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Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

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Sexta, 18 Novembro 2011 21:16

Pobreza de espírito

Escrito por

1321480119364-lula-cancerPor Cesar Vanucci *

“Exibiram outra vez ignorância e grosseria.”

(Cynara Menezes, jornalista, lamentando as reações

de uma aguerrida minoria à notícia da doença de Lula)

“Lula, a doença e a estupidez – o Brasil que se acha inteligente e bem informado exibe outra vez sua ignorância e grosseria”: em texto muito bem lançado, Cynara Menezes comenta na “CartaCapital” as reações impregnadas de rancor - que expõem um Brasil tosco, espalhadas por parte da mídia e nas redes sociais - à noticia do câncer de laringe que acometeu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Como registra a jornalista, “Nunca antes na história do Brasil alguém recebeu tantos ataques pelo simples motivos de anunciar uma doença.” Na verdade, em que pesem as milhares e milhares de comoventes mensagens de solidariedade, levadas ao ilustre brasileiro em seu leito no Hospital Sírio Libanês, incluídas aí as manifestações edificantes e civilizadas das principais lideranças da oposição política, extrapolou todos os limites do bom senso o volume exagerado de alusões ressentidas, preconceituosas e raivosas ao fato, formuladas por elementos que parecem não se haver conformado até hoje com a ascensão desse sindicalista metalúrgico à chefia do governo brasileiro. Esse pessoal pôs pra circular na Internet uma saraivada de diatribes e baixarias, tentando ressuscitar, de certa maneira, o clima de desvairada belicosidade com que uma minoria aguerrida combateu, no passado, a campanha amplamente vitoriosa, do líder popular que conseguiu granjear, por óbvias razões, os maiores índices de popularidade e simpatia já alcançados por alguém na cena pública da crônica política brasileira. Gracejos imbecis, agravos despropositados, declarações estapafúrdias, desrespeitosas, encharcadas de intolerância e irracionalidade, compuseram aquilo que alguém, pertinentemente, classificou de “esgoto de torpezas.”

Um videotape grotesco daquela enxurrada de agravos, que tão penosa lembrança deixou no espírito popular, montada anos atrás com o maquiavélico intuito de incompatibilizar o então candidato com os diferentes segmentos da sociedade, de modo a obstar a ascensão de um genuíno Silva, do andar de baixo da estrutura socioeconômica, às grimpas do poder político. Aconteceu naquela época de boataria maldosa e insistente, alimentada até por influentes próceres classistas da FIESP, de que o Brasil seria inapelavelmente sacolejado, na hipótese da “indesejada” eleição de Lula, por verdadeiro êxodo de empresários, tendo em vista os “tenebrosos” planos de desmantelamento das atividades produtivas tradicionais que seu governo tinha em cogitação implementar.

Essa deplorável forma de reação à enfermidade do ex-presidente traduz pobreza de espírito. Expõe sem rebuços a face desumana de uma porção sabidamente minoritária da comunidade, que mesmo detendo ainda certos instrumentos capazes de influenciar negativamente os rumos das coisas, distanciou-se anos-luz, emotiva, afetiva, psicológica e socialmente do Brasil autêntico. Do Brasil humanística e espiritualmente solidário com os valores que conferem dignidade a vida humana.

* Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) e escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Segunda, 14 Novembro 2011 18:57

Missão cumprida

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Um grande brasileiro, dedicado e apaixonado pelo seu País.”

(Olavo Machado Junior, presidente da Fiemg, referindo-se a José Alencar)

Tenho o prazer de participar que o livro “José Alencar – missão cumprida”, de minha autoria, editado com o apoio cultural da Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais), foi lançado no dia 11.11.11, em Belo Horizonte, na sede da mencionada entidade. Muitos amigos e leitores distinguiram-me com sua presença no ato.

O presidente do Sistema Fiemg, empresário Olavo Machado Junior, assinou o prefácio.

Na introdução do livro, registro as seguintes palavras: 

“Até a morte, tudo é vida.”

(Cervantes, “Dom Quixote”)

A vida humana é finita. Um tremeluzir de relâmpago na vastidão da eternidade. A gente principia a morrer quando nasce. Começa a arrumar a mochila da partida na própria hora da chegada. Richard Bach explica magistralmente o indesvendável e excitante mistério da aventura humana quando registra existir um jeito muito simples de saber se está cumprida a missão de alguém: se está vivo, não está.

No caso de José Alencar Gomes da Silva – o Vice-Presidente que nos conquistou com copiosos exemplos de apreço à causa pública e que nos emocionou com a bravura indômita demonstrada em atos inequívocos de seu dia a dia, mostrando-nos que a vida é um dom precioso a ser desfrutado e preservado – a missão foi cumprida. Esplendidamente cumprida.

É disso que se procura dar notícia no material de leitura da sequência.

Estão aqui enfeixados comentários que lancei, logo após a partida do grande brasileiro, em jornais e blogs com os quais colaboro, com destaque especial para o “Diário do Comércio”, de Belo Horizonte, e artigos, também de minha autoria, divulgados em momentos anteriores à sua morte.

O livro abre espaço para manifestações de outros amigos e colaboradores do querido personagem. Rememora, ainda, momentos em que Lula e Alencar se enxergaram parceiros de épica empreitada. A empreitada que conduziu, numa proeza sem precedentes, dois representantes da imensa legião dos Silvas brasileiros, ambos de origem humilde, desprovidos do verniz doutoral universitário, mas laureados nas ásperas refregas da escola da vida, por dois mandatos consecutivos, ao supremo comando da República. Mandatos esses transcorridos num período de realizações incomparáveis que atraíram as atenções e a admiração do mundo inteiro para o esforço irrefreável de nosso povo na conquista do futuro.

A leitura destas páginas concorrerá, de algum modo, para que o leitor, inteirando-se de mais informações a respeito da obra de Alencar em sua peregrinação pela pátria terrena, conclua como ele certamente o fez, louvado em Cervantes (por sinal,  autor de sua especial predileção), que “até a morte, tudo é vida.”

* Cesar Vanucci, jornalista mineiro (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ), escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

 

Segunda, 07 Novembro 2011 20:16

Histórias de quadrinhos

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

Nocivo alimento mental proporcionado

à infância e à juventude.”

(Vivaldo Coaracy, numa critica, nos anos 50, aos quadrinhos)

Meninos, eu vi. Ninguém me contou. Eu é que vi. Deu-se nos distantes tempos da meninice. A escola primária ficava perto de casa. As sacolas para carregar livro, caderno, lápis, borracha, régua e apontador eram submetidas, dia sim, outro também, a revistas executadas no capricho pelas diligentes ajudantes da secretaria, com seu olhar inquisidor e disposição nada complacente.

Tais revistas colocavam sob dardejante mira – o trocadilho no caso vem pronto – “revistas inconvenientes”. Publicações que adultos cônscios de seus sagrados deveres, guardiões impertérritos dos valores familiares, catalogavam na conta de atentatórias à moral e aos bons costumes. Material vulgar, despojado de mérito literário, subversivo do ponto de vista pedagógico e cultural, na abalizada e inquestionada avaliação da zelosa diretora e conspícuos integrantes do abalizado corpo docente do estabelecimento. Desenhos e textos nocivos que desestimulavam  os jovens a desenvolverem o gosto pela leitura, o saudável hábito da frequência aos livros.

Agravando tudo, a opinião inquestionada dos eméritos educadores batia com a de extremosos pais e a de doutos representantes do Juizado de Menores. Os comissários do Juizado, geralmente voluntários, orientados pelo titular da Vara, costumavam, até mesmo, de quando em vez, em sortidas moralizantes, aplaudidas pela comunidade, visitar bancas de venda, com o meritório propósito de impedir o repasse a menores das extravagantes publicações, que tanto mal disseminavam pela aí. Ler ou ter sob posse um gibi era coisa inominável, deletéria, malsã. A restrição severa fazia da “infração” pecado mortal, a ser expungido da consciência pesada dos garotos enredados nos “delitos” com manifestações sinceras de arrependimento, se possível, no confessionário.

Meninos, eu vi. Vi, muitas vezes, escolar pego no flagra com histórias de quadrinhos na sacola a receber exemplar punição pela gravíssima falta cometida. Revistinha apreendida, na sala da diretora, o guri ouvia, cabisbaixo, severa admoestação. Se configurada reincidência, era convidado a estender a mão para receber os impactos doridos da temível palmatória. O castigo podia comportar outra alternativa. Quinhentas ou mil linhas depois das aulas. Uma repetição interminável, no caderno, de frase contendo o solene compromisso de nunca mais incidir no abominável erro.

Rememorando esses lances desconcertantes, relacionados com o absurdo preconceito vigente, muitas décadas atrás, quanto aos quadrinhos, sinto até um certo embaraço em acrescer ao relato feito outra cabulosa revelação, pertinente a ocorrências das quais fui também testemunha, com estes olhos que um dia a terra vai comer (só que, dependendo de minha exclusiva vontade, daqui um tempão). Gibis arrancados das mãos e pastas da petizada devorados por “saneadoras” labaredas no pátio da escola, debaixo de gáudio inquisitorial, para não sobrar dúvida alguma quanto à influência daninha que essa modalidade marginal de comunicação exercia no inocente espírito infantil.

Tão efervescentes relembranças chegam por causa de mais um FIQ. Festival Internacional de Quadrinhos, evento realizado sempre com absoluto sucesso, na capital das Gerais. Reconhecido como o maior evento de quadrinhos da América Latina, com convidados de todas as partes do mundo, contando com o patrocínio da Fundação de Cultura e ilustres parceiros. A programação abrange, a cada versão, exposições, oficinas, palestras, debates, mostras de filmes e, obviamente, enorme e esplêndida feira de quadrinhos. Na realidade, o que se vê e se aplaude nessa iniciativa cultural é uma explosão feérica de talento, criatividade e arte. Uma demonstração exuberante da importância do quadrinho como expressão nobre da cultura popular.

E os contestadores, daqueles tempos, das histórias em quadrinhos, que consideravam o gênero um processo terrorista destinado a abalar os alicerces da cultura e da inteligência humana? E aqueles que viam nos cosmonautas do gibi, singrando o campo azul do céu em suas espaçonaves, atiçando a imaginação infantil e devassando os horizontes insuspeitados do porvir, um símbolo repulsivo de degradação cultural? Será que algum dia qualquer, mais pra frente, tiveram consciência de terem estado presos a fossilizados paradigmas culturais, à uma  acanhada percepção dos fenômenos sociais, que impediam compreendessem a extraordinária revolução que se processava  debaixo de seu vesgo olhar de censura e desconfiança? Será que entenderam, nalgum momento, que as historietas tão bem boladas de Flash Gordon, para ficar num único exemplo de “herói dos quadrinhos”, tanto quanto os livros de astronomia, ajudaram a escancarar nossa visão para os prodígios da vastidão cósmica? Fizeram desabrochar as potencialidades da mente com relação a achados tecnológicos assombrosos?

As fogueiras acesas com gibis, as machucaduras produzidas pelas  palmatórias, as cansativas e exasperantes linhas, as admoestações com toque policialesco não conseguiram, visto está e o FIQ comprova isso, sofrear os avanços humanos, em matéria de interpretação da vida, propostos pelas fascinantes histórias em quadrinhos. Isso aí!

 * Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) e publica semanalmente artigos no Blog.

Quinta, 03 Novembro 2011 15:11

Chance histórica desprezada

Escrito por

la_foto_de_la_paz_Por Cesar Vanucci *

“Apenas uma Palestina livre e soberana poderá

atender aos legítimos anseios de Israel por paz.”

(Presidenta Dilma Rousseff)

Influenciado por grupos ultra-ortodoxos em termos políticos e religiosos de suas próprias hostes – um pessoal que não perde nada em radicalização para raiventos talebãs do front político e religioso inimigo -, o governo de Telavive está esperdiçando, uma vez mais, as chances históricas de por fim a um impasse angustiante e de recompor a imagem de seu país, de tão ricas tradições de cultura, aos olhares do mundo.

A posição de arrogância e intransigência que sustenta, no tocante ao reconhecimento do Estado da Palestina, com o incompreensível apoio, sem dúvida poderoso, mas isolado, dos Estados Unidos, coloca-se em frontal dissonância com o sentimento universal. Acentua tremendamente as tensões na região e os temores gerais. Esgarça laços de convivência considerados essenciais na busca de saídas menos traumáticas para os conflitos que transformaram o Oriente Médio num barril de pólvora. É só lembrar, nesse item em particular, duas ocorrências recentes.

O esfriamento sensível nas relações com o Egito e o rompimento de relações diplomáticas patrocinado pela Turquia, diante da negativa peremptória de Israel, sentindo-se naturalmente favorecido pelas “costas quentes”, assegurada pelo seu principal aliado, de não acolher, pela enésima vez, uma decisão da ONU. Além de oferecer objeções insustentáveis à luz do senso comum à idéia da tão almejada constituição da pátria palestina; além de ampliar, ininterruptamente, as restrições de locomoção e de expressão, nos territórios sob seu controle, aos cidadãos palestinos, o governo israelense faz ouvidos moucos aos questionamentos procedentes de todos os cantos, até mesmo da Casa Branca, contra sua desafiadora e incessante política de assentamento de colonos em terrenos localizados nas terras supostamente destinadas ao futuro Estado.

Parece faltar aos integrantes do gabinete que governa o país um mínimo de sensibilidade para compreender aquilo que, de forma bastante lúcida, a Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, explicitou na tribuna da Assembléia Geral das Nações Unidas, dando voz a uma opinião largamente majoritária no seio da comunidade das nações. “Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional”, foi o que argumentou, sensatamente, a mandatária brasileira.

Falta, também, ao governo de Israel, incapacidade de percepção para extrair as corretas e pedagógicas lições de uma grande odisséia – a de sua própria gente, alvo em passado não tão distante de ignomínias catalogadas pela história com a denominação de holocausto – que relembra, de certo modo, por frisantes traços de similitude, o drama vivido na atualidade pelos escorraçados palestinos.

Principal potência econômica da região, provido de recursos tecnológicos invejáveis, pólo de irradiação cultural e de desenvolvimento, o Estado do Israel perde por conta dessas reações extremadas a oportunidade histórica de redefinir, com o reconhecimento da Palestina e com negociações que possam assegurar, na sequência, uma convivência harmoniosa com o mundo árabe em geral, o papel de liderança que está fadado naturalmente a desempenhar na região. A essas considerações cabe acrescentar que todo esse processo terá que envolver igualmente, o compromisso por parte dos países árabes, de reconhecerem formalmente Israel como um Estado consolidado, detentor de legítima representatividade no contexto das nações. Como, aliás, admitido, de há muito, pela quase totalidade dos países com assento na ONU.

 * Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Quinta, 03 Novembro 2011 14:17

Como lidar com os anjos e os demônios interiores

Escrito por

DEMNIO1Por Leonardo Boff

O ser humano constitui uma unidade complexa: é simultaneamente homem-corpo, homem-psiqué e homem-espírito. Detenhamo-nos no homem-psiqué, vale dizer, no seu mundo interior, urdido de emoções e paixões, luzes e sombras, sonhos e utopias. Como há um universo exterior, feito de ordens-desordens-novas ordens, de devastações medonhas e de emergências promissoras, assim há também um mundo interior, habitado por anjos e os demônios. Eles revelam tendências que podem levar à loucura e à morte e energias de generosidade e de amor que nos podem trazer autorealização e felicidade.

Como observava o grande conhecedor dos meandros da psiqué humana C. G. Jung: a viagem rumo ao próprio Centro, devido a estas contradições, pode ser mais perigosa e longa do que a viagem à Lua e às estrelas.

Há uma questão nunca resolvida satisfatoriamente entre os pensadores da condição humana: qual é a estrutura de base de nossa interioridade, de nosso ser psíquico? Muitas são as escolas de intérpretes.

Resumindo, sustentamos a tese de que a razão não comparece como a realidade primeira. Antes dela há todo um universo de paixões e emoções que agitam o ser humano. Acima dela há inteligência pela qual intuímos a totalidade, nossa abertura ao infinito e o êxtase da contemplação do Ser. As razões começam com a razão. A razão mesma é sem razão. Ela simplesmente está aí, indecifrável.

Mas ela remete a dimensões mais primitivas de nossa realidade humana das quais se alimenta e que a perpassam em todas as suas expressões. A razão pura kantiana é uma ilusão. A razão sempre vem impregnada de emoção e de paixão, fato aceito pela moderna epistemologia. A cosmologia contemporânea inclui na idéia do universo não apenas energias, galáxias e estrelas mas também a presença do espírito e da subjetividade.

Conhecer é sempre um entrar em comunhão interessada e afetiva com o objeto do conhecimento. Apoiado por uma plêiade de outros pensadores, tenho sempre sustentado que o estatuto de base do ser humano não reside no cogito cartesiano (no eu penso, logo sou), mas no sentido platônico-agostiniano (no sinto, logo existo), no sentimento profundo. Este nos põe em contacto vivo com as coisas, percebendo-nos parte de um todo maior, sempre afetando e sendo afetados. Mais que idéias e visões de mundo, são paixões, sentimentos fortes, experiências seminais, o amor e também seus contrários, as rejeições e os ódios avassaladores que nos movem e nos põem marcha.

A razão sensível lança suas raízes no surgimento da vida, há 3,8 bilhões de anos, quando as primeiras bactérias irromperam e começaram a dialogar quimicante com o meio para poder sobreviver. Esse processo se aprofundou a partir do momento em que surgiu o cérebro límbico, dos mamíferos, há mais de 125 milhões de anos, cérebro portador de cuidado, enternecimento, carinho e amor pela cria. É a razão emocional que alcançou o patamar autoconsciente e inteligente com os seres humanos, pois somos também mamíferos.

O pensamento ocidental é logocêntrico e antropocêntrico e sempre colocou sob suspeita a emoção por medo de prejudicar a objetividade da razão. Em alguns setores da cultura, criou-se uma espécie de lobotomia, quer dizer, uma grande insensibilidade face ao sofrimento humano e aos padecimentos pelos quais tem passado a natureza e o planeta Terra.

Nos dias atuais, nos damos conta da urgência de, junto com a razão intelectual irrenunciável, importa incluir fortemente a razão sensível e cordial. Se não voltarmos a sentir com afeto e amor a Terra como nossa Mãe e nós, como a parte consciente e inteligente dela, dificilmente nos moveremos para salvar a vida, sanar feridas e impedir catástrofes.

Um dos méritos inegáveis da tradição psicanalítica, a partir do mestre-fundador Sigmund Freud, foi o de ter estabelecido cientificamente a passionalidade como a base, em grau zero, da existência humana. O psicanalista trabalha não a partir do que o paciente pensa mas a partir de suas reações afetivas, de seus anjos e demônios, buscando estabelecer certo equilíbrio e uma serenidade interior sustentável.

A questão toda é como nos assenhorear criativamente de nossa passionalidade de natureza vulcânica. Freud se centra na integração da libido, Jung na busca da individuação, Adler no controle da vontade de poder, Carl Rogers no desenvolvimento da personalidade, Abraham Maslow no esforço de autorrealização das potencialidades latentes. Outros nomes poderiam ser citados como Lacan, Reich, Pavlov, Skinner, a psicologia transpessoal e a cognitiva comportamental e outros.

O que nos é permitido afirmar é que, independentemente, das várias escolas psicanalíticas e filosóficas, o homem-psiqué se vê obrigado a integrar criativamente seu universo interior sempre em movimento, com tendências dia-bólicas e sim-bólicas, destrutivas e construtivas. Por acertos e erros vamos, processualmente, descobrindo nosso caminho.

Ninguém nos poderá substituir. Somos condenados a ser mestres e discípulos de nós mesmos.

*Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.

Segunda, 24 Outubro 2011 22:39

Deslavada hipocrisia

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

Hipocrisia: o sujeito assassina os pais e,

depois, pede clemência por ser órfão.”

(Abrahão Lincoln)

O rei Abdullah, do enigmático reino saudita, cancelou a sentença de dez chibatadas em público imposta por fundamentalistas religiosos a Shaima Ghassaniya. A recomendação para tão exemplar punição  decorreu de horrendo ato: a jovem foi flagrada ao volante de um carro nas ruas de Riad, desrespeitando acintosamente a moral e os bons costumes. As agências noticiosas apressaram-se em informar, pouco depois, que a magnânima decisão do esclarecido monarca arrancara justificados louvores, dentro e fora do país. Houve até quem, comovido com o misericordioso gesto, rendesse graças “a Alá e ao nosso amado rei pela revogação da punição de Shaima”. É o que chegou a ser noticiado.

Choca – e como! – a sensibilidade das pessoas de formação democrática constatar a forma complacente, pra não dizer cúmplice, com que a mídia internacional e os dirigentes das grandes potências comentam, invariavelmente, as excentricidades, os absurdos, as violências constantes do regime saudita contra os direitos humanos, reprimindo a livre manifestação das idéias, alvejando impiedosamente as mulheres.

A asfixia das liberdades de expressão, de ir e de vir, por demais notória no cotidiano do país, é solenemente ignorada nas execrações, amiúde feitas, em nome da dignidade humana, pelas mais influentes lideranças mundiais, a governantes e sistemas tirânicos que disputam, no olho eletrônico com a Arábia Saudita, o pódio no capítulo dos crimes contra a humanidade ostentando, por vezes, até grau menor de virulência.

E isso acontece por conta de insustentável argumento, deslavadamente hipócrita. O de que a Arábia Saudita é um baluarte virtuoso na defesa dos valores que as parcelas amplamente majoritárias das criaturas do bem tanto prezam. Onde já se viu estultice e contrassenso tamanhos? Como conceber um país desses, comandado com mão de ferro por fanáticos religiosos, a desfrutar do reconhecimento de chancelarias importantes como linha de defesa vanguardeira dos ideais nobres alimentados pela cultura humanística que permeia de dignidade a convivência social?

Qualquer avaliação que se faça dos procedimentos políticos governamentais, das práticas coercitivas envolvendo a rotina da gente do povo, em vigência no reino saudita, comparativamente com Coréia do Norte, Irã, Síria, pra ficar nalguns exemplos mais manjados, conduz observadores isentos à irretorquível conclusão de que, em matéria de despotismo feroz, esses regimes todos, todos eles, se equivalem. Noutras palavras, não passam de clones uns dos outros. Farinha do mesmo saco, com seus irrefreáveis e mesmíssimos pendores para posturas repulsivas de supressão das liberdades.

Por qual razão, então, a Arábia Saudita é contemplada, pelos meios midiáticos, com tratamento privilegiado, como se pudesse ser no contexto global uma nação modelar do ponto de vista do respeito aos direitos fundamentais? A resposta a tão intrigante indagação pode ser encontrada no “livro dos por quês absurdos”. Livro esse produzido, obviamente, em bastidores diplomáticos familiarizadissimos com estratégias maquiavélicas montadas com o implacável objetivo de conquistar e garantir a permanência no poder de dirigentes servis à voz do mando superior. Dirigentes que se comprometam a preservar ambições hegemônicas políticas e econômicas de força, peso e medida. Os “donos do mundo”, no afã de conservarem a qualquer custo as rédeas nas magnas decisões, parecem-se demais da conta com aqueles coronelões da crônica política e folclórica, proprietários de extensas léguas de terra, que se colocam, desafiadoramente, à margem ou acima do império da lei: “Amigo pra mim não tem defeito. Inimigo, se não tem, eu boto!”

A confiabilidade saudita é questionada por quem sabe realmente das coisas. O cineasta e jornalista americano Michael Moore, por exemplo, garante, convicto, exibindo dados impressionantes, que a “Al Qaeda” contou com decisiva ajuda em dinheiro e recursos humanos sauditas no atentado às torres gêmeas. Garante mais: em lugar algum do planeta o ato terrorista de 11 de setembro foi tão efusivamente “festejado” como nas mesquitas de Riad. Ora, veja, pois!

* Cersar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Quarta, 19 Outubro 2011 14:43

Marketing verde x realidade insustentável

Escrito por

greenwashing_250Por Liliana Peixinho*

De que maneira a Comunicação pode contribuir, ou não, com a sustentabilidade? A informação veiculada e acessada, filtrada, pode ajudar na mudança de comportamento? Como isso pode acontecer, de fato? Se formos verificar o volume de investimentos que governo e empresas realizam, para propagar programas e produtos, podemos supor que as contrapartidas em visibilidade, credibilidade e por conseqüência, consumo, apresentam retornos que satisfazem bem os interesses de uma das partes da cadeia, os investidores. Mas, e o consumidor, esta satisfeito? E a matriz de produção, tem sido preservada, cuidada?

É objetivo deste artigo despertar a atenção sobre forma, velocidade, conteúdos e resultados de comportamentos construídos pela mídia, através da propagação massiva de conteúdos, sob o olhar da sustentabilidade. Essa pesquisa é reforçada por depoimentos de especialistas e jornalistas sobre o cotidiano brasileiro, mostrando quão distante anda o discurso, generalizado, da prática. Onde a garantia da Vida se revela frágil quando observamos o caos em setores importantes como saúde, educação, transportes, moradia, emprego. Problemas sentidos de perto por quem mais o governo diz estar dando atenção: as classes média e pobre.

Entre especialistas em comunicação circula informações sobre a velocidade da propagação do conceito sustentabilidade e a necessidade de entender melhor o sentido profundo da expressão, usada massivamente sem a devida interseção harmônica nas escalas de produção. Mais do que significado, uma frase vale por seu efeito estético, moderno, linkado com uma realidade que insiste resistir aos desafios de mudanças de comportamento para a sustentação de sistemas fragilizados pela ganância, lucro fácil e rápido, desperdício de tempo e recursos, em nome de uma Vida frágil e ignorada.

Apesar do apelo ideológico difundido massivamente, com reforço diário do discurso da sustentabilidade, o conceito parece estar distante de práticas, ações, gestões, comportamentos, que levem equilibrio, harmonia, entre o que, como, e quanto se produz, na cadeia das atividades econômicas. Nesse contexto, como a Comunicação, o jornalismo, a publicidade, as redes sociais, as listas de discussões, os grupos virtuais, blogs, sites, entre outros, podem contribuir com informações, transversalizadas, contextualizadas historicosocialmente, para a construção de uma nova mentalidade, um novo jeito de pensar, fazer, se comportar, agir, mudar, no que tem se mostrado, demandado, como necessário e urgente?

De um lado vemos que os avanços da Ciência no prolongamento da Vida humana estão desconectados com a mesma fragilidade que essa vida se mostra em ambientes criminosamente impactados por essa mesma ação humana. Esse paradoxo entre as descobertas científicas e a preservação da Vida, num planeta que ainda estamos a conhecer, parece desconsiderar o tempo como o grande protagonista da História, que é determinada por ele. O homem pode viver 100, 110 ou mais, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, crianças que nascem, agora, não garantem o início da vida por falta de direitos simples, como poder dar o primeiro suspiro numa maternidade com as mínimas condições profiláticas para isso.

Estamos bombardeados de propagandas sobre produtos que causam obesidade, problemas cardíacos, diabetes, câncer e um sem número de doenças, diretas ou indiretamente relacionadas ao que consumimos. E não temos proteção para atendimentos médico, psicológico ou jurídico, necessários, decorrentes de comportamento construídos por uma mídia que parece focar apenas na sedução para a compra, desconectada com os resultados gerados pelo comportamento que a mensagem produziu no espectador, leitor, internauta, ouvinte, dentro ou fora de casa.

A televisão, por exemplo, entrou no mercado, nas lares, com força e poder para ditar comportamentos desproporcionais ao poder aquisitivo dessas famílias que se sentam, absortas, em frente a telinha. Vemos agora esse poder sendo dividido, compartilhado, distribuído para as redes sociais, onde esse mesmo poder da mídia veio ainda com mais força, com velocidade ainda maior, para transpor o tempo, agora imediato, real. A mesma competência que esteia o discurso da mídia verde vazia deve ser buscada com a inteligência exigida pela urgência que estar a querer a Vida, harmoniosa e sem pressa, como dever e merecemos ser.

Essa mídia apressada em estimular o consumo pelo consumo vem empurrando a Vida para uma correria para comprar carro para ficar preso em engarrafamentos, nas rodovias e centros urbanos. Acordar cedo para trabalhar fora de casa para pagar uma babá que também deixou o filho em casa para ir trabalhar, alimentando cadeias de vida insustentáveis. Se formos analisar o ciclo perverso sobre o trabalho das mães babás dos filhos dos outros, por exemplo, o custo social desse comportamento pode ser exemplo de diversos outros ciclos de via crucis da vida.

E dever da Comunicação estar atenta as condições sociais para garantia da Vida? Se for e sabemos que é, então não podemos fazer de conta que não vemos empresas propagando-se sustentável, sem ser, pois ao usar trabalho escravo, impactar o ambiente e não ter compromisso em cuidar, preservar, garantir condições para futuras gerações, não é sustentável. E, como disse o colega Andre Trigueiro, nós jornalistas, temos obrigação em dizer e mostrar porque projetos ditos sustentáveis, não o são, de fato. Claro que isso dá trabalho, precisa de investigação, coragem, e uma dose de ética que o mercado publicitário, e mesmo jornalístico, não parece estar interessado, em sua maior parte. Ter jornalistas que façam essa diferença nas redações e agora, nos blogs e mídias sociais, parece ser o caminho para aqueles que querem e acreditam no fazer como compromisso de mudanças.

Apesar da visibilidade midiática e da evolução do conceito: desenvolvimento sustentável, a realidade cotidiana demonstra, nos faz ver, perceber, sentir, registrar, que ações, de fato, sustentáveis, são difíceis de comprovar diante de realidades diárias sobre a natureza humana e ambiental. Essas faces do ambiente estão degradadas, violentadas, exploradas, impactadas. A sustentabilidade tem sido ênfase dos discursos, peças publicitárias, propagandas, falas de governo, empresas e ONGs. De forma competente e criativa percebemos o apoderamento do termo para surfar na onda do marketing verde vazio.

Quando alguém, um governante, um empresário, um representante de um instituto, ONGs, associação, diz que faz um programa dessa ou daquela maneira e não o faz, de fato, como anuncia, qual deve ser o comportamento da mídia?. O corporativismo, com certeza, é outro elemento dificultador. O medo de perder emprego, contrariar interesses, mais forte ainda. O compromisso com os efeitos da informação não parece ser prioridade na agenda, nem mesmo nos compromisso da academia.

A Carta da Terra diz que “devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura de paz. E, que para chegar a esse propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações”. Nesse contexto, é imperativo reforçarmos o saber como instrumento de construção, impulsão, para qualquer modelo, jeito de viver, que reforce a condição humana como frágil, limitada, diante do poder da Natureza, cujas facetas, climáticas, por exemplo, a própria Ciência ainda ignora, desconhece?

E, como a vida continua pautada no consumo, seja de idéias, fazeres e experiências, necessário e sensato, parece ser, adotar políticas, práticas, comportamentos, que alimentem a construção de cadeias de suprimentos onde, fornecedores, distribuidores, varejistas e consumidor final, estejam em harmonia, em sintonia, com as adaptações que o planeta, o ambiente, rural ou urbano, estar a nos exigir, para a garantia da Vida, em suas diversas formas.

* Liliana Peixinho é jornalista, ativista, fundadora dos Movimentos AMA (Amigos do Meio Ambiente) e RAMA (Rede de Articulação e Mobilização Ambiental). Especialização em Mídia e RSA. MBA em Turismo e Hotelaria. Posgraduanda em Jornalismo Científico e Tecnológico – UFBA. O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. / O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. .

Segunda, 17 Outubro 2011 22:51

Morrer é transvivenciar

Escrito por

frei_betto_250Por Frei Betto*

A morte de toda celebridade provoca impacto midiático. Por isso, os arquivos da mídia guardam obituários da rainha Elizabeth II e do papa Bento XVI, de Pelé e Neymar, de Demi Moore e Sebastien Vettel.

A morte nem sempre manda aviso prévio. Se uma celebridade deixa a vida por acidente, como Ayrton Senna e Lady Di, ou por causa inesperada, como Michael Jackson e Amy Winehouse, as redações precisam ter pronto o perfil biográfico do falecido.

Agora, Steve Jobs morreu aos 56 anos. O impacto é tanto maior quanto mais prematura e irreparável a perda: não há como clonar cérebros e talentos geniais. Há pessoas, sim, insubstituíveis. Como já não estão entre nós, ficamos sem parâmetro de comparação, sem saber o que fariam no lugar de quem lhes sucedeu.

Sim, sabemos todos que ninguém é imortal. Em determinado dia, mês e ano do calendário cada um de nós deixará este mundo. O que choca é ver alguém morrer antes do tempo… Sobretudo quando se respira uma cultura de preconceito à velhice.

Chamar, hoje, alguém de velho é uma ofensa. No máximo, admite-se “idoso”. E haja eufemismos para qualificar quem passou dos 60: terceira idade, melhor idade etc. Vi escrito numa van: “Aqui viaja a turma da dign/idade”.

Como velho que sou, rejeito tais artimanhas da linguagem. A melhor idade é dos 20 aos 35 anos (embora a ditadura, ao encarcerar-me, tenha me roubado 4). Se é para inventar eufemismo, melhor ser realista e considerar, nós velhos, a turma da eterna idade, já que estamos naturalmente mais próximos dela…

Nossa cultura pós-moderna lida muito mal com a morte. Busca ansiosamente o elixir da eterna juventude: academias de ginástica, anabolizantes, macrobiótica, cirurgias plásticas etc. Na minha infância, criança era quem tinha de zero a 11 anos. Adolescente, de 11 a 18. Jovem, de 18 a 30. Adulto, de 30 a 50. Velho, mais de 50.

Hoje, tem-se a impressão de que criança é de zero a 18, quando se vive na dependência dos pais. Adolescente, de 18 a 30, sem segurança quanto a compromissos afetivos e profissionais. E, jovem, dos 30 em diante, ainda que se tenha 80 ou 90…

O mundo desencantou-se, disse Max Weber. Religiões e ideologias estão em crise. Pouco se pergunta pelo sentido desta vida e, portanto, muito menos o que nos espera na outra. A relativização de valores e a desculpabilização ética exorcizam o medo de padecer eternamente no inferno.

A morte, como fato social, é tratada como inconveniente: não há rituais fúnebres. Morre-se no hospital, faz-se breve velório, crema-se o corpo, espalham-se as cinzas ao pé de alguma árvore. E vira-se a página. Não há luto nem memória do falecido. E em famílias ricas não raramente a briga por herança começa antes de o defunto esfriar.

As escolas deveriam educar seus alunos quanto aos ritos de passagem inevitáveis ao longo da vida. Eles aprenderiam que a morte não merece credibilidade porque, em si, não existe. Existem a passagem para quem se foi e a perda para quem ficou.

Há famílias que cometem o erro de evitar que as crianças compareçam ao velório de entes queridos. Elas ficam com uma incômoda interrogação na cabeça frente ao “sumiço” do parente querido.

Não gosto do verbo morrer. Prefiro transvivenciar. Por uma questão de fé e sentimento. Quando nascemos, todos riem e nós choramos. Quando transvivenciamos, ocorre o contrário.

A vida é um milagre excepcionalmente belo para enclausurar-se nos poucos anos que nos são dados viver. Acredito que, ao sair do casulo, todos haveremos de virar borboletas – o que é ainda mais belo e promissor.

* Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org/ twitter:@freibetto.

Sexta, 14 Outubro 2011 20:45

Momento glorioso do Nobel

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“As mulheres precisam ter as mesmas oportunidades

que os homens para influenciar nos acontecimentos.”

(Thorbjoern Jagland, do Comitê de premiação do Nobel)

A grande maioria dos viventes deste conturbado planeta azul não saberá por certo explicar, assim à queima roupa, onde estão localizados no mapa o Iêmen e a Libéria. Alguém menos desinformado poderá, talvez, dizer que são integrantes de um grupo de países em que a pobreza crônica da população atinge as raias da calamidade. Com estruturas políticas e administrativas esfaceladas, veem-se sacudidos permanentemente por traumáticos conflitos e submetidos a rígidas e arcaicas normas de convivência social, nascidas de um caldo de cultura política e religiosa, pode-se afirmar, primitivo.

Pois foi justamente desses dois países esquecidos, longínquos e inacessíveis nas dobras geográficas, marcados por inimagináveis desventuras sociais, que emergiram neste ano da graça de 2011 os ganhadores do Premio Nobel da Paz. Melhor afirmando, as ganhadoras da mais cobiçada láurea instituída com o objetivo de galardoar o mérito de homens e mulheres comprometidos com a causa da construção humana.

A presidente liberiana, Ellen Johnson Sirleaf, sua compatriota e militante pela Paz, Leymah Gbowee, e a ienemita Tawakkul Karman, líder ativista do movimento conhecido por “Primavera árabe” - movimento esse que vem emitindo inquietantes sinais de enfraquecimento no próprio Iêmen, à conta de manobras diplomáticas de bastidores – foram as Mulheres escolhidas. A premiação recompensou-as por sua luta pacífica e heróica pela segurança das mulheres e de seus direitos de participação nos processos voltados para o bem estar social, conforme assinalou o Comitê Nobel norueguês, responsável pelas indicações.

O presidente do Comitê, Thorbjoen Jagland, na ocasião do anúncio das ganhadoras do Premio Nobel da Paz, deixou expresso, por sinal, um conceito muito pertinente sobre o papel da Mulher no mundo contemporâneo. Disse o seguinte: “Não podemos jamais alcançar a democracia e a paz duradoura no mundo se as mulheres não obtiverem as mesmas oportunidades que os homens para influenciar nos acontecimentos em todos os níveis da sociedade.”

A liberiana Ellen, contando hoje 72 anos, ganhou um lugar na história ao se tornar, em 2005, a primeira mulher eleita como chefe de Estado no continente africano, em um país de quatro milhões de habitantes traumatizados por guerras civis que, ao longo de várias décadas, deixaram 250 mil mortos, destruíram as já precárias infraestruturas de serviços básicos e arrasaram a economia. A partir da posse trabalhou incansavelmente para garantir a paz no país, retomar os caminhos do desenvolvimento econômico e social e promover a ascensão da mulher no meio comunitário, em sucessivas e corajosas tentativas de desfazer seculares laços de servidão machista. Seu acesso à liderança política foi bastante favorecido pela ação destemida da outra liberiana agraciada.

Com efeito, Leymak, conhecida por “Guerreira da Paz”, notabilizou-se por chefiar um movimento pacífico de Mulheres que eletrizou a nação. Convocou uma “greve de sexo”, numa arregimentação de consciências jamais vista no país, que levou liberianas de todas as confissões religiosas, além das linhas de divisão étnica, a negarem sexo aos homens até que cessassem os combates da interminável guerra civil que devastava a nação. Os “senhores da guerra”, abalados com a insólita e bem sucedida iniciativa, não só apressaram as negociações para por fim ao sangrento conflito, como associaram as lideranças femininas às negociações de paz e garantiram, a partir dali, a participação das mulheres nas eleições, o que acabou conduzindo, depois, Eller Johnson Sirleaf à Presidência.

A ienemita Tawakkul Karman, primeira mulher árabe homenageada com o Nobel, ignorava, até ser surpreendida com o anúncio da premiação, tivesse tido o nome lançado para receber a láurea. “Este premio – asseverou – é dedicado a todos os ativistas da Primavera Árabe. “Trata-se de uma honra para todos os árabes, muçulmanos e mulheres”, acrescentou, lembrando as lutas difíceis enfrentadas, tanto antes como durante a chamada “Primavera Árabe”, que lhe valeram até prisão, em favor dos direitos das mulheres, da democracia e da paz.

A escolha deste ano, conhecidas as edificantes trajetórias de vida das três mulheres africanas contempladas, bem provavelmente permitirá ao Premio Nobel da Paz atingir seu momento mais glorioso na simpatia da opinião pública mundial.

* Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Sexta, 14 Outubro 2011 12:19

Nutrição Solar

Escrito por

SUNGRASSPor Flávio Passos

O desenvolvimento de nossa civilização certamente nos trouxe muitos benefícios e confortos, mas também, como já é de conhecimento comum, severas consequências. Uma das mais significativamente detrimentais à saúde do corpo, da mente e da consciência é sem dúvida a quantidade de tempo que passamos em ambientes fechados, distantes da luz do sol.

Estudos recentes comprovam aquilo que muitos já desconfiavam: a exposição ao sol não causa doenças, nem mesmo o câncer de pele (até hoje não foi registrado um único caso de câncer de pele em populações nativas, aquelas que a cada dia realizam a maior parte de suas atividades sob os raios dourados). O que pode acontecer é uma mutação do tecido epitelial causada pela reação dos raios solares com substâncias artificiais presentes no organismo, as quais podem ter sido ingeridas através de alimentos artificializados ou assimiladas de cosméticos com elementos químicos inadequados.

Embora os meios de comunicação tradicionais se esforcem em nos convencer do contrário, o fato é que quanto mais nos distanciamos do sol, mais debilitamos nossa qualidade de vida. O assunto do momento no meio especializado é a Vitamina D, aquela sintetizada pelo organismo quando este se expõe aos raios solares do tipo UVA, e as implicações causadas pela deficiência desta. Um dos elementos essenciais para o funcionamento adequado do sistema imunológico, da assimilação de cálcio pelos ossos e diversas outras funções, a vitamina D foi detectada em níveis muito abaixo dos recomendáveis em cerca de 80% da população herdeira da cultura ocidental, incluindo crianças.

O PHD Joseph Mercola afirma que, dentre todos os fatores que exercem um efeito decisivo na prevenção e tratamento do cancer, a presença de quantidade suficiente de Vitamina D no organismo é a mais significativa. Nutricionistas especializados e médicos conscientes tem recomendado o uso de suplementos de Vitamina D3 por todo aquele que não passa ao menos 2 horas de seu dia sob a luz do Astro Rei. E com um mínimo de roupas cobrindo a superfície da pele. Se esta prática não se encaixa em seu estilo de vida atual, considere um suplemento de Vitamina D3 de boa procedência. Ou um ajuste de seu estilo de vida.

A participação na síntese da vitamina D é apenas um dos fatores através dos quais o sol contribui para a Saúde. São comprovados os efeitos benéficos da luz solar sobre as funções cognitivas e ao equilíbrio psico-emocional, incluindo-se o bom-humor e à própria alegria. O sol não é apenas essencial para a vida, mas amigo dela também.

Assim sendo, não se deve fugir do sol e proteger-se deste a todo custo, mas conscientemente alimentar-se de sua luz em todos os sentidos. Inclua em sua dieta diária uma generosa e farta porção diária daqueles alimentos especiais que através da fotossíntese capturam a luz do sol em seu interior, combinando-a com diversos elementos e sintetizam vitaminas e enzimas especiais. Refiro-me às folhas verdes comestíveis.

Graças aos esforços de diversos educadores de saúde, o suco verde já é conhecido por milhões de pessoas como uma importante ferramenta de saúde. Uma bebida simples, fácil e acessível, de preparo rápido e sabor agradável que traz diversos benefícios à saúde e que é a maneira mais fácil de se ingerir o potencial nutritivo e medicinal das folhas verdes na dieta diária.

Um dos fatores nutricionais exclusivamente obtidos através do consumo de folhas verdes é a Vitamina K. Até recentemente vista como meramente útil para a coagulação sanguínea adequada, a importância da Vitamina K foi recentemente enaltecida como essencial para diversas funções. Uma delas, de acordo com o American Journal of Clinical Nutrition, é a prevenção do cancer. Neste ultimo mês, este instituto publicou um estudo que revela 30% na redução de taxas de mortalidade por cancer em organismos com presença de quantidades significativas de vitamina K, especialmente quando esta está associada à níveis saudáveis de vitamina D, pois ambas trabalham sinergisticamente.

Como a maior parte das pessoas praticam dietas deficientes em vegetais, especialmente folhas verdes e frescas em quantidade suficiente, a adição de um copo diário de suco verde se faz importante. A seguir, uma receita simples, fácil e deliciosa para você banhar o interior de seu corpo com a luz dourada do sol, transformada em verde pela planta.

Sexta, 07 Outubro 2011 20:46

Era uma vez no Iêmen

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Agradeço a ajuda dos Estados Unidos e da Arábia Saudita”.

(Palavras de Ali Abdullah Saleh, ditador apeado do poder,

 na volta inesperada ao palácio governamental)

Os democratas autênticos acompanham com um nó apertado no peito os desdobramentos das insurreições populares em territórios árabes. Percebem, com disfarçável inquietação, que em razão das indesejáveis tricas e futricas diplomáticas de bastidores muitas coisas que pareciam ser já não mais são.

Por força de um jogo sibilino promovido por conveniências poderosas, os objetivos dos movimentos populares em prol das liberdades públicas, vêm sendo distorcidos, aqui e ali, cedendo lugar a remanejos e reacomodações inimagináveis, capazes perfeitamente de sufocarem os sonhos e as esperanças levados, sobretudo pelos jovens, às ruas e praças convulsionadas.

O caso do Iêmen, que não é positivamente um caso isolado, reveste-se de caráter emblemático assustador. O dirigente supremo do país, Ali Abdullah Saleh, foi desafiado pelas multidões. Reprimiu com extrema ferocidade as manifestações, na mesma linha demencial de outros déspotas da região. A mídia internacional cobriu os acontecimentos, durante certo período, com enorme realce. Montou, pode-se dizer, uma crônica diária dos acontecimentos, de alguma maneira criando atmosfera favorável à retirada de cena do abominado ditador. Retratou, com abundancia de pormenores, sua trajetória sanguinária que tantos malefícios rende ao povo iemenita.

A enfática cobertura se estendeu até o momento em que Ali Abdullah Saleh foi alvejado na ocupação do palácio presidencial pelas forças insurgentes e conduzido, às pressas, em estado grave, para a Arábia Saudita, em busca de cuidados médicos. Os despachos dos correspondentes deram por vitoriosa, nessa precisa hora, a luta empreendida pela população no sentido de desalojá-lo do poder.

De repente, não mais do que de repente, o Iêmen e seu detestado dirigente tomaram “chá de sumiço” (como se dizia em tempos antigos) no noticiário nosso de cada dia. Deixaram, surpreendentemente, de frequentar os boletins da televisão e as colunas dos jornais. Silêncio sepulcral se abateu sobre os fatos políticos desenrolados no país e sobre seu personagem central.

Até que, pra aturdimento geral, a mídia resolveu, de novo – sem deixar à mostra a mais ligeira disposição pra explicar o que andou ocorrendo no país nesse razoável intervalo – “redescobrir” o presidente deposto. Localizou-o, são e salvo da silva, já “recuperado” dos ferimentos, a reassumir, “gloriosamente”, sem enfrentamentos aparentes, o posto de comando no palácio governamental em Sana, como se nada de relevante e impactante do ponto de vista político houvesse sucedido pratrazmente.

A informação laconicamente transmitida é de que o dito cujo acabara de retornar da viagem feita à Arábia Saudita, após o internamento hospitalar, retomando a rotina dos despachos. E, por acréscimo, anunciando a firme e “saudável” disposição de entabular negociações em torno dos rumos futuros da nação. Das multidões e das lideranças sublevadas não se ouviu falar mais nadica de nada. Em pronunciamento pela televisão, Ali Abdullah Saleh confessou-se agradecido aos Estados Unidos e Arábia Saudita “pela valiosa ajuda recebida”, acentuando que seu governo vai combater com o máximo rigor o terrorismo. Mas não deixou explicitado se as forças terroristas citadas seriam os adversários que o afastaram (pelo visto, apenas temporariamente) do poder.

* Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Quinta, 06 Outubro 2011 20:30

Sobre Deus

Escrito por

miqueiasPor Rubem Alves*

Três homens olham para o horizonte. O Sol se anuncia colorindo de abóbora e sangue umas poucas nuvens escuras. Um deles diz: “Vejo, no meio das nuvens vermelhas, uma casa. Na janela, um vulto acena para mim”. O segundo homem diz: “Vejo, no meio das nuvens vermelhas, uma casa. Mas não há nenhum vulto acenando para mim. A casa está vazia, é desabitada”. O terceiro homem diz: “Não vejo vulto, não vejo casa. Vejo as nuvens abóbora e sangue… E como são belas! Sua beleza me enche de alegria!”.

Esta é uma parábola metafísica. O primeiro homem vê, no meio das nuvens, um vulto, quem sabe o senhor do universo. Se eu gritar, ele me ouvirá. Para isso há as orações: gritos que pronunciam o Nome Sagrado, à espera de uma resposta. O segundo vê a casa, mas a casa está casa vazia, não tem morador. É inútil gritar, porque não haverá resposta. É o ateu… E como dói viver num universo que não ouve os gritos dos homens… O terceiro, que não vê nem casa e nem vulto, vê apenas a beleza –que nome lhe dar? Acho que o nome seria “poeta”.

A beleza é o Deus dos poetas. Quem disse isso foi a poeta Helena Kolody: “Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo”.

Borges relata que, segundo o panteísta irlandês Scotus Erigena, a Sagrada Escritura contém uma infinidade de sentidos. Por isso, ele a comparou à plumagem irisada de um pavão. Séculos depois, um cabalista espanhol disse que Deus fez a Escritura para cada um dos homens de Israel. Daí por que, de acordo com ele, existem tantas Bíblias quantos leitores da Bíblia. Cada leitor vê na Bíblia a imagem do seu próprio rosto.

O teólogo Ludwig Feuerbach disse a mesma coisa de forma poética: “Se as plantas tivessem olhos, gosto e capacidade de julgar, cada planta diria que a sua flor é a mais bonita”. Os deuses das flores são flores. Os deuses das lagartas são lagartas. Os deuses dos cordeiros são cordeiros. Os deuses dos lobos são lobos. Nossos deuses são nossos desejos projetados até os confins do universo. Dize-me como é o teu Deus e eu te direi quem és…

Mosaicos são obras de arte. São feitos com cacos. Os cacos, em si, não têm beleza alguma. Mas, se um artista os juntar segundo uma visão de beleza, eles se transformam numa obra de arte. As Escrituras Sagradas são um livro cheio de cacos. Nelas se encontram poemas, histórias, mitos, pitadas de sabedoria, relatos de acontecimentos portentosos, textos eróticos, matanças, parábolas… Ao ler as Escrituras, comportamo-nos como um artista que seleciona cacos para construir um mosaico. Cada religião é um mosaico, um jeito de ajuntar os cacos.

Como no caso do labirinto literário de Borges, cujos cacos eram peças de um quebra-cabeças que, juntos, formavam o seu rosto, também o mosaico que formamos com os cacos dos textos sagrados tem a forma do nosso rosto. Há tantos deuses quanto rostos há. Assim, quando alguém pronuncia o nome “Deus” há de se perguntar: “Qual?”

* Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

** Publicado originalmente no Portal Aprendiz.

Terça, 04 Outubro 2011 19:00

Declarações memoráveis

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

O desarmamento nuclear é fundamental para a

segurança pilar do Tratado de não Proliferação.”

(Presidenta Dilma Rousseff)

A fala incisiva da presidenta Rousseff, acolhida com manifesta simpatia pelos representantes dos países presentes à sessão inaugural da Assembléia Geral da ONU, contemplou vários outros temas palpitantes, além dos focalizados em nosso último artigo. O papel da mulher no mundo contemporâneo, assunto por ela tratado com ênfase na campanha eleitoral passada, em meio a borrascas de incompreensões ditadas por uma mídia hostil e por adversários raivosos, ocupou largo espaço no aplaudido pronunciamento.

Dilma reportou-se a atuação fundamental das mulheres brasileiras na superação das desigualdades sociais. Lembrou que “nossos programas de distribuição de renda têm nas mães a figura central”, por serem elas que cuidam dos recursos que permitem às famílias investir na saúde e na educação de seus filhos. Reconheceu sensatamente que o Brasil, como os demais países, “ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher”. Confessou-se orgulhosa de representar, além das mulheres brasileiras, “todas as mulheres do mundo: as anônimas que passam fome, aquelas que padecem de doenças, as que sofrem violência e são discriminadas, aquelas cujo trabalho no lar cria gerações futuras.” No arremate dessa edificante linha de considerações, registrou: “Junto minha voz à voz das mulheres que ousaram lutar e participar da vida profissional e política e conquistaram espaço de poder.”

O momento do discurso que parece haver provocado o mais forte impacto emocional na atenta platéia foi aquele em que Dilma Rousseff, assegurando que o governo brasileiro irá, até o final de sua gestão, erradicar a pobreza extrema, asseverou que a melhor política de desenvolvimento “é o combate à pobreza”, convidando todos os países a participarem da Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável programada, em 2012, para o Rio de Janeiro.

Logo na sequência, a voz compreensivelmente embargada, fez questão de reafirmar as crenças humanísticas que constituem seu ideal de vida: “Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da Democracia, da Justiça, dos Direitos Humanos e da Liberdade. É com esperança de que esses valores continuem inspirando o trabalho desta Casa das Nações que tenho a honra e iniciar o debate desta Assembléia.”

Horas depois do histórico discurso proferido na abertura solene da Assembléia Geral, a Presidenta Dilma Rousseff reocupou as atenções dos representantes dos países membros da ONU com outro memorável pronunciamento em que conclamou o mundo a abolir as armas nucleares. As agências noticiosas classificaram a declaração como a mais peremptória já ouvida na ONU, por parte de um chefe de Estado, sobre o sempre momentoso tema, debatido com extrema hipocrisia, como é notório, pelas grandes potências. “O desarmamento nuclear é fundamental para a segurança pilar do Tratado de não Proliferação, cuja observância as potências nucleares devem ao mundo”, afirmou.

Disse mais: “A segurança desse acervo militar nuclear merece tanta consideração quanto a dos materiais utilizados para fins pacíficos. Seria, sem dúvida, necessário para fins de segurança fiscalizar ambos. É imperativo ter no horizonte previsível a eliminação completa e irreversível das armas nucleares. A ONU deve preocupar-se com isso.”

Outra fala da Presidenta, sem sombra de dúvida, memorável.

* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

 

Quinta, 29 Setembro 2011 23:17

As crianças fazem as leis

Escrito por

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Por Rubens Alves

A menina me havia advertido: para entender a sua escola eu teria de me esquecer de tudo o que eu sabia sobre as outras escolas… Lembrei-me da pedagogia de Ricardo Reis: “…tendo as crianças por nossas mestras…”. E ali estava eu, um velho, aprendendo de uma criança!

Quis aprender um pouco mais. Perguntei: “Vocês não têm problemas de disciplina? Não há, entre vocês, os valentões que há em todas as escolas, que agridem, ofendem, ameaçam e amedrontam?”

“Ah”, ela me respondeu. “Temos sim. Mas para esses casos temos o tribunal…”

“Tribunal?”, perguntei curioso. Mais uma coisa que eu nunca vira em escolas!

Ela então me explicou: “As leis de nossa escola foram estabelecidas por nós mesmos, alunos. Temos então de zelar para que essas leis sejam cumpridas. A responsabilidade com o cumprimento das leis é nossa e não dos professores e do diretor. Somos nós, e não eles, que temos de tomar as providências para que a vida da escola não seja perturbada. Quando um aluno se torna um problema ele é levado a um tribunal –tribunal mesmo, com juiz, advogado de defesa, advogado de acusação– e é julgado. E a comunidade de alunos toma a decisão cabível”.

Voltei à Escola da Ponte um ano depois e fui informado de que o tribunal deixara de existir. A razão? Um aluno terrível fora levado a julgamento. O juiz –não me lembro se menina ou menino– nomeou o advogado de acusação, e o réu nomeou seu próprio advogado. No dia marcado, reunidos os alunos, o advogado de acusação proferiu a sua peça, tudo de mau que aquele menino havia feito. O diretor, que apenas assistia à sessão, relatou-me sua impressão: “O réu estava perdido. A peça acusatória era arrasadora…”

Chegou a vez do advogado da defesa que ficou mudo e não conseguiu falar. A presidência do tribunal nomeou então um advogado ad hoc, uma menina que teve de improvisar. E essa foi sua linha de argumentação:

“Vocês são todos religiosos, vão ao catecismo e aprendem as coisas da igreja. Vocês aprenderam que quando alguém está em dificuldades é preciso ajudá-lo. Todos vocês sabiam que o nosso colega estava em dificuldades. Precisava ser ajudado. Eu gostaria de saber o que foi que vocês, que aqui estão assentados como júri para proferir a sentença, fizeram para ajudar nosso colega…” Seguiu-se um silêncio profundo. Ninguém disse nada.

A menina continuou: “Então vocês, que nada fizeram para ajudar esse colega, agora comparecem a esse julgamento com pedras na mão, prontos a apedrejá-lo?”

Com essa pergunta, o tribunal se dissolveu porque perceberam que todos, inclusive o juiz e o advogado de acusação, eram culpados. Como é que estão resolvendo agora o problema da indisciplina e da violência?

Criaram um novo sistema, inspirado numa história da escritora Sophia Mello de Breyner Andressen que conta de uma fada –acho que o seu nome era Oriana– que vivia para ajudar crianças em dificuldades. Como funciona? É simples. Quando um aluno começa a apresentar comportamento agressivo forma-se um pequeno grupo de “fadas Orianas” para impedir que a agressão e a violência aconteçam. Pelo que me foi relatado, as fadas Orianas têm tido resultados muito bons. Quem sabe coisa parecida poderia funcionar com os bullies que infernizam a vida dos mais fracos nas escolas…

Veja o início da história aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

* Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Quarta, 28 Setembro 2011 19:45

Pela vida

Escrito por

Por Paiva Netto

Em nossa constante preocupação em valorizar a vida, sustentamos que, se a mulher tem direito sobre o seu corpo, o feto também tem sobre o dele. No Artigo 2o do Capítulo 1o (Da personalidade e da capacidade) do Título I (Das pessoas naturais) do Código Civil brasileiro, de 2002, encontramos: “A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro”.

Na década de 1980, proferi um discurso nestes termos: (...) Quem desconhece os Deveres Espirituais não saberá respeitar os Direitos Humanos em sua inteireza, incluídos os das vítimas, que vão além dos patamares atingidos pelos seus mais atilados defensores, na maioria das vezes adstritos à análise dos fatos pelo critério unicamente material, o que não é suficiente. Cidadania, no seu significado lato, não se restringe ao corpo do cidadão, porquanto provém de seu Espírito Eterno. (...)

Somos pela vida, de mães e filhos. Soluções humanas, sociais e científicas sempre haverá. É, por exemplo, atender às necessidades de instrução e educação, moradia, alimentação, saúde e segurança das populações.

Ciência e início da vida

O relatório oficial de um estudo do Senado norte-americano feito em 1981, do qual participaram os maiores especialistas no assunto, diz exatamente que “médicos, biólogos e outros cientistas concordam que a concepção marca o início da vida de um ser humano — um ser que está vivo e que é membro da nossa espécie. Há uma esmagadora concordância sobre este ponto num sem-número de publicações de ciência médica e biológica”.

Numa entrevista ao portal de notícias Zenit, em 3 de março de 2006, a professora doutora Alice Teixeira Ferreira, do Departamento de Biofísica da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM), comenta: “Cientista que diz não saber quando se inicia a vida humana está mentindo. Qualquer texto de embriologia clínica (ou humana) afirma que se inicia na concepção. Em 1827, com o aumento da sensibilidade do microscópio, permitindo visualizar o óvulo e os espermatozoides, Karl Ernst von Baer descreveu a fecundação e o desenvolvimento embrionário. Os médicos europeus, frente tais evidências, passaram a defender o ser humano desde a concepção, contra o aborto. (...) Para não dizer que está ultrapassado, os embriologistas, em 2005, afirmam não só que a origem do ser humano se dá na fecundação como, do ponto de vista molecular, a primeira divisão do zigoto define o nosso destino”.

Combate à exploração sexual

Sexta-feira, 23/9, foi o Dia Internacional contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Segundo a Agência Brasil, o governo federal realizará “ações específicas de prevenção à exploração sexual de crianças e adolescentes nas cidades-sede da Copa do Mundo de 2014 e nas regiões onde serão construídas as hidrelétricas de Jirau (RO) e Belo Monte (PA)”.

Aguardamos esperançosos o sucesso dessa nova empreitada. Toda iniciativa que visa combater crime tão hediondo tem nosso incondicional apoio e divulgação.

José de Paiva Netto é Diretor Presidente da LBV (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) - www.boavontade.com

Quarta, 28 Setembro 2011 17:24

Pela vida

Escrito por
Por Paiva Netto Em nossa constante preocupação em valorizar a vida, sustentamos que, se a mulher tem direito sobre o seu corpo, o feto também tem sobre o dele. No Artigo 2o do Capítulo 1o (Da personalidade e da capacidade) do Título I (Das pessoas naturais) do Código Civil brasileiro, de 2002, encontramos: “A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro”. Na década de 1980, proferi um discurso nestes termos: (...) Quem desconhece os Deveres Espirituais não saberá respeitar os Direitos Humanos em sua inteireza, incluídos os das vítimas, que vão além dos patamares atingidos pelos seus mais atilados defensores, na maioria das vezes adstritos à análise dos fatos pelo critério unicamente material, o que não é suficiente. Cidadania, no seu significado lato, não se restringe ao corpo do cidadão, porquanto provém de seu Espírito Eterno. (...) Somos pela vida, de mães e filhos. Soluções humanas, sociais e científicas sempre haverá. É, por exemplo, atender às necessidades de instrução e educação, moradia, alimentação, saúde e segurança das populações. Ciência e início da vida O relatório oficial de um estudo do Senado norte-americano feito em 1981, do qual participaram os maiores especialistas no assunto, diz exatamente que “médicos, biólogos e outros cientistas concordam que a concepção marca o início da vida de um ser humano — um ser que está vivo e que é membro da nossa espécie. Há uma esmagadora concordância sobre este ponto num sem-número de publicações de ciência médica e biológica”. Numa entrevista ao portal de notícias Zenit, em 3 de março de 2006, a professora doutora Alice Teixeira Ferreira, do Departamento de Biofísica da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM), comenta: “Cientista que diz não saber quando se inicia a vida humana está mentindo. Qualquer texto de embriologia clínica (ou humana) afirma que se inicia na concepção. Em 1827, com o aumento da sensibilidade do microscópio, permitindo visualizar o óvulo e os espermatozoides, Karl Ernst von Baer descreveu a fecundação e o desenvolvimento embrionário. Os médicos europeus, frente tais evidências, passaram a defender o ser humano desde a concepção, contra o aborto. (...) Para não dizer que está ultrapassado, os embriologistas, em 2005, afirmam não só que a origem do ser humano se dá na fecundação como, do ponto de vista molecular, a primeira divisão do zigoto define o nosso destino”. Combate à exploração sexual Sexta-feira, 23/9, foi o Dia Internacional contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Segundo a Agência Brasil, o governo federal realizará “ações específicas de prevenção à exploração sexual de crianças e adolescentes nas cidades-sede da Copa do Mundo de 2014 e nas regiões onde serão construídas as hidrelétricas de Jirau (RO) e Belo Monte (PA)”. Aguardamos esperançosos o sucesso dessa nova empreitada. Toda iniciativa que visa combater crime tão hediondo tem nosso incondicional apoio e divulgação. José de Paiva Netto é Diretor Presidente da LBV. O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. — www.boavontade.com
Terça, 27 Setembro 2011 22:30

Fala de estadista

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dilmabandeiramariarodriguesPor Cesar Vanucci *

“O desemprego golpeia as famílias,

tira a esperança e deixa a violência e a dor.”

(Dilma Rousseff, Presidenta da República)

Indoutrodia definiram-na como uma das personagens femininas mais representativas, do mundo contemporâneo. Após a fala de Dilma, a primeira de uma mulher na abertura oficial da Assembléia Geral das Nações Unidas, a admiração universal pela conduta da Presidenta brasileira só fez, com toda certeza, crescer.

Pronunciamento de estadista. Sob numerosos aspectos, de conteúdo nitidamente superior ao de outros mandatários brasileiros convocados, como reza a tradição desde a criação da ONU, a proferirem anualmente a alocução inaugural nas assembléias gerais da instituição. Contundente, sem se afastar do toque diplomático ajustável às circunstâncias, o discurso da Presidenta confere realce, com clareza e objetividade, a itens candentes de nossa realidade política, social e econômica. Entre os pontos enfocados, ao jeito de uma bronca mais do que compreensível, como reconheceram qualificados observadores, Dilma Rousseff cobrou enfaticamente das grandes potências uma solução coletiva para a crise mundial. Lembrou que “essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países”. Propôs, então, debaixo de aplausos, “um novo tipo de cooperação, entre países emergentes” – caso do Brasil e demais integrantes dos chamados BRICs – “e países desenvolvidos”.

Uma proposta interpretada naturalmente, pelas lideranças mais lúcidas da opinião pública mundial, como esplêndida “oportunidade histórica para redefinir, de forma solidária e responsável, os compromissos que regem as relações internacionais”, como acentuado na vibrante fala.

Interrompida repetidas vezes pelas manifestações calorosas da platéia, Dilma deixou registrado não ser por falta de recursos financeiros que os líderes das grandes potências ainda não souberam encontrar soluções para os problemas que angustiam a humanidade. Explicou, com precisão, o motivo das coisas não funcionarem a contento: “É, permita-me dizer, por falta de recursos políticos e de clareza de idéias.” Reportando-se ao aflitivo problema do desemprego, lembrou que “enquanto muitos governos se encolhem, a face mais amarga da crise, o desemprego, se amplia.” Trata-se de drama – pontuou – que “golpeia as famílias, tira a esperança e deixa a violência e a dor.”

Defendendo a presença permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, a chefe do governo brasileiro assinalou que a legitimidade do órgão se subordina, cada dia mais, à necessidade de sua reformulação. Um debate, afinal de contas, que já se espicha por décadas e que, no ver da comunidade internacional, não pode ser protelado indefinidamente. Louvando o ingresso do Sudão do Sul como novo integrante das Nações Unidas, lastimou, com toda razão, não poder, naquela mesma hora, saudar também a chegada à ONU da Palestina, com o desfrute em plenitude dos direitos de um Estado soberano associado.

Recebeu verdadeira ovação ao dizer estas palavras: “Assim como a maioria dos países nesta Assembléia, acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a pleno título.” Acrescentou, com firmeza e sensatez: “Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender os legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional.” Nada mais exato, convenhamos, na análise da problemática da turbulenta região.

Os Direitos Humanos, tão vilipendiados em tantas partes deste planeta, mereceram também de Dilma, no histórico discurso, um registro significativo. Ela expressou veemente repudio às repressões brutais que vitimam populações civis, sublinhando, com amargura, que o mundo vê-se às voltas, hoje, com as pungentes consequências de intervenções que só se aprestam a agravar os conflitos, além de possibilitar “a infiltração do terrorismo onde ele não existia.” Disso advêm novos ciclos de violência, com a multiplicação assustadora de vítimas civis.

* Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

 

Quarta, 21 Setembro 2011 12:35

Redes Sociais e mobilizações

Escrito por

 sns

Frei Betto, da Adital

As pessoas saíram em passeatas para protestar contra a corrupção, o sucateamento da educação, e por reforma agrária e auditoria da dívida pública, entre outros temas. E fizeram questão de imprimir às manifestações caráter apartidário. Quem se atrevesse a desfilar com sigla de partido político era imediatamente rechaçado. Ali, no 7 de setembro, uniram-se o Grito dos Excluídos e o grito dos indignados.

As ruas do Brasil, até então acostumadas a ver, nos últimos tempos, apenas manifestações de evangélicos, gays e defensores da liberação da maconha, voltaram a ser palco de pressão política e reivindicação popular.

O poder convocatório das redes sociais é inegável. Elas possuem uma capilaridade que supera qualquer outro meio de comunicação. E carecem de censura ou editoração falaciosa.

Há, contudo, duas limitações que podem afetar seriamente os efeitos da mobilização internáutica. A primeira, a falta de proposta. Não basta gritar contra a corrupção ou aprovar a faxina operada pela presidente Dilma Rousseff. É preciso exigir reforma política, e propor critérios e métodos.

Reforma política com o atual Congresso – composto, em sua maioria, por parlamentares capazes de absolver uma deputada federal flagrada e filmada recebendo propina – é acreditar que Ali Babá é capaz de punir os 40 ladrões…

É preciso, primeiro, reformar, ou melhor, renovar o Congresso para, em seguida, obter reforma política minimamente decente. De modo que sejam instituídos mecanismos que ponham fim às duas irmãs gêmeas madrinhas da corrupção: a imunidade e a impunidade.

Essa renovação deve se iniciar, ano que vem, pela eleição de prefeitos e vereadores, todos submetidos ao crivo da Ficha Limpa, e pressionados a apresentar metas e objetivos, como propõe o Movimento Nossa São Paulo.

A segunda limitação é o caráter apartidário das manifestações. Em si, é positivo, pois impede que algo nascido da mobilização cidadã venha a se converter em palanque eleitoral deste ou daquele partido político.

Porém, na democracia não se inventou algo melhor para representar os anseios da população que partidos políticos. Eles fazem a mediação entre a sociedade e o Estado. O perigo é as manifestações não resultarem na eleição de candidatos eticamente confiáveis e ideologicamente comprometidos com as reformas de estruturas, como a política e a agrária. Ou desaguar no pior: o voto nulo.

Quem tem nojo de política é governado por quem não tem. E os maus políticos torcem para que tenhamos todos bastante nojo de política. Assim, eles ficam em paz, entretidos com suas maracutaias, embolsando o nosso dinheiro e ampliando suas mordomias e seus patrimônios.

As redes sociais são, hoje, o que a ágora era para os gregos antigos e a praça para os nossos avós – local de congraçamento, informação e mobilização. Foram elas que levaram tunisianos e egípcios às ruas para derrubar governos despóticos. São elas que divulgam, em tempo real, as atrocidades praticadas pelas tropas usamericanas no Iraque e no Afeganistão.

As redes sociais têm, entretanto, seu lado obscuro e perverso: a prostituição virtual de adolescentes que exibem sua nudez; o estímulo à pedofilia; a difusão de material pornográfico; o incitamento à violência; a propaganda de armas; o roubo virtual de senhas de cartões de crédito e contas bancárias.

Espero não tardar o dia em que as escolas introduzirão em seus currículos a disciplina Redes Sociais. Crianças e jovens serão educados no uso dessa importante ferramenta, aprimorando o olhar crítico, o senso ético e, em especial, a síntese cognitiva, de modo a extrair sentidos ou significações do incessante fluxo de informações e dados.

Graças à internet, qualquer usuário pode se arvorar, agora, em sujeito político e protagonista social, abandonando a passivo papel de mero espectador. Resta vencer o individualismo e o comodismo e sair à rua para congregar-se em força política.

* Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org – twitter:@freibetto.
 

Quinta, 15 Setembro 2011 15:39

Atentado à dignidade humana

Escrito por

ce87376fee36ae4afc5f115a74d52e43Por Cesar Vanucci *

 “Um crime contra a humanidade!”

(Presidente Álvaro Colom, presidente da Guatemala)

O olho num canto de página de jornal, um desses espaços reservados para o despejo de calhaus, como se diz no jargão jornalístico, informação estarrecedora. Apoquenta-me bastante a forma indesculpavelmente “discreta” adotada pela mídia para divulgá-la. Os feitos narrados tiveram impactos extremamente perversos na vida de inocentes de comunidades comprovadamente desprotegidas. Gente arrolada, pela arrogância e prepotência dos “senhores do mundo”, como cidadãos de terceira classe. Alvejados impiedosamente em sua dignidade humana.

Mas de que notícia se está mesmo a falar? Desta aqui: Comissão especial constituída pelo Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou a chocante conclusão de que pelo menos 83 cidadãos foram mortos em experiências médicas secretas, promovidas por órgãos governamentais norte-americanos na Guatemala. Aconteceu na década de 40. O relatório a respeito explica que, aproximadamente, 5.500 guatemaltecos foram submetidos a exames e, desses, um total de 1.300 acabaram sendo infectados deliberadamente com doenças venéreas no curso de um programa de cunho alegadamente “cientifico”, elaborado e coordenado pelo “National Institute of Health”, agência vinculada ao Departamento de Saúde estadunidense.

O programa teve desdobramentos entre os anos 1946 e 1948. Os “pesquisadores” norte-americanos, chefiados por um “cientista” de nome John Cutler, usaram cobaias humanas, vários deles portadores de doenças mentais, para apurar se a penicilina, recém descoberta, poderia ser empregada na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. A ação “científica” consistia na inoculação de bactérias de blenorragia e sífilis nos elementos “selecionados”, na maioria, prostitutas. As “cobaias” foram estimuladas a manter relações sexuais com soldados, detentos, doentes mentais, por ai. Os “pesquisadores” acompanharam cuidadosamente a “evolução” dos experimentos, com vistas a compor um alentado acervo de “informações úteis” que pudessem vir a orientar ações terapêuticas futuras em ambientes sociais “mais refinados”, povoados obviamente por cidadãos de primeira classe.

O Presidente Obama, dias atrás, apresentou um pedido formal de desculpas ao Presidente da Guatemala, Álvaro Colom. Este, por sua vez, depois de classificar o apavorante incidente de “crime contra a humanidade”, ordenou fosse feita por cientistas guatemaltecos uma outra investigação.

Fica difícil, pacas, entender o comportamento indiferente, distante, da mídia com relação a assunto tão sério. A desnorteante história lança, também, no ar uma pergunta repleta de sombrios pressentimentos: a experiência levada a cabo pelos “cientistas malucos” teria ficado adstrita única e exclusivamente ao território da Guatemala, ou acabou se estendendo também a outras paragens, igualmente desguarnecidas na época (só naquela época?), do vasto “quintal” latino-americano?

 * Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

 

Por Jung Mo Sung*

Um novo fenômeno social está se consolidando em diversas partes do mundo: a convocação de mobilizações e protestos sociais a partir do uso de redes sociais da internet. Em alguns países, essas manifestações levaram a consequências políticas mais sérias, em outros não. Mas, ninguém pode negar que estamos presenciando um novo tipo de fenômeno social.

No último dia 7 de setembro, por exemplo, os noticiários brasileiros deram destaques a diversas manifestações contra a corrupção no Brasil. Sem entrar em discussão aqui sobre o problema da corrupção no Brasil –que não é só culpa ou responsabilidade dos políticos, pois há corruptores da área privada– ou da democracia nos países árabes, eu quero focar a atenção sobre esta novidade de manifestações sociais mais ou menos espontâneas através do uso de redes sociais.

Uma das características desses movimentos é que não há um líder carismático ou político visível, nem um partido ou um grupo político dirigindo por detrás dessas manifestações. As redes sociais, como facebook ou twitter, permitem que insatisfações sociais dispersas se articulem de uma forma mais ou menos “espontânea”, como um vírus que se espalha e se multiplica aproveitando dessa insatisfação.

Diante dessa realidade social nova, há muitos que proclamam que a era da política ou das articulações políticas já passou e que vivemos agora o tempo das mobilizações sociais que prescindiriam do campo político para gerar transformações sociais ou para criar uma sociedade alternativa. No fundo, a nova tecnologia possibilitaria o sonho antigo de uma sociedade sem política, isto é uma sociedade sem Estado: uma sociedade anarquista.

O interessante é que a ideologia ainda dominante no mundo, o neoliberalismo, é também uma proposta de uma sociedade sem Estado, ou com o mínimo de Estado necessário; utopia de uma sociedade baseada somente nas relações de mercado. Parece que muitos procuram uma alternativa à globalização neoliberal sem romper com o mesmo princípio: o fim do Estado; e veem nessas mobilizações descentralizadas o caminho para nova sociedade.

O problema é que uma sociedade alternativa não pode ser pensada como um movimento perpétuo, sem institucionalizações ou regras que estabeleçam uma “normalidade”. Penso aqui a normalidade no duplo sentido: a) no sentido de normal, isto é, de procedimentos e hábitos que realizamos sem ter que pensar a cada momento; b) no de normas, de regras, que fazem todos aceitarem os mesmos limites dentro dos quais a liberdade é exercida na relação cotidiana com outras pessoas e com a sociedade.

É claro que essas mobilizações sociais contra a corrupção, que se tornou endêmica ao nosso sistema político, são importantes e constituem um bom sinal. Mas, não podemos esquecer que essas mobilizações precisam impactar e influenciar o campo político, sem deixar de ser cooptado por este. Pois, sem novas regras e procedimentos políticos e novas leis, não é possível realizar mudanças estruturais na sociedade; muito menos criar um novo patamar, eticamente superior, de “normalidade” na vida pública.

Protestar e resistir são momentos importantes, mas não são suficientes. É preciso também pensar nos passos seguintes de ação política e social visando criação de uma nova institucionalidade eticamente superior, socialmente mais justo e politicamente mais democrático.

* Jung Mo Sung é coordenador do curso de pós-graduação em Ciências da Religião, na Universidade Metodista de São Paulo

Sexta, 26 Agosto 2011 20:30

Pregação contra a vida

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fundamentalismoPor Cesar Vanucci *

 Um radical é uma pessoa com

os dois pés firmemente plantados no ar.”

(Franklin Delano Roosevelt)

Os fundamentalistas políticos e religiosos continuam mantendo febricitante e ameaçadora atuação. Em tudo quanto é canto. Na retórica e na ação.

Nos Estados Unidos, apelando para agressão verbal desmesurada, jogo lobista feroz e até mesmo para violência física, os partidários do chamado “Tea Party”, ala ultra-conservadora do já exageradamente conservador Partido Republicano, vem acuando de tal modo o governo Obama que ele se vê forçado, volta e meia, a recuos que seus entusiastas partidários dos primeiros momentos consideram aviltantes e inaceitáveis.

Leio na “Carta Capital” uma história bem emblemática e reveladora a esse propósito. Na véspera da comemoração dos 50 anos do presidente norte-americano, o apresentador do bastião liberal “Real Time”, traduzindo o inconformismo que se alastra pelas fileiras dos eleitores, conclamou Barack Obama, em termos candentes, a uma retomada de consciência, fazendo uso das seguintes palavras: “Desejaria que o senhor parasse de querer agradar aos conservadores. Não vai funcionar jamais. Para eles, o senhor tem a idade errada, está no partido errado, tem a cor da pele errada. Ainda que os salvasse, pessoalmente, de morrerem afogados, 40% dos norte-americanos não votariam no senhor. Não se preocupe em passar uma imagem de negro radical, que afastaria eleitores moderados. Meu caro, pior do que está, impossível. Não seria uma vergonha que quatro anos de seu governo terminem em janeiro sem que o senhor tenha experimentado sequer uma única política econômica elaborada pelos democratas? O senhor agora é um cinquentão, faça isso pelo senhor e por nós. E um feliz aniversário!”

A chacina norueguesa suscitou, em diferentes lugares da Europa, estarrecedoras e revoltantes manifestações de grupos assumidamente vinculados a tresloucada doutrina nazista e a confissões extremadas que se intitulam equivocadamente cristãs.

Na França e na Espanha, o uso público de véu ou qualquer outro apetrecho que identifique a condição islâmica da portadora é severamente combatido. No Paquistão de arsenal atômico, inconfiável aliado dos Estados Unidos na região mais conturbada do planeta, grupos extremistas religiosos patrocinam em campus universitários campanhas de louvor à memória do terrorista Bin Ladem, estimulando os estudantes a comporem poesias e ensaios sobre o referido personagem. Promovem, ao mesmo tempo, com agressões e coações, trabalhos em prol da “preservação da pureza religiosa”, impedindo, por exemplo, que estudantes de sexo oposto mantenham contatos, dentro ou fora do educandário, para simples bate-papo.

Chegam a recorrer até mesmo a invasões de dormitórios de colegas que se atrevam a desrespeitar as normas de convivência estipuladas. Na Arábia Saudita, país recordista mundial em atentados a direitos primários do ser humano, a repressão à liberdade feminina se estende, agora, às poucas mulheres que, desrespeitando rançosos éditos religiosos, ousam dirigir veículos. Mesmo no Brasil, país de decantada tolerância multirracial e de proverbial respeito às diversidades de comportamento, numerosos e deploráveis incidentes de caráter homofóbico e racista vêm ocorrendo, alvejando cidadãos indefesos. O caso registrado numa cidade do interior paulista, onde pai e filho foram agredidos pela circunstância de se abraçarem publicamente, retrata com precisão uma repulsiva prática discriminatória, ostensivamente ou subliminarmente pregadas nas arengas fundamentalistas.

Voltando aos Estados Unidos. Não se pode esquecer do ardor incendiário inquisitorial que levou fanáticos religiosos, ainda recentemente, a botarem fogo em exemplares do Alcorão. E a tentarem impedir a construção em Nova Iorque, a cidade mais cosmopolita do mundo, de uma mesquita. É o caso também de buscar na memória um outro registro alarmante de fanatismo que atordoou a opinião pública mundial: a tresloucada ordem expedida por líderes religiosos no sentido do extermínio do poeta e escritor inglês Salman Rushdie, acusado de blasfêmia contra símbolos e personagens do Islã.

Os radicais fundamentalistas, das mais diferentes tendências e dos mais variados matizes, precisam ser contidos em sua continua movimentação contra a celebração da vida.

* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

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