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Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

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1214-300x297Por Leonardo Sakamoto*

Criança branca pintada de índio em escola de classe média alta é hype. Criança índia desterrada esmolando no semáforo é kitsch. Índio só é fofo se vem embalado para consumo.

Hoje, 19 de abril, é Dia do Índio. Data boa para lembrar qual sociedade é, de fato, composta por selvagens. Vamos celebrar:

Dia do Índio se tornar escravo em fazenda de cana no Mato Grosso do Sul.

Dia do Índio ser convencido que precisa dar sua cota de sacrifício pelo PAC e não questionar quando chega a nota de despejo em nome de hidrelétricas com estudo de impacto ambiental meia-boca.

Dia do Índio armar um barraco de lona na beira da estrada porque foi expulso de sua terra por um grileiro.

Dia do Índio ver seus filhos desnutridos passarem fome porque a área em que seu povo produziria alimentos foi entregue a um fazendeiro amigo do rei.

Dia do Índio ser queimado em banco de ponto de ônibus porque foi confundido com um mendigo.

Dia do Índio ser chamado de indolente.

Dia do Índio ter ignorado o direito sobre seu território porque não produz para exportação.

Dia do Índio ter negado o corpo de filhos assassinados em conflitos pela terra porque o Estado não faz seu trabalho.

Dia do Índio se tornar exposição no Zoológico da maior cidade do país como se fosse bichinho.

Dia do Índio ser retratado como praga em outdoor no Sul da Bahia por atravancar o progresso

Dia do Índio tomar porrada na Bolívia, no Paraguai, na Colômbia, no Peru, no Equador, no Chile, na Argentina, na Venezuela porque é índio.

Dia do Índio ser motivo de medo de atriz de TV, que acha que um direito de propriedade fraudulento está acima de qualquer coisa.

Dia do Índio entender que a invasão de nossas fronteiras é iminente e, por isso, ele precisa deixar suas terras para dar lugar a fazendas.

Dia do Índio sofrer preconceito por seus olhos amendoados, sua pele morena, sua cultura, suas crenças e tradições.

Enfim, Dia do Índio se lembrar quem manda e quem obedece e parar com esses protestos idiotas que pipocam aqui e ali. Ou será que nós, os homens de bem, vamos precisar de outros 511 anos para catequisar e amansar esse povo?

* Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Já foi professor de jornalismo na USP e, hoje, ministra aulas na pós-graduação da PUC-SP. Trabalhou em diversos veículos de comunicação, cobrindo os problemas sociais brasileiros. É coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.

**Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.

Sexta, 15 Abril 2011 22:15

Um cara fabuloso

Escrito por

jose_alencarPor Cesar Vanucci *

Se o Lula é o cara eu, então, sou o vice-cara.”

(Tirada bem humorada de José Alencar,

o vice do povo, diante do registro afetuoso

de Barack Obama ao Presidente Lula)

Deu-se com José Alencar coisa parecida com a de personagem ternamente retratado em magistral poema de Manuel Bandeira. Na chegada ao céu, São Pedro, o próprio, recebeu-o. Mandando abrir a porta, foi logo dizendo: - Vamos dispensar as formalidades. Trate de ir entrando.

Nada a dizer, a respeito do extraordinário ser humano que acaba de “partir primeiro” (lembrando verso de outro poeta, Camões), que já não tenha sido falado. Nas ruas e nos lares. Nas tribunas e púlpitos. Nas manchetes dos jornais. Nas cenas da televisão e nos microfones das estações de rádio. Na imensidão oceânica da navegação solidária dos internautas.

Colossal coral humano deu voz, reverentemente, a mais genuína das emoções. Exaltou por todas as formas de expressão conhecidas os dons invulgares do Vice que por mais tempo ocupou, na história brasileira, a Presidência da República. Louvou sua sabedoria e poder empreendedor. Sua conduta impecável do ponto de vista ético. A inteligência e criatividade assomadas em tudo quanto botou a mão. A crença fervorosa na democracia e o sentimento nacionalista que lhe impregnaram a vida. Sua sensibilidade social acurada na lida cotidiana e sua esperança inesgotável, brotada de impulso generoso da alma. A fé em valores transcendentes, que asseguraram pelo tempo inteiro da peregrinação pela pátria terrena a reconfortante certeza, como propõe outro poeta mais (Raul de Leone), de “que o sentido da vida e o seu arcano é a aspiração de ser divino no prazer de ser humano.”

Testemunha ocular, até por dever de ofício, de muitos acontecimentos relevantes destes nossos efervescentes tempos (na verdade, trinta e cinco anos já completados por duas vezes consecutivas), carrego a certeira convicção de que as manifestações de carinho da gente do povo, no adeus ao guerreiro JA, só podem encontrar equiparação nas despedidas dadas pelas multidões, observada a ordem cronológica, a Vargas, Juscelino e Tancredo. Basta tal constatação para se aquilatar a magnitude do real papel desempenhado por Alencar na cena pública brasileira. O sentimento das ruas não costuma falhar no julgamento de suas lideranças.

Desfrutei do privilégio de manter convivência próxima a Alencar por um bocado de tempo na Federação das Indústrias de Minas Gerais. Eu estava Superintendente Geral do Sistema Fiemg, cargo exercido, modéstia às favas, com zelo e dedicação, por três décadas, ao longo das gestões dos saudosos Fábio de Araújo Motta, Nansen Araujo e, dele próprio, JA. Sua militância como dirigente classista, principiada em Ubá, onde presidiu a Associação Comercial, estendeu-se em Belo Horizonte, num primeiro momento, ao âmbito da Associação Comercial de Minas.

De sua ativa intervenção nos trabalhos da prestigiosa entidade tomava conhecimento amiúde por informações trazidas, subretudo, por Luiz de Paula Ferreira, seu leal parceiro em grandiosas empreitadas empresariais, e José Costa, saudosa e legendária figura da indústria da comunicação. Um determinado dia, Luiz de Paula, vice na Fiemg, anunciou aos demais dirigentes da casa a decisão tomada por Alencar de passar a concentrar prioritariamente suas atividades classistas na instituição representativa da indústria. Como não poderia deixar de ser, receberam-no ali com muita euforia. Ele já despontava, àquela altura, como o maior empresário do ramo têxtil no país. Galgara degrau importante na trajetória de líder patronal ao assumir a presidência do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado de Minas Gerais. 

No Sistema Fiemg, teve atuação fulgurante. Começou como diretor, membro e depois presidente do Conselho de Estudos Econômicos, vice-presidente e, finalmente, entre 1988 e 1994, presidente. Presidente que deixou o legado de obra incomparável, do ponto de vista de uma política empresarial centrada no desenvolvimento econômico e das ações sociais, culturais e educacionais atribuídas ao Sesi e ao Senai. O impacto das realizações foi de tal ordem que, a partir de certo momento aquele cidadão de forte personalidade e irradiante simpatia à testa da Fiemg, já admirado em muitos setores pela reluzente performance como arrojado empreendedor industrial, passou a atrair de modo todo especial a atenção da opinião pública e dos partidos políticos.

Obra social estupenda

Este título é dele.”

(Presidente Lula, ao ser homenageado em Coimbra

com o título de “doutor honoris causa”,

 referindo-se ao seu leal companheiro de jornada, José Alencar)

A passagem de José Alencar pelo Sistema Fiemg fez história. Deixou marcas cintilantes. O traquejado dirigente soube dar prosseguimento, de forma magistral, ao excelente trabalho de seus ilustres antecessores, Fábio Motta e Nansen Araujo. Expandiu consideravelmente os limites de atuação da entidade patronal propriamente dita e de seus braços social e educacional, Sesi, Senai e IEL (Instituto Euvaldo Lodi), sem falar na Casfam (Caixa de Assistência e Previdência Fábio de Araújo Motta), fundo de pensão instituído com avançadas propostas de implantação de planos na esfera previdenciária.

Com o arrojo que constituia traço peculiar de sua personalidade e o talento nato que possuía e que soube aplicar nas mais variadas contingências do trepidante jogo da vida, Alencar fez parte de diferentes conselhos da Fiemg. Nesses órgãos eram debatidas momentosas questões empresariais, econômicas e sociais. Colocava ardor e convicção nas palavras e atitudes.

Trabalhador infatigável, punha permanentemente à mostra os saberes acumulados nas experiências de uma vida pessoal que teve origem bastante humilde. As intervenções no plenário e os pareceres que levava à apreciação de seus pares eram acompanhados com muito interesse. A célebre luta, que tanto empenho se lhe exigiu, pela redução dos juros começou a ganhar visibilidade midiática lá na Casa da Indústria. Ao cobrar a queda das taxas, demonstrava com dados irrefutáveis os danos que a desastrosa política dos juros acarretava para as atividades produtivas do país.

Ele já exercia o cargo de vice-presidente quando Nansen Araújo, outro vice, assumiu o comando da entidade, completando o mandato do lendário Fábio Motta, que acabara de transpor “a curva da estrada” mencionada por Fernando Pessoa no poema “Cancioneiro”. Nansen outorgou-lhe, paulatinamente, numa prova de confiança, as prerrogativas que ele próprio, na vice-presidência de Fábio, desfrutara comportando-se como uma espécie de 1º vice-presidente, função não prevista no estatuto. Nos bastidores da organização patronal pipocavam articulações com vistas à futura sucessão. Vários próceres influentes no cenário empresarial, vinculados aos sindicatos filiados, propunham seus nomes ou tinham os nomes propostos para figurar em eventuais composições de chapa.

A tendência amplamente majoritária do colégio de eleitores, a partir de determinada hora, foi a de (re)eleger Nansen como presidente, com o nome de Alencar em primeiro na lista dos vice. Pode-se afirmar, sem erro, que ele atuou praticamente como 1º vice, com participação realçante nas decisões importantes, por mais de 5 anos. Nos dois mandatos posteriores, somando seis anos, ele se tornou finalmente, por força de uma liderança insofismável, presidente efetivo. Anos depois, Senador da República, a Fiemg conferiu-lhe merecidamente o título de presidente de honra, primeiro e único de sua história.

O que Alencar aprontou à frente do Sistema Fiemg pode ser classificado, sem exagero, de estupendo. Tocou o mais prodigioso conjunto de empreitadas sociais, culturais, assistenciais, educacionais, recreativas voltadas para a classe operária - e, por acréscimo, a parcelas expressivas de excluídos sociais -, jamais registrado na esfera de atuação das entidades patronais da indústria em qualquer parte do território brasileiro. Espalhou canteiros de obras, em proporção chinesa, por todas as Minas Gerais. Plantou centros de atividades, clínicas odontológicas, praças de esporte, escolas profissionalizantes, teatros, cursos, bibliotecas e por aí vai.

Foi o comandante-em-chefe, presente e participativo, no febricitante teatro das operações de um exército de colaboradores, entusiasmados com os seus exemplos diuturnos, estabelecendo com cada qual um liame vigoroso de cordialidade. Liderou programas que se tornaram antológicos como iniciativas consagradas ao bem estar coletivo. Caso sem tirar nem por da famosa “Ação Global”, bolada, batizada, implementada pelo Sesiminas e disseminada, com importantes parcerias, por todo o território nacional e que é reconhecida como modelo matricial de serviços sociais levados a comunidades carentes.

* É jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ), eascreve para o Blog semanalmente e mantém o Blog do Vanucci (http://vanucci-jornaldovanucci.blogspot.com). 

Segunda, 11 Abril 2011 15:07

Massacre no Rio

Escrito por

Por Paiva Netto*

Estamos todos consternados com o cruel assassinato de 12 crianças (10 meninas e 2 meninos, com idades entre 12 e 15 anos), da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro/RJ, na quinta-feira, 7/4. Outras foram feridas, algumas gravemente. (Até o fechamento desta coluna, nenhuma morte mais ocorrera entre os jovenzinhos hospitalizados.) O causador dessa tragédia, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, que, segundo a Polícia Militar, era ex-aluno, suicidou-se após o atentado.

As crianças e os jovens merecem total proteção. A escola é um segundo lar para eles, espaço que deveria ser visto como sagrado, onde o bullying e outros problemas não mais poderiam existir.

A minha solidariedade aos familiares das vítimas e aos feridos nesse lamentável drama. Um episódio que requer também apoio psicológico aos estudantes, professores e funcionários dessa unidade de ensino. As escolas, em geral, igualmente precisarão de maior preparo para prevenir eventos como esse.

Garantia urgente

Diante do ocorrido, muitas questões serão revisitadas e levantadas acerca da barbárie que segue crescendo. Porém, as análises serão realmente funcionais, isto é, auxiliarão melhor os poderes constituídos e a sociedade civil, se observarmos pela perspectiva de que a violência está fugindo ao nosso controle. Na atualidade, se faz mais presente em atos preconceituosos contra minorias, contra gays, negros, mulheres, no esporte, nas religiões, no trânsito, no seio familiar; enfim, no íntimo de cada criatura. Já não são mais atos isolados.

Em “Somos todos Profetas”, publicado pela Editora Elevação (1999), eu já comentava que atrocidades poderiam vir a ser uma constante em nossas vidas. Basta abrir os jornais, as revistas, ver televisão, ouvir rádio, sair às ruas. É o reino da brutalidade a que estamos assistindo a todo momento, em que ninguém tem mais garantia. Tantos se cercam de grades fortes, mas os assaltos prosseguem, os assassinatos multiplicam-se. Tudo continua incerto. Por quê?! Porque não adiantam altos muros pretensamente intransponíveis para nos proteger da terrível coação que vem de fora, visto que o perigo pode encontrar-se dentro de nossas paredes, porquanto está havendo uma implosão dos lares com a desagregação da família, que, com urgência, precisa de amparo espiritual. Agora, como nunca, é flagrante a veracidade desta afirmativa de Alziro Zarur (1914-1979), sobre a qual devemos constantemente refletir: “Não há segurança fora de Deus”.

Suplantar a dor

Aos que porventura acreditem que não seja possível modificar esse status quo, peço que não duvidem de nossa capacidade, como Seres Humanos e Espirituais, de superar o mal, tido hoje por alguns como invencível. Temos muito mais aptidão para sobrepujar problemas, por maiores que os julguemos. Diante disso, se as dificuldades são imensas, superiores serão os nossos talentos para suplantá-las. Se é árduo erigirmos a verdadeira Sociedade Solidária Altruística Ecumênica, então comecemos ontem!

 

*José de Paiva Netto é diretor presidente da LBV.

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 homofobia

 

Por Rildo Véras Martins*

" Bola na trave não altera o placar
Bola na área sem ninguém pra cabecear
Bola na rede pra fazer o gol
Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?"

(Samuel Rosa e Nando Reis)

No século XXI a humanidade tem várias conquistas a celebrar:  a internet diminuiu distâncias aproximando culturas, o homem viajou até a lua, desbravou oceanos chegando aos recantos mais longínquos, a medicina tem avançado consideravelmente, pela primeira vez uma mulher é eleita para conduzir os destinos do nosso país. Não obstante todas as conquistas, no campo da sexualidade humana continuamos vivendo sob os olhos da “Santa Inquisição” (que de santa mesmo só tinha o nome), de modo que uma pessoa é julgada boa ou má, portadora de direitos ou não, principalmente a partir da sua orientação sexual e identidade de gênero.

Em tempos nos quais os direitos humanos precisam ser diariamente reafirmados como bandeira primordial da nossa democracia, vale refletir sobre o conceito de violência. Necessário se faz entender a violência como algo que se expressa de diversas formas. Para além da violência física, violência é também a negação de direitos, é a pressão psicológica sobre determinada pessoa, é o silêncio que grita, é o olhar que despreza, é a piada que discrimina e é também o grito em coro de uma torcida em um estádio de futebol tentando desqualificar seu adversário a partir da ótica heteronormativa.

A agressão sofrida pelo jogador do Sport Clube do Recife, Ciro, no clássico contra o Santa Cruz, na Ilha do Retiro, na partida do dia 3 de abril de 2011, simboliza a homofobia internalizada na sociedade, aquela que ao mesmo tempo em que é negada fica a espreita de uma possibilidade para mostrar suas garras (ou seria a língua ferina da cobra coral?). Hoje o preconceito é mais difícil de ser enfrentado porque é velado, uma vez que está na moda o ser politicamente correto.

Assim dificilmente as pessoas se assumem enquanto preconceituosas. Isto posto, não está em questão a orientação sexual do referido jogador. Não sou especialista em futebol, mas é público e notório que o Ciro é um jogador aclamado por sua torcida, desempenha bem seu papel enquanto atleta e merece respeito, inclusive dos seus adversários. O que ele faz na sua intimidade ou deixa de fazer diz respeito unicamente ao próprio. Quando a discriminação se torna tão GRITANTE é impossível calar. A questão foge do foro íntimo e passa a ser uma chaga social que precisa ser sanada.

A bola da vez é: respeitar as diferenças

Infelizmente ainda não somos educados para respeitar as diferenças. Por mais que sejamos todos diferentes uns dos outros, nossa educação ainda é padronizada, de modo que o que foge à norma historicamente estabelecida (heteronormatividade hegemônica) não será visto com bons olhos. Deste modo, não somente LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) têm seus direitos violados, como os/as negros/as, os/as indígenas, os/as ciganos/as, aqueles e aquelas que professam uma religião não cristã, a exemplo dos povos de terreiro, as mulheres, os/as idosos/as, as pessoas com deficiência, os ateus...

O futebol, em sua essência é diverso, plural. O que seria de um clube de futebol se não existisse o seu adversário para a competição? Assim, é inadmissível qualquer manifestação de preconceito e discriminação por parte de quem quer que seja, afinal de contas o meu time precisa do outro para mostrar sua superioridade ou em que precisa melhorar. Está mais do que na hora de entrarmos em campo para fazermos o gol do respeito a todas as diferenças.

Fazer do limão uma limonada

Em face do lamentável acontecimento acima descrito muita coisa pode ser feita. De nossa parte iremos aproveitar a oportunidade para dialogar com o diretor da torcida Inferno Coral, Rogério Guedes, acerca da construção das políticas públicas para a população LGBT no Estado de Pernambuco. Foi entregue a ele cópias das duas leis municipais (de Recife) que punem a discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero, do decreto do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, sobre o uso do nome social de travestis e transexuais, bem como outros materiais educativos. Também foi solicitado que gritos de guerra com teor homofóbico não se repitam mais nos estádios.

Paralelo a isso, mas não menos importante, estamos negociando com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República o lançamento do selo “Faça do Brasil um Território Sem Homofobia”, o que deve acontecer em maio.

Oxalá tais ações nos ajudem a continuar indo aos estádios, a torcer por nossos ídolos com a bandeira do nosso time em um mão e a do respeito às diferenças na outra. Para finalizar, nada mal parafrasear Fernando Pessoa:

O AMOR é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente
”.

*Rildo Vèras é sociólogo, pós-graduando em gênero e diversidade (UERJ) e assessor especial do Governo de Pernambuco para Diversidade Sexual. 

Domingo, 10 Abril 2011 17:53

Mulher e negra

Escrito por

022negroBrasilPor Cesar Vanucci *

Honrai as mulheres. Elas traçam e tecem rosas celestes na vida terrestre.”

(Schiller)

As considerações abaixo concluem a exposição que fiz, num conclave feminino promovido pelo Lions, a respeito das lutas da mulher por inserção condigna no processo de construção humana.

Periodicamente é realizada uma Conferência Internacional da Mulher. Encontros dessa envergadura são capazes de abrir efetivas condições para a quebra de novos elos na gigantesca engrenagem que aprisiona a mulher, em extensas áreas geográficas, sociais, profissionais e culturais, a figurinos de concepção morbidamente machista. Quantas dezenas de eventos iguais, na estrutura e aspirações, se farão necessários ainda, ao longo dos tempos, para facilitar-lhe o acesso por inteiro a direitos naturais, independentemente de sexo, inerentes à condição humana?

Alguém poderá argumentar que se está a falar, na verdade, de direitos não desfrutados na integralidade pela grande maioria dos seres humanos. Perfeito. Mas, não há como negar que, também no desfrute dos direitos, a força invasora masculina chegou primeiro e se apoderou dos melhores pedaços nos espaços liberados.

Embora estejam sendo significativos os avanços em conquistas associadas ao desenvolvimento pessoal da mulher, fruto da expansão da consciência coletiva quanto à verdadeira natureza do papel que toca a cada cidadão desempenhar no fascinante e complexo jogo da vida, existe ainda por aí um oceano inteiro de problemas a ser navegado na busca das soluções compatíveis com a dignidade humana.

É chegada a hora de colocar alguns itens do dia-a-dia nas reflexões. Homem divorciado e mulher divorciada. Homem adúltero e mulher adúltera. Têm, eles, as posturas avaliadas pela sociedade dentro de uma mesma ótica crítica? Desloquemo-nos para o capítulo dos métodos contraceptivos: alguém sabe dizer se o número de vasectomias equivale aos de ligaduras das trompas? E a pílula masculina? Já foi lançada? Se lançada, vai pegar rápido?

Em Estados do Nordeste, segundo denúncia da CNBB, existiam até bem pouco tempo processos de esterilização de mulheres pobres, sem que elas estivessem inteiradas do que se lhes acontecia. Algo inspirado em perversos esquemas importados da China, Índia e outros lugares. Outra denúncia da CNBB: existem penitenciárias – lugares em que já se vive tragédia inimaginável - onde as mulheres costumam se deparar com uma penalização extra. Na falta de absorventes femininos, utiliza-se miolo de pão. Hoje, a mulher já conquistou na maior parte dos países, seu espaço no mundo artístico. Não era bem assim antes. Artista e “rapariga”, para ficar com expressão mais branda, constituíam, na visão estrábica de muita gente, o verso e o reverso de uma mesmíssima moeda.

Por volta de 1580, Montaigne dizia que “a ciência e ocupação mais útil para a mulher é o governo de casa”. A grande maioria pensava assim. Tem gente que ainda pensa. Gente que não acaba mais. Homens e mulheres a procederem na lida cotidiana que nem se fosse o pessoal lá da rua da meninice. As janelas ficam trancadas e figuras espectrais se põem a acompanhar, com tiques paranóicos, pela fresta da janela, usando candeeiro para aguçar a visão, o esfuziante processo que corre solto lá fora em favor da emancipação feminina.

Fazem ouvidos moucos a justos clamores nascidos do inconformismo, da inteligência e da sensibilidade diante dos paradigmas rígidos bolados pelo farisaísmo na avaliação do comportamento feminino. Paradigmas engessados no tempo. Para pessoal tão retrógrado têm a mesma inexpugnável consistência das muralhas incas de Machu Pichu. Esse tipo de gente não consegue enxergar que se trata de paradigmas irremediavelmente condenados pela doença letal de “certezas” trazidas de momentos obscurantistas que já se imaginava sepultados na voragem da história.

A briga pela derrubada de tais paradigmas é braba e barulhenta. São ainda fortes os ecos de certas palavras de ordem procedentes de eras remotas, sintetizadas na frase padrão: “Lugar de mulher é em casa”. Os preconceitos vigorantes apresentam, em muitos lugares, é bem verdade, efeitos atenuados em matéria de violentação à personalidade, se comparados com as inacreditáveis situações vividas em tempos antigos e em outros lugares de nosso próprio tempo.

Mas conservam vestígios culturais rançosos, ainda que longínquos, daquelas épocas absurdas em que algumas coletividades aprendiam a absorver, em suas regras de vida e crenças, a idéia, por exemplo, de que a mulher não possuía alma. Ou de que, no plano dos sagrados deveres conjugais, como amorosa e dedicada esposa, devesse se preparar para fazer jus ao prêmio máximo da loteca dos deuses, consentindo em que a enterrassem viva com os pertences e despojos do pranteado marido, senhor seu amo, quando de sua (dele) partida desta para melhor.

Todos estamos seguros de que provêm de visualização desfocada da realidade, mesclada com flagrante injustiça social, os escandalosos problemas levados a debate pelas representações presentes aos conclaves promovidos periodicamente pela ONU. Ou por outras instituições das muitas que se ocupam benfazejamente dessa tormentosa discussão.

O desfile de absurdidades é sempre composto de revelações sobre práticas escravagistas, tráfico de mulheres, prostituição forçada, processos de mutilação sexual, restrições ao acesso no mercado de trabalho a cargos e promoções, falta de oportunidades iguais às concedidas aos homens nas ações e decisões políticas, nos campos técnico e científico, no desfrute de bens educacionais.

Coisas assustadoramente consentidas às vezes em nome de rançosos argumentos religiosos. E por aí vai. Os registros dão conta de que mesmo em países desenvolvidos, as políticas de salários revelam-se desiguais. A média da remuneração da mulher situa-se abaixo da metade da média da remuneração do homem. As possibilidades de ingresso em empregos, nesse mesmo tipo de confronto, são de 61% no Japão, 58% na Holanda e 16% nos países árabes. Sabe-se, ainda, que de 1,2 bilhão de pessoas que vivem em estado de pobreza absoluta (renda inferior a 370 dólares/ano), setenta por cento são mulheres.

Outro levantamento revelador diz respeito às chances de participação no poder. As mulheres ocupam 20 por cento dos cargos de direção, algo equivalente nos chamados postos ministeriais. Tem mais: meio milhão de mulheres (99% do Terceiro Mundo) morrem, anualmente, vitimadas por patologias vinculadas à maternidade.

Não há como ignorar, por outro lado, o tratamento diferenciado, de modo geral desrespeitoso, com que a mídia, acionada por preconceitos milenares dominantes no inconsciente coletivo, se ocupa do fato trivial de uma mulher que, no exercício de função pública, resolva assumir ostensivamente um caso afetivo. A derrama noticiosa que isso suscita, vou te contar...

Está na cara que esses dados não esgotam o temário difícil e, sob incontáveis aspectos, doloroso da problemática enfrentada pela mulher. Mas servem para dimensionar as perturbadoras circunstâncias que envolvem essa questão prioritária no processo da construção humana. O Banco Mundial anota algo supra importante: “A desigualdade entre os sexos paralisa a produtividade e dificulta o crescimento econômico.”

Há avanços e respeitáveis. Há que celebrá-los. Mas os problemas continuam sendo de grande monta. As estruturas modernas ampliaram a faixa dos direitos, previdenciários, sociais. Persistem, todavia, ainda numerosos, difíceis obstáculos a serem transpostos. A sociedade rodeia de manifestações simpáticas, em boa parte das vezes da boca pra fora, a trajetória feminina.

São manifestações poéticas, do tipo “Tirante a mulher, o resto é paisagem” (Dante Milano, 1898); com palavras que exprimem bons propósitos, mas que não são colocadas em prática, pelo menos em sua extensão ampla, como “A mulher é a grande educadora do homem”  (Anatole France, 1900); ou de exaltação terna e lírica, como “Mulher é uma graça, espanta melancolias e consola mágoas” (Livro dos Cantares). Apesar disso, o mundo continua a girar com suas imperfeições atávicas e com seus amalucados preconceitos e discriminações contra a mulher.

Sabemos não ser nada fácil mudar as coisas. Numa passagem do clássico cinematográfico “O Leopardo”, estrelado por Burt Lancaster, o personagem central aconselha os nobres italianos, seus súditos, apavorados diante da ameaçadora chegada de Garibaldi ao poder, a que “mudassem alguma coisa, para não mudar coisa alguma”. A história das conquistas sociais costuma revelar que o Príncipe Salinas, o dito cujo personagem, podia ser um tremendo dum cínico, mas como entendia das imperfeições da alma humana, meu Santo Onofre!

O Papa João XXIII tinha razão. A batalha pela emancipação feminina é uma das mais importantes revoluções dos tempos modernos. Mas há muitas coisas ainda para serem feitas. Algumas óbvias, por demais. Aparentemente, banais. Mas de tremenda relevância na vida prática. Passam ao largo das preocupações rotineiras. A mulher do lar, em todos os segmentos sociais, precisa saber um pouco mais sobre os negócios do marido. As mulheres superprotegidas e complacentes do figurino tradicional se defrontam, no caso de viuvez, com cada problema!

O mundo costuma desmoronar em horas que tais. Ela pensa que o marido cuidou de tudo, enquanto vivo. Vai ver, não cuidou nada. As apólices de seguro deixadas são de acidentes pessoais e ele morreu de infarte. Nunca se interessou por planos de complementação de aposentadoria. Não facilitou o acesso da cara-metade às transações que realizava, aos investimentos, às dívidas contraídas em nome da comunidade familiar. A realidade a enfrentar, em momentos assim, pode acabar sendo cruel para a viúva.

A quantas, nessa palpitante matéria dos direitos femininos, andamos em Lions? Alvíssaras! Já temos entre nós companheiras leão.

Posso confessar-lhes um receio? Vamos cuidar de exorcizar nosso ambiente para impedir que o tradicional preconceito machista, que rege tanta coisa na rotina social, possa entender, em dado momento, de distinguir “domadoras” de “companheiras leão”, como se isso pudesse fazer algum sentido. Em minha visão, uma e outra são rótulos diferentes de uma mesmíssima realidade. O que conta é a essência. E a essência do trabalho leonistico está consubstanciada na prática da solidariedade, do amor ao próximo, do companheirismo. O resto é o resto. Vivê-la com intensidade é um dever e um direito.

Anotem, por favor. Como sei que prevalece, no meio feminino, um apego muito grande à discrição, ao contrário do que o machismo tem por costume propalar por aí, vou contar-lhes um segredo. Em minhas observações de muitos anos, cheguei à conclusão, definitiva e inabalável, de que as mulheres, em Lions, como noutras instituições, trabalham muito mais e com bem maior eficiência do que os homens.

É bom que se diga, por derradeiro, que os problemas enfocados ou intuídos nesta descolorida exposição, antes de serem problemas exclusivamente da mulher, são problemas do ser humano. Quanto mais convicções individuais de sentido renovador puderem se reunir à volta de constatações óbvias como estas, maiores se tornarão as possibilidades de podermos, algum dia, todos juntos, construir um mundo melhor. Um mundo bem melhor para mulheres, homens, crianças, adultos, pretos, brancos, amarelos, árabes, judeus, sãos, enfermos, cristãos, budistas, maometanos, pobres, ricos, remediados e excluídos.

Quero deixar, registrados, ao final, um anseio e uma interrogação.

O anseio: assistir a disputas para governador de Lions só entre mulheres. (O anseio já se fez realidade).

A interrogação, danada de instigante: e se, de repente, no dia do Juízo, lá em cima, na hora crucial e decisiva da prestação de contas dos atos praticados em nossa peregrinação pela pátria dos homens, cara a cara com o Todo Poderoso, carregando bem nítida a imagem que Dele conservamos em função de amadurecidas convicções religiosas, e se nessa hora precisa, a gente descobrir, embargado pela estupefação, que Deus é mulher e negra? E então?

* É jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ). Escreve semanalmente para o Blog. 

 

Sexta, 01 Abril 2011 02:29

Vai que é tua, Taffarel

Escrito por

coluna-406x174Por Daniela Gomes Pinto*, para a Página 22

Outro dia vi o Homem-Aranha com meu filho.  Me encantei com a história do menino que ganha poderes ao ser picado por uma aranha.  Mas o tio dele, antes de morrer, alerta: “Grandes poderes trazem junto grandes responsabilidades”.  O que me fez pensar que está cada vez mais difícil formar super-heróis.

 Uma colega de trabalho levou um susto tempos atrás.  Em sua primeira viagem a campo, em um lugar remoto do Brasil, começou a sentir dores nas pernas.  Procurou o médico local, que especulou ser trombose.  Mas ele não tinha equipamentos para confirmar o diagnóstico, e liberou a garota.  Dois dias e muitas viagens de barco e avião depois, ela foi atendida e medicada.  Mas a trombose poderia ter sido confirmada apenas pelo diagnóstico clínico – os sintomas e o histórico familiar eram ululantes.  Se o médico a tivesse medicado e orientado ali mesmo, minha colega não teria corrido os riscos que correu, do alto de seus 23 anos.

Outra amiga foi ao ginecologista porque sentia um caroço no seio.  O médico mal a olhou e imediatamente pediu exames.  Lá foi ela, para os exames todos, por dias sendo perseguida pelo fantasma do câncer.  Pois então resolveu ir em um tio médico, que olhou, apalpou o tal caroço, conversou com ela, olhou mais uma vez, grudou um bife em cima e voilà – o câncer saiu: era um berne, uma nojenta larva de mosca que cresce embaixo da nossa pele.

É cada vez mais raro encontrar médicos que apalpam a gente, conversam, especulam diagnósticos.  Pra tudo é exigido um exame ou um equipamento que garantam que o que eles estão vendo é aquilo mesmo que estão vendo.  Eles não querem mais arriscar.  Não com os pacientes deles.

Essa aversão a riscos poderia ser “coisa de médico”, mas receio que não são só eles.  A pediatra do meu filho contou que se sente acuada pelos pais, que se estão tornando incapazes de tomar decisões a respeito dos próprios filhos.  Outro dia uma mãe telefonou desesperada, porque a filha acabara de cair e batera a cabeça.  Para tentar avaliar a situação à distância, a médica perguntou em que região da cabeça tinha sido a pancada, e se estava formando um galo.  A mãe não sabia, pois não tinha olhado a cabeça da filha ainda.  A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi correr para o celular e pedir ajuda “especializada”.

Pais medem a febre de cinco em cinco minutos, mas não conseguem dizer se a criança está prostrada ou animada.  Uma conhecida listou quem atende o filho dela – um alopata, um homeopata, um dermatologista e um psicólogo.  Não, ele não tem 50 anos, tem apenas 3.  Ele é uma criança saudável e feliz, com algumas esquisitices iguais às do meu filho e iguais às das demais crianças do planeta – passe 24 horas com uma criança de 3 anos e você vai ver como eles são esquisitos!  Mas ela não quer arriscar.  Não com o filho dela.

Profissionais da saúde não assumem mais seus talentos únicos.  Pais subcontratam o conhecimento e poder que eles, mais do que ninguém, têm sobre seus filhos.  Nós mesmos, no aconchego de nossos rivotrils, não queremos entender por que mesmo estamos tristes.

De onde será que vem isso?

Talvez um pouco da resposta seja a influência de nossos vizinhos americanos.  Por lá, um obeso ganha processos contra a rede de fast-food que o incita a comer mal.  Pacientes são o vilão número 1 dos médicos.  Se você escorrega no ketchup, a culpa não é da sua desatenção: é de quem colocou o ketchup ali, ou de quem produziu o ketchup, ou de quem inventou o ketchup.

Mas eu arriscaria dizer que um pouco também vem de uma insegurança mais profunda de nós com nós mesmos.  A modernidade nos tirou a fé e nos trouxe os especialistas.  E ficamos um pouco perdidos.  Pedir ajuda aos universitários muitas vezes é necessário.  Mas veja, até o Silvio Santos mostrou sapiência – eram apenas três as chances de chamar um desses ajudantes no Show do Milhão.  O resto era com você.  No show da vida real, a gente abusa do artifício. 

E, no caminho, abre mão da riqueza de nossas percepções, nossos olhares, nossos aprendizados, a sabedoria de cada um de nós.  Nossos mais preciosos poderes.  Me dói o coração imaginar que há médicos que não conhecem seus pacientes.  Me dói ver que em vez de olharmos atenta, amorosa e calmamente para nossos filhos, recorremos a outros, desconhecidos deles, para nos dizerem qual é o “problema”.  Me dói imaginar que eu mesma, em vez de escarafunchar minhas razões, posso optar pela saída fácil da felicidade medicamentosa.

Clarice Lispector foi taxativa: “Se houver um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia será punida e irá para um inferno qualquer.  Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão.  Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige”.  Ela falava da busca de cada um por seu nó vital.  E, sem querer, dava a mesma receita do tio do Homem-Aranha e do (mala) Galvão Bueno.  Vai que é tua!

* Pesquisadora do Gvces e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela London School of Economics and Political Science.

Sexta, 01 Abril 2011 02:09

Luta pela dignidade humana

Escrito por

dia-da-mulher2Por Cesar Vanucci *

 As mulheres são seres humanos

 exatamente como os homens.”

(Lin Yutang)

A celebração do “Dia Internacional da Mulher” confere atualidade a alguns conceitos que andei expendendo em exposição feita num Fórum feminino, com participação de mais de mil pessoas, promovido alguns anos atrás pelo Lions Clube. Proclamando que as lutas da mulher são lutas em favor da dignidade humana, transmiti da maneira que se verá adiante o meu recado.

Sou um repórter. Exatamente isso, um repórter. Em tudo que aprendi a fazer, na vida profissional e atividades sociais, comporto-me, basicamente, como um repórter. Procuro, assim, me informar de um pouco de tudo. Mas devo confessar, em boa e leal verdade, que não sei senão muito poucas coisas.

Trago para aqui um pouco do que aprendi acerca do papel da mulher na sociedade, sobre as lutas e conquistas da mulher em sua ascensão humana. Às organizadoras deste Fórum, confesso também, desvanecido, que minha participação no evento constitui honra demais para um pobre repórter.

Peço permissão para dedicar a palestra à Addi, minha valorosa companheira, que me tem ajudado nesses anos todos a entender as idéias e conceitos que vou defender.

Começo com uma evocação especial: o grande Papa João XXIII. Dele a declaração de que a luta da mulher pela obtenção de direitos representa uma das maiores revoluções empreendidas pela humanidade no século XX. O Papa, como sempre, sabia do que estava falando. A dolorida história da promoção da mulher simboliza, melhor do que qualquer outro esforço humano de crescimento político, cultural, social, econômico, a história por inteiro das lutas pela conquista dos direitos do cidadão.

Nos óbices defrontados nas lutas da mulher estão contundentemente inseridos abjetos preconceitos, aviltantes discriminações, asfixiantes camisas-de-força, presentes, todo o momento, na convivência humana, frutos malsãos do obscurantismo, do machismo castrador, da insensibilidade para se compreender o sentimento do mundo, o sentido cósmico da vida.

Não é difícil detectar, em instantes de trevas, decretadas pelo preconceito e pela discriminação, que a mulher é invariavelmente penalizada em dobro, em relação ao homem. O racismo a alveja por ser negra, por ser cigana, por ser judia, ou por não ser judia, e por ser mulher. Ela paga o pato, por assim dizer, por pertencer à etnia errada, em lugar ou momento errado, na concepção do radicalismo dominante em determinado cenário, e por ser mulher. Por pertencer à religião enjeitada, nas mesmas circunstâncias de ambiente e época, e por ser mulher. Assim por diante.

Recorramos a um outro pensador. Eis o que diz Lin Yutang: “As mulheres são seres humanos exatamente como os homens - iguais na capacidade de julgar e de cometer erros, se lhes derdes a mesma experiência do mundo e os mesmos contatos com este.”

Numa terna cena da infância, extraída do baú das recordações, vejo desenhado o perfil da primeira líder feminista que fiquei conhecendo. Era uma moça de seus trinta anos, dona de semblante extremamente simpático e de corpo bem proporcionado. Trescalava obstinação pelos poros. A gesticulação exuberante, herança napolitana, nela reforçava as palavras ditas em tom de voz quase cantante. Durante um tempão, já adulto, alimentei sem poder concretizar o desejo de manter com ela um dedo de prosa. Até hoje carrego o dilema que um bom papo poderia certamente ter desfeito. Teve ela, a qualquer tempo, exata percepção do significado precursor dos gestos e ações que assumiu?

Todas as tardes, eu a avistava descendo a ladeira que dava num campo de futebol improvisado, onde a garotada tocava suas peladas movidas a bola de pano, brigas inofensivas e um que outro palavrão punido com chinelada. A sensação era de que Verlaine descobrira naquele gracioso desfile vespertino inspiração para os versos: “Quando ela anda, eu diria que ela dança.”

Pontualidade parecia atributo todo seu. Havia quem acertasse o relógio à sua passagem. Era o momento em que as janelas das redondezas se fechavam estrepitosamente, em sinal de zanga malcontida. Olhares e murmurações recriminatórios acompanhavam-lhe a trajetória graciosa por detrás das venezianas, até que escapulisse por completo do raio de visão do falso puritanismo entocaiado. Tudo compunha clima de excitante e novelesco mistério que aguçava demais da conta a cabeça da gente. Por que as coisas corriam daquela maneira? O que a nossa heroína andava aprontando?

Prepare-se a benevolente platéia, notadamente da ala das fumantes, para um baita impacto. A nossa valente personagem, apenas e simplesmente, foi a mulher que primeiro ousou, naquela aprazível cidade do interior (Uberaba), fumar em público. Ousou mais - “imaginem só o descaramento!” - : foi também a primeira a andar de calça comprida pelas ruas. Tais lembranças, de simbólico surrealismo, chegam a propósito da temática que hoje nos reúne neste amorável encontro de confraternização e reflexão.

Estas reflexões têm continuidade adiante.

* É jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ), e escreve semanalmente para o Blog.

Terça, 29 Março 2011 03:03

E eu que não sabia...

Escrito por

id_portinari_auto_retratoPor Cesar Vanucci *

 Portinari realiza o milagre da arte muda:

exprimir, sem falar, uma mensagem brasileira!”

(Otto Maria Carpeaux)

Vou buscar, na meninice descontraída e na adolescência irrequieta, lembranças soltas de pura nostalgia. Estive bem próximo, em alguns poucos momentos, nessas fases risonhas da vida, de dois gênios da pintura. Aconteceu por força de circunstâncias alheias à minha vontade. Com acanhada visão das coisas, na mais santa ingenuidade, revelei-me carente de um mínimo de capacidade de percepção para avaliar, na hora certa, o real significado dessas aproximações singulares, generosamente proporcionadas pelo acaso.

Seguinte: guris, ainda nos começos ginasianos, eu e o mano Augusto Cesar frequentávamos, com assiduidade, a residência de Alberto e Dute Sabino. Nossos pais eram fraternos amigos do casal. Sentiamo-nos ali como em nossa própria casa. Albertinho, como apreciava ser chamado, atuava na área de seguros. Apreciador das artes, possuía um amigão do peito. Um cidadão de alta projeção no mundo fascinante da pintura. Morador de cidade do interior paulista. Seu nome: Cândido Portinari. Candinho pros íntimos. Os dois amigos se visitavam com freqüência. Numerosas as ocasiões, quando das idas de Portinari à casa do Albertinho, Uberaba, em que Augusto Cesar e eu recebemos convite para montar um pequeno espetáculo lítero-musical homenageando o ilustre visitante.

Dono de voz belíssima, que lhe valera prêmios em programas de auditório no Rio de Janeiro, o cantorzinho Augusto já exibia, naquela época, alguns dos dons que o celebrizariam, na fase adulta, na televisão, teatro e cinema, inclusive com a conquista de um “Emmy” e de um “Ondas”. Minha participação, como declamador, recitando Castro Alves e Catulo, não passava de mero contrapeso no improvisado show. Portinari parecia partilhar do entusiasmo do casal anfitrião pela dupla mirim. Tanto isso é verdade que andou convidando os filhos de “seo” Antônio e da. Antônia para se apresentarem em sua casa, lá em Brodosqui.

Todo mundo passou batido. O Albertinho, eu não sei. Mas a ninguém, de meu núcleo familiar pelo menos, acudiu a idéia, naqueles instantes de contatos descontraídos com o genial artista, de apoderar-se de um rabiscozinho qualquer onde figurasse a assinatura célebre que legou ao mundo um punhado de obras primas, brotadas de seu pincel mágico.

Falo, agora, da outra vez em que passei batido. Constrangedoramente batido. Seria de se imaginar que, já adolescente, possuísse um pouco mais de discernimento em relação a certas coisas. Foi quando de minha primeira tentativa de fixar moradia em Belô. Ao concluir o curso médio, deixei o torrão natal à cata de oportunidades profissionais. A experiência durou ano e meio. Arranjei emprego no Departamento de Trânsito, graças à incrível Anita Rosa de Magalhães Góes, esposa do culto coronel Américo Góes, ambos de saudosa memória.

Fui morar numa pensão ali na rua Rio de Janeiro, esquina com Tupis. A paisagem arquitetônica da região se compunha de casas de feição brejeira, muito diferente dos caixotes de cimento armado de hoje. Dividia quarto com colega do interior. No aposento ao lado, vivia um pintor obsedantemente fixado em sua arte. Nada afeito a contatos, era visto, diariamente, por horas, a extrair do pincel os frutos coloridos de sua pujante criatividade. Vez em quando, desvencilhava-se de trabalhos que não saiam ao seu agrado, lançando-os no cesto de lixo.

Eu bem que tentei, algumas vezes, espichar conversa com aquele vizinho de papo curto, quase monossilábico. Sem êxito. Não tive, momento algum, percepção de que estava a desfrutar do privilégio de compartilhar de um mesmo espaço residencial com um mestre da pintura. De nada sabia. Ninguém, ao redor, parecia também saber. De nenhum dos outros moradores ouvi, a qualquer tempo, a mais leve referência à genialidade de Alberto da Veiga Guignard.

Querem saber duma coisa? Dá vontade, às vezes, de pedir públicas desculpas por tão abestalhada alienação.

* É jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) e escreve semanalmente para o Blog.

Quinta, 24 Março 2011 13:25

Ilusões e realidade para a sustentabilidade

Escrito por

 Por Vilmar Berna*, do Portal do Meio Ambiente

Precisamos sonhar com a possibilidade de um futuro, de um mundo melhor, pois os sonhos nos motivam para a ação, nos animam a romper com a inércia e a suportar a dor do esforço no rumo a outro jeito de ser e estar no Planeta e na sociedade, ambientalmente sustentável e socialmente mais justo. Os sonhos nos dão energia para as boas práticas e a confiança de que é possível.

Entretanto, entre declarações de políticas e promessas ambientais e a realidade, existe um vazio proporcionalmente tão grande e profundo quanto nossa capacidade de sonhar. Um vazio que pode e precisa ser preenchido com gestão, planejamento, investimento de tempo e dinheiro. Entre os oito e o oitenta, em gestão ambiental, será preciso passar por um monte de outros números. Sonhar é relativamente fácil, difícil é colocar em prática. Então, é natural que entre a intenção e o gesto exista um tempo de maturação para acontecer. O importante é demonstrar o movimento, saber valorizar e divulgar os bons resultados, mesmos pequenos, para renovar o incentivo e estimular o aumento na velocidade das mudanças, e também refletir sobre os maus resultados, pois pode ser o caso de precisar rever metas e objetivos. Se os sonhos forem pouco ambiciosos - apenas para produzir uma pequena mudança -, este vazio será menor e o esforço requerido para preenchê-lo de realizações também. Entretanto, os resultados também poderão ser pequenos e podem nem valer à pena, podendo produzir mais desgastes que levar a alguma mudança. E não adianta fazer pouco e tentar compensar depois no marketing, por que o tiro pode sair pela culatra, e uma reputação manchada é de difícil recuperação depois. Se for grande demais, por mais que se persiga o sonho, este sempre parecerá inatingível. Ainda assim poderá valer a pena para nos manter seguindo em frente, apesar das adversidades. Muitas das grandes mudanças na Humanidade começaram de um pequeno desvio, como o empreendedorismo dos tropeiros arriscando-se no comércio ambulante entre as cidades da Idade Média e que resultaram no mercantilismo e no fim da estrutura feudal de poder.

Alguns sonhos podem ser sonhados sozinhos, e ainda assim serem possíveis de se realizar, como serem consumidores mais responsáveis, ou menos gananciosos e mais solidários. Outros precisam ser sonhados juntos para se tornarem realidade, como a construção de uma sociedade sustentável, requerendo de nós o esforço de sensibilizar e convencer aos demais. Outros sonhos podem demorar gerações para acontecer, contando com o esforço e o engajamento de gente que ainda nem nasceu. As catedrais da Idade Média, por exemplo, levavam gerações para serem concluídas, e ainda assim pôde ser realizada por pessoas que sabiam que se não fizessem bem a sua parte, a geração que viria depois teria de começar do zero. Um pouco como a mudança para a sustentabilidade. Nossa geração começou agora uma obra cujos frutos talvez só venham a ser colhidos em quantidade pelos que virão depois. Melhor isso que deixar como herança um Planeta esgotado, poluído e incapaz de sustentar a vida como a conhecemos.

Alguns se dão por satisfeitos apenas em reclamar imaginando que o mundo melhor que desejam deve começar no outro. Outros preferem se iludir com falsas promessas ou soluções milagrosas, em vez de encarar a realidade de que somos a raiz dos problemas do mundo e também podemos ser a solução, dependendo das escolhas que fizermos. Precisamos ajustar nossas percepções para saber aproveitar as oportunidades como elas se oferecem e não como gostaríamos que aparecessem. E saber lidar com as frustrações e com a dor do esforço e da incapacidade de alcançar certos objetivos, por que talvez ainda não seja a hora ou ainda não estejamos prontos.

Para os que acreditam em divindades, é hora de pedir que nos acolham em nossas dores e angústias e nos salvem de nós mesmos. Entretanto, tal conforto espiritual não chega para todos. O que temos nas mãos é a possibilidade aqui e agora de arregaçar as mangas e trabalhar pelas mudanças, a partir de nós próprios, assumindo que somos os resultados de nossas escolhas, e que o nosso sucesso ou fracasso resultarão de nossos sonhos e da capacidade realizá-los.

*Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente (http://www.portaldomeioambiente.org.br/). Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas – http://www.escritorvilmarberna.com.br/

Quarta, 23 Março 2011 02:01

Água virtual

Escrito por

agua1Por Xico Graziano*

Proteger os recursos hídricos do planeta está virando uma grande batalha ambiental. Ainda bem. Rios poluídos, nascentes secando, consumo perdulário indicam crise na chamada agenda azul. Água é vida.

Cresce a consciência da sociedade sobre a importância da água. Na Europa, especialmente na Espanha e em Portugal, o assunto tornou-se quase uma obsessão. Territórios desertificados, fruto da secular, e insensata, exploração humana da natureza, exigem extrema atenção das políticas públicas. É difícil, e oneroso, recuperar florestas, protetoras da água.

As mudanças de clima trazem novo, e desastroso, componente na oferta hídrica para a humanidade. Muitas nações, com a Índia, dependem das geleiras das montanhas para garantir seu pleno fornecimento hídrico. E elas estão derretendo a olhos vistos. Que o diga o Himalaia.

No Brasil, a gestão dos recursos hídricos se fortalece, mas caminha lentamente. Avançam a proteção dos mananciais e a recuperação da biodiversidade, nas matas ciliares especialmente, mas o passo está curto diante da urgência do problema.

Poucos Estados, São Paulo à frente, fazem realmente funcionar seus comitês de bacia hidrográfica. A Agência Nacional de Águas (ANA), criada no governo de Fernando Henrique Cardoso, perdeu serventia após ser politizada nos esquemas petistas. Uma lástima.

A dramaticidade do tema favoreceu o surgimento de um novo conceito: o da “água virtual”. Ele expressa uma contabilidade básica, qual seja, a de determinar a quantidade de água exigida no processo de fabricação de um produto. Isso avalia um custo ambiental.

Uma caneta ou um avião nada apresentam, visivelmente, de úmido. Entretanto, qualquer mercadoria para ser fabricada demanda certo consumo de água, em alguma fase da cadeia produtiva. Na indústria, as caldeiras movem-se pelo vapor, as quais acionam máquinas, derretem metais, moldam plásticos. Móveis inexistiriam sem a seiva das árvores, alimentadas pelas raízes no solo molhado. Por aí segue o raciocínio.

Calculando a quantidade de água necessária, ou melhor, consumida na elaboração dos bens, pode-se comparar a eficiência dos processos produtivos. Vale na indústria como na agricultura, visando à economia do recurso natural. Mais ainda: no comércio internacional, transfere-se água embutida nas mercadorias, elemento que poderia entrar no preço das exportações e importações. A rica teoria encanta ecologistas mundo afora.

Breve pesquisa na internet vai mostrar que o Brasil é o 10.º exportador mundial de “água virtual”, num comércio que movimenta cerca de 1,2 trilhão de litros do precioso líquido, disfarçado nas mercadorias, sendo 67% desse volume relacionados com a venda de produtos agrícolas. Essa é a grandeza planetária da equação.

Números específicos chamam a atenção. Eles indicam que um quilo de carne bovina necessita de 15.500 litros de água para chegar à mesa; um quilo de arroz vale 3 mil litros; uma xícara de café se iguala a 140 litros de água. Surpreende a precisão. Segundo a organização The Nature Conservancy (TNC), uma importante entidade ambientalista, não necessários 10.777 litros de água para fazer uma porção de chocolate, enquanto um carro exige 147.971 litros para ser construído. Conclusão: evite sobremesas e ande de bicicleta para ajudar o equilíbrio da Terra.

Atraente, mas discutível. O cálculo desse fetiche ecológico esconde um perigo, disfarçado por pressupostos, estimativas e arbitragens que o distanciam da matemática, uma ciência exata. Na linguagem popular, chuta-se muito. O grande problema reside na estimativa da quantidade de água embutida nos alimentos. Invariavelmente uma brutal deformação pune a agricultura. Veja o porquê.

Vamos pegar o caso da carne. A conta acima da “água virtual”, além do consumo na limpeza das instalações em máquinas, na ração do cocho, na silagem, etc., considera também a quantidade de água que o bicho bebe para ajudar a digestão e viver tranquilo. Acontece que um boi ingere pelo menos 30 litros/dia de água. Ao final de três anos, quando será abatido, terá engolido 32.850 litros apenas para matar a sede.

Preste atenção: incluir tal consumo na conta da “água virtual” somente estaria correto se o boi, ou sua senhora vaca, não fizessem xixi! Acontece que a urina dos animais, do homem inclusive, participa do ciclo da água na natureza, matéria elementar lecionada na quarta série do ensino fundamental. Na escola as crianças aprendem que a água assume formas variadas - gasosa, sólida e líquida - no sistema ecológico do planeta. Assim, recicla-se naturalmente.

Paradoxalmente, o ciclo da água, um dos conceitos fundamentais da ecologia, acabou esquecido pelos proponentes da “água virtual”. Um absurdo científico. Dizer que um cafezinho exige 140 litros de água para ser produzido considera o volume de água absorvido pelas raízes da planta, esquecendo simplesmente a evapotranspiração que ocorre em suas folhas, sem a qual inexistiria a fotossíntese. Vale para qualquer alimento.

Em 22 de março se comemora o Dia Mundial da Água. Data para profunda reflexão. A crise ambiental do planeta afeta dramaticamente os recursos hídricos, afetando milhões de pessoas. Essa bandeira ambiental não pode ser desmoralizada por equívocos banais.

É totalmente distinto gastar água nos processos fabris, ou no resfriamento de reatores atômicos, de utilizá-la nos processos biológicos vitais. Igualá-los significa cometer erro crasso, estimulando um festival de bobagens que, no fundo, serve apenas para agredir o mundo rural. E livrar a barra dos setores urbano-industriais.

Na Páscoa coma chocolate sem culpa ambiental. Cuidado, isso sim, com a balança.

*Xico Graziano é agrônomo, foi secretário do Meio Ambiente do estado de São Paulo. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. . publicado em de março, na coluna do autor no jornal O Estado de S. Paulo, intitula-se “ÁGUA VIRTUAL”. A relação completa das publicações pode ser encontrada em http://www.agrobrasil.agr.br/home/

Segunda, 21 Março 2011 17:52

CDI: tecnologia para um mundo melhor

Escrito por

cdi_250x250Os números impressionam: em quase 16 anos de existência, a ONG Comitê para a Democratização da Informática (CDI) já impactou mais de 1,3 milhão de vidas em suas 820 escolas, chamadas de CDIs Comunidade. Deste total, 479 ficam no Brasil, 220 nos demais países da América Latina e 121 na Jordânia e na Europa. A caminhada internacional é apenas uma dentre as inúmeras vitórias alcançadas pela organização fundada e presidida pelo empreendedor social Rodrigo Baggio, que começou o trabalho no ano de 1995 e, agora, capitaneia uma série de transformações na entidade.

Se há uma palavra capaz de resumir o momento pelo qual o CDI está passando é mudança. Depois do reconhecimento internacional – a ONG já recebeu mais de 60 dos mais importantes prêmios de empreendedorismo social do planeta – chegou a hora de definir os próximos anos de existência do projeto.

 Ousadia não falta: o CDI foi pioneiro não só na luta pela inclusão digital de populações a princípio excluídas da sociedade da informação como também trilha o caminho audacioso da transformação de uma grande rede em um negócio social dos mais impressionantes, tendo o conhecimento da base da pirâmide da população como seu grande trunfo. Se antes a proposta era levar computadores e internet a comunidades carentes, o CDI trabalha, agora, no reconhecimento e consequente desenvolvimento de cidadãos em agentes de transformação social em potencial.

- Há quinze anos, tínhamos um modelo de Escola de Informática e Cidadania (EIC), numa época em que a inclusão digital não existia. Hoje, governos, ONGs e empresas já trabalham com a proposta de inclusão digital – diz Rodrigo Baggio. - Toda a nossa experiência nos deu a perspectiva de customizar as ações do CDI e levá-las para outros países, inclusive para países desenvolvidos, como é o caso da Inglaterra, onde o CDI está trabalhando com um projeto chamado Apps for Good, que mostra para onde caminha a inclusão digital, que será feita via telefones celulares.

O empreendedor aponta, aqui, um diferencial do trabalho do CDI: uma constante reinvenção. Neste momento, por exemplo, o foco é na criação de uma consciência cidadã de agentes de transformação, aplicável até mesmo num mundo ideal no qual 100% das pessoas estariam conectadas à Rede Mundial de Computadores.

- Mostramos que qualquer um é capaz de transformar o mundo num lugar melhor. E nosso trabalho é o de usar a tecnologia como ferramenta de transformação social, adotando nossa metodologia – complementa Baggio.
 

Trabalho internacional

Em Londres, onde o CDI tem um escritório voltado para networking e captação de recursos, a ONG trabalha, ao lado de parceiros, com um projeto bastante ousado: o uso de telefones celulares para a inclusão digital. Do alto da experiência de quem passou a vida ajudando pessoas a se conectarem em países ditos do terceiro mundo, o CDI percebeu a necessidade de criação de projetos do gênero em comunidades de baixa renda da capital do Reino Unido.

 Assim nasceu o projeto Apps for Good, programa pioneiro desenvolvido pelo CDI em parceria com a Dell Computadores. O objetivo é oferecer capacitação para criação e desenvolvimento de aplicativos para telefonia móvel que ajudem a impulsionar a ação comunitária e a transformação social. Um exemplo é o aplicativo para celulares Stop & Search, desenvolvido por alunos do programa. Com ele, é possível que cidadãos comuns possam enviar, por exemplo, informações sobre a atuação da polícia para as autoridades competentes, exercendo, assim, sua cidadania de fato e de direito.

Outro caso de sucesso do CDI em terreno internacional foi a incorporação de uma ONG da Jordânia que já trabalhava com projetos de inclusão digital em pleno Oriente Médio. No ano de 2009, a Shabakat passou a se chamar CDI e adotou a metodologia da ONG para atuação e consequente expansão naquele território. Até o momento, a parceria inclui 120 escolas de informática e cidadania na Jordânia, que devem se espalhar para outros países do Oriente Médio e também da África.

Atualmente, o CDI está presente ativamente na Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Equador, Bolívia, Paraguai, Uruguai, México e também nos Estados Unidos, onde mantém um escritório para captação.

A atuação da organização na América Latina gerou diversas premiações. Rodrigo Baggio e CDI já receberam premiações nacionais e internacionais, concedidas por organizações de grande prestígio, como Unicef, Unesco, Technology Museum, revistas ‘Times’ e ‘Fortune’, a rede de televisão CNN e o Fórum Econômico Mundial. Além disso, Baggio é fellow das quatro principais organizações internacionais de apoio ao empreendedorismo social: Avina. Ashoka, Schwab e Skoll Foundation. E foi da Ashoka que o CDI recebeu, em 2010, o título de uma das 25 ONGs prontas para a Globalização, o ‘Ashoka Fellows ready to globalize’.
 

Negócios sociais

Um dos principais desafios enfrentados pelas organizações não governamentais é, como não podia deixar de ser, a própria sobrevivência. Quando é formada por uma imensa rede, então, o desafio é ainda mais assustador. Para o CDI não foi diferente. Assim, para fazer frente aos desafios, que continuam aparecendo, a ONG começou a caminhar, alguns anos atrás, rumo a um trabalho que garantisse saúde para a organização e, ao mesmo tempo, a preparasse para o futuro. Nascia, nesse contexto, o primeiro braço de negócios do CDI, o CDI Lan, que hoje congrega nada menos que 4.500 lan houses espalhadas pelo Brasil, que mobilizam mais de dois milhões de pessoas por mês.

O CDI Lan é o primeiro negócio social voltado para a legalização de lan houses, responsáveis por nada menos que 48% de todo o acesso à internet realizado em território brasileiro. Mais que ajudar a formalizar as lans e transformá-las, através de uma parceria com o Sebrae, em negócios rentáveis e legalizado, o CDI tem o compromisso de transformá-las em pontos de oferta de outros serviços que vão além da conexão à internet: nos CDI Lan o público encontra uma gama maior de produtos e serviços, como bureau gráfico, acesso a serviços de e-gov, dentre outros. A ideia é investir em capacitação, inovação e empreendedorismo, evitando que o dono da lan house desista do empreendimento e permitindo que ele continue prestando serviços à sua comunidade.

Uma pesquisa realizada pelo Sebrae-SP mostrou que 31% das empresas dessa categoria não passam do primeiro ano de existência. Outros 60% não conseguem atingir a marca de cinco anos no mercado. O que leva as lan houses a apresentarem tais fragilidades é justamente a falta de planejamento estratégico e estruturação do negócio. Cabe ao CDI Lan promover a gestão desses centros públicos de acesso pago, além de exigir a adoção de um ‘Código de Conduta’ das empresas que se afiliarem à instituição.

– As lan houses já chegam a mais de 30 milhões de pessoas. Nossa ideia é adaptar a nova conectividade e também capacitar o empreendedor, gerar valor e renda até mesmo para pessoas com baixo índice de aprendizado, como é o caso de muitos donos de lan houses. O CDI Lan tem um DNA colaborativo, de co-criação com os donos desses estabelecimentos que tem tudo a ver com o novo mundo dos negócios sociais, nos quais se alia a vontade de fazer um mundo melhor com a possibilidade de trabalhar em um empreendimento seu - diz Bernardo Faria, presidente do CDI Lan.

O CDI Lan tem como principal investidor a Vox Capital, capitaneada por Antonio Ermínio de Moraes Neto, jovem empreendedor apaixonado por negócios sociais. Aliar a paixão, o amor pelo próximo e os projetos sociais aos negócios é uma tendência que não só tem encantado as grandes empresas como tem sido uma busca constante da nova geração que nasceu e cresceu na era digital - batizada de Geração Y. E ao lado dos nativos dessa nova era, aparecem remanescentes da geração anterior, a X, que decidiram abandonar o Segundo Setor em busca de um trabalho que trouxesse satisfação pessoal e profissional. É o caso de Bernardo, que trabalhava em um grande banco e, agora, sonha com um futuro melhor para a parcela mais carente da população e mais qualidade de vida também para sua família.

- O setor 2.5 é movido por uma causa, pela paixão. E também está mais aberto, conectado, envolvido com o cliente lá na ponta - diz Bernardo.

Outro exemplo dessa paixão é o jovem Marcel Fukayama. Aos 26 anos, faz parte do empolgado time CDI Lan – é co-fundador e diretor de operações - e confessa que o trabalho com comunidades menos favorecidas é um incentivo a mais. Há três anos, depois de receber um diagnóstico de câncer (que foi vencido), ele decidiu dedicar sua vida a projetos sociais e à luta por uma realidade melhor.

- Sempre me incomodei muito com a desigualdade social e queria, de alguma forma, ajudar a mudar essa realidade. Apesar de sermos educados para prosperarmos financeiramente e poucos estimulados a pensar no coletivo, a geração Y busca a satisfação e o bem-estar pessoal antes de um alto salário – diz Marcel. - Abri mão de metade de minha renda e busquei uma organização com alto impacto na transformação social e comunitária. Tenho como missão viver com significado e mobilizar outras pessoas para que façam o mesmo e saber que estou contribuindo para um mundo melhor me traz uma satisfação pessoal única.
 

Rede CDI: um patrimônio

Tendo como fonte de inspiração o grande educador Paulo Freire, o CDI tem em sua rede o grande tesouro da organização. Em parceria com organizações de base popular, reconhecidas e respeitadas em seu local de atuação, o CDI criou espaços não formais de ensino chamados CDIs Comunidade. Hoje, são 820 escolas espalhadas por vários estados brasileiros, além de outros países.

De Paulo Freire vieram os cinco passos adotados pela metodologia de trabalho do CDI: ver o mundo, pesquisar os dados, planejar a ação, mobilizar para agir utilizando a tecnologia e avaliar o caminho percorrido. Nos CDI Comunidade, a população tem acesso a 11 cursos e 30 modalidades de serviço já sistematizados pela Rede. Eles vão desde montagem e manutenção de computadores até edição de vídeo e criação de blogs, demandas crescentes. Na parte de serviços, estruturada com base em planos de negócio, há oferta da conexão à internet (com ou sem assistência), serviços de governo eletrônico, pesquisas escolares, design gráfico, montagem e manutenção de computadores, formação de redes, elaboração de currículos, e-learning, e-health, bureau gráfico e outros.

E é do conhecimento profundo das comunidades e seus moradores que o CDI tirou mais uma fonte de renda para a sua rede: o CDI Consulting, serviço de consultoria em base da pirâmide que a entidade já oferece para grandes empresas.

- Estamos falando de uma nova onda para o terceiro setor, a grande promessa de escala e sustentabilidade para os trabalhos sociais. Com o CDI Lan, por exemplo, nosso propósito é legalizar e formalizar as LANs, que no Brasil já passam de cem mil. Não somos mais a ONG que leva computadores para a favela. Hoje, já falamos em usar a internet como ferramenta transformadora – diz Rodrigo Baggio.

Esta matéria é destaque na edição 21 de Plurale em Revista, que está circulando e foi publicado em Plurale em Site

Quinta, 17 Março 2011 18:29

Kaddafi, antes e depois

Escrito por

muammer-kaddafiPor Cesar Vanucci *

 “O povo me ama!”

(Muamar Kaddafi, num delírio megalomaníaco)

Folheio os jornais e constato que Muamar Kaddafi vem sendo classificado, agora, de megalomaníaco e sanguinário, pra ficar nos rótulos mais brandos. Mas, pera lá, quem conhece um tiquinho só da história das atrocidades cometidas por esse beduíno fanático que, há 42 anos, comanda com pulso de ferro a Líbia, sabe que ele nunca, jamais, em tempo algum, deixou de ser megalomaníaco e sanguinário, além de  outras coisas mais, aterrorizantes por igual.

Tem mais, muito mais: durante os anos 90, as grandes potências, com a sempre prestimosa cumplicidade da mídia internacional, apontavam esse déspota como um inimigo da humanidade. Em consequência de seu escancarado apoio a facções terroristas de diferentes feições, a Líbia tornou-se alvo de pesadas sanções econômicas e políticas. Houve momento até, no governo Ronald Reagan, que a Força Aérea estadunidense bombardeou locais onde se presumia o ditador libio estivesse abrigado, em represália a atentados praticados sob suas ordens que fizeram centenas de vítimas inocentes.

De repente, as conturbadas relações do complicado e truculento país árabe com o resto do mundo passaram por espantosa metamorfose. Pacto celebrado na moita com os Estados Unidos e Inglaterra, em troca de algumas “concessões” do tirano libio, garantiu a sua “reabilitação”, com a retirada de seu nome e estampa da lista dos mais notórios malfeitores da civilização contemporânea, com a ajuda mais uma vez solícita dos canais de comunicação.

Comprometendo-se a por cobro nos programas de expansão de armas de alto poder destrutivo e concordando na entrega a tribunais internacionais de elementos envolvidos em atentados terroristas contra aviões de passageiros, Kadafi obteve de seus arquiinimigos um atestado de bons antecedentes autenticado e com firma reconhecida. Isto permitiu-lhe sair do isolamento a que esteve condenado, por algum tempo, no plano internacional. Livrou-se, também, de incômodas “cobranças externas” insistentes, sobretudo dos meios de comunicação, a proposito das felonias habitualmente cometidas em sua jurisdição feudal.

Passou de abominável terrorista a aliado importante no combate ao terrorismo. Recebeu a visita de personagens ilustres dos países com os quais se reconciliou. Foi recebido, por outro lado, nesses países, sem abrir mão de suas excêntricas posturas, com inimagináveis rapapés e mesuras nobiliárquicas. Em contrapartida, assegurou condições especiais para o ingresso na exploração de petróleo e gás em território libio a empresas indicadas pelos zelosos fiadores de sua conversão aos padrões do bom mocismo. Aceitou, também, que em seu país se instalasse um dos centros clandestinos de detenção de pessoas supostamente vinculadas a movimentos terroristas. Uma versão árabe, digamos assim, de Guantanamo.

No preciso momento em que estas considerações estão sendo expendidas, o ditador libio vê-se às voltas com uma insurreição popular. Até aqui a mais prolongada e a mais feroz desse tsunami por mudanças, queira Deus, democráticas que estremece o mundo árabe. Volta a ser reconhecido pelos que “acreditavam” sinceramente em sua “regeneração”, como mostram as manchetes, como o inimigo da humanidade que nunca, na verdade, por um instante sequer, deixou de ser.

Todo mundo almeja, obviamente, sua queda, para que o planeta fique livre de mais um ditador sanguinário. Os viventes de boa memória não conseguem se esquecer de que a história de Kaddafi guarda muitos pontos de similitude com as histórias dos não menos sinistros Sadam Hussein e Osama bin Laden.

* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) é jornalista e escreve para o Blog semanalmente.

Quinta, 17 Março 2011 13:37

Cuidado, estamos respirando a morte!

Escrito por

Viver no presente momento é administrar o perigo.

Paiva Netto*

 Atualmente, em vastas regiões da Terra, o simples ato de respirar corresponde à abreviação da vida. Sofrimentos de origem pulmonar e alérgica crescem em progressão geométrica. Hospitais e consultórios de especialistas vivem lotados com as vítimas das mais diferentes impurezas.

Abeirar-se do escapamento de um veículo é suicídio, tal a adulteração de combustível vigente por aí. Isso sem citar os motores desregulados...

 Cidades assassinadas

Quando você se aproxima, por estrada, via aérea ou marítima, de grandes centros populacionais do mundo, logo avista paisagem sitiada por oceano de gases nocivos.

Crianças e idosos moram lá... Merecem respeito.

No entanto, de maneira implacável, sua saúde vai sendo minada. A começar pela psíquica, porquanto as mentes humanas vêm padecendo toda espécie de pressões. Por isso, pouco adiantará cercar-se de muros cada vez mais altos, se de antemão a ameaça estiver dentro de casa, atingindo o corpo e a psicologia do ser.

Em cidades praieiras, a despeito do mar, o envenenamento atmosférico avança, sem referência à contaminação das águas e das areias... O que surpreende é constituírem, muitas delas, metrópoles altamente politizadas, e só de algum tempo para cá seus habitantes na verdade despertarem para tão terrível risco.

Despoluir qualquer área urbana ou rural deveria fazer parte do programa corajoso do político que realmente a amasse. Não se pode esperar que isso apenas ocorra quando se torna assunto lucrativo. Ora, nada mais proveitoso do que cuidar do cidadão, o Capital de Deus.

As questões são múltiplas, mas esta é gravíssima: estamos respirando a morte. Encontramo-nos diante de um tipo de progresso que, ao mesmo tempo, espalha ruína. A nossa própria.

Comprova-se a precisão urgente de ampliar em largo espectro a consciência ecológica do povo, antes que a queda de sua qualidade de vida seja irreversível. Este tem sido o desafio enfrentado por vários idealistas pragmáticos.

Entretanto, por vezes, a ganância revela-se maior que a razão. O descuido no preparo de certas comunidades, para que não esterilizem o solo, mostra-se superior ao instinto de sobrevivência.(...)

A poluição que chega antes — A infinidade de poluições que vêm prejudicando a vida de cada um deriva da falência moral que, de uma forma ou de outra, inferniza a todos.

Viver no presente momento é administrar o perigo. Mas ainda há tempo de acolhermos a asserção de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944): “É preciso construir estradas entre os homens”.

Realmente, porque cada vez menos nos estamos encontrando nos caminhos da existência como irmãos. Longe da Fraternidade, não desfrutaremos a Paz.

 

José de Paiva Netto —Diretor Presidente da LBV.

lista_livrosPor Ricardo Voltolini*

O primeiro artigo da coluna Pensamento Sustentável de 2011, com o título “Para botar em dia a leitura sobre sustentabilidade”, gerou elogios, bons comentários e uma provocação que invariavelmente sucede a publicação de textos sobre livros, mas também filmes e até empresas sustentáveis. Resultado da fixação das pessoas por listas e rankings – que o sociólogo italiano Umberto Eco capturou bem no seu mais recente livro, a Vertigem das Listas -, alguns leitores cobraram deste especialista a indicação de um ranking dos “10 melhores livros” já publicados sobre sustentabilidade.

Tarefa complexa, por três razões. Primeira: sustentabilidade é um campo de conhecimento novo, multidisciplinar e compreende uma infinidade de subtemas e enfoques que, para serem perscrutados em sua totalidade, exigiriam um conhecimento, na maioria dos casos, muito específico em cada uma das diferentes Ciências – Exatas, Biológicas e Humanas. Em segundo lugar: a “audácia” de escolher os “10 melhores” só pode ser cometida, a rigor, por alguém que tenha lido senão todos, a grande maioria dos títulos sobre o tema. Não é o meu caso. Não creio que seja o de ninguém.

Em terceiro: à falta óbvia de indicadores objetivos e universalmente consagrados (maior vendagem não significa necessariamente maior qualidade), o processo de seleção de livros é e sempre será algo subjetivo. Livros diferentes provocam impactos diferentes em diferentes leitores.

Feitas tais ressalvas, e afastada, portanto, a pretensão de parir “a” lista, fico à vontade para eleger os “meus” 25 melhores de sustentabilidade. O leitor certamente terá os dele.

Para essa tarefa, convém recorrer a Waine Visser, professor do programa de Liderança em Sustentabilidade da Universidade de Cambridge, que já se deu ao trabalho de elaborar uma lista. Tem sua coordenação uma obra chamada Top 50 Livros de Sustentabilidade (editora Greenleaf, 2009). A partir de uma pesquisa feita com cerca de três mil líderes, ex-alunos da famosa universidade, Visser levantou os 50 melhores livros (veja lista ao final do artigo), registrando, nesse inusitado compêndio, o que considera o melhor do pensamento já produzido em sustentabilidade. Muitos desses livros já foram publicados no Brasil. A maioria pode ser obtida pela Amazom.com.

Uma segunda lista merece menção. Trata-se daquela em que a WiseEarth recomenda as 25 melhores obras (ver também ao final do artigo). Fundada por Paul Hawken, autor do famoso Ecologia do Comércio, um clássico lembrado com justiça na lista, essa organização global com mais de 20 mil integrantes se propõe a conectar pessoas interessadas na sustentabilidade. É uma comunidade de gente antenada com o tema.

Cruzando as duas listas, a acadêmica e a de especialistas, há seis livros comuns, cinco dos quais figuram no meu ranking pessoal dos “imprescindíveis.” Quatro estão na categoria “clássicos”, pois marcaram época, representando importante avanço no debate sobre as questões ambientais: (1) Do Berço ao Berço, de William McDonough e Michael Braungart; (2) Capitalismo Natural, de Paul Hawken, Amory e Hunter Lovins; (3) Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, e ainda (4) A Ecologia do Comércio, de Hawken – este último livro, vale lembrar, influenciou decisivamente Ray Anderson na famosa revolução verde que ele promoveu em sua InterfaceFlor. O quinto título, Colapso, de Jared Diamond, associa a extinção de algumas civilizações com desrespeito aos limites do meio ambiente.

Dos “top 50” da Universidade de Cambridge, incluiria na minha lista seis “clássicos”: (1) Gaia, de James Lovelock; (2) Small is Beautiful, de EF Schumacher; (3) Nosso Futuro Comum, de Gro Bruntland; (4) Desenvolvimento como Liberdade, de Amartya Sen, (5) Banqueiro dos Pobres, de Muhamad Yunus; e (6) Canibais com Garfo e Faca, de John Elkington. E também outras sete obras que considero, cada uma a seu modo particular, provocativas e inspiradoras. São elas: (1) O Relatório Stern, de Nicholas Stern; (2) O Capitalismo na Encruzilhada, de Stuart Hart; (3) O Fim da Pobreza, de Jefrrey Sachs; (4) Riqueza na Base da Pirâmide, de C.K. Prahalad e (5) o inspirador Espírito Ávido, de Charles Handy. Os outros dois, (6) A Corporação, de Joel Bakan, e (7) Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore, acabaram transpostos para o cinema, resultando em filmes polêmicos e interessantes.

Dos “top 25” da WiseEarth, tomo de empréstimo três para a minha estante essencial: (1) A Economia Verde, de Joel Makower; (2) A Vantagem da Sustentabilidade, de Bob Willard e (3) Plano B 4.0 – livro que tive a honra de editar no Brasil, em 2011, pela Ideia Sustentável.
Não constam de nenhuma das duas listas, mas certamente não faltariam na minha cesta básica da bibliografia da sustentabilidade, outros quatro títulos: (1) Inteligência Ecológica, de Daniel Goleman; (2) The Natural Step, de Karl-Henrik Robert; (3) A Empresa Sustentável, de Andrew Savitz; (4) Verde que Vale Ouro, de Daniel Easty e Andrew Winston.
Se essa lista servir para provocar o debate sobre livros, já terá cumprido sua função. Listas não devem ser objeto de consenso. Monte você também a sua. E, mais do que isso, comece a ler os livros que vão fazer diferença na sua formação.
Em artigos posteriores, contextualizarei e justificarei algumas das minhas escolhas.

A lista Top 50 de Cambridge

(1) O Banqueiro dos Pobres, Muhammad Yunus (1999)
(2) Biomimetismo, Janine Benyus (2003)
(3) Blueprint para uma Economia Verde, David Pearce, Markandya Anil e Edward B. Barbier (1989)
(4) Business as Insólito, Anita Roddick (2005)
(5) Canibais com Garfo e Faca, John Elkington (1999)
(6) Capitalismo: Como se o Mundo Importa, Jonathon Porritt (2005)
(7) O Capitalismo na Encruzilhada, Stuart Hart (2005)
(8) Mudando o Rumo: uma Perspectiva Empresarial Global sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, Stephan Schmidheiny e o WBCSD (1992)
(9) O Ponto do Caos: o Mundo na Encruzilhada, por Ervin Laszlo (2006)
(10) A Corporação Civil: A Nova Economia da Cidadania Empresarial, Simon Zadek (2001)
(11) Colapso, Jared Diamond (2005)
(12) A Corporação, Joel Bakan (2005)
(13) Do Berço ao Berço, William McDonough e Michael Braungart (2002)
(14) O Sonho da Terra, Thomas Berry (1990)
(15) Desenvolvimento como Liberdade, por Amartya Sem (2000)
(16) A Ecologia do Comércio, Paul Hawken (1994)
(17) A Economia das Alterações Climáticas: o Relatório Stern, Nicholas Stern (2007)
(18) O Fim da Pobreza, Jeffrey Sachs (2005)
(19) Fator Quatro: um Relatório para o Clube de Roma, Ernst VonWeizsäcker, Amory B. Lovins e L. Hunter Lovins (1998)
(20) O Falso Amanhecer: os Equívocos do Capitalismo Global, John Gray (2002)
(21) Fast Food Nation, Eric Schlosser (2005)
(22) Um Destino Pior que a Dívida: a Crise Financeira Mundial e os Pobres, Susan George (1990)
(23) Para o Bem Comum: o Redirecionamento da Eeconomia para Comunidade, Meio Ambiente e Futuro Sustentável, Herman Daly e John Cobb (1989)
(24) Riqueza na Base da Pirâmide, CK Prahalad (2004)
(26) Gaia, James Lovelock (1979)
(27) A Globalização e os seus Malefícios, Joseph Stiglitz (2002)
(28) Calor: Como Parar a Queima do Planeta, George Monbiot (2006)
(29) Escala de Desenvolvimento Humano: Concepção, Aplicação e as Novas reflexões, Manfred Max-Neef (1991)
(30) O Espírito Ávido, Charles Handy (1999)
(31) Uma Verdade Inconveniente, Al Gore, 2006
(32) Os Limites do Crescimento, Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jorgen Randers (1972)
(33) Maverick, Ricardo Semler (1993)
(34) O Mistério do Capital: Por que o Capitalismo Triunfa no Oeste e Falha em Toda a Parte, Hernando De Soto (2000)
(35) Capitalismo Natural, Paul Hawken, Amory Lovins e L. Hunter Lovins (2000)
(36) Sem Logo, Naomi Klein (2002)
(37) Sociedade Aberta: Reformar o Capitalismo Global, George Soros (2000)
(38) Manual de Operação para Espaçonave Terra, Buckminster Fuller (1969)
(39) Nosso Futuro Comum, pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1987)
(40) The Population Bomb, Paul Ehrlich (1968)
(41) Presença, Peter Senge, Otto Scharmer, Joseph Jaworski e Betty Sue Flowers (2005)
(42) A River Runs Black: O Desafio Ambiental para o Futuro da China, Elizabeth C. Economy (2004)
(43) Sand County Almanac, Aldo Leopold (1949)
(44) Primavera Silenciosa, Rachel Carson (1962)
(45) O Ambientalista Cético, Bjorn Lomborg (2001)
(46) Small is Beautiful, EF Schumacher (1973)
(47) Staying Alive: Mulher, Ecologia e Desenvolvimento, por Vandana Shiva (1989)
(48) The Turning Point, Fritjof Capra (1984)
(49) Unsafe at Any Speed, Ralph Nader (1965)
(50) Quando as Corporações Regem o Mundo, David Korten, 2001

Os Top 25 da WiseEarth

(1) Biomimetismo, Janine Benyus (2003)
(2) Confissões de um Industrial Radical, Ray Anderson (2009)
(3) Do Berço ao Berço, William Mc Donough e Michael Braungart (2002)
(4) Capitalismo Natural, Paul Hawken, Amory e Hunter Lovins (2000)
(5) Primavera Silenciosa, Rachel Carson (1962)
(6) Estratégia para a Sustentabilidade, Adam Werbach (2009)
(7) A Economia Verde, Joel Makower (2009)
(8) Indicadores de Sustentabilidade: Medindo o Imensurável?, Simon Bell e Stephen Morse (1999)
(9) Valor Sustentável, Chris Lazlo (2008)
(10) A Ecologia do Comércio, Paul Hawken (1994)
(11) O Fim da Natureza, Bill McKibben (1989)
(12) O Colar da Economia Verde, Van Jones (2008)
(13) The Natural Step for Business, Brian Nattrass e Mary Altomare (1999)
(14) A vantagem da Sustentabilidade, Bob Willard (2002)
(15) Tripple Bottom Line, de Andrew Savitz e Karl Weber (2006)
(16) A verdade sobre o Green Business, Gil Friend, Nicholas Kordesch e Benjamin Privitt (2009)
(17) Walking the Talk, Chad Holliday, Stephan Schimidheinny e Philip Watts (2002)
(18) Capitalismo: Como se o Mundo Importa, Jonathon Porrit (2005)
(19) Colapso, Jared Diamond (2005)
(20) Criando um Negócio Social, Muhammad Yunus (2009)
(21) Prosperidade sem Crescimento, Tim Jackson (2009)
(22) O Zeedbook: Soluções para um Mundo Cada Vez Menor, Dunster, Simmons & Gilbert (2007)
(23) Plenitude: a Nova Economia da Verdadeira Riqueza, Juliet Schor (2010)
(24) Plano B: 4.0, Lester Brown (2009)
(25) Permacultura, David Holmgren (2001)

* Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Sustentável e diretor da consultoria Ideia Sustentável.

PlanetaPor Jeffrey Sachs, da Al Jazeera

O mundo está rompendo os limites no uso de recursos. Com a economia mundial crescendo a 4-5% ao ano, estará num caminho para dobrar de tamanho em menos de vinte anos. Os 70 trilhões de dólares da economia mundial serão 140 trilhões, antes de 2030, e 280 trilhões antes de 2050, em caso de extrapolarmos as taxas de crescimento de hoje. Nosso planeta não suportará fisicamente esse crescimento econômico exponencial, se deixarmos a ganância levar vantagem. O crescimento da economia mundial já está esmagando a natureza.

O maior líder moral da Índia, Mahatma Gandhi tem a famosa máxima segundo a qual há o suficiente na Terra para suprir as necessidades de todo mundo, mas não para as ganâncias de todo mundo. Hoje, o insight de Gandhi está sendo posto em teste mais do que nunca.

O mundo está rompendo os limites no uso de recursos. Estamos sentindo diariamente o impacto de enchentes, tempestades e secas – e os resultados aparecem nos preços no mercado. Agora nosso destino depende de se cooperamos ou ficamos vítimas da ganância autodestrutiva.

Os limites da economia global são novos, resultam do tamanho sem precedentes da população mundial e da disseminação sem precedentes do crescimento econômico em quase todo o mundo. Há no momento sete bilhões de pessoas no planeta; há meio século, eram três bilhões. Hoje, a renda média per capita está em torno de 10 mil dólares; no mundo rico, em torno de 40 mil dólares, e no mundo em desenvolvimento, em torno de 4 mil. Isso significa que a economia mundial está agora produzindo em média 70 trilhões de dólares em rendimentos totais por ano, comparados a algo como 10 trilhões, em 1960.

A economia da China está crescendo em torno de 10% ao ano. O crescimento da Índia está próximo do mesmo índice. A África, a região com o crescimento mais lento, está batendo a casa dos 5% no crescimento anual do PIB. Sobretudo os países em desenvolvimento estão crescendo em torno de 7% ao ano, e as economias desenvolvidas em torno de 2%, mantendo o crescimento global em algo como 4,5%.

Ganância ou crescimento


Essas são boas notícias em vários aspectos. O rápido crescimento econômico nos países em desenvolvimento está aliviando a pobreza. Na China, por exemplo, a pobreza extrema diminuiu bem mais da metade da população, e hoje atinge 10% ou menos da população.

Há no entanto um outro lado da história do crescimento global que devemos entender claramente. Com a economia mundial crescendo a 4-5% ao ano, estará num caminho para dobrar de tamanho em menos de vinte anos. Os 70 trilhões de dólares da economia mundial serão 140 trilhões, antes de 2030, e 280 trilhões antes de 2050, em caso de extrapolarmos as taxas de crescimento de hoje.

Nosso planeta não suportará fisicamente esse crescimento econômico exponencial, se deixarmos a ganância levar vantagem. O crescimento da economia mundial já está esmagando a natureza hoje, depredando rapidamente as fontes de combustível fóssil que a natureza levou milhões de anos para criar, enquanto o clima resultante da mudança climática tem gerado instabilidades massivas em termos de regime de chuvas, de temperatura e de tempestades extremas.

Vemos diariamente essas pressões no mercado. O preço do petróleo chegou a mais de 100 dólares o barril, enquanto China, Índia e outros países importadores se juntam aos EUA, num negócio massivo, para comprar combustível, especialmente do Oriente Médio. O preço dos alimentos também está em patamares históricos, contribuindo com a pobreza e a instabilidade política.

Esgotamento ambiental


Por um lado, há mais bocas para alimentar e, em geral, com maior poder aquisitivo. Por outro, ondas de calor, secas, enchentes e outros desastres induzidos pela mudança climática estão destruindo safras e reduzindo os estoques de grãos nos mercados mundiais. Nos últimos meses, várias secas atingiram a produção de grãos de regiões da Rússia e da Ucrânia, e enchentes enormes ocorreram no Brasil e na Austrália; agora, outra seca está ameaçando o cinturão de grãos da China.

Há algo mais do que a visão de que isso é muito perigoso. Em muitas partes populosas do mundo, inclusive em regiões de produção de grãos no nordeste da Índia, da China e no Meio Oeste dos EUA fazendeiros estão cavando cada vez mais fundo para irrigar suas lavouras.

Os grandes aquíferos que forneciam água para irrigação estão sendo esvaziados. Em alguns lugares da Índia, o nível das águas está baixando vários metros anualmente nos últimos anos. Alguns poços estão próximos da exaustão, com uma salinidade tão alta que parece que infiltraram águas oceânicas no aquífero.

Se não mudarmos, uma calamidade é inevitável. E é aqui que entra Gandhi. Se nossas sociedades estão correndo segundo o princípio da ganância, com os ricos fazendo de tudo para ficarem mais ricos, a crescente crise de recursos levará a uma ampla divisão entre ricos e pobres – e muito possivelmente a uma crescente luta por sobrevivência.

Conflito de classes

Os ricos tentarão usar seu poder para dominar mais terra, mais água e mais energia para si mesmos, e muitos vão dispor de meios violentos para fazê-lo, se necessário. Os EUA já seguiram a estratégia de militarização no Oriente Médio, na esperança ingênua de que esse tipo de abordagem pode assegurar fornecimento de energia. Agora, a competição por esses suprimentos está se intensificando com a China, Índia e outros, na corrida pelos mesmos (em vias de esgotamento) recursos.

Um poder análogo de captura de recursos está sendo tentado na África. O aumento dos preços de alimentos está levando a um aumento do preço das terras, enquanto políticos poderosos vendem a investidores estrangeiros vastas fazendas, varrendo do mapa as agriculturas tradicionais e os direitos dos pequenos agricultores. Investidores estrangeiros esperam usar grandes fazendas mecanizadas para produzir para exportação, deixando pouco ou nada para as populações locais.

Em toda parte nos grandes países – EUA, Reino Unido, China, Índia e outros – os ricos têm desfrutado de renda elevada e do aumento de poder político. A economia dos EUA foi sequestrada por bilionários, pela indústria do petróleo e outros setores chave. A mesma tendência ameaça as economias emergentes, onde a riqueza e a corrupção estão em alta.

Se a ganância vencer, a máquina do crescimento econômico depredará os recursos, deixará os pobres de lado e nos conduzirá a uma profunda crise social, política e econômica. A alternativa é um paradigma de cooperação social e política, tanto no interior dos países, como internacionalmente. Haverá recursos suficientes e prosperidade para seguir em frente, se convertermos nossas economias em fontes renováveis de energia, em práticas agrícolas sustentáveis e numa taxação razoável dos ricos. Este é o caminho da prosperidade compartilhada, por meio do avanço tecnológico, da justiça política e da consciência ética.

*Jeffrey D. Sachs é professor de Economia e diretor do Instituto Terra da Universidade Columbia. Ele também é conselheiro especial da Secretaria Geral das Nações Unidas para as Metas do MIlênio.

Tradução: Katarina Peixoto

Quinta, 10 Março 2011 19:09

Foliões da Bondade

Escrito por

Paiva Netto

Neste tempo de folia, aproveitemos para participar do Carnaval da Bondade, da generosidade, da solidariedade, do apreço pelas Criaturas Humanas. Na LBV não somos contra a alegria, apenas continuamos atentos aos que padecem, porque a dor surge em qualquer ocasião. Mesmo neste período, os hospitais permanecem ocupados. Nas casas de saúde, nas prisões, quantos lamentam a separação dos entes queridos! E, nas ruas, diversos choram por negado lhes ser um teto ou, embora tendo um, faltar-lhes, às vezes, uma verdadeira afeição, o abrigo aconchegante de um sentimento benfazejo. Outros se machucam na demasia, principalmente no campo sexual. Isso é resultado de querer apartá-lo do amor, do afeto. O que tem sido um terrível golpe na alma da Humanidade. Os efeitos aí se encontram, à vista de todos, pois sexo se faz com o coração. Um dia, multidões haverão de assim compreendê-lo, e então a felicidade baterá à porta sem consumir-se logo na entrada.

 Liberdade depreende temperança

Também durante o reinado de Momo, a mesa está posta por Jesus àqueles que anseiam alimentar-se do Seu Evangelho, do Seu Apocalipse e das Suas palavras por intermédio dos profetas no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada. A ceia prossegue ofertada, como na Igreja em Laodiceia (Apocalipse, 3:14 a 22). Jesus bate, abramos-Lhe o caminho para que, com Ele, possamos usufruir o alimento e a água espirituais que nos bastarão, e nunca mais sentiremos fome nem sede do que nos faz fortes.

Deus respeita o livre-arbítrio. Que mais deseja o Ser Humano senão liberdade? Contudo, ela depreende temperança, e, não, pôr a casa do vizinho abaixo. A sabedoria espiritual ensina que “a semeadura (isto é, o que concretizamos com nossas escolhas) é livre, mas a colheita, obrigatória”. Do contrário, seria o reino desbragado da impunidade, que corrói países tal qual caruncho ou cupim, como vemos agora pelo mundo. Grandes estruturas se desfazem por causa da inconsequência que convoca a ação urgente da justiça perfeita, tornando melhores as nações, por força do Amor ou da aflição.

O governo da Terra começa no Céu

Quando firmada no Cristo Estadista, a disposição cresce, expande-se. Ao seu labor são atraídos todos os que têm algo a oferecer, porquanto se acham na faixa acertada, que nos convida à sintonia com o Mundo Espiritual elevado. De lá nos vêm as intuições benéficas para a vida em sociedade. Os amigos do plano ainda invisível, os Anjos da Guarda, não esperam ser apenas meros acompanhantes, mas, sim, copartícipes realizadores.

A Humanidade caminha para o seu belo destino. Todavia, primeiro, tem de descobrir e convencer-se de que o governo da Terra começa no Céu. Portanto, negar a priori a realidade do Mundo dos Espíritos é um equívoco. O que isso tem a ver com o carnaval?! Tudo! Esclarecidos sobre os assuntos relativos à nossa essência eterna, a diversão sadia e solidária norteará o comportamento dos novos foliões da Bondade.


José de Paiva Netto é Diretor Presidente da LBV.

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. — www.boavontade.com

Terça, 08 Março 2011 17:17

Hipnose e terapia

Escrito por

Hipnose2Por Cesar Vanucci *

São muitas as terapias alternativas
 a serem ainda inseridas no arsenal da medicina.”

(Antônio Luiz da Costa, professor)

Intriga-me há décadas a inexistência, fácil de comprovar, de interesse maior por parte do sistema médico de assistência, no tocante às possibilidades de emprego da hipnose em larga escala, como eficiente instrumento terapêutico. A curiosidade de repórter conduziu-me, já há algum tempo, à constatação tranquila de que o processo hipnótico, conduzido por pessoal qualificado, costuma funcionar admiravelmente bem. Proporciona certeiramente benefícios às pessoas que, superando resistências nascidas de preconceitos, se animem a utilizá-lo.

À vista de tal convencimento, celebrei como avanço significativo uma notícia relativa a experiências com hipnose que vêm sendo feitas nalguns centros médicos objetivando o alívio das dores e mal estar provocados pela quimioterapia em pacientes oncológicos. Não consegui, a bem da verdade, captar a informação por inteiro, só fragmento dela. Mas o que deu pra ouvir, num programa de tevê recente, já foi de razoável tamanho, representou um bom sinal. Um indicador de que o preconceito, a restrição, ou outro nome qualquer que se dê a essa postura de não aceitação da hipnose como fórmula coadjuvante em tratamento da saúde, podem vir a ser definitivamente quebrados. Como aconteceu, aliás, em tempos não tão distantes, com a acupuntura. Uma técnica terapêutica milenar conservada também por largo período numa inexplicável “quarentena”, embora, mesmo ainda hoje, não seja processada com a intensidade e extensão recomendáveis, levados em conta os efeitos positivos que comprovadamente propicia.

Mas o caso a festejar é que a hipnose começa, pelo visto, a desbravar caminhos. Começa a ser visualizada, por muitos na esfera científica, como instrumento terapêutico e não mais como um mero exercício exótico de consequências penumbrosas e, de certo modo, amedrontadoras. É o que acabará acontecendo também, mais cedo ou mais tarde, com outras modalidades de ações preventivas e curativas ancoradas em aplicações de energias sutis. Energias essas, também, até aqui, mantidas à margem das cogitações nos círculos científicos ortodoxos, seja como material substancioso de estudo, menos ainda como hipótese de trabalho.

Trago aqui, como fruto de observações pessoais, contribuição singela ao debate que porventura possa ser suscitado por essa revelação concernente ao emprego da hipnose na área oncológica. Travei conhecimento bem de perto com a surpreendente e singular capacidade de algumas pessoas especiais na lida com as chamadas energias sutis. A hipnose entre elas. De uma dessas pessoas guardo lembranças imorredouras. Uma criatura extraordinária. Sabedoria incomum, cultura fulgurante. Hábitos franciscanos, em vivência encharcada de apostolicidade. Soberbo orador. Fala eletrizante, fustigante se preciso, no tom, tamanho e hora certos, adequada ao momento, à platéia, à faixa etária, ao ambiente cultural.

Estou falando de um certo Dom. Alexandre Gonçalves Amaral, Arcebispo de Uberaba, falecido em 2002, lidava admiravelmente bem com essas energias. Os resultados dessa lida, que soavam desconcertantes em ambientes leigos, ele os situava nos domínios da ciência pura. Passo a contar algumas (das numerosissimas) intervenções por ele feitas tendo por base sua condição de hipnotizador. A esposa do escritor e jornalista Mário Salvador, ex-presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, estava atacada há anos de bursite. “Injeções, aplicações e mil coisas não vinha dando resultado”, relata o próprio Salvador. Alexandre ofereceu-se para resolver o caso. Hipnose seguida de toques na parte afetada. Poucos minutos de aplicações foram suficientes para debelar o mal. “Nunca mais – o escritor ainda com a palavra – a bursite amolou a patroa.” O mesmo Salvador reporta-se ao ocorrido com uma filha, também levada a submeter-se a transe hipnótico. A garota tinha pavor de barata. “Posso fazer com que ela perca o medo”, asseverou Alexandre. Dito e feito. A “aversão ao bicho” acabou de um dia para o outro.

Eu, por minha vez, testemunhei cenas em que pessoas hipnotizadas por Alexandre permaneciam suspensas entre duas cadeiras, a cabeça de um lado, os pés do outro, o corpo enrijecido no vácuo, suportando mesmo que fossem franzinas carga de peso inacreditável. Testemunhei igualmente o caso de uma freira dominicana com inchação descomunal na face, às voltas com dolorosa infecção dentária que lhe arrancava gemidos ao mais leve sopro de vento. Alexandre acompanhou-a para atendimento no consultório odontológico do dr. Adão Champs, em Uberaba. Sob efeitos da hipnose, a religiosa foi submetida a tratamento complexo, que se arrastou por um bocado de tempo e que à primeira vista parecia desprovido de qualquer viabilidade. A paciente não esboçou o menor sinal de reação dolorida no curso do extenuante processo. Melhor de tudo: deixou a cadeira do dentista liberta do mal que a agoniava.

É isso ai, gente boa. Hipnose é coisa importante.

* É jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ), mineiro, que colabora semanalmente com seus artigos para o Blog Viva Pernambuco. Seus artigos e outros textos podem ser conferidos também no Blog http://vanucci-jornaldovanucci.blogspot.com.

Domingo, 27 Fevereiro 2011 14:51

Anseios ardentes

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

Sem essa de ditadura melhor
ou de ditadura pior. Nenhuma ditadura presta
.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Os anseios ardentes dos autênticos democratas no mundo inteiro são no sentido de que a misericórdia de Alá poupe o povo egípcio da praga de uma nova ditadura. As ameaças de que algo tão insano possa vir a ocorrer não devem ser descartadas assim sem mais nem menos. O clamor libertário que invadiu as ruas e continua a sacudir as estruturas feudais do mundo árabe corre algum risco de se ver, de repente, sufocado pela voragem de acontecimentos situados à deriva da vontade majoritária das populações inconformadas.

A sociedade egípcia sempre viveu sob a guante do despotismo. O regime que se sucedeu à monarquia caquética do rei Farouk assumiu, de princípio, posições nacionalistas que insuflaram o orgulho árabe. Mas não abriu mão, em instante algum, de conservar sob severo controle todo tipo de manifestação da sociedade, reprimindo com virulência protestos e discordâncias. O autoritarismo de Nasser foi absorvido como legado valioso por Sadat e, depois, transferido a Mubarak. A Junta que hoje detém o comando do país representa o poderoso braço militar que garantiu, ao longo (e bota longo nisso) de todo esse tempo, a sustentação do sistema repudiado nessa avalancha de insatisfação popular.

Muitos analistas alimentam, à vista disso, temores de que as promessas de mudanças não se concretizem de imediato, como desejado. O anúncio de algumas reformas sem se avançar na essência dos problemas poderia ser feito com o maroto propósito de não se fazer reforma fundamental alguma. O que acabaria subsistindo, nessa hipotética amarga alternativa, seria apenas uma mera troca de guarda, com os detentores do poder esmerando-se em arranjar denominação diversa, nos atos praticados, para procedimentos detestáveis herdados dos antecessores.

Outra ameaça potencial que os democratas temem, na heróica luta movimentada com fervor e pureza de intenções por parcelas majoritárias da sociedade egípcia, consiste no apetite voraz pela conquista do poder que embala grupos fundamentalistas radicais islâmicos. Esses grupos integram a frente popular que clama nas praças públicas pelas reformas. A visão retrograda que os membros desses segmentos fanatizados têm das coisas do mundo acena fatalmente com o advento de uma era trevosa, caso se viabilizasse a hipótese, altamente indesejável, de conseguirem galgar, por alguma distorção do processo em marcha, o comando político do país.

As avaliações que se tem do perturbador contexto político egípcio se encaixam também na realidade política vivida pelos demais países do convulsionado mundo árabe. A expectativa dos amantes da paz e dos adeptos da causa democrática é de que o movimento mudancista, de características genuinamente populares, que tomou as ruas árabes saiba impor suas regras e emergir amplamente vitorioso dos debates ora  travados a respeito dos rumos a serem trilhados. E que deixe claramente explicitada sua vigorosa postura, antagônica a qualquer manifestação de tendência totalitária que pinte no pedaço.

Das grandes potências o que se aguarda é que se abstenham do frenético afã de garantir alianças de duvidosa eficácia em suas estratégias geopolíticas. Que quebrem a regra de estimular ações que se interponham ao andamento normal do processo de formação das estruturas democráticas almejadas pela maioria. Uma lição que precisa ser aprendida vez por todas: firmar acordos com governos legitimamente constituídos é o melhor meio de se preservar a paz e de se trabalhar pelo bem estar humano.

* Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) e escreve semanalmente para o Blog.

Quarta, 23 Fevereiro 2011 11:14

O mundo nasceu com a música

Escrito por

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Paiva Netto

Refletindo sobre em que períodos a música se vem decisivamente manifestando pelas eras, podemos concluir que ela existe desde antes dos tempos. De fato, é instrumento dessa grande obra-prima do Pai Celestial, o Universo.

Ao lermos os capítulos iniciais do Gênesis mosaico, sentimos a forte harmonia nascida do surgimento dos rios, das árvores, dos animais, da separação das terras, da expansão dos mares e da própria formação do nosso Espírito eterno.

A partir daí, é possível estabelecer diversos e significativos momentos em que a música se casa com a história das muitas civilizações e correntes de pensamento que dão vida à Terra. (...) A boa música é um elo inquebrantável que une a criatura ao Criador.

Diante disso, temos a noção exata de que o pulsar da Vida, o Bem, a Solidariedade, o Respeito e a Caridade são igualmente melodias, sons, ritmos que afinam nossos pensamentos, palavras e ações pelo diapasão da Justiça e do Amor.

 

DEUS EM CADA CRIATURA

Aproveito o ensejo para agradecer a correspondência que recebi da professora Adriane Schirmer, de São Paulo/SP, na qual comenta sobre minha modesta produção: “Gostaria de parabenizá-lo por suas melodias. Tocam profundamente nossa Alma e despertam em nós os melhores sentimentos. Valem por uma súplica, uma oração ao Pai Celestial. Quando as entoamos, sentimos, tal qual nos momentos de prece, o coração limpo. E, quando isso acontece, vemos Deus em cada criatura, em cada planta, em cada pôr do sol... Assim, de coração limpo e Alma ajoelhada, nos tornamos aptos a aprender a amar sem imposições, a amar com o Amor de Jesus”.

 

MÚSICA E MEDICINA

Grato, leitora Adriane, inclusive por me ter encaminhado o belo texto de apresentação da obra “O Médico”, do meu amigo Rubem Alves, intelectual, teólogo e até foi dono de restaurante. É um brasileiro múltiplo.

 “Instrumentos musicais existem não por causa deles mesmos, mas pela música que podem produzir. Dentro de cada instrumento há uma infinidade de melodias adormecidas, à espera de que acordem do seu sono. Quando elas acordam e a música é ouvida, acontece a Beleza e, com a Beleza, a alegria. O corpo é um delicado instrumento musical. É preciso cuidar dele, para que ele produza música. Para isso, há uma infinidade de recursos médicos. E muitos são eficientes. Mas o corpo, esse instrumento estranho, não se cura só por aquilo que se faz medicamente com ele. Ele precisa beber a sua própria música. Música é remédio. Se a música do corpo for feia, ele ficará triste — poderá mesmo até parar de querer viver. Mas se a música for bela, ele sentirá alegria e quererá viver. Em outros tempos, os médicos e as enfermeiras sabiam disso. Cuidavam dos remédios e das intervenções físicas — bons para o corpo — mas tratavam de acender a chama misteriosa da alegria. Mas essa chama não se acende com poções químicas. Ela se acende magicamente. Precisa da voz, da escuta, do olhar, do toque, do sorriso. Médicos e enfermeiras: ao mesmo tempo técnicos e mágicos, a quem é dada a missão de consertar os instrumentos e despertar neles a vontade de viver...”.

Fica aqui então minha homenagem aos bons músicos, bons criadores de instrumentos musicais e, é claro, aos bons médicos e enfermeiras.

José de Paiva Netto - Diretor Presidente da LBV

Terça, 22 Fevereiro 2011 01:16

Lógica coronelística

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

Uma nódoa da civilização é o apoio de países que pregam
 a democracia a ditaduras corrompidas e sanguinárias
.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Amigo não tem defeito. Inimigo, se não tem, eu boto. Para a maior parte das pessoas, tais frases, de enunciação simplória, dir-se-á mesmo folclórica, traduzem uma lógica política vigorante apenas em arraiais coronelísticos. Mas a história, desde que contada por inteiro, não é bem assim. Não poucos redutos políticos refinados, até mesmo no plano internacional, costumam pautar também suas ações por essa destrambelhada lógica. É só por tento no que vem relatado no noticiário nosso de cada dia.

Convido o distinto leitor a um esforço de memória pra ver só como os exemplos naturalmente afloram. Das ladeiras da memória recolho uma historinha emblemática. Transcorrida décadas atrás, conserva frescor atual quando comparada com episódios contemporâneos. Naquela importante cidade interiorana, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro, de orientação getulista), à época majoritário em todas as esferas de representação municipal, partiu-se ao meio. Uma ala do partido, comandada por médico que já ocupara o cargo de Prefeito, transferiu-se de mala e cuia, como era de bom tom dizer-se em tempos passados, para a UDN (União Democrática Nacional).

Nessa agremiação se congregavam, naquele tempo, os mais rancorosos adversários do petebismo. Não demorou nadica de nada para que o ex-prócer trabalhista que se bandeou para a “falange inimiga” deixasse de ser tratado pelos recém-correligionários como “Gregório branco” (alusão pejorativa inspirada no célebre guarda-costas de Getulio Vargas) e passasse a ser enaltecido, em verso e prosa, por tudo quanto é canto, como “médico humanitário, adorado pela gente humilde.”

Quantas vezes já não assistimos, vida afora, filmes com esse sugestivo enredo, não importa se em preto e branco, em cores, em versão digital, três dimensões, com atores, diretores, e cenários diferentes? A ambição pelo poder, expressando-se em linguagem mais rústica ali, mais sofisticada acolá, confronta dificuldades, em numerosos momentos, de camuflar o jogo rasteiro dos bastidores. O que o coronelão de um lugarejo plantado nos cafundós pensa, diz e faz conserva notável similitude com aquilo que muitas lideranças influentes, aqui dentro ou lá fora, pensam, dizem e fazem.

Mutatis mutandis, esse tem sido um processo igualmente partilhado, com artifícios requintadissimos, pelos representantes das grandes potências em sua relação com boa parte do mundo. Mundo esse, assinale-se de passagem, do qual elas, as grandes potências, se supõem, por outorga divina, incontestes mandatárias. As artimanhas geopolíticas, impregnadas de maquiavelismo, contemplam todo aliado incondicional como amigo virtuoso.

Não preocupam, não incomodam, as ignomínias cometidas no âmbito doméstico contra indefesos compatriotas que ousem contestar o déspota de plantão. A ele são rendidas todas glórias (e benesses), bem como assegurada, com a prestimosa colaboração – tá claro – dos canais de comunicação de abrangência mundial, blindagem razoável de maneira a impedir fiquem expostas persistentemente, perante a opinião pública global, as felonias praticadas.

O caso de Idi Amim Dada é revelador. Tirano impiedoso, recebeu tratamento de estadista por longo período. Chegou a ser até agraciado com a patente honorífica de brigadeiro do ar pela Força Aérea israelita. Num de seus habituais surtos paranóicos, resolveu mudar de lado, apoiando ações de desvairados terroristas. Só assim é que seu verdadeiro perfil facinoroso passou a ser mostrado com o realce adequado.

Outro caso sintomático, entre muitos, envolve o ditador da Líbia, Muammar Kadafi. Durante bom pedaço de tempo ele figurou na relação dos mais notórios terroristas planetários. E não sem fartas razões. Sua habitação foi alvo, por conta das posições extremadas assumidas, de arrasadores ataques de mísseis. Um determinado dia, em razão de um pacto secreto, que implicou, entre outros itens, no reconhecimento pelo ditador líbio de sua participação em empreitadas criminosas, resolveu-se, sem mais essa, nem aquela, que seu nome seria retirado da lista dos vilões com cabeça a prêmio.

Recebeu, por conta do arranjo, uma carteirinha de bom moço. Suas façanhas despóticas não mais frequentaram o noticiário. Igualzinho, aliás, acontece, desde sempre, com outros aliados incômodos, com toda certeza inconfiáveis, notadamente no mundo árabe,vários deles, neste preciso momento, sob o fogo cerrado de multidões ansiosas por se libertarem das amarras da opressão que, impunemente (pelo menos até agora), patrocinam.

Verdade seja dita. O mundo anseia por uma mea culpa das grandes potências que sirva de ponto de partida para desatrelar de sua atuação no cenário internacional todas essas alianças espúrias firmadas com ditaduras cruéis e corruptas.
* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Quinta, 17 Fevereiro 2011 15:27

Meditação para pessoas extremamente ocupadas

Escrito por

Meditation_1203669Por BK Sister Jayanti, no site da Brahma Kumaris (http://www.bkwsu.org)

Mais pessoas estão vivendo, mas menos estão escolhendo viver na passagem rápida. A necessidade de recuperar o equilíbrio, encontrar paz interior e recarregar o poder espiritual pode ser satisfeita por algumas formas de meditação diária. Sister Jayanti, uma pessoa extremamente ocupada, da sua maneira, apresenta o passo a passo da meditação e as formas através das quais a meditação pode ajudar a remover o estresse dos negócios.

Fico pensando o quão bem conheço a mim mesma. Às vezes, porém, quero saber por que me surpreendo com minhas próprias reações e respostas a certas situações. Gostaria de ter-me comportado um pouquinho diferente. É uma das indicações que me dizem que eu preciso me conhecer um pouco melhor. Em um mundo materialista, tudo carrega valores em termos de matéria. Freqüentemente, o valor que coloquei em mim mesma também foi associado a fatores externos, as posses que tenho, a propriedade que possuo, a posição e perfil que ocupo ou a posição que os outros me dão. Muito freqüentemente, vejo-me nesses compartimentos simplesmente da forma como os outros me vêem.

O que vocês vêem quando olham para mim? Instantaneamente, o computador interno começa seus cálculos e nos conectamos um com o outro de acordo com nossa face, nossa cor, nossas peles, nossas feições, nossa idade, a profissão na qual trabalhamos e, ainda assim, quando começo a pensar nisso, questiono isso e me pergunto se os fatores externos me dizem qualquer coisa sobre mim ou sobre você. E começo a ficar consciente de coisas que, na verdade, não são, de qualquer forma, materiais, nada a ver com minha forma externa ou situações externas, e essas são as coisas que, na verdade, valorizo e aprecio sobre mim mesma.

Olho para dentro de mim e me torno consciente de coisas como meus sentimentos, minhas emoções, meus pensamentos e começo a me perguntar qual parte de mim é, realmente, o eu. É importante que eu aprenda a separar duas identidades, a identidade material, que é a forma física, e a realidade interna de meus pensamentos e sentimentos. É importante conhecer as coisas em termos externos, mas muito mais importante é conhecer aquilo que está sob a superfície, aquilo que está sob a pele, e, quando concentro minha atenção em meu ser interior, é aí que a nossa jornada começa.

Vir para esse espaço interior e descobrir o que está acontecendo em meu próprio mundo interior é, na verdade, uma aventura tão maravilhosa quanto as aventuras do mundo externo. De onde é que meus pensamentos e sentimentos emanam? À medida que começo a permitir que minha mente esteja tranqüila, descubro que a fonte de vida, a fonte de energia que sou, é, na verdade, apenas uma centelha, um ser, um ponto. Eu não tenho um metro e meio, mas sou apenas um ponto de luz.

Em nossa linguagem, nós usamos, às vezes, essa expressão 'minha alma', ou 'eu tenho uma alma' mas, ainda assim, isso não é, de forma alguma, verdade – a realidade é que eu sou uma alma, sou esse ponto de luz. E funcionar nessa consciência cria uma total transformação da minha percepção. Nessa consciência, sabendo quem eu sou, sou capaz de ir além de todos aqueles limites que o corpo físico impôs a mim.

Freqüentemente tenho dito "Eu não posso fazer isso, aquilo e aquela outra coisa", e, ainda assim, nada disso é realidade. Eu sou esse ser eterno de luz. Sou um ser de luz, sou, na verdade, um ser de amor; essas são minhas qualidades naturais, e retornar a essa consciência significa que sou capaz de ir além de todas as barreiras, todas as prisões. Sou capaz de encontrar aquela liberdade interior do eu. Nessa consciência de saber quem verdadeiramente sou, sou capaz de me gerenciar.

Às vezes, nós nos perguntamos se o estado original do ser é aquele de bondade. E a paz é o que é totalmente natural para mim e, portanto, sei que esse é um estado que pertence a mim. Eu não preciso alcançá-lo. Ele está lá, dentro de mim. Numa vida em que se é muito ocupado, se eu souber como voltar minha atenção, apenas por um momento, para esse ponto de luz que sou, a paz está, instantaneamente, acessível. Quando encontro essa paz interior, é como recarregar a bateria e, então, sou capaz de realizar tudo o que preciso realizar no nível externo. Se eu puder fazer isso, até mesmo por um minuto, dentro de cada hora, descobrirei que os outros 59 minutos serão capazes de fluir muito, muito suavemente.

O fato de meu próprio ser interno ser de paz também significa que tenho poder interior. Sou capaz de encontrar minha própria força interior. Nós usamos bastante essa expressão 'empoderamento', e o poder não pode vir, para mim, de ninguém mais de fora, mas o empoderamento que vem de dentro, significa que é uma força que permanece comigo para sempre. Para onde quer que eu vá, o que quer que eu faça, esse poder é o que eu carrego dentro de meu próprio ser.

Vamos experimentar alguns minutos nos quais usaremos esse conceito, para que vocês possam, verdadeiramente, ver por si próprios como ele trabalha.

Sente-se tranqüilamente, simplesmente deixando o corpo relaxado, de preferência com ambos os pés no chão e suas mãos cruzadas tranqüilamente. Deixe que sua respiração torne-se natural e lenta. Você pode manter seus olhos abertos. (Na verdade, é preferível fazer isso, para que essa consciência torne-se um estado de consciência natural para você.)

Eu me concentro no interior e observo o que está acontecendo em meu mundo interior.  Eu vejo muitos pensamentos tremeluzindo na tela da minha mente e, conscientemente, posso escolher quais pensamentos terei.                                                                                         

Escolho o pensamento da paz.

Visualizo um ponto de luz e, nessa consciência de paz, sei que isso é o que eu sou.

Eu sou um ser de luz.

Eu sou um ser de paz.

Meus pensamentos desaceleram e saboreio a beleza da paz interior, conforme meu mundo interior é preenchido de paz.

Eu também sou preenchido com luz.

Eu posso sentir as nuvens da confusão recuando e, conforme essa luz torna-se brilhante, posso sentir meu próprio poder interior crescendo.

Meu próprio ser é luz, é poder, é paz.

Tendo me esquecido de mim mesmo, esqueci-me dessas minhas qualidades originais e naturais e, agora que sei quem sou, todas essas qualidades, naturalmente, pertencem a mim novamente e, nessa consciência, eu irradio luz, paz e poder. E, agora, deixo que meus pensamentos retornem para a percepção do corpo físico que ocupo e as situações na vida em que me encontro hoje, mas, agora, retorno com uma visão transformada, com uma atitude que é muito diferente.


Voltando para casa com essa consciência de eu, a alma, o mestre desse instrumento físico, esse meu precioso corpo, sei agora o que tenho de transmitir através de meus olhos, através de meus lábios, através de minhas ações, sei a direção na qual tenho de me mover. Minha visão dos outros também foi transformada. Eu não os coloco mais em caixas. Sou capaz de vê-los como seres exteriores, como almas. Ainda continuo com essas coisas que preciso fazer, mas, agora, tendo criado aquele mundo eterno e original, também, há clareza na maneira como penso; há entendimento e empatia na forma como me comporto com outros; há poder em minhas ações, de forma que minhas ações levam a conclusões corretas; e resultados positivos surgem em minha vida e, também, na vida dos outros ao meu redor.

Eu comparo isso com o estado em que estava antes, um estado de caos e confusão interior, e tão pouca reflexão sobre a existência de caos e confusão no mundo ao meu redor. Gerenciar a mim mesmo significa saber que sou o criador do meu próprio mundo interior. Sou capaz de ser o criador do mundo ao meu redor. Gerenciar a mim mesmo significa encontrar minha própria dignidade, encontrar meu próprio estado de auto-respeito, de modo que sou capaz de permanecer, independentemente, sobre meus próprios pés. Nós nos cercamos com tantos suportes diferentes e somos incapazes de nos orientar sem esses suportes.

Mas  agora que sei quem sou, carrego meu próprio estado de auto-estima e, é claro, quando valorizo a mim mesma, valorizo os outros ao meu redor. Em um estado de auto-respeito, aquele respeito se estende para outros. Gerenciar a mim mesma significa que sou capaz de me mover com estabilidade, em que trago paz para o mundo de caos ao meu redor. A paz que tenho significa que posso começar a criar um pequeno oásis de paz ao meu redor. A luz que eu tenho significa que a ilusão e escuridão não mais me tocam. O poder que eu tenho significa que posso, verdadeiramente, estar livre.

Om Shanti. Om significa “eu sou”, shanti significa “paz”. Posso retornar a essa consciência a qualquer momento e, novamente, ser um mestre de mim mesmo.

*Sister Jayanti é a coordenadora da Brahma Kumaris em Londres. Esse artigo, originalmente publicado pela BK Publications (www.bkpublications.com) na Retreat Magazine #10, é um extrato de sua apresentação de abertura numa série de apresentações em áudio entitulada Meditação para Pessoas Extremamente Ocupadas.

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