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Terça, 02 Abril 2013 14:49

Derrapagens na Fórmula 1

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Ele agiu por conta própria.”

(Declaração do porta-voz da Red Bull/Renault a respeito da atitude do piloto Sebastian Vettel na corrida da Malásia)

 

Na prova da Fórmula 1 da Malásia, o piloto Sebastian Vettel ultrapassou o companheiro de equipe Mark Webber, garantindo com o gesto o melhor lugar do pódio. Só que ganhou uma reprimenda por haver tocado a corrida “por conta própria”, contrariando “ordens superiores” e provocando com a atitude de independência e a ousadia demonstradas uma “crise” na Red Bull/Renault, marca automobilística que chancela a participação de ambos nas pistas. Os dois pilotos subiram, na verdade, à cobiçada tribuna reservada ao trio vitorioso da corrida. Mas aos patrocinadores o que interessava mesmo era que as posições ficassem invertidas.

O piloto que, “indisciplinadamente”, descumpriu as ordens, desfazendo um arranjo prévio devidamente costurado nos bastidores do “circo”, foi devidamente advertido. Viu-se constrangido a vir a público, por surreal que isso pareça, mode desculpar-se pela “falta grave cometida”. E, com certeira certeza, já se comprometeu, a esta altura do campeonato, a respeitar religiosamente, daqui em diante, as regras traçadas do jogo. Ou seja, numa disputa em que esteja defendendo a escuderia garantidora de seus polpudos salários, jamais se deixará levar, de novo, pela emoção esportiva descontrolada e meter-se a besta de sair na frente dos competidores sem receber a conveniente autorização superior para tanto...

Não houve – pasmo dos pasmos -, por parte tanto dos pilotos envolvidos no cabuloso episódio, quanto por parte dos dirigentes da Red Bull/Renault, a mais leve preocupação no sentido de ocultar, de quem quer que fosse, os veículos de comunicação inclusive, o desassossego vivido em suas fileiras diante dessas, chamemos assim, “divergências de posições” entre o que foi ordenado ao piloto e o que foi por ele executado durante a prova. É como se todos estivessem dizendo: “Calma, pessoal, o jogo é esse, todo mundo da Fórmula 1 tá calvo de saber que é sempre assim. A ninguém é lícito desrespeitar as regras. Quem não estiver a fim de acatá-las, que cuide de deixar a pista...”

Este não foi o único lance desconcertante da prova da Malásia, pelo que o noticiário nosso de cada dia andou revelando. Outra escuderia viveu situação parecida. O piloto Nick Rosberg, da Mercedes, preparava-se para ultrapassar o companheiro de equipe Lewis Hamilton, então em terceiro lugar, quando recebeu enfática advertência para “conter-se”. O acordo do dia previa que a vez de subir ao pódio seria de Hamilton. Ao contrário do compatriota alemão Sebastian Vettel, Rosberg resolveu acatar, provavelmente entre resmungos e ranger de dentes, a enérgica admoestação, abrindo mão para o companheiro do direito de galgar o pódio. Chegou a dizer para algumas pessoas, em tom de desabafo: “Lembrem-se desta prova!” Mas, obediente como tão bem se ajusta ao perfil de um autêntico e intimorato piloto da Fórmula 1, não quis saber de espichar conversa. Sentiu-se, por certo, parcialmente compensado com a provável promessa de Hamilton de, futuramente, quem sabe até já na disputa do circuito de Xangai, próxima etapa percorrida pelo circo, retribuir-lhe a “gentileza”.

Essas situações constrangedoras, antiesportivas, profissionalmente repugnantes do ponto de vista ético, são parte indissociável do cotidiano da Fórmula 1. Outros pilotos, inclusive brasileiros, já se envolveram em maquinações desse gênero. Tudo é encarado nesses redutos com descarada naturalidade e assimilado como razoável, até pelos veículos de comunicação, embora violente escancaradamente a lógica do esporte.

Os absurdos detectados no campeonato automobilístico guardam equivalência, nas devidas proporções, com a situação imaginária de uma partida entre duas seleções nacionais de futebol em que o resultado fosse antecipadamente pactuado.

Aliás, falando verdade, essa situação não é tão imaginaria assim, como se poderia de início supor. Tem-se como certo que já aconteceu numa Copa Mundial. A da Argentina. Os “hermanos”, já com uma derrota no torneio, precisavam de uma vitória com a margem absurda de cinco gols de vantagem sobre a seleção peruana para chegarem à final. Era o que estipulava o regulamento da competição, alterado por razões óbvias mais tarde. O outro escrete em condições de aspirar, na chave da Argentina, o direito de participar da final era o Brasil, único invicto, até aquele momento. E não é que os argentinos chegaram lá e, depois, “abiscoitaram” o título? Tudo se deu por obra e arte da ditadura militar argentina, que aliciou na espúria jogada o governo peruano, as Federações futebolísticas dos dois países, com a concordância explicita dos atletas, assegurando gratificações polpudas ao time do Peru, para que amolecesse o jogo.

Falou-se pouco dessa tramóia, porque a época desaconselhava manifestações que colocassem sob suspeita a lisura, a honestidade, a integridade moral dos ditadores de plantão dos países do chamado “cone sul”.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Sexta, 15 Março 2013 13:34

Só faltava essa

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Mas estão todos malucos!”

(Frase atribuída a Dom Pedro II, na partida para o exílio, anotada por Paulo Rónai em seu “Dicionário de Citações”.)

O capítulo das zuretices e excentricidades do grande livro que narra as peripécias do bicho-homem em seus vais e vens por este mundo velho de guerra sem porteira, criado pelo bom Deus, onde o diabo costuma plantar seus perturbadores encraves, acaba de ser “enriquecido” com uma decisão no mínimo curiosa, tomada dias atrás pelo Parlamento alemão. Os deputados do país do chucrute aprovaram lei proibindo a zoofilia, após polêmicas inflamadas ao longo de vários meses.

Grupos organizados em associações, movimentando passeatas e formulando protestos diante da casa do Legislativo, expressaram sua discordância frontal ao que ficou decidido, prometendo reação braba.

Zoofilia, como a patuléia ignara de que sou parte não faz questão alguma de saber, quer dizer, num primeiro momento, segundo os dicionários, “amor aos animais”. Mas pode significar também, na linha interpretativa dos legisladores germânicos, “situação em que o carinho por outro animal, que não o homem, produz prazer sexual”, como registra o Aurélio. Ou, como consigna a “Wikipédia”, “atração ou envolvimento sexual de humanos com animais de outras espécies.” A  “Wikipédia” ainda se põe a explicar que são chamados de zoófilos aqueles seres humanos que se envolvem nessas práticas.

Textos da Psicologia fundamentada na teoria freudiana classificam a zoofilia como um transtorno da sexualidade. Na classificação internacional de doenças (CID-10), a situação se enquadra na categoria dos transtornos de ordem sexual chegados à bestialidade. Especialistas médicos têm-na na conta de manifestação neurótica, onde a insensibilidade e a grosseria se aliam a um bloqueio afetivo de amor.

Mas retornando à proibição parlamentar. Ela decorreu de estudos aprofundados onde chegou-se à conclusão de que a zoofilia é problema a ser encarado com seriedade. Essa prática, que se entrechoca com os padrões civilizatórios, prolifera entre os alemães, a ponto de se calcular hoje em 100 mil o número de zoófilos assumidos no país.

Os estudos revelaram coisas espantosas. Segundo as autoridades, cerca de 500 mil animais são mortos por ano, pouco depois de passarem por sevicias sexuais, ora, veja, pois...

A discussão em torno do esdrúxulo tema trouxe a lume incríveis argumentos. Principalmente por parte dos adeptos escancarados da zoofilia. Uma organização chamada Zeta (Engajamento Zoófilo para a Tolerância e a Informação) anunciou o propósito de refutar em Juizo a decisão dos deputados. Seu dirigente, Michael Kiok, de Munique, admitindo-se ligado “afetivamente” a uma cachorra de raça (pastor alemão), de nome Cissy, “há pelo menos sete anos”, botou pra fora sua indignação com relação à nova lei, afirmando aos jornais: “Fazem-nos sentir criminosos. Isso tudo por causa dos fanáticos defensores dos direitos animais, que pensam sejamos capazes de magoar nossos companheiros”.

O dirigente zoófilo, que já foi casado e considera “mais fácil compreender os animais do que uma mulher”, referia-se a manifestantes que apoiaram nas ruas de Berlim a deliberação parlamentar. Assegurou que irá recorrer à Corte Suprema da Justiça para “defender os respeitáveis direitos” da “categoria” representada pela Zeta.

Bem, é isso ai... Quanto ao mais, é como não se cansa de dizer o Fulgêncio do Abaeté, professor aposentado, recolhido hoje ao relativo sossego de aprazível sitio na zona rural de Conceição das Alagoas, lá pras bandas do Triângulo, ao confessar-se “meio deslocado” nestes tempos amalucados com “as teses novidadeiras volta e meia trazidas pela televisão, rádio, jornal e Internet”: “Só me faltava mais essa! Será que alguém não pode mandar parar, mode o degas aqui apear e cair no mato?”

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quinta, 07 Março 2013 19:39

Preconceito é fogo

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“O preconceito é filho da ignorância.”

(William Hazl)

 

Historinhas desimportantes, que não rendem manchete, para ser lidas por pessoas de reta intenção, posto que desinformadas, que sustentam com ardor a tese de que, entre nós, no Brasil, o preconceito racial é pura balela. Pois sim!

 Deu no jornal. O casal, de aparência escandinava, acompanhado de um menor, filho adotivo, negro retinto como se costuma dizer, percorria o salão de produtos importados da agência de carros à cata de um modelo super arretado. Bem abonados financeiramente, adquirentes em potencial de um veículo luxuoso, marido e mulher eram atendidos pelo próprio dono da agência, um craque na especialidade de farejar bons negócios. De súbito, o amistoso papo entre as partes é interrompido por um choro doído de criança. Todos param pra ver o que está rolando. Alguém da loja, usando do muque, está botando pra fora “um pivete atrevido, além do mais de cor, que andava a esmo pelas dependências do estabelecimento, xeretando tudo, importunando a clientela e funcionários”. O pivete inconveniente outro não era senão o filho adotivo (dodói) do casal. A venda do importado, logicamente, não se concretizou e o proprietário e colaboradores foram devidamente espinafrados do primeiro ao quinto (como se costumava dizer em tempos de antigamente), pelos pais injuriados.

 Indoutrodia, num restaurante sofisticado da Capital da República. A jovem, integrante do alto escalão burocrático de importante Ministério, deixando o toalete, retorna à mesa que reúne familiares e amigos. Eis que um cidadão, sentado com outras pessoas em mesa ao lado, acerca-se dela, cheio de mesuras, um tom de voz entre solidário e discreto, para alertá-la sobre uma provável situação de risco. “Queira desculpar-me, disse ele, mas acho prudente a senhora fazer uma verificação de seus pertences. Agorinha ainda, na hora em que a senhora foi com as amigas ao reservado, eu vi aquele crioulo que está ali perto do bar, fuçando sua bolsa. Boa coisa ele não deve ter aprontado. Sabe cumé essa gentinha. Esse restaurante está perdendo a classe. Qualquer um está podendo entrar.” A resposta deixa o solícito vizinho de mesa estonteado, imobilizado, aniquilado e mudo. “Escute aqui, seu mequetrefe, aquele crioulo ali perto do bar, que você surpreendeu mexendo em minha bolsa, é ninguém mais, ninguém menos que meu marido. Sem que isso tenha nada a ver com a condição dele de poder frequentar livremente este ou qualquer outro local, esse crioulo, fique sabendo, é um mestre renomado em física quântica.”

 Dia desses, numa escola da periferia. A professora chama quatro alunos, todos de tez clara, moradores do aglomerado localizado nas cercanias do educandário. Sugere-lhes, mais uma vez (já havia tratado do assunto na semana passada), que em suas idas e vindas diárias às aulas procurem, como medida de segurança, se deslocar sempre em grupo com colegas, seus vizinhos, companheiros também de classe, de epiderme negra. “Eu sei que vocês moram perto uns dos outros, mas nunca os vejo chegando, nem voltando juntos pra casa.” Um dos garotos interpelados, com o assentimento em gestos de cabeça dos demais, deixa cair atordoante revelação. “A senhora tá com a razão, fessora. Nós, falar verdade, gostamos muitos de todos esses colegas. Fazemos parte até do mesmo time de pelada no morro. Mas o que sucede é que quando pinta polícia no caminho da gente, nós somos sempre abordados e revistados, quando em companhia deles. Eles são sempre abordados.”

 Entreouvido, sábado desses, na porta de uma loja granfina de “Shopping”. Madame bem apessoada, com traje vistoso, reluzente sortimento de jóias distribuído pelas mãos e pescoço bem cuidados, contempla com conhecidas ao redor, a vitrina de uma loja feminina de alta classe. Chama a atenção para pormenor intrigante. “Observem vocês: os manequins dessa loja são todos pretos. Parece até que os produtos são ofertados exclusivamente para crioulos. O dono bem que poderia melhorar um pouco isso, colocando, vá lá, um ou outro manequim preto e o resto tudo “normal”, vocês não concordam?”

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Sexta, 22 Fevereiro 2013 13:44

O desabafo do Papa

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“Ficamos sem fala.”

(Cardeal Giovanni Lajola)

 

Depois da inesperada renúncia, outra atordoante surpresa. Declarações incisivas que soaram como um recado impactante sobre os descaminhos que estariam sendo trilhados, por integrantes da Cúria Romana, na condução das atividades da Igreja.

Bento XVI, nos derradeiros pronunciamentos como Sumo Pontífice, fez revelações que levantam fundadas suspeitas de que a abdicação ao trono de Pedro não teve como única motivação a alegada falta de vigor físico e psicológico. Para o ato que produziu comoção mundial, notadamente nos círculos católicos, terá concorrido também, com certeza – há que se deduzir das manifestações vindas agora a lume – uma rede de intrigas montada nos bastidores do Vaticano com o fito de debilitá-lo e de impedir mudanças importantes na vida da milenar instituição.

Os depoimentos, em tom de desabafo, são de irrecusável significado histórico. Denunciam situações que estariam em desacordo com a linha de atuação pontifícia e que não podem deixar de ser vistas como instrumentos de desestabilização de seu sagrado magistério. As frases proferidas por Ratzinger nas homilias que o mundo ouviu em clima novamente de espanto são, no ver de analistas conceituados, muito reveladoras.

Vejamos algumas delas. “A face da Igreja, às vezes, é desfigurada. Penso em particular nos golpes contra a unidade da Igreja, as divisões no corpo eclesial. Por isso, Jesus denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que deseja aparecer, os hábitos que procuram o aplauso e a aprovação...” “Viver a Quaresma em uma mais intensa e evidente comunhão eclesial, superando individualismos e rivalidades, é um sinal humilde e precioso para aqueles que estão distantes da fé ou indiferentes.” “Muitos estão prontos a estraçalhar as roupas diante de escândalos e injustiças – naturalmente cometidos pelos outros -, mas poucos parecem dispostos a agir sobre o próprio “coração”, a própria consciência e as próprias intenções, deixando que o Senhor transforme, remova e converta.” “Nossa tarefa é trabalhar para que o verdadeiro Concilio (...) prevaleça e a Igreja seja verdadeiramente renovada.”

Quem melhor resumiu o impacto causado pela retórica papal foi o Cardeal italiano Giovanni Lajolo: “Ficamos sem fala.”

A leitura que respeitados “vaticanistas” fazem desses pronunciamentos é de que Bento XVI exprimiu como pôde, ciente de suas limitações, com palavras vigorosas mas resguardando a dignidade do cargo, sua amargura diante de episódios constrangedores provocados por elementos que gozavam de sua confiança e que se perderam em gestos de indesculpável infidelidade. As inconfidências do mordomo desleal; os desatinos do Banco do Vaticano, engolfado em transações escabrosas até com chefões da Máfia; a corrupção e desmandos detectados em relatórios subscritos por vários Cardeais inconformados com certos rumos do palácio apostólico; as reações de alguns purpurados da Cúria às medidas punitivas contra clérigos que fizeram vista grossa aos numerosos casos de pedofilia que abalaram tantas comunidades; essas coisas todas e outras mais constituiriam o verdadeiro fundamento do desencanto expresso por Bento XVI.

Sinalizando evidências de que, embora partidário de reformas, não soube ou não conseguiu, por força de intransponíveis óbices domésticos, promovê-las, o Papa resignatário estaria, agora, empenhado em abrir caminho para a ascensão de um sucessor capaz de sacudir estruturas e levar avante uma renovação verdadeira, como tanto se almeja, no seio da Igreja.

Hora propicia, voltamos a dizer, para a entrada em cena de alguém com o perfil de um João XXIII. Alguém, tocado pelo Espírito Santo, como se prevê nas escrituras sagradas, que proceda, talvez – por que não? -, de uma parte do mundo onde a presença católica se revele, em número de fiéis e devoção, mais vigorosa. A América Latina, o Brasil, por exemplo.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Quarta, 20 Fevereiro 2013 16:53

À espera de um novo João XXIII

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“A mensagem de Roma é humilde como uma quadra popular e grandiosa como uma catedral de verdades eternas.”

(Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde)

 

Bento XVI sai de cena de forma surpreendente. Deixa de sua passagem pela cátedra de Pedro o registro de uma atuação sem a reluzencia de seus predecessores mais próximos. A decisão que tomou, reconhecendo-se despojado de condições físicas e psicológicas para dar continuidade à missão que lhe foi atribuída, causou compreensível comoção. Trouxe à tona, sem dúvida, sua grandeza de caráter e, também, seu estilo discreto e sua visão extremamente racional das coisas deste mundo. Mas a renúncia ficará lembrada, lá na frente, como ato invulgar que provocou apenas rastro efêmero de estupefação. Não como um instante histórico em que teria ocorrido a ruptura de uma obra pessoal pontilhada de realizações, por meio das quais a Igreja teria dado avanços de monta na propagação da mensagem evangélica.

Bento XVI adquiriu notoriedade pelo conservadorismo entranhado e brilhantismo teológico de feição imobilista. Será, assim, merecidamente celebrado como eficiente burocrata da fé. Nunca como alguém predestinado a ascender, a qualquer tempo - como aconteceu, por exemplo, com seu antecessor próximo, João Paulo II -, a um lugar entre os luminares do pensamento religioso de todos os tempos.

É bastante sugestivo, quando se analisa o ato inesperado de Bento XVI, a identificação, por ele próprio admitida, que tinha com o Papa Celestino V, cujo tumulo visitou em Áquila, nos Apeninos, em 2009, quando do terremoto que atingiu a região. Esse Celestino V, lá por volta de 1294, aos 80 anos, resolveu abdicar das funções pontifícias. Recolheu-se a um mosteiro, entregando-se à meditação mística. Sua renúncia, 719 anos transcorridos, é o precedente mais próximo que se tem da decisão tomada por Ratzinger.

A humanidade inteira sabe. Há uma mensagem de Roma a ser transmitida a todos os homens, em todas as latitudes. Todos, mesmo os não católicos, se dão conta da importância dessa mensagem. Ela chega do fundo e do alto dos tempos. É mensagem de sabedoria. Dá voz, como lembra Tristão de Ataíde, ao amor contra o ódio, à justiça contra a exploração, à paz contra a violência, à esperança contra o desespero. O mesmo autor resume de forma lírica o teor desse recado: ele é humilde como uma quadra popular e grandioso como uma catedral de verdades eternas.

Essa mensagem não pode abrir mão, obviamente, dos valores essenciais da fonte original. Mas também não pode, por outro lado, em nome de dogmas e preconceitos rançosos, alguns de cunho nitidamente maniqueísta, instituídos pela mera vontade humana, olvidar os desafios novos, as alternativas de comportamento social nascidas da abertura da consciência humana para a realidade de um mundo em ebulição.

Para a Igreja, como depositária da mensagem, e para o personagem elevado à cátedra suprema do magistério encarregado de transmitir a mensagem, voltam-se naturalmente as expectativas e esperanças de uma humanidade confusa, sufocada pela estridência de estranhas propostas econômicas, políticas, sociais em voga, ávida por orientação que a ajude encontrar os caminhos seguros da paz, da concórdia e do bem-estar social. Por essa razão, a escolha do sucessor de Bento XVI galvaniza atenções. O que as multidões passam, então, a aguardar é a escolha de um Papa que seja capaz de empreender um diálogo sereno, respeitoso, amadurecido com todas as vertentes do pensamento religioso moderno, estabelecendo as bases duradouras de uma convivência universal saudavelmente ecumênica. É a escolha de um Pontífice que se proponha a reavaliar posicionamentos da Igreja acerca de temas candentes, como a sexualidade na vida moderna, a distribuição justa das riquezas sociais, a necessidade de mudanças na ordem econômica, as transformações comportamentais da sociedade e tantos outros desafios relevantes, alguns deles no próprio âmago da instituição, como o celibato sacerdotal, a ordenação de mulheres, por aí. O que a sociedade humana espera é a designação de um sucessor de Pedro que se mire no esplendoroso exemplo de João XXIII. Um Papa que soube promover, a seu tempo, a mais arrojada experiência de abertura empreendida até então nos domínios da Igreja, reabastecendo de esperança a eterna mensagem, na tentativa de torná-la mais atraente para ser ouvida mais longe.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quarta, 20 Fevereiro 2013 15:19

Combater drogas e alcoolismo

Escrito por

* Por Paiva Netto

Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo. Evidenciar essa data, celebrada em 20 de fevereiro, é valioso para a saúde em geral, em particular a de nossos jovens. É desde cedo que se aprende como é ingrato o destino que as drogas e o álcool apresentam às criaturas. As lamentáveis consequências saltam aos olhos de todos.

 Basta ver quantas vítimas no trânsito, a infelicidade no seio das famílias, os altíssimos custos que acarretam ao sistema de saúde. Apenas para citar o álcool, segundo o Ministério da Saúde, estima-se um número de dependentes entre 10% e 15% da população mundial.

As iniciativas que têm por finalidade tratar humanamente dos que caíram nessas armadilhas do vício ou cuidar da prevenção contra esses males merecem todo o apoio e incentivo. Combater o que faz mal às pessoas é também legítima caridade.

BONIFÁCIO, KENNEDY, SHAW E O MUNDO INVISÍVEL

John Fitzgerald Kennedy (1917-1963), em seu discurso diante do Parlamento, no dia 28 de junho de 1963, em Dublin, Irlanda, afirmou que “George Bernard Shaw, falando como um irlandês, sugeriu uma nova perspectiva à vida. ‘Algumas pessoas’, ele disse, ‘veem as coisas e perguntam: Por quê? Mas eu sonho com coisas que nunca existiram — e questiono: Por que não?’”.

E, como um descendente de imigrantes irlandeses, prossegue JFK: “É esta a qualidade do povo irlandês: a notável combinação de esperança, convicção e imaginação — que, mais do que nunca, é preciso ter. Os problemas do mundo não podem ser resolvidos por céticos ou cínicos, cujos horizontes se limitam às realidades evidentes. Precisamos de homens capazes de imaginar o que nunca existiu e de questionar ‘por que não?’”.

Ora, essas também são qualidades do nosso bom povo brasileiro, iluminado de esperança, por pior que seja a conjuntura. Numa hora de satisfação, exclamou o notável José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência: “Os brasileiros são entusiastas do belo ideal, amigos da sua liberdade”. Ditas todas essas coisas, fica claro aos que “têm olhos de ver e ouvidos de ouvir” que o aprendizado neste mundo ainda é incompleto.

O entendimento hodierno da Vida Espiritual é semelhante ao da Lei da Gravitação Universal, de Newton (1643-1727), com as presentes contribuições de Einstein (1879-1955). Apenas como argumento, poderíamos dizer que não adiantaria simplesmente negá-la, porquanto nosso saber científico contemporâneo não alcançou por inteiro todas as leis que a regem.

Realmente, é necessário reiterar o ensinamento: a reforma do social começa no Espiritual. Ponto de vista que viemos discutindo e desenvolveremos no transcurso das explicações do Evangelho-Apocalipse de Jesus, em Espírito e Verdade pelo prisma do Seu Mandamento Novo, “amai-vos como Eu vos amei”.

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

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Quarta, 13 Fevereiro 2013 17:28

Preconceito é que nem tiririca

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Época difícil, essa nossa, em que é mais  difícil quebrar um preconceito do que um átomo.”

(Albert Einstein)

 

Vamos lá. O que poderá haver em comum entre Taro Aso, Ministro de Finanças do Japão e também vice-primeiro ministro do gabinete governamental do país, o coronel Ubiratan de Carvalho Góes Beneducci, da Polícia Militar de São Paulo, e o delegado Pedro Paulo Pontes Pinho, da Polícia Civil do Rio de Janeiro?

O noticiário dos últimos dias dá conta de que todos eles, tão distanciados no que fazem um do outro, foram pilhados em flagrante delito na prática de execráveis preconceitos, desafortunadamente para o gênero humano, enraizados que nem grama tiririca na convivência social.

O japonês, figurinha manjada pelos seus patrícios em decorrência do destempero verbal num sem número de embaraçosas situações, aprontou contra sua própria e respeitável categoria: a gente idosa. Do alto de seus setenta e lá vai pedrada de vida, esmerando-se na função de defensor intrépido da “lógica de mercado” nas intervenções sociais, considerou razoável a hipótese de se apressar a passagem de pessoas mais velhas, atacadas de enfermidades sem cura, de modo a desonerar os cofres públicos e o sistema de saúde de gastos com cuidados médicos especiais. Noutras palavras, é preciso “chegar-se a uma solução final”, como se dizia nos tempos do nazismo, nessa história de idosos enfermos, que se apegam “enervantemente” ao sopro de vida que lhes resta. Afinal de contas, manter ativo esse esquema assistencial custa um dinheirão e, por conseguinte, traz consideráveis prejuízos ou deixa de trazer justos lucros monetários a quem, tão benevolentemente, banca no interesse público os chamados planos de saúde. Ufa!

Diante da onda de indignação erguida pela boçal manifestação, feita num lugar do mundo em que o envelhecimento é assunto sensível (um quarto da população de 128 milhões é composta de pessoas com idade acima de 60 anos), o Ministro andou ensaiando o que se poderia chamar de recuo. Recolocou a cara de pau diante das câmeras, esboçando pedido esfarrapado de desculpa. Mas o recado desalmado já havia sido certeiramente transmitido ao vivo e a cores, deixando rastro inapagável de desassossego na alma das ruas.

Enquanto isso, aqui deste outro lado do equador, brotavam outras aprontações preconceituosas, a primeira delas com iniludível conotação racista. O acima citado Paulo Ubiratam de Carvalho Góes Beneducci, capitão de polícia, noutro gesto de singular estupidez, expediu uma ordem de serviço aos comandados para ações de policiamento ostensivo numa região de classe média alta de Campinas. Da “ordem de serviço” baixada consta recomendação para que a abordagem em prol da tranquilidade pública, a ser feita com máximo rigor, contemple pessoas “em atitude suspeita, especialmente indivíduos de cor parda e negra.” Ordem dada, ordem exemplarmente cumprida. As diligências militares passaram a ser direcionadas a grupos de jovens entre 18 e 25 anos na periferia, em que fosse anotada a presença “ameaçadora” de cidadãos de epiderme escura... A PM de São Paulo apressou-se em negar o teor racista do documento. Informou, sem convencer, ter havido desatenção na redação do texto, concluindo a “explicação” com dado que adiciona ao episódio toque surreal, tragicômico mesmo: “O próprio capitão Beneducci é pardo e quis apenas expor as características físicas dos suspeitos.” Órgãos de direitos humanos reagiram com veemência, solicitando entre outros esclarecimentos do governo dados estatísticos contendo o perfil étnico das pessoas abordadas em diligências, sobretudo naquelas que registram casos de “resistência seguida de morte”, tão frequentes na crônica policial naquele Estado.

Já a participação do delegado da Polícia Civil carioca, Pedro Paulo Pontes Pinho, nessa sequência desastrada de manifestações desrespeitosas à dignidade humana, consistiu na postagem feita, em redes sociais, de críticas acerbas, de cunho machista, à participação de mulheres nas atividades policiais. Por causa das declarações, ele foi exonerado do cargo. Chamado à responsabilidade, valeu-se novamente da rede social para desculpar-se e dizer-se mal compreendido e injustiçado.

Esses posicionamentos, despojados de bom senso e de respeito humano, são amostras da permanência no relacionamento comunitário de uma espécie de erva daninha. Algo danado de difícil de ser erradicado. São posturas preconceituosas, nos casos citados envolvendo raça, sexo e idade, que costumam medrar insidiosamente no relacionamento social. São que nem grama tiririca. Aquela graminha incômoda que, no versejar roceiro, de um autor talentoso, cujo nome neste momento se me escapa, “a gente pode arrancá, virá de raiz pro ar, mas quá!, um fiapo escondido no torrão faiz a peste vicejá...”

* O jornalista Cesar Vanucci (cantonius1@yahoo.com.br) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

 

Por Ricardo Abramovay*

Criar, reproduzir e distribuir informação, cultura, arte e ciência são hoje atividades que os dispositivos da sociedade da informação em rede colocam nas mãos das pessoas.   Um smartphone tem a potência computacional de todo o Programa Apollo de 1969 e nada menos que 20 milhões de brasileiros possuem um aparelho desses, que funciona em rede.   Isso não quer dizer, é claro, que qualquer conjunto de garagem pode tornar-se Rolling Stones ou que basta postar seus escritos num blog para converter-se em Paulo Coelho.  

Mas, contrariamente ao que ocorreu de forma predominante desde o século 19, submeter seu talento aos que controlam os meios de produção da cultura, da informação e da ciência não é a condição para que a criação possa ver a luz do dia.

Hoje as pessoas se informam em redes sociais, e a importância do You Tube no lançamento de novos artistas é crescente. No campo da ciência, as mais prestigiosas revistas brasileiras e internacionais abrem amplo acesso ao que fazem os pesquisadores, como mostra, por exemplo, o Scielo.  

As transformações que as mídias digitais trouxeram para o mundo da cultura, da informação e da ciência atingem agora a própria produção material. Ou, como diz o recém-lançado e indispensável livro de Chris Anderson -”Makers, The New Industrial Revolution”/New York, Crown Business), a revolução digital chegou à oficina.

Isso abre caminho para que se altere o próprio sentido do empreendedorismo no mundo contemporâneo. É verdade que a concepção dos produtos industriais já é feita há quase duas décadas por meio de técnicas computadorizadas e isso vai da agricultura de precisão ao controle de materiais na construção civil. Mas, até aqui, trata-se de um mundo fechado, em que criar e colocar os produtos no mercado depende de investimentos tão poderosos que só podem ser viabilizados por produção massificada.

A novidade anunciada por Chris Anderson vai além das inovações tecnológicas que o computador trouxe à era industrial e isso se exprime em três mudanças decisivas: a criação de bens materiais torna-se acessível a indivíduos; as mais promissoras inovações vêm de redes sociais; e o poder sobre o que é oferecido aos consumidores está cada vez menos nas mãos dos que detêm os grandes meios de produção e troca.

A revolução das redes extrapola o mundo virtual e entra na produção material.   Micro e pequenas empresas sempre foram, no mundo todo, fonte importante de geração de emprego e renda. A última pesquisa do Sebrae sobre o tema mostra que 27 milhões de adultos no Brasil vivem de pequenos e micro negócios.  

Mas, na maior parte das vezes, esses negócios confinam-se a setores de baixa produtividade, intensivos em trabalho e pouco expostos à concorrência internacional.  

Lavanderias, pequeno comércio, pizzarias e empresas de motoboy são talvez suas expressões mais emblemáticas. Essa associação entre empreendimentos de pequena escala e atraso tecnológico começa agora a ser superada.  

A primeira característica daquilo que Chris Anderson não hesita em chamar de nova revolução industrial é a possibilidade individual de conceber e fabricar com eficiência bens que até recentemente só podiam sair de grandes unidades fabris.  

Trinta anos atrás, ninguém podia imaginar a impressão de um livro fora de uma gráfica profissional. Hoje, as impressoras a laser e o manuseio das fontes, dos layouts de páginas e das técnicas de revisão, que eram detidas por profissionais especializados, estão banalizadas.

Isso começa a ocorrer no mundo da produção material com dispositivos como as impressoras em três dimensões e as máquinas de corte a laser. Os preços desses aparelhos já se tornam acessíveis à aquisição individual e o que eles podem fazer de maneira competitiva vai-se diversificando.  

A revolução trazida por este barateamento está no fato de se borrarem as fronteiras entre o inventor e o empreendedor. Conceber algo não exige necessariamente submeter sua ideia a um empresário fabricante para que o invento possa se concretizar. O que ocorre no mundo da cultura, no universo dos bits, chega ao mundo da matéria, ao universo dos átomos.

Tão importante quanto essa desconcentração dos meios de produção a que as mídias digitais virtualmente dão lugar é a unidade entre o computador e a internet, ou seja, o fato de que a criação e as inovações funcionam em rede.  

Até 30 anos atrás, a principal preocupação do inventor era patentear sua criação, o que lhe trazia custos imensos e benefícios duvidosos. Hoje, a primeira iniciativa do criador não é patentear e sim publicar, difundir. É daí (e não dos controles administrativos) que virá não só o reconhecimento do seu talento, mas a interação com base na qual ele poderá aprofundar sua aprendizagem e mesmo seus ganhos econômicos.  

Inovação em rede está na raiz de novas iniciativas de formação da mão-de-obra e seria fundamental que organizações como o Senais, o Sebrae o Ministério do Trabalho estudassem os FabLab (laboratórios de fabricação ou laboratórios fabulosos), que, muito mais do que formar trabalhadores para a indústria, ensinam os jovens a utilizar técnicas digitais e a operar em rede para participar deste extraordinário movimento social por muitos chamados de internet das coisas.   A cidade de Shangai, por exemplo, está implantando uma centena desses laboratórios e já existem mais de mil deles pelo mundo afora, inspirados pelo mais importante centro universitário de inovação no mundo, o norte-americano MIT.  

Isso não significa, é claro, que a produção de massa vai simplesmente desaparecer. Mas da mesma forma que a internet aboliu a passividade do expectador e do ouvinte e fez da interação e da mistura (do Remix) a base da cultura contemporânea, essa nova revolução industrial pode fazer da colaboração social em rede o principal fundamento da criação de riqueza das sociedades atuais.   * Ricardo Abramovay é professor titular da FEA e do IRI-USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, e autor deMuito Além da Economia Verde, lançado na Rio+20 pela Editora Planeta Sustentável.

 ** Publicado originalmente no site Prêmio Empreendedor Social/Folha de S.Paulo.

Sábado, 02 Fevereiro 2013 04:19

Por quem os sinos dobram

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Incêndio na Kiss. Socorro.”

(Mensagem postada no Facebook por Michele Froehlich Cardoso, uma das vítimas fatais da tragédia em Santa Maria)

Os sinos de Santa Maria dobram não apenas pelas inocentes vítimas, seus desolados familiares, mas por todos nós. Ao entrar para o rol das descomunais tragédias que poderiam ter sido evitadas, palco de incêndio que contabilizou o maior número de mortes nos últimos 50 anos no Brasil, causando comoção nacional e internacional, a cidade conhecida como “coração do rio Grande” colocou-nos a todos nós em estado de choque, parceiros na dor infinita da comunidade. De certa maneira, fez-nos sentir um tanto quanto cúmplices do estado de coisas que permitiu o desencadeamento do apavorante incidente. Sim, os sinos dobram também por nós, enquanto membros da coletividade, por revelarmo-nos omissos, desatentos, indiferentes a regras elementares de prevenção e segurança ambientais.

Quando se toma conhecimento de que as vítimas morreram asfixiadas, carbonizadas, pisoteadas, numa casa noturna sem autorização legal para operar, funcionando em espaço inadequado para grandes aglomerações, não dispondo de funcionários treinados para atender emergências, despojados, todos eles, de qualquer orientação preventiva acerca dos riscos do emprego de apetrechos suscetíveis de provocarem combustão espontânea em ambientes fechados; quando se está ciente também de que o cenário desse dantesco drama revelava-se desprovido de saídas de emergência, de placas de sinalização, de portas ou janelas que pudessem favorecer a evacuação rápida do público aos primeiros sinais de alerta; todos nós, pais de família, educadores, autoridades, damo-nos conta, aturdidos, de que isso pôde ocorrer e pode voltar a ocorrer mais adiante por força de conivência deplorável, da parte de muitos inconsciente, mas nem por esse motivo destituída de suma gravidade. Essa convivência, complacência, tolerância descabida, ou que outro nome tenha, têm permitido o funcionamento, à mingua de fiscalização rígida, por este país-continente afora, de centenas (talvez milhares) de estabelecimentos frequentados por nossos jovens que exibem instalações com pontos em comum com as dependências da boate”Kiss”.

O indiciamento no inquérito policial dos proprietários da boate, do músico que acionou o sinalizador, seus companheiros de banda, provavelmente dos seguranças que, ao invés de ajudarem, teriam criado obstáculos à saída da multidão espavorida, não fecha, a rigor, a cadeia das responsabilidades diretas ou indiretas que vêm à tona a uma avaliação mais aprofundada dos fatos. Se a casa noturna não dispunha de um mínimo de requisitos para desenvolver suas atividades, por que permanecia, então, de portas abertas acolhendo constantemente festejos com grande participação popular? Quem ou qual órgão avalizou irresponsavelmente e por tempo dilargado essa infringência constante de regras essenciais?

A dor imensa que se abateu sobre a Nação, a onda de solidariedade que se ergueu à volta do incidente em terras gaúchas convocam-nos a reflexões nesta hora. Deriva daí, de pronto, o reconhecimento da necessidade de adoção de providências urgentes para se evitar que tragédias assim se repitam. Somos sabedores de que, em outras partes do mundo, em consequência de negligências, omissões, falhas na fiscalização, ganância, e outros fatores, tal como se vê por aqui, episódios semelhantes, ou até de proporção mais avantajada, ocorreram recentemente. Nos Estados Unidos (dois), na Rússia, na China, na Argentina, para mencionar alguns deles. Mas isso não traz consolo algum, quando choramos os mortos de Santa Maria. Serve unicamente para robustecer a certeza de que a imprevidência e a irresponsabilidade não são defeitos detectados apenas entre nós no trato da coisa pública.

O que toca agora promover, como fruto da reflexão, é ação. Muita e fecunda ação. Ação em ampla escala em prol de uma legislação com regras nacionais, calcadas em estudos da ABNT, para o tema da segurança contra incêndios. Ação que implante sistemas de prevenção e fiscalização mais rígidos, de maneira a impedirem possa uma festa de congraçamento fraterno mudar de feição, de repente, não mais do que de repente, transformando-se numa balada de horrores.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Sexta, 14 Dezembro 2012 20:41

Certidão de nascimento

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“É a nossa certidão de nascimento.” (Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina)

A decisão veio com respeitável atraso. Mas não deixou de constituir, verdade seja dita, um razoável avanço em direção ao rumo que, mais dia menos dia, terá que ser tomado na solução de um problemaço que vem se arrastando penosamente por décadas inteiras. Por conseguinte, houve justificativa para celebrações quando a Assembléia Geral das Nações Unidas, com alguns votos contrários – o dos Estados Unidos recebido como o mais desconcertante deles, tendo em vista as grandes responsabilidades derivadas da liderança exercida no cenário mundial – concordou, finalmente, em conceder uma “certidão de nascimento” à Palestina.

A condição de “Estado Observador” abre aos palestinos acesso a importantes agências da ONU e ao Tribunal Penal Internacional. Implica no reconhecimento de que a Palestina não vai poder continuar sendo tratada como um grupamento de pessoas de uma mesma nacionalidade, aglutinadas num mesmo espaço territorial, irremediavelmente condenado, para todo sempre, à marginalização política e jurídica no contexto internacional. Há que passar a ser vista, isso sim, como uma pátria na acepção completa do termo, uma terra regida por leis consagradas no Direito Internacional, detentora de plenos direitos e obrigações. Tanto quanto centenas de outras pátrias localizadas em todos os cantos deste planeta azul. A começar, aliás, pelo vizinho mais próximo, o Israel, um Estado que abriga nação pujante que amargou, no passado, as consequências funestas das demenciais práticas racistas do nazismo, sob os olhares complacentes e, exatamente por isso, cúmplices de um sem número de países com presença realçante no palco mundial.

Há precisamente 65 anos, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou a criação, no Oriente Médio, dos Estados de Israel e da Palestina. O primeiro dos dois Estados foi devidamente estruturado. Tornou-se, em curto espaço de tempo, pelo labor de sua gente, uma potência próspera, ostentando agora índices de desenvolvimento bem acima dos outros países da região. Já no que tange à implantação em completude do Estado da Palestina, a Resolução da ONU gorou. Não saiu, até aqui, deploravelmente, do papel.

A (falta de) razão para que isso esteja acontecendo se deve a fatores os mais variados e despropositados. Destaque especial cabe na avaliação dos fatos à condição ininterrupta de beligerância reinante no pedaço. Com toda certeza, o mais conturbado pedaço de chão destes dias atuais. Essa beligerância é insuflada, o tempo todo, por radicais e xenófobos de diferentes tendências, pertencentes a trincheiras adversárias, alinhados com forças políticas e econômicas retrogradas, envolvidos, todos eles, todos, em um jogo confuso de egoísticas e espúrias conveniências. Com tanto tempo já transcorrido, o que já deveria estar sendo objeto de celebração seria o ingresso da Palestina como Estado Membro da ONU, senhora de direitos e deveres como qualquer outro país. Não o seu ingresso no órgão como mero Estado Observador. Afinal de contas, o X da tormentosa questão, que coloca o mundo em permanente sobressalto diante das coisas que costumam rolar naquele trecho sagrado do Atlas - fonte matricial de três importantes correntes religiosas monoteístas - consiste nessa demora infindável de se botar na prática aquilo que já foi decretado de longa data: a constituição do Estado da Palestina. E se isso até agora não se corporificou é porque muita gente poderosa, valendo-se de toda sorte de sofismas, lançados na mídia como valores fundamentais, dos quais não se pode abrir mão, não quer simplesmente que a Palestina exista como Estado.

Os grupos radicais que tanto influenciam as deliberações do governo de Telavive têm uma cota de responsabilidade de considerável peso nesse gigantesco esforço da turma do contra. Essa turma do contra é, por sua vez, minoritária, como tantas vezes já comprovado em reuniões da ONU, mas na verdade detém as cartas principais no embaralhado jogo das definições.

A postura do gabinete presidido por Benjamin Netanyahu, visto como aliado incômodo pela própria Casa Branca, não deixa margem alguma para dúvidas quanto à disposição dominante na esfera oficial israelita de deixar as coisas permanecerem como estão, indefinidamente. Mesmo que o cenário onde as coisas rolam seja considerado um barril de pólvora. Desrespeitar resoluções da ONU é com ele mesmo. Por conta disso, uma réplica do “muro de Berlim” foi plantada no explosivo território. Os assentamentos de colônias residenciais prosseguem. O país opõe-se terminantemente a abrir informações sobre seu programa nuclear à Agência Internacional que cuida do assunto. E por aí vai.

Sentindo-se, de certa forma, blindado pelo apoio recebido dos Estados Unidos, Israel nega-se a dialogar, repele a decisão da ONU, aprovada em votação maciça, em conceder à Autoridade Palestina participação na instituição como membro observador. Parece pouco se importar, por exemplo, com as manifestações de países com os quais mantém cordiais relações que se viram obrigados a se reposicionar, diante das decisões impertinentes que assume, ao convocarem os embaixadores israelenses para ouvir declarações formais de protesto contra os assentamentos indevidos das áreas ocupadas na Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

* O jornalista Cesar Vanucci (cantonius1@yahoo.com.br) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Sexta, 14 Dezembro 2012 20:26

O comunismo ético de Oscar Niemeyer

Escrito por

Por Leonardo Boff

Não tive muitos encontros com Oscar Niemeyer. Mas os que tive foram longos e densos. Que falaria um arquiteto com um teólogo senão sobre Deus, sobre religião, sobre a injustiça dos pobres e sobre o sentido da vida?   Nas nossas conversas, sentia alguém com uma profunda saudade de Deus. Invejava-me que, me tendo por inteligente (na opinião dele) ainda assim acreditava em Deus, coisa que ele não conseguia. Mas eu o tranquilizava ao dizer: o importante não é crer ou não crer em Deus. Mas viver com ética, amor, solidariedade e compaixão pelos que mais sofrem. Pois, na tarde da vida, o que conta mesmo são tais coisas. E nesse ponto ele estava muito bem colocado. Seu olhar se perdia ao longe, com leve brilho.

Impressionou-se sobremaneira, certa feita, quando lhe disse a frase de um teólogo medieval: “Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe”. E ele retrucou: “mas que significa isso?” Eu respondi: “Deus não é um objeto que pode ser encontrado por ai; se assim fosse, ele seria uma parte do mundo e não Deus”. Mas então, perguntou ele: “que raio é esse Deus?” E eu, quase sussurrando, disse-lhe: “É uma espécie de Energia poderosa e amorosa que cria as condições para que as coisas possam existir; é mais ou menos como o olho: ele vê tudo mas não pode ver a si mesmo; ou como o pensamento: a força pela qual o pensamento pensa, não pode ser pensada”. E ele ficou pensativo.

Mas continuou: “a teologia cristã diz isso?” Eu respondi: “diz mas tem vergonha de dizê-lo, porque então deveria antes calar que falar; e vive falando, especialmente os Papas”. Mas consolei-o com uma frase atribuída a Jorge Luis Borges, o grande argentino:”A teologia é uma ciência curiosa: nela tudo é verdadeiro, porque tudo é inventado”. Achou muita graça. Mais graça achou com uma bela trouvaille de um gari do Rio, o famoso “Gari Sorriso: “Deus é o vento e a lua; é a dinâmica do crescer; é aplaudir quem sobe e aparar quem desce”. Desconfio que Oscar não teria dificuldade de aceitar esse Deus tão humano e tão próximo a nós.

Mas sorriu com suavidade. E eu aproveitei para dizer: “Não é a mesma coisa com sua arquitetura? Nela tudo é bonito e simples, não porque é racional mas porque tudo é inventado e fruto da imaginação”. Nisso ele concordou adiantando que na arquitetura se inspira mais lendo poesia, romance e ficção do que se entregando a elucubrações intelectuais.

E eu ponderei: “na religião é mais ou menos a mesma coisa: a grandeza da religião é a fantasia, a capacidade utópica de projetar reinos de justiça e céus de felicidade. E grande pensadores modernos da religião como Bloch, Goldman, Durkheim, Rubem Alves e outros não dizem outra coisa: o nosso equívoco foi colocar a religião na razão quando o seu nicho natural se encontra no imaginário e no princípio esperança. Ai ela mostra a sua verdade. E nos pode inspirar um sentido de vida.”

Para mim a grandeza de Oscar Niemeyer não reside apenas na sua genialidade, reconhecida e louvada no mundo inteiro. Mas na sua concepção da vida e da profundidade de seu comunismo. Para ele “a vida é um sopro”, leve e passageiro. Mas um sopro vivido com plena inteireza. Antes de mais nada, a vida para ele não era puro desfrute, mas criatividade e trabalho. Trabalhou até o fim, como Picazzo, produzindo mais de 600 obras. Mas como era inteiro, cultivava as artes, a literatura e as ciências. Ultimamente se pôs a estudar cosmologia e física quântica. Enchia-se de admiração e de espanto diante da grandeur do universo.

 Mas mais que tudo cultivou a amizade, a solidariedade e a benquerença para com todos. “O importante não é a arquitetura” repetia muitas vezes, “o importante é a vida”. Mas não qualquer vida; a vida vivida na busca da transformação necessária que supere as injustiças contra os pobres, que melhore esse mundo perverso, vida que se traduza em solidariedade e amizade. No JB de 21/04/2007 confessou: ”O fundamental é reconhecer que a vida é injusta e só de mãos dadas, como irmãos e irmãs, podemos vive-la melhor”.  

Seu comunismo está muito próximo daquele dos primeiros cristãos, referido nos Atos dos Apóstolos nos capítulos 2 e 4. Ai se diz que “os cristãos colocavam tudo em comum e que não havia pobres entre eles”. Portanto, não era um comunismo ideológico, mas ético e humanitário: compartilhar, viver com sobriedade, como sempre viveu, despojar-se do dinheiro e ajudar a quem precisasse. Tudo deveria ser comum. Perguntado por um jornalista se aceitaria a pílula da eterna juventude, respondeu coerentemente: “aceitaria se fosse para todo mundo; não quero a imortalidade só para mim”.  

Um fato ficou-me inesquecível. Ocorreu nos inícios dos anos 80 do século passado. Estando Oscar em Petrópolis, me convidou para almoçar com ele. Eu havia chegado naquele dia de Cuba, onde, com Frei Betto, durante anos dialogávamos com os vários escalões do governo (sempre vigiados pelo SNI), a pedido de Fidel Castro, para ver se os tirávamos da concepção dogmática e rígida do marxismo soviético. Eram tempos tranquilos em Cuba que, com o apoio da União Soviética, podia levar avante seus esplêndidos projetos de saúde, de educação e de cultura. Contei que, por todos os lados que tinha ido em Cuba, nunca encontrei favelas mas uma pobreza digna e operosa. Contei mil coisas de Cuba que, segundo frei Betto, na época era “uma Bahia que deu certo”. Seus olhos brilhavam. Quase não comia. Enchia-se de entusiasmo ao ver que, em algum lugar do mundo, seu sonho de comunismo poderia, pelo menos em parte, ganhar corpo e ser bom para as maiorias.   Qual não foi o meu espanto quando, dois dias após, apareceu na Folha de São Paulo, um artigo dele com um belo desenho de três montanhas, com uma cruz em cima. Em certa altura dizia: “Descendo a serra de Petrópolis ao Rio, eu que sou ateu, rezava para o Deus de Frei Boff para que aquela situação do povo cubano pudesse um dia se realizar no Brasil”. Essa era a generosidade cálida, suave e radicalmente humana de Oscar Niemeyer.

Guardo uma memória perene dele. Adquiri de Darcy Ribeiro, de quem Oscar era amigo-irmão, uma pequeno apartamento no bairro do Alto da Boa-Vista, no Vale Encantando. De lá se avista toda a Barra da Tijuca até o fim do Recreio dos Bandeirantes. Oscar reformou aquele apartamento para o seu amigo, de tal forma que de qualquer lugar que estivesse, Darcy (que era pequeno de estatura), pudesse ver sempre o mar. Fez um estrado de uns 50 centímetros de altura E como não podia deixar de ser, com uma bela curva de canto, qual onda do mar ou corpo da mulher amada. Aí me recolho quando quero escrever e meditar um pouco, pois um teólogo deve cuidar também de salvar a sua alma.

Por duas vezes se ofereceu para fazer uma maquete de igrejinha para o sítio onde moro em Araras em Petrópolis. Relutei, pois considerava injusto valorizar minha propriedade com uma peça de um gênio como Oscar. Finalmente, Deus não está nem no céu nem na terra, está lá onde as portas da casa estão abertas.

A vida não está destinada a desaparecer na morte, mas a se transfigurar alquimicamente através da morte. Oscar Niemeyer apenas passou para o outro lado da vida, para o lado invisível. Mas o invisível faz parte do visível. Por isso ele não está ausente, mas está presente, apenas invisível. Mas sempre com a mesma doçura, suavidade, amizade, solidariedade e amorosidade que permanentemente o caracterizou. E de lá onde estiver, estará fantasiando, projetando e criando mundos belos, curvos e cheios de leveza.

* Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ.

Terça, 27 Novembro 2012 13:55

Decisão recebida com alívio

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“O mundo inteiro está alegre.”

 (Delfim Neto)

Para um punhado de pessoas com razoável grau de percepção das vivências políticas o resultado de uma eleição presidencial nos Estados Unidos não altera substancialmente coisa nenhuma. Tudo tende, no frigir dos ovos, a permanecer como dantes no quartel de Abrantes. Distinguir uma eventual mudança na Casa Branca não é mole. O sabor da alteração equivaleria, comparativamente, ao de se deixar de tomar pepsi pra beber coca-cola.

Muitos sustentam, também, arrolando exemplos frisantes, que Barack Obama deixou uma esteira de frustrações neste primeiro mandato. O desempenho do simpático mandatário mostrou-se aquém das expectativas erguidas àquela hora singular de sua chegada impetuosa, salpicada de esperanças, ao palco internacional.

Tudo isto posto, bem avaliadas as circunstâncias da conjuntura mundial, considerados os senões, alguns desacertos, os descompassos entre promessas e realizações, entre discurso e prática na postura do Presidente, não há como, entretanto, deixar de reconhecer que a escolha eleitoral dos norte-americanos foi ajuizada. Recebida com sensação de alivio em todos os cantos deste planeta azul. O triunfo democrata foi conquistado contra adversário de postura retrograda. Alguém que não hesitou em desfraldar, com ânimo de cruzado belicoso, a bandeira radical de um conservadorismo arrepiante. As teses por ele levantadas, debaixo das ovações de fiéis seguidores, revelaram-se fruto de crenças fundamentalistas desvairadas. Alvejam em cheio anseios generosos da sociedade humana, ávida por paz, desenvolvimento e prosperidade social. Visceralmente comprometido com ortodoxia econômica desalmada, insensível à problemática social, o republicano Mitt Romney deixou inequivocamente gravada no espírito das ruas a disposição de retomar, à frente dos destinos da maior potência do mundo, a mesma desastrada política intervencionista de seu correligionário, o xerife George Bush. Uma política que arrastou o país a uma crise econômica perturbadora e aos atoleiros do Iraque e do Afeganistão. Não manteve oculto, igualmente, em momento algum, o empenho em atropelar as boas políticas sociais em implantação ou expansão promovidas por Obama no âmbito interno. Disse, com clareza de atitudes e de palavras, a que vinha: incrementar o radicalismo em todas as áreas da convivência humana, adotando as regras e conceitos medievais freneticamente apregoados pelo “Tea Party”, grupo hoje dominante nas fileiras republicanas. Um tipo de gente que está para a cultura religiosa e política do conservadorismo norte-americano assim como o talebanismo está para a cultura política e religiosa do islamismo.

A histórica reeleição de Obama comporta observações que não podem passar despercebidas. Os mais de 60 milhões e 500 mil votos por ele recebidos procederam de redutos isoladamente minoritários. Grupos étnicos (hispânicos, negros, asiáticos), grupos jovens, grupos femininos, grupos comprometidos com movimentos contestatórios aos padrões de puritanismo vigentes na vida americana. As minorias compuseram um conjunto de forças majoritário, que se contrapôs, na hora da escolha, àquelas parcelas da sociedade avessas a propostas reformistas, de certa forma preconceituosas, quando não declaradamente racistas, que mesmo não representando, com toda certeza, a integralidade dos votantes de Mitt Romney, constituem parte respeitável de seu contingente de apoio.

Como salientou Delfim Neto, com a eleição de Obama o mundo está alegre. “A exceção – acentua – são os 48% brancos saxônicos e protestantes (os Wasp) que não conseguiram retornar ao século XIX.”

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Quarta, 21 Novembro 2012 18:29

Qualificação do profissional brasileiro

Escrito por

Por Frei Betto*

Tomara que o Congresso aprove a aplicação de 10% do PIB na educação. É pouco, mas bem melhor que os atuais 4,5%. Ainda não se descobriu outra via para desenvolver uma nação, aumentar o seu IDH e reduzir exclusão, miséria e violência, fora do investimento significativo em educação de qualidade.

O contingente de pessoas que trabalham em nosso país chega a 92,5 milhões, praticamente metade da população. Desses, 45,5% não têm carteira assinada ou trabalham por conta própria. E somente 771.409 têm mestrado ou doutorado. Os dados são do IBGE (PNAD 2011).

Apenas 12,5% dos que trabalham têm curso superior completo. Quase metade da mão de obra ocupada concluiu o ensino médio: 46,8%. O que significa que 53,2% de nossos trabalhadores não têm sequer nível médio.

Nossas universidades abrigam, hoje, 6,6 milhões de estudantes (de um contingente de 27,3 milhões de jovens entre 18 e 25 anos!). Dos quais 73,2% em faculdades particulares. E há apenas 1,2 milhão de estudantes em cursos técnicos.

Na Alemanha, quarta economia do mundo, a maioria dos alunos do ensino médio (60%) se encontra em cursos técnicos. A educação é profissionalizante, facilitada pela parceria entre escolas e empresas, onde os aprendizes fazem estágios. Isso se reflete na economia do país. Em agosto, o desemprego entre jovens alemães com menos de 25 anos atingia o índice de 8,1%. Nos demais países da zona do euro, 22,8%.

A renda familiar está associada ao nível de ensino. No Brasil, quem possui diploma universitário chega a ganhar 167% mais do quem concluiu apenas o ensino médio. Quem possui mestrado ou doutorado ganha, em média, 426% mais, comparado a quem tem apenas ensino médio.

Não têm qualquer escolaridade ou frequentaram menos de 1 ano a escola 19,2 milhões de brasileiros. Em 2011, nossa média de escolaridade era de 7,3 anos. Para os que estão empregados, 8,4 anos de estudos.

Nos EUA, em 1960, haviam cursado o ensino médio 60% dos trabalhadores. Hoje, o índice chega a 90%. Porém, há um dado alentador: o grupo brasileiro com 11 anos de escolaridade cresceu em 22 milhões de pessoas de 2001 a 2011.

Não sabem ler nem escrever 12,9 milhões de brasileiros com mais de 7 anos de idade. E 20,4% da população acima de 15 anos são de analfabetos funcionais – assinam o nome, mas são incapazes de redigir uma carta ou interpretar um texto. Na população entre 15 e 64 anos, em cada 3 brasileiros apenas 1 consegue interpretar um texto e fazer operações aritméticas elementares.

Em 2011, 22,6% das crianças de 4 a 5 anos estavam fora da escola. E, abaixo dessas idades, 1,3 milhão não encontravam vagas em creches.

É animador constatar que 98,2% dos brasileiros entre 6 e 14 anos estudam. Mas um dado é alarmante: dos 27,3 milhões de jovens brasileiros entre 18 e 25 anos, 5,3 se encontram fora da escola e sem trabalho.

Dos jovens entre 15 e 17 anos, 40% não frequentam a escola (FGV 2009). Na parcela mais pobre, com renda per capita até R$ 77,75/mês, quase a metade se encontra fora da escola e do trabalho. De que vive essa gente? Por que fora da escola?

É nesse contingente dos “nem nem” (nem estudo, nem trabalho) que são maiores os índices de criminalidade. Muitos abandonam a escola por desinteresse, devido à falta de pedagogia; por falta de recursos financeiros; por ingressarem no narcotráfico ou se tornarem dependentes químicos; e também por gravidez precoce. O número de moças (3,5 milhões) do grupo “nem nem” é quase o dobro do número de rapazes (1,8 milhão). E 50% dessas moças já são mães.

Morei cinco anos na favela de Santa Maria, em Vitória. Constatei que as adolescentes deixam de ser molestadas a partir do momento em que engravidam. Moça solteira sem filho fica vulnerável ao assédio permanente, às vezes violento. Muitas engravidam por falta de educação sexual e orientação no uso de contraceptivos.  

Na economia globalizada é imprescindível falar inglês. Apenas 0,5% da população brasileira domina o idioma de Shakespeare. A maioria, sem fluência.

O Brasil enfrenta hoje –em plenas obras do PAC, da Copa e das Olimpíadas– o déficit de 150 mil engenheiros. Apenas 10% dos universitários cursam carreiras vinculadas às engenharias. Temos somente 6 engenheiros para cada 1.000 pessoas economicamente ativas. Nos EUA e no Japão a proporção é de 25/1.000.

Falta no Brasil interação entre academia e empresa, teoria e prática. Nossos universitários não têm suficiente conhecimento técnico. Em nosso país, o professor é valorizado pelo número de pesquisas e publicações, e não pela experiência de trabalho. O mestre se apresenta como detentor do conhecimento e não como facilitador do aprendizado.

O preconceito a Paulo Freire fortalece o anacronismo de nossas universidades. E nossas empresas, que aspiram por mão de obra qualificada, ainda não despertaram para o seu papel de indutoras da educação.  

* Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – autobiografia escolar” (Ática), entre outros livros. http://www.freibetto.org/- twitter:@freibetto.

Terça, 09 Outubro 2012 20:38

As Olimpíadas e a Escola

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

“O entrelaçamento da Escola com o Esporte é responsável,  em vários países, pelo sucesso nas disputas olímpicas.”

(Antônio Galhardo, educador)

 

A crônica olímpica revela que a participação dos países escolhidos para sede dos jogos é costumeiramente expressiva nas competições, não importa o quanto se distanciem das superpotências esportivas na pontuação geral.

Por superpotências sejam reconhecidos os Estados Unidos, a China e, também, a Rússia, mesmo que este país, após o desmoronamento do império bolchevista, tenha reduzido acentuadamente suas possibilidades de ameaçar a hegemonia esportiva estadunidense.

Essa circunstância recomenda cuidemos de colocar desde já nossas “barbas de molho”, à vista dos até aqui frustrantes desempenhos dos representantes das cores brasileiras nas quatrienais disputas. Se pretendemos, de fato, assegurar resultados que não venham a nos causar aborrecimentos futuros, a preparação dos atletas nas diversas modalidades esportivas terá que se traduzir em eficiência, esmero e cuidados especiais. Tanto quanto na estruturação logística do magno evento. Como o apito da contagem regressiva para as Olimpíadas do Rio já soou, é tempo mais do que chegado para se deflagrar o exaustivo trabalho de identificação dos quadros potencialmente aptos a concorrerem às provas.

Isso terá que vir acompanhado, evidentemente, de programação de treinos intensivos, mode que as equipes convocadas aprendam, à altura das expectativas, a subir mais vezes, muitas vezes mais que no passado, ao pódio das premiações.

Noutros lugares do mundo, onde triunfos olímpicos são festejados amiúde, a escola tem representado sempre grande manancial na formação de atletas. Entre nós, desoladoramente, isso não sucede. O complexo educacional conserva-se, inexplicavelmente, desatento à possibilidade de estabelecer conexão digna de nota com o esporte. Procede como se o esporte não constituísse instrumento poderoso no encaminhamento da juventude para o jogo da vida.

Doutra parte, os encarregados do monitoramento oficial das ações educacionais, a cúpula responsável pelas diretrizes gerais do ensino em todas as faixas, não parecem nada propensos a introduzir práticas esportivas como item relevante na grade curricular. Não é difícil imaginar o esperdício cumulativo de oportunidades, anos e anos a fio, provocado por essa ausência de percepção do verdadeiro papel do esporte no processo pedagógico.

Saiba, no entanto, o distinto leitor que, em tempos idos, muitos lugares do território brasileiro costumavam abrigar núcleos atuantes, providos de visão vanguardeira das coisas da vida, que sabiam cuidar de estabelecer preciosas vinculações entre grupos de estudantes vocacionados e centros especializados em treinamento esportivo. Os frutos desse salutar intercâmbio foram, tanto quanto sei, copiosos. Trago aqui, na condição de testemunha ocular, um depoimento.

Retorno o olhar para a Uberaba dos idos de 50. No Liceu do Triângulo Mineiro, embrião do poderoso complexo educacional criado pelo magistral escritor Mário Palmério, e no Colégio Diocesano, dirigido pelos Maristas, cerca de dez (talvez um bocadinho mais) colegas de sala de aula e contemporâneos no ensino médio ostentavam com justa ufania títulos de campeões brasileiros de natação infanto-juvenil. Só em minha classe, no Triângulo, faziam parte desse invejável grupo os nadadores campeões Edelweiss Simões, detentora além do mais de um titulo sul-americano, Helice Jurity Ferreira, Maria da Fé Gigliotti, os irmãos Vicente e Cícero Lima. Zuzinha Camargo e Lênio Lima, alunos do Diocesano, são outros craques que acodem à lembrança velha de guerra. Repito, todos, todos eles verdadeiros ases da natação. E por que isso acontecia? Qual a razão da concentração de índice tão expressivo de atletas consagrados num mesmo segmento, numa mesma cidade interiorana?

Um grupo arrojado e idealista, à frente os saudosos José Tiradentes Lima, Diocleciano Pereira de Souza e Orcival Barra, entendeu de apostar todas as fichas do cacife no talento dos jovens. Criou, na então Cultura Física, mais tarde Associação Esportiva e Cultural, numa piscina de 25 metros de extensão, um centro de treinamento que permitiu despontassem todas essas esplendidas revelações atléticas. A valorosa moçada abiscoitou títulos estaduais e nacionais à pamparra. O trabalho, mais adiante, com a saída de cena de seus idealizadores, foi deploravelmente interrompido.

Imaginem só se essa ação de vanguarda houvesse se espichado no tempo! Com certeza, algum daqueles muitos atletas laureados em competições nacionais acabaria por emergir triunfante de alguma piscina olímpica.

Esse registro, buscado nas ladeiras da memória, reforça uma crença de muita gente: a de que o potencial da escola carece ser descoberto, ainda que tardiamente, na composição de nossos futuros quadros olímpicos.

Tamos conversados.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalente.

Sexta, 05 Outubro 2012 13:10

Depressão infantil

Escrito por

Por Paiva Netto

Recente levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstra que, em todo o planeta, 20% das crianças e dos adolescentes apresentam sintomas de depressão, como irritabilidade ou apatia e desânimo. Os dados referentes ao Brasil sugerem que esse tipo de distúrbio se faz presente entre 8% e 12% da população infantojuvenil. É um número preocupante. Saber lidar com essa problemática, que jamais esteve restrita a adultos e idosos, é providência urgente para pais e educadores.

O programa “Educação em Debate”, da Boa Vontade TV (canal 23 da SKY), que discute os principais assuntos da educação pela ótica da Espiritualidade Ecumênica, entrevistou o dr. Gustavo Lima, psiquiatra da Infância e da Adolescência, que nos aponta algumas causas da depressão nas fases iniciais da vida e como notá-las: “Primeira coisa — uma investigação clínica pormenorizada. Segunda coisa — é muito importante lembrar que os transtornos afetivos na infância e na adolescência são de causa multifatorial, ou seja, diversos fatores podem causar a depressão: genéticos, ambientais, entre outros. Entretanto, na nossa prática clínica, o que aumenta muito a chance de uma criança ficar deprimida são os ambientes familiar e escolar desfavoráveis”.

DIFERENÇA COMPORTAMENTAL

O que dificulta, de certa maneira, pais e educadores perceberem que o filho ou o educando está deprimido é o comportamento dessa patologia entre as faixas etárias: “Diferentemente dos adultos, as crianças não ficam deprimidas o tempo inteiro. Às vezes, os pais deixam de levar o filho para uma avaliação porque em algum momento do dia ele se divertiu. E isso não significa que não esteja deprimido”, esclareceu o especialista. E alertou ainda: “É preciso, também, muito cuidado com os sintomas de ideação de morte, quando vêm à mente ideias suicidas. Quando você está diante de uma criança deprimida com esses sintomas, é muito importante uma avaliação médica e um tratamento com psicólogo. Em alguns casos, dependendo da gravidade, recorrer a tratamento farmacológico”.

PREVENÇÃO Para o dr. Gustavo Lima — que é membro do Programa de Atendimento a Transtornos Afetivos do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP — existem algumas atitudes que podem ajudar a prevenir a depressão nas crianças: “Além de um acompanhamento pediátrico, cuidar das horas de sono e da alimentação, um ambiente familiar estruturado é fundamental. Outra coisa importante é uma escola que favoreça o desenvolvimento da criança, que consiga identificar as reais potencialidades dela. Então, saúde, bem-estar, ambientes familiar e escolar favoráveis, prestar atenção também em questões genéticas contribuem, e muito, para se prevenir a depressão infantil”. Atentemos, pois, às elucidativas recomendações do dr. Gustavo Lima. E não descuidemos de proporcionar aos pequenos e aos jovens um espaço sadio, enriquecido por uma Espiritualidade Ecumênica orientada pelos melhores princípios éticos. Desde cedo, devemos ter consciência de que a prece, a meditação, a confiança em Deus ou nas forças da Natureza são eficientes recursos ao equilíbrio bio-psíquico-espiritual.

RUY E ALEXANDRE ALTENFELDER

Foi lançado o livro “Diálogo Nacional: Repensando o Brasil”, que tem como autores o dr. Ruy Martins Altenfelder Silva, presidente voluntário do Conselho de Administração do Centro de Integração Empresa-Escola  (CIEE) e do Conselho Diretor do CIEE Nacional, e o seu filho Alexandre Artacho Altenfelder Silva, produtor-executivo do programa de TV “Diálogo Nacional”. O prefácio é de Paulo Nassar, professor-doutor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Na obra, os escritores compartilham com o público leitor importantes informações e reflexões úteis à sociedade brasileira. Fiquei honrado com a dedicatória que me encaminharam em um exemplar do trabalho: “Ao estimado José de Paiva Netto. Homenagem do Ruy e do Alexandre”.

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escrito (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.  - www.boavontade.com)

Quarta, 03 Outubro 2012 12:53

Que globalização é essa?

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

 

 "As combinações oportunisticas da economia costumam levar, às vezes, a grandes desastres do ponto de vista humano"

(Antônio Luiz da Costa)

 

Que ordem econômica mundial mais frouxa é essa que entra em alucinado parafuso a um mero estalar de dedos de um especulador qualquer, envolvido em trapaça bursátil, refestelado em iate de luxo das "cote d'azur" da vida?

Que mané globalização é essa a espalhar desassossego e temor no espírito simples da gente do povo por causa de um parecer de um tecnocrata que ninguém conhece, de uma instituição que ninguém nunca antes ouviu falar, com nome lembrando marca de absorvente feminino, onde são atribuídas notas escolares aos países, como se nações inteiras pudessem ser tratadas que nem alunos de jardim de infância na cata das primeiras noções do aprendizado básico?

Que políticas econômicas desvairadas são essas, tão decantadas pela mídia, que permitem aos "donos" dos negócios do mundo, colocados acima do bem e do mal, deitar e rolar por cima da vida, do patrimônio, da saúde, do emprego dos outros, em latitudes geográficas economicamente desprotegidas? E a submeterem multidões à mercê das reações volúveis das bolsas de valores, instituições tão distanciadas da rotina amarga e da capacidade de percepção das camadas humildes quanto a Constelação Zeta Reticuli?

Que situação mais aloprada é essa em que se convoca, descerimoniosamente, para pagar a conta das empreitadas mal sucedidas no jogo internacional, pessoas que nunca aplicaram em ações e que de bolsas só conhecem, pela televisão, aquela caricatural coreografia de um bando frenético, parecendo dançarinos engravatados de "rock pauleira", celulares ou mini-receptores colados aos ouvidos, berrando a plenos pulmões frases ininteligíveis e produzindo gestos ainda menos compreensíveis? Abra-se uma pausa, nesta cruciante sequência de interrogações, para relembrar, com o espírito acariciado pelo arrebatante humor da cena, o genial comediante Peter Sellers. Num filme antológico em que vive um personagem puro e ingênuo, fissurado por televisão, vemo-lo, todo sorrisos, no recinto da bolsa, a retribuir com gestos os acenos insistentes dos desatinados apostadores à volta. Obtem-se ali o retrato da perplexidade que se apodera do homem comum diante de certos rituais cabalísticos mundanos que a comédia humana insiste em criar para diferenciar quem, supostamente, sabe das coisas, dos que nada sabem.

Mas que globalização, Santo Deus, é essa que não consegue, depois de tanta malvadeza introduzida no cotidiano de tanta gente, em tantos lugares, trazer uma promessa, um mero aceno sequer de benefício aos menos favorecidos? E que, pelo contrário, parece achar-se empenhada, o tempo todo, em só fazer crescer as desigualdades? E que celebra como feito heróico, retumbante, a "habilidade gerencial" de administradores faltos de sensibilidade social que desconhecem outros processos para reduzir custos e melhorar resultados senão o desemprego constante, o corte em despesas sociais e a rotatividade da mão-de-obra na base de custos progressivamente menores?

Que baita inversão de valores é essa que permite sejam assim ressuscitados, por conta da embromação e fajutice de minorias ousadas, conceitos da pré-história econômica, recauchutados para vigir em vastas porções territoriais onde se revele baixo o poder das exigências sociais e onde são apresentados como o supra-sumo do pensamento de vanguarda, como expressão pronta e definitiva, das políticas sociais avançadas supostamente praticadas nos países do primeiro mundo?

Esta confusão econômica passa a ideia de que o mundo tem de oscilar entre a turbulência e a depressão. Nesse mundo só existiria atenção para as previsões desconcertantes e suspeitosas de ilustres desconhecidos. Em geral PHDs. De preferência, estrangeiros. Se algum deles, numa overdose de autossuficiência, num instante de mau humor, nascido, quem sabe dizer?, de uma intempériezinha doméstica, resolver largar falação e atribuir pontuação sobre os níveis de risco das economias emergentes, o melhor a fazer é sair de baixo. Cascar fora. Tudo corre o risco de desmoronar.

O pessoal com poder de decisões se mobiliza para enfrentar a crise a bombordo. E alguma reforma periférica, atingindo a população, acontece. Mas, se num cenário mais sério, consentâneo com as aspirações humanas, uma outra figura, PHD em espiritualidade e saber humanístico qualquer, um Gandhi, um Helder Câmara, um João Paulo II, um Luther King, à mesma hora do douto e ignoto economista, resolve lançar às lideranças, aos que traçam os rumos políticos, uma exortação para que ponham em andamento reformas vitais de cunho social, a repercussão será bem diferente. Haverá, seguramente, manifestações ruidosas de aplausos, louvores à clarividência desses luminares do pensamento humanístico. Tudo nesse diapasão. Mas não se conhecerá, fatalmente, a curto e médio prazo, qualquer iniciativa que dê consistência prática às generosas idéias. O exemplo surrealista tem a ver com a realidade.

Conclusão inapelável: essa ordem econômica mundial que aí está e que funciona de jeito tão irracional, injusto e perverso, tem mais é que ser refeita. A convivência humana reclama, ardentemente, por práticas fraternas, solidárias, por ações sérias e respeitosas de complementaridade econômica e social entre os países. São estes os valores em condições de fazer deste um mundo melhor.

Afinal de contas, que globalização é essa que não contempla o crescimento econômico e a ascensão social de todos os países igualitariamente?

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

 

Sexta, 28 Setembro 2012 19:41

O destempero radical árabe

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“O fanatismo religioso é mais perigoso que o ateísmo e mil vezes mais prejudicial.”

(Voltaire)

 

A Secretária de Estado Hilary Clinton está com a razão. Um filmeco asqueroso, tanto na forma quanto no conteúdo, produzido com nefandos propósitos, não poderia, por si só, desencadear esse tsunami de protestos que estremece, outra vez, o costumeiramente turbulento mundo árabe. A busca das explicações para esse avassalador destempero radical tem que ir além, muito além da mera projeção das imagens e diálogos distorcidos, retratando a figura de Maomé, sagrada para o Islã, postos a circular nas redes sociais.

O caso guarda conotações com outros incidentes recentes, como, por exemplo, o produzido por aquele pastor norte-americano, fundamentalista amalucado, que algum tempo atrás, diante das câmeras de televisão, botou fogo em exemplares do Alcorão. Outros seguidores de teorias incendiárias anti islâmicas surgem também do nada, volta e meia, tornando públicas provocações que encontram sempre uma mídia receptiva para propagá-las. São episódios que deixam à mostra inocultável intuito de açular desatinos de extremistas religiosos. Mas, tanto quanto o filme, considerado de extrema vulgaridade, não conseguem, jeito maneira, falar verdade, macular a trajetória de um líder reconhecidamente influente da história humana. Uma avaliação serena, bem objetiva, que se faça do filme e das outras despropositadas ocorrências, em círculos providos de bom senso, dentro e fora do islamismo, poderá suscitar naturalmente reações de repúdio. Mas não a ponto de estimular, com absoluta certeza, algo que lembre de leve a onda de desvario que tomou conta das ruas e praças árabes com todas as consequências funestas que aí estão.

Isso conduz a inevitável reflexão. Se o meio sensato de analisar o assunto é esse, como explicar a erupção da violência fora de controle? A pergunta comporta um conjunto de respostas surpreendentes e enigmáticas. Tanto quanto surpreendentes, incoerentes e charadisticos costumam se revelar os rumos políticos árabes desde sempre. Fica evidenciado, primeiramente, que o filme, por mais grotesco que seja, está sendo manipulado ao gosto pela ferocidade radical de diferentes tendências no afã de fortalecer manobras junto a religiosos fanáticos na conquista de espaços políticos. Multidões com reduzida capacidade de discernimento das coisas são orquestradas a bel prazer por tais lideranças. Absorvem com fervor mórbido suas exacerbadas conclamações. Abra-se parêntese para relembrar que a história humana é, desoladoramente, permeada de manifestações desse gênero. Envolvendo tudo quanto é corrente religiosa. O fundamentalismo é enfermidade universal. Parece até incurável.

Recorde-se, ainda, a propósito, que as lideranças radicais sob o foco das atenções são múltiplas. Obedecem a orientações diversificadas. São divididas, geralmente, por encolerizadas discordâncias. Um verdadeiro saco de gatos, pode-se afirmar. O que confere ao problema graus de dramaticidade e complexidade ainda maiores.

Outro ingrediente de peso no processo é de cunho político. A confusão imperante nos territórios conflagrados (na verdade, permanentemente conflagrados), pode-se dizer sem intenção de trocadilho, é das arábias. Para tanto contribuem poderosamente os maquiavélicos esquemas geo-político-econômicos que ditam o comportamento das potências com disposições hegemônicas, os Estados Unidos em realce. São tamanhas as trapalhadas no campo diplomático, com os apoios ora dados a ditadores cruéis, ora aos adversários desses ditadores (que acabam se tornando, também, via de regra, déspotas cruéis), que as ações políticas em questão correm sempre o risco de ser recebidas com descrédito popular. Os ocidentais falam em democracia, mas garantem, como acontece na Arábia Saudita e no Bahrein, a permanência no poder de alguns dos mais fechados e tirânicos regimes políticos do planeta.

Para os extremistas políticos e religiosos desses ermos não fica difícil, à vista das contradições comportamentais das grandes potências, insuflarem massas fanáticas à pratica de atos insanos. A percepção que se passa a ter, em tais redutos, é de que elas não se importam com o derramamento de sangue nem com a dignidade dos árabes. O sentimento antiamericano é também fortemente propagado em decorrência da inexistência de uma política firme e vigorosa no sentido da implantação, há décadas esperada, do Estado da Palestina. Por que, até hoje, isso não foi resolvido? A pergunta deixa um clamor de indignação no ar.

Um derradeiro comentário. Não deixam de ser intrigantes essas provocações tacanhas, sem eira nem beira que, a intervalos, são feitas, via redes sociais e demais recursos midiáticos, por indivíduos desconhecidos, à cata ou não de celebridade instantânea. Ponho-me a matutar com os botões do pijama que, talvez, essas ações não sejam produzidas apenas por irresponsáveis desocupados. Talvez façam parte de complô urdido, sabe-se lá porque mentes doentias, com o objetivo mesmo de manter os ânimos acirrados, de ampliar divergências, de criar dificuldades. Uma forma solerte de impedir, naquele pedaço do mundo, possa frutificar, algum dia, uma convivência harmoniosa, amena e respeitável, na melhor configuração ecumênica, entre homens e mulheres de diferentes nacionalidades, etnias e crenças.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Segunda, 17 Setembro 2012 14:16

A casquinha de sorvete

Escrito por

Por Frei Betto*

Você conhece a casquinha abiscoitada de sorvete: a bola é colocada acima e, enquanto derrete, um pouco do sorvete se espalha pela parte inferior. Ao comer a casca, a ponta inferior do cone costuma estar seca, sem sorvete.

Assim é a distribuição da riqueza no mundo, segundo a ONU: 20% da população mundial, o equivalente a 1,320 bilhão de pessoas, concentram em suas mãos 82% da riqueza mundial. Fartam-se com a bola de sorvete. Na ponta estreita do cone, os mais pobres – 1 bilhão de pessoas – sobrevivem com apenas 1,4% da riqueza mundial.   Mede-se o indicador de riqueza de uma economia pelo PIB – o Produto Interno Bruto. Quanto maior o PIB, maior o crescimento de um país. Tanto que o governo Lula lançou o PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. Deveria ter lançado o PADS – Programa de Aceleração do Desenvolvimento Sustentável.

Um país cresce quando sua economia total ganha mais cifrões. O que não significa que se desenvolveu, ou seja, imprimiu mais qualidade de vida e felicidade à sua população. Crescimento tem a ver com produção agropecuária, industrial, e expansão da rede de serviços. Desenvolvimento significa escolaridade, saúde, saneamento, moradia, cultura e preservação do meio ambiente.

O economista Ladislau Dowbor, da PUC-SP, tem um bom exemplo para mostrar a diferença: a Pastoral da Criança favorece, com a sua rede de 450 mil voluntários, milhares de crianças até 6 anos de idade. Assim, contribui com a redução de 50% dos índices de mortalidade infantil e 80% das hospitalizações. Se menos crianças adoecem, menos medicamentos são comprados, menos serviços hospitalares são utilizados, e as famílias vivem mais felizes.   Ótimo, não? Não para o governo e os economistas com mania de PIB.

“O resultado, do ponto de vista das contas econômicas, é completamente diferente: ao cair o consumo de medicamentos, o uso de ambulâncias, de hospitais e de horas trabalhadas por médicos, reduz-se também o PIB”, afirma Dowbor. Ao obter saúde com um gasto de apenas R$ 1,70 por criança/mês, a Pastoral da Criança faz cair o PIB. Porém, sobe a felicidade geral da nação.

Comemorar o crescimento do PIB não significa o país estar na direção certa. Vide a China, cujo PIB é o que mais cresce no mundo. Nem por isso a qualidade de vida de sua população nos causa inveja. Se o desmatamento da Amazônia – careca, hoje, em 17% de sua área total – aumenta, mais se introduzem ali o agronegócio e imensos rebanhos. O que fará crescer o PIB. E reduzir o equilíbrio ambiental e a nossa qualidade de vida.

O problema número 1 do mundo não é econômico, é ético. Perdemos a visão de bem comum, de povo, de nação, de civilização. O capitalismo infundiu-nos a perversa noção de que acúmulo de riqueza é direito e consumo de supérfluo, necessidade.   Compare estes dados: segundo a ONU, para propiciar educação básica a todas as crianças do mundo seria preciso investir, hoje, US$ 6 bilhões. Apenas nos EUA são gastos por ano, em cosméticos, US$ 8 bilhões. Água e saneamento básico seriam garantidos a toda a população mundial com um investimento de US$ 9 bilhões.

O consumo/ano de sorvetes na Europa representa o desembolso de US$ 11 bilhões. Haveria saúde básica e boa nutrição às crianças dos países em desenvolvimento se fossem investidos US$ 13 bilhões. Ora, US$ 17 bilhões é o que se gasta por ano, na Europa e nos EUA, em alimentos para cães e gatos; US$ 50 bilhões em cigarros na Europa; US$ 105 bilhões em bebidas alcoólicas na Europa; US$ 400 bilhões em narcóticos no mundo; e US$ 780 bilhões em armas e equipamentos bélicos no mundo.

O mundo e a crise que o afeta têm sim solução. Desde que os países sejam governados por políticos centrados em outros paradigmas que fujam do cassino global da acumulação privada e da irrefreável espiral do lucro. Paradigmas altruístas, centrados na distribuição de renda, na preservação ambiental e na partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.   Preste muita atenção nos candidatos que, este ano, merecerão o seu voto a vereador e a prefeito. Investigue o passado deles para saber com quem, de fato, estão comprometidos.

Ah, você não gosta de política? Não seja ingênuo: quem não gosta de política é governado por quem gosta. E tudo que os políticos corruptos querem é que sua omissão assegure a perpetuação deles no poder.  

* Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org- Twitter:@freibetto.

Segunda, 17 Setembro 2012 13:51

No domínio das energias sutis

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Morrer é só não ser visto”. (Fernando Pessoa)

 

Acabei a leitura, de uma sentada só, de livro muito interessante em que são relatadas as incríveis experiências do paranormal estadunidense James van Praagh. Este cidadão tem o dom de estabelecer, com pessoas da platéia, em programas de televisão, de grande aceitação popular, insólitos diálogos. Os atendimentos individuais em seu consultório são também marcados pela singularidade. Ele costuma liberar informações desconcertantes, atribuídas a entes queridos ligados às mesmas e não mais pertencentes ao mundo dos vivos. As revelações, na maior parte das vezes, provocam forte impacto. A idéia de um contato desse gênero, que possa envolver forças ou energias do além, marca de modo bastante vigoroso os telespectadores.

Isso me leva a recordar que, alguns anos atrás, o “Fantástico”, da Globo, levou ao ar, com a participação de pessoas interessadas - ao que se afirmou - em desmascarar falsos paranormais, uma série de reportagens concernentes a essa polêmica modalidade de comunicação. Um ator especialmente treinado em técnicas de persuasão de público, valendo-se de jogo de palavras ardiloso e de deduções que incorporam elementos da psicologia, demonstrou como se faz possível engabelar indivíduos de boa fé, com falsas propostas de cunho místico. A performance do ator, sem dúvida convincente, oferece condições para explicar uma que outra – não todas –manifestação estranha produzida por Praagh junto ao público. Mas, de qualquer maneira,não especificamente no caso do paranormal dos Estados Unidos, cujo trabalho é encarado, ao que se sabe, com seriedade por parapsicólogos renomados, tem o sentido de um alerta em relação a eventuais espertalhões, “especializados” nessa área dos fenômenos inexplicáveis em arrancar algum, ludibriando incautos.

Mas nada do que James van Praagh consegue fazer na televisão, ou muito menos – está claro – do que os responsáveis pelo propalado desmascaramento de falsos sensitivos conseguem realizar com seus criativos e astuciosos estratagemas, aproxima-se tenuamente, como explicação, ou elemento de analogia, do “espetáculo” – chamemo-lo assim – que presenciei, há uns vinte anos, no Teatro Vanucci, Shopping da Gávea, Rio de Janeiro. Uma paranormal de nome Célia promoveu no recinto – sabe-se lá como – algo fantástico, extraordinário, inimaginável, nessa linha de contatos com o outro mundo. Casa superlotada, umas setecentas pessoas, dos mais diferentes bairros da antiga capital da República, de cidades das redondezas e de outros Estados, presenciaram tudo.

Depois de uma exposição interessante, rica em pormenores, acerca das variáveis infinitas de aplicação das chamadas energias sutis, de que é composto nosso enigmático e fascinante universo, a sensitiva dispôs-se a operar, inteiramente lúcida e com plena articulação das palavras e controle dos movimentos, andando de um lado para outro do palco, como “canal” numa comunicação, segundo garantiu, com criaturas que já haviam deixado este nosso “vale banhado de lágrimas”. E que, em vida, integraram o universo afetivo das pessoas presentes. Ninguém, no público, fez qualquer intervenção oral, qualquer pedido por escrito. Debaixo de silêncio absoluto, respeitoso, só dona Célia falou. Em dezenas de intervenções, chamou pessoas pelos nomes, indicando os números das poltronas em que se achavam sentadas. E, na seqüência, uma a uma, passou-lhes mensagens, “recebidas na hora”, dos parentes e amigos já “encantados”. As palavras foram obviamente recebidas com emoção, arrancando confirmações surpreendentes quanto aos dados apontados.

Num determinado instante teve-se a impressão de que a sensitiva havia cometido uma derrapagem. Ledo engano. Ela pediu a um cidadão, numa poltrona próxima à minha, que anotasse o recado de alguém cujo nome citou. O cidadão em referência assinalou não conhecer a pessoa mencionada. Célia admitiu: sim, ele estava com inteira razão. O “contatado” era, na verdade, filho de um amigo e vizinho seu, morador do apartamento de número tal, edifício tal, bairro tal. O espectador convocado a levar o recado emocionou-se às lágrimas. Os dados anunciados estavam rigorosamente corretos.

Essa sensitiva, tanto quanto sei, nunca foi levada a um estúdio de televisão para por à prova seus extraordinários dons, sua capacidade de utilizar, de forma tão arrebatadora, o poder inimaginável das chamadas energias sutis. Que muita gente, em reta intenção, enclausurada em dogmatismos religiosos rançosos, encontra dificuldades intransponíveis em aceitar.

* o jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ">O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Segunda, 17 Setembro 2012 13:51

No domínio das energias sutis

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Morrer é só não ser visto”. (Fernando Pessoa)

 

Acabei a leitura, de uma sentada só, de livro muito interessante em que são relatadas as incríveis experiências do paranormal estadunidense James van Praagh. Este cidadão tem o dom de estabelecer, com pessoas da platéia, em programas de televisão, de grande aceitação popular, insólitos diálogos. Os atendimentos individuais em seu consultório são também marcados pela singularidade. Ele costuma liberar informações desconcertantes, atribuídas a entes queridos ligados às mesmas e não mais pertencentes ao mundo dos vivos. As revelações, na maior parte das vezes, provocam forte impacto. A idéia de um contato desse gênero, que possa envolver forças ou energias do além, marca de modo bastante vigoroso os telespectadores.

Isso me leva a recordar que, alguns anos atrás, o “Fantástico”, da Globo, levou ao ar, com a participação de pessoas interessadas - ao que se afirmou - em desmascarar falsos paranormais, uma série de reportagens concernentes a essa polêmica modalidade de comunicação. Um ator especialmente treinado em técnicas de persuasão de público, valendo-se de jogo de palavras ardiloso e de deduções que incorporam elementos da psicologia, demonstrou como se faz possível engabelar indivíduos de boa fé, com falsas propostas de cunho místico. A performance do ator, sem dúvida convincente, oferece condições para explicar uma que outra – não todas –manifestação estranha produzida por Praagh junto ao público. Mas, de qualquer maneira,não especificamente no caso do paranormal dos Estados Unidos, cujo trabalho é encarado, ao que se sabe, com seriedade por parapsicólogos renomados, tem o sentido de um alerta em relação a eventuais espertalhões, “especializados” nessa área dos fenômenos inexplicáveis em arrancar algum, ludibriando incautos.

Mas nada do que James van Praagh consegue fazer na televisão, ou muito menos – está claro – do que os responsáveis pelo propalado desmascaramento de falsos sensitivos conseguem realizar com seus criativos e astuciosos estratagemas, aproxima-se tenuamente, como explicação, ou elemento de analogia, do “espetáculo” – chamemo-lo assim – que presenciei, há uns vinte anos, no Teatro Vanucci, Shopping da Gávea, Rio de Janeiro. Uma paranormal de nome Célia promoveu no recinto – sabe-se lá como – algo fantástico, extraordinário, inimaginável, nessa linha de contatos com o outro mundo. Casa superlotada, umas setecentas pessoas, dos mais diferentes bairros da antiga capital da República, de cidades das redondezas e de outros Estados, presenciaram tudo.

Depois de uma exposição interessante, rica em pormenores, acerca das variáveis infinitas de aplicação das chamadas energias sutis, de que é composto nosso enigmático e fascinante universo, a sensitiva dispôs-se a operar, inteiramente lúcida e com plena articulação das palavras e controle dos movimentos, andando de um lado para outro do palco, como “canal” numa comunicação, segundo garantiu, com criaturas que já haviam deixado este nosso “vale banhado de lágrimas”. E que, em vida, integraram o universo afetivo das pessoas presentes. Ninguém, no público, fez qualquer intervenção oral, qualquer pedido por escrito. Debaixo de silêncio absoluto, respeitoso, só dona Célia falou. Em dezenas de intervenções, chamou pessoas pelos nomes, indicando os números das poltronas em que se achavam sentadas. E, na seqüência, uma a uma, passou-lhes mensagens, “recebidas na hora”, dos parentes e amigos já “encantados”. As palavras foram obviamente recebidas com emoção, arrancando confirmações surpreendentes quanto aos dados apontados.

Num determinado instante teve-se a impressão de que a sensitiva havia cometido uma derrapagem. Ledo engano. Ela pediu a um cidadão, numa poltrona próxima à minha, que anotasse o recado de alguém cujo nome citou. O cidadão em referência assinalou não conhecer a pessoa mencionada. Célia admitiu: sim, ele estava com inteira razão. O “contatado” era, na verdade, filho de um amigo e vizinho seu, morador do apartamento de número tal, edifício tal, bairro tal. O espectador convocado a levar o recado emocionou-se às lágrimas. Os dados anunciados estavam rigorosamente corretos.

Essa sensitiva, tanto quanto sei, nunca foi levada a um estúdio de televisão para por à prova seus extraordinários dons, sua capacidade de utilizar, de forma tão arrebatadora, o poder inimaginável das chamadas energias sutis. Que muita gente, em reta intenção, enclausurada em dogmatismos religiosos rançosos, encontra dificuldades intransponíveis em aceitar.

* o jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ">O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quarta, 29 Agosto 2012 19:56

Uma brasileira no pódio científico

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Trabalhamos na fronteira máxima do conhecimento.” (Cientista Miriam Tendler)

 

Uma epidemiologista brasileira, Miriam Tendler, do Instituto Oswaldo Cruz, foi alçada recentemente ao pódio da pesquisa cientifica e o seu feito, considerado extraordinário, não mereceu, desconsoladoramente, o destaque a que faz jus na divulgação midiática. Coube-lhe o mérito de haver desenvolvido a primeira vacina do mundo contra a esquistossomose. Essa doença endêmica, causada por parasitas, causa devastações de monta em todo o planeta. Só no Brasil, o número de pessoas enfermas é calculado em dois milhões e quinhentos mil.

Miriam lembra que nosso País figurou sempre no centro das pesquisas ligadas à produção de vacinas. Só que “de maneira muito cruel”. Explica: “Nossa contribuição era de ter as doenças”.

O seu trabalho estendeu-se por três décadas. Em declarações à revista “IstoÉ”, a cientista assinalou que “trabalhamos na fronteira máxima do conhecimento e com altíssima tecnologia para criar a primeira vacina 100% nacional”.

Nessa história toda da extraordinária conquista da ciência brasileira há que se estranhar não tenha o fato recebido por parte da grande mídia a atenção devida. Com tanta “celebridade instantânea”, sem currículo digno de consideração frequentando rotineiramente as colunas e manchetes, bem que poderia ter havido uma tentativa qualquer no sentido de se arranjar espaço mais dilargado para o relato do histórico acontecimento, não é mesmo?

 O Deputado Miro Teixeira fez uma denuncia da maior gravidade, que não encontrou inexplicavelmente repercussão à altura no noticiário nosso de cada dia. Segundo ele, o sigilo fiscal de Dilma Rousseff foi quebrado no andamento da campanha eleitoral em que ela se tornou Presidenta da República. Num outro momento, posterior à campanha de 2010, de acordo com o mesmo parlamentar, interceptações clandestinas, de origem ainda não especificadas, promoveram também a quebra do sigilo telefônico de dezenas de políticos com assento no Congresso Nacional. As graves ocorrências foram levadas ao conhecimento do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, ao que o próprio Miro Teixeira informou. Nas rodas políticas nacionais muitas especulações são feitas a respeito de quem poderia estar atrás dessas repulsivas operações criminosas. A expectativa é de que o Ministério da Justiça, valendo-se dos eficientes recursos de investigação da Policia Federal, possa apontar os autores da trama e suas pérfidas motivações. Comenta-se abertamente que a gangue do notório Carlinhos Cachoeira teria participado dessas jogadas execráveis, interessada em coleta de informações que pudessem vir a ser comercializadas. É hipótese que não pode deixar de ser considerada, a levar-se em conta os antecedentes do perigoso e articulado grupo. De qualquer maneira, enquanto a história não é deslindada pelos órgãos competentes, a opinião pública lança no ar uma indagação de total pertinência: por qual razão os grandes veículos de comunicação não deram, até aqui, aos fatos narrados a atenção que, por razões óbvias, fazem merecer.

 Paulo Maluf tem negado, reiteradas vezes, pondo fervorosa convicção na fala, possuir contas bancárias no exterior. Nada obstante, nas Ilhas Jersey – um dos redutos mais procurados no exterior para a guarda, em contas secretas, de dinheiro obtido por malversadores de fundos públicos de todas as partes do mundo – uma corte judiciária vem analisando, no momento, um processo pela disputa da polpuda soma de 22 milhões de dólares no qual o ex-Governador e ex-Prefeito de São Paulo figura como parte. A outra parte no litígio é a Prefeitura de São Paulo, interessada em reaver a importância sob a alegação de que o dinheiro foi desviado de seus cofres à época em que Maluf comandava a administração do mais importante município brasileiro. Vai ficar difícil pacas para Paulo Salim Maluf continuar sustentando, depois de conhecida a decisão judicial, o papo furado a respeito de não ser possuidor de conta alguma em banco naquele “paraíso fiscal”.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

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