Editor

.

Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

    Leia mais ...
Quarta, 29 Junho 2011 01:07

A bastilha da exclusão

Escrito por

foto_brasil_fomePor José Graziano da Silva*

Crises funcionam como uma espécie de tomografia na vida dos povos e das nações. Nos anos 1980, por exemplo, o fim do ciclo de alta liquidez escancarou a fragilidade de um modelo de crescimento adotado por inúmeros países da América Latina e Caribe ancorado em endividamento externo. Nos anos 1990, a adesão ao cânone dos mercados autorreguláveis expôs a economia a sucessivos episódios de volatilidade financeira que desmentiram a existência de contrapesos intrínsecos ao vale tudo do laissez-faire. O custo social foi avassalador.

A crise mundial de 2007-2008, por sua vez, evidenciou a eficácia de uma ferramenta rebaixada nos anos 1990: as políticas de combate à fome e à pobreza, que se revelaram um importante amortecedor regional para os solavancos dos mercados globalizados.

O PIB regional per capita recuou 3% em média em 2009 e o contingente de pobres e miseráveis cresceu em cerca de nove milhões de pessoas. No entanto, ao contrário do que ocorreu na década de 1990, quando 31 milhões ingressaram na miséria, desta vez o patrimônio regional de avanços acumulados desde 2002 não se destroçou.

Abriu-se assim um espaço de legitimidade para a discussão de novas famílias de políticas sociais, desta vez voltadas à erradicação da pobreza extrema.

No Brasil, a intenção é aprimorar o foco das ações de transferência de renda, associadas à universalização de serviços essenciais e incentivos à emancipação produtiva. Espera-se assim alçar da exclusão 16,2 milhões de brasileiros (8,5% da população) que vivem com menos de R$ 70,00 por mês.

A morfologia da exclusão nos últimos anos indica que o êxito da empreitada brasileira – ou regional – pressupõe, entre outros requisitos, uma extrema habilidade para associar o combate à miséria ao aperfeiçoamento de políticas voltadas para o desenvolvimento da pequena produção agrícola. Vejamos.

A emancipação produtiva de parte dessa população requer habilidosa sofisticação das políticas públicas.

Apenas 15,6% da população brasileira vive no campo. É aí, em contrapartida, que se concentram 46% dos homens e mulheres enredados na pobreza extrema – 7,5 milhões de pessoas, ou 25,5% do universo rural. As cidades, que abrigam 84,4% dos brasileiros, reúnem 53,3% dos miseráveis – 8,6 milhões de pessoas, ou 5,4% do mundo urbano.

Portanto, de cada quatro moradores do campo um vive em condições de pobreza extrema e esse dado ainda envolve certa subestimação. As pequenas cidades, que hoje abrigam algo como 11% da população brasileira, constituem na verdade uma extensão inseparável do campo em torno do qual gravitam. Um exemplo dessa aderência são os 1.113 Municípios do semiárido nordestino, listados como alvo prioritário da erradicação da miséria brasileira até 2014.

Nos anos 1990, a cada dez brasileiros, quatro eram miseráveis. Hoje a proporção é de um para dez. O ganho é indiscutível. Mas o desafio ficou maior: erradicar a miséria pressupõe atingir a bastilha da exclusão que, no caso do Brasil, tem uma intensidade rural (25,5%) cinco vezes superior à urbana (5,4%).

O cenário da América Latina e Caribe inclui relevo semelhante com escarpas mais íngremes. Cerca de 71 milhões de latino-americanos e caribenhos são miseráveis que representam 12,9% da população regional, distribuídos de forma igual entre o urbano e o rural: cerca de 35 milhões em cada setor. A exemplo do que ocorre no Brasil, porém, a indigência relativa na área rural, de 29,5%, é mais que três vezes superior a sua intensidade urbana (8,3%), conforme os dados da Cepal de 2008.

Estamos falando, portanto, de um núcleo duro que resistiu à ofensiva das políticas públicas acionadas na última década. Desde 2002, 41 milhões de pessoas deixaram a pobreza e 26 milhões escaparam do torniquete da miséria na América Latina e Caribe. Essa conquista percorreu trajetórias desiguais: declínios maiores de pobreza e miséria ocorreram na área urbana (menos 28% e menos 39%, respectivamente) em contraposição aos do campo (menos 16% e menos 22%).

Uma visão de grossas pinceladas poderia enxergar nesse movimento uma travessia da exclusão regional em que a pobreza instaura seu predomínio na margem urbana, enquanto a maior incidência da miséria se consolida no estuário rural e na órbita dos pequenos Municípios ao seu redor.

A superação da miséria absoluta é possível com a extensão dos programas de transferência de renda aos contingentes mais vulneráveis. Mas a emancipação produtiva de parte desses protagonistas requer habilidosa sofisticação das políticas públicas. A boa notícia é que o núcleo duro rural inclui características encorajadoras: os excluídos têm um perfil produtivo, um ponto de partida a ser ativado. Os governos, por sua vez, têm experiências bem-sucedidas a seguir. Entre elas, a brasileira, a exemplo do crédito do Pronaf, das demandas cativas que incluem o suprimento de 30% da merenda escolar e as Compras de Alimentos da Agricultura Familiar, implantadas nos últimos anos. Não por acaso, a pobreza extrema no campo brasileiro caiu de 25% para 14% entre 2002 e 2010, e a renda do agricultor familiar cresceu 33%, três vezes mais que a média urbana, nesse mesmo período.

* José Graziano da Silva é ex-ministro da Segurança Alimentar e Luta Contra a Fome do Brasil, eleito esta semana diretor da FAO (www.grazianodasilva.org).

Segunda, 27 Junho 2011 20:18

Um certo Mia Couto

Escrito por

mia_couto_173895Por Cesar Vanucci *

 "Onde restou o homem, sobreviveu

semente, sonho a engravidar o tempo."

(Mia Couto, escritor moçambicano)

Espera fatigante em aeroporto estrangeiro, para pegar conexão de vôo que me trouxesse de volta ao Brasil, proporcionou-me a descoberta de um autor que escreve maravilhosamente bem no idioma falado em nosso país. E que, à parte ligeiras diferenciações, mais de forma que de conteúdo, é o idioma também falado em sua terra natal, Moçambique. Com certeira segurança, apreciadores da boa prosa literária, melhormente informados do que rola nesses domínios encantados da arte feita em letra de forma, já terão chegado, muito antes, às mesmíssimas conclusões a que este retardatário e desavisado amigo de vocês só agora está conseguindo chegar, depois da leitura embevecida das "Estórias abensonhadas", de Mia Couto. Consola-me o adágio das ruas: antes tarde do que nunca.

O modo de Mia Couto se exprimir, como craque titular do escrete da palavra, desperta no leitor um redemoinho de emoções. A começar pela forte impressão que passa de ser um apaixonado apreciador e seguidor, com brilho próprio natural, da escola de recriação da linguagem instituída por mestre Guimarães Rosa. A comparação não implica em desdouro pro escritor. Muito antes, pelo contrário. Na verdade, adiciona louvação a mais em cintilante trajetória literária. O texto destila poesia a mais genuína. As interpretações líricas dos flagrantes da vida moçambicana retratados nos contos são de lindeza única. Mia soube captar com mestria a fala sábia do povo, ditos regionalistas de extremo sabor. Transpôs para o livro experiências vividas e sofridas de sua gente, "entre as margens da mágoa e da esperança", depois da guerra que devastou o país.

Seu parentesco espiritual com Guimarães Rosa é revelado, igualmente, de forma bastante nítida, no tratamento místico dispensado aos personagens, paisagens e coisas. Por conta disso ocorreu-me até, após a leitura inteira e a releitura de alguns capítulos mais absorventes de "Estórias abensonhadas", a idéia de pedir, qualquer hora dessas, ao professor José Maria Martins, autor de esplêndido e instigante estudo sobre a obra de Guimarães ("O alquimista do coração"), uma avaliação desses escritos e de outros mais do autor, enfeixados sob os títulos "Vozes anoitecidas", "Cronicando", "Cada homem é uma raça", "Terra sonâmbula", "Cantos do nascer da Terra".

Com seu transbordante lirismo, no toque mágico que imprime às palavras na linha do realismo fantástico, no humanismo permanentemente aflorado e no estilo arrebatante no contar causos e no desenhar perfis humanos, Mia Couto se mostra escritor com lugar de realce garantido na literatura portuguesa. Suas estórias falam de um território "onde nós vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada". Um território "onde todo homem é igual, assim: fingindo que está, sonhando que vai, inventando que volta".

* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) 

Segunda, 27 Junho 2011 19:43

Sustentabilidade na escola

Escrito por

Por André Trigueiro*

Já reparou que, quando o assunto é educação, tudo no Brasil é urgente? Salários dignos para os professores, escolas bem aparelhadas, universalização digital, etc. Educação é um raríssimo consenso nacional e, apesar disso, a impressão que fica é a de que os avanços, embora existam, se diluem frente a tantas demandas urgentes.

Tão preocupante quanto a extensa lista de prioridades – o que deveria inspirar um grande projeto nacional apartidário e de longo prazo – é reconhecer que os debates sobre modernização dos conteúdos pedagógicos ficam invariavelmente em segundo plano. Uma escola descontextualizada de seu tempo, encapsulada nas rotinas burocráticas que apequenam sua perspectiva transformadora, está condenada ao marasmo que entorpece sua história e o seu legado. É uma escola que não consegue mobilizar professores, alunos e a comunidade ao seu redor em torno de objetivos comuns que emprestem sentido à existência da própria instituição.

Qual a função social da escola num mundo que experimenta uma crise ambiental sem precedentes na história da humanidade? Nossa capacidade de redesenhar o modelo de desenvolvimento e construir uma nova cultura baseada em valores sustentáveis depende fundamentalmente da coragem de mudar o que está aí. Que ajustes poderiam ser aplicados à grade curricular para tornar essa escola mais apta a preparar esses jovens para os imensos desafios que temos pela frente? Que novos gêneros de informação deveriam mobilizar a comunidade escolar na busca por respostas para questões pontuais sobre as quais não é mais possível negar a importância ou a urgência do enfrentamento? Como preparar essas novas gerações para um mundo que projeta um futuro difícil e extremamente desafiador em função das mudanças climáticas, escassez de água doce e limpa, produção monumental de lixo, destruição sistemática da biodiversidade, transgenia irresponsável, crescimento desordenado e caótico das cidades, entre outros fatores que geram desequilíbrio e instabilidade?

O mundo mudou e a educação deve acompanhar as mudanças em curso. Nossa espécie é responsável pelo maior nível de destruição jamais visto em nenhum outro período da história e, se somos parte do problema, devemos ser parte da solução. Mas não há solução à vista sem educação de qualidade e urgente que estabeleça novas competências, novas linhas de investigação científica, um novo entendimento sobre o modelo de desenvolvimento em que estamos inseridos e a percepção do risco iminente de colapso. Precisamos promover uma reengenharia de processos em escala global que inspire novos e importantes movimentos em rede. Isso não será possível sem as escolas.

A escola de hoje deve ser o espaço da reinvenção criativa, um laboratório de ideias que nos libertem do jugo das “verdades absolutas”, dos dogmas raivosos que insistem em retroalimentar um modelo decadente. Pobres dos alunos que passam anos na escola sem serem minimamente estimulados a participar dessa grande “concertação” em favor de um mundo melhor e mais justo. Quantos talentos adormecidos, quanto tempo e energia desperdiçados, quanta aversão acumulada ao espaço escolar justamente pelo desinteresse brutal e legítimo da garotada a algo que não lhes toca o coração, não lhes instiga positivamente o intelecto, não lhes nutre o espírito? Qual o futuro dessa escola? São cadáveres insepultos.

Uma escola que use a sustentabilidade como mote desse revirão pedagógico amplo e inovador terá como princípio ético a construção de um mundo onde tudo o que se faça, onde quer que estejamos, considere os limites dos ecossistemas, a capacidade de suporte de um planeta onde os recursos são finitos. Temos ciência, tecnologia e conhecimento para isso. Novas gerações de profissionais das mais variadas áreas serão desafiados a respeitar esse princípio sem prejuízo de sua atividade fim. Tudo isso poderia ser resumido em uma palavra: sobrevivência. A mais nobre missão das escolas no Século 21 será nos proteger de nós mesmos.

Ainda há tempo.

* André Trigueiro é autor do livro Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em Transformação. Apresenta o Jornal das Dez e é editor-chefe do programa Cidades e Soluções, da Globo News. É também comentarista da Rádio CBN e colaborador voluntário da Rádio Rio de Janeiro.

** Publicado originalmente no site Mundo Sustentável.

Sábado, 25 Junho 2011 17:15

Alguém como nós na Cracolândia

Escrito por

Por Sylvia Moretzsohn, no Observatório da Imprensa

A edição da Folha de S.Paulo de terça-feira (14/6) provocou uma enxurrada de protestos de leitores, chocados com a exposição pública de um homem de meia idade, grisalho, de terno e gravata, na região da Cracolândia, no centro de São Paulo. A sequência de quatro fotos, que ocupava exclusivamente a capa do jornal, mostrava-o comprando a droga, preparando o cachimbo, fumando ali mesmo e depois indo embora.

A repercussão foi tal que a ombudsman Susana Singer dedicou sua coluna do domingo seguinte (19/6) a esse tema. “Além de figurar na primeira página, o flagrante está na internet, em fotos e vídeo da Folha.com. Porque a Folha decidiu expor dessa forma um suposto viciado?”

Porque o jornal sempre agiu assim – foi, em síntese, a resposta da Secretaria de Redação. Sempre expôs os usuários de crack e não deveria alterar seu comportamento apenas porque, desta vez, o “personagem” usava terno e gravata.

(Jamais me acostumei com a maneira pela qual, de uns tempos para cá, os jornalistas passaram a se referir às suas fontes. Mas é apenas um registro, a justificar as aspas: discutir essa forma de nomear exigiria uma argumentação que acabaria desviando o foco deste artigo.)

Estranho no ninho

“A gravata na Cracolândia”, sem dúvida, chama a atenção pela presença de um tipo estranho aos frequentadores do local, normalmente pobres, maltrapilhos, envolvidos em cobertores imundos. A surpresa diante da cena inesperada levou à indignação contra o dano previsivelmente causado àquele homem: ele pode perder o emprego, pode passar a ser discriminado por colegas e vizinhos. Como retornaria para casa depois daquelas fotos? Como iria encarar a família?

Porém, a pergunta recorrente – “que direito tem o jornal de expor uma pessoa que está consumindo drogas?” – jamais foi feita antes, nas inúmeras vezes em que este e outros jornais exibiram os “personagens” habituais da degradação social. “Parece-me que os ‘mal trajados’ não recebem a mesma manifestação de solidariedade, preocupação e defesa dirigida aos ‘engravatados’”, notou uma leitora.

Não é difícil imaginar por quê: a escória social provoca, alternativa ou concomitantemente, uma reação de medo, repulsa e compaixão, mas ninguém enxerga esses... “personagens” como sujeitos de direitos. Ninguém protesta contra a exposição deles. Porque, afinal, eles não são como nós.

Eis que, de repente, um dos nossos aparece misturado à escória e é como se fosse conosco.

Privacidade, publicidade e ética

A reação chegou ao ponto de acusar o jornal de invasão de privacidade, o que provocou comentários irônicos de Luiz Caversan, em artigo no site da Folha, que começava com o velho recurso ao argumento de autoridade: “O premiado repórter fotográfico Juca Varella [o autor das fotos], um dos melhores do país...”. Como contestar o trabalho de um dos melhores repórteres fotográficos do país, não é mesmo?

Para Caversan, que foi diretor da sucursal da Folha no Rio, tudo é muito simples: se estamos em local público, não podemos alegar invasão de privacidade. Portanto, quem usa drogas no meio da rua “corre o risco, sim, de ir parar na primeira página do jornal”. Conclusão: “Isso dói para o retratado, mas chama-se jornalismo, ok?, porque não existe privacidade em praça pública”.

Juridicamente, a questão da privacidade é bem mais complicada – como, aliás, notou a ombudsman em seu artigo. Mas o problema, aqui, é acima de tudo ético, e exige sensibilidade e consideração sobre as consequências do que se publica, especialmente quando se está lidando com uma situação tão delicada como a dos usuários – e, eventualmente, dependentes – de drogas.

O apelo ao “interesse público”

Susana Singer informou, em sua coluna, que a Secretaria de Redação discutiu os possíveis danos que a exposição do rosto daquele homem poderia lhe trazer, “mas o interesse público da reportagem fotográfica, de mostrar que o fenômeno do crack não se confunde com pobreza e não atinge apenas moradores de rua, prevaleceu na decisão de publicar as imagens”.

O interesse público é sempre um nobre argumento.

Fosse esta a intenção – mostrar que senhores bem vestidos (isto é, gente como nós) circulam pelo submundo e consomem crack –, bastaria publicar as fotos com o cuidado de borrar a face do “personagem”, de modo a não identificá-lo.

Qual o interesse público de expor a imagem de um usuário de droga, apenas porque ele usa terno e gravata?

Repensar a política editorial

Sem contar que aquelas fotos, com aquela chamada, levariam a supor que a reportagem abriria o caderno “Cotidiano” e daria destaque aos casos de usuários de crack de status social mais elevado. Mas, não: a matéria está numa página interna e trata da reclamação de moradores contra a polícia, que não estaria atendendo às denúncias sobre a concentração de “noias” e traficantes no local. O “personagem” tão escandalosamente exibido na capa do jornal é mencionado em três linhas ao pé da matéria, numa alusão sobre usuários eventuais, “até mesmo senhores com cerca de 60 anos vestindo terno e gravata”. Ou seja, a “gravata na Cracolândia” é exceção. Porém, critérios editoriais esdrúxulos são tão recorrentes que já não causam surpresa.

Apesar disso, valeria a pena repensá-los, retomando a antiga prática do jornalismo de estabelecer uma coerência entre os destaques de capa e as respectivas reportagens. No caso em questão, mais relevante ainda é repensar o comportamento rotineiro de expor o rosto de gente fragilizada, use ou não gravata, e parar de exibir essa tragédia social pelas lentes do voyeurismo. Como disse a ombudsman, “o correto é não expor ninguém, independentemente da sua situação econômica, porque o vício deve ser tratado como doença, e não como crime”.

[Sylvia Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)]

 

Sábado, 25 Junho 2011 16:14

Olhares direcionados ao meio ambiente

Escrito por

sustentabilidade_1Por Luana Copini*

Príncipe Charles escreve livro sobre sustentabilidade em parceria com ambientalistas. Canais de televisão, como o Discovery Chanel, exibe a série Planeta Humano, documentando o momento evolutivo do homem e suas formas de sobrevivência. São Paulo tem em sua grade de programação a Virada Sustentável. Mas e a sociedade, também tem registrado em sua agenda um compromisso ambiental?

A um ano da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO+20), algumas pessoas não sabem o que ela significa, ou até mesmo que ela exista. Questionadas 23 pessoas na Praça da República, em São Paulo, no dia 09 de maio, 7 delas sabiam de sua existência, 3 sabiam seu propósito e 13 não sabiam nem o que significa RIO+20.

A conferência visa à renovação e o engajamento dos líderes mundiais com olhar sob o desenvolvimento sustentável do planeta. O encontro será realizado no Rio de Janeiro em 2012 e serão abordados diversos temas, entre eles a contribuição da economia verde para o desenvolvimento sustentável, a eliminação da pobreza com foco sobre a questão da estrutura de governança internacional na área do desenvolvimento sustentável, os resultados da prática da Agenda 21.

A exemplo dela tiveram outras, como por exemplo a ECO-92, também no Rio de Janeiro, a Conferência de 1972 na Suécia, o encontro de 2002 na África do Sul, e a Conferência de Nagoya, no Japão.

Algumas diretrizes são aplicadas nestes encontros, como por exemplo, o Protocolo de Quioto que visa a redução de gases que causam o efeito estufa e a Agenda 21 que busca uma reflexão diante do desenvolvimento sustentável.

Para o professor José Pedro de Oliveira Costa, pesquisador da Universidade de São Paulo, que participou da Conferência de Nagoya, no Japão, decisões estabelecidas no encontro vão depender do desenvolvimento de novas tecnologias, controle e redução da população humana e compensações ambientais.

De acordo com o Itamaraty o setor florestal no Brasil é responsável também pela geração de emprego. É responsável por cerca de 3,5% do PIB, 8,4% das exportações e pela geração de 6,5 milhões de empregos diretos e indiretos. A exploração de recursos naturais encontra-se amparada por dispositivos previstos na Constituição Federal, no Código Florestal, na Lei de Crimes Ambientais, na Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação e na nova Lei de Gestão de Florestas Públicas de 2006.

Mas para o pesquisador, um dos princípios do equilíbrio sustentável é a preservação. “É necessário para a nossa sobrevivência na terra que 1/3 das áreas sejam designadas para proteção integral, 1/3 para áreas de uso sustentável e o restante para uso extensivo”.

Só a consciência e o conhecimento destas atitudes não bastam. Para o professor, isto tudo tem que sair do papel. “Para a proteção integral de nossa biodiversidade, ou até mesmo de nossas florestas, será preciso criar muitas áreas protegidas e manter em boas condições aquelas de visitação pública”, completa Costa.

Biodiversidade, fatores climáticos, gases poluentes, desequilíbrios ambientais, todos estes assuntos estão e estarão em pauta nestas conferências caminhando paralelamente ao desenvolvimento sustentável. “Na Amazônia, por exemplo, é preferível que aquelas populações utilizem as terras com consciência, com agricultura e não desmatamento para grandes plantações de soja ou criação de gado”, completa o pesquisador.

Notícias relacionadas

Rumo à Rio+20

O que se quer com a economia verde? 

* Luana Copini é participante do Projeto Repórter do Futuro, que visa à interação de alunos de jornalismo e da sociedade civil sob estudos e experiências com relação à Amazônia e ao meio ambiente.

(EcoDebate)

Terça, 21 Junho 2011 17:57

Uma visão de Jesus

Escrito por

corpus_christi-1Por Paiva Netto*

Estamos na semana em que se comemora "Corpus Christi".

Achei, nos meus alfarrábios, texto que publiquei, em 1986, na "Gazeta de Notícias", do Rio de Janeiro/RJ, no qual me pergunto: Quantos já alcançaram que um pensador libertário como Jesus não pode ficar aprisionado entre quatro paredes de um templo ou ter sua mensagem reduzida por analistas que, por mais veneráveis que sejam, por vezes, confundem "germano com gênero humano?".

Os religiosos iluminados pelo espírito de concórdia e os cultores do pensamento sem algemas, enfim, os homens de mente aberta, crentes e ateus, pressentem isto sem dificuldade. Desejam ver a excelente influência altruística do Cristo, clarear todos os setores da sociedade. Não podem abrir mão de tão extraordinária e sublime competência.

Jesus foi cientista, quando, por ordem do Senhor do Universo, ergueu este planeta que habitamos; economista, quando multiplicou pães e peixes e não deixou perder o que sobejou; filósofo, quando desenvolveu Sua divina doutrina; psicólogo, quando a adequou ao conhecimento das massas populares; pedagogo, quando a ensinou por parábolas; religioso, quando, convivendo com o povo e pregando aos sacerdotes no templo desde os 12 anos de idade, lhes transmitiu normas de conduzir suas existências no mundo, de maneira a merecerem a vida eterna; incentivador do progresso do ser humano pelo esforço próprio, quando advertiu que a cada um será dado de acordo com as suas obras: o Cristianismo não é escola de ociosidade; legislador e político, quando expôs, por intermédio de João Evangelista, que Deus é Amor e que, por isso, todos precisam cumprir a lei de solidariedade humana e social, amando-se uns aos outros tanto quanto Ele mesmo nos amou: "Não há maior Amor do que doar a própria vida pelos seus amigos" (Evangelho segundo João, 15:13). Com isso, convocou o mundo à maior das reformas, que deve preceder a todas as outras, a do ser humano, pelo conhecimento dos seus valores espirituais: "Buscai primeiramente o Reino de Deus e Sua Justiça, e todas as coisas materiais vos serão acrescentadas" (Evangelho consoante Mateus, 6:33), postulado de Jesus para a formação da economia da solidariedade humana, componente básico da estratégia da sobrevivência, que propomos para que haja uma sociedade solidária, altruística, ecumênica.

Eis aí. O ecumenismo é porta aberta à Paz. Tudo isso pode parecer utopia num orbe saturado de ódios e contendas de todos os matizes. Entretanto, a Humanidade, sabendo ou não, anseia clima espiritual e social menos poluído. Tendo alcançado o conhecimento superior a respeito do que fazem neste burgo planetário e cientes de que sua vida prosseguirá após a morte, a mulher e o homem, mais dia, menos dia, saberão valer-se de todas as riquezas da Terra, sem delas tornarem-se escravos.

 *José de Paiva Netto, Presidente da LBV

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. www.boavontade.com

Terça, 21 Junho 2011 01:12

Decisão soberana

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 “A soberania é uma forma de expressão da dignidade nacional.”

(Antônio Luiz da Costa, professor)

A bronca das autoridades italianas em função do incidente envolvendo o ex-ativista Cesare Battisti desconsidera um aspecto essencial da decisão objeto de sua censura. O Supremo Tribunal Federal, embasado em manifestação que não deixou de traduzir, da parte de numerosos ministros, dúvidas ponderáveis quanto à conveniência política e também jurídica de acatar-se o pedido procedente de Roma, estabeleceu peremptoriamente que caberia ao Presidente da República a palavra final concernente à pretendida extradição.

O então chefe do governo, Luiz Inácio Lula da Silva, sob o argumento de que a vida do cidadão italiano sob a tutela do Estado brasileiro estaria em risco na terra natal, decidiu não atender a solicitação. Nos desdobramentos do caso, marcados por reações destemperadas dos chamados porta-vozes, o governo italiano entendeu de questionar a decisão, pedindo à Corte Judiciária que a anulasse. Não deu outra. O impertinente questionamento conduziu o STF a fixar-se na análise de um item prioritário de suma relevância.

A indagação irrompeu inevitavelmente: um país estrangeiro desfruta de competência legal para se insurgir, via judicial, contra um ato soberano, escorado em recomendação do próprio Poder Judiciário, tomado pela mais alta autoridade do Estado brasileiro? A resposta chegou categórica, definitiva. O que estava fundamentalmente em jogo no processo sob avaliação é uma situação que diz respeito à soberania nacional. O questionamento italiano carecia, portanto, de legitimidade. E ponto final.

Inconformados, elementos do Executivo, Legislativo e Magistratura italianos voltaram à carga com exacerbadas demonstrações de arrogância e passionalismo. Afora a emblemática “convocação para consultas” do Embaixador credenciado junto ao Itamaraty, houve até quem, entre os loquazes porta-vozes oficiais, obviamente acometido de surto paranóico, ameaçasse o Brasil com “represálias fulminantes”. Tipo assim: boicote aos nossos produtos. Boicote à Copa Mundial de Futebol e, de quebra, aos Jogos Olímpicos. Uma pantomina circense, ridícula a mais não poder, armada bem provavelmente com o velhaco intuito de desviar as atenções da platéia italiana da avalancha de escândalos que estremece os redutos políticos do país na burlesca “era Berlusconi”, marcada também, como noutros períodos da história, pela presença ostensiva da Máfia em escalões dotados de poder suficiente para a tomada de deliberações cruciais na vida da grande nação. Uma nação – assinale-se prazerosamente – que tanta influência benéfica exerceu e continua exercendo na formação cultural brasileira.

Cesare Battisti, escritor, com 17 livros publicados, não aparenta realmente ser, ao contrário do que propagam alguns, um contestador político idealista, arrastado equivocadamente a ações radicais pelo propósito de corrigir desacertos sociais e, por essa “razão” alvo de inclemente perseguição política. Mas, pode também não ser esse extremista desalmado, responsável por hediondos crimes comuns, condenado à prisão perpétua, retratado no pedido de extradição. As autoridades brasileiras, a começar pelos representantes da Magistratura, deixaram evidenciada dificuldade enorme em estabelecer definitivo juízo de valores a respeito da natureza dos delitos atribuídos ao polêmico personagem. Daí a opção pela aplicação do princípio jurídico do “em dúvida, pro réu”.

É bom não perder de vista, na apreciação de toda essa história, dois registros assaz significativos. O primeiro deles: se se trata de mera questão de “crime comum”, e não de “crime político”, por que toda essa tremenda celeuma promovida por grupos políticos em atmosfera de indignação e ira? O segundo registro: como explicar que o cidadão em causa, foragido, condenado à revelia com base em provas obtidas por meio da controvertida “delação premiada”, antes de buscar refúgio no Brasil, haja permanecido por mais de dez anos, com atividade regular, emprego e residência fixos, em território francês, encostadinho pode-se dizer no país de onde foi emanada a ordem relativa à sua detenção?

O que impediu, num cenário desses, com todas essas circunstâncias, fosse ele incomodado a qualquer título pelas autoridades do lugar em que se achava abrigado e, sobretudo, sem que os eficientes porta-vozes dos Poderes italianos exigissem, em tom esbravejante e ameaçador, do governo de Paris, como agora é feito com relação a Brasília, sua captura e extradição? O silêncio em torno da presença por tão extenso período de Battisti na França torna danado de suspeitoso o estardalhaço de agora.

Isso tudo, por certo, contribuiu fortemente para a decisão brasileira. Uma decisão soberana, legitima, incontestável. Não fica demais acentuar, também, que somos uma nação que costuma dar provas continuadas de magnanimidade na aplicação dos princípios jurídicos em não poucos momentos de relevância histórica. Pra lembrar alguns deles: anistia, no governo JK, aos revoltosos de Aragarças e Jacareacanga. Anistia aos envolvidos na luta armada dos tempos de chumbo, inclusive aos agentes da repressão acusados de tortura.

* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Quinta, 16 Junho 2011 01:43

O povo e os analistas

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Esses aí que, contemplando o mar,

só têm palavras para o enjôo!”

(Louis Pauwells)

Em comentário anterior, falamos da notória dicotomia existente entre o modo de pensar do cidadão comum e o de alguns analistas, comentaristas e cientistas políticos renomados que se valem de privilegiados espaços na grande mídia para sovadas observações derrotistas a respeito dos acontecimentos que rolam na cena brasileira. A esses últimos, pelas reações que comumente adotam, parece pouco importar se os episódios analisados se revestem, por inteiro, ou parcialmente, de algum mérito.

Os registros dos episódios são quase sempre negativos. Escorados, ao que tudo indica, naquele manjado preconceito elitista de que o brasileiro passa por ser um povo menos aquinhoado de dons. Reflexo daquela historinha imbecil, de conotação colonialista, que fala da existência ao sul do Equador de um vastíssimo território, dadivosamente contemplado (como nenhum outro) no projeto da Criação, mas povoado por um tipo de gente desafeiçoada ao trabalho, irremediavelmente desligada das grandes empreitadas que conduzem ao progresso.

Não adianta nada, em seu invejável esforço no dia-a-dia, a sociedade brasileira documentar, altiva, ruidosa e festivamente, com espírito de independência e apego à liberdade, sensatez, inteligência e criatividade, sua capacidade de construção humana. Os plantonistas do desalento continuarão imperturbáveis, a trilhar caminhos suspeitosos, entoando seus cânticos pessimistas, contrariando o sentimento das ruas.

Não é difícil levantar amostras dessa discordância fundamental. Peguemos como exemplo, colocando-os sob o foco das atenções, acontecimentos recentes ligados à bem sucedida história da Petrobrás. Como é mesmo que costumam ser, de parte a parte, as reações suscitadas por tais acontecimentos? No que toca à opinião pública, ocorrerão compreensíveis celebrações ao redor das realizações vitoriosas da empresa. Haverão louvações ao célere avanço que vem efetuando com vistas a se tornar a maior de todas no setor energético. Aos feitos tecnológicos atingidos com a exploração das jazidas em águas profundas. Às fabulosas descobertas do pré-sal.

Essa mesma opinião pública não vacilará, ainda, em manifestar seu desagrado com relação a coisas que carecem ser alteradas nas atividades da estatal. Por exemplo, o indigesto corporativismo burocrático, que implica custos exorbitantes. A política de preços dominante no abastecimento. No entendimento popular, essa política poderia ser perfeitamente alterada com o barateamento dos produtos em benefício dos consumidores. Bastaria que a Petrobrás resolvesse exercitar seu poder de regulação de mercado, reforçando os vínculos sociais que tem com a nação.

Com relação à Petrobrás, seguindo o raciocínio, o que se recolhe de boa parte da mídia, habitualmente, são opiniões radicalmente inversas. Além de carregarem pesado nos aspectos passíveis de críticas da estatal, tais comentaristas comportam-se como se não vissem significado algum nos feitos por ela acumulados. Quando o país, como resultado de um trabalho altamente elogiável de muitos anos chegou à almejada autossuficiência na produção de petróleo, as palavras dedicadas ao fato por parte dessa “turma do contra” não estiveram, definitivamente, à altura do marco histórico conquistado. A exploração das reservas do pré-sal sob a coordenação (óbvia) da Petrobrás é vista com severas restrições nesses setores. A impressão que deixam não poucos comentaristas é de que, em seu estrábico modo de enxergar o Brasil, o melhor seria traçar para a Petrobrás o mesmo destino dado à Vale do Rio Doce. Transferi-la, porteira fechada, para a iniciativa privada, “bem mais competente, com toda certeza”...

Nosso país viu o PIB crescer, ano passado, em 7.5%. O ritmo da expansão econômica nos últimos sete anos alcançou média de 5%. Vários setores produtivos, com destaque para o imobiliário, o agronegócio e o automotivo, crescem numa cadencia costuma-se dizer chinesa. As vendas de carros aumentaram, de 2003 pra cá, quase 150%, num índice médio de crescimento de quase 14%. A italiana FIAT tem hoje no Brasil seu melhor mercado. Isso está prestes a se repetir com outras montadoras, como a GM e a Volks. A explosão na área da construção civil talvez só encontre paralelo na China. E por ai vai...

Nada disso, nada das conquistas do passado, do presente e das já antevistas conseguem, no entanto, sensibilizar os céticos. Arrefecer a disposição autofágica dos profetas do derrotismo. Uma turma, pra fazer uso de expressão muito de seu próprio agrado pessoal, que vive perdendo o bonde da história. Enquanto o povo nas ruas acha que as coisas vão razoavelmente bem e poderiam ir, percalços à parte, um pouco melhor, eles consideram que tudo vai de mal a pior inexoravelmente.

Raciocinam como aquele candidato a presidente (felizmente derrotado) que, nos idos de 2006, não se enrubescia nem um tiquinho em comparar nossa economia com a do Haiti. Deus nos proteja desse tipo de gente, como lembra Louis Pauwells, que ao contemplar o mar só encontra palavras para o enjôo.

 * Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

*Por Antonio Carlos Teixeira

“Pedi para os meus pais um I Pod Touch e um Blackberry porque todo mundo que eu conheço tem. Ganhei os dois. O Blackberry não durou muito: quebrou. Mas eu já ganhei outro…” A frase, dita por uma adolescente brasileira, revela o quanto ainda precisamos avançar na conscientização socioambiental [...]

Um dos pontos dessa busca maior pela mudança de hábitos em benefício do meio ambiente é justamente o grande calcanhar de Aquiles da questão ambiental: o consumo sem limites.

O Brasil está em primeiro lugar entres os países emergentes que mais geram resíduos sólidos provenientes de aparelhos eletrônicos usados, como computadores, celulares, tevês de alta definição, notebooks, smartphones, aparelhos de mp3, impressoras, escâneres e todo o tipo de acessórios que estão presentes no modo de vida contemporâneo.

De acordo com o relatório “Recycling – From E-waste to Resources”, lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, United Nations Environment Programme), o Brasil produz 0.5 kg per capita/ano (cerca de 95 mil toneladas), seguido bem de perto por México e China (ambos com 0.4 kg per capita/ano). Em termos globais, a sociedade humana está produzindo nada menos que 50 milhões de toneladas de “e-lixo” anuais. Só a União Europeia é responsável por 9 milhões de toneladas! Mas será que todos esses resíduos eletrônicos estão sendo gerados apenas pelo fato de que os aparelhos já esgotaram suas capacidades de utilização?

É bem provável que não. Talvez os componentes principais que estão motivando essa produção absurda de “e-resíduos” tenham mais a ver com educação, postura, impulso, consumismo, complexo de superioridade, de inferioridade, ansiedade, sensação de vazio…

No recente lançamento da nova versão de um famoso “tablet” no Brasil, os primeiros a adquirir o “gadget” – após permanecerem horas na fila de espera – já especulavam sobre a chegada do “número 3” e quais seriam as novidades do “brinquedinho”. Um dos consumidores obcecados, que mal acabara de adquirir o aparelho, chegou a declarar que era “muito sofrimento” saber que o seu novo passatempo estaria obsoleto em dez meses…

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, sigla em inglês de Environmental Protection Agency) aponta que, das 3,1 milhões de toneladas de “e-waste” produzidas no país em 2008, apenas 14% (434 mil toneladas) foram destinadas à reciclagem. Isto significa que 2,6 mihões de toneladas foram parar em aterros sanitários, fornos incineradores ou em outros países, entre eles, Gana, Tanzânia, Vietnã, Malásia, Quênia, Haiti, Filipinas, Tailândia e… Brasil!

Sim. Além de gerarmos nosso próprio lixo ainda “importamos” esse tipo de resíduo dos EUA. Já não bastam os nossos ainda temos que dar solução para o dos outros… Que desenvolvimento!

Mas os EUA não estão sozinhos nesse “negócio”. Países como Canadá, Japão, Austrália e Coréia do Sul “exportam” suas “e-sucatas” para nações pobres ou até para países emergentes, como a China. Já a Europa tem como “clientes” Nigéria, Rússia, Paquistão, Singapura, Ucrânia e Egito. Outro “BRIC”, a Índia, também figura entre países compradores de “e-cacarecos” vindos de Estados Unidos, Austrália e Europa.

Não vamos avançar e evoluir na questão ambiental planetária se continuarmos a mandar nosso lixo para a casa dos outros. Estamos apenas transferindo (e mal) o problema. Existem saídas para minimizar ou reduzir esses impactos. Duas delas: exercer a “Política dos 5 Rs” e estimular na nossa sociedade que cada fabricante seja responsável pelo tratamento e destinação dos resíduos eletrônicos dos seus aparelhos.

Nos 5 Rs, todas as ações dizem respeito à nossa postura enquanto cidadãos que defendem uma mudança de comportamento em defesa da preservação e da conservação do meio ambiente e dos recursos naturais: reduzir (consumo), reutilizar (utensílios, embalagens), reciclar (resíduos), recusar (o que não é necessário) e repensar (nossas atitudes).

Ok, o apelo consumista contemporâneo é esmagador: somos levados a querer participar dos usos e frutos da sociedade, a ter os últimos lançamentos dos mais modernos aparelhos, a ostentar marcas internacionais, a provocar uma “invejinha” nos conhecidos… Mas, sinceramente, não dá para posar de ambientalista, de defensor da natureza, de preocupado com o aquecimento global se não exercemos os 5 Rs diariamente em nossas vidas. Ou pelo menos alguns deles.

Não dá para criticar o país A, B ou C por enviar seu lixo eletrônico para uma nação pobre ou miserável se nós mesmos não estamos nem aí para reduzir o nosso consumo. Todo aparelho eletrônico (como outro qualquer) tem um prazo de validade. Até porque o investimento que fizemos para adquiri-lo inclui os anos de vida útil previsto pela indústria, fábrica ou montadora responsável pela sua criação e/ou comercialização. Agora, se trocarmos “vida útil” por “desejo fútil” estamos declarando que discurso de conscientização ambiental só deve servir para “os outros”. Para mim não, violão!

Mas não basta apenas nós, consumidores, reduzirmos o consumo. É urgente que governos, empresas, fábricas e indústrias também entrem nessa corrente. Para reduzir os impactos das “e-bugigangas” no meio ambiente global, os cidadãos precisar ser esclarecidos sobre as melhores formas de descarte do seu aparelho. E a principal delas, sem dúvida, e a de retorno ao fabricante.

Indústrias e fabricantes são os agentes mais capacitados para realizar esse tipo de recolhimento. Têm know how para manuseio, pois conhecem seus componentes, sua composição (elementos químicos, metais preciosos, pesados…) e podem desmontar com mais propriedade aquilo que montaram.

Podem chamar como quiser: logística reversa, política de envio de aparelho usado, programa de reenvio de material… O mais importante é esclarecer a população, o consumidor, o cidadão. É uma questão de respeito (a quem investe na marca) e de responsabilidade (social, corporativa e socioambiental).

Para isso acontecer, é preciso ação, leis e normas. E aí entram em cena os nossos representantes no Executivo, no Legislativo e no Judiciário para criar, garantir e julgar legislação e normatização específica sobre o tema. Antecipações do setor produtivo nesse sentido são muito bem-vindas. Por exemplo: onde estão as campanhas publicitárias das empresas, das indústrias, dos fabricantes? Alô vice-presidências, diretorias, gerências, e profissionais de marketing e de comunicação!

Onde estão os programas de orientação ao consumidor? Nas lojas, na tevê, na internet, nos jornais e na mídia em geral só se veem os produtos (dezenas deles!), nunca esclarecimentos sobre o que fazer com os aparelhos numa situação de descarte.

Não podemos permitir que essas “e-xepas” acabem em aterros sanitários, lixões a céu aberto ou até mesmo em matas, florestas, estuários, rios, praias e no fundo de mares e oceanos. Chega de poluição.

Antes que o planeta vire uma “e-mundície”.

*Jornalista e consultor de comunicação, meio ambiente e sustentabilidade

(Fonte: Plurale)

Quarta, 08 Junho 2011 02:02

O povo sabe

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Saber que sabe é um dom da gente do povo.”

(Antônio Luiz da Costa, educador)

O cidadão comum brasileiro denota possuir grau de percepção social infinitamente superior ao de ponderável grupo de analistas, comentaristas, cientistas políticos eruditos e renomados que frequentam habitualmente colunas da grande mídia com interpretações pessoais dos fatos socioeconômicos. O sentimento popular, expresso via de regra em manifestações de satisfação e de sempre esperançosa expectativa, bate de frente a toda hora com a obsedante mensagem negativista lida e ouvida no noticiário nosso de cada dia. O crescimento acelerado dos últimos anos, que concedeu ao Brasil posição de enorme realce no cenário internacional, revela sem margem a contestações que, nessa divergência de opinião, o povo é que está com a razão.

Apontando a medida como indispensável no combate inflacionário, o governo federal anunciou um corte orçamentário de 50 bilhões. Anunciou, também, respaldado em pareceres dos tecnocratas de sempre, novas e questionáveis elevações na taxação dos juros. A redução de investimentos impacta naturalmente várias iniciativas na área social, que terão de ser sobrestadas. A decisão não vai afetar, todavia, como não poderia, aliás, deixar de ser, o Bolsa-Família, programa da maior relevância no resgate paulatino da colossal dívida social acumulada anos a fio pela nação.

As alterações para mais nos valores despendidos com esse item específico da ação governamental, estão estimados, ao que se informou, em 2,5 bilhões. O comunicado dessa majoração nas verbas do Bolsa Família provocou, por incrível que pareça, reações zangadas de não poucos elementos com acesso à divulgação midiática. Não deixa de ser intrigante anotar que esses comentários críticos sobre a palpitante matéria são emitidos numa mesma ocasião em que, por força da pujança econômica brasileira, negada sistematicamente por esses mesmíssimos setores, grandes organizações empresariais sobretudo bancárias, tornam público estrondosos recordes em lucratividade nos negócios em que atuam.

Soa estranho que a nenhum dos responsáveis pelas despropositadas restrições ao Bolsa-Família não ocorra a idéia de sugerir que pequena parcela dessa espiral de bons resultados financeiros – algo, diga-se de passagem, incomparável em qualquer outro canto do mundo – possa ser carreada, por meio de um pacto tributário sério, aos programas sociais, com a eliminação, quem sabe até, da necessidade de se operar cortes no orçamento federal. Cuidemos de aquilatar a dimensão dessa lucratividade recordista, atingida pelas eficientes empresas do ramo bancário, para ficar num exemplo. Os números somados de não mais que meia dúzia delas são suficientes para superar a cifra de 50 bilhões correspondentes à redução de gastos orçamentários feita pela União.

Tá aqui, escancarado em jornal, outro exemplo talqualmente sugestivo. Diz respeito a uma grande empresa industrial. No período de apenas três meses (julho a setembro de 2010), como fruto de eficaz gestão administrativa, ela conseguiu incorporar ao patrimônio lucro líquido, em dólares, de 6.229 bilhões. O nome da empresa é Vale (do Rio Doce), segunda maior organização produtiva brasileira. Em seu segmento, a maior do mundo. É interessante frisar que a dinheirama auferida é bem maior do que o valor recebido pelo Estado no leilão, anos atrás, referente à sua privatização. Essa privatização foi considerada como o melhor negócio jamais feito no orbe terráqueo desde que os índios pele-vermelha, antigos povoadores dos Estados Unidos, transferiram para os cara-pálidas os direitos de propriedade sobre o território hoje conhecido por Manhatan.

Isto tudo posto, irrompe uma pergunta. Será que não dá pra tentar uma reavaliação, por meio evidentemente de negociações, da contribuição dessas empresas, tão prodigamente remuneradas no contexto produtivo, na formação dos recursos investidos nas políticas sociais? Por que nas observações, insistentemente pessimistas, que fazem a respeito dos rumos que o Brasil percorre em sua busca frenética do desenvolvimento visando garantir melhores índices de prosperidade social, os especialistas em previsões catastróficas de nossa mídia não se animam a propor, como formadores de opinião que são, um debate esclarecedor a respeito da conveniência de um novo pacto regulatorio na esfera tributária? Um pacto que concorra para a diminuição, em nome da justiça social, das cotas de participação no bolo fiscal de quem possua capacidade menor de produzir renda. Com compensação, evidentemente, na elevação proporcional do contributo das organizações de altíssima lucratividade.

O povo, que entende melhor das coisas do que certos comentaristas, aceita de bom grado esse raciocínio. Se alguém duvida, que se dê ao trabalho de sair perguntando por aí, mode se esclarecer.

* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Quarta, 08 Junho 2011 01:54

Strauss-Kahn: uma metáfora das práticas do FMI

Escrito por

Por Leonardo Boff (*)

O leitor ou leitora pensará que foi uma tragédia o fato de o diretor-gerente do FMI, Strauss-Kahn, ter dado asas ao seu vício, a obsessiva busca por sexo perverso, nu, correndo atrás de uma camareira negra na suíte 2806 do hotel Sofitel em Nova York, até agarrá-la e forçá-la a praticar sexo, o que a Promotoria de Nova Iorque descreve em detalhes e que, por decência, me dispenso de dizer. Para ele não era uma tragédia. Era uma vítima a mais, entre outras, que fez pelo mundo afora. Vestiu-se e foi direto para o aeroporto. O cômico foi que, imbecil, esqueceu o celular na suíte e assim pôde ser preso pela polícia ainda dentro do avião.

A tragédia ocorreu não com ele, mas com a vítima que ninguém se interessa em saber. Seu nome é Nifissatou Diallo, da Guiné, africana, muçulmana, viúva e mãe de uma filha de 15 anos. A polícia encontrou-a escondida atrás de um armário, chorando e vomitando, traumatizada pela violência sofrida pelo hóspede da suíte, cujo nome sequer conhecia. A maior parte da imprensa francesa, com cinismo e indisfarçável machismo, procurou esconder o fato, alegando até uma possível armadilha contra o futuro candidato socialista à Presidência da República.

O ex-ministro da cultura e educação, Jacques Lang, de quem se poderia esperar algum esprit de finesse, com desprezo, afirmou: “Afinal não morreu ninguém”. Que deixe uma mulher psicologicamente destruída pela brutalidade do Mr. Strauss-Kahn não conta muito. Finalmente, para essa gente, se trata apenas de uma mulher e africana. Mulher conta alguma coisa para este tipo de mentalidade atrasada, senão para ser mero “objeto de cama e mesa”?

Para sermos justos, temos que ver este fato a partir do olhar da vítima. Ai dimensionamos seu sofrimento e a humilhação de tantas mulheres no mundo que são sequestradas, violadas e vendidas como escravas do sexo. Só uma sociedade que perdeu todo o sentido de dignidade e se brutalizou pela predominância de uma concepção materialista de vida que faz tudo ser objeto e mercadoria, pode possibilitar tal prática.

Hoje, tudo virou mercadoria e ocasião de ganho desde o bens comuns da humanidade, privatizados (commons como água, solos, sementes), até órgãos humanos, crianças e mulheres prostituídas. Se Marx visse esta situação ficaria seguramente escandalizado, pois para ele o capital vive da exploração da força de trabalho, mas não da venda de vidas.

No entanto, já em 1847 na Miséria da Filosofia intuía: “Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico e podia alienar-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas jamais trocadas, dadas, mas jamais vendidas: adquiridas mas jamais compradas como a virtude, o amor, a opinião, a ciência e a consciência, em que tudo passou para o comércio. Reina o tempo da corrupção geral e da venalidade universal….em que tudo é levado ao mercado”.

Strauss-Kahn é uma metáfora do atual sistema neoliberal. Suga o sangue dos países em crise como a Islândia, a Irlanda, a Grécia, Portugal e agora a Espanha como fizera antes com o Brasil e os países da América Latina e da Ásia. Para salvar os bancos e obrigar a saldar as dívidas, arrasam a sociedade, desempregam, privatizam bens públicos, diminuem salários, aumentam os anos para as aposentadorias, fazem trabalhar mais horas. Só por causa do capital. O articulador destas políticas mundiais, entre outros, é o FMI, do qual Strauss-Kahn era a figura central.

O que ele fez com Nafissatou Diallo é uma metáfora daquilo que estava fazendo com os países em dificuldades financeiras. Mereceria cadeia não só pela violência sexual contra a camareira, mas também pelo estupro econômico ao povo, que ele articulava a partir do FMI. Estamos desolados.

(*) Teólogo, filósofo e escritor

Sábado, 04 Junho 2011 05:59

Brasil rural: matar e desmatar

Escrito por

Por Frei Betto(*)

Nos últimos dias, cinco líderes rurais foram assassinados no Brasil. No Pará, mataram Herenilton Pereira dos Santos e o casal de ambientalistas Maria do Espírito Santo da Silva e José Cláudio Ribeiro da Silva, do projeto agroextrativista Praialta-Piranheira.

Os três viviam no mesmo assentamento rural, em Nova Ipixuna. José Cláudio teve uma orelha arrancada. Isso prova ter sido seu assassinato encomendado. É praxe o mandante exigir do pistoleiro a orelha da vítima como “recibo” do pagamento pelo “serviço” prestado.

Em Rondônia assassinaram Adelino Ramos, presidente do Movimento Camponeses Corumbiara. E em Eldorado dos Carajás, mataram Marcos Gomes da Silva.

O governo federal tomou providências para prender os mandantes e pistoleiros e convocou uma reunião ministerial de emergência para analisar a relação dos crimes com a recente aprovação, pela Câmara dos Deputados, do novo Código Florestal.

A ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, repassou às autoridades do Pará denúncias da Federação de Trabalhadores da Agricultura Familiar, que relatam 17 assassinatos ocorridos no estado nos últimos anos, sem que a polícia paraense tenha aberto inquérito.

“O Pará é o lugar de maior atuação dos grupos de extermínio hoje no Brasil” – declarou a ministra dos Direitos Humanos. “Há uma impunidade muito forte. E isso é incompatível com a democracia, o Estado de direito e os direitos humanos.”

As quatro vítimas lideravam lutas contra a desmatamento da Amazônia, causando a ira de madeireiros e latifundiários. O projeto Praialta-Piranheira é modelo de assentamento sustentável de reforma agrária, adotado pelo Incra na Amazônia. Seu objetivo é assegurar o sustento de famílias de pequenos agricultores sem devastar a floresta.

Adelino Ramos, em Rondônia, liderava o projeto de assentamento agroflorestal. Os dois projetos, segundo o Ministério do Meio Ambiente, são obstáculos ao desmatamento (que transforma a floresta em pasto) e à extração ilegal de madeira na Amazônia.

O novo Código Florestal, tal como aprovado por deputados federais, deverá sofrer modificações no Senado e suas cláusulas mais nocivas serão, com certeza, vetadas pela presidente Dilma.

Ao transferir para estados e municípios o controle ao desmatamento e anistiar o agronegócio de pesadas multas aplicadas a crimes de degradação ambiental, o novo Código dá sinal verde à ocupação descontrolada de terras e agrava as tensões fundiárias.

Tal como aprovado na Câmara dos Deputados, o novo Código retira a referência à lei de crimes ambientais (Lei 9.605∕98). No art. 130, que isenta propriedades de até quatro módulos fiscais da obrigatoriedade de manter a Reserva Legal nos limites da lei, permite o desmate direto de 69. 245.404 hectares de florestas nativas (cf. Potenciais Impactos das Alterações do Código Florestal Brasileiro na Meta Nacional de Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa, Observatório do Clima, 2010).

Apenas nos estados do Norte do Brasil, esse dispositivo proporcionaria desmatamento de até 71 milhões de hectares de florestas nativas (cf. Nota Técnica para a Câmara de Negociação do Código Florestal do Ministério Público Federal)

Mais do que um Código Florestal, o Brasil necessita, urgente, de uma reforma agrária. É lamentável que este tema esteja ausente da pauta do Congresso Nacional. Somos uma nação de dimensões continentais, com recursos naturais inestimáveis e inigualáveis e, no entanto, convivemos com a tragédia de cerca de 4 milhões de famílias expulsas de suas terras. Um por cento dos proprietários rurais é dono de 50% do território brasileiro!

A Comissão Pastoral da Terra, que acompanha os conflitos fundiários desde 1985, registra que, daquele ano até 2010, 1.580 pessoas foram assassinadas no campo. Dos assassinos, apenas 94 foram julgados e condenados: 21 mandantes e 73 executores (pistoleiros). E, dos mandantes, somente um se encontra preso, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, responsável pela morte da irmã Dorothy Stang, baleada no Pará em 2005.

Atualmente a lista de ameaçados inclui 1.855 pessoas. Personagens de uma crônica das mortes anunciadas? Sim, se o governo não der um basta à nefasta estratégia amazônica de matar para desmatar.

Outras mortes por assassinato ocorrerão se a presidente Dilma não tomar providências enérgicas para qualificar os assentamentos rurais, impedir o desmatamento e puni-lo com rigor, cobrar as multas aplicadas, federalizar os crimes contra os direitos humanos e, sobretudo, vetar o Código Florestal aprovado pelos deputados federais e promover a reforma agrária.

(*)Escritor e assessor de movimentos sociais

Sábado, 28 Maio 2011 04:53

Deputados votam contra as futuras gerações

Escrito por

Por Francisco Roberto Caporal

Se você tem filhos pequenos ou adolescentes, se tem netos ou se ainda vai ter netos, saiba: os deputados federais acabam de decretar mais uma desgraça para eles. Acabam de votar CONTRA as futuras gerações.

A votação do Código Florestal, ontem à noite (24 de maio), na Câmara de Deputados, foi um ato contra o país e contra a maioria da sociedade. Esta votação foi a expressão mais profunda e triste da soma de ignorância, falta de visão de futuro com a defesa de interesses mesquinhos de uma minoria da população brasileira representada pela chamada “bancada ruralista” e pelo agronegócio.

A aprovação, por 410 votos contra 63, do texto elaborado pelo deputado Aldo Rebelo, do PCdoB, que atende aos interesses dos grandes produtores e dos latifundiários deste país, foi seguida da aprovação de uma emenda ainda mais absurda. Por 273 x 182 os “nobres” deputados e as deputadas escancararam as portas para mais descalabros ambientais, já que consolida as atividades hoje realizadas nas APPS – Áreas de Preservação Permanente.

Ademais, inclui os Estados no processo de regularização ambiental e, pior, mantém a anistia para todos que causaram desmatamentos até julho de 2008. A inclusão dos estados, foi uma decisão que chega a ser digna de risos. Quem sabe, suas excelências - que é o modo como eles se tratam em plenário, massageando seus egos – não conhecem seus próprios estados e as frágeis estruturas institucionais ligadas às questões ambientais, absolutamente sucateadas e/ou insuficientes na grande maioria dos 27 estados brasileiros, senão em todos, além de outros interesses nem sempre favoráveis ao meio ambiente que hoje em dia já são evidenciados em muitos lugares da nossa geografia.

Assisti pela televisão, estarrecido, ao debate de baixa qualidade que precedeu as votações. Argumentos estapafúrdios, sem lógica e sem nenhum rigor científico desfilavam de boca em boca. Da base do governo aos oposicionistas (se é que esta divisão ainda existe). Um festival de falta de vergonha na cara, recheado de hipocrisia e defesa aberta de interesses alheios à vontade da maioria dos eleitores. Sequer as recomendações da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, da Academia Brasileira de Ciências ou do Ministério Público Federal, foram observadas. Que dizer, então, das centenas de manifestações da sociedade civil organizada, ONGs, OCIPS, entidades da agricultura familiar e entidades científicas, entre elas a Associação Brasileira de Agroecologia. Nada disso serviu para a reflexão de suas excelências, que passaram olimpicamente das preocupações dos eleitores.

O Código aprovado por suas excelências, elimina a necessidade ambiental de manutenção da reserva legal em propriedades que tenham até 4 módulos fiscais (entre 20 e 400 hectares). O pior de tudo, é que, se mantidas com estão, as regras terão impactos futuros negativamente imprevisíveis. A redução (e a não recuperação) de áreas de florestas, vai repercutir na destruição definitiva de parte importante de nossa biodiversidade e, em muitos lugares, vai impactar as culturas e conhecimentos locais associados a ela. Ao mesmo tempo, ficando o Código como está, poderemos acelerar os já graves problemas de disponibilidade de água doce, além, é claro, de ampliarmos a contribuição brasileira para o aquecimento global e o cambio climático.

Outra demonstração de falta de rigor científico é a parte do texto que permite compensar o desmatamento hoje registrado nas propriedades por reflorestamentos em outros biomas. Ora, suas excelências deveriam saber que os biomas são exatamente um recorte do meio ambiente com base, entre outras coisas, nas suas condições ecológicas diferenciadas. Recompor floresta em outro bioma, não recupera a biodiversidade perdida no bioma impactado e sequer as relações ecológicas necessárias e indispensáveis para a sustentabilidade, de modo que, como está o Código, vamos decretar definitivamente a perda de vida nos biomas que mais interessem ao capital, para seus processos produtivos baseados na monocultura e nos uso intensivo de agroquímicos.

Não bastasse, o que a câmara de deputados aprovou ontem mostra que manter a participação da produção agropecuária no PIB e assegurar a continuidade das exportações de commodities,   é mais importante do que preservar os serviços ambientais ofertados pelas florestas. Não sei como os deputados e o governo, pensam em substituir os serviços ambientais que estão eliminando e que só as florestas nos podem garantir: “como a produção de água, a regulação dos ciclos das chuvas e dos recursos hídricos, a proteção da biodiversidade, a polinização, a reprodução de muitas espécies, o equilíbrio das cadeias tróficas, o controle do assoreamento dos rios e barragens e o equilíbrio do clima” – que são alguns dos sustentáculos básicos da vida neste planeta. Por certo não será com suas capacidades criativas e inventivas. Sequer com suas pesquisas científicas.

Ontem, assistimos a uma triste votação, contra as futuras gerações. Os resultados estarão presentes logo, mas os maiores impactos serão sentidos pelos nossos filhos e netos. Por isto, anote o voto do deputado federal em quem você confiou nas últimas eleições, para não esquecer nas próximas. E cuidado! Se ele está entre os 410 ou entre os 273, não esqueça de lembrá-lo agora ou no futuro, que sustentabilidade depende de uma solidariedade sincrônica (entre as atuais gerações) e diacrônica (das atuais para com as futuras gerações), logo, quem votou a favor está negando não só a solidariedade, mas as possibilidades de um futuro mais sustentável e, portanto, a qualidade de vida dos que estarão aqui, nesta terra, daqui a algum tempo.

Não estou entre os que acham que o governo teve uma derrota.  A posição do governo (lembrem-se que Aldo Rebelo era ou é da base, já nem sei) foi sempre ambígua, medrosa. Temente aos interesses do agronegócio, como o diabo tem medo da cruz. Este temor desmesurado é a mesma razão pela qual os governos não levam a votação os índices de produtividade da terra, que poderia ser um bom caminho para substituir a concentração da terra, a erosão ambiental e a exclusão social por uma reforma agrária profunda e sustentável.

Esta votação foi, na verdade, uma derrota não do governo, mas da sociedade, dos ambientalistas e de todos os que buscaram racionalidade científica na orientação do encaminhamento desta questão. Uma pena, o que aconteceu. Mas ainda há a esperança na votação que ocorrerá no senado. Se é que naquela casa ainda resta um pouco de lucidez quanto à questão ambiental. Não vamos desistir da luta, pois dela dependem as futuras gerações. Vamos conclamar a todos os cidadãos e cidadãs de bom senso, para que somem forças e pressionem os senadores e o governo federal no sentido de que suas posições se desatrelem dos interesses da minoria e passem a representar o interesse geral da nação.

O autor é engenheiro agrônomo, doutor em Agroecologia pelo Instituto de Sociología y Estudios Campesinos da Universidade de Cordoba-ES; professor da UFRPE e presidente da Associação Brasileira de Agroecologia. Email: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

P.S.: Dedico este texto a Laila e Leonardo. Camaragibe, Pernambuco, Brasil, 25 de maio de 2011.

Sábado, 28 Maio 2011 04:27

Ciber guerra à vista

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

"A guerra cibernética já começou.”

(Iain Lobban, diretor da agência

britânica de espionagem em comunicações)

A impressão geral dominante em tudo quanto é canto deste mundo do bom Deus onde o diabo costuma fincar seus enclaves é de que a bomba nuclear, com a tecnologia dos tempos de agora, constitui o mais poderoso instrumento bélico concebido pela insânia humana. Capaz, por essa irretorquível razão, de aniquilar, numa guerra de proporções universais, todos os vestígios de vida existentes. Os integrantes do chamado “clube atômico”, que congrega hoje declaradamente nove países – Estados Unidos, China, Rússia, Inglaterra, França, Israel, Índia, Paquistão e Coréia do Norte – dispõem de condições, a serem levados em conta os engenhos estocados, para devastar não uma vez apenas, mas dezenas de vezes, se isso tivesse alguma lógica, esta ilhota solta no oceano cósmico destinada a abrigar a turbulenta espécie do “homo sapiens”.

As superpotências bem que se esforçam, utilizando caudalosa retórica, por evitar, por meios variados acenando com sua força de persuasão, a proliferação dos arsenais atômicos. Mas, volta e meia, se vêem confrontadas pelas atitudes rebeldes de um que outro país inconformado com a exclusividade que, de certo modo, resolveram se atribuir no acesso à tecnologia nuclear. Nalguns casos, até mesmo levantando óbices a quem se disponha a utilizá-la para fins estritamente pacíficos. Como no exemplo bem configurado do Brasil. A restrição levantada com relação a alguns países, de modo a impedir possam vir a adquirir carteira de sócio no clube, bem assimilada na consciência coletiva por óbvios argumentos, é alvo por vezes de questionamentos. Questionamentos, por sinal bastante compreensíveis no caso de quem, convictamente, abomine as contendas bélicas e aposte, com sinceridade, no diálogo como caminho direto e eficaz para a solução de pendências na convivência entre nações.

Afinal de contas, as grandes potencias desmentem clamorosamente, cada hora, com atos despropositados, a boa intenção que arrotam quanto a ser firme e constante seu empenho na contenção da corrida armamentista nuclear. Fazem de conta, pro resto do mundo ver, por meio de tratados fajutos, com pródiga divulgação na midia, que irão reduzir em breve os colossais estoques letais. Mas tudo acaba, no duro mesmo, desaguando numa solene impostura. A capacidade de devastação planetária de cada qual permanece inalterada. E nem fica fora de propósito conceber esteja sendo sempre ampliada.

Dizíamos, na introdução, que um conflito nuclear é enxergado, hipoteticamente, como a mais arrasadora das guerras. Mas já começam a surgir controvérsias a respeito dessa tese. Tomando conhecimento de algumas revoluções tecnológicas incorporadas nos últimos decênios às atividades humanas, passo a conceber a teoria de que, bem provavelmente, já existam engenhos de destruição ainda mais aniquilantes. As fabulosas conquistas técnicas dos tempos modernos podem ser a origem, o que já é admitido por qualificados cientistas, de um “apocalipse cibernético”.

Como a própria expressão sugere, o cenário dessa “ciber guerra” em potencial é simplesmente aterrorizante. Suponhamos que países em confronto declarado resolvam, subitamente, colocar em execução planos de ataques cibernéticos com vistas a provocar um apagão geral definitivo em tudo quanto seja operado por via eletrônica. De uma hora para outra, irrompe um apagão nunca, jamais, em tempo algum visto. Apagão das redes de distribuição de energia. Apagão que decrete a paralisação instantânea de todas as unidades operacionais do sistema financeiro, com a eliminação de qualquer tipo de registro. Apagão que implique no colapso dos esquemas de transporte aéreo, ferroviário e rodoviário. Em engarrafamentos de trânsito urbano enlouquecedores.

No desabastecimento total de produtos essenciais, com saques de lojas e residências dominando em sequência tenebrosa as ruas. Os ataques cibernéticos poderiam abranger também, seguindo essa linha catastrófica, ordens de comando a equipamentos eletrônicos objetivando o superaquecimento, com danos irreparáveis, das máquinas, além de incêndios incontroláveis.

A propósito de perspectivas tão apavorantes, Ian Lobban, diretor do “Government Communications Headquarters”, agência britânica de espionagem em comunicações, emitiu recentemente uma declaração por demais elucidativa. A “guerra cibernética”, diz ele, já começou. “Vários países já estão utilizando técnicas de guerra cibernética para lançar ataques uns contra os outros, a fim de criar pressão diplomática ou econômica”, enfatizou, clamando que seja feito, com urgência,  um hercúleo esforço internacional em favor da implantação de “normas corretas de comportamento no ciberespaço para os Estados responsáveis”.

Voltando à “Ciber Guerra”

O ciberespaço é disputado, hoje,

pelas nações, a cada hora, a cada dia,

 a cada minuto, a cada segundo.”

(Iain Lobban, (chefe do Serviço de

Espionagem do Reino Unido)

Um autor estadunidense sustenta em livro recentemente lançado que alguns países já se envolveram em ataques cibernéticos bem sucedidos. Não se trata de  alguém destituído de conhecimento de causa. Richard Clarke ocupou posição de alta relevância no combate ao terrorismo, como consultor na Casa Branca dos presidentes Clinton e Bush. O título de seu livro, “Ciber Guerra – A próxima ameaça à segurança nacional e o que fazer diante dela”, provoca muitas reflexões.

Ele garante que a China já montou, com seus melhores cérebros científicos, um complexo sistema para desenvolver ações ofensivas e defensivas nessa matéria. A Rússia, assevera, também se aparelhou nesse campo e empreendeu, com êxito, agressões às redes de computadores da Estônia e da Geórgia. Clarke cala-se, com o indisfarçável intuito de não expor segredos de Estado, sobre a atuação de seu próprio país. Mas o que não falta são evidências de que os Estados Unidos mantêm-se na vanguarda em ações desse gênero, já tendo promovido ataques cibernéticos bem sucedidos às redes de computadores de nações consideradas hostis.

Até aqui, o que vem acontecendo são batalhas cibernéticas esporádicas. Uma guerra cibernética total produziria catástrofe inimaginável. Os detentores da tecnologia capaz de desencadeá-la, membros, todos eles, do chamado “clube atômico”, fixam limites que não cogitam, à primeira vista, transpor, pela mesmíssima razão que, depois de Hiroshima e Nagazaki, não se dispuseram também a lançar artefatos nucleares em conflitos dos quais hajam participado. O receio de represálias fulminantes tem peso considerável numa decisão desse gênero.

Iain Lobban, chefe britânico de espionagem na área de comunicação, revela que “o ciberespaço é disputado, hoje, pelas nações, a cada hora, a cada dia, a cada minuto, a cada segundo.” Embora a Internet tenha reduzido “as barreiras de acesso ao jogo da espionagem”, a expansão contínua das redes potencializa os riscos de perturbações à infraestrutura dos serviços essenciais. Por exemplo, a infraestrutura das usinas de energia, do sistema financeiro e por ai vai. “A ameaça é real e digna de atenção”, afiança. Lobban, tanto quanto Richard Clarke, sabe bem do que se trata. A agência para a qual presta serviços no Reino Unido coordena gigantesca operação global de escuta. Algo semelhante, provavelmente em proporções menores, àquela que os Estados Unidos sabidamente montaram, conhecida pela denominação de “Projeto Echelon”.

Tais operações cuidam, com o emprego de satélites sofisticados e outros instrumentos eletrônicos avançados, da decifração de códigos e da coleta de informações em escala universal. Os sistemas conferem palpitante atualidade às previsões de Aldous Huxley, no “Admirável Mundo Novo”, onde nos deparamos com a projeção de arrepiante cenário em que as ações cotidianas do ser humano passam a ser controladas, o tempo todo, por engenhocas tecnológicas acionadas pelo “Grande Irmão.”

As operações dos “hackers” e as invasões de redes pelos assim chamados “cibercriminosos”, com suas táticas cada vez mais sofisticadas, podem ser interpretadas, neste instigante contexto, como meras escaramuças bélicas. Escaramuças que só fazem antecipar a ameaça da guerra cibernética. Uma guerra que pode, hipoteticamente – Deus livre e guarde – ser desfechada, contra os interesses da humanidade, não apenas pela ganância por poder deste ou daquele país, mas também, nestes tempos de convulsão sob múltiplas formas, por grupos terroristas interessados em estabelecer o caos.

* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Terça, 17 Maio 2011 22:04

A eliminação do terrorista nº 1

Escrito por

10482-morte-de-bin-laden-impulsiona-popularidade-de-obama-pesquisaPor Cesar Vanucci *

A justiça foi feita!”

(Presidente Barack Obama)

A eliminação de Osama Bin Laden, numa ação militar fulminante, provocou compreensível euforia cívica, com certo sabor de desforra, misturada com um sentimento de relativo alívio no seio da sociedade norte-americana. Afinal de contas, a caçada de muitos anos ao feroz dirigente da sinistra Al Qaeda foi encarada sempre como questão prioritária por parte das autoridades governamentais do mais poderoso país do mundo, no combate ao terrorismo.

Os pormenores da operação, executada com impressionante eficiência e precisão, liberados em meio às celebrações, deixaram uma pá de interrogações em suspenso. Enigmas que, mais pra frente, quem sabe, acabarão sendo devidamente decifrados.

Bin Laden foi executado sumariamente ou foi conduzido a prisão para interrogatórios? Seu corpo foi atirado ao mar? Como explicar o fato de elemento tão influente nas aguerridas hostes terroristas não dispor de qualquer segurança armada para fazer frente a um eventual ataque adversário? Sua segurança era garantida por militares paquistaneses, incompreensivelmente ausentes dos postos de vigilância à hora da chegada da força especial americana? O Paquistão, os militares desse “confiável aliado”, responsáveis pela guarda de respeitável arsenal atômico, qual será mesmo a deles nessa colossal encrenca? As perguntas se amontoam. Sem respostas satisfatórias, por enquanto.

O que se tem mesmo como certo, por agora, é que a morte do “inimigo público nº 1” não significará, inapelavelmente, o fim (tão almejado) das ações desencadeadas pelo terror. As falanges fundamentalistas radicais que atendiam à voz de comando de Bin Laden permanecem com as estruturas intactas. Aglutinam – tudo leva a crer – outras fanáticas lideranças. Pessoal firmemente propenso a dar continuidade a incendiários projetos.

Contam também para a consecução de seus pérfidos desígnios – e nisso aí se descortina cruel paradoxo - com a contribuição inestimável de insuspeitados parceiros. Um complexo político poderoso que um filósofo norueguês radicado nos EUA, Jon Elster, rotula de “força civilizadora da hipocrisia”. Que outra coisa não aponta senão os tortuosos caminhos (e descaminhos) geopolíticos percorridos, não é de hoje, em patético relacionamento com o mundo árabe, pode-se dizer islâmico, pelas potências ocidentais, os Estados Unidos em incontrastável primazia no cenário.

A localização do refúgio (com certeira certeza um dos numerosos refúgios) de Bin Laden naquela mansão da zona urbana de uma cidade populosa, a curta distância de importante base militar, a poucos quilômetros da sede do governo paquistanês, apresentado na estranha retórica oficial como poderoso e decisivo aliado norte-americano na ofensiva contra o terrorismo, é um dado revelador a mais (de eloquente contundência) de que o comportamento ocidental no relacionamento com o universo árabe anda clamando por urgente reconsideração.

O que é dito em comunicados, o que se alardeia na propaganda disseminada por uma mídia cúmplice, complacente, não se coaduna, jeito maneira, com a estarrecedora realidade dos fatos. A prevalência de interesses econômicos estratégicos (com destaque para a ganância pelo controle da exploração petrolífera) nos pactos políticos firmados com reconhecidos déspotas árabes, coloca-se em flagrante colisão com a apregoada disposição de incremento das práticas democráticas na região. Esse jogo de maquiavélicas conveniências, carregado de artimanhas, dissimulações, equívocos, faz-de-conta, não atende, está na cara, aos justos anseios e clamores das populações sob o jugo opressivo dos tiranos escalados em espúrios arranjos.

Anotem aí: a “primavera árabe”, que brotou espontaneamente nas ruas impulsionada pelo inconformismo da juventude e que ainda não rendeu os frutos democráticos almejados, poderá implacavelmente, imperdoavelmente sucumbir diante dessas marotas e incongruentes estratégias geopolíticas. O combate eficaz ao brutal e anacrônico complô terrorista, ninguém se iluda, há que passar indesviavelmente pela total reformulação do esquema de atuação, desastrado e hipócrita, levado a cabo pelas potências ocidentais no conturbado cenário árabe.

* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Segunda, 09 Maio 2011 16:18

Sabes quem era?

Escrito por

070314_irena_sendler_vlrg_8a_widecPor Cesar Vanucci*

Irena Sendler foi uma heroína.”
(Maria Esther Carvalho Pereira, empenhada
em divulgar a história do “Anjo do gueto de Varsóvia
”)

A mensagem chegada via Internet dizia: - Irena Sendler morreu. Sabes quem era? Nem sempre o Prêmio Nobel é atribuído a quem mais o merece.

Não, eu não sabia, até aquele momento, quem era Irena Sendler. Passei a saber por conta de informação repassada pela amiga Maria Esther Carvalho Pereira. Inteirei-me ai, consultando a Wikipedia – inesgotável manancial de episódios sugestivos da fascinante e tumultuada aventura humana nem sempre trazidos com o realce adequado ao conhecimento do grande público – de uma história heróica e comovente envolvendo uma polaca destemida, enfermeira e assistente social que se transformou, durante a Segunda Guerra Mundial, numa fabulosa ativista dos direitos humanos.

Passo adiante os elementos colhidos, sublinhando com admiração os aspectos edificantes dessa existência iluminada.

Irena Sendler (1910 - 2008), conhecida como "o anjo do Gueto de Varsóvia," foi uma ativista dos direitos humanos durante a Segunda Guerra Mundial. Suas ações contribuiram para salvar 2.500 crianças encarceradas no sinistro gueto de Varsóvia. Quando a Alemanha  invadiu a Polônia, Irena era enfermeira no Departamento Social Varsóvia. Em 1942, os nazistas criaram o tristemente célebre gueto. Irena, horrorizada pelas condições do lugar, ofereceu seus préstimos ao “Conselho para a Ajuda aos Judeus”.

Contou a respeito: "Consegui, para mim e minha companheira Irena Schultz, identificações do gabinete sanitário. Entre as tarefas assumidas estava a luta contra as doenças contagiosas. Mais tarde, consegui passes para outras colaboradoras. Como os alemães invasores tinham medo de que ocorresse uma epidemia de tifo, permitiam que polacos se movimentassem no recinto."

Quando Irena circulava pelo gueto, levava uma braçadeira com a estrela de David, em sinal de solidariedade aos judeus e para não chamar demasiadamente a atenção. Em contato com famílias judias, propôs-se a tentar transportar crianças para fora do gueto, sem poder oferecer-lhes garantia de êxito na arriscada empreitada. Enfrentou momentos difíceis. Procurando convencer os pais a que lhe entregassem os filhos, ouviu de muitos pergunta dolorosa: "Podes prometer-me que o meu filho viverá?". Não podia fazer tal promessa, até mesmo por não estar convencida de que conseguiria sair do gueto com os menores. A única certeza que tinha era de que as crianças morreriam se lá permanecessem.

Muitas mães mostravam-se reticentes na entrega das crianças, algo compreensível, mas que acabaria, deploravelmente, se tornando fatal. Não poucas vezes, quando Irena se dispunha a revisitar as famílias, insistindo para que mudassem de opinião, constatava que todos já haviam sido levados aos campos de exterminio.

Até a evacuação do gueto, verão de 1942, Irena conseguiu resgatar, numa proesa notável, mais de 2.500 crianças, usando vários expedientes audaciosos. Começou a recolhê-las em ambulâncias, “vítimas de tifo”. Valeu-se, depois, de todo o tipo de subterfúgio válido para escondê-las: sacos, cestos de lixo, caixas de ferramentas, cargas de mercadorias, sacas de batatas, caixões. Suas mãos corajosas faziam de qualquer instrumento uma via de fuga.

Irena pensava também nos tempos de paz. Esforçava-se por manter com vida as crianças. Mas almejava pudessem elas, algum dia, recuperar a identidade, suas histórias pessoais e reencontrar os familiares. Bolou um arquivo no qual registrava nomes e dados dos menores retirados do gueto.

Informados dessas ações, em outubro de 1943 os nazistas detiveram Irena Sendler. Na prisão de Pawiak foi brutalmente torturada. Num colchão de palha, encontrou uma pequena estampa de Jesus com a inscrição: “Jesus, em Vós confio”. Conservou-a até 1979, oferecendo-a ao Papa João Paulo II.

Ela era a única pessoa que sabia os nomes e as moradas das famílias que albergavam as crianças judias. Suportou o suplicio dos agentes da Gestapo, negando-se a passar informações que levassem à descoberta do paradeiro dos menores. Quebraram-lhe os ossos dos pés e das pernas, mas não conseguiram quebrar sua determinação. Foi condenada à morte. Enquanto aguardava a execução, um soldado alemão conduziu-a a  um "interrogatório adicional". Ao sair, gritou-lhe em polaco: "Corra!". No dia seguinte, Irena viu seu nome numa lista de polacos executados. Amigos salvaram-na subornando agentes alemães. Irena voltou a trabalhar com identidade falsa.

Em 1944, quando do Levante de Varsóvia, colocou suas listas em dois frascos de vidro, enterrando-os e se assegurando de que chegassem às mãos indicadas caso morresse. No final do conflito, desenterrou-os, entregando as anotações ao “Comitê de salvação dos judeus sobreviventes”. A maior parte das famílias das crianças já não mais estava entre nós.

De principio, as crianças que não tinham famílias adotivas foram cuidadas em orfanatos. Mais tarde, foram deslocadas para a Palestina. Os garotos só conheciam Irena pelo nome de código, "Jolanta". Quando sua fotografia saiu num jornal, depois de ser premiada pelas ações humanitárias praticadas, um homem procurou-a: "Lembro-me da sua cara. Foi você quem me tirou do gueto." Começou a receber chamadas e a ganhar merecido reconhecimento público.

Em 1965, deram-lhe a cidadania honorária de Israel. Em 2003, o presidente Aleksander Kwaśniewski concedeu-lhe a mais alta distinção civil da Polônia: a “Ordem da Águia Branca. Irena Sendler foi apontada também para o  Nobel da Paz pela Polônia. As autoridades de Oświęcim (Auschwitz) manifestaram apoio à candidatura, indicando Irena como um dos últimos heróis vivos de sua geração.

O prêmio, naquele ano, foi atribuido a Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos.

* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Quinta, 05 Maio 2011 20:52

Como os Estados Unidos criaram Bin Laden

Escrito por

dragao_escher250Por Antonio Martins*

A ordem formal para detonar o último esconderijo de Bin Laden foi dada por Barack Obama na manhã de sexta-feira, informou em 2/5 o New York Times. Antes de rumar para o Alabama, onde acompanhou o socorro às vítimas de tornados violentos, o presidente determinou que forças especiais da central de inteligência dos EUA – a CIA desencadeassem o ataque. Instalado numa casa em Abbottabad, a apenas 50 quilômetros da capital do Paquistão, o líder da Al Qaeda teria resistido ao comando que o localizou. Segundo fontes norte-americanas, foi ferido na cabeça e em seguida, estranhamente, sepultado no mar. As circunstâncias exatas da operação ainda são desconhecidas.

 Ironicamente, a CIA, encarregada de conduzir a operação que liquidou Bin Laden, está estreitamente associada ao surgimento do terrorista. Pouco se falará a respeito, nos próximos dias, mas tanto o homem de barbas longas e olhar calmo quanto a própria Al Qaeda foram conscientemente criados pelos Estados Unidos, no contexto da disputa contra a União Soviética, na “guerra fria”.

Os fatos estão disponíveis em algumas publicações alternativas norte-americanas, entre as quais destacam-se, o site Z-Net, a revista The Nation. Para esta escreve Robert Fisk, um repórter veterano e especializado em questões de Oriente Médio. Ele fala com a autoridade de quem se encontrou várias vezes, na condição de jornalista, com Bin Laden.

A última delas, conta, foi em 1997, nas montanhas do Afeganistão. Avistou o saudita na pose e nos trajes em que aparece costumeiramente na imprensa ocidental. Roupas afegãs tradicionais, refestelado em sua caverna, ar tranqüilo. Bin Laden aparentou um conhecimento muito superficial sobre a situação do mundo. Atirou-se sobre o jornal que Fisk tinha consigo. Deu a entender que a leitura lhe trazia muitas novidades, mas abandonou a atividade depois de meia hora. Preferiu falar sobre sua crença na proteção que lhe seria assegurada por Alá.

Relatou os muitos episódios em que, ao enfrentar os ocupantes soviéticos do Afeganistão, salvou-se porque os foguetes que foram atirados sobre seus esconderijos deixaram de explodir. Afirmou não temer a morte, porque “como muçulmano, acredito que, quando morremos em combate, vamos para o Paraíso”. Mas não deixou, nem por um instante, o abrigo em que se encontrava. Fisk registra: era “uma relíquia dos dias em que combateu os soviéticos: um nicho de oito metros de altura escavado na rocha, à prova até mesmo de ataques de mísseis”.

Em nome da vitória sobre os soviéticos, acordo com os extremistas

Num outro texto — um artigo analítico assinado por Dilip Hiro, intitulado “O custo da ‘vitória’ afegã” The Nation revive as circunstâncias da aliança que acabaria envolvendo Washington e Bin Laden. O cenário é o Afeganistão; a época, a última fase da Guerra Fria. Em 1979, um golpe militar havia levado ao poder grupos ligados à União Soviética (URSS). Anticomunista fervoroso, Zbigniew Brzezinsky, assessor de Segurança Nacional do então presidente Jimmy Carter, vislumbra uma oportunidade de passar da defesa ao ataque. Não quer apenas reinstalar em Kabul um governo aliado ao Ocidente. Pretende disseminar, entre as populações muçulmanas da URSS, um tipo de pensamento religioso capaz de incitá-las ao máximo contra o governo de Moscou. The Nation frisa: havia alternativas, mesmo para os que, como o assessor de Segurança Nacional, estavam empenhados em promover a Guerra Fria. Exitiam no Afeganistão “diversos grupos seculares e nacionalistas opostos aos soviéticos”. Ao invés de apoiá-los, no entanto, a Casa Branca parte para o que julga ser uma cartada genial. Impulsiona as organizações afegãs mais fundamentalistas, reunidas, desde 1983, na Aliança Islâmica do Mujahedin Afegão (IAAM, em inglês).

Os instrutores valorizam ao máximo a guerra santa (Jihad) contra Moscou. A Casa Branca quer matar dois coelhos com uma só paulada. A suposta defesa do islamismo contra os ateus soviéticos serve para consolidar, no Paquistão, o poder de Zia ul-Haq, fiel aliado do Ocidente. O terceiro elo da coalizão é a Arábia Saudita, onde outro governo pró-americano, embora muito rico, necessita de reforço ideológico. Ao longo de alguns anos, os príncipes sauditas serão convidados a “doar” 20 bilhões de dólares para a cruzada da IAAM. Através da CIA, os Estados Unidos comparecerão com mais US$ 20 bi. Os rios de dinheiro verde servirão para recrutar e formar guerrilheiros fanatizados e armá-los até os dentes. Fazem parte de seu arsenal mísseis anti-helicópteros que serão decisivos para enfrentar e vencer tanto o governo pró-URSS quanto as próprias tropas soviéticas, que, em favor de seu aliado, ocuparam o país em 1979.

Um milionário saudita adere a estranhos “lutadores da liberdade”

É esse clima de extremismo e intolerância suscitado por Washington que atrairá o saudita Osama bin Laden ao Afeganistão. No início dos anos 80, quando chegou ao país, ele era apenas o jovem herdeiro milionário de uma família de empresários do ramo da construção. Estava fascinado pela jihad patrocinada pelos EUA. Foi o primeiro saudita a aderir a ela, e levou consigo, ao longo do tempo, pelo menos 4 mil compatriotas. Tornou-se líder dos “voluntários” no Afeganistão. Aproximou-se dos dirigentes do IAAM, que, graças ao apoio recebido da Casa Branca, constituiriam anos depois o governo Taliban. Construiu abrigos reforçados para depósito de armas, participou de ações guerrilheiras. Jamais lhe faltou apoio moral do Ocidente.

O repórter Robert Fisk relata: “Estava no Afeganistão em 1980, quando Laden chegou. Ainda tenho minhas notas de reportagem daqueles dias. Elas recordam que os guerilheiros mujahedin queimavam escolas e cortavam as gargantas das professoras, porque o governo tinha decidido formar classes mistas, com meninos e meninas. O Times de Londres os chamava de ‘lutadores da liberdade’. Mais tarde, quando os mujahedins derrubaram (com um míssil inglês Blowpipe) um avião civil afegão com tripulação e 49 passageiros, o mesmo jornal os chamou de ‘rebeldes’. Estranhamente, a palavra ‘terroristas’ nunca foi usada para qualificá-los”

A partir de 1989, com o colapso do governo pró-soviético no Afeganistão e da própria União Soviética, os “voluntários” começaram a voltar a seus países. Ao retornarem ao mundo árabe, explica Dilip Hiro, formaram um grupo à parte, que se tornou conhecido como os “afegãos”. Tinham marcas muito características. A intolerância e o desprezo pela vida humana eram os mesmos cultivados sob comando e por determinação consciente dos Estados Unidos. Haviam adquirido, nos anos da luta anti-soviética, alta capacitação em práticas terroristas. Eram, contudo, menos inexperientes do ponto de vista político. Passaram a observar que países como a Arábia Saudita e o Egito eram governados por elites tão submissas aos Estados Unidos quanto era subordinado aos soviéticos o governo afegão contra o qual lutaram.

A cobra volta-se contra o ninho em que se criou

A guerra do Golfo os voltou de vez contra Washington. Encerrada a campanha contra o Iraque, em 1991, a Casa Branca descumpriu a promessa de retirar da Arábia Saudita — país onde estão as cidades sagradas de Meca e Medina — as bases militares e os milhares de soldados mobilizados contra Saddan Hussein. Bin Laden e seus liderados lembraram que isso contraria a Sharia , lei islâmica. Em 1993, o rei Fahd, talvez o mais fiel aliado dos EUA no mundo árabe, ainda cortejou o milionário, chegando a ponto de nomeá-lo para um Conselho Consultivo real. Em 94, depois de novos desentendimentos, Bin Laden foi expulso da Arábia Saudita. Em 96, declarou uma jihad contra a presença norte-americana no país. Afirmou então que “expulsar o ocupante americano é o mais importante dever dos muçulmanos, depois do dever da crença em Deus”.

Dois anos depois, uma declaração conjunta assinada por uma frente de organizações fundamentalistas formada por Bin Laden exortava: “A determinação de matar os americanos e seus aliados — civis e militares — é um dever individual para todo muçulmano que possa fazê-lo em qualquer país onde isso for possível, com objetivo de libertar de suas garras a Mesquita de Al-Aqsa [em Jerusalém] e a Mesquita Sagrada [Meca]. Isso está em consonância com as palavras de Deus todo poderoso”.

Em seu relato para The Nation, Robert Fisk lembra que Bin Laden não é o primeiro aliado com quem a Casa Branca se relaciona intimamente durante certo tempo, para mais tarde, quando já não necessita de seus serviços, acusá-lo — com ou sem motivos — de terrorista. Ele cita os casos de Saddan Hussein, visto como herói quando atacou com armas químicas o Irã; ou de Iasser Arafat, considerado “super-terrorista” quando liderava a luta pela libertação da Palestina e mais tarde “respeitável homem de Estado”, ao firmar com Israel acordos de paz jamais cumpridos.

Bastaria olhar para a América Latina para encontrar outros múltiplos exemplos de relações privilegiadas entre Washington e terroristas, praticantes de golpes de Estado, governantes tirânicos, corruptos, torturadores. Num outro sentido, menos direto, porém mais ameaçador, a aliança com o terror está, aliás, sendo reeditada neste exato momento. Bin Laden usa a opressão dos EUA e de Israel contra o mundo árabe como pretexto para justificar sua intolerância e atos criminosos. Todas as declarações dos governantes norte-americanos feitas após os atentados de 11 de setembro indicam que a Casa Branca pretendem apoiar-se no risco real do terror para desencadear uma ofensiva militar e política que, se não for barrada, transformará o planeta num local muito mais violento, antidemocrático e desigual. Talvez por isso, as sociedades tenham o direito de dizer que, contra a barbárie dos extremistas e do Império, a única saída é a construção de um mundo novo.

* As partes essenciais deste texto foram escritas em setembro de 2001 e publicadas no site Planeta Porto Alegre, cujos arquivos – recentemente resgatados pelo webmaster e midiativista Rafael Banto — estão disponíveis aqui.

floresta_dinheiroPor Francisco Caporal

Está cada vez mais evidente que o modelo de agricultura implantado sob a lógica da revolução verde é insustentável ambientalmente por ser voraz tanto do ponto de vista do consumo de matéria e energia, como, sobretudo, pela sua inerente capacidade de destruição da biodiversidade. Não é por acaso que a devastação dos biomas brasileiros está diretamente associada ao avanço do modelo agrícola agroquímico e de monocultivos do agronegócio em direção ao que é simplesmente considerado como “fronteira agrícola”.

Embora a destruição dos nossos biomas tenha iniciado com a colonização, em 1500, não restam dúvidas que foi nas décadas da chamada modernização da agricultura, a partir dos anos 60, quando vimos vir a baixo a maior parte das áreas destruídas de todos os biomas do Brasil. Os últimos dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente, por mais que se tente amenizar, são alarmantes.  A destruição continua da amazônia aos pampas sulinos.

O pampa gaúcho, localizado no estado do Rio Grande do Sul (estado vizinho da Argentina e Uruguay),já perdeu 54% de sua área de cobertura original, especialmente devido ao avanço da soja e da pecuária e, mais recentemente, pelo crescimento das enormes áreas ocupadas pelas plantações de árvores para celulose.

O Cerrado brasileiro, com uma área total de 2.039.386 Km², já perdeu 48% de sua cobertura original. A destruição do Cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins e oeste da Bahia é uma demonstração clara da capacidade de danos dos monocultivos de soja. Somente entre 2002 e 2008 foram desmatados cerca de 85 mil km² do Cerrado. A Mata Atlântica já perdeu 75,88% de sua cobertura florestal original. Aqui, é a cana-de-açúcar o monocultivo principal. Entretanto, o etanol continua sendo propalado como fonte de energia limpa.

O Pantanal, uma enorme reserva de biodiversidade, com área de 151.131 Km² perdeu em seis anos, de 2002 a 2008, cerca de 4.279 Km². Isto é 0,47% ou 713 Km² por ano. Na Amazônia, embora se faça muita propaganda da redução do desmatamento nos últimos anos, há estados em que o desmatamento vem aumentando de forma sustentada o que mostra uma tendência de continuidade do problema. No estado do Amazonas houve um crescimento de 91% entre os dois últimos informes.

Do mesmo modo, nos estados de Rondônia e Maranhão há um aumento continuado do desmatamento, embora em menos intensidade. Diante deste quadro desolador, no início de março o ministro da agricultura do Brasil, em uma entrevista, teve a coragem de dizer que o avanço da agricultura em áreas do Cerrado “não teria impacto ambiental nenhum”, de onde se depreende que, para o ministro, ocupar áreas naturais não gera nenhum impacto ambiental e, portanto, podemos seguir com as políticas de produção e exportação de commodities, sem drama de consciência. Mas o pior está por vir.

Anuncia-se que a Rio+20 terá seu foco na noção de “economia verde” e na institucionalidade para o desenvolvimento sustentável, algo que a trajetória ecotecnocrática vigente deste Estocolmo já mostrou estar falido. Portanto, não temos nada a comemorar no ano internacional de bosques. Só mesmo os tecnocratas desenvolvimentistas estarão festejando. Deveríamos perguntar a eles: Como vamos salvar as futuras gerações? Começo a temer por meus netos.

*Francisco Roberto Caporal é engenheiro agrônomo, doutor pelo Programa de Agroecología, Campesinado e História, da Universidad de Córdoba-Espanha, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco- Brasil, presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (Email: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ).

 

Por Fernanda B. Müller, do Instituto CarbonoBrasil/Ecossystem MarketPlace/Mission Markets

Os mercados de biodiversidade e de carbono, no âmbito da redução das emissões por desmatamento e degradação (REDD +), precisam de muitas definições para aportar segurança na hora da tomada de decisão por parte de investidores. Esta foi uma das conclusões de um seminário online realizado no início de abril pelo Ecossystem MarketPlace e Mission Markets, no qual especialistas discutiram a necessidade de clareza dos conceitos para destravar investimentos voluntários na conservação da biodiversidade.

No caso do REDD +, discussões internacionais apoiadas pelas Nações Unidas estão avançando e já apontam para uma definição mais segura. A grande diferença dos mercados de biodiversidade para o REDD + é que no primeiro o foco é realmente a biodiversidade e não o carbono.

Durante a 10º COP da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) em Nagoya, Japão, 193 governos prometeram cortar pela metade a perda de diversidade biológica até 2020.

A IUCN estima que US$ 300 bilhões/ano são necessários para alcançar esta meta, porém apenas cerca de US$ 37 bilhões está sendo direcionado para a conservação, principalmente de governos e organizações multilaterais cujos cofres estão entrando em crise. Fontes alternativas são urgentemente necessárias.

Atraindo investidores

Oferecendo uma visão de investidor, Ricardo Bayon, da EKO Asset Management Partners, pontuou que para tornar um investimento atrativo, é preciso conhecer a taxa de retorno e a demanda, além de existir uma certa liquidez, o que se torna possível nos mercados compulsórios, como o esquema europeu de comércio de emissões ou os créditos de biodiversidade nos Estados Unidos.

“(O investidor) pode comprar os créditos no início do projeto, investir na sua criação e depois vender mais caro”, explicou Bayon.

Segundo ele, grandes investidores têm “caixas predefinidas” e que no caso dos mercados de biodiversidade, é muito difícil de ter uma compreensão do seu significado, portanto, será preciso muito esforço na “educação” para isto acontecer.

Quanto aos mercados ‘pré-compliance’ (onde existem planos para a introdução de um mercado compulsório com metas a serem cumpridas), Bayon acredita que eles são relacionados principalmente aos mercados de carbono. No caso da biodiversidade, ele percebe que as empresas agem mais no sentido de reduzir voluntariamente a sua ‘pegada ecológica’ do que em antecipação a algum esquema compulsório.

Na prática

Algumas iniciativas pontuais envolvendo mercados de biodiversidade existem ao redor do mundo. O caso do mecanismo de Biodiversity Banking nos Estados Unidos, envolvendo as espécies listadas no ‘Endagered Species Act’, talvez seja o exemplo mais desenvolvido de um mercado para a mitigação da perda de biodiversidade.

Um caso notório que explica o funcionamento do ‘Biodiversity Banking’ é o da mosca das Areias de Delhi, a única espécie de mosca listada como ameaçada de extinção nos Estados Unidos. Pela sua função de polinizadora, o estado da Califórnia determinou que o habitat deste minúsculo animal custa entre US$ 100 mil e US$ 150 mil/acre, montante utilizado para proteger ou criar o habitat da mesma mosca em outro local.

Uma empresa da cidade de Colton comprou áreas de dunas, habitat das moscas, e agora vende créditos de conservação para outras empresas que precisam ‘compensar’ suas atividades.

Apenas nos Estados Unidos, existem mais de 70 bancos de mitigação de espécies e até US$ 370 milhões em transações ao ano neste sentido. Recentemente, a Malásia anunciou um esquema para criação de um banco para a conservação do orangotango.

Esquemas similares de Biodiversity Banking existem também na Australia e outro está sendo desenvolvido no Reino Unido.

Este tipo de mercado exige forte supervisão do governo, sistemas jurídicos efetivos, aplicação das regras e instituições financeiras robustas. Para Bayon, estas condições apenas são atendidas em países desenvolvidos, o que tornaria difícil a sua aplicação nas partes mais biodiversas do mundo.

Também na linha da compensação por danos à biodiversidade, a ONG de Washington Forest Trends criou o Business and Biodiversity Offsets Program (BBOP) em parceria com mais de 50 empresas, governos e instituições financeiras de diversos países para compreender quando, como e onde a compensação voluntária de biodiversidade deve ocorrer.

GDI

Outro exemplo é a Iniciativa de Desenvolvimento Verde (Green Development Initiative – GDI), que está sendo elaborada desde 2009 visando construir um mecanismo internacional de mercado para a biodiversidade baseado em um sistema de certificação para manejo da terra de acordo com a CDB. A meta é lançar a primeira fase do GDI em 2012.

Tal sistema possibilitaria o reconhecimento de esforços individuais para a conservação da biodiversidade e para a disseminação do uso sustentável e equitável dos recursos biológicos.

Isto seria feito através do estímulo ao setor privado para investir na biodiversidade, porém não na forma de uma ‘compensação’ (‘offset’) como ocorre no ‘Biodiversity Banking’, explicou Frank Vorhies da Earthmind, uma organização sem fins lucrativo que trabalha na criação do GDI.

Adaptação

Em 2008, a CDB concordou em “aprimorar ações e cooperação para melhorar o engajamento da comunidade empresarial” e “avançar mecanismos financeiros novos e inovadores em apoio à estratégia para mobilização de recursos”.

Para se adaptar a este novo cenário, onde além das instituições internacionais os próprios consumidores passam a exigir das empresas investimentos voluntários ou não no respeito à biodiversidade, as empresas terão que se preparar.

As pessoas não estão dispostas a pagar muito mais por produtos com qualidade ambiental, portanto a mensagem atual de corporações como o Wall Mart e Tesco é que os seus fornecedores precisam “atender aos padrões, mas sem cobrar mais por isso”, ressaltou Bayon.

O site SpeciesBanking.com, do Ecosystem Marketplace, apresenta exemplos de políticas e programas que conduzem investimentos privados para a preservação e restauração da biodiversidade.

A empresa Mission Markets, desenvolvedora de infra-estrutura para mercados ambientais e sociais, criou a plataforma Earth, um ambiente de mercado eletrônico que agrega múltiplos tipos de créditos ambientais. O site visa disseminar informações sobre projetos e permitir que compradores e vendedores se reúnam na busca pela transparência e informações neste cenário emergente.

(Instituto Carbono Brasil)

Quarta, 20 Abril 2011 20:12

A Mensagem da Cruz

Escrito por

cruz Por José de Paiva Netto*

Páscoa, comovente demonstração de que os mortos não morrem. Não obstante crucificado, na Sua Ressurreição, Jesus, o Cristo Ecumênico, proclamou aos quatro cantos do mundo que a Vida é eterna. E essa indelével Mensagem da Cruz nos faz buscar sempre renovadas forças na Prece.

Certa vez, numa de minhas orações a Deus, na esperança filial de merecer Sua piedosa atenção, lembrei-me do grande esforço empreendido por Alziro Zarur (1914-1979) pela vitória da Boa Vontade; do bom senso de Melanchton (1497-1560) e do notável pontificado de João XXIII (1881-1963). Ao elevar minha Alma ao Pai Celeste, senti Sua compassiva influência vibrando em meu Espírito. E não há nesta afirmativa qualquer jactância, porque Jesus ensina que “o Reino de Deus está dentro de nós”.

A Prece

Ó Deus, que sois o meu refúgio, a Vós, outra vez, ergo o meu pensamento e encontro resposta aos meus propósitos.

Longe de mim as cassandras do desânimo, que proclamam um Juízo Final sem remissão, quando sois Vós — em tudo — o Princípio Eterno da permanência pujante de vida. De Vós não escuto o abismo; todavia, a redenção.

Creio no Amor Universal, que conduz à sobrevivência o gênero humano, que é teimoso em subsistir, apesar das muitas ciladas que lhe são dispostas no caminho.

Esta é a minha Fé Realizante, que vive em Paz com as outras; o meu ideal ecumênico de Boa Vontade, que se esforça pela confraternização de todas as nações, por serem formadas por criaturas Vossas, ó Criador Único de Céus e Terra! Sois a Fraternidade Suprema, o abrigo dos corações. (...) Achei-me a mim porque me identifiquei no Vosso Amor. Sois o auxílio conclusivo à minha Alma.

Sinto o meu ser transbordar de alegria. Em Vosso Espírito, reconheço-me como irmão dos meus irmãos em humanidade. Nesse Éden, que é o Vosso Sublime Afeto, não me vejo como expatriado, abatido pelas procelas do desalento. Enfim, me encontrei, ó Deus!, porque Vos encontrei.

(...) No Vosso Divino Seio, achei guarida; sob Vosso Amor, meu seguro teto; no Vosso Colo, descanso para a Alma.

Graças Vos dou, Pai Magnânimo, por me ouvirdes!

Sois integralmente Amor; portanto, Caridade, Mãe e Pai da verdadeira Justiça.

Em Vós habita, com fartura, a genialidade pela qual tantos demandam, pois dela o planeta carece: a Vossa Majestosa Luz, que desce a nós indistintamente, mesmo que não o percebamos.

Confiante em Vosso Critério Sobrenatural, entrego-Vos meu destino, porque a minha segurança de filho está na Vossa Sabedoria de Pai!

Que assim seja!

Terça, 19 Abril 2011 16:55

A doença chamada homem

Escrito por

deus_04Por Leonardo Boff

Esta frase é de F. Nietzsche e quer dizer: o ser humano é um ser paradoxal, são e doente: nele vivem o santo e o assassino. Bioantropólogos, cosmólogos e outros afirmam: o ser humano é, ao mesmo tempo, sapiente e demente, anjo e demônio, dia-bólico e sim-bólico. Freud dirá que nele vigoram dois instintos básicos: um de vida que ama e enriquece a vida e outro de morte que busca a destruição e deseja matar. Importa enfatizar: nele coexistem simultaneamente as duas forças. Por isso, nossa existência não é simples mas complexa e dramática. Ora predomina a vontade de viver e então tudo irradia e cresce. Noutro momento, ganha a partida a vontade de matar e então irrompem violências e crimes como aquele que ocorreu recentemente.

Podemos superar esta dilaceração no humano? Foi a pergunta que A. Einstein colocou numa carta de 30 de julho de 1932 a S. Freud: “Existe a possibilidade de dirigir a evolução psíquica a ponto de tornar os seres humanos mais capazes de resistir à psicose do ódio e da destruição”? Freud respondeu realisticamente: “Não existe a esperança de suprimir de modo direto a agressividade humana. O que podemos é percorrer vias indiretas, reforçando o princípio de vida (Eros) contra o princípio de morte (Thanatos). E termina com uma frase resignada: “esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”. Será este o nosso destino?

Por que escrevo isso tudo? É em razão do tresloucado que no dia 5 abril numa escola de um bairro do Rio de Janeiro matou à bala 12 inocentes estudantes entre 13-15 anos e deixou 12 feridos. Já se fizeram um sem número de análises, foram sugeridas inúmeras medidas como a da restrição da venda de armas, de montar esquemas de segurança policial em cada escola e outras. Tudo isso tem seu sentido. Mas não se vai ao fundo da questão. A dimensão assassina, sejamos concretos e humildes, habita em cada um de nós. Temos instintos de agredir e de matar. É da condição humana, pouco importam as interpretações que lhe dermos. A sublimação e a negação desta anti-realidade não nos ajuda. Importa assumi-la e buscar formas de mantê-la sob controle e impedir que inunde a consciência, recalque o instinto de vida e assuma as rédeas da situação. Freud bem sugeria: tudo o que faz criar laços emotivos entre os seres humanos, tudo o que civiliza, toda a educação, toda arte e toda competição pelo melhor, trabalha contra a agressão e a morte.

O crime perpetrado na escola é horripilante. Nós cristãos conhecemos a matança dos inocentes ordenada por Herodes. De medo que Jesus, recém-nascido, mais tarde iria lhe arrebatar o poder, mandou matar todas as crianças nas redondezas de Belém. E os textos sagrados trazem expressões das mais comovedoras: “Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada porque os perdeu” (Mt 2,18). Algo parecido ocorreu com os familiares das vítimas.

Esse fato criminoso não está isolado de nossa sociedade. Esta não tem violência. Pior. Está montada sobre estruturas permanentes de violência. Aqui mais valem os privilégios que os direitos. Marcio Pochmann, em seu Atlas Social do Brasil, nos traz dados estarrecedores: 1% da população (cerca de 5 mil famílias) controlam 48% do PIB e 1% dos grandes proprietários detém 46% de todas as terras. Pode-se construir uma sociedade de paz sobre semelhante violência social? Estes são aqueles que abominam falar de reforma agrária e de modificações no Código Florestal. Mais valem seus privilégios que os direitos da vida.

O fato é que em pessoas perturbadas psicologicamente, a dimensão de morte, por mil razões subjacentes, pode aflorar e dominar a personalidade. Não perde a razão. Usa-a a serviço de uma emoção distorcida. O fato mais trágico, estudado minuciosamente por Erich Fromm (Anatomia da destrutividade humana, 1975) foi o de Adolf Hittler. Desde jovem foi tomado pelo instinto de morte. No final da guerra, ao constatar a derrota, pede ao povo que destrua tudo, envenene as águas, queime os solos, liquide os animais, derrube os monumentos, se mate como raça e destrua o mundo. Efetivamente ele se matou e todo os seus seguidores próximos. Era o império do princípio de morte.

Cabe a Deus julgar a subjetividade do assassino da escola de estudantes. A nós cabe condenar o que é objetivo, o crime de gravíssima perversidade e saber localizá-lo no âmbito da condição humana. E usar todas as estratégias positivas para enfrentar o Trabalho do Negativo e compreender os mecanismos que nos podem subjugar. Não conheço outra estratégia melhor que buscar uma sociedade justa, na qual o direito, o respeito, a cooperação e a educação e saúde para todos sejam garantidos. E o método nos foi apontado por Francisco de Assis em sua famosa oração: levar amor onde reinar o ódio, o perdão onde houver ofensa, a esperança onde grassar o desespero e a luz onde dominar as trevas. A vida cura a vida e o amor supera em nós o ódio que mata.

Publicado no site da Adital*

 

twitter

Apoio..................................................

mercado_etico
ive
logotipo-brahma-kumaris