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Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

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Quinta, 11 Julho 2013 18:50

Brasil brasileiro

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“A juventude brasileira quer discutir as causas polêmicas. A sociedade tem de debatê-las.”

(Virginia Barros, presidente da União Nacional dos Estudantes)


A perplexidade é a tônica dos comentários, das conversas. Projeta-se nos semblantes e nas interrogações que todos se fazem. Dirigentes políticos, lideres comunitários, antropólogos, sociólogos, jornalistas, estudiosos da realidade brasileira dedicados à instigante tarefa de interpretá-la não conseguem explicar adequadamente, até aqui, o que andou acontecendo. Alguns animam-se a fazer exercícios especulativos na busca do modelo padrão que teria servido de inspiração para essa pororoca de manifestações que sacode ruas e praças.

A chamada “primavera árabe”, sob tantos aspectos frustrante por conta de resultados no geral pífios, é apontada, aqui e acolá, como referência para o que rolou. Comparação destituída de qualquer sentido. Em comum, as duas modalidades de protestos só conservam um liame: o emprego massivo no esforço de arregimentação popular dos formidáveis recursos das redes sociais. Quanto ao resto, tudo difere. As motivações são outras. O foco do movimento árabe concentrou-se na tentativa de uma ruptura definitiva com as estruturas de poderes despóticos. Já aqui, por estas bandas, foi a pujança invejável do regime democrático que assegurou o suporte valioso que os manifestantes dispuseram para propagar suas postulações.

O que se tem, de conseguinte, pra dizer, sem medo de errar na avaliação, a respeito dos acontecimentos vividos, que viraram de cabeça pra baixo tanta coisa, é que este brado retumbante das ruas brasileiras teve o toque único e irrepetivel do jeitinho brasileiro de fazer as coisas. Algo que foge por inteiro a estereótipos e paradigmas absorvidos noutras culturas e que é apontado, não poucas vezes equivocadamente, como traço pejorativo do comportamento humano.

As manifestações que levaram tanta gente boa a proclamar não estar entendendo bulhufas do que vem sucedendo é decorrência natural desse jeitinho especial que os brasileiros temos de vivenciar contradições e mesmo harmonizá-las.

Digam aí: em que outro canto deste planeta entregue à peregrinação do ser humano conseguirá alguém, algum dia, captar, simultaneamente, separadas umas das outras por curta distância, cenas como as que foram vistas recentemente neste nosso fascinante e desconcertante Brasil?

Em estádios regurgitantes, cheios de colorido e calor humano, multidões a vibrarem com os jogos eletrizantes de uma competição sob o foco das atenções gerais. Em milhões de lares, bares, restaurantes, diante das telas de televisão, o mesmo contagiante clima e incomum entusiasmo. Em locais reservados a concentrações festivas, montadas pelo Poder Público em diferentes pontos das cidades, contingentes expressivos de apreciadores do esporte paixão nacional a exprimirem emoções com características de apelo à confraternidade.

E, juntamente com tudo isso, precisamente no mesmo momento em que tudo isso ocorre, as passeatas reivindicatórias, envolvendo jovens, adultos, famílias inteiras, pondo a circular nas ruas das capitais e outras importantes cidade clamores por mudanças indispensáveis no trato das coisas públicas, compreensível inconformismo diante das perturbadoras desigualdades de vida do cenário brasileiro, desejos ardentes de que as conquistas sociais que tantos já estão a desfrutar possam se processar em ritmo mais veloz. Repito: em que outro lugar isso tudo pode ocorrer, ao mesmo tempo, com toda essa exuberância criativa popular?

Resta dizer alguma coisa sobre os distúrbios. Os atos de vandalismo. Os atentados cometidos contra bens públicos e privados. Ficou bem documentado que a Nação inteira repele essas demonstrações de selvageria. O apoio unânime conferido às causas agitadas nas passeatas ordeiras e pacíficas, processadas em termos rigorosamente democráticos, tem sido acompanhado de total indignação com relação ao comportamento bestial de uma minoria de malfeitores, composta, em parte menor de radicais amalucados, sem vínculos com a alma popular, e noutra parte por bandidos com prontuários repletos de passagens delituosas. Esses aí não têm nada a ver com o resto. São casos, esses, sim, pra polícia resolver com o rigor recomendado pela lei.

*Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ">O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

*Por Leonardo Boff

Está lentamente ficando claro que as massivas manifestações de rua ocorridas nos últimos tempos no Brasil e também pelo mundo afora expressam mais que reivindicações pontuais, como uma melhor qualidade do transporte urbano, melhor saúde, educação, saneamento, trabalho, segurança e uma repulsa à corrupção e à democracia das alianças sustentada por negociatas. Fermenta algo mais profundo, diria quase inconsciente, mas não menos real: o sentimento de uma ruptura generalizada, de frustração, de decepção, de erosão do sentido da vida política, de angústia e medo em face de uma tragédia ecológico-social que se anuncia por todas as partes e que pode pôr em risco o futuro comum da humanidade. Podemos ser até uma das últimas gerações a habitar este planeta.

Não sem razão que 77% dos manifestantes tenham curso superior, quer dizer, gente capaz de sentir este mal estar do mundo e expressá-lo como recusa a tudo o que está aí.

Primeiro, é um mal-estar face ao mundo globalizado. O que vemos nos envergonha porque significa a racionalização do irracional: o império norte-americano decadente para se manter precisa vigiar grande parte da humanidade, usar da violência direta contra quem se opõe, mentir descaradamente como na motivação da guerra contra o Iraque, desrespeitar acintosamente qualquer direito e norma internacional como o “sequestro” do Presidente Evo Morales da Bolívia, feita pelos europeus mas forçados pelos corpos de segurança norte-americanos. Negam os valores humanitários e democráticos de sua história e que inspiravam outros países.

Segundo, a situação de nosso Brasil. Não obstante as políticas sociais do governo do PT que aliviaram a vida de milhões de pobres, há um oceano de sofrimento, produzido pela favelização das cidades, pelos baixos salários e pela ganância da máquina produtivista de cariz capitalista que, devido à crise sistêmica e à concorrência cada vez mais feroz, superexplora a força de trabalho. Só para dar um exemplo: pesquisa feita na Universidade de Brasília apurou que entre 1996-2005 a cada 20 dias um bancário se suicidava, por causa das pressões por metas, excesso de tarefas e pavor do desemprego. Nem falemos da farsa que representa nossa democracia. Valho-me das palavras do cientista social Pedro Demo, professor da UNB, em sua Introdução à sociologia (2002): “Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que sirva a ela do começo até o fim. Político é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniguados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima… Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação” (p.330.333). Agora entendemos porque a rua pede uma reforma política profunda e outro tipo de democracia onde o povo quer codecidir os caminhos do país, coisa que o governo do PT não favoreceu.

Terceiro, a degradação das instâncias do sagrado. A Igreja Católica ofereceu-nos os principais escândalos que desafiaram a fé dos cristãos: pedofilia de padres, de bispos e até de cardeais. Escândalos sexuais dentro da própria Cúria romana, o órgão de confiança do Papa. Manipulação de milhões de Euros dentro do Banco do Vaticano (IOR), onde altos eclesiásticos se aliaram a mafiosos e a corruptos milionários italianos para lavar dinheiro. Igrejas neopentecostais atraem em seus programas televisivos milhares de fiéis, usando a lógica do mercado e transformando a religiosidade popular num negócio infame. Deus e a Bíblia são colocados a serviço da disputa mercadológica para ver quem atrai mais telespectadores. Setores da Igreja Católica não escapam desta lógica com a espetacularização de showmissas e dos padres-cantores com sua autoajuda fácil e canções melífluas.

Por fim, não escapa ao mal-estar generalizado a situação dramática do planeta Terra. Todos estão se dando conta de que o projeto de crescimento material, tipo nosso PAC, está destruindo as bases que sustentam a vida, devastando as florestas, dizimando a biodiversidade e provocando eventos cada vez mais extremos. A reação da Mãe Terra se dá pelo aquecimento global que não para de subir; se subir nos próximos decênios a 4-6 graus Celsius a mais, por causa de um anunciado aquecimento abrupto, este pode dizimar a vida que conhecemos e impossibilitar a sobrevivência de nossa espécie, com o desaparecimento de nossa civilização.

Não dá mais para nos iludir, cobrindo a feridas da Terra com esparadrapos. Ou mudamos de curso, preservando as condições de vitalidade da Terra ou o abismo já nos espera.

Como insiste a Carta da Terra: “nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados”; é esta interligação real; mas, em parte, inconsciente, que leva milhares às ruas querendo outro mundo possível e agora necessário. Ou aproveitamos a chance para as mudanças ou não haverá futuro para ninguém. O inconsciente coletivo pressente este drama e daí o grito das ruas por mudanças. Sem atender às demandas, poderemos protelar a tragédia; mas, não a evitaremos. Agora é ouvir e agir.

*Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.

Por Alberto Dines, em 02/07/201,3 na edição 753 do Observatório da Imprensa     

 

No sábado, 6 de julho, o vulcão completará um mês de atividade ininterrupta. Hora de perguntar: alguém já contou esta história – como começou, mudou e o que ainda pode acontecer?

Estamos observando os escombros, identificando vítimas, avaliando efeitos, conscientes da dimensão do ocorrido, testemunhas mais ou menos informadas. Poucos, no entanto, sabem com exatidão por que a cratera adormecida, de repente, começou a cuspir fogo.

O elemento surpresa não é desculpa para um relato que trinta dias depois se mantém incompleto. O fluxo ininterrupto das manifestações não vale como justificativa para tantas lacunas. As mídias digitais foram usadas como convocadoras, a mídia dita tradicional esteve na linha de frente para flagrar o que acontecia, nem uma nem outra conseguiu articular uma narrativa integrada, inteligível.

Talvez porque estejamos atuando como “torcedores” e, portanto, engajados, ou porque ninguém se anima a encarar a vertiginosa sucessão de fatos como um processo cujo desfecho pode estar distante.

Prazo de validade

A bela charge na capa do Economist (29/6, ao lado) oferece uma sutil sugestão: na mesma barricada, Marianne (símbolo da República Francesa marcando a revolução de 1848), um hippie americano segurando um coquetel molotov e um ramo de flores (os protestos mundiais de 1968), o operário polonês Lech Walesa (representando o desabamento do império soviético em 1989) e, em 2013, uma jovem de jeans com um celular na mão tendo ao fundo as rebeliões no Cairo, Istambul e Rio.

O texto frouxo na seção de editoriais do semanário não faz jus à simbologia da imagem: rebeldias não são fenômenos isolados, o fator contágio foi determinante na “Primavera das Nações” em 1848 e continua fundamental 165 anos depois. Massas são estimuladas pelo exemplo – isso era válido na era da palavra, continua na era da imagem, tanto em rebeliões proletárias como em motins fascistas, no Velho ou no Novo Mundo, em democracias ou regimes caudilhescos.

Motivações locais funcionam como alavancas, mas impulsos universais não podem ser descartados – sobretudo a impaciência. Na era da velocidade e do tempo real, promessas e ilusões têm prazo de validade limitado. Avanços não se sustentam sem outros avanços, o fluxo contínuo da internet tornou-se padrão. Default. Daí, o efeito bumerangue da propaganda e do marketing massivos, funcionando ao revés e arruinando partidos, políticos e projetos de poder.

Magia manjada

O que aconteceu com o futebol no país do futebol vale como paradigma: o circo cansa. Distração tem limite. Enquanto a seleção brasileira fazia a formidável exibição contra a da Espanha no gramado do Maracanã, nas redondezas manifestantes pacíficos e beligerantes se revezaram nos protestos contra os exorbitantes gastos com os eventos de 2014 e 2016. Isso é inédito.

Patrocinadores e mídia exploraram o resultado da final desta minicopa com os velhos expedientes emocionais e patrióticos – não resistirão por muito tempo. A velha magia desandou.

Esta é a resposta: a mídia não consegue fechar o relato destas jornadas porque é a narradora. E parte do processo.

Quarta, 03 Julho 2013 13:22

O que se espera dos governantes

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Feliz do povo que pode vaiar seus governantes.”

(Frase atribuída ao inolvidável Presidente JK)

 

Botar tento nos recados copiosos passados pelas ruas. Manter permanentemente ligados os aparelhos pessoais de percepção social. Separar o joio do trigo. Noutras palavras, distinguir com clareza e exatidão as manifestações populares genuínas, brotadas de justo inconformismo, das ações provocadas por um insignificante (numericamente falando) bando de vândalos sem causa, adeptos da anárquica tese do “quanto pior, melhor”. Mostrar-se compreensivo com relação às forças sociais que acionam pacificamente os protestos, convocando-as a participação ativa, por meio de diálogo e exposição transparente de fatos, na busca das soluções almejadas.

Agir com severidade, inteligência e bom senso, na contenção dos abusos praticados pelos baderneiros, enquadrando-os exemplarmente nos devidos conformes legais. Passar por peneiragem as imagens das câmeras que andaram captando as malfeitorias perpetradas contra o patrimônio público e privado por esses bandidos infiltrados nas passeatas, chamando-os às falas na Justiça por formação de quadrilha e outros delitos graves capitulados no Código Penal. Fazer também a polícia entender que a repressão na base do gás lacrimogêneo, pata de cavalo e ponta de baioneta não passa de resquício indesejável de tempos sombrios que a consciência cívica da Nação rechaça com veemência. Nunca, jamais, reação legítima de uma ordem constitucional democrática empenhada em garantir a ordem, a paz e a tranquilidade públicas sem concessões a abusos e violações a direitos de qualquer gênero.

Manter acesa a fé nas potencialidades do país e nas virtualidades da gente do povo, mesmo que, eventualmente, à sua volta colaboradores, assessores e conselheiros despreparados hajam perdido essa fé. Não ceder jeito maneira, no exercício das funções de gerenciamento superior, à tentação que, às vezes, acomete dirigentes desprevenidos, embriagados pelo ópio da autossuficiência, em classificar as coisas sumariamente, rotulando-as impropriamente, antes de entendê-las suficientemente. Procurar interpretar com argúcia social e serenidade, o “porquê” dessa vibração contaminatória que tomou conta, de uma hora para outra, das praças, aparentemente contra tudo e contra todos.

Arrolar, de modo a que sejam objeto de apreciação por parte dos grupos de trabalho encarregados de aprimorar as políticas públicas em execução, de forma a atender aos clamores trazidos a lume, itens já enunciados como prioritários nas manifestações. Oportuno relembrar alguns deles: melhoria na assistência à saúde, no ensino, na segurança pública, no transporte coletivo dos grandes centros; combate cada vez mais intensivo à corrupção; fixação de critérios mais rígidos na aplicação dos recursos públicos, enfatizando-se prioridades e evitando-se desperdícios. No tocante ao transporte urbano, cogitar-se de sua imprescindível melhoria e, até mesmo, da possibilidade – por que não? – de subsidio total ou algo que chegue próximo disso de modo a facilitar as coisas para o povão, que ele merece. Abra-se parênteses para esclarecer que a fórmula extrema do subsidio total, ou do chamado “passe livre”, nada tem de mirabolante ou utópica. Tem sido adotada com êxito em vários lugares do mundo, inclusive em cidades estadunidenses, ancorando-se em alterações na forma de aplicação dos recursos do Erário. Estimulou contingentes apreciáveis de pessoas a utilizarem nos deslocamentos ônibus no lugar de veículos particulares.

Propagar, por todos os meios, sensatamente, que a democracia pujante dos sonhos gerais é um processo contínuo de paciente construção. Implica em transformações graduais, em rotas alternativas de mudanças, com o uso constante da inteligência e criatividade na superação dos obstáculos.

Entender que as sinalizações de agora podem levar a alvissareiras descobertas. Quanto mais cedo se consegue interpretar os sinais emitidos pela vida, mais cedo pode se chegar às soluções dos problemas. O poeta Robert Frost, dos Estados Unidos menciona o fato de que Newton intuiu a “lei da gravidade” depois de entender os sinais reveladores dos frutos pendurados que despencavam das macieiras sobre a cabeça das pessoas; que Franklin concebeu o para-raio depois de compreender a sinalização dos trovões.

Em suma, absorver bem a idéia de que uma mensagem propondo avanços sociais paira, neste momento, no ar. E, também, a idéia de que as ruas, conforme anda dizendo interessante jingle muito badalado nos intervalos comerciais destes dias de Copa, são as arquibancadas do país. Arquibancadas com voz, que vaiam e aplaudem. Isso é democracia pura.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quarta, 03 Julho 2013 12:15

Venceremos a Copa das Manifestações?

Escrito por

POR RAQUEL ROLNIK*

Domingo o Brasil foi campeão da Copa das Confederações, em meio a manifestações e reivindicações que têm surpreendido o país e o mundo. A combinação de indignações que marcaram – e ainda marcam – estas manifestações merece uma avaliação mais aprofundada, mas não há dúvida de que algumas delas têm a ver com a preparação das nossas cidades para receber os jogos da Copa do Mundo de 2014. Os gastos, a ditadura consentida da FIFA, as prioridades discutíveis estão presentes na agenda das ruas. Por trás de tudo isso, estão processos decisórios que têm afetado a vida de milhares de pessoas e que até agora contaram com participação zero dos cidadãos. Muitas comunidades já foram removidas ou estão ameaçadas de remoção por conta de obras relacionadas aos jogos e, no geral, não tem existido nenhuma transparência nem respeito aos direitos humanos nesses processos.

Na semana passada, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), entre outras organizações, reuniu-se com a presidenta Dilma Rousseff para apresentar sua pauta de reivindicações. De acordo com integrantes do movimento, o único ponto com que a presidenta de fato se comprometeu, no sentido de uma ação imediata, foi justamente o da necessidade de regular os projetos que envolvem deslocamentos de comunidades, impedindo os despejos forçados. Há mais de um ano, inclusive, está em discussão uma portaria que regulamenta os procedimentos a serem adotados em casos de remoção de famílias decorrente da execução de programas e ações financiadas pelo Ministério das Cidades/Caixa. Mas até agora, infelizmente, esta portaria não foi publicada. E os governos locais continuam agindo de forma discricionária…

É importante lembrar, ainda, que, no âmbito do governo federal, foi criado um grupo de trabalho no Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana para receber e apurar denúncias de violação do direito à moradia no contexto da preparação do país tanto para a Copa do Mundo, como para as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Os membros do GT – que inclui representantes de movimentos e organizações da sociedade civil – realizaram uma série de visitas no ano passado e no início deste ano e já está mais do que na hora de se manifestarem sobre o assunto.

Um dos casos emblemáticos, que certamente aparecerá no relatório do Conselho, é o da Vila Autódromo, no Rio de Janeiro, que desde a época dos Jogos Pan-Americanos vem sofrendo ameaças de remoção, nunca realmente justificadas. A Secretaria de Direitos Humanos da presidência chegou inclusive a enviar um ofício ao prefeito Eduardo Paes, em dezembro de 2012, solicitando informações sobre a situação da comunidade, mas nunca recebeu resposta. No último fim de semana, enquanto o país estava atento à Copa das Confederações, a comunidade da Vila Autódromo denunciava em sua página no Facebook a tentativa de demolição de algumas casas e a presença de PMs e agentes da subprefeitura que pressionavam os moradores a se cadastrar para que a remoção seja executada.

A mão bruta da prefeitura nas remoções encontra eco na violência exercida pela PM do Rio de Janeiro, que também claramente discrimina a favela e seus moradores em suas ações – vejam o que ocorreu na Maré semana passada. Apesar de tudo, neste tema – Copa e Olimpíadas – ainda há tempo de ouvir a voz das ruas!

*Em tempo: na relatoria da ONU para o Direito à Moradia Adequada produzimos alguns materiais sobre o tema das remoções e dos megaeventos esportivos. Confira:

- Folheto: Minha cidade virou sede de um megaevento esportivo. O que pode acontecer com meu direito à moradia? - Folheto: Querem nos despejar. E agora? - Guia: Como atuar em projetos que envolvem despejos e remoções?

Confira também o último press release da relatoria sobre os megaeventos esportivos no Brasil. Clique aqui.

* Raquel é urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.

(Artigo publicado originalmente no blog da autora)

Sexta, 21 Junho 2013 15:25

A hora do direito à cidade

Escrito por

Por Alexandre Pilati*

 

Contrariando todas as expectativas, as manifestações que começaram há duas semanas em São Paulo, com uma pauta de reivindicações bastante restrita, ampliaram-se. Os protestos estenderam-se pelo Brasil inteiro em ruas, praças e arredores de estádios de futebol que recebem a Copa das Confederações. Nesses quinze dias, o que era um movimento bastante vinculado ao aumento do valor da passagem de ônibus acabou agregando, meio caoticamente, demandas de diversas origens da vida social urbana.

Entraram em jogo críticas aos políticos, aos gastos relativos à promoção dos torneios da FIFA no Brasil, afirmação de grupos gays, gritos por uma saúde e uma educação dignas de um país que se deseja plenamente desenvolvido e integrado. Lembrando o acertado dito tropicalista dos anos 60, as ruas brasileiras foram invadidas por uma espécie de “geleia geral” de protestos, que possui, entre seus elementos básicos, uma agregação confusa de reivindicações de setores conservadores e progressistas da população, um conjunto de ações de protesto que são levadas a termo sem lideranças claras, um painel de reivindicações amplo e muito significativo e, por fim, um recorrente e sintomático vandalismo.

Por um lado, é de se comemorar que as ruas sejam invadidas por jovens de uma geração que sempre foi taxada como irresponsável, alienada, individualista e pouco afeita a reivindicações de cunho social ou comunitário. As manifestações têm mostrado que há, latente nessa juventude, algum desejo de transformação e uma sensibilidade aguda para a história contemporânea, especialmente naquilo que ela tem de insuportável. Por outro lado, é preciso que todos aproveitemos o momento para aprender com a dinâmica da história que está fluindo sob os fatos mais evidentes que a grande mídia tem transformado em uma espécie de teatro farsesco, sempre, é claro, adequando o movimento aos seus próprios interesses.

É possível, em princípio, tomar o conjunto de manifestações que se espalha dia-a-dia no Brasil como a elevação coletiva de um desejo de simbolizar algo que o mundo capitalista contemporâneo trata de sufocar dia-a-dia. Salvo engano, esse esforço de recalque que realizam os aparelhos ideológicos do capital atinge pelo menos duas características do Brasil de hoje que, sem dúvida, estão entre os mais legítimos motes da ocupação das ruas brasileiras.

A primeira dessas características está claramente vinculada ao exaurimento das formas de representação política da sociedade brasileira. Noutros termos, se temos uma democracia relativamente mais madura, temos também um conjunto muito grande de forças conservadoras aliadas ao grande capital ocupando espaços importantes das esferas de representação política, replicando velhos métodos da cínica realpolitk tropical, cujo DNA congrega escravismo, machismo, favor e sanha de acúmulo incomparável em esfera global. Enfim, queiram ou não, esse exaurimento tem muito a ver com a maneira como se desenvolveu a modernização capitalista periférica, processo em que as esferas de representação política e democrática são sempre, e com mais agudeza, ocupadas pelos interesses do grande capital local ou internacional.

Outra característica importante do mundo de hoje que dispara a insatisfação e o movimento é o verdadeiro insuportável da urbanidade brasileira atual. As nossas cidades são insuportáveis para o cidadão médio, embora guardem, no imaginário coletivo, a dimensão utópica de se configurarem como núcleos sedutores de promessas de realização humana plena. Com a intensificação da modernização à brasileira e da implantação capenga da economia de serviços aliada à precarização politicamente dispersiva da força de trabalho, as grandes cidades brasileiras são grandes selvas dantescas para as classes populares, onde as poucas migalhas das benesses do mundo do consumo são cobradas pelos donos do capital à custa de um tráfego caótico, uma educação pífia, uma saúde depauperada, um conjunto de serviços públicos que a rigor não funciona para todos da mesma forma.

Os anos de modernização neoliberal acabaram fazendo as metrópoles do Brasil se configurarem definitivamente como núcleos de frustração humana em grande escala. Dados recentes mostram, por exemplo, que São Paulo está entre as campeãs mundiais de patologias psíquicas como a depressão. Ou seja, algo dói na vida cotidiana das pessoas e a manifestação é uma oportunidade coletiva de realizar uma espécie de suspensão ou purgação (ainda que temporária) do sofrimento. Tudo isso acaba por ilustrar, de uma maneira talvez inesperada pela Escola de Frankfurt, a boa formulação de Adorno, segundo a qual a ideologia (ou o capital) não mente pelo que promete, mas por aquilo que não pode cumprir.

Não é nova a luta de David Harvey para discutir em alto nível o problema da metrópole pós-moderna com intelectuais, gestores públicos e membros de movimentos sociais. Esse problema nos diz respeito hoje, de forma grave, figurado, por exemplo, em um movimento que, a princípio, pedia menos R$ 0,20 na tarifa do transporte urbano. No fundo, o que se deseja é reivindicar o direito à cidade. Na bela construção de Harvey, arma-se assim o problema:

“O direito à cidade não é simplesmente o direito ao que já existe na cidade, mas é o direito de transformar a cidade em algo radicalmente diferente. Quando olho para a história, vejo que as cidades foram regidas pelo capital, mais do que pelas pessoas. Assim, nessa luta pelo direito à cidade, haverá também uma luta contra o capital.”i

Parece-me claro, portanto, que esse deve ser o norte fundamental a ser construído pela manifestações. Não importa mais muito de onde elas partiram, ou que problemas apresentaram até aqui. É tarefa de todos aproveitar o espaço de ressignificação do espaço da cidade provocado pelas manifestações. Não obstante haja interesses contraditórios em jogo e exista um grande perigo de as manifestações serem apropriadas por forças conservadoras da sociedade brasileira, até aqui elas têm o grande mérito de colocar os donos da cidade frente à frente com aqueles que delas se apossaram e a tornaram infernos de tráfego e frustrações. Os protestos são sintomas do desejo do direito que os cidadãos têm de viverem a cidade e não serem por ela consumidos, enquanto grandes somas de dinheiro são acumuladas por aqueles que, por exemplo, mantém relações espúrias com o poder público em nome do capital.

Esse é um direito mais do que legítimo e é bom que ele possa se tornar palpável a partir das manifestações que vemos crescer a cada dia. Num texto vigoroso no sentido da defesa da crítica cultural dialética, a professora Iná Camargo Costaii afirma que:

“O crime de lesa humanidade do capitalismo não é ter criado uma sociedade materialista em que se desejam bens de consumo, mas tê-la organizado de modo a impedir que a maioria tenha acesso aos bens que produz. Nós somos pela saciedade e contra a fome em todos os âmbitos, inclusive o da cultura”.

Ao que parece, boa parte dos manifestantes retira a força de sair às ruas desse desejo de plenitude humana, que não exclui as esferas material, cultural, física, educacional, psíquica etc.

Entretanto, é preciso não perder de vista o adversário. A dispersão das demandas, nesse caso, pode ser algo muito prejudicial ao amadurecimento dos movimentos como mecanismos de ressignificação da representação política e da ocupação do cotidiano das cidades. Roberto Schwarz, no clássico ensaio “Cultura e política 1964-1969”iii, lança uma frase que faz arrepiar aos mais conscientes do poder que a dinâmica histórica tem de fazer sucumbirem as melhores intenções de transformação social: “A história não é uma velhinha benigna”. Inclusive o salto revolucionário é feito com acúmulo, estudo, alianças e ordem. Isso só a maturidade política coletiva pode promover.

Vê-se claramente que uma parte dos manifestantes reclama da política, mas não entende muito bem o que ela é. Ou seja, embora seja capaz de sentir claramente a crise do modelo de representação democrática brasileiro, não é capaz de construir uma alternativa coletiva a ele, desvinculada dos interesses do capital. Parece bastante claro que a visão sobre a política na sociedade brasileira está muito vinculada a uma visão que a grande mídia constrói dos políticos. Essa é uma das formas de contaminação conservadora dos discursos das manifestações. Um grave problema da política brasileira, não revelado pelas grandes redes de comunicação (que também ocupam fatias do Estado com seus próprios interesses financeiros), é a já acima referida ocupação das esferas democráticas pelos desígnios do capital. Assim, antes de pensar em queimar bandeiras de partidos políticos nas manifestações, numa atitude que se aproxima perigosamente de atos fascistas, é preciso gritar contra o abominável que é haver tanto enriquecimento ilícito em um país de miseráveis, tanta licitação fraudada para entregar dinheiro público a grandes corporações internacionais que acenam com uma pretensa modernização da interação cidadãos-serviços públicos.

Esses são nossos grandes adversários, são eles que trocam educação por “inovação tecnológica”; que trocam saúde pública e saneamento básico por novos softwares de gerenciamento de pessoas nos hospitais; que trocam a urgência de celeridade e de ampliação da justiça aos desvalidos por mecanismos de informatização de resultado luminoso, mas pouco substanciais no que se refere à ampliação da esfera real de cidadania.

Um dos riscos que correm as manifestações, a se manter a dispersão de demandas, é que elas se esgotem mais rapidamente. As demandas devem, portanto, ser construídas dentro do movimento, sobretudo tendo em conta anseios daqueles que nem sequer podem estar nas ruas, pois, por exemplo, temem perder o emprego ou estão presos à miséria no campesinato. É preciso estar na rua por aqueles que sofrem o massacre radiante do capital todos os dias, enquanto empresários pensam em faturar mais um ou dois milhões numa negociata de bastidores trivial, à revelia da sociedade civil que, dispersa, é incapaz de desentocar das instituições democráticas os grandes ratos do capital.

As manifestações que vimos nos últimos dias, portanto, combinam reivindicações legítimas porque emanam de uma raiva verdadeira. É preciso, todavia, construir nos movimentos, que vemos cada vez mais articulados, um conjunto de estratégias que mantenha o estado consciente de mobilização (Fóruns? Aulas? Debates? Conferências? Sessões de terapia? Teatro? Rodas de Leitura?), capazes de oportunizar a construção de uma consciência crítica coletiva em relação ao modelo de desenvolvimento brasileiro. Antonio Candido falava em “Literatura e subdesenvolvimento”iv, retomando Mário Vieira de Mello, sobre formas de consciência que a literatura e, por extensão, a sociedade ia construindo coletivamente em relação à experiência de atraso e subdesenvolvimento dos períodos iniciais de nossa história. Os anos de apequenado desenvolvimento neoliberal construíram aos poucos uma espécie de “consciência amena do desenvolvimento”, pautada pela ilusão de que teríamos “chegado lá”.

Desejo sinceramente que o conjunto de manifestações dos últimos dias seja uma janela para uma construção, em grande escala, de uma “consciência dilacerada do desenvolvimento neoliberal à periferia do capitalismo”. E isso exige negociação, entrega pessoal e formulação de novos meios de representação democrática. Um “eu” não pode representar-se democraticamente a si mesmo, não é possível haver uma manifestação de cem mil demandas. Isto dizia-nos o Marx do 18 Brumário de Luis Bonaparte: “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem”v.

Não nos esqueçamos nunca do que nos ensinaram, com seus fracassos e acertos, os movimentos pelas “Diretas Já” e “Fora Collor”. A raiva de cada um com a desordem geral precisa, agora, ser transformada em demanda política concreta e viável. Uma dessas saídas, parece-me ser o trabalho coletivo (muito difícil e utópico) no sentido de amadurecer a ideia de uma nova constituinte no Brasil, com um texto capaz de expressar a dor cotidiana dos que sofrem o capital, nas cidades e no campo. Lembrando o velho Shakespeare: “Todos podem controlar uma dor, exceto quem a sente”. As manifestações dão uma simbolização à nossa dor, o que já é muito…mas elas precisam se transformar em ato político organizado, para que tal dor não seja, outra vez, subsumida pelas inteligentes e articuladíssimas estratégias de empulhação do capital.

 

* Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília, poeta e crítico literário. Autor, entre outros, de A nação drummondiana (7letras, 2009).

Terça, 18 Junho 2013 14:44

Redes sociais, boatos e jornalismo

Escrito por

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 18/06/2013 na edição 751, na página do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

O comportamento da grande imprensa na cobertura da repressão às manifestações contra o aumento das passagens de ônibus e contra os gastos exorbitantes para a realização da Copa do Mundo no Brasil forneceu mais um estímulo a quem propõe o abandono da “velha mídia” em nome das redes sociais, apresentadas como fonte das informações verdadeiras e veiculadas sem as mediações que as deturpam ou lhes retiram a força.

Infelizmente, as coisas não são simples assim.

De fato, os episódios dos últimos dias deixaram claro, mais uma vez, que a grande imprensa elege um lado, distorce os fatos, silencia as vozes dissonantes e, diante das evidências – as cenas de barbárie da quinta-feira (13/6), em São Paulo –, tenta atabalhoadamente correr atrás do prejuízo, sem entretanto conseguir livrar-se do jornalismo meramente reativo e declaratório: não consegue ser crítica às fontes oficiais, apenas reverbera seus discursos, mesmo os mais estapafúrdios, como o que assevera não ter havido excessos na repressão aos protestos no Maracanã, no domingo (16/6), ou o que informa sobre o cadastramento de jornalistas para as próximas manifestações, que usariam coletes de identificação – algo impensável mesmo em tempos pré-internet, quando o número de meios de comunicação era infinitamente menor.

São vícios, talvez, de quem se acostumou a substituir a apuração ativa e autônoma, que frequentemente suscitava conflitos internos na Redação, pela passividade da reprodução de releases de assessorias de imprensa, perfeitamente adequados aos objetivos de um jornalismo bem comportado, que não deseja fazer marola.

Ilusões na rede

Na era da internet, esse bom-mocismo subserviente desmorona, mas nem por isso o que circula na rede é garantia de boa informação. Especialmente quando se trata de situações de alta tensão, como estas que estamos vivendo, que provocam reações exacerbadas e muitas vezes resultam na disseminação de boatos ou simplesmente mentiras.

Num vídeo que circulou amplamente na internet, uma jovem paulistana, participante do movimento contra o aumento das tarifas, convocava: “Desliga a TV e vem pra internet. Porque na internet não tem manipulação...”.

Pobre mocinha.

Uma adolescente pode acreditar no que quiser, mas há muita gente experiente que cai nas armadilhas dessa cacofonia e desse imediatismo típicos do meio virtual. É assim que mesmo jornalistas compartilham automaticamente textos, fotos e vídeos sem qualquer preocupação com a checagem, às vezes sem nem mesmo lerem ou repararem melhor nas imagens. E frequentemente fazem comentários, e ajudam a criar a bola de neve da desinformação.

Reações irrefletidas

Um exemplo foi uma foto divulgada no Facebook no dia seguinte à batalha campal da Avenida Paulista: um jovem carregando uma policial, enaltecido como uma demonstração da atitude solidária de um manifestante contra a truculência da repressão. Ocorre que a foto era de 2010, de uma passeata de professores da rede pública de São Paulo, e o jovem em questão era um policial infiltrado no movimento – o famoso P2 –, que socorria uma colega. O alerta, em tom de ironia, foi dado pelo jornalista Caio Barbosa, de O Dia, em sua página no Facebook, e nos comentários indicava-se o link para a reportagem da época, que questionava a presença de um policial do serviço secreto naquela manifestação (ver aqui).

Outro exemplo, mais relevante pelas suas consequências alarmistas, foi o do boato sobre a censura às rádios CBN e BandNews FM, que teriam sido tiradas do ar “por ordem da Fifa” (?!) porque estavam cobrindo os protestos do lado de fora do Maracanã, pouco antes do jogo de domingo (16/6).

Diante da repercussão, a Band informou, pouco depois das 14h, pelo Twitter, que não havia censura alguma: apenas não tinha o direito de transmissão, via internet, para fora do Brasil, dos jogos da Copa das Confederações. À noite, no Facebook, o jornalista Álvaro Oliveira Filho, da CBN, divulgou texto esclarecendo que tampouco houve qualquer censura à rádio onde trabalha: simplesmente o site das emissoras do Sistema Globo de Rádio estava fora do ar, um problema que foi resolvido ao final da tarde, mas as rádios transmitiam normalmente. Os celulares funcionavam mal – “sei que isso é raro no Brasil, mas aconteceu neste domingo”, ironizou – e, algumas vezes, os repórteres que cobriam o conflito nos arredores do estádio entravam no ar e a ligação caía.

“Nem por isso deixamos de relatar o que acontecia nas ruas próximas ao estádio, com a ajuda também das imagens que recebíamos pela TV.
Num determinado momento, o locutor Evaldo José, ao meu lado, foi avisado que Genilson Araújo estava pronto para entrar no ar e o chamou. Genilson, no olho do furacão, não ouviu o chamado, não percebeu que estava no ar e disse para os policiais [
que perseguiam manifestantes refugiados na Quinta da Boa Vista]: ‘Vocês não podem entrar aí, não. Aí tem criança. O que é isso?’

“Ao perceber que Genílson não sabia que estava no ar, Evaldo retomou a transmissão. Foi o suficiente para que várias histórias fantasiosas surgissem e se espalhassem rapidamente pelas redes sociais, fazendo com que a CBN chegasse aos trend topics do twitter. Disseram que Genilson havia entrado no ar chorando, que a Fifa havia tirado a CBN do ar.”

No calor da hora

A proliferação de boatos ocorre com imensa facilidade porque a fluidez do mundo virtual o torna particularmente permeável a esse tipo de coisa. Além disso, as redes sociais são um reflexo do comportamento das pessoas na vida cotidiana, cuja característica é precisamente o automatismo, a reação irrefletida. Por isso não é possível, simplesmente, substituir a informação jornalística pelo que circula na internet, por mais que as redes também sejam uma riquíssima fonte de informação e expressão da criatividade e da irreverência diante da brutalidade e da opressão.

Mas, como sempre, é preciso filtrar para zelar pela credibilidade e combater o caos.

Por isso, cada vez mais, necessitamos de jornais – melhor dizendo, necessitamos de jornalismo, dessa atividade comprometida em mergulhar na turbulência do cotidiano para recolher dali as informações confiáveis e divulgá-las.

Jornalismo, entre várias coisas, é isso: o exercício do senso crítico no calor da hora. Por isso é tão difícil. Por isso é tão necessário. E por isso, também, é tão necessária a crítica ao jornalismo que descumpre seu papel.

*Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

Terça, 04 Junho 2013 19:05

O Brasil na OMC

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“A vitória do embaixador Roberto Azevedo na OMC é um marco”.

(Paulo Nogueira Batista Jr, diretor pelo Brasil no FMI)

 

Contrariando os vaticínios pessimistas de boa parte da mídia tupiniquim, o diplomata Roberto Azevedo acaba de ser guindado à direção geral da Organização Mundial do Comércio. Trata-se, com certeza, do posto de maior relevância já ocupado por um brasileiro no âmbito das relações multilaterais. De forma insistente, conhecidos comentaristas políticos e econômicos “puseram-nos a par” de que a possibilidade da escolha de Azevedo era remota.

O Brasil, “como sempre”, não dispunha de cacife suficiente para impor-se na disputa. A simpatia dos representantes dos países que compõem o colegiado da OMC voltava-se claramente para a candidatura do representante do México, patrocinada pelos EUA e União Européia. Para essa “situação de descrédito” concorria o fato de nosso País ser visto, no cenário do comércio internacional, como “excessivamente protecionista”. Era por aí que rolava a cantilena derrotista.

As previsões falharam. Roberto Azevedo, um cidadão que conhece a fundo o trabalho da OMC, respeitado pelas atitudes desassombradas assumidas na contestação dos subsídios americanos e europeus, galgou a posição pleiteada e a diplomacia brasileira marcou gol de placa nas articulações que promove na esfera internacional.

 

*Em curto espaço de tempo, passaram a não mais ser vistos entre nós – como diria Fernando Pessoa - três talentosos integrantes da MPB. Um deles, compositor do time titular. Autor de “Ronda”, apontada como uma espécie de hino da cidade de São Paulo. Autor, também, da antológica “Volta por cima” (“reconhece a queda / e não desanima / levanta / sacode a poeira / e dá a volta por cima”). E, além de tudo isso, nem todos sabem, esse genial artista Paulo Vanzolini foi também aclamado cientista. Dirigiu por três décadas o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Conferiu à instituição, com belo trabalho, respeitabilidade universal.

Marku Ribas foi outro exponencial personagem da música que saiu de cena. Seu poder vocal e presença de palco assegurou-lhe lugar entre os maiores intérpretes brasileiros de todos os tempos. Guardei para sempre de suas atuações a cena inesquecível de um eletrizante número que apresentou, no Teatro do Sesi, há mais de 20 anos, como solista, numa coreografia que teve participação dos astros e estrelas da famosa “Família Alcântara”. Foi um espetáculo digno de ser incluído pelo Itamaraty numa festa de recepção a Chefes de Estado.

Emilio Santiago, revelado nos espetáculos de Sargentelli no tempo do samba do telecoteco balacobaco e das mulatas estonteantes, que enfeitavam as boates da zona sul carioca, é outro cantor que deixará saudade. As lembranças de todos estão eternizadas nos extraordinários momentos de boa arte, genuinamente brasileira, que nos legaram.

 

*A Diocese de Bauru aplicou a pena de excomunhão num sacerdote. Alegou haver ele cometido “gravíssimo delito de heresia e cisma”. O sacerdote alvejado, Roberto Francisco Daniel, conhecido por Padre Beto, veio a público dizer que a severa punição decorreu da atitude de defesa intransigente assumida em favor da diversidade religiosa e sexual. Assinalou no pronunciamento que “o melhor caminho para a quebra de preconceitos é a amizade sincera com o diferente: o gay, o hetero, o negro, o branco, o estrangeiro, o pobre, o rico, o oriental, o ocidental, o católico, o evangélico, o umbandista, o ateu etc.” Nada a criticar no posicionamento do Padre. Agora, se o que consta deste resumido registro retrata corretamente a natureza da divergência entre o sacerdote e seus superiores hierárquicos, não há como deixar de classificar de radical e injusta a decisão eclesiástica de bani-lo das funções, depois de 15 anos de atividade clerical. Como ouvi outro dia um pastor evangélico dizer “é incrível que ele esteja sendo excomungado”, já que “nem pedófilos são excomungados com tamanha facilidade.”

 

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) ecreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Segunda, 27 Maio 2013 19:46

Ao resgate das hortaliças feias

Escrito por

Por Julio Godoy*

As críticas e o grito de alerta pelo desperdício de comida na Europa, por parte da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e de numerosas entidades não governamentais, parecem gerar seus primeiros efeitos, sobretudo em iniciativas privadas. Em Berlim, Tanja Krakowski e Lea Brumsack, especializadas em desenho de produtos e convertidas em cozinheiras, criaram a Culinary Misfits (algo como “inadaptados culinários”) para promover o consumo de vegetais que, por sua aparência, não se enquadram nos critérios estéticos que imperam em supermercados e grandes lojas de alimentação.

Esses tubérculos, hortaliças e outras verduras “não aptas” para o consumo são abobrinhas muito grandes, batatas com formas variadas, como um coração, repolho cujas primeiras folhas foram destruídas por excesso de umidade, ou cenouras com duas ou mais raízes. Embora sejam alimentos em bom estado e de boa qualidade, são descartados para a venda. “Os habitantes das cidades adotaram critérios de consumo completamente equivocados”, opinou Christian Heynmann, um agricultor próximo à cidade de Berlim.

“Uma abobrinha não pode ser maior do que a palma da mão, um repolho com folha marcada pelo excesso de umidade não é comestível e cenouras com três raízes curtas em lugar de uma longa e perfeitamente cônica não têm lugar na cozinha”, afirmou Christian. “Porém, se você abre e come uma abobrinha de 30 centímetros e a compara com outra de dez da mesma colheita, ou uma cenoura com três raízes com outra longa e cônica, verá que têm o mesmo aspecto e o mesmo sabor”, ressaltou ao Terramérica.

Christian colabora com Tanja e Lea fornecendo vegetais que de outra forma descartaria, porque os supermercados e as lojas especializadas não os aceitam para venda. “Criamos a Culinary Misfits para usar estes produtos descartados no cotidiano da cozinha, e mostrar ao público o verdadeiro rosto da natureza, além de desmentir essa falsa concepção que impera na cidade de que os bons vegetais têm de ser simétricos, pequenos e redondos”, detalhou Tanja ao Terramérica. “Queremos que as pessoas aprendam a comer toda a colheita”, acrescentou.

“Não somos cozinheiras profissionais, mas podemos demonstrar ao nosso público que é possível preparar pratos deliciosos com vegetais que não têm boa aparência”, explicou Lea. “Nossa intenção é recriar uma cultura culinária sustentável”. Lea, Tanja e Christian são apenas três rostos deste movimento emergente na Europa, que se rebela diante da insensatez do desperdício de alimentos. Muitos agricultores utilizam vegetais “disformes” para elaborar sucos ou vender para restaurantes vinculados a redes de supermercados.

Tal movimento parece resultado, entre outros, do alarme que causou o informe Perdas e Desperdício de Alimentos no Mundo, que a FAO divulgou em maio de 2011. “Cerca de um terço dos alimentos produzidos a cada ano no mundo para consumo humano se perdem ou é desperdiçado”, afirma o estudo. “Os países industrializados e em desenvolvimento dilapidam mais ou menos a mesma quantidade: 670 e 630 milhões de toneladas, respectivamente”.

Na Alemanha são jogadas no lixo 11 milhões de toneladas de comida por ano, o que representa cerca de 135 quilos por pessoa, segundo dados do Ministério de Proteção dos Consumidores de março de 2012. Cada pessoa em sua casa descarta aproximadamente 81,6 quilos, e o restante é jogado no lixo pela indústria, pelo comércio e por grandes consumidores, acrescenta o Ministério. Frutas e hortaliças, além de raízes e tubérculos, são os alimentos que mais se joga fora.

Com a crise econômica europeia, multiplicaram as pessoas, sobretudo jovens, que recuperam alimentos em bom estado dos depósitos de lixo de supermercados e restaurantes. Isto fez com que governos e organizações supranacionais lançassem campanhas de conscientização. O comissário da União Europeia (UE) para o Meio ambiente, Janez Potočnik, alertou que, se não houver mudança em seus hábitos alimentares e de escolha de seleção de comestíveis, o bloco poderá desperdiçar mais de 120 milhões de toneladas de alimentos em 2020, 30% da produção regional.

Porém, o desperdício de comida foi detectado muito antes. Em 2007 teve início na Grã-Bretanha a campanha Love Food Hate Waste (Ame a Comida, Odeie o Desperdício), conduzida por uma entidade sem fins lucrativos e financiada pelos governos de Escócia, Gales, Inglaterra e Irlanda do Norte, em cooperação com empresas e organizações não governamentais. A iniciativa inclui um rigoroso inventário de alimentos jogados no lixo diariamente nos restaurantes.

Como consequência, muitos desses comércios modificaram rotinas e começaram a reduzir o tamanho dos pratos e das guarnições. Alguns restaurantes, em particular aqueles especializados em serviço de bufês, e que baseavam sua promoção na generosidade das porções, passaram a cobrar um adicional dos clientes que não consomem totalmente os pratos dos quais se servem.

Esses passos e o efeito da inflação alimentar parecem colaborar. Segundo dados do Waste & Resources Action Programme (WRAP – Programa de Ação Sobre Recursos e Resíduos), administrado pela Love Food Hate Waste, o desperdício de alimentos e bebidas nos lares britânicos passou de 8,3 milhões de toneladas para 7,2 milhões, entre 2008 e 2011. A quantidade de alimentos que não foi desperdiçada “tem um volume semelhante ao que seria necessário para encher o estádio de Wembley até o último degrau”, disse ao Terramérica o diretor de projeto e prevenção de resíduos da WRAP, Richard Swannell.

Entretanto, o desperdício e a quantidade de lixo, especialmente de embalagens de comestíveis, seguem sendo enormes, advertiu Richard. “O lixo afeta toda a cadeia de fornecimento, por isso temos que trabalhar com todas as empresas e com os consumidores para reduzir embalagens sem afetar a qualidade e o frescor dos alimentos”, acrescentou. Em outras palavras, não basta comer toda a colheita; também é preciso revolucionar a comercialização, reduzir embalagens e reeducar o público, para que compre somente a quantidade de comida que de fato necessita.

* O autor é correspondente da IPS.

Segunda, 27 Maio 2013 14:50

Mas isso também é terrorismo

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“O terror pode assumir, nestes tempos amalucados, múltiplas formas.”

 (Antonio Luiz da Costa, professor)

 

O edifício de nove andares que desabou em Daca, capital de Bangladesh, provocando mais de mil mortes e mais de dois mil feridos, abrigava um complexo industrial ligado ao setor de confecções. Marcas famosas mantinham unidades de produção no local, empregando grande contingente de operários. Mais de três mil.

Bangladesh é, depois da China, o polo de fabricação de peças de vestuário mais ativo do planeta. Essa atividade representa sua principal fonte econômica. O prédio que veio ao chão foi erguido em condições irregulares. Estava plantado numa zona vedada a construções desse porte. Mesmo assim, desrespeitando as posturas, os proprietários da edificação arrancaram, por meio de jogo de influência e propinas, alvarás de funcionamento. Mais: passando por cima de recomendações técnicas expressas, foram acrescentando mais andares à estrutura, ao longo dos anos. Ao aparecerem fendas nas paredes, diante da recusa dos operários em continuarem comparecendo ao trabalho em condições tão arriscadas, a Prefeitura de Daca ordenou a interdição do edifício. A proibição, por força de forte pressão, foi revogada dias depois. Os trabalhadores receberam intimação de retornar ao trabalho sob ameaça de demissão e suspensão de salários. A contragosto, acataram as ordens hierárquicas. Deu no que deu. Vinte e quatro horas depois o edifício caiu estrepitosamente. Milhares de costureiros, costureiras e centenas de crianças, recolhidas a creches, encontravam-se em seu interior na hora fatídica.

Os salários pagos nas fábricas eram em média de 99 reais mensais, por 72 horas semanais.

Pouco antes dessa pavorosa ocorrência, outra construção insegura, também de nove andares, abrigando empresa de confecção, pegou fogo em Daca. Não haviam saídas de emergência. A estatística tétrica, desta feita, apontou 117 mortos e 200 feridos. As tragédias levantaram nas ruas acesos protestos populares, reprimidos com violência.

A notória insensibilidade do setor industrial de confecções que atua em Bangladesh, representativo de grifes que ornamentam lojas de luxo nas praças comerciais mais sofisticadas do planeta, vem sendo, com toda razão, equiparada à violência dos fanáticos terroristas que agem em grupo ou por conta própria. Afinal – argumenta-se –, a forma de agir de uns e outros, igualada no desprezo a valores humanos sagrados, é terrorismo.

E se a gente procurar com afinco e olhar crítico atilado vai acabar descobrindo, certeiramente, em muitos outros cantos deste mundo do bom Deus onde o diabo costuma fincar também seus encraves outras desalmadas situações terroristas em potencial, parecidas com as de Bangladesh, prontas para explodir.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Sexta, 24 Maio 2013 12:54

O consumo que nos faz feliz

Escrito por

Por Vivian Blaso*

Segundo recente pesquisa divulgada pelo AKATU 2012, a maioria dos entrevistados afirma que a felicidade estaria atrelada à saúde e à boa alimentação. Mas, parece que algumas marcas ainda não perceberam isso, pois vemos que, para eles, a felicidade não tem nada a ver com a saúde e nem com a boa alimentação.

A Kibon, por exemplo, por meio do Facebook, apresenta a sua “Receita para felicidade” ou pede para os internautas compartilharem a Felicidade, acredita que os consumidores mais felizes são aqueles que compartilham mais porque consomem mais de seus produtos. Ao seu lado, numa releitura do valor calórico dos refrigerantes, a felicidade da Coca Cola está embutida numa lata ou garrafa, como mostra a campanha “Abra a Felicidade”, que traz a promessa do consumo da felicidade por meio do consumo do refrigerante.

Nestes dois casos – poderiam ser outras marcas e outros produtos quaisquer, mas escolhi estas por estarem no auge das visibilidade de suas campanhas publicitárias – não estamos falando exatamente de alimentos ligados à saúde e à boa alimentação, como indicaram os consumidores brasileiros na pesquisa Akatu, que trariam felicidade

Pelo contrário, a leitura das campanhas publicitárias nos mostra que o que interessa é consumir tais produtos para sermos felizes. E aqui é que está o grande paradoxo da sociedade contemporânea que deseja a saúde o bem estar, mas que é incentivada a comprar produtos que não são benéficos a saúde e qualidade de vida, principalmente na atual epidemia de obesidade pela qual o mundo passa.

AS ORIGENS DO CONSUMISMO

Foi a partir da década de 90 que o consumismo passou a ser o alvo dos documentos elaborados pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das raízes da crise ambiental em que vivemos.

Zigumum Bauman define o “consumismo” como um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos rotineiros, que impulsiona e coordena a estratificação social, definindo grupos e políticas de vida individuais, e assim, o consumismo é a principal força propulsora e operativa da sociedade, um atributo. Dessa maneira, o autor já apontava a sociedade consumidora como a aquela que desvaloriza a durabilidade, igualando “velho” a “defasado”, impróprio para continuar sendo utilizado e destinado à lata de lixo.

Ao discutir o bem estar, a pesquisa do AKATU, aponta uma questão em jogo na sociedade de consumidores seria: como desacoplar a relação de consumo a felicidade uma vez que a felicidade vem sendo trazida como tema do discurso publicitário?

É este o discurso que vem sendo alvo dos documentos da ONU sob o chapéu “Rumo a Sociedade de Bem Estar”. A aposta estaria sendo colocada na sustentabilidade como promessa da melhoria da qualidade de vida das pessoas no planeta.

Mas quando se introduz a sustentabilidade, surge uma contradição entre o que é necessário e o que se coloca em prática, tanto do ponto de vista das empresas como do ponto de vista do consumo.

No fundo sabemos que tais produtos, como o refrigerante ou sorvete, além de não resolverem a questão da felicidade, são altamente processados e, no geral, não são considerados benéficos à saúde. A própria natureza dos produtos já estaria em completo descompasso com a proposta de felicidade se os consumíssemos na frequência e velocidade que necessitaríamos para mantermo-nos felizes.

CLASSE C

Para complicar ainda mais o debate, um outro ponto relevante a ser colocado em discussão a partir da pesquisa do AKATU3 seria a preferência da Classe C ao optar pelo caminho do consumo – de todos os tipos de pordutos e serviços – em detrimento ao caminho sustentável, pois há uma crescente massificação do consumo no Brasil.

Isso traz consequências imediatas ao comprometimento das melhorias das condições de vida das pessoas nas cidades uma vez que o resultado direto do consumo é o aumento na produção de resíduos; na intensidade do consumo energético e, consequentemente, uma significativa majoração nas emissões dos gases causadores do efeito estufa. Isso tudo, sem contar nos impactos diretos à saúde das pessoas ao consumirem mais alimentos processados como, no caso, sorvetes ou refrigerantes, em excesso.

O filósofo francês Serge Latouche, aponta que será preciso combater o “desenvolvimento sustentável”, ele acredita no “futuro sustentável da vida” e para isso será necessário reavaliar, reconceituar, reestruturar, realocar, redistribuir, reduzir, reutilizar e reciclar.

Para ele, a via mestra para tal feito seria a felicidade e consequentemente o decrescimento, porque, se somos felizes, seremos menos suscetíveis à propaganda e à compulsividade do desejo. Essas opções implicam uma mudança de atitudes com relação à natureza, buscando a condição necessária para evitar um destino de obsolescência programada da humanidade.

Portanto, devemos nos perguntar: Se estamos condicionados em uma sociedade de consumo, como reinventar processos, inovar arriscando os métodos tradicionais de produção, para nos aventurarmos em novos métodos que sugerem produções mais limpas?

É aí que surge a inovação: será que para ser feliz precisamos cultuar a cultura do “ter”, justamente a cultura que nos coloca no centro de tudo?

No fundo, estas indagações trazem reflexões sobre os valores, a ética, a responsabilidade social, ambiental e comportamental. É um resgate da moral. Entretanto, será necessário se permitir sair da fôrma, para inovar e criar novos mecanismos de sobrevivência, sem necessariamente precisar do “ter” para ser feliz.

E, ao falar em Ética, exige-se uma reflexão, ou religação, como diz Edgar Morin, entre o indivíduo, a espécie e a sociedade. E, para que essa religação ocorra, é necessário o autoconhecimento.

A dominação dos objetos materiais, o controle das energias e a manipulação dos seres vivos foram importantes para o avanço da humanidade, mas se tornou míope para captar as realidades humanas, convertendo-se numa ameaça para o futuro humano. Por isso, se faz necessário “Hominescer”, como aponta Michel Serres6, que aposta na inventividade do homem para poder construir uma nova humanidade capaz de religar cultura, ciência e filosofia.

Na perspectiva da complexidade apontada por Serres e Morin, podemos considerar a dificuldade de encontrar mecanismos capazes de unir o que está separado, separar o que está junto, uma vez que esse processo também vem ocorrendo nas escaladas de produção e consumo, que são tratados de maneira separadas, e, para religá-las, será necessário reconectar o individuo, a espécie e a sociedade, não separando a ciência da técnica, e nem a natureza da cultura. Será necessário, sobretudo reestabelecer a Ética. E isto se faz por meio de diálogo entre todos sem fazer caças as bruxas já que o processo e mudança requer a complexidade em si.

* Profa. Vivian A. Blaso S. S. Cesar é Doutoranda e Mestre em Ciências Sociais, Especialista em Marketing e Sustentabilidade, Presidente da Organização do #Ciis2013. Ela estará no painel Comunicação, Cultura e Tecnologias que ocorrerá no segundo dia do Congresso (30/8). Veja a programa completa aqui www.ciis.com.br.

Segunda, 20 Maio 2013 19:34

Todas as mulheres são mães

Escrito por

Por Paiva Netto

Na Legião da Boa Vontade, LBV, a visão que temos da maternidade é ampla. É o que comentei em 22 de maio de 1988, na Folha de S.Paulo: Deus, Mãe e Pai dos seres humanos, é universal abrangência. Assim sendo, Mães não são apenas as que geram filhos carnais. Também são aquelas que se consagram à sobrevivência dos filhos dos outros: as crianças órfãs, até mesmo de pais vivos; as das Mães que precisam trabalhar e não têm pessoa de confiança com quem deixá-las; as das que são irremediavelmente enfermas. Tal como se lê no Poema do Grande Milênio, de Alziro Zarur (1914-1979): “(...) Os filhos são filhos de todas as mães, e as mães são as mães de todos os filhos”.

Mães são ainda as que se devotam à Arte, à Literatura, à Ciência, à Filosofia, à Religião, à Política, à Economia, afinal a todos os setores do pensamento ou ação criadora, a gerar “filhos” de sua dedicada competência pelo desenvolvimento da Humanidade. A LBV não ergue bastilhas, pelo contrário, as derriba com renovada Boa Vontade. (...)

RETRATO DE MÃE Abro a revista Boa Vontade e encontro esta joia do saudoso bispo chileno Dom Ramón Ángel Jara (1852-1917): Existe uma simples mulher que possui um pouco de Deus pela imensidade de seu Amor, e muito de anjo pela constância de sua dedicação. Mulher que, sendo jovem, pensa como anciã; e na velhice, trabalha como se tivesse o vigor da juventude; se é ignorante, decifra os problemas da vida com mais acerto do que um sábio; sendo culta, amolda-se à simplicidade das crianças; quando pobre, considera-se bastante rica com a felicidade daqueles que ama; e sendo rica, daria com prazer sua riqueza para não sofrer a injúria da ingratidão. Forte ou intrépida, entretanto estremece ante o choro de uma criancinha; franzina, se reveste, às vezes, da bravura de um leão. Mulher que, enquanto viva, não sabemos dar-lhe o devido valor, porque a seu lado todas as nossas dores se apagam... Mas, depois de morta, daríamos tudo o que somos e tudo o que temos para vê-la de novo um só instante e dela receber a carícia de seus abraços, uma palavra de seus lábios... Não exijais de mim que diga o nome dessa mulher se não quiserdes que eu inunde de lágrimas este álbum, porque já a vi passar em meu caminho. Porém, quando os vossos filhos crescerem, lede-lhes esta página. E eles, cobrindo-vos de beijos, dirão que um pobre viandante, em retribuição da magnífica hospedagem recebida, deixou gravado neste álbum, para todos, o retrato de sua própria Mãe.

Dizem que Mãe não tem rima. Será?! Então secou-se-lhes a musa, ou saiu em férias... Mas não semelhantemente à famosa experiência de Guerra Junqueiro (1850-1923).

Amor faz rima perfeita com Mãe. Mãe é eterna também.

José de Paiva Netto é jornalista, radialista e escritor.

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Por Raquel Rolnik*

Faltando pouco mais de um ano para a realização da Copa do Mundo no Brasil, o Comitê Popular da Copa do Rio de Janeiro divulgou hoje mais um dossiê com um balanço dos preparativos para os jogos, avaliando os impactos sociais na vida da população e denunciando violações de direitos. Desde 2010, quando foram criados, os comitês populares vêm acompanhando os preparativos em todo o país e realizando manifestações nas cidades-sede dos jogos para reivindicar que o processo de preparação da copa não se constitua em um verdadeiro “estado de exceção” em que vale tudo! De lá para cá, vemos que essas mobilizações resultaram, em vários casos, em mudanças de procedimentos.

No Rio de Janeiro, que certamente é a cidade onde este processo ocorre há mais tempo e de maneira mais intensa, em 2011 a prefeitura publicou um decreto estabelecendo novas diretrizes para remoções de moradores, reassentamentos e indenizações. Nesse decreto houve um reajuste das indenizações, cujo valor máximo passou de R$ 40 mil para R$ 77 mil. Uma conquista, sem dúvida. Mas muito tímida diante da situação que a cidade vive hoje. Um trabalho de final de curso do estudante Lucas Faulhaber, da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF, ao mapear para onde foram os reassentados removidos das comunidades da zona sul, revela a perversidade desta situação.

Um exemplo de resistência é a Vila Autódromo, que desde a preparação dos jogos Pan-Americanos de 2007 resiste à remoção. Agora, cerca de 500 famílias, que moram no local há mais de 40 anos, estão ameaçadas de remoção, embora não estejam em área que vá receber qualquer empreendimento olímpico ou de mobilidade ligado à realização dos jogos. Em agosto do ano passado, os moradores entregaram à prefeitura uma proposta de urbanização que demonstra não haver incompatibilidade entre o projeto olímpico, a existência da comunidade e a preservação ambiental da Barra da Tijuca, onde está localizada, mas até hoje o diálogo não avançou. Conhecido como plano popular da Vila Autódromo, o projeto foi desenvolvido numa parceria entre a Associação de Moradores da comunidade e professores e alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Um caso semelhante está acontecendo em São Paulo. A comunidade da Vila da Paz, em Itaquera, na zona leste, apresentou em março para a prefeitura o Plano Popular Alternativo para a Vila da Paz. A comunidade está ameaçada de remoção por conta de intervenções urbanísticas como o Parque Linear do Rio Verde e de obras viárias no entorno do estádio do Itaquerão. Desenvolvido pelo Coletivo Comunidades Unidas de Itaquera, Instituto Polis e Peabiru-TCA, o plano alternativo propõe mudanças nas intervenções a fim de garantir a permanência dos moradores em condições adequadas. No momento, prefeitura e comunidade vêm se reunindo para tratar do assunto. Esperamos ver avanços.

Em Fortaleza, por sua vez, o número de remoções previstas já foi reduzido de 2.500 para 1.700. Na comunidade Aldaci Barbosa, próxima à rodoviária interestadual, depois de muitas mobilizações, o governo concordou em mudar o local onde seria construída a estação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que antes afetaria a comunidade, evitando um grande número de remoções. Também na comunidade Lauro Vieira Chaves, que fica perto do aeroporto Pinto Martins, muitas remoções foram evitadas. Os moradores apresentaram um plano alternativo para a passagem do VLT e, depois de muitas reuniões com os órgãos responsáveis, conseguiram modificar o projeto, reduzindo as remoções de 300 para 22. Entretanto, novas remoções em outras áreas estão sendo anunciadas, embora esta informação não esteja disponível em Fortaleza, nem em outras cidades-sede.

Quando uma das questões mais graves da preparação das cidades para os megaeventos é justamente a falta de informação e transparência, é importante também destacar a iniciativa do governo do Ceará de publicar uma cartilha sobre o projeto de implementação do VLT, esclarecendo a população sobre o processo de desapropriação. Por outro lado, faltou garantir espaços de participação na concepção do projeto e também na discussão e aprovação da Lei que estabeleceu as regras para a remoção e indenização das pessoas afetadas.

Também em Natal, 400 imóveis seriam removidos por conta de obras viárias relacionadas à preparação para a Copa do Mundo. Em fevereiro a prefeitura decidiu mudar o projeto e evitar parte das desapropriações. Outra cidade onde podemos perceber que houve avanços é Curitiba. Em dezembro de 2011, por exemplo, depois de várias mobilizações, foram suspensas as obras da trincheira, uma passagem subterrânea na comunidade São Cristóvão, em São José dos Pinhais (região metropolitana), cujo trajeto acarretaria a remoção de diversas famílias. Além disso, no final de 2012, foi retirado da matriz de responsabilidades da Copa o projeto do Corredor Metropolitano, obra viária que passaria por oito municípios, afetando mais de mil famílias em seu trajeto original, segundo cálculos da UFPR.

Enfim, precisamos reconhecer e comemorar estes avanços, que demonstram que a organização e mobilização são relevantes para fazer ouvir os que raramente têm acesso aos processos decisórios sobre os grandes projetos das cidades. Mas muitas violações ainda estão em curso – não apenas relacionadas à moradia – e por isso o acompanhamento permanente, a indignação e publicização das violações é fundamental.

* Raquel Rolnik é urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.

Sexta, 17 Maio 2013 15:16

Como lidar com uma criança consumista?

Escrito por

Por Reinaldo Domingos*

Diante de tanta publicidade na televisão, é normal que as crianças fiquem “hipnotizadas” e acabem querendo ter tudo o que veem pela frente, por serem livres de malícia e, portanto, vulneráveis a qualquer tipo de estímulo, ainda mais visuais.

Por isso, é difícil saber se os desejos são naturais ou se já indicam um perfil consumidor. Isto porque, na maioria das vezes as crianças são tratadas como consumidoras adultas desde cedo, já que são expostas a propagandas estimulantes. No entanto, grande parte desses desejos são imediatos, ou seja, passageiros.

A situação começa a ficar complicada quando o filho não consegue passar o mês com o que ganha de mesada e passa a pedir mais dinheiro, ou então começa a querer tudo que vê nas televisão ou em vitrines e quando não conseguem fazem birra.

Outra situação que exemplifica uma criança consumista é quando elas ganham um presente e logo deixam de lado, quebram ou esquecem em algum lugar. Se isto está ocorrendo, já é a hora em que os pais devem sentar e conversar com seus filhos. É preciso educar, financeiramente, as crianças, para que, dessa forma, elas reconheçam o valor do dinheiro e comecem a priorizar os seus sonhos.

Porém, é preciso também uma reflexão por parte dos pais,já que o exemplo é dado dentro de casa, isto é, se os pais não fazem um controle de suas finanças pessoais, não planejam para alcançar seus objetivos, não fazem investimentos e consomem desenfreadamente, é isso o que a criança vai aprender e, consequentemente, repetir o comportamento.

Também há influências externas, que, nesse caso, devem ser limitadas pelos pais. Se os hábitos e costumes da família forem positivos com relação ao uso do dinheiro, eles tendem a prevalecer na vida das crianças. Isso, certamente, evitará que elas façam parte de um grupo de pessoas endividadas na fase adulta.

* Reinaldo Domingos é educador financeiro, presidente da DSOP Educação Financeira e da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), autor dos livros Terapia Financeira, Eu mereço ter dinheiro, Livre-se das Dívidas, Ter Dinheiro Não Tem Segredo, das coleções infantis O Menino do Dinheiro e O Menino e o Dinheiro, além da coleção didática de educação financeira para o Ensino Básico, adotada em diversas escolas do país.

Sexta, 17 Maio 2013 14:50

Enervante e assustador

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“O retardamento da justiça é injustiça.”

(Landor)

 

A marcação recente de três julgamentos relativos a casos que causaram forte comoção popular e enorme repercussão dentro e fora do país ilustra, de forma estridente, a enervante e assustadora morosidade da Justiça em executar sua sagrada missão institucional.

O “massacre do Carandiru”, com 111 mortes e outro tanto de feridos, ocorreu em 2 de outubro de 1992. Somente agora vinte e seis dos oitenta e três policiais militares denunciados como autores, 22 anos depois da inominável tragédia, foram conduzidos ao banco de réus. Pegaram sentenças de 156 anos de prisão cada um pelo seu envolvimento no trucidamento de 13 presos.

O assassinato de PC Farias e da namorada Suzana Marcolino ocorreu em 23 de junho de 1996. Os seguranças do casal, indiciados pela execução material dos crimes, só foram julgados agora em maio de 2013. Ou seja, 17 anos depois.

O caso, como se recorda, sofreu tremenda reviravolta diante do inconformismo da opinião pública em absorver a primeira versão dada pela polícia de Alagoas sobre essa verdadeira “queima de arquivo” relacionada com um dos mais explosivos escândalos da vida pública nacional. A alegação fornecida à sociedade foi de que a namorada de PC matou-o por ciúmes e, depois, deu cabo da própria vida. A fajuta aprontação acabou desabando. Investigações posteriores levaram ao indiciamento dos seguranças, mas não chegaram ao ponto de esclarecer tudo tintim por tintim, ou seja, apontar o mandante, ou os mandantes dos homicídios. Nem, tampouco, revelar em poder de quem ficou a enorme fortuna adquirida nas maracutaias articuladas pela vitima. A absolvição dos réus pelo Conselho de Sentença alagoano, com o reconhecimento de que ocorreram realmente os assassinatos, e de que os seguranças pecaram por omissão, tornou ainda bem mais difícil a decifração da charada que envolve as façanhas e a morte de PC. Morte, por sinal, acontecida na véspera da vitima comparecer em Juízo para revelar, com detalhes, como vinha sendo aguardado, uma incrível historia de corrupção, dando “nomes aos bois” e entregando uma lista completa dos corruptos e corruptores.

Já a chamada “chacina de Unai”, em que agentes da fiscalização do Ministério do Trabalho foram eliminados por jagunços, atendendo à voz de comando vingativa de fazendeiros autuados por ações contrárias à legislação trabalhista e com participação na vida política da região, aconteceu no dia 28.01.2004. O julgamento dos réus, já várias vezes adiado, está sendo agora anunciado para o mês de agosto. Fazendo as contas, mais de nove anos depois da brutal ocorrência que enlutou numerosas famílias e que tanta revolta espalhou no seio da sociedade.

Voltamos a Rui Barbosa, na célebre “Oração aos moços”: “Justiça atrasada não é justiça.”

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Terça, 07 Maio 2013 15:49

Justiça lerda

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“A justiça atrasada não é justiça.”

(Rui Barbosa)

 

Garimpei com boa disposição o dicionário à cata de uma palavra suficientemente apta para definir o procedimento do Judiciário diante do “massacre do Carandiru”. Considerei, de princípio, que desídia, irresponsabilidade, uma ou outra, se aprestassem a traduzir razoavelmente a estranhável morosidade, causadora de perplexidade nacional, na realização do julgamento dos “justiceiros” incumbidos de por cobro, a ferro e fogo, à rebelião dos presidiários de 22 anos atrás.

Sem menosprezar a hipótese de que um outro vocábulo se ajuste melhor na descrição do comportamento das autoridades judiciais bandeirantes, fixei-me, ao cabo da pesquisa, na expressão escárnio. A insensibilidade demonstrada na condução do processo, a ponto de tolerar essa tramitação a passo de tartaruga, não deixa de significar um escárnio, um menosprezo solene a respeitáveis postulados jurídicos, aos códigos legais que regem a convivência social, à opinião pública.

Que “prerrogativa” é essa de que se arvoram servidores públicos bem remunerados de espicharem a bel prazer, por mais de duas décadas, um julgamento de configuração tão dramática? Mesmo que se aplique à situação a condescendente tese de que a Justiça revele-se sempre lenta na tomada de decisões, há que se reconhecer, nesse episódio em especial, um imperdoável extravasamento de prazo.

Nessa marcha, a levar-se em conta os trâmites processuais a serem percorridos após o julgamento, muito tempo ainda irá transcorrer antes que a ação da Justiça com referência ao massacre possa se completar. A história toda aconselha a que se chame Rui Barbosa para explicar aos juizes encarregados da causa do Carandiru que “a justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta.”

Ainda sobre o massacre do Carandiru um outro registro inevitável. Recolhido ao ostracismo político, o governador de São Paulo à época, Luiz Antônio Fleury, que todos imaginavam estivesse a remoer algum remorso pela notória responsabilidade moral de seu governo diante da selvageria que tingiu de sangue as paredes do presídio, não se pejou, recentemente, em declaração pública, de justificar a ação de seus comandados fardados. Algo deprimente e assustador.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quarta, 24 Abril 2013 14:34

Desfazendo mitos e preconceitos

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“Nenhuma das justificativas das pessoas contrárias às cotas se mostrou verdadeira.”

(Ricardo Vieira Alves de Castro, Reitor da Universidade do Estão do Rio)

 

As cotas deram certo. Uma década depois, a política de inclusão de negros nas universidades brasileiras explode em resultados surpreendentes.

É o que asseguram num trabalho jornalístico de grande fôlego e do melhor quilate, estampado na ISTOÉ de 10 de abril, os jornalistas Amauri Segalla, Mariana Brugger e Rodrigo Cardoso. A reportagem mostra que os cotistas vêm conseguindo notas mais elevadas que a média dos alunos. Nos vestibulares, têm-se saído tão bem quanto os não cotistas. No que lhes toca, os índices de evasão são baixos e a maioria já sai da Escola com emprego garantido. Tem mais: graças às cotas, a qualidade do ensino brasileiro melhorou. E a vida de milhares e milhares de brasileiros se transformou.

As considerações alinhadas desmontam mitos e preconceitos, ainda hoje utilizados nos argumentos dos que, equivocadamente, se contrapõem à sábia política de inclusão social perseguida com o regime de cotas.

É bastante sugestivo anotar os mitos e as verdades levantados no substancioso estudo. Um mito surrado é o de que as cotas estimulariam o ódio racial. A verdade apurada em pesquisa nas universidades federais é de que 90 por cento dos educadores entrevistados são de parecer que as cotas não estimulam jeito maneira o racismo.

Outro mito derrubado: o de que os cotistas largariam a Universidade no meio do caminho. Os fatos demonstram que a evasão entre cotistas e não cotistas se equivale. O exemplo do curso de Medicina da UERJ elucida bem a coisa. Em 2004, 94 candidatos a médicos passaram no vestibular, 43 deles cotistas. Da turma, 86 chegaram à colação de grau em 2010. Dos oito desistentes, quatro eram cotistas e quatro não cotistas.

Outro mito, inspirado em rançoso preconceito, que também não sobreviveu à realidade dos fatos: as cotas viriam comprometer o nível de ensino, degradando o currículo das Universidades. A análise de especialistas revelou que o desempenho de cotistas e não cotistas é parecido. Em não poucos casos, a performance dos cotistas mostra-se até superior. Na UERJ, a comparação, ao longo de 5 anos, assinalou nota média de 6.41 para os cotistas e nota 6.37 (ligeiramente pior, está visto) para os não cotistas. Na Unicamp, segundo palavras textuais dos autores do trabalho “os alunos que ingressaram na Universidade por meio de um programa parecido como de cotas (e que estimulou a inclusão de negros) superaram seus colegas que não tiveram esse beneficio em 33 dos 64 cursos.”

Outro mito jogado estrepitosamente por terra: com as cotas o vestibular teria discrepâncias. “A pontuação dos alunos aprovados como cotistas seria muito menor que a pontuação dos candidatos aprovados pelo sistema tradicional. Pior: ficariam de fora candidatos que tiveram notas muito mais altas do que os cotistas.” O que despontou foi algo bem diferente. De acordo com dados do SISU (Sistema de Seleção Unificada), as cotas favoreceram, em 2013, 36 mil estudantes. Na disciplina mais concorrida, a nota de corte dos cotistas foi de 761.67. A dos não cotistas foi de 787.56. Diferença de apenas 25.9 pontos, ou seja, 3 por cento.

Os repórteres vaticinam que as próximas gerações vão experimentar transformações ainda mais substanciais graças à aprovação recente pelo Senado Federal do projeto que regulamenta o sistema de cotas e que prevê que, até 2016, vinte e cinco por cento do total de vagas nas Universidades federais contemplem estudantes negros.

Esse é um dos caminhos, queira Deus indesviáveis, que o Brasil vem percorrendo na invasão do futuro.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quarta, 24 Abril 2013 14:31

Educação afasta o racismo

Escrito por

Por Paiva Netto

Evidenciar o respeito às diferentes etnias pavimenta a vivência pacífica entre seres humanos e nações. Há poucos dias, a Boa Vontade TV (canal 23 da SKY) abordou, no programa “Sociedade Solidária”, o Estatuto da Igualdade Racial, instituído pelo governo do Brasil em 20/7/2010. Uma entrevista com o dr. Marco Antonio Zito Alvarenga, advogado criminalista e presidente do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo (CPDCN), trouxe-nos especial contribuição. 

Da sua palavra, este trecho esclarecedor: “O Estatuto da Igualdade Racial, na verdade, não tem uma efetividade do poder de punir. Ele define o que é racismo, define políticas públicas, define o que deve ser feito no sentido da diminuição do fosso entre negros e brancos, indígenas... O que deve ser aplicado legalmente para a punição é a Constituição Federal primeiro, que prevê o crime de racismo como inafiançável e que não prescreve. Depois, a Lei 7.716/89, que prevê pena de um a cinco anos para racismo; e mais ainda o artigo 140, parágrafo 3o do Código Penal, que prevê o tipo penal definido como injúria racial. Então, esses são os instrumentos legais. Agora, não basta só isso”.

Atentemos, pois, para a prática que o dr. Marco Antonio aponta. A observância legal enriquece nossa cultura e, por consequência, valoriza todas as etnias que formam a sociedade brasileira: “Sou um apaixonado pelo Direito Penal, mas acho que o racismo tem que ser banido não através da punição, mas também pela educação. E pela educação é que vamos visibilizar a importância do povo negro na construção deste país. E para que isso ocorra, há que se aplicar a Lei 10.639/03. Que lei é essa? É a lei que prevê a aplicação, ou seja, o aprendizado da história da população negra ou do afro desde sua origem. E a importância disso não é só para os negros, é também para os não negros, que assim terão uma visão diferenciada da nossa participação na construção deste país”. A experiência do dr. Marco Antonio Zito Alvarenga na militância pela justa causa da igualdade racial merece ser levada em consideração.

DALCIDES BISCALQUIN LANÇA LIVRO E CD

Todos temos algo de bom a oferecer ao mundo. Observamos isso no livro “Por onde o amor me leva” e no CD “Alma & Coração” que o escritor, jornalista e cantor Dalcides Biscalquin lançou recentemente. Falando à Super Rede Boa Vontade de Comunicação, ele comentou: “Quando escrevi ‘Por onde o amor me leva’, eu pensava em ajudar aquelas pessoas que estão mais necessitadas, sozinhas, que passam por um período difícil. É isso que quero com esse livro”. Agradeço seu estímulo aos Legionários da LBV: “Parabéns pelo trabalho de vocês! E que bom, nesse momento, a gente estar junto como parceiros, porque nosso objetivo é o mesmo. Minha mãe me dizia que queria sempre ajudar as obras que vocês têm, de Boa Vontade, e ela sempre ajudou. Hoje, olho o trabalho de vocês e digo: ‘Que bom que Deus fala ao mundo por vocês’”. Grato ainda ao estimado Dalcides pelas mensagens que me enviou em seu livro e CD, respectivamente: “Sempre olho para a LBV como um sinal de que Deus acredita na Humanidade! Com amor e paz”; e “Paiva Netto, sempre admiro seu trabalho. Você e sua obra são sinais do Amor de Deus”. A generosa Alma do autor está bem descrita pela jornalista Mariana Godoy, no prefácio do livro: “A experiência acadêmica vivida por Dalcides lhe deu a certeza de que seu trabalho nesta vida é ajudar o próximo a compreender o que ele compreende: o poder do amor”.

José de Paiva Netto é jornalista, radialista e escritor.

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Sexta, 19 Abril 2013 14:00

Os direitos “sagrados” dos caubóis

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Todo inventor de formação humanística tem seu momento de depressão a la Santos Dumont, por causa do temor de que sua invenção venha a ser desvirtuada dos propósitos originais.”

(Domingos Justino, educador)

Inimaginável impressora capaz de produzir artefatos em três dimensões, bolada por uma tecnologia de vanguarda destes tempos assombrosos, está sendo desvirtuada dos objetivos para os quais foi inventada, passando a atender a maquiavélicos e assustadores propósitos. O que se cogitava, de princípio, com a revolucionária técnica, era a produção de objetos de adorno ou de utilidade prática no ambiente caseiro, de forma a facilitar a vida das pessoas dotadas de habilidades mecânicas ou artesanais.

Mas eis que o instinto perverso de alguns descobre, de repente, outra linha de utilização para o instrumento: a fabricação de armas portáteis mortíferas de comprovada eficácia. Com a “vantagem” para os interessados na composição de “arsenais domésticos” de não terem que prestar contas a ninguém de suas “atividades” como fabricantes clandestinos de instrumentos de destruição. Testes promovidos por especialistas revelaram que armas de potente calibre nos moldes configurados em nada ficam a dever, quanto aos malefícios espalhados, aos produtos originais. E a munição tradicional é perfeitamente adaptável.

A descoberta desse macabro aplicativo da impressora de três dimensões levantou, naturalmente, enorme preocupação. Os órgãos competentes estão dando tratos à bola, nos Estados Unidos, com vistas a estabelecer normas de controle que possam impedir o invento de transformar-se numa ameaça social sem controle.

Já uma minoria barulhenta de caubóis que na terra de Tio Sam defendem, com tresloucados argumentos, o “sagrado direito” de cada cidadão em poder montar dentro de casa seu próprio arsenal bélico, mode proteger-se dos riscos urbanos, suburbanos e rurais, vale dizer, dos riscos da vida, vem celebrando com euforia a novidade. Em depoimentos, alguns desses personagens – hoje em conflito aberto permanente com o governo Obama, por sua disposição de regulamentar o negócio de armas no país – registram, com insano júbilo repita-se, que a geringonça tecnológica é um caminho apontado por Deus aos verdadeiros patriotas americanos. Um pessoal disposto a não renegar, sob pressão alguma, os “autênticos valores da nacionalidade” e que se insurge com destemor contra decisões que cogitem submetê-los a normas, como a da regulamentação de armas, que alvejam claramente seus sagrados direitos pessoais, ufa!

Isso mesmo que você acaba de ler, caro leitor. Nada de espanto prolongado. O jogo dos fundamentalistas estadunidenses é feito todo nessa base. O radicalismo dominante transpõe todos os limites razoáveis e imagináveis. O Presidente negro Barack Obama é considerado por essa gente perigoso agente da esquerda terrorista, com vinculações no mundo muçulmano.

Como as correntes integristas e racistas são ainda força política dotada de poderes na sociedade norte-americana, os argumentos empregados pelos seus porta-vozes geram certa ebulição. As ferozes resistências, inclusive na mídia, que a Casa Branca tem encontrado para fazer prevalecer uma legislação sensata de regulamentação do comércio de armas configuram bem o estado de espírito belicoso desses grupamentos, que bebem inspirações para seus atos nas idéias da Ku Klux Klan, da Sociedade John Bird e do Tea Party.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

*Por Reinaldo Domingos

Muito famoso no passado, o temido dragão da inflação voltou às pautas nos últimos meses e tem causado grande preocupação, tendo como o principal vilão o preço do tomate, com elevação de 122,13% em 12 meses, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Realmente estamos em um período de alta de preços, mas, é importante reforçar que os índices inflacionários ainda não dispararam, muito pelo contrário, isso dificilmente acontecerá, principalmente pelo impacto político que este número tem. Mas, as noticias mostram que este índice não está adormecido, por isso todo cuidado é pouco.

Assim, medidas devem ser tomados para que os aumentos de preços não tenham reflexos diretos no cotidiano. Tendo em mente que os índices já estão menores. Recentemente o IBGE divulgou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país, usada como base para as metas do governo, que apresentou variação de 0,47% março – taxa inferior à registrada no mês anterior, de 0,60%.

Mas como fazer com que a alta dos preços não ocasionem prejuízos e desespero? O primeiro passo é manter a calma. Muitas pessoas lembram o período quando a inflação era monstruosa e por isso já ligaram o sinal de alerta, mas é importante não se desesperarem, pois isto só prejudicara a situação, uma corrida às compras para armazenar produtos só ocasionará um cenário no qual a inflação será ainda maior.

A saída é a educação financeira, fazendo com que a pessoa considere o fator inflacionário na hora de seu planejamento financeiro. Tenha em mente que uma inflação na faixa dos 4% ou 5% pode e vai comprometer o seu poder de compra e o desempenho dos seus investimentos se não ocorrerem cuidados. É preciso proteger seu dinheiro, e para isso o principal caminho é definir os sonhos de curto, médio e longo prazo que deseja realizar e investir o dinheiro de acordo com esses, pois, o rendimento anulará a inflação.  

O índice inflacionário não poupa ninguém. Ele pode comprometer os ganhos de qualquer tipo de aplicação financeira. Por isso, vale acompanhar os índices inflacionários. O IPCA é o indicador utilizado na política de metas inflacionárias do governo. No entanto, quando o assunto é finanças pessoais, também é importante acompanhar o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado).

O IGP-M é utilizado porque afeta mais diretamente o bolso do consumidor. Esse indicador inflacionário é utilizado, por exemplo, para contratos de aluguel, reajustes de tarifas públicas e planos ou seguros de saúde.  

Sobre a relação da inflação com o consumo, uma idéia bastante comum é a de parcelar compras com prestações fixas. Realmente esta opção é tentadora, mas, pode ter certeza, nos valores das prestações incidirá, por mais que seja dito que a taxa é zero, tenha em mente, nenhuma instituição emprestará dinheiro para você se não tiver nada em troca.

Sobre armazenar produtos, também alerto para um risco. As pessoas passam a armazenar muitas vezes desordenadamente, o que faz com que compre coisas que não são realmente necessárias, em quantidades excessivas e que perdem as validades rapidamente, isso faz com que o desperdício seja muito grande e os prejuízos financeiros maiores ainda. Assim, para armazenar é preciso controle saber o que já tem e o que realmente utiliza.

 Mas, o mais importante neste período é evitar deixar o dinheiro parado, sem aplicações, dinheiro sem direcionamento será rapidamente desvalorizado. Pesquise e veja quais são as linha de aplicação financeira que mais respondem aos seus interesses, sempre lembrando de dividir os sonhos em curto, médio e longo prazos.

Por fim, por mais que as notícias sobre a inflação sejam assustadoras, não se deve entrar em desespero, é muito difícil que retomemos as taxas inflacionárias que tínhamos à 20 anos atrás, assim, mais do que nunca é hora de pensar na educação financeira, pois esta com certeza fará com que os impactos sejam muito menores no seu dia a dia.

 

*Reinaldo Domingos, educador financeiro, presidente da DSOP Educação Financeira e Editora DSOP e da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), autor dos livros Terapia Financeira, Eu mereço ter dinheiro!, Livre-se das Dívidas, Ter Dinheiro Não Tem Segredo, das coleções infantis O Menino do Dinheiro e O Menino e o Dinheiro, além da coleção didática de educação financeira para o Ensino Básico, adotada em diversas escolas do país, Apostila de educação financeira para o ensino EJA e Jovem Aprendiz.  

Quarta, 17 Abril 2013 15:09

Infelicianeidade

Escrito por

Por Frei Betto*  

Marco Feliciano  Vocábulos nascem de expressões populares. Assim como nomes próprios trazem significados que deitam raízes em suas respectivas etimologias.

Feliciano é nome de origem latina, derivado de felix, feliz. Nem sempre, contudo, uma pessoa chamada Modesto deixa de ser arrogante e conheço uma Anabela que é de uma feiura de fazer dó.

Estamos todos nós, defensores dos direitos humanos, às voltas com um pepino federal. Nossos servidores na Câmara dos Deputados, aqueles cujos altos salários e complementos (viagens aéreas, planos de saúde, assessores etc.) são pagos pelo nosso bolso, e a quem demos empregos através do voto, cometeram o equívoco de eleger o deputado e pastor Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos.

O pastor-deputado, filiado ao PSC-SP, escreveu em seu twitter: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato.” Em outra mensagem, postou: “Entre meus inimigos na net (sic) estão: satanistas, homoafetivos, macumbeiros…”

Em processo aberto no Supremo Tribunal Federal, Feliciano é acusado de induzir ou incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, crime sujeito à prisão de um a três anos, além de multa.

Em sua defesa, protocolada, a 21 de março, pelo advogado Rafael Novaes da Silva, Feliciano afirma: “Citando a Bíblia (…) africanos descendem de Cão (sic) (ou Cam), filho de Noé. E, como cristãos, cremos em bênçãos e, portanto, não podemos ignorar as maldições.”

Que deus é este que amaldiçoa seus próprios filhos? Essa suposta teologia vigorou no Brasil colonial para justificar a escravidão. O Deus de Jesus ama incondicionalmente todos os homens e mulheres, e ainda que O rejeitemos Ele não deixa de nos amar, conforme atestam a relação do profeta Oseias com sua mulher Gomer e a parábola do Filho Pródigo.

Todo fundamentalismo cristão é ancorado na interpretação literal da Bíblia, que deriva da ignorância exegética e teológica. Os criacionistas, por exemplo, que negam o evolucionismo constatado por Darwin, acreditam que existiram um senhor chamado Adão e uma senhora chamada Eva, dos quais somos descendentes (embora não expliquem como, pois tiveram dois filhos homens, Caim e Abel…). Ora, Adão em hebraico é terra, e Eva, vida. O autor bíblico quis acentuar que a vida, dom maior de Deus, brota da terra.

Ter Feliciano como presidente de uma Comissão tão importante – por culpa de grandes legendas como PMDB, PSDB e PT – é uma infelicidade, pois não condiz com o nome do deputado que, na roda do samba que está sendo obrigado a dançar, insiste no refrão: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira.”

O deputado é um pastor evangélico. Sua conduta deveria, no mínimo, coincidir com os valores pregados por Jesus, que jamais discriminou alguém.

Jesus condenou o preconceito dos discípulos à mulher sírio-fenícia; atendeu solícito o apelo do centurião romano (um pagão!) interessado na cura de seu servo; deixou que uma mulher de má reputação lhe lavasse os pés com os próprios cabelos, e ainda recriminou os que se escandalizaram ao presenciar a cena; e não emitiu uma única frase moralista à samaritana adepta da rotatividade conjugal, pois estava no sexto homem! Ao contrário, a ela Jesus se revelou como o Messias.

É direito intrínseco de todo ser humano, e também da democracia, cada um pensar pela própria cabeça, seguir a sua consciência. Nada contra o pastor Feliciano, na contramão do Evangelho, abominar negros e odiar homossexuais e adeptos da macumba. Desde que não transforme seu preconceito em atitude discriminatória, e seu mandato em retrocesso às conquistas que a sociedade brasileira alcança na área dos direitos humanos.

Estamos todos nós, brasileiros e brasileiras, indignados e perplexos frente ao impasse armado pelo jogo político rasteiro da Câmara dos Deputados. Eis uma verdadeira situação de infelicianeidade, com a qual não podemos nos conformar.

 

* Frei Betto é escritor, autor do romance “Aldeia do Silêncio” (Rocco), entre outros livros.

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