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  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

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Quarta, 15 Janeiro 2014 03:08

São números surpreendentes

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“Em matéria de recursos públicos, o que se desperdiça

constitui verdadeira afronta aos direitos humanos.”

(Antônio Luiz da Costa, educador)

 

Uma das teclas mais marteladas na rebelião das ruas em junho passado foi o gasto exagerado com a construção e adaptação de estádios para a Copa. E não é que os manifestantes estavam entupidos de razão? Dados e números de fontes qualificadas, recentemente trazidos ao conhecimento público, provam a procedência do clamor popular. Levantamento da consultora suíça HPMG sustenta que os gastos brasileiros com a preparação dos estádios superam os das últimas edições da Copa. A de 2006, na Alemanha, e a de 2010, na África do Sul.

 

A avaliação toma por base, nos cálculos procedidos, a quantidade de assentos disponíveis nas arenas esportivas. Estabelece, consoante com tal metodologia, um ranking em matéria de custos que mostra nosso país, numa lista de 20, com a metade dos estádios mais caros do mundo.

 

O “Mané Garrincha”, de Brasília, figura no terceiro lugar da relação, atrás de dois estádios ingleses, o Wembley e o “Emirates Stadium”, pertencente ao Arsenal. Sua construção, de acordo com o critério apontado, chegou aos R$20.770 por assento, enquanto que os valores despendidos nos dois outros estádios citados foram respectivamente de R$32.480 e R$23.370.

 

Na sétima colocação, o Maracanã custou R$15.640. A Arena da Amazônia, décima posição, custou R$13.780. O Itaquerão, em São Paulo, vai ficar em 12º lugar: R$12.820 por assento. Em 13º, a Arena Pantanal (R$11.860); em 14º, a Arena Pernambuco (R$11.540); em 15º, a Fonte Nova, Bahia, com R$10.570; em 19º, o Mineirão, com R$10.250; em 17º, o Castelão (R$8.970); e em 20º, a Arena das Dunas (R$7.690,00).

 

Um estudo paralelo concernente ao mesmo tema, este elaborado pelo Instituto Braudel em colaboração com a ong “Play the Game”, ambas também europeias, revela que cada assento nos doze estádios brasileiros que sediarão jogos do Mundial custaria R$13.500. As médias apuradas por assento nas arenas das Copas da África, Alemanha, Japão/Coreia foram, respectivamente, de R$12.100, R$7.900 e R$11.600,00.

 

Esses levantamentos todos apontam outras cifras para efeitos comparativos. O novo estádio Wembley, na Inglaterra, ficou em R$ 2 bilhões, 920 mil reais. O estádio de Brasília tem custo estimado de R$ 1 bilhão, 430 mil reais. Na nova arena da Juventus (Itália), incluída no ranking em 18º lugar (R$9.290 por assento), foram aplicados R$ 384 milhões de reais.

 

Esses dados e números suscitam algumas considerações e interrogações. Vamos lá a algumas, das mais chamativas. Por que cargas d’água, essa decisão de se construir o Itaquerão, em São Paulo? Não seria mais correto, e provavelmente, bem menos dispendioso optar-se pela modernização de um estádio já pronto? Caso, por exemplo, do Morumbi? Adiante. Em Manaus e Natal ocorreram fatos totalmente desprovidos de um mínimo de bom senso. Colocou-se abaixo, na capital amazonense, um estádio de 40 mil lugares, implantado em 1970 dentro de concepção arquitetônica bastante elogiada na época, para erguer-se uma outra arena. Algo similar ocorreu no Rio Grande do Norte. Uma arena nunca utilizada na plenitude de sua capacidade foi jogada no chão, para ser substituída por um estádio com o dobro de assentos. Como explicar isso?

 

O tema clama por outras observações. Os custos do Maracanã e do Mineirão são – pra dizer o mínimo – surpreendentes. Afinal de contas, ambas as arenas, de feição arquitetônica moderna, majestosas, em condições de acolher multidões, já tidas antes de envergarem suas novas e vistosas roupagens como marcos referenciais entre os estádios do mundo, passaram por um processo de adaptação danado de dispendioso, envolvendo cifrões superiores aos de outras arenas nascidas do nada. Precisava ser mesmo assim? O Comitê Organizador da Copa está na obrigação de prestar à opinião pública os esclarecimentos necessários acerca dessas elevadas aplicações nas obras de reforma desses estádios. Aliás, falar verdade, os esclarecimentos por todos aguardados terão que abranger o conjunto inteiro das ações levadas avante com o aplaudido objetivo de fazer da Copa de 2014 um evento histórico.

 

A circunstância de parte dos recursos investidos derivarem de fontes privadas não desobriga, de maneira alguma, os órgãos governamentais do dever de oferecerem à apreciação da sociedade uma prestação de contas de transparência solar. Até porque não se pode deixar de lado a marcante a participação do BNDES e de outros Bancos oficiais nos investimentos.

 

De outro lado, os dirigentes do Comitê Organizador do torneio necessitam, também, se conscientizarem de um indeclinável dever. A abertura, com urgência, dos debates a respeito do que poderá ser feito, tão logo concluídos os jogos, no sentido de impedir que alguns estádios se transformem em “elefantes brancos”. Ou seja, em afrontosos monumentos ao desperdício.

 

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Segunda, 25 Novembro 2013 17:47

E se fosse por aqui?

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

 “Quem não tem cão, caça com gato.”

(Provérbio popular)

 

Talqualmente o Brasil, os Estados Unidos defrontam-se neste momento com o problema da escassez de médicos. Segundo estimativas oficiais, mais de 50 milhões de americanos residem em regiões com acesso insatisfatório a assistência medica. Assim postas as coisas, as autoridades estadunidenses deliberaram colocar em execução, por meio de atos legislativos, um plano emergencial de atendimento à saúde com características – indispensável frisar - revolucionárias.

Foi expedida autorização a enfermeiros, pós-graduados em saúde, a realizarem procedimentos médicos. Fazerem consultas de rotina, diagnósticos básicos, prescrição de remédios e acompanhamento de doenças crônicas, nas vastas extensões territoriais desprovidas da presença de médicos. A decisão, está visto, responde pragmaticamente a uma demanda importante de cunho social. Aplicou-se ao caso aquele famoso axioma de que quem não tem cão, caça com gato...

Com o olhar fixado nas reações suscitadas nalguns redutos pela implantação do programa “Mais médicos para o Brasil”, andei inquirindo os botões de meu pijama sobre como seria recebida entre nós uma medida do Ministério da Saúde nesses mesmos termos? O que seria dito a respeito em editoriais da grande mídia? E em manifestações dos Conselhos médicos? Nos discursos de porta-vozes políticos da oposição, ou por pessoas que, volta e meia, acusam o governo federal de atos estatizantes e populistas, mas que costumeiramente alardeiam a ideia de que aquilo que é bom para os Estados Unidos é bom também para o Brasil? Hein?

Seja a informação provinda dos Estados Unidos acrescida de outro relevante dado. A inédita medida governamental não provocou reações inflamadas, apesar da constatação de que correntes poderosas da opinião pública no país, pertencentes sobretudo a facções do Partido Republicano, antepõem-se à ideia da universalização dos serviços públicos de saúde, nos moldes vigentes aqui no Brasil.

 

• Não me espantará nem um tiquinho se, de repente, guarnecido de informações confiáveis, algum órgão levante a suspeita de que as denúncias contra a brasileira Embraer, divulgadas em publicações estrangeiras, têm como motivação principal a circunstância de a indústria aeronáutica norte-americana haver ficado de fora nas cogitações de compra de caças para a FAB. Como se recorda, a hipótese do fornecimento dos aparelhos vir a ser feito pela Boeing, na disputa pela conquista da encomenda com fabricantes francês, sueco e russo, passou a ser descartada por Brasília a partir da comprovação da existência do esquema de arapongagem eletrônica, montado por agências norte-americanas contra os interesses políticos e econômicos brasileiros. É bom também registrar, de outra parte, que a empresa brasileira, terceira maior fabricante de aeronaves do mundo, com unidades operacionais, além do Brasil, em outros cinco países, presença marcante nos mercados da aviação regional em todos os continentes, vem sendo alvejada ao longo de uma trajetória vitoriosa não poucas vezes por concorrentes preocupados com sua sempre crescente expansão.

O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quinta, 14 Novembro 2013 19:30

As revelações do embaixador

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“A guerra do Iraque poderia ter sido evitada.”

(José Mauricio Bustani, Embaixador do Brasil na França)

 

Em entrevista ao jornalista Paulo Moreira Leite, da revista “IstoÉ”, o embaixador brasileiro na França, José Mauricio Bustani, faz revelações que ajudam a entender como funcionam as coisas no terreno geo-político-econômico, neste nosso mundo velho de guerra. Mostra a quanto pode chegar o poder de influência das grandes potências em processos de decisão capazes de imprimir novos, inesperados e indesejáveis rumos nas vidas de nações inteiras.

Bustani é fundador e foi o primeiro diretor-geral da Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas). A instituição acaba de ser agraciada com o Nobel da Paz. Por pressão dos Estados Unidos, o brasileiro foi afastado em 2002 do posto de presidente, por sustentar a versão de que o Iraque não dispunha de arsenal de armamento químico, nem tampouco representava ameaça à paz mundial, ao contrário do que apregoava a Casa Branca nos momentos que antecederam a invasão daquele país por tropas americanas e inglesas.

As autoridades iraquianas, segundo Bustani, já estavam comprometidas com a Opaq no sentido de aderirem ao pacto contra o emprego das armas químicas. É bom recordar que tanto os Estados Unidos quanto a Rússia, signatários com outros 148 países do pacto em questão, possuem até hoje, na avaliação do brasileiro, algo por volta, respectivamente, de 20% a 30% do arsenal que compuseram, ao longo dos anos, nessa modalidade de engenhos de destruição. O fato demonstra a suprema desfaçatez e incoerência da retórica que as superpotências adotam no combate que alegam mover à disseminação de armamentos químicos.

O diplomata brasileiro relata, com pormenores, o fato de haver sido procurado por um representante estadunidense, John Bolton, com ultimato para que deixasse a organização em 24 horas, devido à posição assumida na questão do Iraque. Explica também que o então chanceler Celso Lafer, no governo FHC, confessou saber que o governo dos Estados Unidos estava a exigir sua saída da Opaq, sem que da parte do Itamaraty fosse promovida qualquer diligência contrária à descabida pretensão.

 A ação de Washington mostrou-se eficaz. Numa inédita conferência política, convocada pelos EUA, não prevista no estatuto da instituição, a maioria dos países consultados cedeu à pressão norte-americana, opinando contrariamente à permanência de Bustani no cargo. O número de votos contrários foi quase igual ao de abstenções. O governo brasileiro de então pouco fez pelo seu representante. Não demonstrou interesse em aglutinar votos favoráveis junto a países da América Latina, Ásia e África.

A destituição do cargo, nos termos ocorridos, foi a única até hoje registrada num organismo internacional. O diplomata brasileiro, inconformado, recorreu à Organização Internacional do Trabalho. Teve ali ganho de causa, tendo sido contemplado com uma indenização, doada integralmente à Opaq.

O Embaixador do Brasil registra, ainda, no depoimento, “uma outra história que poucos conhecem”. Mandou proceder, certo dia, por suspeitas de que estivesse sendo espionado, uma varredura completa em seu gabinete na Opaq. Ao derrubar uma parede, deparou-se, tomado de espanto, com um sofisticado aparato eletrônico, na mais acabada configuração exibida nos filmes de espionagem, capaz de captar qualquer tipo de conversação. Isso aconteceu à época em que, contrariando a vontade do governo estadunidense, recusou-se a confirmar, por não constituir a verdade dos fatos apurados, a existência no Iraque do formidando estoque de armas químicas que a Casa Branca alegava existir naquele país e que deu origem à devastadora guerra desencadeada pelo xerife Bush, com a prestimosa ajuda de seu fiel aspençada, Toninho Blair.

Guerra essa, como sabido, deflagrada em contraposição a uma expressa recomendação da ONU e dos países membros dessa organização. E que, depois da destruição do país invadido e do tétrico balanço de vidas dizimadas, várias centenas de milhares sobretudo entre a população civil, teve o “mérito” de instaurar o “invejável sistema democrático” hoje vigente, mercê de Alá e do Pentágono, nos “pacificados” domínios do antigo império persa.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Quinta, 31 Outubro 2013 19:52

Ato de contrição positivo

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

As Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro.”

(Editorial de “O Globo”, sobre o regime militar instituído em 64)

 

Em recente pronunciamento, de grande repercussão, as Organizações Globo concluíram que, à luz da História, o apoio editorial dado ao golpe militar de 1964 foi um erro crasso.

Artigo estampado em “O Globo”, reproduzido na televisão e emissoras de rádio do grupo, registrou, entre outras coisas, o seguinte: “Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura.” De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura. Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro (...): Não lamentamos que essa publicação não tenha vindo antes da onda das manifestações, como teria sido possível. Porque as ruas nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necessário. Governos e instituições têm, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas. De nossa parte, é o que fazemos agora, reafirmando nosso incondicional e perene apego aos valores democráticos (...)”

O artigo se estende em informações a respeito da conjuntura política vigorante no Brasil à época das decisões editoriais equivocadas que o poderoso complexo midiatico admite haver assumido. Reporta-se a situações em que, “mesmo sem retirar apoio aos militares”, as organizações Globo “sempre cobrou deles o restabelecimento, no menor prazo possível, da normalidade democrática.” É dito, também, no editorial, que “contextos históricos são necessários na análise do posicionamento de pessoas e instituições, mais ainda em rupturas institucionais” e que “a História não é apenas uma descrição de fatos (...)” e, sim, “o mais poderoso instrumento de que o homem dispõe para seguir com segurança rumo ao futuro: aprende-se com os erros cometidos e se enriquece ao reconhecê-los.” Na conclusão, é sublinhado que “a democracia é um valor absoluto e, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”

O pronunciamento das Organizações Globo produziu muitas reações. A maioria delas favoráveis. As desfavoráveis partiram de setores sob o ponto de vista ideológico consideravelmente distanciados uns dos outros. Alguns militares da reserva não pouparam críticas veementes ao posicionamento anunciado. A contundência nas palavras foi também empregada por pessoas que estiveram do lado oposto, combatendo o regime militar. Para esses a confissão de culpa trazida a lume chegou tardiamente, depois de um pesado fardo de sofrimento e injustiças imposto à Nação.

Mas, as avaliações reconhecendo que O Globo deu passo importante num acerto de contas com a História foram bastante significativas. Para o Ministro José Eduardo Cardoso, o que aconteceu foi “algo digno de aplauso.” “Foi uma postura madura e admirável, ao tocar numa questão importante sobre a trajetória do jornal e do país”, acrescentou. Por sua vez, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azedo, classificou de corajosa a atitude tomada, assinalando que ela deveria ser seguida por outros veículos de comunicação de expressão nacional que tiveram no passado posição idêntica à das Organizações Globo. Dirigentes políticos do PMDB (deputado Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara), do PSDB (senador Aloysio Nunes, líder da bancada), do PT (senador Wellington Dias, líder da bancada) também enalteceram o gesto do Globo. O deputado Chico Alencar, do PSOL, comentou, a seu turno, que a confissão feita deveria inspirar a classe política a mudar radicalmente de postura, em resposta ao clamor popular das manifestações de rua ocorridas em junho.

O ato de contrição das “Organizações Globo” é positivo do ponto de vista da cidadania. Revela o elevado grau de amadurecimento da pujante e abençoada democracia que rege, na atualidade, em consonância com os sentimentos cívicos da Nação, os destinos brasileiros.

* O jornalista Cesar Vanucci (cantonius1@yahoo.com.br) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalemente.

 

Quarta, 30 Outubro 2013 15:00

O alimento que gera saúde

Escrito por

Por Alexandre Harkaly, do Mercado Ético

O ser humano tem três demandas de formas de alimento que o satisfaz nos três âmbitos de sua existência: o alimento para a nutrição física, como proteínas, gorduras, carboidratos e sais que nutrem o seu corpo; o ar e aromas, componentes que o nutrem emocionalmente, por meio do respirar que harmoniza e equilibra animicamente; e o meio ambiente (o todo), que nutre os seus sentidos com cor, paladar, aroma, unicidade, coerência e integralidade. Com coerência, o espírito assume que o alimento é bom e daí o indivíduo se nutre, ele se sente saudável.

Sabemos por experiência e relatos da antiguidade, assim como de filósofos e pensadores daquela época, da importância de termos alimento puro, limpo e integral para que o processo do pensar possa se desenvolver com clareza, objetividade e criatividade, levando o ser humano a um processo de autodesenvolvimento e individualização do seu caráter. Sabemos também pela medicina oriental que a saúde começa na digestão e que os problemas digestivos afetam diretamente o pensar.

Sem uma integração e harmonização com o alimento perfeito, destes três níveis – alimento para o corpo, a alma e o espírito – o ser humano adoecerá. De nada adiantará fornecer uma ração completa balanceada se esta não for agradável de ser consumida, e se o ambiente onde este alimento for consumido não for condizente com as suas expectativas de qualidade de vida.

Que grau de confiança podemos depositar nos gêneros alimentícios, se na soja encontram-se vários resíduos químicos, ou se na água potável há contaminações de agrotóxicos, principalmente herbicidas, porém justamente abaixo do chamado limite de tolerância? Ou ainda se em tomates encontramos vários pesticidas, como inseticidas e fungicidas?

Os alimentos modernos, produzidos a partir de sistemas que são agredidos externamente, carregam em si os efeitos desta agressão, que são basicamente resíduos de agroquímicos, desequilíbrios organolépticos e pouca vitalidade – que pode, neste caso, ser entendido como uma ruptura da “integralidade” do alimento – algo que o mantém vivo, coeso, equilibrado, latente, com bom potencial de assimilação e que gera saúde.

Os alimentos que provêm da agricultura orgânica, de ambientes conservados puros e vivificados, carregam em si as características desta atividade que são o contrário do exposto acima: isenção de resíduos agroquímicos, balanço organoléptico e vitalidade, comprovada a partir de testes científicos.

Os melhores alimentos provêm de fazendas orgânicas e biodinâmicas que são projetadas e inspiradas no conceito “organismo fazenda”.

Como em todos os organismos vivos, quando falha um órgão essencial, o organismo não sobrevive. Este conceito pode ser transportado na prática para a fazenda onde, com falta de insetos, de fertilidade e de equilíbrio ecológico, a produção falhará, o “organismo fazenda” falhará ou ficará deficiente.

Podemos perceber o organismo agrícola como que é exteriormente limitado por uma forma, um limite e interiormente articulado por órgãos que funcionam integrados. Por exemplo água e solo são dois órgãos e devem estar saudáveis para produzir bons alimentos.

O que delimita uma propriedade agrícola? Um rio, uma barreira natural ou uma cerca? Sabemos que é a intenção humana que preenche o espaço do organismo adequadamente. A intenção humana saberá dar à estrutura de produção todos os elementos necessários para o seu desenvolvimento, para a sua vitalidade, provendo os espaços apropriados para os animais e para as atividades de produção e de desenvolvimento humano.

Se quisermos perpetuar a produção agrícola de forma limpa e sustentável, precisamos não só reconhecer, mas tomar como base para estudo e aplicação prática o conceito “organismo fazenda”, perceptível também na Teoria de Gaia, de James Lovelock, hoje totalmente aceita e inserida no meio científico internacional. Há uma linha evolutiva do organismo, cientificamente descrita, que parte da forma mais simples de vida até a mais complexa, a Terra em si. Esta linha parte do vírus ou bactéria, passando por organismos unicelulares, microrganismos do solo, ar e água, pequenas plantas, animais, o ser humano, a fazenda, o vale, o ecossistema vale ou região, a região como bacia hidrográfica, paisagem, continente e finalmente chegando à Terra, o planeta. Ao longo de toda esta linha evolutiva, o manejo destes organismos deve ser inspirado em sistemas de produção que sustentam, apoiam e desenvolvem o vivo, e não que paulatinamente matam os organismos com contaminações e depredações ambientais. O resultado destas ações salta aos olhos com o passar das gerações. Exemplo disso são áreas desertificadas por excesso de uso de químicos.

O biologista francês Francis Chaboussou propôs uma teoria para explicar a susceptibilidade de plantas e animais ao ataque de pragas e doenças: a teoria da Trofobiose. De acordo com ela, pragas só podem sobreviver em plantas que têm nível excessivo de nutrientes solúveis na sua seiva ou tecidos, como aminoácidos, açúcares, nucleotídeos e minerais. O excesso pode ocorrer por causa da inibição de proteosíntese, pela predominância de proteólise sobre a proteosíntese ou excessiva produção de aminoácidos. A inibição pode ser causada por pesticidas ou por nutrição desbalanceada. Excesso de aminoácidos vem do excesso de adubação nitrogenada química.

Com este fato, percebemos o quanto é fácil hoje “provocar” o surgimento de pragas e doenças nas plantas, por consequência, em animais e, por fim, no próprio ser humano. O desequilíbrio nutricional é muitas vezes sutil, porém leva a doenças degenerativas – no caso, principalmente por excesso de substâncias prejudiciais ou por falta de síntese das substâncias corretas.

O que foi descrito nos parágrafos anteriores mostra como que a “integralidade” do organismo e consequentemente no ser humano é perturbada, provocando desequilíbrio, levando a processos de doença. Não estão inclusas aqui nem as causas genéticas, nem as sócio psíquicas, que são componentes importantes e deverão ser abordadas em ambiente apropriado.

Precisamos produzir alimentos de modo que se leve em consideração os fatores descritos e que possa restituir o conceito de saúde, equilíbrio, sustentabilidade, sem que ocorra a cegueira imputada a nós por uma forma de pensar baseada somente no binômio causa-efeito, mas sim que se baseie no conceito “integração dos órgãos e manutenção do organismo”.

De que nos adiantará saber, por exemplo, que o Licopeno, carotenoide encontrado em tomate, protege contra câncer de próstata (alimentos funcionais), se o próprio tomate é, na sua produção, bombardeado de agrotóxicos que nos incutem esta e outras doenças? Para fazer valer a regra geral de que uma alimentação rica, farta e variada é a melhor receita para a saúde, ou para aplicarmos dietas baseadas em alimentos funcionais saudáveis, precisamos fazer valer também a qualidade orgânica e biodinâmica dos alimentos.

Aqueles profissionais que se acham responsáveis pela saúde do planeta e pela saúde dos seres humanos poderão dar uma grande contribuição se direcionarem suas ações à agricultura orgânica e ao consumo consciente destes produtos certificados que, mais do que nunca, também devem ser considerados remédios a serem assimilados de forma rotineira e diversificada. Quanto mais isto for feito, menor o perigo de perdermos a sustentabilidade ecológica do planeta e menor o perigo das contaminações e perda de qualidade dos alimentos e da qualidade de vida.

Segunda, 21 Outubro 2013 14:10

Diamantina feminina e musical

Escrito por

Por Cesar Vanucci*


"Onde há música, não há coisa má.”
(Cervantes, autor de “Dom Quixote”)

 

Voltei a Diamantina. Onde nasceu JK. Cidade danada de charmosa. Como poucas, bem poucas, existirão espalhadas pelos numerosos rincões deste mundo do bom Deus.

Se as cidades, como acontece com as pessoas, fossem classificadas pelo sexo, masculino ou feminino, eu diria que Diamantina é mulher. Uma mulher linda. Cheia de encantos mil. Daquele tipo reverenciado no Livro dos Cantares, escrito no século VI a.C: “Mulher bela é uma graça; espanta melancolia, consola mágoas de amor.”

E os sortilégios emanados dos dotes naturais dessa cidade-mulher chamada Diamantina! Vou te contar: nenhum mortal consegue deles escapulir. O sujeito nem bem chega, nem bem desfaz as malas e já está inapelavelmente seduzido pela magia do lugar.

Até onde o olhar alcança e, além mesmo, até lá onde a sensibilidade dê conta de chegar, tudo recende, deleitosamente, a cultura. Cultura viva, pulsante, dinâmica. Desatrelada de formalismos. Cultura ancorada em valores humanos essenciais. O ar que se respira está impregnado de emoções universais e, também, de muita brasilidade e mineiridade.

Diamantina submete os visitantes a um prazeroso bombardeio sensorial. A começar pela paisagem arquitetônica. Calçadões, passeios e degraus respingando história. Casarões lindíssimos, enfeitados, coloridos, guarnecidos de ornamentos barrocos. Engenhosas eiras, beiras e tribeiras, deixando à mostra o poder eterno da ostentação no comportamento humano. Nas Igrejas adornadas de arte, guias solícitos embalam a imaginação do visitante com uma multiplicidade de deliciosas versões para cada detalhe mais instigante da construção ou da decoração. Nas paredes, arcos, altares e colunatas, além do barroco, o esfuziante estilo rococó.

A visita à casa em que JK morou provoca um turbilhão de emoções. Ninguém passa ileso pela prova. No mínimo, uma lagrimazinha furtiva acaba rolando pela face.

Diamantina é feminina e é musical. Dizem que toda família diamantinense que se preze tem pelo menos um músico. Vem daí a profusão de bandas, orquestras e corais que trazem para as ruas e templos a sua arte generosa e encantadora. A música realiza, em Diamantina, mais do que em qualquer outro lugar que conheça, verdadeiros prodígios em matéria de aglutinar platéias imensas, seletas e democráticas. A praça – que é do povo como o céu é do condor, como fazia questão de dizer o grande Castro Alves – é tomada por multidão eletrizada, alegre, descontraída, que emite, pela linguagem do congraçamento, sinais de harmoniosa integração social e racial. Gente de todas as camadas se acotovela no imenso teatro improvisado para aplaudir as vesperatas, um espetáculo sem similar no mundo inteiro. Mais de uma centena de músicos talentosos, crianças, jovens e adultos, ocupam as janelas dos andares superiores dos casarões que rodeiam a praça, transformando-as em majestoso palco circular. Atentos à batuta do maestro, posicionado, lá embaixo, próximo da multidão, eles produzem recital primoroso, único, incomparável, interpretando um repertório erudito e popular de excepcional bom gosto.

O ambiente, ao contrário do que se percebe em outros tipos de aglomeração popular, é jovial, conciliatório, envolvente e repousante. A ponto de justificar o dito famoso de Cervantes, quando sublinha, em “Dom Quixote”, que “onde há música, não pode haver coisa má.”

Você já foi a Diamantina? Não? Então, vá!

* O jornalista Cesa Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quinta, 17 Outubro 2013 21:05

Robin Hood tinha razão

Escrito por

Por Frei Betto*

Os pesquisadores Frans de Waal e sua colega Sarah Brosnan, ao testar macacos-prego, verificaram que eles se zangavam ao ver um companheiro receber uma recompensa melhor. Sarah entregava um seixo a um dos animais e, em seguida, estendia a mão para que o macaco o devolvesse em troca de um pedaço de pepino. Os dois macacos aceitaram a troca 25 vezes consecutivas.

Sarah passou a entregar a um dos animais um cacho de uvas, um dos alimentos preferidos dos macacos-prego. O outro continuou a receber pepino. O clima azedou. O macaco merecedor de pepino demonstrou nítida aversão à desigualdade. Ao ver seu companheiro receber uva, ficou agitado e atirou longe seixo e pepino. Um alimento que ele tanto gosta tornou-se repulsivo.

Os macacos não se irritavam quando as uvas eram exibidas a todos eles e pepinos continuavam a ser trocados por seixos. A irritação aparecia quando um deles recebia uvas. A desigualdade era motivo da revolta. (O teste está descrito por de Waal em A era da empatia, SP, Companhia das Letras, 2010).

Ao tornar público o resultado da pesquisa, Sarah e Frans receberam duras críticas de economistas, filósofos e antropólogos, chocados com a comparação entre macacos e humanos. Para azar dos críticos, a divulgação da pesquisa coincidiu com a denúncia de que Richard Grasso, diretor da Bolsa de Valores de Nova York, viu-se forçado a pedir demissão diante dos protestos gerados pelos quase 200 milhões de dólares que ele recebeu de bônus (New Yorker, 03/10/2003).

Em 2008, a opinião pública dos EUA mostrou-se indignada quando, em plena crise econômica, o governo destinou 700 milhões de dólares como “socorro” aos executivos que haviam provocado tantas perdas no setor imobiliário. Uvas aos figurões; pepinos à plebe…

No Brasil, a opinião pública também se mostrou indignada ao saber que senadores utilizavam jatinhos da FAB para eventos particulares, como viagens de familiares ou festas de casamento. As mordomias, em especial as que são pagas com dinheiro público, suscitam sempre revolta entre os eleitores.

Os animais têm muito a nos ensinar. Sarah Brosnan colocou dois macacos juntos, separados apenas por uma grade. O primeiro tinha à sua frente duas latinhas, semelhantes a essas de refrigerante, em cores diferentes. Elas podiam ser trocadas por comida. Se ele entregasse a ela a lata A, receberia comida suficiente para seu próprio consumo. Se entregasse a lata B, ganharia o bastante para dividir com o segundo macaco. Os macacos-prego testados davam, em geral, preferência à lata que favorecia a partilha da refeição.

A democracia ocidental continuará a ser uma falácia enquanto não criar condições para que todos tenham acesso aos bens essenciais a uma vida digna e feliz. Os três ideais da Revolução Francesa –liberdade, igualdade e fraternidade – na verdade têm sido limitados e deturpados.

A liberdade passou a ser entendida como direito de um se sobrepor ao outro, ainda que o outro seja relegado à miséria. A igualdade existe, quando muito, na letra da lei. Ricos e pobres merecem tratamentos diferenciados perante a Justiça, e mesmo os recursos públicos são destinados, preferencialmente, aos mais abastados, como faz o nosso BNDES.

A fraternidade ainda permanece uma utopia. Supõe que todos se reconheçam como irmãos e irmãs. Basta recorrer ao exemplo familiar para saber o que isso significa. Em uma família, embora as pessoas sejam diferentes, com talentos e aptidões próprios, todos devem ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Ninguém pode ser excluído da escolaridade ou do uso comum dos bens, como a alimentação ou equipamentos.

Fraternidade significa inclusão, reconhecimento, e até mesmo abrir mão de um direito para que o outro, mais necessitado, possa se livrar de uma dificuldade.

Robin Hood tinha razão. O que a humanidade mais anseia é a partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano. Essa a verdadeira comunhão. No entanto, a riqueza e o poder, quase sempre associados, cegam seus detentores, incapazes de se colocar no lugar do outro, daquele que sofre ou padece de exclusão social.

E para que a cegueira não seja acusada de indiferença criminosa e desumana, inventam-se teorias econômicas e ideologias que justifiquem e legitimem a aberração como natural…

* Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros. http://www.freibetto.org – twitter:@freibetto.

Sexta, 04 Outubro 2013 19:42

Jamais aposentar-se da vida

Escrito por

Por Paiva Netto

Em 1º de outubro comemorou-se o Dia Internacional do Idoso. Vivemos época de constante progresso material. Entretanto, não se verifica o correspondente avanço no campo da ética e do Espírito. Resultado: males como a fome, a violência e o desrespeito à Natureza perduram. E lamentavelmente as pessoas da terceira idade também são atingidas pela frieza dos sentimentos humanos.

É verdadeiro crime não se reconhecer o valor dos Irmãos idosos. Neste período da vida, mais do que nunca se fazem merecedores do carinho e da solidariedade dos mais moços, num justo reconhecimento à contribuição que legaram à sociedade.

Na LBV não acreditamos em velhice como sinônimo de coisa deteriorada. Ninguém é velho quando tem um bom e grande Ideal. Pode não mais carregar um piano, não mais passear de motocicleta. Se possui, porém, ânimo dentro de si, é jovem.

As pessoas a certa altura da vida precisam, com raras exceções, aposentar-se de seus empregos, mas não o devem fazer com relação à vida. Devem ir à luta enquanto puderem respirar. A Legião da Boa Vontade mantém com o seu extenso trabalho de promoção humana e social Lares de amparo aos velhinhos e espaços saudáveis de convivência.

Neles os vovôs e vovós são tratados com muito Amor e, o que é melhor, aprendem que nunca é tarde para colaborar com suas experiências, em prol de uma Humanidade mais feliz, pois é a força dos bons exemplos que inspira as novas gerações a vencerem os obstáculos da existência terrena. (...) Pode parecer um paradoxo. Todavia, o país que desampara os seus idosos não crê no futuro da sua mocidade. Que é a nação, além de seus componentes?

Havendo futuro, os moços envelhecerão. Viverão mais. Contudo, também irão aposentar-se... Uma convicção arraigada do gozo imediato das coisas é a demonstração da descrença no amanhã. E há os que ainda moços pensam: “Vamos viver agora, antes que tudo acabe! E os que conseguiram resistir tanto, que se danem...“ Não há exagero algum aqui. É o que também se vê. Tem-se a impressão de que alguns daqueles que desfrutam do vigor da juventude ignoram a possibilidade de alcançar a decrepitude.

Mas poderão chegar lá... Não existe futuro sem moços. Também, não o há sem os idosos. Temos de aliar ao patrimônio da experiência dos mais velhos a energia dadivosa dos mais moços. (...) Lutamos por um mundo que ofereça oportunidades para todos.

E isto não é impossível. Impossível é continuar como está: a terrível paisagem das almas ressequidas pela indiferença ao Amor de Deus, como os ossos secos da visão do Profeta Ezequiel. O nosso planeta tem de receber o sopro espiritual da Vida, pois é rico e muito amplo, com espaço suficiente para todo mundo. (...)

José de Paiva Netto é jornalista, radialista e escritor (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) - www.boavontade.com

Sexta, 04 Outubro 2013 18:17

Sintonia com a mensagem evangélica

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“Não sendo um dogma, pode ser discutido livremente.”

(Pietro Paralin, Secretário de Estado do Vaticano, sobre o celibato sacerdotal)

 

Os setores religiosos ultra conservadores, aglutinando um bocado de indivíduos que se crêem mais católicos que o Papa, já não mais se esforçam por esconder o tremendo desconforto que lhes andam causando as falas e gestos de Francisco.

Em sua esclerótica interpretação da aventura humana, esses setores costumam identificar nas mensagens e posturas pontifícias graves riscos doutrinários. Riscos – acreditam - capazes de subverter a ordem religiosa constituída. Por ordem religiosa constituída entenda-se, na linha do rançoso entendimento integrista, um catálogo inesgotável de vetos à celebração da vida. Um compêndio de preceitos medievais inspirados na intolerância, revelador da incapacidade dos que os adotam de participarem da construção humana pelo diálogo respeitoso e partilhamento de ações e idéias com grupos que rezem por cartilhas diferentes das suas.

Assim sendo, soa-lhes sacrílega, por exemplo, a decisão de Francisco em acolher carinhosamente uma mulher islamita num ritual habitualmente reservado a fiéis católicos. Escandalizam-se com a determinação de Francisco em deslocar-se até um porto marítimo que ancora embarcações de africanos escorraçados pelas guerras tribais, para levar-lhes uma palavra de alento e fazer explicita condenação aos sistemas de espoliação de que esses refugiados se tornaram indefesas vítimas.

Arrepiam-se pra valer quando o Papa, respondendo a uma consulta de um renomado intelectual italiano ateísta (Eugenio Scalfari), revela de forma lapidar, em tom fraternal, que os cidadãos devem seguir os impulsos generosos da própria consciência quando não professam uma crença. Rangeram, por certo, os dentes ao ouvirem a recomendação papal no sentido de que os fiéis ponham fim ao clima de obsessão reinante à volta das discussões sobre aborto, união estável entre pessoas do mesmo sexo e outros temas candentes.

Sentiram-se, também, com certeza, abalados com a declaração de Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano recém-nomeado, relativa ao celibato dos padres. Não sendo um dogma, pode ser discutido amplamente, foi o que ele disse, abrindo a perspectiva de uma mudança de rumos capaz de trazer de volta aos púlpitos enorme contingente de cidadãos vocacionados para o ministério sacerdotal.

Esses setores religiosos fundamentalistas refratários a idéias remoçantes receberam também com desagrado a utilização por Francisco da cátedra universal pontifícia para criticar com veemência a ordem econômica e social injusta imposta às multidões deste planeta azul. Bem como para condenar as guerras que pipocam por diversos continentes e são, por vezes, apresentadas enganosamente como confrontos entre as forças do bem e do mal, quando não passam, segundo a mensagem atualizada de Roma, de mero e repugnante negócio para venda de armas e sustentação de esquemas iníquos de opressão.

Em toda essa história, o que mais importa, todavia, é saber que a atuação de Francisco está em sintonia com a mensagem evangélica que vem do começo e do fundo dos tempos e que isso ajuda a manter acesa a esperança humana num mundo melhor.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Sexta, 27 Setembro 2013 15:15

Queremos boas notícias, por favor

Escrito por

Por Henrique A. Camargo, no Mercado Ético

Lá por meados da década de 1990, quando Axl Rose, Slash e o resto da turma do Guns N’ Roses arrebentavam nas paradas de sucesso, eu ainda estava na faculdade de jornalismo e ajudava moderadamente nas atividades do restaurante que minha família mantinha em Cotia, na região Oeste da Grande São Paulo. Recebia algum salário pelo trabalho, que era suficiente para abastecer o carro e ir a festas. E foram naqueles anos que dois episódios marcariam o meu ponto-de-vista sobre os profissionais e a profissão que havia escolhido meio que no susto.

O primeiro envolve um professor de História da rede pública. Aquela figura robusta e popular na cidade – pelo menos até aquele momento – começava a se engajar no jornalismo comunitário. Um grupo de agentes cotianos tinha acabado de instalar uma antena de radiodifusão em um bairro carente do município, dando início à rádio pirata, da qual ele (e as vezes também eu) participava com afinco.

Em determinado dia, o professor estava mais entusiasmado do que o comum. Ele carregava uma notícia bombástica, literalmente falando: uma bomba explodiria a prefeitura da cidade, localizada quase em frente ao nosso restaurante. O homem não cabia em si mesmo. “Agora que virei jornalista, você sabe como é, torço para que desgraças aconteçam”, disse animado. Apesar de todo o alvoroço causado pela ação da polícia, movimento da pequena mídia local e toda a torcida, nada aconteceu. Foi apenas um boato para sacudir um pouco a monotonia típica da Cotia dos anos 90s, mas o Appetite for destruction (apetite por destruição) do Guns N’ Roses dava suas caras.

Em outro momento, pedi uma oportunidade de trabalho a um jornalista que frequentava o estabelecimento familiar. Ele editava um dos jornaizinhos da cidade e se impressionou com minha pro-atividade (?). Então me disse para ir até a redação do semanário onde conversaríamos sobre o assunto. Ali, o periodista já foi dizendo que não tinha dinheiro para pagar salário e, em seguida, deu uma breve aula de jornalismo ao jovem aspirante a foca. Falou sobre lead, pirâmide invertida e o principal: “notícia não é quando o cachorro morde o homem, mas quando o homem morde o cachorro”. Depois daquele dia, ouvi essa mesma historinha algumas dezenas de vezes.

Os anos se passaram e as ideias proferidas por esses dois personagens continuam vivas na prática do jornalismo. Realmente são pontos difíceis para um jornalista se desvencilhar. Há estudos comprovando que desgraça vende muito mais do que notícias boas. E como ouvi do vice-presidente editorial de uma das maiores editoras da América Latina, as empresas de mídia estão aí para ganhar dinheiro.

Nesse sentido, acho que os jornalistas que trabalham com a temática da sustentabilidade são diferentes da maior parte dos outros setoristas. Nós clamamos por notícias boas. Adoramos dizer que uma turma de jovens cientistas conseguiu produzir energia a partir do fio de cabelo (coitado dos carecas) ou do grito da torcida nos estádios. Vibramos ao descobrir que são crescentes os investimentos focados no desenvolvimento sustentável. A diminuição da pobreza e da fome, então, são temas que colocamos na capa de nossas publicações.

Infelizmente, ainda temos que lidar com as notícias ruins. Apesar de tanta coisa boa aparecendo, elas ainda tomam grande parte do nosso tempo. Afinal, não dá para ignorar o último relatório do IPCC, os fracassos das COPs, bancadas ruralistas, desmatamentos crescentes e uma ministra do Meio Ambiente dizendo que o aquecimento global não é tão ruim quanto pintam.

Queremos mais boas notícias boas, por favor.

Sexta, 06 Setembro 2013 14:43

Previsões confirmadas

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“Primavera não, pleno inverno.”

 (Giani Carta, jornalista)

 

Estava na cara. Confirmaram-se por inteiro as previsões dos observadores mais atentos das tricas e futricas do cenário político internacional. Eles apostaram, convictos, na hipótese de que por conta de ardilosas manobras de bastidores centradas em estratégias e conveniências geopolíticas espúrias, dissimuladas mas resolutas, a florida “primavera egípcia” iria transformar-se, de hora pra outra, num lodaçal invernoso extremo.

Assim, desafortunadamente, aconteceu. Para suprema frustração das multidões egípcias, que agitaram nas ruas seu inconformismo com relação às décadas de opressão a que se acham submetidas pelo jugo militar. O efêmero e insatisfatório ensaio de transição democrática durou brevíssimos meses.

Os verdadeiros donos do poder resolveram botar a cara novamente à mostra, indiferentes às reações da opinião pública internacional. Sabedores no íntimo de que, apesar de alguma retórica de condenação (para as arquibancadas) aos atos que eles, militares da terra dos faraós, praticaram, as grandes potências acabarão por não mover uma única palha sequer no sentido de alterar a situação imposta. Tudo vai permanecer como dantes no quartel de abrantes. E bota quartel nisso...

A violentíssima repressão desencadeada, disposta a não poupar nem mesmo lugares considerados sagrados pelas comunidades religiosas egípcias, não mostra a menor condescendência com relação a ninguém.

O episódio envolvendo o Nobel da Paz, El Baradei, prova isso de forma eloquente. Num primeiro instante, por certo desavisadamente, o ilustre personagem sentiu-se compelido a aderir ao golpe militar. Não se perturbou aparentemente com a mancha adicionada ao seu currículo de humanista e democrata, na ilusória suposição de que o movimento iria limitar-se a corrigir eventuais abusos cometidos pelo presidente fundamentalista deposto.

Mas diante da ferocidade implantada pelos “aliados”, El Baradei não teve como. Renunciou ao cargo que lhe foi outorgado pelos militares, deixando a vice-presidência do país. Tornou pública a renúncia, falando de seu inconformismo com referência ao rumo dos acontecimentos.

Não deu outra: considerado “traidor da pátria”, está sendo devidamente enquadrado nas leis de exceção que o despotismo militar egípcio propõe para garantir, na base da porrada, a ordem e a tranquilidade públicas. O novo ditador Abdul Fattahel-Sisi, a exemplo de seu antecessor Mubarak (a caminho da reabilitação), enfatiza bem seu papel no processo: “Eu e o exército somos guardiães da vontade do povo”. Então, tá.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Segunda, 02 Setembro 2013 20:05

A carta do caloteiro

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

Os outros credores ficam para o mês seguinte...”

(Do autor da carta do caloteiro)

 

A “Era da Informação” aí está e a Internet é o seu arauto. Frequentado por frenéticas multidões, o fascinante sistema tenta saciar a infinita sede de conhecimento do ser humano. Abre para todos as comportas de um registro geral de colossais proporções, onde se acha alinhada toda sorte de assuntos possíveis, imagináveis. E, falar verdade, para muitos outros assuntos impossíveis e inimagináveis.

A face jocosa dos textos disponíveis alimenta intercâmbio bastante intenso na rede de usuários. São casos engraçados. Frases espirituosas. Observações irônicas e críticas mordazes. É a gozação inteligente. Tudo merece difusão em ritmo vertiginoso, nessa navegação desenvolta, de um sítio para outro, nas ondas da Internet, em que se acham entusiasticamente engajados milhões de internautas.

Não é de causar surpresa, por conseguinte, que volta e meia caia-nos nas mãos, via correio eletrônico, uma historieta bem humorada, recolhida por alguém em lugar incerto e não sabido. Da maioria das historietas não se fica conhecendo sequer o autor. O que não impede, absolutamente, sejam elas objeto de intensa divulgação. Como acontece, aliás, também, no caso de escritos de autores de nossa especial predileção.

A “Carta do caloteiro”, entregue neste momento à apreciação dos leitores, foi extraída de um desses www.com.br da vida. No preâmbulo faz-se questão de sublinhar tratar-se de correspondência engraçada publicada na “Folha” e atribuída a um tremendo cara de pau. Teria sido encaminhada a várias lojas credoras. Uma coisa é certa: qualquer que seja o ângulo pelo qual se pretenda analisar o texto, ele não deixa de ser um eloquente sinal dos tempos.

 

 “Prezados Senhores, Esta é a oitava carta jurídica de cobrança que recebo.  Sei que não estou em dia com meus pagamentos. Acontece que eu estou devendo também em outras lojas e todas esperam que eu lhes pague. Contudo, meus rendimentos mensais só permitem que eu pague duas prestações no fim de cada mês. As outras, ficam para o mês seguinte. Estou ciente de que não sou injusto, daquele tipo que prefere pagar esta ou aquela empresa em detrimento das demais. Ocorre o seguinte: todo mês, quando recebo meu salário, escrevo os nomes dos credores em pequenos pedaços de papel, que enrolo e coloco numa caixinha. Depois, olhando para o outro lado, retiro dois papéis, que são os dois “sortudos” que irão receber o meu rico dinheirinho. Os outros, paciência. Ficam para o mês seguinte. Afirmo aos senhores, com certeza, que sua empresa vem constando todos os meses da minha caixinha. Se não os paguei ainda, é porque os senhores estão com pouca sorte. Finalmente, faço uma advertência: se os senhores continuarem com essa mania de me enviar cartas de cobrança ameaçadoras e insolentes, como a última que recebi, serei obrigado a excluir o nome de Vossas Senhorias dos meus sorteios mensais. Sem mais, obrigado.”

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

O texto abaixo, assinado pelo jornalista Alberto Dines, é de uma lucidez impressionante, com reflexões pertinentes acerca da reação ao programa Mais Médicos, do Governo Federal. Vale a leitura!

 

 

Por Alberto Dines em 27/08/2013 na edição 761, no Observatório da Imprensa

 

Há quase dois meses discute-se a implementação do programa “Mais Médicos” para atender as exigências dos manifestantes de junho. Vacilante, o governo foi apresentando uma sucessão de idéias incompletas que as corporações médica e acadêmica foram torpedeando implacavelmente. Com o decidido apoio da corporação jornalística.

O projeto sobrevivente e o mais consistente, apresentado pela própria presidente Dilma Rousseff em seguida às manifestações, previa a importação de médicos do exterior. Inclusive cubanos. Não era novidade: médicos desse país já prestaram serviço em diversos pontos do Brasil, com excelentes resultados.

À medida que a ideia se cristalizava, aumentava a histeria anticubana que se estendia a candidatos de outros países, especialmente Portugal e Espanha.

Acusações primárias se alternavam: ora dizia-se que os cubanos viriam como espiões ou agentes provocadores, ora que chegariam aqui na condição de escravos (ganhando salários irrisórios enquanto o governo de Havana ficaria com a parte do leão dos 10 mil reais mensais pagos pelo governo brasileiro). Alegou-se que cláusulas especiais foram impostas para evitar que os cubanos pedissem asilo político (por isso vinham sozinhos, sem a família). Nenhum editor deu-se ao trabalho de esclarecer, explicar vantagens e desvantagens.

Gestos e opções

Nos últimos dias, em desespero de causa, celebrados opinionistas acusaram os irmãos Castro de converter seus médicos em simples commodities, fonte de divisas para financiar um país falido. Argumento pueril, enganoso: commodities são bens em estado bruto, médicos são bens com alto valor agregado. A Índia estimula a saída dos seus cientistas e especialistas em informática de olho no retorno que trarão ao país; o mesmo acontece com Israel, que há décadas exporta agrônomos para os quatro cantos do mundo.

O exercício da medicina não pode ser examinado sem levar em conta o seu caráter humanitário. Levar médicos aos grotões do país – além de salvar vidas preciosas, contribuirá decisivamente para desmonetizar uma profissão que vem perdendo velozmente o seu caráter original, solidário e altruísta.

Nossa mídia embarcou de corpo e alma nessa cruzada egoísta, antissocial, fomentada primordialmente pela poderosa corporação médica, pelas empresas de ensino superior & adjacências. E isso no pós-junho, quando nas passeatas ainda reverberam referências pouco airosas à insensibilidade de jornais e jornalistas.

Acusa-se o PT de aparelhar o governo, porém a mesma obsessão ideológica domina os mais instintivos gestos e opções da grande e média imprensa brasileira.

Um jornalista que ouve o coração

Neste ambiente ríspido, desprovido de solidariedade, a coluna de Ricardo Noblat (segunda-feira, 26/8, O Globo, pág. 2) funciona como um alento e, talvez, como um divisor de águas.

O experiente repórter, editor e agora bem-sucedido blogueiro não se deixou enredar pelas armadilhas ideológicas, preferiu entregar-se aos valores morais, como se fazia antigamente quando os jornalistas naquelas redações barulhentas ouviam as batidas do coração e a pressão da consciência.

Só vejo vantagens” – apesar do pragmatismo e objetividade do título, trata-se de uma calorosa convocação para que os jornalistas deixem as trincheiras partidárias que tanto prejudicam os seus dotes narrativos e se entreguem a devoções mais profundas, essenciais.

“Mais Médicos” é um programa da saúde pública. “Mais humanidade” pode ser um projeto de renovação jornalística.

Leia também

O que move as entidades médicas – Luciano Martins Costa

Caluda! Os cubanos vêm aí – L.M.C.

A constrangedora vergonha alheia – L.M.C.

Terça, 20 Agosto 2013 13:54

E se?...

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“Sonhar com olhos despertos faz parte da vida.”

(Domingos Justino, educador)

 

E se o Governo abrisse mão da idéia do trem-bala e resolvesse realocar os 50 bilhões de reais, previstos inicialmente para a obra, noutros projetos do ponto de vista social mais prementes, o transporte coletivo dos grandes centros urbanos, por exemplo?

E se os altos escalões administrativos colocassem todo empenho (possível e impossível) no sentido de articular negociações com o poderoso sistema financeiro, persuadindo-o a participar com uma quota expressiva de seus extraordinários e sempre crescentes lucros em favor dos projetos sociais que interessam à causa do desenvolvimento e do bem estar de nossa gente?

E se fossem criados, por meio de tratativas inteligentemente conduzidas, mecanismos capazes de suscitar o repatriamento dos volumosos recursos que milhares de brasileiros, por razões as mais variadas, aplicaram no estrangeiro, nos chamados paraísos fiscais, de forma a que essa dinheirama ociosa toda seja incorporada, com ganhos naturalmente para os investidores, em projetos que favoreçam nossos avanços econômicos e sociais?

E se, também, os poderes públicos nos diversos níveis se dispusessem, munidos de um plano de trabalho amadurecido e concatenado, a convocar empresas e contribuintes individuais inscritos na dívida pública para um acerto geral que pudesse carrear recursos substanciais aos programas de crescimento da Nação?

E se, ainda, o Governo Federal resolvesse reunir os governos estaduais endividados com a União para uma renegociação dos débitos acumulados, liberando verbas substanciais, hoje empregadas praticamente no oneroso custeio da dívida, em projetos nas áreas da saúde, educação e segurança pública?

E se a Nação, numa ampla conjugação de vontades de suas lideranças, optasse pela implantação de um programa social de vanguarda, coerente com esses tempos de mudanças, que estimulasse a participação no esforço de desenvolvimento das regiões mais desassistidas do interior brasileiro, da mão-de-obra técnica oriunda das Universidades? Algo assim parecido com o “Projeto Rondon”, de caráter obrigatório como foi o “Tiro de Guerra” aos 18 anos, de idos tempos, e que instituísse, ao término dos cursos, condições para o deslocamento dos profissionais diplomados, com remuneração garantida e por tempo determinado, para cidades e locais reconhecidamente carentes de recursos humanos em setores vitais?

E se o currículo do ensino médio brasileiro fosse reorganizado no sentido de preparar adequadamente os educandos para ingressarem de pronto no mundo do trabalho, caso não se sintam aptos a seguir carreiras do ensino superior?

E se dos planos governamentais prioritários fizesse parte, com o concurso da iniciativa privada, o incremento dos sistemas ferroviários e de navegação fluvial, de maneira a criar novas e importantes alternativas para o deslocamento de passageiros e a circulação de bens e mercadorias?

E se, na esfera da atuação política, fosse cogitada, de repente, uma redução de Ministérios e de cargos parlamentares no Congresso, Assembléias e Câmaras de Vereadores?

E se o Judiciário, o Legislativo e o Executivo ordenassem aos setores burocráticos sob seu controle a rígida observância da Lei da Transparência, com realce para a divulgação, sem tergiversações e engodos, das remunerações dos servidores em todos os níveis, definindo, ao mesmo tempo, procedimentos que corrijam ou amenizem, com bom senso e respeito a direitos adquiridos, as distorções salariais existentes e que evitem a reprodução de abusos ao arrepio da legislação que estabeleceu os tetos salariais para o serviço público?

E se tudo isso viesse a acontecer, como fruto da vontade política e sensibilidade social de nossas lideranças, será que as coisas não passariam a funcionar mais a contento na vida nacional?

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Sexta, 16 Agosto 2013 18:54

Um fiapo no torrão

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“Afinal de contas, só existe uma raça: a humanidade.”

(George Moore)

 

O racismo, já disse noutra ocasião, é como a grama tiririca. A gente imagina que possa extirpá-la. Pega da enxada e tenta arrancá-la do solo com raiz e tudo. De nada adianta. “Um fiapo escondido no torrão faz a peste vicejar”, como é dito num verso da saborosa poesia sertaneja, de autoria de um êmulo do grande Catulo da Paixão Cearense, cujo nome a memória velha de guerra não conseguiu guardar.

E viceja mesmo pra valer! Os exemplos a considerar são bem atuais. O senador Roberto Calderoli, ocupante de pasta ministerial no governo italiano, filiado a um partido ultraconservador, a Liga do Norte, responde presentemente a uma ação judicial, movida por promotores de Bergamo, por afirmações públicas injuriosas à sua colega de Ministério, Cecile Kyengea, “negra como as profundezas d’África” (pra lembrar verso do grande poeta negro estadunidense Langston Hughes). Cecile, oftalmologista, nascida no Congo, cidadã italiana, foi comparada a um orangotango. Tornou-se alvo de comentários de odor racista desde sua designação para o Ministério da Integração, em abril. O comentário do Ministro Calderoli suscitou outras repulsivas manifestações de intolerância. Uma colega sua de partido, Dolores Valandro, insultou a Ministra em registros espalhados pelas redes sociais, afirmando que ela merecia ser estuprada. Nesse caso específico, a agressora foi condenada pela Justiça de Pádua por incitar a violência sexual, pegando 13 meses de prisão com direito a sursis e ficando proibida de exercer por três anos qualquer cargo público. O caso de Cecile desencadeou aceso debate sobre o racismo na Itália, deixando visível que a intolerância racial no país, um polo de convergência de imigrantes africanos, é uma questão revestida da maior gravidade.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, com intermináveis marchas, vigílias, passeatas, entrevistas inflamadas, militantes dos direitos civis, tendo a participação ativa da comunidade negra, promovem nas ruas ruidosas manifestações anti-racistas, motivadas pela absolvição, numa cidade da Flórida, do assassino de um jovem negro de 17 anos. O jovem em questão, Traycon Martin, caminhava despreocupadamente pela rua. Vestia um gorro. ”Um negro com gorro” pareceu ao olhar de George Zimmerman, 28 anos, caucasiano, segurança voluntário do bairro, um indivíduo suspeito. Foi o quanto bastou para a abordagem truculenta e o disparo mortal. O assassino não chegou nem a ser detido. Só veio a responder por processo criminal por força de forte pressão popular que acabou ganhando dimensão nacional. Escudou-se numa legislação anacrônica, vigente na Flórida, a chamada “Stand your ground”, que ampara, com base em simples suspeita, o emprego de arma de fogo como defesa, por alguém que se sinta ameaçado. A lei, apoiada pelos fabricantes de armas, deixa a critério de quem faça as abordagens de pessoas suspeitas a conveniência de puxar ou não o gatilho. Zimmerman contou com o apoio irrestrito de grupos racistas para obter absolvição tranquila no Júri.

A sentença ecoou com força de bofetada na cara da opinião pública esclarecida. Detonou movimento popular que se alastrou pelo país adentro e que volta a expor ao mundo as chagas odiosas da discriminação racial que amplos setores da sociedade norte-americana cultivam.

O movimento forçou o Departamento de Justiça a reabrir as investigações a respeito do assassinato, a um só tempo que trouxe à tona volumosa carga de fatos indicativos de que os conflitos raciais no país ainda estão longe de se extinguirem. Uma amostra significativa disso, bem recente, foi dada pela Suprema Corte, ao tornar sem efeito a Lei do Direito ao Voto, promulgada em 1965, que determinava investigação ampla do Congresso a respeito de regras eleitorais notoriamente hostis à população afro. Em certas regiões do sul do país, está bem documentado, existe uma manobra política sorrateira contínua de obstrução do voto dos negros. Milhares de representantes da comunidade negra, por meio de artifícios variados, são impedidos de comparecer às urnas nas eleições.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Sexta, 16 Agosto 2013 18:45

Para pais novos e mais velhos

Escrito por

Texto e foto: Silvia Marcuzzo

Mais um segundo domingo de agosto passou. Uns pais vão, outros surgem. Uns nem sabem o que significa isso, outros acham que devem tudo a quem colocou a sementinha na mamãe. Ter um pai presente, que atua em vários palcos da vida, transmite segurança, amor, conhecimento, não é para qualquer um. Talvez seja apenas para alguns novos seres que estão despontando nos últimos anos.

Dedico esse post aos que descobriram os encantos da paternidade tardia. Meu marido, por exemplo, disse que se soubesse que era tão bom ser pai, teria tido filho antes. Ele foi pai aos 44. Tem sido frequente descobrir homens que não tinham tido a coragem ou a oportunidade de ter filhos estarem compreendendo o que é passar noites em claro, trocar fraldas etc. Muitos acabam tendo o coração mais mole que o da mãe. Abrem o precedente, dão mais chances, são menos incisivos.

O fato é que todo dia dos pais é uma data que mexe com muita gente. Comigo também. Se por um lado, em tempos de Facebook, as homenagens aos pais são como cascatas de postagens que despejam gratidão e palavras de carinho, por outro atiça outros lados daqueles que não tiveram um pai como os de propagandas de família feliz.

Meu pai, por exemplo, foi um homem de muitos predicados, porém não era um pai, digamos assim, cheio de amor pra dar. Era fechado e de pouca conversa, a não ser se fosse sobre Vale Vêneto ou sobre a cultura italiana. Uma vez, lá pelos meus 8 anos, perguntei pra minha mãe o que era a palavra “puta”. Minha mãe, mandou eu perguntar para meu pai, que imediatamente respondeu: Vai olhar no dicionário. Em seguida, voltei com outra dúvida: Pai, o que é prostituta?

Acabei entendendo o significado mais tarde. Enfim, fico pensando… se hoje somos o que somos com pais de uma geração, cuja educação foi calcada em pudores, temores e sem brincadeiras entre crianças e adultos, como serão nossos filhos quando ficarem mais velhos? Se por um lado naquele tempo foi dureza – havia muito mais crianças para se divertir, não se tinha problemas de segurança e se vivia situações que entraram em extinção, que nem todo dinheiro do mundo e nem a tecnologia podem comprar – por outro, não ter tudo que se queria, nem ter a compreensão tão almejada nem na escola, nem em casa, nos deixava mais versáteis para enfrentar os desdobres da vida. Hoje, nossos filhos nos questionam tudo e querem respostas imediatas.

Eu adorava brincar com bonecas de papel, de casinha de fofoleti, cujos móveis eram feitos de caixinhas de fósforo, de se esconder até tarde da noite com uma turma de amigos da vizinhança. Bons tempos aqueles de “campinho”, onde os guris jogavam bola e as festas de São João reuniam uma gurizada em volta de uma enorme fogueira, cujas brasas ardiam por mais de um dia.

Se em casa, a linha era dura, o negócio era estar na rua. E naquele tempo ninguém vivia enjaulado. Os muros, quando existiam, eram baixos para se sentar em frente à casa. A casa do vizinho era uma extensão da nossa. Os pátios, imensos, cheios de árvores frutíferas. E as consequências de se condenar o uso da pílula, provocavam a chegada de mais gente para brincar. Não era algo planejado, pensado, discutido. Simplesmente nascia mais um.

Sou a última, “a rapa do tacho”, como dizem por aqui. Nasci aos 46 minutos do segundo tempo e com uma diferença de quase uma década do meu irmão anterior a mim. Peguei uma época muito diferente. Vim ao mundo quando meu pai tinha quase 50 anos. Bem na idade onde muitos amigos estão tendo o seu primogênito. Apenas hoje entendo o significado de coisas intangíveis que ele deixou. Por essas e por outras que me sinto um exemplar autêntico da “transição civilizatória”. Aprendi a tocar piano, fiz datilografia, fui a primeira da família a ter um computador (um DX2 66, comprado com URV). Saí de casa para estudar na capital, contrariando os desejos de meus pais que queriam que eu tivesse ficado no interior e sido professora. Demorei pra casar e só fui ter filho com 36.

Com o passar dos anos, meu pai foi amolecendo. Uns anos antes de falecer aos 89 anos, em 2010, confessou para meu marido que ao ver como meu filho era tratado por ele, dava-se por conta de como deveria ter sido diferente como pai. Minha esperança é de que com pais mais experientes, o futuro seja melhor, com mais gente consciente. Pois com a idade vamos conectando mais uma coisa e outra. Percebemos que a mais valiosa herança é o exemplo e que o melhor da vida precisa ser dividido com quem nos deu o que não pedimos, mas que sem isso não estaríamos lendo esse texto

* Sobre Silvia Marcuzzo

É jornalista e trabalha a temática socioambiental desde 1993. Já transitou em diversos “ecossistemas” e arranjos energéticos do jornalismo. Ao passar por assessorias de ONGs, governos e consultorias para empresas, em Porto Alegre, São Paulo e Brasília, sempre manteve a convicção de que é possível melhorar a relação entre os “ambientes” e a comunicação. Por isso, fundou a ECOnvicta Comunicação para Sustentabilidade.

Terça, 06 Agosto 2013 20:00

Quanto vale um artista?

Escrito por

Abaixo, publico texto da jornalista Débora Nascimento, escrito para o Blog da Revista Continente (http://www.revistacontinente.com.br/blog/?p=1502), que trata com muita sensibilidade sobre a saúde do mestre Dominguinhos ou sobre quano valia sua saúde. Belo texto, como já atestou o jornalista Schneider Carpeggiani. Vale apena ser lido!

Por Débora Nascimento

Uma das coisas que mais me chocaram nas últimas semanas foram os comentários de uma notícia sobre o estado de saúde de Dominguinhos, publicada alguns dias antes da morte do artista. A matéria tratava, na realidade, do montante da dívida do cantor com o Hospital Sírio Libanês, a qual a família alegava não ter como pagar. Era simplesmente perturbadora a falta de respeito e empatia dos leitores, na linha “se ele não tem como pagar, que vá para o SUS!”, “por que não juntou dinheiro para a velhice?!”, “como um artista não tem dinheiro?!” e por aí vai.

Fora a crueldade evidente nessas falas, que é uma questão à parte, é incrível constatar também como as pessoas ainda ligam arte a (muito) dinheiro. A vaga ideia de se ficar rico sendo artista é algo tão frágil quanto qualquer sonho às duas da madrugada. Não custa lembrar que dois dos maiores gênios da humanidade, só para citar os da música, Beethoven e Mozart, morreram pobres.

Essa idealização de lucro financeiro com canções surgiu depois dos anos 1950, com a explosão da música pop, a massificação do rádio e da TV como popularizadores de artistas e composições, a chegada da juventude como público consumidor, o uso de estádios como espaços para shows, com uma capacidade 20 vezes maior para abrigar pagantes do que as casas e clubes noturnos. Vale ressaltar que, mesmo somando todos esses aspectos, somente alguns poucos nomes conseguiam chegar ao patamar dos realmente bem pagos.

Nos anos 1950, um ícone do porte de Carmen Miranda precisava fazer dois shows por noite para poder ganhar de acordo com seu talento e fama. Nessa década, Luiz Gonzaga viajava de carro em busca de locais para fazer show. Chegava a negociar com prefeitos a apresentação em algum espaço público, como cinemas. A arrecadação não era tanta, mas, em compensação, havia os lucros com as vendagens de LPs, algo também não muito portentoso, já que o número de discos vendidos por um artista vinculado a uma gravadora era (e ainda é) um dos grandes mistérios da humanidade. Thriller, de Michael Jackson, é um exemplo. Já se falou em 37, em 44, em 56 milhões de cópias (e isto em publicações da mesma época). Ninguém sabe ao certo quanto vendeu (e vende) o disco; até o Rei do Pop deve ter morrido sem saber.

E por falar em reinado… Se Luiz Gonzaga, que era o Rei do Baião, e um showman nato, não conseguia engrenar num esquema profissional de apresentações, imagine o tímido Dominguinhos, que era um (baita) discípulo?

Engana-se quem pensa que esses artistas recebem rios de dinheiro. Só quem se dá bem nessa área é quem consegue estar bem paramentado com produtores, agentes e assessores. Mas os que praticam o “do it yourself” geralmente sofrem com os percalços do mercado. Soma-se a isso o fato de que mesmo o forró sendo um gênero musical que toca o ano inteiro em diversas regiões do país, um artista não consegue agendar anualmente muitos shows de grande porte, pois estes geralmente envolvem uma casa de show apropriada ou apresentação em palco aberto, vinculada a algum governo municipal ou estadual, que trabalham com os esquemas dos ciclos festivos, Carnaval, São João e Réveillon.

Os eventos em pequenas casas de shows geralmente pagam cachês ínfimos, algo que não cabe (cabia) ao porte de um nome como Dominguinhos, que, para completar, ainda era um senhor de 72 anos, com um famoso medo de viajar de avião, para complicar.

Pensei em escrever este texto por conta dos comentários dos “internautas” na matéria sobre o estado de saúde do adorável sanfoneiro. Mas agora seu corpo já é coisa do passado. O que nos resta é “apenas” o registro de suas imagens, de sua voz. Dominguinhos agora pertence à nossa memória. Sua vida de (mais um) garoto pobre do Nordeste que conseguiu superar todas as adversidades pode e deve ser um referencial para as novas gerações.

Pensei em redigir este post sob o título de “Quanto vale um artista?”, para pensarmos mais sobre isso. Mas seja qual for o valor que qualquer um, contratante ou público, pense que um artista deva ter, esse “cálculo” deve começar por quem tem respeito e verdadeiro amor à arte. E quanto aos anônimos e seus muitos comentários cruéis nos portais de notícia, só tenho a lastimar por este país.

MAIS

Dominguinhos é o narrador de O Milagre de Santa Luzia (2008), documentário que narra a história da sanfona/fole/concertina/acordeom/harmônica no país e entrevista os principais expoentes das regiões, como Osvaldinho, Camarão, Genaro, Arlindo dos Oito Baixos, Gilberto Monteiro, Borguettinho… É uma produção bonita, que merece ser guardada como lembrança de Dominguinhos e desses mestres que parecem estar se extinguindo – ou é impressão minha? Senão, vejamos: o instrumento é bastante caro, sua afinação e manutenção são uma problemática à parte, pouquíssimos jovens se interessam em aprender ou não têm acesso a quem os ensine, não há uma sistematização de partituras e acordes dos clássicos do estilo, e, para completar, os grandes instrumentistas não são tão “populares” quanto os do sertanejo “universitário”, para que possam despertar o fascínio em novos herdeiros musicais. Ou seja, salvem os sanfoneiros!

 

 

Sexta, 02 Agosto 2013 19:29

Meu caro Francisco

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

Que cada um sinta a necessidade de dar à humanidade  os valores éticos de que a humanidade necessita.”

(Papa Francisco)

Devo confessar, de cara, que o tom coloquial destas maltraçadas, em substituição à etiqueta emplumada tradicional, inspira-se da recomendação reiterada que você passou, na Jornada Mundial da Juventude, para homens e mulheres empenhados na construção de um mundo melhor, para que valorizem sempre em suas ações o contato humano fraterno.

Senti firmeza, baita firmeza, em sua fala. Dei-me conta, de repente, apoderado de santa alegria, de uma situação extremamente valiosa. O surgimento em cena de uma liderança com legitimidade universal, providencialmente escalada por desígnios superiores nas esferas transcendentes, para fazer ecoar nos céus do mundo neste instante uma mensagem renovada de fé e esperança nos destinos do ser humano.

Você disse, na Jornada, com todas as letras, pontos e vírgulas, coisas que no recôndito da alma todas as pessoas reconhecem verdadeiras, mas que acabam, por um montão de razões indesculpáveis e jogo de conveniências mundanas, relegadas a plano secundário nas propostas de edificação humana.

Tanto quanto suas palavras, seus gestos de afeição fraternal, profusamente registrados pelas câmaras ao longo dos percursos percorridos no papamovel em ruas cariocas, revelaram-se extremamente inspiradores. Tomo um deles como símbolo especial dessa aproximação com o outro apontado por você como essencial à convivência saudável. Alguém não identificado, no meio da incalculável multidão, passou-lhe às mãos uma cuia de chimarrão. Você sorriu, levou confiantemente a bomba da cuia aos lábios, sorveu uma porção do líquido e devolveu, com o veículo em movimento, o recipiente ao desconhecido ofertante. Foi de arrepiar. Naquele preciso momento, deu pra perceber tudo aquilo que você, pouco tempo depois, em comovente depoimento, transmitiu: “... antes de viajar, fui ver o papamovel que seria trazido para cá. Era cercado de vidros. Se você vai estar com alguém a quem ama, amigos, e quer se comunicar, você não vai fazer essa visita dentro de uma caixa de vidro. Não. (...)E no automóvel, quando ando pela rua, baixo o vidro, para poder estender a mão, cumprimentar as pessoas. Quer dizer, ou tudo ou nada. Ou a gente faz a viagem como deve ser feita, com comunicação humana, ou não se faz. Comunicação pela metade não faz bem.”

Palavras de invulgar sabedoria. Sua comunicação singela, direta, franca, atinge o âmago das questões. Oferece respostas magistrais às inquietações humanas. Você nos trouxe, Chico, com irradiante simpatia e carisma arrebatante, a chance de podermos repensar, dentro de conceitos (segundo suas próprias palavras) revolucionários – no sentido de transformações sociais positivas, consentâneas com a dignidade humana –, os aspectos amargos das estruturas de vida complexas da civilização atual.

Estruturas abaladas pela corrupção de diferentes feitios e espalhada por tudo quanto é canto, que gera tanto inconformismo e clamores por representar traço de ligação com a injustiça social que campeia por aí agora. Engrenagens impregnadas, como você diz, da idolatria do dinheiro, do protagonismo do dinheiro, que estabelece “uma política mundial economicista, sem qualquer controle ético, um economicismo autossuficiente que vai arrumando os grupos sociais de acordo com sua conveniência.” Estruturas, como ainda diz você, que criaram o “drama desse humanismo desumano que estamos vivendo”, que descarta jovens e idosos, que leva à banalização da violência e à “globalização da indiferença” e que nos lança no rosto, como uma bofetada, a catástrofe de doentes que não têm acesso a tratamento, de homens e mulheres que se tornam mendigos e que sucumbem aos rigores climáticos, de crianças que não têm condição de se educarem. Estruturas, enfim, que fazem questão de ignorar tudo isso como fato relevante, mas que tratam, aí sim, como “grande catástrofe” a oscilação de 3 ou 4 pontos nas bolsas de algumas capitais do mundo financeiro.

Papa Francisco, mesmo que os donos do mundo venham botar pra fora alguma insatisfação com o que você diz, fique certo de que seu recado está sendo absorvido. Mentes e corações esperançosos, a cada hora em maior número, se fixam obsedantemente na idéia construtiva de se “estimular uma cultura ecumênica do encontro (...) no mundo todo.” De tal modo “que cada um sinta a necessidade de dar à humanidade os valores éticos de que a humanidade necessita.”

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quinta, 25 Julho 2013 20:38

Jamais aposentar a vida

Escrito por

Por Paiva Netto

26 de julho é o Dia dos Avós. Por oportuno, apresento-lhes trechos de meu editorial na 24ª edição da Revista LBV (Jan-Fev de 1992), publicado anteriormente na década de 1980, pela “Folha de S.Paulo”. Vivemos época de constante progresso material. Entretanto, não se verifica o correspondente avanço no campo da ética e do Espírito. Resultado: males como a fome, a violência e o desrespeito à Natureza perduram. E lamentavelmente as pessoas da terceira idade também são atingidas pela frieza dos sentimentos humanos.

É verdadeiro crime não se reconhecer o valor dos Irmãos idosos. Neste período da vida, mais do que nunca se fazem merecedores do carinho e da solidariedade dos mais moços, num justo reconhecimento à contribuição que legaram à sociedade. Na LBV não acreditamos em velhice como sinônimo de coisa deteriorada. Ninguém é velho quando tem um bom e grande Ideal. Pode não mais carregar um piano, não mais passear de motocicleta, se possui, porém, ânimo dentro de si, é jovem.

As pessoas a certa altura da vida precisam, com raras exceções, aposentar-se de seus empregos, mas não o devem fazer com relação à vida. Devem ir à luta enquanto puderem respirar. A Legião da Boa Vontade mantém com o seu extenso trabalho de promoção humana e social os Lares de amparo aos velhinhos. Neles os vovôs e vovós são tratados com muito Amor e, o que é melhor, aprendem que nunca é tarde para colaborar em prol de uma Humanidade mais feliz, pois é a força dos bons exemplos que inspira as novas gerações a vencerem os obstáculos da existência terrena.

Idade não dá nem tira caráter a quem quer que seja. E tudo, independentemente da idade biológica, pode corrigir-se, porque o Cristo é o médico competente dos males do corpo e da Alma.

Na LBV é inumerável a juventude de cabelos brancos que vibra, constrói lado a lado com aqueles que — também trazendo dentro de si mesmo o Ideal do Amor de Deus pela Humanidade — são ainda jovens no corpo. Aquele que ama o seu semelhante com o Amor do Cristo tem a pujança e a força interior de Sua Eternidade. Pode parecer um paradoxo. Todavia, o país que desampara os seus idosos não crê no futuro da sua mocidade. Que é a nação, além de seus componentes?

Havendo futuro, os moços envelhecerão. Viverão mais. Irão aposentar-se... Uma convicção arraigada do gozo imediato das coisas é a demonstração da descrença no amanhã. E há os que ainda moços pensam: “Vamos viver agora, antes que tudo acabe! E os que conseguiram resistir tanto, que se danem...“ Não há exagero algum aqui. É o que também se vê. Tem-se a impressão de que alguns daqueles que desfrutam do vigor da juventude ignoram a possibilidade de alcançar a decrepitude. Mas poderão chegar lá... Não existe futuro sem moços. Também, não o há sem os idosos. Temos de aliar ao patrimônio da experiência dos mais velhos a energia dadivosa dos mais moços. (...)

Lutamos por um mundo que ofereça oportunidades para todos. E isto não é impossível. Impossível é continuar como está: a terrível paisagem das almas ressequidas pela indiferença ao Amor de Deus, como os ossos secos da visão do Profeta Ezequiel. O nosso planeta tem de receber o sopro espiritual da Vida, pois é rico e muito amplo, com espaço suficiente para todo mundo. Vovô, vovó, mamãe, papai, professores... nós, seus netos, filhos e alunos, os amamos e precisamos ter de vocês toda a experiência, todo o sentimento, todo o carinhoso incentivo. E isto é essencial na Era do Apocalipse. Os tempos chegaram.

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor. O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ">O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. www.boavontade.com

Quinta, 25 Julho 2013 20:37

Francisco

Escrito por

Por Paiva Netto

Fraternalmente saudamos a chegada ao Brasil do papa Francisco, reconhecido exemplo de humanidade. Ele veio para a Jornada Mundial da Juventude (Rio 2013). O jovem é o futuro no presente! Ao ser eleito bispo de Roma, como gosta de ser citado, na sua nobre modéstia, o argentino Bergoglio escolheu o nome do poverello de Assis, Francisco, que, por sinal, é o patrono da Legião da Boa Vontade. Portanto, é com satisfação que vemos nele propósito similar de vida do santo protetor da Natureza, na sua preocupação com os pobres. Com Jesus, o Cristo Ecumênico, aprendemos que o Amor Divino é a perfeita ordem que direciona a sociedade para tempos melhores, de respeito às diferentes culturas e etnias do planeta que nos abriga. A perseverança dos jovens na militância do Bem só pode trazer benefícios às comunidades. Por isso, a recomendação evangélica de Jesus, o Profeta Divino — “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”, João, 13:34  —, deve iluminar constantemente a agenda dos que vivem e trabalham pela Caridade — sinônimo de Amor — e pela Paz.  

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

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Quinta, 25 Julho 2013 20:32

A ignomínia da tortura

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“A inocência dos rapazes é indiscutível”.

(OAB, do Paraná)

Qual vai ser mesmo o desfecho dessa mais recente atrocidade cometida por policiais truculentos e desalmados contra cidadãos inocentes barbaramente submetidos no Paraná a torturas inacreditáveis para confessar crime que não praticaram?

Recapitulando o que aconteceu: uma adolescente, Tayná Adriana da Silva, 14 anos, desapareceu. Foi vista pela última vez nas proximidades de um parque de diversões onde trabalhavam quatro rapazes, com idades entre 22 e 25 anos, apontados, mesmo sem provas ou testemunhas, como responsáveis pelo sumiço da garota.

O que aconteceu depois foi um show de horrores. Os policiais encarregados da investigação do caso, no afã de responder prontamente ao clamor da população por justiça, divulgaram os nomes e as fotos dos “suspeitos”, criando ambiente propicio para que populares indignados destruíssem o parque de diversões e tentassem linchar os “autores do crime”.

Os indiciados, debaixo de tortura, confessaram o crime. A polícia utilizou variadas “técnicas” para obter a “confissão”. Choques elétricos, pau de arara, sufocamento por sacos de lixo, introdução de cabos de vassouras no ânus, outras sevicias sexuais. Um dos acusados teve a cabeça enfiada num formigueiro. Se lhes tivesse sido exigido, confessariam até mesmo o assassinato de John kennedy, decifrando graças aos eficientes métodos policiais paranaenses um tormentoso enigma já com meio século de duração.

O “eficaz método” para a extração da confissão dos “suspeitos”, levou todos eles a “admitirem” haver estuprado em sequência a garota, cujo corpo foi encontrado num poço, nas imediações do parque. Laudo da perícia atestou, mais tarde, que a menor não apresentava sinais de abuso sexual. Estava com as roupas alinhadas, sem indícios de resistência. De outra parte, o material genético do sêmen recolhido em suas vestes íntimas não era compatível com o de nenhum dos acusados.

Começou a ser trabalhada, a partir dessas constatações, a hipótese de que teria ocorrido, anteriormente à morte da menor, uma relação consensual. Depois de 17 dias de prisão nas mãos do terrorismo policial, os quatro foram considerados inocentes, já aí com a intervenção da Comissão de Direitos Humanos da OAB paranaense.

A suprema gravidade dessa história de horror levou o Governo Federal a chamar a si o exame do caso, assegurando proteção aos rapazes. O processo, ao que se anunciou, será julgado pelo Superior Tribunal de Justiça. A OAB do Paraná em manifestação pela imprensa disse que a história “chocou pela natureza das agressões, pelo tempo que durou, pela participação de numerosas pessoas e pela indiscutível inocência dos rapazes.”

Renova-se a pergunta formulada na parte introdutória deste comentário: qual será o desfecho de tudo isso? O reconhecimento oficial da inocência dos acusados terá que ser acompanhado, evidentemente, de um justo ressarcimento pelos danos morais, físicos e psicológicos que a horrenda situação produziu. Mas como é que fica a situação dos torturadores? Que punição lhes será reservada?

Faz-se imprescindível, nesse particular, uma decisão que possa traduzir, com supremo rigor, a justa repulsa da sociedade a esse e a outros processos iníquos de violação dos direitos humanos, lamentavelmente praticados por aí, por despreparados agentes da lei. É preciso saber extrair dos acontecimentos uma lição com didáticos desdobramentos.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

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