alívio diante dos bons resultados já alcançados e alguma expectativa quanto aos futuros desdobramentos, acompanha as evoluções no processo de integração conduzido por Nelson Mandella na África do Sul. Alenta e encoraja grupos minoritários perseguidos e ultrajados em largas extensões desse mundo de Deus onde o diabo costuma plantar seus indesejáveis enclaves.

Confronta clima permanente e dolorido de desconfiança, a partir das inquirições e revistas de bagagens diferenciadas nos postos alfandegários, com que são recebidos em países da Europa e nos Estados Unidos turistas e imigrantes negros ou de outras raças discriminadas. O recado de Zumbi convida a comunidade brasileira a uma séria reflexão. O que remete logo à necessidade de se conhecer nas exatas proporções os problemas enfrentados, nestes nossos pagos, pelos descendentes africanos.

Vamos falar disso na seqüência. Mas, antes, que tal ligar os aparelhos de reflexão para anotar este impecável conceito de Anatole France a respeito do assunto? Assim falou o mestre: “Na maioria das vezes é tão difícil distinguir num povo as raças que o compõem como seguir no curso de um rio os riachos que nele se jogaram. E que é uma raça? Há realmente raças humanas? Vejo que há homens brancos, homens vermelhos, homens amarelos e homens negros. Mas não se trata de raças, senão das variedades de uma mesma raça, de uma mesma espécie, que formam entre eles uniões fecundas e se misturam constantemente.”

*Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ), e escreve semanalmente para o Blog.  

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