Editor

.

Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

    Leia mais ...

Por José Eustáquio Diniz Alves*

A energia renovável (eólica, solar, biomassa, etc) conta com a simpatia da maioria da população. Toda pessoa de bom senso confia nas fontes de energia que não emitem CO2 e que são renováveis, limpas e infinitas (pelo menos enquanto existir o Planeta). Mas muitas pessoas dizem que estas energias são caras e que não há dinheiro que pague a gradativa substituição das fontes fósseis e a menor dependência do petróleo, do gás e do carvão (inclusive o carvão vegetal feito com a derrubada de matas nativas).

Cabem então duas perguntas: 1) a energia renovável é muito cara? 2) Existe dinheiro para investir na criação de uma matriz energética limpa?

Resposta à primeira pergunta: o custo de qualquer tipo de energia é alto, principalmente quando se está no início do processo de produção. Mas não tão caro que não valha a pena fazer a transição da economia de alto carbono para a de baixo carbono. Com os ganhos de escala e a experiência adquirida os custos unitários tendem a diminuir. Vejamos somente dois exemplos.

Existe um projeto de producão de 100 GW de energia (equivalente a cerca de 8 usinas de Itaipu) por meio da Energia Solar Concentrada (CSP - Concentrated Solar Power) no deserto do Saara, no norte da África, ao custo de U$ 555,00 bilhões. O projeto pretende colocar múltiplas usinas CSP ao longo do deserto, ocupando uma área menor do que a do lago da represa de Assuã, no Egito (que gera somente 3 GW de energia) e transmitir a energia para o Oriente Médio e a Europa por meio de linhas de alta-voltagem. Instalada esta primeira parte do projeto, as ampliações ficariam por um custo muito menor. Uma vantagem adicional deste projeto é fornecer água para o norte da África e criar uma cobertura vegetal nos terrenos estéreis (que sirva para capturar CO2). O impressionante é que um retângulo ocupando um pequeno pedaço do deserto do Saara pode fornecer uma área suficiente para gerar energia elétrica para todo o mundo.

A capacidade eólica mundial instalada, em vigor no final de 2009, era de 158 GW o que significa uma produção anual de 340 TWh (Terrawatts hora) de eletricidade limpa, que por sua vez economizou a emissão de 204 milhões de toneladas de CO2 por ano. Somente no ano de 2009 (ano de recessão econômica mundial) a capacidade instalada de energia eólica no mundo foi de 37 GW (equivalente à quase 3 Itaipus). Ao longo dos últimos 20 anos, o custo da eletricidade gerada pelos ventos diminuiu mais de 80%. No início de 1980, quando os primeiros aero-geradores foram instalados, o custo de eletricidade era de 30 centavos de dólar por quilowatt-hora (kWh). Agora, as novas instalações de energia eólica podem gerar eletricidade por menos de 5 centavos de dólar o kWh, um preço que já é competitivo com as usinas termelétricas a gás ou carvão. Segundo David MacKay, os custos da energia eólica já são menores do que os da energia solar e estão ficando competitivos com as usinas de carvão.

Portanto, com investimentos na casa de um trilhão de dólares ao ano, o mundo poderia dar uma enorme arrancada na produção de energia solar e eólica. A partir de uma ampla base instalada, haveria ganhos de escala e o preço da energia por kWh se reduziria muito. Ao contrário, se nada for feito, o custo do aquecimento global será enorme. Segundo Eban Goodestein, o custo do derretimento das geleiras no Ártico pode custar de US$ 2,4 trilhões a 24 trilhões de dólares à agricultura global, aos imóveis e às seguradoras, causados pelo aumento do nível dos oceanos, enchentes e ondas de calor. Outro exemplo dos danos causados pela exploração da energia fóssil: o governo dos EUA pagou cerca de US$ 35 bilhões nos últimos 30 anos para cobrir as despesas médicas dos mineiros de carvão que sofrem da doença do “pulmão negro”. Assim, é melhor investir agora do que remediar no futuro.

Resposta à pergunta sobre a existência de recursos: o PIB mundial equivale a cerca de 60 trilhões de dólares produzidos a cada ano. Com uma pequena fração deste valor, aplicado anualmente, teríamos a limpeza da matriz energética em pouco tempo. Mas não precisamos lidar com cifras tão altas. Basta olhar para os gastos militares do mundo, de US$ 1,5 trilhão de dólares e o déficit público dos EUA, que no ano passado foi de US$ 1,6 trilhão. Para a próxima década, o orçamento encaminhado ao Congresso pelo presidente Barack Obama, estima despesas totais de US$ 45,8 trilhões e receitas totais de US$ 37,3 trilhões, entre 2011 e 2020. Assim, os EUA, na melhor das hipóteses, terão um déficit público acumulado de US$ 8,5 trilhões na década. Este dinheiro seria suficiente para mudar o quadro energético mundial.

O deficit público dos EUA está sendo financiado pelos países superavitários da comunidade internacional, inclusive o Brasil. Ou seja, grandes parcelas da população mundial estão sustentando os altos gastos militares e um alto padrão de consumo (em grande parte sujo e poluidor) do povo norte-americano, ao invés de investirem em fontes renováveis e limpas de energia. Portanto, o mundo está adiando a limpeza do Planeta e a construção de uma matriz energética confiável e inesgotável para, dentre outras coisas, financiar o déficit público dos Estados Unidos da América.

Conclusão: Se o mundo gastar entre US$ 1,5 ou 1,6 trilhões de dólares ao ano (o valor dos gastos militares mundiais ou do déficit público dos EUA em 2009) poderia ter, no mínimo, 50% das necessidades energéticas cobertas por energia limpa até 2030, reduzindo drasticamente a emissão de CO2 e mitigando o aquecimento global. Portanto, existe dinheiro para construir uma matriz energética verde e limpa no mundo durante as proximas décadas. Basta mudar as prioridades, reduzindo os gastos militares, e penalizar o consumo conspícuo e poluidor. O dinheiro poupado com a redução das atividades que estão destruindo o Planeta seria suficiente para implantar fontes limpas e renováveis de energia, que poderiam gerar empregos verdes, além de bens e serviços para aumentar a qualidade de vida da população mundial, em maior harmonia com a natureza.

Referências:
World’s Largest Solar Project Planned for Saharan Desert

DESERTEC Foundation

Wind Energy Costs

PEW - Arctic Treasure

Robert J. Samuelson. Who’ll Pay the Piper? Newsweek, 5/02/2010

David Mackay, Sustainable Energy - without the hot air

José Eustáquio Diniz Alves, Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas - ENCE/IBGE, é colaborador e articulista do Ecodebate. E-mail: jed_alves{at}yahoo.com.br

Sexta, 12 Março 2010 13:21

As cidades como promotoras do bem-estar

Escrito por

cidades2501Por Oded Grajew*

Todos concordariam que a finalidade última de nossas ações, individuais e coletivas, deveria ser a busca pelo bem-estar das pessoas. No entanto, o crescimento do consumo de drogas legais e ilegais, da venda de livros de autoajuda e da violência é fortíssimo sinal de que muitas pessoas estão insatisfeitas com suas vidas. A falta de limites na cultura da competição e do consumo nos deixa sempre atrasados em relação às últimas novidades, resultando em insatisfação, ansiedade e frustração permanentes.
.

Este modelo de sociedade moldada e avaliada por esta escala de valores acaba se refletindo em nossas cidades. Sociedade sem alma produz cidades sem alma. Matamos nossos rios, poluímos nosso ar e nossos ouvidos, destruímos nossas florestas, descuidamos da beleza e das relações pessoais, desprezamos as atividades humanas como a educação, cultura e as artes, maltratamos nosso corpo e nosso espírito, perdemos o sentido do trabalho, e o lucro se sobrepõe à vida. Promovemos o desenvolvimento insustentável, comprometendo as condições de vida das futuras gerações.

Ao completar dois anos de existência, o Movimento Nossa São Paulo lançou os Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município (Irbem). Nosso objetivo é promover a reflexão sobre os fatores determinantes para o bem-estar das pessoas, colaborar para a humanização das relações e dos espaços públicos e privados, e sensibilizar gestores públicos municipais a procurarem priorizar o atendimento dessas necessidades. O Irbem é resultado de um processo de participação popular que constou de uma consulta pública realizada entre junho e outubro de 2009, da qual participaram quase 40 mil pessoas. Em dezembro, em parceria com o Ibope, fomos às ruas e perguntamos sobre o grau de satisfação da população em 25 áreas temáticas, detalhadas em 170 itens. Destes, apenas 39 receberam nota acima da média. Um exercício participativo e valioso para que cada um reflita sobre o que é realmente determinante para sua qualidade de vida.

Eleger critérios e prioridades de avaliação define nosso conceito de sociedade. Os indicadores ajudam a conhecer a sociedade e a planejar aquilo que queremos alcançar. Quando o crescimento do PIB passa a ser o principal indicador dos países, quando “ter” passa a ser mais importante do que “ser”, inviabilizamos o desenvolvimento que expande liberdades e direitos humanos.

Esperamos que o Irbem se torne um instrumento para ajudar as pessoas, instituições e governos a definirem adequadamente o conceito do bem-estar para permitir o planejamento, a formação de parcerias e a promoção do desenvolvimento sustentável. E esperamos que encontros como a 1ª Conferência Internacional de Cidades Inovadoras, que se realiza de 10 a 13 de março, em Curitiba (PR), possam contribuir para a disseminação de experiências como a que estamos desenvolvendo em São Paulo e em mais de 30 outras cidades brasileiras. Nesse sentido, o evento pode ser um grande marco na luta por cidades efetivamente justas e sustentáveis.

* O empresário Oded Grajew é um dos integrantes do Movimento Nossa São Paulo e também membro do Conselho Deliberativo e presidente emérito do Instituto Ethos. É idealizador do Fórum Social Mundial e idealizador e ex-presidente da Fundação Abrinq. Foi assessor especial do presidente da República em 2003.

Artigo publicado originalmente na edição de 3 de março de 2010 do Jornal do Brasil.

(Instituto Ethos)

Quinta, 11 Março 2010 15:47

O livro do século 21

Escrito por

ebook_smallPor Antônio Campos*

Há mais de 3 mil anos, na China, os livros eram feitos com chapas de madeira e de bambu, ligadas por barbantes de seda ou couro, e os caracteres eram pintados com pinceis feitos com pelos de animais. Hoje, produtos eletrônicos como os audiobooks ou os e-books (livros  eletrônicos), com seus suportes portáteis como o Kindle, da Amazon, o  Sony Reader, o Mix Leitor D, este em vias de entrar no mercado, ganham  cada vez mais espaço de exposição e discussão. Constatando esse  crescimento, as editoras estão discutindo essa nova realidade  tecnológica e de negócio.

Realmente, o fulminante avanço tecnológico para a publicação de conteúdo de texto mexeu com o mercado editorial. Está na ordem do  dia, na indústria do livro, o debate sobre os impactos que as novas  tecnologias trarão para o processo de produção, edição, impressão e  divulgação de livros em sua forma convencional. Em novembro do ano passado, já discutimos o tema na Fliporto Digital,  que é um dos braços da Fliporto, e lançamos pioneiramente o primeiro concurso brasileiro de literatura no celular. Essa discussão dominou a importante Feira de Frankfurt, no fim do ano passado.

Recentemente, a Microsoft fechou acordo de cooperação com a Amazon, firmando uma parceria em que cada uma das empresas poderá utilizar as  tecnologias da outra. Inclui-se aí principalmente o leitor de livros eletrônicos Kindle e o sistema operacional Windows. A Amazon anunciou também que o Kindle já possui para download obras em português, espanhol e italiano. Editoras e autores que desejarem disponibilizar livros nos três idiomas podem enviar o conteúdo pelo serviço Digital Text Platform (DTP).

De 29 a 31 deste mês, a Câmara Brasileira do Livro realiza, em São Paulo, o 1º Congresso Brasileiro do Livro Digital, durante o 36º Encontro Nacional de Editores e Livreiros. Especialistas de todo o mundo irão debater os novos rumos do negócio do livro, as oportunidades junto a um potencial imenso de leitores, as questões de direitos autorais, as novas mídias, entre outros assuntos que surgem nesse novo universo do livro digital.

Devemos observar que as mudanças fazem parte do processo evolutivo. O e-book certamente não vai levar o livro de papel à extinção. Assim como o cinema não matou o teatro, a televisão não aboliu o cinema e o computador não extinguiu a literatura. A humanidade sempre temeu o novo.

O importante é que em qualquer uma de suas formas, o livro não é apenas uma celebração do conhecimento e registro da memória da espécie humana, mas uma celebração da vida. O inestimável bibliófilo José Mindlin, recém-falecido, citou um exemplo sobre a experiência sensorial do livro, em entrevista que concedeu no Recife, em agosto de 2005: “Na última vez que (o poeta argentino Jorge Luis) Borges veio ao Brasil, nos anos 80, ele já estava cego e ainda assim queria a primeira edição de Os sertões. Como eu tinha mais de um exemplar, dei um deles para Borges. Ele não queria o livro para ler, Borges não podia mais fazer isso. Queria tocar nele, pegar, sentir o livro. Era o seu fetiche”.

Grande exemplo para os amantes da literatura, José Mindlin nunca foi um Peter Kien, personagem do livro Auto-de-fé, de Elias Canetti, para quem a vida se abria da porta para o interior de sua biblioteca. Homem de sensibilidade, Mindlin foi, antes de tudo, um leitor e sempre se declarou ser mais um depositário, um guardião dos livros do que um proprietário de uma riquíssima e preciosa biblioteca.

Sempre haverá alguém que prefira o livro em sua forma de papel. Alguém que escolha alcançar, dessa maneira, a intimidade com um autor, por meio das páginas que vão cobrando a vida enquanto se abrem. Sempre haverá alguém que vai querer voltar a um livro só na edição em que o conheceu pela primeira vez, às dedicatórias, recordações e aos passados que ficaram unidos a esse objeto.

Não confundo o futuro do livro com o futuro do papel, que é o seu tradicional suporte. Nunca tantas ideias foram escritas na era da internet. Se há algo que possa ameaçá-lo é a falta de leitores e não a mudança de base em que se firma. O que precisamos é combater uma grande fome de livros que há no Brasil. Cerca de 23% dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos nunca leram um livro sequer (a fonte é o Instituto Cidadania). Dados da Câmara Brasileira do Livro demonstram que apenas 26 milhões dos mais de 170 milhões de brasileiros leem pelo menos um livro a cada três meses. Pior, 61% dos adultos alfabetizados têm pouco ou nenhum contato com livros.

A leitura e o acesso ao livro são direitos sociais básicos e transformadores de indivíduos em cidadãos. A leitura de um livro não pode parecer uma obrigação; deve, ao contrário, ser um ato de prazer ou de paixão. Como dizia Jorge Luis Borges: um livro tem de ser uma forma de felicidade. O livro é uma forma de resistência e reexistência do ser humano numa globalização que deveria mais aproximar do que separar as pessoas.

 * Artigo do escritor e advogado publicado na edição do Jornal do Brasil em 06/03/10.

Segunda, 08 Março 2010 14:40

Você consome alimentos orgânicos?

Escrito por

organicos2Por Sérgio Vaisman*

Há algumas semanas, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) fez um alerta em relação a produtos hortifrutigranjeiros largamente consumidos pela população em geral. Esta observação deve-se à constatação da presença de excesso de agrotóxicos nos referidos produtos, principalmente morangos, tomates e alface, como campeões de contaminação.

Vários herbicidas agrotóxicos são largamente usados na produção desses vegetais e muitos deles, senão a maioria, além de “venenos” químicos já bem conhecidos, contém metais pesados como mercúrio e níquel que, se depositados nos tecidos orgânicos, favorecem o desenvolvimento de processos degenerativos como arteriosclerose com conseqüentes comprometimentos cardiovasculares, hipertensão arterial, distúrbios neurológicos que se cronificam e certos tipos de câncer. Tudo isso se torna mais grave se o consumo excessivo desses elementos for por parte das crianças em desenvolvimento.

Que dilema! Neste nosso mundo em que as pessoas estão caminhando para a obesidade e carregando suas consequências, a dificuldade em convencer pais e filhos a adotarem alimentação saudável à base de vegetais em geral, soma-se à péssima qualidade da maioria dos produtos que, para se protegerem de pragas e intempéries, são borrifados generosamente com venenos que comprometem a saúde de forma muitas vezes avassaladora.

Qual o caminho? É fundamental mantermos os conceitos de alimentação correta mas devemos levar em conta a absoluta necessidade de se lavar muito bem os vegetais a serem consumidos, mesmo que forem os chamados orgânicos que, muitas das vezes, são de procedências duvidosas.

O uso dos agrotóxicos, se respeitados os limites recomendados, são artifícios legais mas o grande problema é que estão aplicados em doses excessivas, pois o medo de se perder a qualidade dos produtos põe em risco os lucros dos produtores.

Além de fazerem mal à saúde dos consumidores, os agrotóxicos são fortemente nocivos à saúde dos trabalhadores rurais que lidam com essas substâncias e que, com o tempo de exposição, pagam altos preços futuros.

Devemos reforçar a necessidade de se higienizar muito bem o que iremos comer, inclusive os produtos orgânicos. Muitos comerciantes mal-intencionados vendem estes orgânicos com defensivos agrícolas ao invés de livres deles.

Isso se soma a todos os conjuntos tóxicos que compõem nosso sistema de vida neste mundo contaminado e, infelizmente, a SAÚDE é o patrimônio mais fadado a se dilapidar com o tempo. E lá se vai nosso bem maior.

 * Sergio é é médico especialista em Cardiologia e Nutrologia, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atua em São Paulo na area de Medicina Preventiva e é professor de pós-graduação em "Bioquímica aplicada à medicina", pela Universidade Fernando Pessoa, em Portugal, e professor visitante da Universidade de Estudos de Siena, na Itália. Possui inúmeros trabalhos científicos e livros publicados. Também ministra palestras nas áreas de medicina preventiva e medicina ambiental. É comentarista e consultor de Saúde na TV Climatempo, produtor e apresentador do programa "Saúde no mundo tóxico" e edita o site www.sergiovaisman.med.br.

Artigo publicado em 11 de janeiro de 2010, na Revista Pueblos

Por Beatriz Cabrera*

“Os meios de comunicação se converteram inadvertidamente em aliados dos extremistas mulçumanos”. Esta frase sentenciosa do investigador Rashied Omar deveria ser ponto de reflexão para jornais, rádios, televisões e portais de internet em todo o mundo, que optam pela via fácil de apresentar as notícias em sua vertente mais chamativa e espetacular apesar de isso significar dar uma visão deformada do Islã.

* Leia na íntegra, em espanhol, o artigo da jornalista no link:

http://www.revistapueblos.org/spip.php?article1792

responsabilidade_social Por Janguie Diniz*

A responsabilidade social empresarial virou uma prioridade inevitável para dirigentes empresariais brasileiros. Governos, ativistas e meios de comunicação hoje cobram de empresas a responsabilidade pelas consequências sociais de suas atividades.

Várias empresas estão repensando sua postura ética frente à sociedade. Um novo pensar e agir no âmbito empresarial, dando uma conotação cidadã aos negócios.

Como anda a Responsabilidade Social Empresarial (RSE) no Brasil? O que as empresas brasileiras têm feito de positivo nesta área?  Podemos encontrar esta resposta no relatório Práticas e Perspectivas da Responsabilidade Social Empresarial no Brasil -2008, lançado pelo Instituto Akatu e o Instituto Ethos no final do ano passado. O relatório traça o panorama da RSE no Brasil por meio de entrevistas em um universo de 1.333 empresas brasileiras de todos os portes.

Para nossa alegria, o levantamento revela o aumento significativo, entre 2004 e 2008, no número de ações em RSE praticado pelas empresas brasileiras, mas aponta que se trata de um processo ainda em construção, envolvendo um longo caminho de incorporação de ferramentas e práticas de maneira mais efetiva. A íntegra da pesquisa pode ser baixada neste link: tinyurl.com/rse2008akatu.

A pesquisa avalia um total de 56 práticas e os resultados mostram que, ao todo, 50% das empresas pesquisadas têm ao menos 22 práticas implementadas.  Comparando com estudo realizado pelo mesmo Instituto Akatu em 2004, quando o resultado apontava 11 práticas implementadas por 50% das empresas, notamos um aumento expressivo no envolvimento das empresas com a RSE entre o período de 2004 e 2008.

Os resultados desta pesquisa mostram uma expressiva evolução em algumas práticas em empresas de todos os portes, revelando que, independente do tamanho e importância da empresa, todas estão trabalhando para serem socialmente mais responsáveis.

Programas de RSE altamente visíveis costumam gerar publicidade favorável para a empresa. Por outro lado, há empresas que divulgam práticas em balanço social ou em ações de marketing e propaganda que não condizem com a realidade. A prática do “greenwashing”, ou seja, a criação de uma falsa imagem de que a empresa é “verde” e socialmente responsável, sem que isso corresponda às suas verdadeiras práticas, é lamentável e não logra o consumidor moderno e consciente que quer conhecer e confirmar o que as empresas estão realmente fazendo para a sociedade. Em um mundo de alta visibilidade, esta mensagem terá vida curta ao ser confrontada com o real comportamento da empresa. Embora possa trazer algum ganho no curto prazo, encontrará um consumidor muito pouco disposto a aceitar essa autoproclamação.

Felizmente estes casos são exceções e tendem a desaparecer. O que vale é que o relatório do Instituo Akatu nos premia com um panorama muito favorável às atividades de responsabilidade social das empresas brasileiras que estão se tornando agentes da evolução social e guardiões do meio ambiente.

 * Presidente do Conselho do Grupo Ser Educacional

 Artigo publicado em 3 de março de 2010, no Blog do Instituto Maurício de Nassau.

Quinta, 04 Março 2010 12:06

O mundo de cada um

Escrito por

*Maria Clara Vergueiro

Há cinco anos, quando fiquei grávida pela primeira vez, meu avô, na época com 88 anos, me disse que não entendia como é que nós tínhamos ânimo para ter filhos num mundo “como este”. Acrescentou que se vivesse a juventude no século XXI jamais se aventuraria numa empreitada deste tamanho. Logo ele, que nasceu no ápice da gripe espanhola e fim da Primeira Guerra, foi espectador da ida do irmão para lutar e desativar minas durante a Segunda e professor de universidade pública no período mais violento das ditaduras na América Latina.

Ninguém escapa de nascer num mundo cheio de antagonismos, diferenças e injustiças, não importa a época em que se tenha vivido ou ainda se vá viver. Bonito é ver as pessoas buscando maneiras de amaciar a vida, torná-la mais possível, no contrafluxo dos egoístas e pobres de espírito que sempre existirão. Sempre estarão a rondar as cabeças dos que pensam saídas, porque sem as imperfeições do mundo não se chega a construir soluções.

Então eu prefiro pensar que o nosso século é tão cheio de problemas e desafios quanto de respostas generosas para eles. Prefiro acreditar, quando vejo minha filha, tão pequena, selecionando o lixo certo na lixeira certa, que ela já traz consigo os caminhos para viver no mundo em que chegou. Prefiro apostar nos projetos que vejo sendo desenvolvidos em grandes empresas, que já foram inimigas do equilíbrio, e que hoje investem na formação de seus funcionários, capacitando-os a atuarem em suas mais variadas comunidades.

Para sobreviver a qualquer época é preciso ganhar as ferramentas necessárias para atuar nela. Já foi preciso ter espadas, cavalos, tanques de guerra, tecnologia de ponta, a Bíblia. Hoje o bem mais valioso que pode haver é a educação. Não apenas a educação das escolas, mas as chaves certas para habitar um mundo colaborativo. O mundo não gira mais sozinho, não se faz mais política sozinho, não se controla uma empresa sozinho. Tudo tem que ser feito em conjunto e, nesse sentido, a educação, essa “formação universal” para atuarmos no mundo, é a língua que todos entendem e compartilham.

* Integrante do Blog Asboasnovas.com, do site Mercado Ético

Quarta, 03 Março 2010 15:45

Sustentabilidade: que bicho é esse?

Escrito por

sustentabilidade

Reinaldo Gomes*

Por incrível que pareça, o universo das pessoas que entendem o que é responsabilidade social ou sustentabilidade ainda é muito pequeno. É difícil para nós acreditar na afirmação acima porque o assunto passa por nossas mãos diariamente que nem damos conta da falta de informação sobre o tema.

Na minha cabeça o assunto já era bastante discutido e não precisaria de explicações para quem quer que fosse, principalmente para profissionais de níveis gerenciais em grandes corporações. Quando o assunto em pauta - seja em uma conversa informal ou de negócios - se trata de sustentabilidade ou responsabilidade social, ouvimos as seguintes frase “…é, esse tema é a bola da vez”; “é um assunto que dá dinheiro”; ou ainda “é o futuro dos negócios”, mas nem todos sabem o que de fato isso significa.

A falta de informação é latente tanto que, na grande mídia, o espaço destinado a assuntos voltados à sustentabilidade é bem pequeno ou quase nada. Pouco se ouve ou se lê a não ser quando existe alguma campanha filantrópica específica. Além disso, a confusão entre o tema sustentabilidade e a filantropia ainda é comum. Apenas os veículos especializados é que dão destaque e valorizam cada detalhe do conjunto de ações ou, metaforicamente falando, os ingredientes que são utilizados para fazer “bolo sustentável”. Esses ingredientes são chamados de stakeholders.

Os stakeholders são os funcionários, os clientes, os fornecedores, a comunidade do entorno, o meio ambiente, os relacionamentos, os serviços, a produção, a matérias-prima, os governos, enfim, todos os elos que precisam estar bem alinhados nesta corrente e que proporcionarão sucesso e perenidade à corporação.

Negócios: É cada vez maior o número de empresas que se importam com o tema e produzem anualmente os seus, ainda pouco conhecidos, relatórios de sustentabilidade. As grandes corporações que mantém negócios globalizados, já produzem esses relatórios onde constam informações gerais sobre a empresa, os seus resultados no que se refere às suas ações sociais, ambientais, sobre seus relacionamentos e de seus pares. É claro que isso não só uma coisa bonitinha de se ver mas, geralmente essas informações são utilizadas estrategicamente para relacionamentos, parcerias, fusões, entre outras formas de negócios. Por exemplo: recentemente pudemos observar um grande número de Ofertas Públicas de Ações (IPOs) na Bovespa. Porém, para atrair capital estrangeiro, muitas empresas tinham de se adequar às regras do mercado de ações que estabelecem algumas exigências, entre elas, padrão internacional contábil e transparência apontada através dos relatórios de sustentabilidade. Muitos investidores internacionais não aplicam seu capital em empresas que não são socialmente sustentáveis.

Um modelo padrão de relatório tem de constar informações sobre ambiente, uso de recursos hídricos, segurança, saúde, análise socioeconômica, entre outros.
Por outro lado, há um ponto negativo dentro de muitas corporações. Alguns estudos apontam que as pessoas de decisão dentro das companhias afirmam não ter tempo para a leitura das mais de 400 páginas dos relatórios de sustentabilidade. Muitos defendem modelos padrões de relatório que contenham informações básicas, fáceis de serem traduzidas e absorvidas.

O fato é que, apesar de o crescimento anual do número de empresas que se dedicam aos tema sustentabilidade - inclusive destinando parte dos recursos orçamentários para este setor- ainda é grande o universo das companhias, das pessoas e dos meios de comunicação que pouco ou nada conhecem sobre o tema. Também sei que, como formador de opinião, tenho parcela de culpa nisso. Porém, faço trabalho de formiguinha e sempre tento, de alguma forma, levar a informação adiante.


* Reinaldo Gomes é jornalista

sopro

Por Francisco Roberto Caporal

O título é uma frase do conterrâneo Érico Veríssimo e serve bem para ilustrar o que temos observado em nossas sociedades quando tratamos da questão ambiental. Pelo menos desde o início dos anos 70, estão bastante claras as evidências dos sérios danos ambientais resultantes do desenvolvimentismo construído a partir de estratégias de crescimento econômico ilimitado em sociedades baseadas no consumo e desperdício.

As inúmeras conferências que ocorreram pós Estocolmo-72, não serviram para nada. O que vimos é que foram gastos muita tinta e muito papel para teorizar sobre boas intenções. A conferência Rio 92 foi, talvez, a melhor demonstração da inconsistência da tecnocracia quando se trata do enfrentamento dos problemas ambientais. 

O balanço da problemática socioambiental tem mostrado que os impactos diretos e as externalidades geradas pelo modelo de crescimento e consumo estão absolutamente sem controle, apesar dos acordos e outros protocolos firmados entre países ao longo de mais de quatro décadas de estudos e negociações. O fracasso da conferência de Copenhague é só mais uma demonstração da ineficácia da estratégia montada pela tecnocracia estatal e pelas instituições de Bretton Woods que as patrocinam (ONU, FAO, Banco Mundial, etc.).

A conclusão que se pode chegar é que se não houver ampla participação da sociedade organizada e ambientalmente consciente nada vai mudar.  Tudo o que se construiu até hoje, no marco dos enfoques ecotecnocráticos, apenas tem servido para mostrar a falta de seriedade dos discursos institucionais sobre desenvolvimento sustentável. O que se observa, sim, é que apesar dos belos discursos de iminentes autoridades sobre a necessidade de retomarmos uma trajetória de proteção ambiental, de preservação dos recursos naturais, com redução dos impactos causados pelas atividades econômicas, o que encontramos na prática são políticas de estímulo ao consumo, políticas que patrocinam a continuidade dos mesmos processos econômicos que são responsáveis pelos impactos socioambientais. Por sorte, ainda há os que tentam construir “moinhos de vento” diante da inexorável evidência do imperativo socioambiental de nossa época.

Estimulados por uma crescente consciência da responsabilidade ambiental, para esses, está evidente que o compromisso com a sustentabilidade, neste planeta de recursos finitos (alguns quase esgotados), só tem sentido se nascer de uma forte solidariedade intra e intergeneracional. Sustentabilidade ambiental, antes de nada, é a busca da preservação de recursos naturais escassos e limitados, para que nossos filhos e netos possam dispor da base de recursos da qual necessitarão para que possam vir a ter uma vida digna e com qualidade.

O que anima é que no Brasil são milhares as experiências urbanas e rurais que vêm demonstrando que outro caminho de desenvolvimento é possível. Na nossa área de trabalho, a Agroecologia como uma nova ciência para um futuro sustentável, tem dado sustentação teórica, técnica e metodológica para uma multiplicidade de iniciativas de produção agropecuária de base ecológica, que preservam o meio ambiente e ao mesmo tempo oferecem alimentos sadios para a população. Isso demonstra que é possível uma agricultura diferente daquela imposta pela Revolução Verde, pelas grandes monoculturas e pela atual ditadura dos transgênicos.

Os tempos de mudança já começaram e precisamos estimular estratégias ambientalmente mais sustentáveis para evitar que a caminhada da nossa civilização continue em direção ao abismo. É sobre estes temas que trataremos na sequência de nossos artigos.

Francisco Caporal é engenheiro agrônomo, doutor pelo programa de Agroecologia Campesinado e Historia da Universidade de Córdoba (Espanha) e presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Segunda, 01 Março 2010 18:42

O negro no Brasil

Escrito por

jovem-negro

Por Edenjonhson da Silva Pinto (Jonhson)*

Não é novidade que o negro no Brasil tem sofrido discriminação, desde o período da escravidão até os dias atuais. E por mais que se tente negar esta realidade dados estatísticos mostram a sorte que tem acompanhado essas pessoas na vida brasileira.  Apenas para exemplificar como essa afirmação desdobra-se no campo econômico, trago números de pesquisa coordenada pelo economista Ademir Figueiredo, do Dieese, que relata que a grande maioria dos negros está nos setores de atividades com maior jornada de trabalho (como emprego doméstico 60,8%), com uso mais intensivo da força física de trabalho (construção civil 59,5%). Historicamente menos protegidos pelo sistema previdenciário (setor agrícola 60,4%), além de serem também eles que formam a maioria dos trabalhadores sem carteira assinada (55,3%)

Dizem que no Brasil não há preconceito racial. Talvez aqui se pratique a pior discriminação racial,  o preconceito velado que fica nos subterrâneos do é que socialmente aceitável. Uma vez não sendo declarado passa-se uma imagem de que todos somos igualmente aceitos e tratados da mesma maneira, mas não é isso o que os órgãos oficiais revelam em suas estatísticas.

O campo da educação traz mais evidências quando o Dieese revela que 24,6 % dos negros com mais de 15 anos não têm instrução alguma e que 42,8% têm o ensino fundamental incompleto. Já no ensino superior, a porcentagem de negros e pardos com mais de 25 anos e nível superior completo no País era de apenas 2,2%, enquanto a de brancos era de 9,6% em 1997. A lei de cotas vigora no Brasil desde 2001, reserva de 50% das vagas aos negros e pardos nas universidades federais, em 2007 o número de brancos era de 13,4%, enquanto o de negros e pardos alcançava apenas 4%, um número três vezes menor.

Com essa mesma perspectiva, Mário Thedoro, diretor de cooperação e desenvolvimento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), afirma que os negros foram excluídos antes e depois da abolição da escravidão. O negro saiu da senzala  direto para o desemprego, ou seja, os negros quando libertos não tiveram acesso à terra e  nem ao trabalho remunerado, como os imigrantes europeus.

Além disso, o Sistema Único de Saúde (SUS) traz um dado alarmante em relação ao número de jovens negros mortos por violência: é o dobro do número que se refere a jovens brancos.

Contra fatos não há argumentos. Então porque não assumimos que há discriminação racial no país e partimos para mudar essa realidade?

Como líderes empresariais temos que ter coragem para assumir esse fato através de iniciativas que reparem os erros históricos cometidos no passado, não imputando valor às pessoas selecionadas para trabalharem em nossas empresas apenas por sua aparência física ou cor, em detrimento da capacidade profissional do candidato.

Se pensamos na sustentabilidade de nossos negócios, precisamos investir tanto na diversidade de competências e habilidades dos nossos colaboradores quanto na inserção de diferentes culturas e etnias , uma vez que a nossa  clientela “não tem cor”. É sim formada por um povo que, segundo Darcy Ribeiro é uma etnia única, a brasileira. O Brasil é um povo-nação, ajustado em um território próprio que escolheu estar nele para nele viver seu destino. É a essa gente composta de índios, brancos,  negros,  mulatos, que esse país pertence.

Pensando assim,  não só aproximaremos a nossa empresa dos nossos clientes potenciais, pois ali eles estarão representados, como também estaremos dando um passo decisivo para a sua sustentabilidade. E mais que isso, estaremos contribuindo para o fortalecimento de uma nação democrática, justa e igualitária. 

*Líder da Comunidade da Ilha de Santa Terezinha, no bairro de Santo Amaro

Quinta, 05 Novembro 2009 21:04

Bilhete para derrubar muros

Escrito por

thumb_Korea“Queridas amigas, Tenho consciência de que foram momentos breves, mas que marcaram de forma indelével meu coração. Estamos juntas de novo, após 50 anos; mesmo por um período tão exíguo, me trouxe sabores da infância presentes em qualquer memória: o cheiro da chuva ao contato com a terra, a véspera de passeios que deixavam todas nós ansiosas de felicidade, nossos segredos de juventude. Confesso que já não esperava mais viver isto novamente.

São tantas as fronteiras ainda mantidas e erguidas entre corações que se amam, que só mantenho minha esperança em dias melhores, iguais a estes que vivemos, porque sei que um dia os muros caem. Vejam Berlim, parecia impossível e de uma hora para outra veio ao chão e hoje seus pedaços estão espalhados pelo mundo, para que não nos esqueçamos do que são capazes certas mentes doentias.

Mas não quero que este pequeno bilhete seja triste como as fronteiras que nos separam. Quero, mesmo, é manter este gosto das nossas risadas e momentos juntos. Tenho certeza de que esta alegria vai ganhar o mundo, e vai continuar inspirando pessoas a não desistirem de continuar a construir pontes que unam os contrários, os distantes, os diferentes e os que buscam a melhoria do nosso Planeta.

Sim, minhas amigas, mesmo depois de tudo o que passamos separadas, continuo uma otimista, porque tenho a convicção de que este sentimento não será em vão. E um dia – está próximo –, estaremos juntas novamente, sem nos lembrarmos do nome dos responsáveis por tudo isto. E esta é a melhor forma de nos mantermos unidas no amor: esquecer e relevar aquilo de mal que nos fazem.Fiquem em Paz, fiquem bem.”

Escrito pelo jornalista Manoel Fernandes Neto, editor do IVE (www.iv.org.br)

Quinta, 29 Outubro 2009 12:43

A foto oficial

Escrito por

 

32_10_09-fotododia
Foto do Dia

Aquela mãe iraquiana teve dúvidas antes de abordar o soldado que fazia prontidão defronte à Casa de Detenção. Como solicitar ajuda para uma simples imagem, diante de alguém com responsabilidades tão rígidas? O uniforme, o fuzil último tipo, a pose incontinente.

Não era possível. Era quase certeza de que a resposta seria negativa. Aquela mãe iraquiana era capaz de compreender que aquele soldado estadunidense não ficaria sensibilizado sobre como fora agonizante a ausência do filho em casa. Sua companhia, suas palavras de apoio em um momento tão difícil pelo qual passava o país. Como os dois haviam estreitado sua ligação depois da guerra. O soldado, ela tinha razões para saber, não perderia seu tempo oficial para uma atitude daquelas. Ele não poderia compreender que o filho fora detido injustamente e que nenhum filho diante de uma mãe é culpado.

Mas os momentos da libertação foram se aproximando, a burocracia foi se dissipando, papéis eram verificados inúmeras vezes e ela ainda não havia se decidido a pedir ou não o favor para a foto que guardaria como um dos momentos mais felizes de sua vida, mesmo com todo o recente dissabor.

Tirou a máquina fotográfica que trazia guardada entre os trajes e em lugar seguro na sua casa. Ela a utilizava para registrar os momentos felizes que encontrava no dia a dia, mesmo diante de toda a destruição. Aquela mãe iraquiana tinha plena convicção de que o sofrimento um dia cessaria, por que sabia que sofrimentos um dia acabam; que as lágrimas um dia param de cair; que a saudade e a dor são provisórias. Sim, naquele dia da libertação do filho ela tinha plena certeza de que a dor e a melancolia não são sentimentos permanentes, mas breves manifestações do Universo, para nos proporcionar crescimento, aprendizado e progresso.

E foi com esta certeza no coração que viu o filho surgir na porta da prisão. Livre como fora educado numa rua simples de Bagdá. Livre na certeza de continuar a seu lado, acreditando em um País em Paz e Harmonia. Mais alguns passos e lá estava ela nos braços dele, que a acolheram, a consolaram e apaziguaram seu coração de mãe que nada mais lembrava naquele instante, que mal compreendera os gestos em sua direção vindos daquele soldado que apontava para a sua máquina, esquecida em uma de suas mãos.

Foram dois ou três cliques que ela jamais vai esquecer. Foram dois ou três cliques enquanto ela ainda abraçava o filho. Foram dois ou três cliques que eternizaram, em uma única imagem, a falta que o filho lhe fez.

Hoje, quando olha a foto na cabeceira da sua cama, ela é só agradecimento pelo autor da imagem, um soldado do qual ela não teve tempo nem de descobrir o nome; ah, sim, com certeza, ele deve ter filhos, família, saudade.

Um soldado que deve saber a importância de uma imagem dessas para uma mãe, seja qual for a nacionalidade, a religião ou o contexto.
Ela tem essa certeza enquanto admira a foto oficial da liberdade de seu filho, exposta na cabeceira da cama.

Crônica escrita pelo jornalista Manoel Fernandes Neto, editor dos boletins IVE, inspirada pela imagem da Reuters, publicada no UOL Notícias, em 12 de setembro de 2009.

Pagina 19 de 19

twitter

Apoio..................................................

mercado_etico
ive
logotipo-brahma-kumaris