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Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

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Terça, 14 Agosto 2012 20:34

Tempestade de areia

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Está entrando areia na Primavera Árabe”.
(Antônio Luiz da Costa)


Os sonhos de democratização a médio prazo levados por multidões às praças e ruas vão sendo paulatinamente desfeitos pela vontade armada dos militares egípcios, com suas escancaradas intervenções no processo político. Alterando despoticamente as decisões das urnas, eles ordenaram ao Judiciário, extremamente dócil aos seus caprichos, que dissolvesse o Parlamento do país pouco depois de conhecidos os resultados eleitorais. Não se contrapuseram aparentemente, com hipócritas intenções de fazer média nas relações internacionais, à posse do Presidente eleito, Mohamed Mursi. Mas deram um sintomático “chega pra lá” no chefe do governo, em termos legais seu superior hierárquico, assim que ele anunciou a disposição de restabelecer as atividades do Congresso Nacional. Num comunicado curto e grosso, dizendo de sua firme disposição em não abrir mão das rédeas do poder, os generais desautorizaram o Presidente, negando-se a reconhecê-lo como chefe supremo das Forças Armadas e se atribuindo as prerrogativas de designarem entre seus integrantes os responsáveis, doravante, pelas tarefas legislativas. Fica evidente que a força militar egípcia, desde os tempos de Nasser poderoso suporte dos regimes totalitários que se sucedem no país, apesar das promessas de abertura democrática anunciadas por ocasião da já agonizante “Primavera árabe”, pretendem perpetuar-se nas privilegiadas posições que hoje ocupam. Nessas posições, eles se permitem, além de manter os controles decisórios políticos e administrativos, gerir empresarialmente (pasmo dos pasmos!) cerca de 30 por cento das atividades econômicas mais rendosas do país, comandando setores (como hotelaria e turismo) que nada têm a ver com sua missão institucional.

A tempestade de areia que ora tolda os horizontes políticos da Nação dos faraós parece passar desapercebida às grandes potencias e à grande mídia internacional. Enigmáticos que nem a Esfinge de Gizé, apegados ferrenhamente às suas egoísticas conveniências geo-político-econômicas, esses setores recusam-se a emitir qualquer palavra de condenação, de critica mais inflamada, de censura por vias diplomáticas às inocultáveis peripécias antidemocráticas praticadas pelos verdadeiros “donos do poder” no Cairo.

Enquanto isso, imersa numa guerra civil marcada pela rotina do terror, a Síria põe à prova a impotência da comunidade das nações para achar saídas na crise humanitária de tremendas proporções que se abate sobre uma região estratégica dominada por bestial despotismo e antagonismos tribais enraizados. O massacre sistemático de civis, conduzido pelas forças leais ao ditador Bashar al-Assad, já com quase dois anos de duração, comportando represálias virulentas dos opositores, tal qual aconteceu na Líbia, causa perplexidade e indignação, sem todavia gerar ações diplomáticas eficazes capazes de porem cobro à terrível situação.

Os esforços da ONU no sentido de uma trégua esbarram em intransigências, vetos e conveniências variadas, no momento intransponíveis.

O apavorante conflito encerra, na verdade, aspectos deveras singulares. Entre os oponentes do déspota que se agarra, a exemplo dos generais egípcios, ao desejo de se perpetuar no poder está a sinistra Al Qaeda. Esta circunstância leva não poucos observadores a sustentarem a tese de que a intenção secreta de alguns é deixar tudo como está pra ver como é que fica. A incandescente retórica de condenação aos atos da ditadura síria não passaria assim de uma espécie de camuflagem face aos rumos imprevisíveis que a apavorante contenda pode acabar assumindo. A geopolítica, sempre ela, comporta coisas assim, gente boa.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Terça, 14 Agosto 2012 13:15

Insaciável busca da felicidade

Escrito por

Por Frei Betto*

Um grupo de amigos conversava sobre o maior bem que um ser humano pode obter e todos buscam, até mesmo ao praticarem o mal: a felicidade. O que é uma pessoa feliz? O que faz alguém feliz?

Como não se tratava de um grupo de pessoas que considera que a felicidade reside em fama, poder e dinheiro (pois citamos conhecidos que, apesar de terem alcançado esses bens, transparecem profunda infelicidade), decidimos recorrer aos filósofos, sábios guias da razão.

Na Apologia, de Platão, Sócrates interpela um querido amigo: “Não te envergonhas de preocupares com as riquezas para ganhar o mais possível, e com a fama e as honrarias, em vez de te preocupares com a sabedoria, a verdade e a tua alma, de modo a te sentires cada vez mais feliz?”.

Se para Epicuro a felicidade consiste na ausência de dor e sofrimento, para Descartes seria o “perfeito contentamento de espírito e profunda satisfação interior (…), ter o espírito perfeitamente contente e satisfeito”.

Será que ausência de dor e sofrimento é suficiente para uma pessoa ficar feliz? Descartes vem em socorro a Epicuro ao acrescentar “a profunda satisfação interior”. Leibniz dirá que “é o prazer que a alma sente quando considera a posse de um bem presente ou futuro como garantida.” E Kant, a “satisfação de todas as nossas inclinações”, para, em seguida, enfatizar: “É o contentamento do estado em que nos encontramos, acompanhado da certeza de que é duradouro”.

Sartre dirá que a felicidade é como “uma conduta mágica que tende a realizar, por encantamento, a posse do objeto desejado como totalidade instantânea”.

- Como se observa – ponderou um dos amigos -, há quem considere a felicidade um estado de espírito, uma decorrência da subjetividade, e quem a atribua à posse de algo – poder, riqueza, saúde, bem-estar.

Concordamos que, na sociedade neoliberal em que vivemos, o ideal de felicidade está centrado no consumismo e no hedonismo. O que não significa que, de fato, ela resulte, como sugere a publicidade, da posse de bens materiais ou da soma de prazeres.

Lembramos uma lista de celebridades que, malgrado fortuna e sucesso, sofreram uma atribulada vida de infortúnios. Muitos tiveram morte precoce por excesso de medicamentos que tapassem os buracos da alma…

Um dos amigos observou que o Cristianismo, frente ao sofrimento humano, foi sábio ao deslocar a completa felicidade da Terra para o Céu, embora admitindo que aqui nesta vida se possa ter momentos de felicidade. Ao que outro objetou que o Céu cristão é apenas uma metáfora da plenitude amorosa. E que Deus é amor e não há nada melhor do que amar e sentir-se amado.

Da felicidade o papo avançou para o amor. O que é amor? Decidimos deixar de lado os filósofos e conferir a partir de nossas experiências. Um dos amigos disse se sentir feliz por ter um matrimônio estável e dois filhos que só lhe davam alegrias. Outro, na via contrária, lamentou não ter encontrado a felicidade em nenhum dos três casamentos que tivera.

Foi então que o mais velho entre nós, e não menos sábio, ponderou que uma das grandes inquietudes do mundo de hoje é que os extraordinários avanços tecnocientíficos promovem uma acentuada atomização dos indivíduos, obrigando-os a perderem seus vínculos de solidariedades (afetivas, religiosas etc.).

Esses vínculos são substituídos por outros, burocráticos, administrativos e, sobretudo, anônimos (redes sociais), distantes das antigas relações afetivas entre duas pessoas unidas uma à outra sob o signo da igualdade e da fraternidade, com os mesmos direitos e deveres, independentemente das desigualdades exteriores.

- O que faz uma pessoa feliz –disse ele- não é a posse de um bem ou uma vida confortável. É, sobretudo, o projeto de vida que ela assume. Todo projeto –conjugal, profissional, artístico, científico, político, religioso– supõe uma trajetória cheia de dificuldades e desafios. Mas é apaixonante. E é a paixão ou, se quiserem, o amor, que adensa a nossa subjetividade. E todo projeto supõe vínculos comunitários. Se o sonho é pessoal, o projeto é coletivo.

Demos razão a ele. Viver por um projeto, uma causa, uma missão, um ideal ou mesmo uma utopia, é o que imprime sentido à vida. E uma vida plena de sentido é, ainda que afetada por dores e sofrimentos, o que nos imprime felicidade.

* Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org – Twitter: @freibetto.

Quinta, 09 Agosto 2012 15:25

Os adversários de Obama

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

Um radical é um homem com os dois pés firmemente plantados no ar.”
(Franklin Delano Roosevelt)

 

O Presidente Barack Obama não correspondeu, num olhar global, neste seu primeiro mandato, por vacilações e recuos deploráveis, às expectativas e esperanças que sua ascensão à Casa Branca, nas singulares circunstâncias conhecidas, ergueu mundo afora. Mas, mesmo assim, sua eleição para um segundo período governamental afigura-se mais palatável, numa percepção geral dos acontecimentos, do que a chegada ao poder de seu provável contendor. É só pôr tento no que os republicanos andam aprontando, em falas e gestos, pra se chegar, com facilidade e inocultável apreensão, a tal conclusão.
Os argumentos de que se valem os adversários do primeiro presidente negro estadunidense pra se contrapor aos avanços desejados ou já implementados pelo governo, na área da assistência à saúde, são de deixar atordoada qualquer pessoa com mediana sensibilidade social.
Eles não se pejam, jeito maneira, de rotular de “comunista” a prática de uma assistência médica com características universais, como acontece no Brasil com o SUS, favorecendo as camadas mais humildes da população. Classificam igualmente de indébitas e “socializantes” as tímidas intervenções oficiais em instituições financeiras acusadas de responsabilidade na deflagração da escandalosa bolha imobiliária que tantos impactos negativos produziu em tudo quanto é canto. As posturas dessas lideranças oposicionistas é nutrida por conceitos de vida extremamente retrógrados. As propostas que levantam, cortejando o voto das porções fundamentalistas do eleitorado, espalham no ar emanações bolorentas. As posições radicais que assumem conferem atualidade a uma magistral definição de Franklin Delano Roosevelt, que também arrostou incompreensões em face das políticas sociais implantadas em seu governo. “Um radical é um homem com os dois pés firmemente plantados no ar.”

 Por mais que renomados articulistas da mídia brasileira, sabe-se lá porque cargas d’água, recusem-se a caracterizar o afastamento do polêmico bispo Fernando Lugo da Presidência do Paraguai como um “golpe de estado”, o que aconteceu foi indisfarçavelmente uma conspiração das elites, valendo-se de filigranas jurídicas, pseudo constitucionais, em favor do retorno ao papel de protagonistas principais no palco político de grupos que, ao longo de décadas, empalmaram o poder. Tanto isso é verdade que, reconhecendo a anormalidade do ato praticado pelo Congresso guarani com suspeitoso açodamento, todos os paises da América do Sul, sem exceção, como fruto de consultas diplomáticas marcadas por celeridade pouco comum, não hesitaram em tornar pública quase que instantaneamente sua formal condenação ao que andou acontecendo no vizinho país.

 A União constituiu um grupo especial de procuradores com a missão de promover de modo sistemático a cobrança de dívidas, calculadas no montante de 28 bilhões, de que são legítimas credoras as autarquias e outras entidades públicas. Os devedores, empresas de diferentes setores, segundo o que foi entregue à divulgação, recorrem aos mais criativos instrumentos jurídicos imagináveis, com o apoio de bancas advocatícias renomadas, mode postergar pelo espaço de tempo mais dilargado possível os pagamentos devidos. A Advocacia Geral da República sustenta a necessidade de se montar uma estratégia de cobrança diferenciada, em caráter permanente, para acompanhar com chances de êxito os processos de execução dessas dívidas.
Essa decisão da União, pensando bem, deveria servir de inspiração ao Governo de Minas no sentido de vir a estruturar também um núcleo operacional em moldes parecidos. Um grupo de trabalho com as atribuições de conduzir negociações em torno da dívida ativa do Estado, hoje estimada em 30 bi, consoante informação recente do Sindifisco.


* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quarta, 08 Agosto 2012 20:27

A razão em fase de larva e de casulo

Escrito por

Por Leonardo Boff


Quem leu meus últimos textos sobre ecologia e a situação dramática da Terra, colheu talvez a impressão de pessimismo. Não pode ser pessimista quem se dá conta dos reais riscos que pesam sobre nosso destino. Devemos honrar sempre a realidade. Mas, ao mesmo tempo, cumpre alargar a compreensão da realidade. Esta é maior do que se mostra, pois o potencial é também parte do real. Há sempre uma reserva utópica, presente em todos os eventos. Se compreendermos a realidade assim enriquecida, não se justifica um pessimismo fechado, mas um realismo esperançador. Este capta a eventual irrupção do novo, escondido dentro do potencial e do utópico. Este novo faz então história e funda um outro estado de consciência e inaugura um ensaio social diferente.

Ademais, se tomarmos distância e medirmos nosso tempo histórico com o tempo cósmico, teremos mais razões ainda para a esperança. Se condensarmos num ano o tempo cósmico, os 13,7 bilhões de anos -a idade presumida de nosso universo- notaríamos que como humanos existimos há apenas uma pequeníssima fração de tempo. Assim, a 31 de dezembro às 17.00 horas nasceram nossos antepassados pré-humanos. A 31 de dezembro às 22.00 horas entrou em cena o ser humano primitivo. A 31 de dezembro às 23 horas, 58 minutos e 10 segundos surgiu o homem de hoje chamado de sapiens sapiens. A 31 de dezembro às 23.00 horas, 59 minutos e 56 segundos nasceu Jesus Cristo. A 31 de dezembro às 23.00 horas 59 minutos e 59,2 segundos Cabral chegou ao Brasil.

Como se depreende, somos temporalmente quase nada.

Além disso, se levamos em conta as 15 grandes dizimações que a Terra conheceu, especialmente, aquela do Cambriano, há 570 milhões de anos, na qual entre 75-90% do capital biótico desapareceu, verificamos que a vida sempre resistiu e sobreviveu. E se nos concentramos apenas no ser humano, sobreviveu sempre às muitas glaciações. Mais ainda, ocorreu um processo altamente acelerado de encefalização. A partir de 2,2 milhões de anos emergiram, sucessivamente, o homo habilis, erectus, e nos últimos cem mil anos, o homo sapiens, já plenamente humano. Seus representantes eram seres sociais, se mostravam cooperativos e manejavam a fala, característica humana.

No arco de um milhão de anos, o cérebro destes três tipos de homo duplicou em volume. Após o aparecimento do homo sapiens, surgido há 100 mil anos, o cérebro não mais cresceu. Não havia mais necessidade, pois surgiu o cérebro exterior, a inteligência artificial que é a capacidade de conhecer, criar instrumentos e artefatos para transformar o mundo e criar cultura, característica singular do homo sapiens sapiens.

A partir do neolítico, cerca de dez mil anos atrás, surgiram as primeiras cidades que deram origem à cultura elaborada, ao estado, à burocracia e também à guerra. Começou também uma sistemática utilização da razão instrumental para dominar a natureza, conquistar e subjugar os outros. Obviamente lá estavam também outros tipos de razão como a emocional, a simbólica e a cordial, mas submetidas à regência da razão instrumental que desde então assumiu a hegemonia, até a sua culminância em nosso tempo, razão, a um tempo, criativa é também destrutiva.

O processo da borboleta nos oferece uma sugestiva metáfora. A borboleta não nasce borboleta. Ela é no início um simples ovo que se transforma numa larva, devoradora insaciável de folhas. Depois ela se enrola sobre si mesma na forma de um casulo (crisálida). Dentro dele, a natureza tece seu corpo e desenha suas cores. Quando tudo está pronto, eis que se rompe o casulo e emerge esplêndida borboleta.

Nós estamos ainda no estágio de larva e casulo. Larva, porque, dia e noite, devoramos a natureza; casulo, porque fechados sobre nós mesmos, sem ver nada ao nosso redor.

Qual a nossa esperança? Que a razão rompa o casulo e emerja qual razão-borboleta. Talvez a situação atual de alto risco force o nascimento da razão-borboleta. Ela zizagueia por ai, não é destrutiva; mas, cooperativa, pois poliniza as flores.

Estamos ainda em gênese. Não acabamos de nascer. Nascidos, vamos respeitar e conviver com todos os seres. Teremos para sempre superado a fase de larva e de casulo. Como borboletas, seremos portadores da razão sensata que nos concede termos um futuro sem ameaças junto com a Terra.


*Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da UERJ

Domingo, 15 Julho 2012 21:33

A descoberta do “bóson de Higgs”

Escrito por

Por Cesar Vanucci “

“Superamos uma etapa em nossa compreensão da Natureza.”
(Cientista Rolf Heur, diretor-geral do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares)

Os intensos rumores dos últimos meses em torno de uma descoberta cientifica extraordinária no campo da física quântica parecem haver se confirmado. Cientistas vinculados aos programas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares admitiram a existência de uma nova partícula subatômica, descrita como sendo o chamado “bóson de Higgs”, também conhecido como a “Partícula de Deus”, elemento que ajudaria a explicar o que dá tamanho e forma a toda a matéria existente no Universo.

As imagens que percorreram o mundo, à hora da revelação em Genebra, para platéia constituída dos mais renomados cientistas do mundo, acerca do “bóson de Higgs”, deram a medida exata da magnitude da descoberta. Pelos aplausos entusiásticos e semblantes emocionados dos físicos ficou muito bem evidenciado que uma barreira transcendente no campo das pesquisas acabara de ser magistralmente transposta. O clima de exultação à volta do britânico Peter Higgs, cientista de 83 anos que, desde 1964, postula por dedução a existência da célebre partícula que leva seu nome, dimensionou também o significado histórico da divulgação feita. “Superamos uma nova etapa em nossa compreensão da Natureza. Esta partícula permitirá descobrir outros mistérios de nosso universo”, asseverou, eufórico, o cientista Rolf Heuer, diretor-geral da instituição (CEPN) em que se acha instalado o “grande colisor de hádrons” (LHC), o maior acelerador de partículas do mundo, onde foram desenvolvidas as pesquisas.

Arrisco, ancorado apenasmente na intuição, bastante consciente do elevado grau de meu analfabetismo cientifico, um singelo palpite: a descoberta, por mais avançada que tenha sido, não deverá representar, ao contrário do que muita gente tem sustentado, resposta definitiva para questões verdadeiramente essenciais da aventura humana. Em meu modesto entendimento das coisas, o atual estágio espiritual da humanidade não oferece condições para que a ciência, ou qualquer outro valioso instrumento nascido da inteligência humana, consiga decifrar por completo, de forma convincente, a charada da existência. Isso vai ter que ficar pra mais adiante. Bem mais adiante nessa extensa caminhada humana, tão pontilhada de situações inexplicáveis. O “bóson de Higgs”, independentemente das extraordinárias faculdades que lhe sejam atribuídas, mesmo que os sábios o apontem como elemento-chave da estrutura fundamental da matéria, passará a ser enxergado, dentro em breve, em sua real proporção. Noutras palavras, como uma nova, importantíssima e promissora vereda no complexo esquema de identificação dos elementos componentes das chamadas partículas elementais. Assim como já aconteceu no passado com o átomo. A expressão “Partícula de Deus”, com que resolveram açodadamente batizá-lo, acabará sendo vista como um exagero colossal na descrição de suas singulares propriedades.

*O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quarta, 04 Julho 2012 20:39

Agressão aos preceitos humanísticos

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Homens são homens. Esquecem-se, às vezes de ser humanos.”
(Shakespeare)


Não sei bem precisar o motivo pelo qual, em meio ao costumeiro turbilhão do noticiário, três fatos sem quaisquer conotações, divulgados sem espalhafato, ocorridos em contextos culturais e geográficos diversificados, remoeram de forma persistente a minha cuca no final da semana. Consultando os botões de meu pijama, deduzi a hipótese de que, talvez, a explicação se contivesse na circunstância de serem, todos eles, de certa forma, reveladores de distorções comportamentais recebidas, via de regra, por aí afora, sem grandes questionamentos críticos. Distorções essas – acrescente-se - em flagrante discrepância com preceitos humanísticos que recobrem a vida de dignidade.

Estes os fatos.
Como a Ucrânia e a Polônia foram escolhidas sedes da Eurocopa 2012, a mídia esportiva dedicou razoável espaço para falar do que anda rolando nos dois paises em termos econômicos, políticos e culturais. Eis que, de repente, surpreendo-me diante de informações danadas de inquietantes sobre o antissemitismo que grassa solto num e noutro país e sobre ostensivas manifestações de feição neonazista levadas continuamente a público em território ucraniano. As imagens de pessoas agitando, inclusive em estádios de futebol, o símbolo mais característico da sinistra era hitlerista, a suástica, deixam-me perplexo. As informações que complementam as inacreditáveis cenas não fazem por menos. Fica-se sabendo, por exemplo, que vem ganhando crescente expansão na vida política ucraniana um partido chamado Svoboda, que prega abertamente o ódio racial. Seus seguidores conservam na conta de ídolos os veteranos da “Halychyna”, que nada mais é do que uma brigada dos tempos da ocupação alemã, constituída nos moldes das tenebrosas SS para cuidar da chamada “limpeza étnica”. Essa brigada ucraniana foi responsável pela chacina de 200 mil judeus. Doutra parte, o jornalista Michael Goldfarb, no “The Observer”, assinala que em estádios de futebol na Polônia, como projeção preconceituosa assimilada culturalmente, a expressão “judeu” é lançada de forma pejorativa, costumeiramente, nos duelos das torcidas, como elemento de agressão verbal recíproca. Algo atordoante.

O outro episódio desnorteante diz respeito a uma pesquisa da Universidade de São Paulo, divulgada em vários jornais. O “Núcleo de Estudos da Violência” saiu às ruas em onze capitais brasileiras, ouvindo pessoas sobre o que pensam do emprego da tortura pra fins de obtenção de provas. Os números apurados são de estarrecer um frade de pedra. Quase a metade dos entrevistados concorda totalmente ou parcialmente com a utilização desse “método” selvagem e covarde de se extrair “confissões” de presos. Seja observado que, em pesquisa anterior, no ano de 1999, o índice de aprovação da tortura foi, apesar de preocupante, menor: 34% contra os 47.5% de agora (pesquisa de 2010). Os que repudiam totalmente essa hedionda modalidade punitiva somavam, em 1999, 71.2% dentre as pessoas ouvidas. O índice caiu alarmantemente para 52.48% na pesquisa de 2010. É de dar calafrio na espinha.

O último fato a comentar tem raiz numa extraordinária façanha cientifica. Dez anos atrás, na África do Sul, uma equipe de médicos sul-africanos e estadunidenses conseguiu, num feito celebrado ruidosamente, separar gêmeos siameses da Zâmbia unidos pelo crânio.
A história de como tudo se processou, antes, durante e depois da miraculosa intervenção, é relatada em documentário de tevê com abundância de pormenores. Os garotos, desfrutando atualmente de plena autonomia de movimentos, são mostrados em diferentes ocasiões de sua rotina de vida. Inesperadamente, uma revelação pra lá de desconcertante, se é que esta palavra basta para absorver devidamente o impacto. Os dois necessitam de cuidados educacionais especiais, à vista de sequelas deixadas pela intervenção cirúrgica. Os pais não dispõem de recursos para cobrir o custeio desses serviços de atendimento especial de que os filhos se fazem carecedores. E não é que ninguém aparece, nesse cenário dramático, com disposição para botar um final feliz no caso? Difícil pacas ignorar o toque perverso da situação.

Eta mundo velho de guerra sem porteira, refratário à justiça social e à solidariedade humana!

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Segunda, 02 Julho 2012 20:50

Neobobice vernacular

Escrito por

Por Cesar Vanucci *


“Essa língua (...) é a nossa língua” 
(Raquel de Queiroz)

 

Até hoje o Congresso Nacional não aprovou o projeto do ex-deputado Aldo Rebelo, hoje Ministro dos Esportes, que regulamenta o emprego de expressões estrangeiras em eventos públicos, meios de comunicação, estabelecimentos comerciais, educandários, embalagens de produtos, por aí. Traduzindo, de certo modo, o inconformismo da sociedade diante dessa onda abobalhada de estrangeirices vocabulares que nos assola, o projeto é visto, por muita gente de peso intelectual, como uma tentativa louvável de se deter o processo, em marcha acelerada, da desnacionalização idiomática, com todos os seus nefandos desdobramentos culturais nas práticas cotidianas. Tudo fruto de indigência cívica, pauperismo intelectual e de rematada panaquice, sinais inequívocos da atmosfera que se respira em ambientes despojados do sentimento de brasilidade.

Mesmo não conhecendo na íntegra o projeto e imaginando, à vista disso, possa uma que outra disposição do texto comportar questionamentos, ou mudanças, como propõem alguns, não há como deixar de aplaudir na essência essa iniciativa, por representar reação que já vem tarde contra a neobobice vernacular que nos agride nos lares e nas ruas.

Muita gente, atingida pelos modismos moderneiros, encontra dificuldades em entender coisa tão curial: o idioma é a pátria. É o símbolo – o mais reluzente – da nacionalidade. Projeta, com dinâmica própria, o nosso modo normal de expressão, o nosso jeito de ver e sentir. As emoções puras e generosas da gente do povo. O idioma conta e canta a nossa cultura, nossos feitos e realizações. Mantém-nos íntegros e individidos em nossos sagrados domínios territoriais. Domínios territoriais, aliás, tão cobiçados pelo aventureirismo beligerante e ardiloso destes tempos de globalização fajuta.

Posto que a língua falada no Brasil é o brasileiro, um dos muitos idiomas saídos do português, já vem passando a hora de uma vigorosa resistência contra a tendência, de inocultável frescurice, da utilização, a três por quatro, em tudo quanto é canto, de vocábulos estrangeiros para classificar situações e coisas óbvias.

O aprendizado de outros idiomas é parte relevante na preparação do homem para o instigante jogo da vida. É o caso do inglês e do espanhol, por exemplo, ou o mandarim, talvez mais na frente. Mas a busca do aprendizado de outras línguas não pode significar que a gente deva ou precise esquecer a língua da gente. Isso remete a texto precioso de Eça de Queiroz. “Um homem só deve falar, com impecável segurança e firmeza, a língua da sua terra; todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, sem aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.” Como? O ilustre leitor destas maldigitadas acha que a tintura nacionalista do mestre está forte por demais?

Respondo à observação com uma pergunta: mas será que o momento, face às heresias vocabulares soltas por aí, com base no inglês “more or less”, não está a clamar por posições desse jaez, de claro destemor cívico, que resguardem o nosso patrimônio cultural? Muitos os abusos. Os impropérios lingüísticos. O idioma do Brasil é o idioma brasileiro. Ponto final.

É preciso deixar explícito que aos brasileiros aborrece – e muito – esse negócio de cardápio em restaurante e de saldo de retalho de loja anunciados em língua de gringo; de veículo carregando no pára-choque bobagens do tipo “My other car is a plane”, ou de “God bless America”; de repórter de tevê a  falar de “break”, e de incontáveis babaquices assemelhadas. Isso sem falar na nomenclatura aplicada aos dispositivos que acionam as engenhocas eletrônicas que estes tempos tecnológicos introduziram estrepitosamente na vida do cidadão comum.

Isto posto não há como não classificar de bem-vinda a disposição parlamentar de se por freio nisso tudo.

Levar logo o projeto para discussão, alterações nas Comissões, voto em plenário e sanção presidencial é uma boa.

 
* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog semanalmente.

Segunda, 25 Junho 2012 20:37

Luminosidade ofuscante, não espessa treva

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Dá pra sentir que hoje em dia as mentiras e
ilusões são percebidas cada vez mais rapidamente?”
(De uma profecia atribuída ao guru indiano Sai Baba)

 

As profecias apocalípticas jorram.Quase todas, espantosas nos pormenores, precisam datas sobre o que está pra acontecer neste ano da graça de 2012. Inversão dos pólos magnéticos, deslocamento do eixo da Terra, colisão com asteróide de descomunal proporção, tsunamis e terremotos devastadores, elevação súbita do nível dos oceanos, bombardeio fulminante de raios solares, arrasador conflito nuclear, guerra cibernética: são hecatombes dos mais variados feitios acenando com a indesejável perspectiva, para breve, do final dos tempos. Em certos momentos, as informações de cientistas e místicos parecem coincidir. Muita gente garante perceber, solta no ar, uma sensação bem próxima de mudanças impactantes.

Em meio a esse turbilhão de adivinhações, topo, de repente, com uma teoria danada de instigante. De certo modo, a mais instigante de quantas já produzidas sobre o tema. É atribuída a um pensador indiano recentemente desaparecido, que estruturou em vida uma obra filosófica e educacional que continua atraindo grande contingente de adeptos, espalhados pelo mundo. Relatos interessantíssimos de prodígios no campo da parapsicologia compõem sua lendária biografia. Qual é mesmo o nome do personagem? Sai Baba.

O destino deste planeta azul, uma ilhota aparentemente insignificante perdida no meio de um oceano infindável composto de inexplicabilidades, como anota Huxley, é comentado de forma assaz original num depoimento, colhido via psicográfica ao que se afirma, e que vem sendo intensamente divulgado nas redes sociais. Baba fala de transformações profundas que já estariam acontecendo, afiançando não corresponder à realidade a predição de que o mundo vai acabar. A Terra – é acentuado também – entrou num processo de vibração energética tremendamente acelerado. Essa vibração afeta todos e ganha intensidade em emoções e pensamentos liberados pelas pessoas. Essa elevação vibratória – sublinha-se – pode parecer até um paradoxo, uma vez que ao nosso redor pululam o ódio e a miséria. Mas é assim mesmo que as coisas rolam no plano cósmico. “Estamos elevando a nossa consciência como jamais o fizemos”, assevera o pensador. “Mas, como assim; e essa escuridão que nos rodeia?” – pergunta-se. Resposta: dá, sim, pra ver a escuridão, mas as pessoas não devem temê-la ou com ela se identificarem. A escuridão não é uma força que obrigue ninguém a carregar ódio no coração. Não é uma força que se opõe à luz. É ausência da luz. Vem daí que as situações trevosas ou de penumbra enfrentadas pela humanidade, configuradas nas mazelas de todo tipo que nos espreitam e que tanto agridem a consciência social, estão sendo bombardeadas por uma claridade extremamente ofuscante gerada por esse novo estágio de conscientização. A luz emanada desse estado de espírito é mais copiosa do que em qualquer outro patamar da aventura do homem, assegura-se.

Uma comparação sugestiva trazida à nossa reflexão: a troca de uma lâmpada de 40w por outra de 100w no quarto de despejo leva a gente a enxergar no lugar sinais de desordem e de sujeira que, nem de leve imaginava pudessem existir. A luminosidade abundante de hoje em dia tem o condão de expandir nossa capacidade de percepção para mentiras, ilusões, engodos, mitos equivocados que não vinham sendo lançados no lixo, mas empurrados pra debaixo do tapete.

Este momento de irradiação energética poderosa convoca-nos a arrumar melhor o quarto de despejo. Arregaçar as mangas e promover limpezas que escorracem as imundícies. A mudança poderá trazer dores físicas, fruto de emoções negativas estocadas nas mentes e corações. A solução é assimilar em plenitude a vibração energética posta a circular. No fecho do depoimento atribuído a Sai Baba é dito que vivemos “a melhor época da humanidade desde todos os tempos.” Isso nos coloca no desfrute do privilegio de passar a ser testemunhas e agentes da maior transformação de consciência jamais imaginada.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Segunda, 25 Junho 2012 20:13

Rio+20: A ruptura entre o querer e o Poder

Escrito por

Por Dal Marcondes, da Envolverde

Nas manifestações pelas ruas do Rio de Janeiro e no colorido da Cúpula dos Povos as pessoas e as organizações da sociedade civil gritaram, desenharam e sonharam palavras de ordem contra quase tudo. Enquanto isso, no RioCentro sucederam-se enfadonhos discursos de chefes de Estado que, por horas, ocuparam a tribuna para ler textos que pereciam ter sido escritos pelo mesmo ghost writer. O colorido das ruas substituído pelo monocromático das gravatas em discursos acanhados, como a explicar porque não tinham a coragem de sonhar com um amanhã menos cinzento.

A Rio+20 vai entrar para a história como um vazio de coragem e o abandono das utopias. A ruptura entre as palavras de ordem das ruas e a ordem das palavras no documento final da conferência. No entanto, não é um fim de linha, nem para a ONU nem para a sociedade civil. O próprio secretário geral, Ban Ki-Moon considerou o documento acordado entre os países como tímido e as organizações sociais sabem
que há muito trabalho a fazer. Até 2014 devem ser definidos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que precisam ser mais corajosos do que esse documento “sem conflitos” assinado no Rio de Janeiro.

No entanto, é sempre bom lembrar que os documento da Rio+20 representa apenas o piso, o mínimo que se pode fazer, mas não o máximo. O recado das ruas também foi confuso, sem nenhuma objetividade e, de forma generalizada, contra tudo e contra todos. É importante que se tenha em mente que cada governo individualmente, cada organização e cada pessoa pode avançar, ir além, trabalhar pelas utopias que sempre são as sementes de grandes realizações da humanidade.

A Rio+20 pode ser vista como um exemplo a não ser seguido. A ONU criada após a 2ª Guerra Mundial pode não ser mais o modelo de cooperação internacional que o século XXI necessita. Mas é o único modelo de multilateralismo que o planeta tem, portanto, é preciso apostar em sua capacidade de se renovar. Nos próximos anos outras conferências vão desafiar a capacidade da humanidade em resolver problemas comuns e não se deve desistir de buscar uma voz comum em harmonia com os desejos das sociedades.

O documento final da Rio+20 é uma afronta à capacidade humana de sonhar, mas é uma ode à necessidade de se caminhar unido. O esforço diplomático para redigir um documento para ser assinado por quase duas centenas de países é louvável, porque os interesses são os mais díspares possíveis, contemplando desde a falida aristocracia europeia aos novos-ricos dos BRICS, passando por Saint Kitts, uma ilhota do Caribe que é o menor país das Américas.

Mas a diplomacia adotou a técnica de retirar os pontos conflitantes, aparar as arestas, tirar as cores fortes, de forma que, no final, pouco restou do sonho de uma grande conferência sobre desenvolvimento sustentável. (Envolverde)

* Dal Marcondes é jornalista especializado em jornalismo econômico, diretor e editor responsável da Envolverde – Revista Digital e presidente do Instituto Envolverde.

Terça, 05 Junho 2012 18:46

A busca da “partícula de Deus”

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

A peça que falta para o quebra-cabeças.”
(Fernando Werkhaizer, físico)

Cientistas famosos andam apregoando que suas avançadas pesquisas pelas enigmáticas veredas da física quântica vêm permitindo aproximação cada vez maior da chamada “partícula de Deus”. Gabam-se mesmo de já haver encontrado pistas intrigantes da localização do “bóson de Higgs”, estrutura supostamente responsável pelas interações na Natureza. No entendimento dos doutos, embora hipotético, um elemento provido de massa que teria aparecido logo após o também hipotético “Big Bang”, apontado por círculos científicos como a primeira de todas as coisas dentro da linha conceitual adotada pra explicar a Criação.

Tal partícula seria responsável pela composição dos átomos. Advém dessa circunstância a denominação que se lhe foi dada de “partícula de Deus”.

Passa bem ao largo das cogitações deste desajeitado escriba, com sua supina ignorância da temática cientifica, desdenhar ou mesmo contradizer diretamente os brilhantes físicos engajados nesse salutar propósito de descobrir, pelos atalhos das exaustivas investigações cientificas, explicações sobre como começou tudo quanto está posto aí. Mas que eu duvido possa esse bem intencionado esforço desembocar, nos prazos estipulados, nas respostas tão desejadas pelo aluvião de interrogações nascidas da compreensível inquietação humana a respeito do principio, sentido e destino da aventura da vida, ah, isso, eu duvido mesmo, sim senhores! Como se costumava dizer, noutros tempos, de forma bem descontraída em papos coloquiais, du-vi-de-o-do.

Tanto quanto o meu restrito entendimento leigo consegue alcançar dessa fascinante procura levada avante por alguns cérebros privilegiados, com o concurso de tecnologias assombrosas, o chamado “bóson de Higgs” seria assim como uma peça que estaria faltando pra fechar o quebra-cabeças da teoria do “Big-Bang”, ou seja da explosão nuclear que formou o Universo. Não passa, como já dito, de hipótese, sujeita ainda a comprovação, de acordo com a expectativa de eminentes sábios.

Os colisores de prótons, localizados em pontos estratégicos do mundo, empregados nessa busca infatigável já estariam, a esta altura, fornecendo indícios animadores (mais do que isso, talvez, convincentes) de que uma revelação concludente estaria prestes a ser anunciada. Mas, muitos cientistas, precavidamente, não descartam a possibilidade de que o processo possa não lograr atingir, por conta de fatores imponderáveis, os resultados ardentemente almejados. O modelo da investigação poderia ter sido composto com pressupostos equivocados. Se isso de fato, contrariando tantas esperanças, acontecer, ou seja, a descoberta da partícula não puder se consumar, outros caminhos haverão de ser, obviamente, desbravados pela ciência na tentativa de achar explicações consistentes para os mistérios que circundam a infinita vastidão cósmica.

Bem, e quanto às descrenças pessoais que, simploriamente, consciente do analfabetismo cientifico que carrego, entendi de externar quanto aos resultados das investigações em curso a respeito da “partícula de Deus”, no que, afinal de contas, se fundamentam? Em mera, pura e simples intuição. Nada mais do que isso. Seria rematado tolo não reconhecesse na ciência um excepcional instrumento de procura da verdade. Uma força poderosíssima em condições de movimentar idéias e ações que se entrelaçam com o futuro e o destino da humanidade. Mas, nada obstante os extraordinários feitos e conquistas proporcionados pela ciência, levando em conta de outra parte tantos problemas cruciais angustiantes, enfrentados pela sociedade humana destes nossos tempos – problemas cuja solução distante depende bastante das inovações tecnológicas –, penso, com meus botões, apoderado de certezas, ser ainda demasiadamente cedo, no atual estágio de desenvolvimento emocional e espiritual do ser humano, pra se conceber a possibilidade da decifração cabal do código da vida. O deslindamento dessa charada não é pra agora. Aposto e dou lambuja.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Sexta, 25 Maio 2012 14:49

A contraofensiva do Sistema

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

Nosso “spread”, como todos nós sabemos,
ainda é o maior do mundo.”
(Antônio Delfim Neto)

A leitura atenta dos jornais deixa-nos conhecedores de que o sistema financeiro já armou, nos devidos conformes, sua contraofensiva às ações da presidenta Dilma em favor da redução dos juros. A estratégia montada é no sentido de tentar desqualificar as medidas saneadoras tomadas. Apontá-las como inócuas à luz dos sagrados cânones econômicos. E, até mesmo, atribuir a decisões governamentais menos inspiradas a culpa inteira no cartório pelas aberrações cometidas no rendoso jogo do crédito generosamente ofertado à incauta clientela.

Fica claro que a lengalenga marota, que encontra acolhedora cobertura midiática, não conseguirá sensibilizar a sociedade por inteiro. Mas, de qualquer maneira, o ingente esforço despendido com o fito de semear a confusão nos espíritos servirá a algum propósito menos edificante no terreno da contradita política. Ou poderá criar alguma celeuma que venha – quem sabe? - redundar em acertos de bastidores capazes de reduzirem, tiquinho que seja, a quota da contribuição esperada das instituições financeiras, dentro dos critérios definidores da responsabilidade social, para a almejada diminuição das taxas. Diminuição essa que, decididamente, não irá empobrecê-las, mas que, certeiramente, ajustará em termos civilizados a lucratividade descomedida, sempre crescente ano a ano, registrada em suas trilionárias operações.

A falta de sensibilidade social nesses meios confessadamente refratários à nova política de juros, louvavelmente implantada com gestos decididos pela Chefe do Governo, está refletida num sem número de comentários. Neles se projeta visível a intenção de ridicularizar o posicionamento oficial. Indiferentes, como é do feitio da espécie, ao sentimento popular, fingindo não saber do apoio e simpatia maciços da opinião pública às medidas anunciadas, portavozes do complexo financeiro vêm procurando, por todos os meios ao alcance, desacreditar a política de juros colocada em vigor. O economista chefe da Febraban, Rubens Sandesberg, deu o tom da contraofensiva. De forma sarcástica, anotou em relatório concernente a queda de juros, que o cavalo pode até ser levado à beira do rio, mas isso não significa obrigatoriamente que ele se disponha a beber a água. A parlatice foi de tal tamanho que alguns banqueiros, percebendo a indignação que a besteira cometida produziu no Planalto, resolveram maneirar um tanto quanto a barra, desautorizando a fala intempestiva de seu intérprete.

Mas a má vontade com relação ao assunto não cessou. O que levou Dilma a reiterar, com gestos expressos e com declarações peremptórias, batendo forte na cangalha pra turma entender, a convicção governamental – que de resto é a de todo vivente razoavelmente lúcido deste país – de que as taxas de juros não podem continuar situadas nos patamares himalaianos escalados pela ganância e irresponsabilidade social. “Os bancos não podem continuar cobrando os mesmos juros para empresas e para o consumidor, enquanto a taxa básica Selic cai, a economia mantem-se estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos”, foi o que disse no pronunciamento presidencial no “Dia do Trabalhador”.

No arremate destas considerações, nada mais apropriado para acentuar o acerto das medidas governamentais no tocante aos juros do que estas palavras de um economista que passa, costumeiramente, a impressão de saber do que está falando: “O governo age corretamente, com uma política absolutamente transparente para baixar os juros. O que o Ministério da Fazenda e o Banco Central especialmente têm feito é conversar com os bancos e analisar os componentes do “spread” que, como todos nós sabemos, ainda é o maior do mundo. É razoável, portanto, que se deva esperar uma redução desse “spread”. O nome do economista é Antonio Delfim Neto.

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Quinta, 17 Maio 2012 14:39

Recomendações naturalistas simples

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

Tudo deveria ser tornado tão simples
quanto possível, mas não mais simples do que isto!”
(Einstein)

São recomendações muito simples. Não exigem esforço físico exagerado. Proporcionam – asseguram os que praticam essas modalidades de exercícios – resultados bastante compensadores. As práticas vêm sendo propagadas intensamente nas redes sociais como contribuição de profissionais da chamada medicina naturalista. Apresentam-nas como ideal para quem não gosta, ou não tem tempo de fazer rotineiramente exercícios físicos.

O que se anuncia, por esse instrumento de comunicação, é que alguns médicos naturalistas confessam-se danados de triste sempre que batem com os costados em congressos de sua categoria profissional. Acontece de experimentarem, nesses encontros, o dissabor de constatar que os resultados de certas experiências exitosas e eficientes, de fácil comprovação, processadas em sua esfera de atuação, não são contemplados, hora nenhuma, com divulgação adequada. “Não dão ibope”, é o que costumeiramente se lhes é passado. Vêem-se compelidos, à vista disso, a utilizarem as redes sociais para repassarem exercícios e ações singelos por eles reconhecidos como úteis no enfrentamento de problemas cardíacos. Vamos lá: 1º. ao acordar, deitado de barriga pra cima, pedalar 30 vezes no ar. Isso concorre para melhorar o posicionamento da coluna e da postura, diminuindo e retardando o encurvamento das costas, aliviando dores e baixando a pressão; 2º. antes do banho, exercitar a barriga da perna (levantar o corpo na ponta dos pés). Primeiramente, de modo rápido, até esquentar as panturrilhas e, depois, fazendo uma sequência de dez movimentos lentos. Pronto. Tal exercício – assevera-se - bombeia o sangue para o coração, melhora os batimentos cardíacos e evita obstrução das veias. Nos primeiros seis meses, a pessoa com excesso de peso poderá vir a emagrecer (oba!) da cintura para baixo. Nos seis meses subsequentes, se beneficiará (oba, outra vez!) da cintura para cima. Depois de dois anos, não engordará mais. Além de tudo, o exercício reduz riscos de cirurgia cardíaca, que custa, como sabido, os tubos.

Outra prática sugerida pelos naturalistas diz respeito às micro varizes. Esta a recomendação: ao chegar em casa, coloque os pés numa bacia com água bem quente. É o famoso “escalda pés”, que além de relaxar, serve para desencadear a dilatação dos vasos sanguíneos dos pés, trazendo benefícios também à visão. O processo foi pesquisado com pacientes diabéticos. Constatou-se melhora na circulação sanguínea. O quadro geral de saúde dos pesquisados melhorou e foram percebidos por muitos efeitos benéficos no sistema visual. O exercício é indicado, ainda, como eficaz para combater o encurvamento da coluna.

Outra recomendação da medicina naturalista: ao perceber que a pressão subiu, coloque as pernas dentro de um balde com água gelada até os joelhos. Permaneça nessa imersão por vinte minutos. Tranchã, atestam os que se entregam a essa prática.

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Quarta, 16 Maio 2012 15:52

Transportes: por que se rejeita os VLTs

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Por Rogério Centofanti*

Ninguém parece se conformar com a evidência: trânsito e transporte na cidade de São Paulo (e em alguns de seus satélites) estão além do suportável, e não existem soluções à vista, exceto por meio de medidas radicais. Não sabendo pensar mobilidade além dos meios convencionais, ou por nos recusarmos a imaginar soluções que ameacem a desconfortável “zona de conforto”, ficamos reclamando em círculos.

Esquecemo-nos de que as soluções do passado converteram-se nos problemas do presente. O automóvel, enquanto saída individual e privada para os péssimos transportes coletivos (ruins em quantidade e qualidade), foi interessante até que milhões deles congestionassem ruas e avenidas, além de aumentar o custo das construções, pois a garagem tornou-se tão essencial como o dormitório.

As motos chegaram aos poucos, como solução igualmente individual e privada, econômica e prática para escapar do trânsito, e hoje fazem parte do problema, em especial no quesito segurança.

Para ajustar todo esse volume de pneus ampliaram-se ruas e avenidas, criaram-se túneis e viadutos, mas o volume do tráfego cresceu e cresce em proporção superior as obras. Reduziram-se as calçadas, impediu-se o estacionamento junto ao meio fio, mas não resolveu. Áreas que poderiam estar a serviço de construções de residências transformaram-se em estacionamentos privados, cujos preços são, proporcionalmente, mais caros do que dos aluguéis ou de estadas em hotéis.

Além de monopolizar os espaços públicos, os veículos sobre pneus poluem a atmosfera que respiramos e roubam o reconfortante silêncio desejado dos ambientes comuns. São esses subprodutos que fizeram do “minhocão” um símbolo de fracasso transformam o opção por túneis num caso perdido.

De que vale um carro possante, se a velocidade está limitada ao ritmo lento do trânsito? Com exceção do ar condicionado, os modernos automóveis equivalem, na operacionalidade, a um fusca 67. Automóveis movidos a células de hidrogênio resolverão os problemas de poluição atmosférica e sonora, mas os congestionamentos serão os mesmos. Isso também será verdadeiro para motos e ônibus movidos a energia limpa.

Aposta nas bicicletas é uma bandeira de valor emblemático mas, sabemos todos, não solução de massa. Ainda que se criassem ciclovias ou ruas exclusivas para bicicletas, é evidente que seriam inviáveis em distâncias consideráveis, em especial nos dias de chuva.

Como apelo extremo, mas para que as coisas fiquem como estão, fala-se em transferir residências para perto dos locais de trabalho, ou deles para perto das residências, como se isso fosse possível em uma sociedade movida pelo princípio do laissez faire econômico e social, e incentivador das iniciativas individuais como símbolo de liberdade –dentre elas, o próprio automóvel.

A proposta mais razoável é alterar os horários de trabalho por categorias, mas isso irá gerar imenso problema no arranjo econômico das atividades. Por esse motivo, a ideia nunca avança.

Anuncia-se a penalização do tráfego de automóveis pela adoção de pedágios urbanos, mas é uma proposta que prejudica exclusivamente os menos afortunados.

Para reduzir o impacto do custo direto e indireto do automóvel em suas economias, as pessoas migraram para os transportes coletivos e públicos – trens e metrô – e descobriram que são insuficientes e falhos.

Desnudados diante dessa evidência, governantes tentam empurrar a massa de usuários para os ônibus — coletivos, porém privados — o que devolve a tudo e a todos ao atoleiro dos pneus.

Em complemento ao metrô, cujo benefício cultural e econômico é transitar por debaixo da superfície e, nessa medida, em nada alterar a saga rodoviarista nas ruas e avenidas, surgiu o monotrilho, que transita acima da superfície, mas cuja eficiência é uma experiência a ser conhecida. Se de um lado atraiu atenções como mais um esforço para desafogar a cidade, trouxe consigo o estigma do “minhocão”, pois irá roubar a vista, a privacidade e o silêncio próximo de janelas de edifícios residenciais, não raro de luxo, criando um problema desta vez imobiliário.

As melhores saídas radicais que conheci no passado foram os “calçadões”. Não imagine o leitor que foi fácil decidir por eles. Comerciantes gritaram, pois teriam problemas com carga e descarga de mercadorias. Compradores gritaram, pois não teriam como estacionar seus carros na porta das lojas. Depois da gritaria generalizada, comerciantes encontraram soluções para abastecimento, assim como usuários de automóveis. Hoje, é pouco provável que comerciantes e consumidores aceitem que as coisas voltem a ser como eram. Os calçadões devolveram o espaço público totalmente ao uso público, isto é, para os pedestres.

Evidente, entretanto, que não se pode imaginar a mobilidade nas grandes cidades com base nos pés. Se questionável com as bicicletas, o que dizer com os pés.

Parece que a situação pode ser colocada, ainda que de forma difusa, da seguinte forma: 1) asfalto demais e calçadas de menos; 2) individual demais e coletivo de menos; 3) privado demais e público de menos.

Transporte público e coletivo com grande e média capacidade de transporte é o que caminha sobre trilhos: trens, metrô e monotrilho — todos com a imensa vantagem de fazer uso de energia limpa. Trens e metrô têm vocação estruturadora – grande capacidade; monotrilho é, digamos, “capilar”, de média capacidade. Todos os três são segregados, isto é, caminham em vias próprias, sem cruzamentos, o que os torna velozes quando comparados aos “carrões” parados nos congestionamentos, inclusive os ônibus.

Ninguém, entretanto, fala em VLT – Veículo Leve sobre Trilhos -, e muito menos em seus diferentes modelos e capacidades. Justamente ele, o mais barato da família dos trilhos, igualmente ecológico, pois movido por energia elétrica, nem mesmo é cogitado. Motivo? Disputaria com automóveis, carros e ônibus o espaço público das ruas e avenidas. A rigor, nem mesmo disputaria, pois o ideal é que a escolha fosse VLT ou os demais sobre pneus. Nisso ninguém quer pensar, e tampouco discutir.

Nem mesmo se fala neles ocupando linha própria e paralela à dos trens, no mesmo leito, servindo os usuários que se deslocam entre estações próximas, e assim desafogando os próprios trens. Sequer essa possibilidade é discutida. VLT está fora do foco das atenções dos governos (estado e municípios), de gestores de empresas de transporte público, e dos inúmeros “especialistas” que voltam a apostas nos corredores de ônibus. Corredores de VLTs? Nem pensar.

Afinal, qual é o problema do VLT, para se tornar o patinho feio na família dos transportes sobre trilho? É barato demais para atrair interesses? Roubará espaço físico e financeiro das empresas de ônibus?

Ele seria uma boa solução para as regiões centrais – em especial nas extensas avenidas de comércios e serviços, ocupando espaço público hoje a serviço de carros e ônibus, permitindo o alargamento das calçadas para uso humano. Aliás, isso é igualmente verdadeiro para boa parte das longas avenidas que servem os bairros.

Por que ninguém fala nisso? Pouca gente sabe, mas em 1916 a cidade de São Paulo tinha 227 km de trilhos urbanos, e na superfície. Que tal recuperar ao menos parte desse número?

Não se faz omelete sem quebrar ovos.

*Rogério Centofanti é consultor do Sindicato dos Ferroviários da Alta Sorocabana-SP e editor do site São Paulo Trem Jeito

(Outras Palavras)

Quinta, 10 Maio 2012 16:56

Disposição imperial

Escrito por

Por Cesar Vanucci *


"As grandes nações têm atuado sempre como assaltantes."
(Stanley Kubrick)


Nas relações políticas e econômicas com o resto do mundo, temos dito e repetido, as grandes potências deixam claramente configurada sua disposição imperial. "Façam o que eu digo e não o que eu faço": este o teor da determinação por elas transmitida à comunidade internacional. Nesse recado, curto e grosso, manda-se a sutileza às urtigas e escancara-se, para bom entendimento, a considerável disparidade do poderio econômico, tecnológico e militar existente entre eles e os outros.

No Conselho de Segurança das Nações Unidas, o veto de um desses países – Estados Unidos, Rússia, China, Inglaterra e França – é suficiente para tornar inócua qualquer aspiração nascida do consenso da assembléia geral, constituída de centenas de Estados. Em não poucas oportunidades, as chamadas grandes potências desafiam abertamente as deliberações de seus pares, assumindo posições unilaterais que consultam apenas seus egoísticos interesses.

Não raramente também, esse tipo de ação dá vaza a alguma crítica por parte de outro componente do núcleo do veto. Mas o que acaba prevalecendo mesmo, aí, é uma espécie de "acordo de cavalheiros". A condenação acaba sendo expressa em termos que possam ser amortecidos no diálogo diplomático das chancelarias interessadas. Disso resulta uma certa condescendência recíproca com relação aos absurdos praticados por uns e outros.

Os Estados Unidos se recusaram, insensatamente, todo mundo se lembra, a firmar o "protocolo de Kyoto". O governo da Rússia foi, por outro lado, o último a apor assinatura no documento. Não é difícil calcular o tipo de pressão que estaria sendo exercida contra qualquer outro país, da lista dos emergentes e subdesenvolvidos, que se recusasse a figurar entre os signatários de uma decisão de tamanha magnitude, caso os Estados Unidos tivessem optado por apoiá-la.

No capítulo dos avanços tecnológicos espaciais e das experiências nucleares para fins pacíficos, o Brasil e outros países topam pela frente, volta e meia, com toda sorte de obstáculos e sanções externos. Procura-se impedir caminhem com as próprias pernas na busca das políticas que melhor se harmonizem com seus sagrados interesses. O monitoramento com relação ao que concebem e realizam, nesses domínios interditos, é implacável. "Façam o que eu mando e não o que eu faço". A palavra de ordem que chega, dos países com o domínio do conhecimento espacial e atômico, é incisiva. Enquanto torpedeiam com ameaças o desenvolvimento tecnológico dos outros, os "donos do mundo" entregam-se a frenéticos e, por vezes, diabólicos experimentos, ampliando as conquistas tecnológicas com vistas a bons negócios. Na guerra e na paz.

Os EUA romperam o tratado de não proliferação das armas de extermínio em massa, anunciando, logo depois, a criação de um fantástico complexo de blindagem antimíssil, sugestivamente chamado de "guerra nas estrelas". Enquanto isso, a Rússia, retomando o tom façanhudo de que havia se descartado logo após a debacle comunista, fala com espalhafato da construção de novas, inigualáveis e inimagináveis armas.

Não deixa de ser reconfortante perceber, no meio de tudo, que existe hoje uma consciência cívica coletiva altiva e aguerrida, em constante expansão, no Brasil, noutros países e, até mesmo, no seio das nações de presença hegemônica no mundo. É a sociedade humana se confessando inconformada com os rumos desvairados do planeta. Será dai, dos desejos de paz e dos anseios de progresso dominantes no sentimento das multidões, que acabarão brotando, mais na frente, transformações relevantes nas relações internacionais, na ordem econômica e na convivência social. Transformações que possam, finalmente, garantir para todos acesso pacífico aos benefícios do trabalho, do talento e da criatividade humana.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Quinta, 03 Maio 2012 12:31

A atuação da presidenta

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“O Brasil nunca foi tão importante
para os Estados Unidos como agora.”
(Revista inglesa “Economist”)

Dizia-se, com inocultável timbre de machismo medieval, que ela não estava preparada jeito maneira a assumir o cargo. Dizia-se, botando-se ferocidade e má fé nas palavras, que ela iria comprometer irremediavelmente a imagem brasileira no exterior. Dizia-se que, caso viesse a ser eleita, em “instante de inadvertência” de um “eleitorado evidentemente despreparado”, passaríamos, todos nós, pelo vexame de ver, algum dia, o mais proeminente detentor de cargo público do País ter o ingresso vetado noutros países, à vista de seu passado rebelde. Ou seja, da posição corajosa adotada no combate ao regime ditatorial. Dizia-se tudo isso e muitas outras parvoíces mais, em boa parte das vezes com a utilização de linguajar altamente injurioso.

Os manjados autores dessas ofensas, propaladas à mancheia na mídia e redes sociais, acirrados por paixão ideológica desvairada, andaram baixando mais recentemente o tom dos doestos. Mas não se deram ainda por achados. Parecem não haver se convencido de que sua catilinária irrefletida não encontra eco no sentimento popular.

Fingem não saber que a Presidenta vem acumulando, mês após mês, desde que botou os pés no Alvorada, índices de popularidade nunca dantes alcançados, a tempo qualquer, por qualquer outro governante brasileiro. Nem mesmo JK. Nem mesmo Lula. Fazem ouvidos moucos às manifestações internacionais contínuas de aplausos que Dilma vem atraindo, mesmo quando, prevalecendo-se da prerrogativa democrática da crítica, denuncia em foros internacionais decisões prejudiciais ao nosso e aos demais países do rol dos emergentes, tomadas por governantes das nações desenvolvidas desejosos de imporem suas conveniências geo-político-econômicas ao resto do mundo. Na recente visita da Presidenta aos Estados Unidos, o Presidente Barack Obama fez questão fechada em expressar, mais uma vez, que a grande Nação sob seu comando vem enxergando o Brasil, neste momento, como parceiro vital. Confessou-se disposto a imprimir à parceria magnitude de tal ordem que nenhum observador mais atento aos acontecimentos mundiais se aventuraria, algum tempo atrás, a prognosticar.

E o que não dizer dos acertos da Presidenta nas empreitadas domésticas? O crescimento vertiginoso dos índices de popularidade encontra explicação - é certo como dois e dois somam quatro – em seu enfrentamento altivo e desassombrado às pressões descabidas de alguns incômodos aliados. Um bando minoritário de anarquistas fisiológicos que laborando em censurável equívoco – pra empregar, ta na cara, uma palavra bem amena –, vislumbra no exercício da nobre arte da política um mero e mesquinho jogo de “toma lá, dá cá”. Alijados de postos relevantes, recorrem a chantagens explícitas, quebrando a cara diante da resistência granítica da chefe do governo às suas desatinadas ambições. Fica claro para a opinião pública, que está a acompanhar com simpatia os procedimentos da Presidenta nesse tumultuado relacionamento com seus presumidos aliados, uma coisa relevante. Essa gente de apetite desmedido por cargos mostra-se potencialmente capacitada a infligir danos à administração tanto quanto alguns adversários, tresloucadamente empenhados em denegrir, a qualquer custo, valendo-se de perversos processos, a imagem de Dilma.

Uns e outros, aliados incômodos e inimigos tresloucados, estão sujeitos, a curto prazo, a experimentarem frustração ou amargor ainda maiores com relação à personagem sob o foco de sua inconsequente zanga. A Presidenta acaba de tomar uma decisão com impacto de uma revolução pacífica. Uma decisão que chega em boa hora, guardando rigorosa sintonia com os anseios da Nação. O anúncio da medida reaviva a lembrança de José Alencar. Muitos põem-se a imaginar que, lá nas latitudes espirituais em que se encontra, o nosso saudoso Vice recebeu com largo sorriso no semblante a informação relativa ao ato de Dilma ordenando, em termos peremptórios, a redução pra valer dos juros nas operações do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. E, depois, recomendando, reiterando com vigor, que o exemplo das instituições oficiais seja acompanhado, sem maiores delongas, pela rede bancária privada.

Se tudo, como os fatos promissoramente sugerem, correr nos devidos trinques, a população brasileira em todos os níveis será extremamente favorecida. Uma nova política de juros, civilizada, humanizada, abre na verdade caminhos descortinadores ao bem estar comunitário, ao desenvolvimento econômico, influenciando uma melhor e mais equitativa partilha da riqueza. Cria estímulos renovados aos empreendedores, para que expandam as fontes de produção e de produtividade, abrindo mais postos de trabalho em favor da prosperidade social.
Resumindo a história.
Entre o que alguns diziam e alguns poucos continuam dizendo de Dilma e o que a grande maioria dos brasileiros pensa da Presidenta estabeleceu-se uma distância abissal. A realidade aponta, na personagem enfocada, alguém sinceramente engajada no esforço de conduzir o Brasil rumo ao seu indesviável destino de grandeza.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmnte.

Quinta, 03 Maio 2012 12:15

Por que o Brasil precisa das cotas?

Escrito por

Por Luís Felipe Alencastro*

Políticas antidiscriminatórias vão muito além de reparar injustiças. Libertam o país de laços que nos prendem a segregação, violência e privilégios. A importância histórica de certos fatos não é compreendida de imediato pelos que os testemunham. A decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF), que no dia 26 de abril derrotou, por onze votos a zero, a tentativa de anular as cotas para negros nas universidades, é, provavelmente, um deles – por pelo menos dois motivos.

Primeiro, a rapidez com que foram superadas as visões mais preconceituosas sobre o tema. Há cerca de cinco anos, quando as políticas de reserva de vagas começaram a ser adotadas, um coro de condenações e desprezo erguia-se contra elas, na velha mídia – e não só lá. Nos jornais e TVs, “intelectuais” como Ali Kamel e Demétrio Magnoli tinham todo espaço para afirmar que as novas medidas iriam introduzir… racismo e discriminação no Brasil! A oposição espalhava-se pela classe média e a agressividade contra as cotas atingia (embora minoritária) as próprias universidades públicas. Em muito pouco tempo, porém, estas manifestações de superficialidade e histeria foram se dissipando. O conjunto de fatores que provocou a mudança inclui os expressivos resultados acadêmicos alcançados pelos cotistas, a emergência das periferias como sujeito social e político ativo e influente, e o declínio dos antigos “formadores de opinião” – classe média e mídia conservadoras em primeiro lugar.

O segundo motivo é analisado em detalhes, no texto abaixo, por um mestre. Autor, entre outros, de O Trato dos Viventes e Introdução ao Brasil – um banquete nos trópicos, organizador do segundo volume da História da Vida Privada no Brasil, Luiz Felipe Alencastro é um dos autores brilhantes da historiografia brasileira contemporânea. Um dos focos de seus estudos são, precisamente, as relações entre Brasil e África e como elas marcaram o país, desde a Colônia até o presente.

Em março de 2010, Alencastro foi convidado a depor, numa das audiências públicas que o STF promoveu sobre as cotas. Sintética, erudita e elegante, sua intervenção destaca dois aspectos cruciais: a) a discriminação dos afrodescendentes está na raiz de fenômenos que deformam nossa sociedade até hoje – entre eles, impunidade, violência policial e negação dos direitos e da cidadania; b) os avanços materiais e culturais vividos no Século 20 não foram capazes de superar esta nódoa. Um século depois de abolida a escravidão, as estatísticas demonstram que o abismo de desigualdade entre brancos e negros não se fecha por si mesmo.

Uma terceira conclusão, natural, é negar o fatalismo. Os seres humanos não estão condenados a se submeter às heranças que infelicitam seu presente, nem a esperar que forças mágicas (o mercado?) as corrijam. É possível construir agora as políticas das transformação. As cotas são um caminho real. Os que as negam o fazem sob argumentos risíveis, que disfarçam muito mal a defesa de seus privilégios. A transcrição do depoimento de Alencastro vem a seguir. (A.M.)

No presente ano de 2010, os brasileiros afrodescendentes, os cidadãos que se autodefinem como pretos e pardos no recenseamento nacional, passam a formar a maioria da população do país. A partir de agora, na conceituação consolidada em décadas de pesquisas e de análises metodológicas do IBGE, mais da metade dos brasileiros é negra.

Esta mudança vai muito além da demografia. Ela traz ensinamentos sobre o nosso passado, sobre quem somos e de onde viemos, e traz também desafios para o nosso futuro.

Minha fala tentará juntar os dois aspectos do problema, partindo de um resumo histórico para chegar à atualidade e ao julgamento que nos ocupa. Os ensinamentos sobre nosso passado, referem-se à densa presença da população negra na formação do povo brasileiro. Todos nós sabemos que esta presença originou-se e desenvolveu-se na violência. Contudo, a extensão e o impacto do escravismo não tem sido suficientemente sublinhada. A petição inicial de ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, semelhante a Ação Direta de Inconstitucionalidade, ver Wikipedia) apresentada pelo DEM a esta Corte fala genericamente sobre “o racismo e a opção pela escravidão negra” (pp. 37-40), sem considerar a especificidade do escravismo em nosso país.

Na realidade, nenhum país americano praticou a escravidão em tão larga escala como o Brasil. Do total de cerca de 11 milhões de africanos deportados e chegados vivos nas Américas, 44% (perto de cinco milhões) vieram para o território brasileiro num período de três séculos (1550-1856). O outro grande país escravista do continente, os Estados Unidos, praticou o tráfico negreiro por pouco mais de um século (entre 1675 e 1808) e recebeu uma proporção muito menor – perto de 560 mil africanos – ou seja, 5,5% do total do tráfico transatlântico(1). No final das contas, o Brasil se apresenta como o agregado político americano que captou o maior número de africanos e que manteve durante mais tempo a escravidão.

Durante estes três séculos, vieram para este lado do Atlântico milhões de africanos que, em meio à miséria e ao sofrimento, tiveram coragem e esperança para constituir as famílias e as culturas formadoras de uma parte essencial do povo brasileiro. Arrancados para sempre de suas famílias, de sua aldeia, de seu continente, eles foram deportados por negreiros luso-brasileiros e, em seguida, por traficantes genuinamente brasileiros que os trouxeram acorrentados em navios arvorando o auriverde pendão de nossa terra, como narram estrofes menos lembradas do poema de Castro Alves.

No Século 19, o Império do Brasil aparece ainda como a única nação independente que praticava o tráfico negreiro em larga escala. Alvo da pressão diplomática e naval britânica, o comércio oceânico de africanos passou a ser proscrito por uma rede de tratados internacionais que a Inglaterra teceu no Atlântico(2).

O tratado anglo-português de 1818 vetava o tráfico ao norte do Equador. Na sequência do tratado anglo-brasileiro de 1826, a lei de 7 de novembro de 1831, proibiu a totalidade do comércio atlântico de africanos no Brasil.

Entretanto, 50 mil africanos oriundos do norte do Equador são ilegalmente desembarcados entre 1818 e 1831, e 710 mil indivíduos, vindos de todas as partes da África, são trazidos entre 1831 e 1856, num circuito de tráfico clandestino. Ora, da mesma forma que o tratado de 1818, a lei de 1831 assegurava plena liberdade aos africanos introduzidos no país após a proibição. Em consequência, os alegados proprietários desses indivíduos livres eram considerados sequestradores, incorrendo nas sanções do Artigo 179 do “Código Criminal”, de 1830, que punia o ato de “reduzir à escravidão a pessoa livre que se achar em posse de sua liberdade”. A lei de 7 de novembro 1831 impunha aos infratores uma pena pecuniária e o reembolso das despesas com o reenvio do africano sequestrado para qualquer porto da África. Tais penalidades são reiteradas no Artigo 4° da Lei de 4 de setembro de 1850, a lei Eusébio de Queirós, que acabou definitivamente com o tráfico negreiro.

Porém, na década de 1850, o governo imperial anistiou, na prática, os senhores culpados do crime de sequestro, mas deixou livre curso ao crime correlato, a escravização de pessoas livres(3). De golpe, os 760 mil africanos desembarcados até 1856, e a totalidade de seus descendentes, continuaram sendo mantidos ilegalmente na escravidão até 1888(4). Para que não estourassem rebeliões de escravos e de gente ilegalmente escravizada, para que a ilegalidade da posse de cada senhor, de cada sequestrador, não se transformasse em insegurança coletiva dos proprietários, de seus sócios e credores, abalando todo o país, era preciso que vigorasse um conluio geral, um pacto implícito em favor da violação da lei. Um pacto fundado nos “interesses coletivos da sociedade”, como sentenciou, em 1854, o ministro da Justiça, Nabuco de Araújo, pai de Joaquim Nabuco.

O tema subjaz aos debates da época. O próprio Joaquim Nabuco, que está sendo homenageado neste ano do centenário de sua morte, escrevia com todas as letras em O Abolicionismo (1883): “Durante cinquenta anos a grande maioria da propriedade escrava foi possuída ilegalmente. Nada seria mais difícil aos senhores, tomados coletivamente, do que justificar perante um tribunal escrupuloso a legalidade daquela propriedade, tomada também em massa”(5).

Tal “tribunal escrupuloso” jamais instaurou-se nas cortes judiciárias, nem tampouco na historiografia do país. Tirante as ações impetradas por um certo número de advogados e magistrados abolicionistas, o assunto permaneceu encoberto na época e foi praticamente ignorado pelas gerações seguintes.

Resta que este crime coletivo guarda um significado dramático: ao arrepio da lei, a maioria dos africanos cativados no Brasil a partir de 1818 – e todos os seus descendentes – foram mantidos na escravidão até 1888. Ou seja, boa parte das duas últimas gerações de indivíduos escravizados no Brasil não era escrava. Moralmente ilegítima, a escravidão do Império era ainda, primeiro e sobretudo, ilegal. Como escrevi, tenho para mim que este pacto dos sequestradores constitui o pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira(6).

Firmava-se duradouramente o princípio da impunidade e do casuísmo da lei que marca nossa história e permanece como um desafio constante aos tribunais e a esta Suprema Corte. Consequentemente, não são só os negros brasileiros que pagam o preço da herança escravista.

Outra deformidade gerada pelos “males que a escravidão criou”, para retomar uma expressão de Joaquim Nabuco, refere-se à violência policial.

Para expor o assunto, volto ao Século 19, abordando um ponto da história do direito penal que os ministros desta Corte conhecem bem e que peço a permissão para relembrar.

Depois da Independência, no Brasil, como no sul dos Estados Unidos, o escravismo passou a ser consubstancial ao state building, à organização das instituições nacionais. Houve, assim, uma modernização do escravismo para adequá-lo ao direito positivo e às novas normas ocidentais que regulavam a propriedade privada e as liberdades públicas. Entre as múltiplas contradições engendradas por esta situação, uma relevava do Código Penal: como punir o escravo delinquente sem encarcerá-lo, sem privar o senhor do usufruto do trabalho do cativo que cumpria pena de prisão?

Para solucionar o problema, o quadro legal foi definido em dois tempos. Primeiro, a Constituição de 1824 garantiu, em seu Artigo 179, a extinção das punições físicas constantes nas aplicações penais portuguesas. “Desde já ficam abolidos os açoites, a tortura, a marca de ferro quente, e todas as mais penas cruéis”; a Constituição também prescrevia: “as cadeias serão seguras, limpas e bem arejadas, havendo diversas casas para separação dos réus, conforme suas circunstâncias e natureza de seus crimes”.

Conforme os princípios do Iluminismo, ficavam assim preservadas as liberdades e a dignidade dos homens livres.

Num segundo tempo, o Código Criminal de 1830 tratou especificamente da prisão dos escravos, os quais representavam uma forte proporção de habitantes do Império. No seu Artigo 60, o Código reatualiza a pena de tortura. “Se o réu for escravo e incorrer em pena que não seja a capital ou de galés, será condenado na de açoites, e depois de os sofrer, será entregue a seu senhor, que se obrigará a trazê-lo com um ferro pelo tempo e maneira que o juiz designar, o número de açoites será fixado na sentença e o escravo não poderá levar por dia mais de 50”. Com o açoite, com a tortura, podia-se punir sem encarcerar: estava resolvido o dilema.

Longe de restringir-se ao campo, a escravidão também se arraigava nas cidades. Em 1850, o Rio de Janeiro contava 110 mil escravos entre seus 266 mil habitantes, reunindo a maior concentração urbana de escravos da época moderna. Neste quadro social, a questão da segurança pública e da criminalidade assumia um viés específico(7). De maneira mais eficaz que a prisão, o terror, a ameaça do açoite em público, servia para intimidar os escravos.

Oficializada até o final do Império, esta prática punitiva estendeu-se às camadas desfavorecidas, aos negros em particular e aos pobres em geral. Junto com a privatização da justiça efetuada no campo pelos fazendeiros, tais procedimentos travaram o advento de uma política de segurança pública fundada nos princípios da liberdade individual e dos direitos humanos.

Enfim, uma terceira deformidade gerada pelo escravismo afeta diretamente o estatuto da cidadania.

É sabido que nas eleições censitárias de dois graus ocorrendo no Império, até a Lei Saraiva, de 1881, os analfabetos, incluindo negros e mulatos alforriados, podiam ser votantes, isto é, eleitores de primeiro grau, que elegiam eleitores de 2° grau (cerca de 20 mil homens, em 1870), os quais podiam eleger e ser eleitos parlamentares. Depois de 1881, foram suprimidos os dois graus de eleitores e em 1882, o voto dos analfabetos foi vetado. Decidida no contexto pré-abolicionista, a proibição buscava criar um ferrolho que barrasse o acesso do corpo eleitoral à maioria dos libertos. Gerou-se um estatuto de infracidadania que perdurou até 1985, quando foi autorizado o voto do analfabeto. O conjunto dos analfabetos brasileiros, brancos e negros, foi atingido(8). Mas a exclusão política foi mais impactante na população negra, onde o analfabetismo registrava, e continua registrando, taxas proporcionalmente bem mais altas do que entre os brancos(9).

Pelos motivos apontados acima, os ensinamentos do passado ajudam a situar o atual julgamento sobre cotas universitárias na perspectiva da construção da nação e do sistema político de nosso país. Nascidas no Século 19, a partir da impunidade garantida aos proprietários de indivíduos ilegalmente escravizados, da violência e das torturas infligidas aos escravos e da infracidadania reservada ao libertos, as arbitrariedades engendradas pelo escravismo submergiram o país inteiro.

Por isso, agindo em sentido inverso, a redução das discriminações que ainda pesam sobre os afro-brasileiros – hoje majoritários no seio da população – consolidará nossa democracia.

Portanto, não se trata aqui de uma simples lógica indenizatória, destinada a quitar dívidas da história e a garantir direitos usurpados de uma comunidade específica, como foi o caso, em boa medida, nos memoráveis julgamentos desta Corte sobre a demarcação das terras indígenas. No presente julgamento, trata-se, sobretudo, de inscrever a discussão sobre a política afirmativa no aperfeiçoamento da democracia, no vir a ser da nação. Tais são os desafios que as cotas raciais universitárias colocam ao nosso presente e ao nosso futuro.

Atacando as cotas universitárias, a ADPF do DEM, traz no seu ponto 3 o seguinte título “o perigo da importação de modelos: os exemplos de Ruanda e dos Estados Unidos da América” (pps. 41-43). Trata-se de uma comparação absurda no primeiro caso e inepta no segundo.

Qual o paralelo entre o Brasil e Ruanda, que alcançou a independência apenas em 1962 e viu-se envolvido, desde 1990, numa conflagração generalizada que os especialistas denominam a “primeira guerra mundial africana”, implicando também Burundi, Uganda, Angola, Congo Kinsasha e Zimbábue, e que culminou, em 1994, com o genocídio de quase um milhão de tutsis e milhares de hutus ruandenses?

Na comparação com os Estados Unidos, a alegação é inepta por duas razões. Primeiro, os Estados Unidos são a mais antiga democracia do mundo e servem de exemplo a instituições que consolidaram o sistema político no Brasil. Nosso federalismo, nosso STF – vosso STF – são calcados no modelo americano. Não há nada de “perigoso” na importação de práticas americanas que possam reforçar nossa democracia. A segunda razão da inépcia reside no fato de que o movimento negro e a defesa dos direitos dos ex-escravos e afrodescendentes tem, como ficou dito acima, raízes profundas na história nacional. Desde o Século 19, magistrados e advogados brancos e negros têm tido um papel fundamental nestas reivindicações.

Assim, ao contrário do que se tem dito e escrito, a discussão relançada nos anos 1970-1980 sobre as desigualdades raciais é muito mais o resultado da atualização das estatísticas sociais brasileiras, num contexto de lutas democráticas contra a ditadura, do que uma propalada “americanização” do debate sobre a discriminação racial em nosso país. Aliás, foram estas mesmas circunstâncias que suscitaram, na mesma época, os questionamentos sobre a distribuição da renda no quadro do alegado “milagre econômico”. Havia, até a realização da primeira PNAD incluindo o critério cor, em 1976, um grande desconhecimento sobre a evolução demográfica e social dos afrodescendentes.

De fato, no Censo de 1950, as estatísticas sobre cor eram limitadas, no Censo de 1960, elas ficaram inutilizadas e no Censo de 1970 elas eram inexistentes. Este longo período de eclipse estatística facilitou a difusão da ideologia da “democracia racial brasileira”, que apregoava a inexistência de discriminação racial no país. Todavia, as PNADs de 1976, 1984, 1987, 1995, 1999 e os Censos de 1980, 1991 e 2000, incluíram o critério cor. Constatou-se, então, que no decurso de três décadas, a desigualdade racial permanecia no quadro de uma sociedade mais urbanizada, mais educada e com muito maior renda do que em 1940 e 1950. Ou seja, ficava provado que a desigualdade racial tinha um caráter estrutural que não se reduzia com progresso econômico e social do país. Daí o adensamento das reivindicações da comunidade negra, apoiadas por vários partidos políticos e por boa parte dos movimentos sociais.

Nesta perspectiva, cabe lembrar que a democracia, a prática democrática, consiste num processo dinâmico, reformado e completado ao longo das décadas pelos legisladores brasileiros, em resposta às aspirações da sociedade e às iniciativas de países pioneiros. Foi somente em 1932 – ainda assim, com as conhecidas restrições suprimidas em 1946 – que o voto feminino instaurou-se no Brasil. Na época, os setores tradicionalistas alegaram que a capacitação política das mulheres ia dividir as famílias e perturbar a tranquilidade de nação. Pouco a pouco, normas consensuais que impediam a plena cidadania e a realização profissional das mulheres foram sendo reduzidas, segundo o preceito, aplicável também na questão racial, de que se deve tratar de maneira desigual o problema gerado por uma situação desigual.

Para além do caso da política de cotas da UNB, o que está em pauta neste julgamento são, a meu ver, duas questões essenciais.

A primeira é a seguinte: malgrado a inexistência de um quadro legal discriminatório, a população afro-brasileira é discriminada nos dias de hoje?

A resposta está retratada nas creches, nas ruas, nas escolas, nas universidades, nas cadeias, nos laudos dos IMLs de todo o Brasil. Não me cabe aqui entrar na análise de estatísticas raciais, sociais e econômicas que serão abordadas por diversos especialistas no âmbito desta Audiência Pública. Observo, entretanto, que a ADPF apresentada pelo DEM, na parte intitulada “A manipulação dos indicadores sociais envolvendo a raça” (pp. 54-59), alinha algumas cifras e cita como única fonte analítica o livro do jornalista Ali Kamel, o qual, como é sabido, não é versado no estudo das estatísticas do IBGE, do Ipea, da ONU e das incontáveis pesquisas e teses brasileiras e estrangeiras que demonstram, maciçamente, a existência de discriminação racial no Brasil.

Daí decorre a segunda pergunta que pode ser formulada em dois tempos. O sistema de promoção social posto em prática desde o final da escravidão poderá eliminar as desigualdades que cercam os afro-brasileiros? A expansão do sistema de bolsas e de cotas pelo critério social provocará uma redução destas desigualdades?

Os dados das PNAD organizados pelo Ipea mostram, ao contrário, que as disparidades se mantêm ao longo da última década. Mais ainda, a entrada no ensino superior exacerba a desigualdade racial no Brasil.

Dessa forma, no ensino fundamental (de sete a 14 anos), a diferença entre brancos e negros começou a diminuir a partir de 1999 e, em 2008, a taxa de frequência entre os dois grupos é praticamente a mesma, em torno de 95% e 94% respectivamente. No ensino médio (de 15 a 17 anos) há uma diferença quase constante desde entre 1992 e 2008. Neste último ano, foram registrados 61% de alunos brancos e 42% de alunos negros desta mesma faixa etária. Porém, no ensino superior a diferença entre os dois grupos se escancara. Em 2008, nas faixas etárias de brancos maiores de 18 anos de idade, havia 20,5% de estudantes universitários e nas faixas etárias de negros maiores de 18 anos, só 7,7% de estudantes universitários(10). Patenteia-se que o acesso ao ensino superior constitui um gargalo incontornável para a ascensão social dos negros brasileiros.

Por todas estas razões, reafirmo minha adesão ao sistema de cotas raciais aplicado pela Universidade de Brasília.

Penso que seria uma simplificação apresentar a discussão sobre as cotas raciais como um corte entre a esquerda e a direita, o governo e a oposição ou o PT e o PSDB. Como no caso do plebiscito de 1993, sobre o presidencialismo e o parlamentarismo, a clivagem atravessa as linhas partidárias e ideológicas. Aliás, as primeiras medidas de política afirmativa relativas à população negra foram tomadas, como é conhecido, pelo governo Fernando Henrique Cardoso.

Como deixei claro, utilizei vários estudos do Ipea para embasar meus argumentos. Ora, tanto o presidente do Ipea no segundo governo Fernando Henrique Cardoso, o professor Roberto Borges Martins, como o presidente do Ipea no segundo governo Lula, o professor Márcio Porchman, colegas por quem tenho respeito e admiração, coordenaram vários estudos sobre a discriminação racial no Brasil nos dias de hoje e são ambos favoráveis às políticas afirmativas e às políticas de cotas raciais.

A existência de alianças transversais deve nos conduzir, mesmo num ano de eleições, a um debate menos ideologizado, onde os argumentos de uns e de outros possam ser analisados a fim de contribuir para a superação da desigualdade racial que pesa sobre os negros e a democracia brasileira.

Notas

(1) Ver o Database da Universidade de Harvard acessível no site.

(2) Demonstrando um grande desconhecimento da história pátria e superficialidade em sua argumentação, a petição do DEM afirma na página 35: “Por que não direcionamos a Portugal e Inglaterra a indenização a ser devida aos afrodescendentes, já que foram os portugueses e os ingleses que organizaram o tráfico de escravos e a escravidão no Brasil?”. Como é amplamente conhecido, os ingleses não tiveram participação no escravismo brasileiro, visto que o tráfico negreiro constituía-se como um monopólio português, com ativa participação brasileira no Século 19. Bem ao contrário, por razões que não cabe desenvolver neste texto, a Inglaterra teve um papel decisivo na extinção do tráfico negreiro para o Brasil

(3) A. Perdigão Malheiro, A Escravidão no Brasil – Ensaio Histórico, Jurídico, Social (1867), Vozes, Petrópolis, RJ, 1976, 2 vols., v. 1, pp. 201-222. Numa mensagem confidencial ao presidente da província de São Paulo, em 1854, Nabuco de Araújo, ministro da Justiça, invoca “os interesses coletivos da sociedade”, para não aplicar a lei de 1831, prevendo a liberdade dos africanos introduzidos após esta data. Joaquim Nabuco, Um Estadista do Império (1897-1899), Topbooks, Rio de Janeiro, 1997, 2 vols., v. 1, p. 229, n. 6

(4) Beatriz G. Mamigonian, comunicação no seminário do Centre d’Études du Brésil et de l’Atlantique Sud, Université de Paris IV Sorbonne, 21/11/2006; D.Eltis, Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade, Oxford University Press, Oxford, U.K. 1989, appendix A, pp. 234-244.

(5) Joaquim Nabuco, O Abolicionismo (1883), ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1977, pp 115-120, 189. Quinze anos depois, confirmando a importância primordial do tráfico de africanos e da reprodução desterritorializada da produção escravista, Nabuco afirma que foi mais fácil abolir a escravidão em 1888, do que fazer cumprir a lei de 1831, id., Um Estadista do Império (1897-1899), Rio de Janeiro, Topbooks,1997, 2 vols., v. 1, p. 228.

(6) L.F. de Alencastro, “A desmemória e o recalque do crime na política brasileira”, in Adauto Novaes, O Esquecimento da Política, Agir Editora, Rio de Janeiro, 2007, pp. 321-334.

(7) Luiz Felipe de Alencastro, “Proletários e Escravos: imigrantes portugueses e cativos africanos no Rio de Janeiro 1850-1870”, in Novos Estudos Cebrap, n. 21, 1988, pp. 30-56;

(8) Elza Berquó e L.F. de Alencastro, “A Emergência do Voto Negro”, Novos Estudos Cebrap, São Paulo, nº33, 1992, pp.77-88.

(9) O censo de 1980 mostrava que o índice de indivíduos maiores de cinco anos “sem instrução ou com menos de um ano de instrução” era de 47,3% entre os pretos, 47,6% entre os pardos e 25,1% entre os brancos. A desproporção reduziu-se em seguida, mas não tem se modificado nos últimos 20 anos. Segundo as PNADs, em 1992, verificava-se que, na população maior de 15 anos, os brancos analfabetos representavam 4% e os negros 6,1%, e em 2008 as taxas eram, respectivamente, de 6,5% e 8,3%. O aumento das taxas de analfabetos provém, em boa parte, do fato que, a partir de 2004, a PNAD passa a incorporar a população rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá. Dados extraídos das tabelas do Ipea.

(10) Dados fornecidos pelo pesquisador do Ipea, Mario Lisboa Theodoro, que também participa desta Audiência Pública.

* Luís Felipe Alencastro é cientista político e historiador, professor titular da cátedra de História do Brasil da Universidade de Paris IV Sorbonne.

 

Algumas práticas simples fazem enorme diferença nas contas no final do mês e, consequentemente, melhoraram a competitividade das empresas.

Por Luiz Oliveira

Em empresas de todos os portes e também no ambiente doméstico, é muito comum que os usuários de computador se ausentem desse equipamento sem desligá-lo. Junto a ele, diversos equipamentos como estabilizadores, roteadores, impressoras e nobreaks permanecem sem uso, ainda que conectados durante horas a fio.

Sei que em um primeiro momento essa atitude pode parecer insignificante, mas após uma análise cuidadosa passam a ser perceptíveis os seus prejuízos. Estes seguem pela contramão das tendências que prezam pela economia e sustentabilidade no uso das soluções tecnológicas.

Acredito que a origem desse hábito seja a falta de conscientização sobre o assunto como um todo, além da ausência de uma clara política de sustentabilidade na maioria das empresas. Porém, é preciso que o consumidor entenda que, mesmo em stand-by, esses aparelhos gastam energia significativa ao longo dos anos.

Para entendermos melhor esse raciocínio, segue o seguinte exemplo: se considerarmos o desligamento de três equipamentos com potência de 300W em uma jornada de 9 horas de trabalho, é possível economizar cerca de 405KW, o que corresponde a aproximadamente R$ 117,45.

Em uma empresa, esse dinheiro pode ser revertido em benefícios para os funcionários, como premiações, além de campanhas de vendas e marketing. Ou seja, ações de baixo investimento, mas que geram resultados significativos. Existe ainda a possibilidade de se conseguir algum desconto na conta de luz, caso não se ultrapasse determinada quantidade de KW.

Já no ambiente doméstico, de acordo com dados da Eletrobras, a quantidade de energia descrita é o suficiente para o funcionamento de mais de 400 horas de um ferro elétrico, 600 para uma cafeteira e 800 para uma máquina de lavar roupas.

Além da disciplina no desligamento desses equipamentos, o consumidor brasileiro também pode contar com outros artifícios. Hoje, já existem produtos no mercado criados com a finalidade de reduzir custos com energia. Um exemplo são os roteadores equipados com botões que permitem o desligamento da rede Wi-Fi, enquanto sua função de fornecimento de internet continua ativa para os computadores conectados. Há ainda alternativas como o uso de aparelhos mais econômicos e estéticos, como monitor de LCD ao invés do antigo CRT, além da possibilidade de instalação de sensores de presença, que auxiliam no desligamento das luzes.

Sexta, 27 Abril 2012 14:19

Malfeitos encachoeirados

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“O moralista da boca pra fora apavora-me
tanto quanto o assaltante de arma em punho.”
(Antônio Luiz da Costa, sem saber que sua frase
 viria a calhar para o Senador Demóstenes Torres)

Tanto quanto dá pra sentir, mantidos os aparelhos da percepção pessoal devidamente sintonizados nos acontecimentos em curso, muita água promete ainda rolar nessa encachoeirada história (trocadilho inevitável) do promíscuo relacionamento do dadivoso banqueiro de bicho com cidadãos considerados acima de qualquer suspeita, de seu seleto rol de comparsas.

No incandescente tititi das rodas brasilienses tem-se como certo que, além das já tempestuosas revelações vindas a furo nas investigações oficiais, muitas outras informações bombásticas, talvez até mesmo liberadas (como sonante recado dirigido a possíveis aliados desejosos de abandonarem o navio) pelo próprio poderoso chefão recolhido ao xilindró de Mossoró, poderão explodir a qualquer instante, comprometendo outros viventes de grande projeção.

Aquele tremendo cara de pau, que posava, o tempo todo, no Senado, como Catão da República, fazendo gênero de vestal de templo sagrado, não seria, ao que tudo faz crer, o único figurão com frequência comprovada no esquema bilionário montado por Cachoeira pra azeitar as engrenagens da corrupção em Goiás e adjacências.

Outros graudões – é o que se propala à boca pequena – figuram na alça de mira das autoridades incumbidas das apurações. Comenta-se abertamente que as provas já recolhidas ou em vias de serem coletadas acenam com pagamentos de propinas vultosas carreadas pelo desenvolto chefe do clã mafioso a um punhado de outros elementos bem situados no cenário político e empresarial.

O homem, tanto quanto aquele outro célebre banqueiro apanhado nas malhas da operação “Satiagraha”, este, por sinal, no inexplicável desfrute de tranquila liberdade de movimentos cá fora depois de curta experiência como presidiário, parece dispor de munição farta pra disparar por aí. Isso, na hipótese das circunstâncias se mostrarem desfavoráveis às suas pretensões de escapar ileso da tormenta...

Pelo que já se tem como constatado, ao longo de sua movimentada carreira, Carlos Cachoeira andou indicando um montão de pessoas, de sua estrita confiança, para cargos importantes no governo do Estado de Goiás. De outra parte, são fortes e consistentes as suspeitas de que a mufunfa por ele repassada a comparsas não seria fruto exclusivo dos negócios ilícitos por ele operados com singular desenvoltura, na barba das autoridades goianas, como banqueiro de bicho.

Parte dos volumosos recursos procederia de outro gênero de maracutaia. A exemplo do notório Marcos Valério, coordenador dos dois mensalões à espera de julgamento, Carlos Cachoeira atuou como prestimoso intermediário, dando conta eficientemente do recado, de um bando de empreiteiros mergulhados a fundo em múltiplos esquemas de corrupção.

Aguardar o que está pra vir.

E, por último. Nessa história toda, há - como não? - algo positivo a comemorar. O combate aos crimes de colarinho branco ganhou, em tempos recentes, notável e salutar impulso. Seguir em frente.

 

* O jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) Cesar Vanucci escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalemente.

Quarta, 18 Abril 2012 21:24

Acupuntura, especialidade médica?

Escrito por

Por Cesar Vanucci *

“Lembro-me bem do tempo, não tão distante assim,
em que a acupuntura era tida como prática de curandeirismo.”
(Antonio Luiz da Costa, professor)

Estive a pique, falar verdade, de soltar estardalhante risada. Contive-me pelas implicações dramáticas do episódio na ação profissional de um bocado de gente. Essa decisão recente do Tribunal Regional Federal de Brasília, acatando postulação do Conselho Federal de Medicina, no sentido do reconhecimento de que a prática da Acupuntura só seja facultada a médicos, faça-me o favor, é de deixar arrepiados e estarrecidos todos os profetas esculpidos por Aleijadinho no ádrio da Matriz de Nosso Senhor Bom Jesus de Matozinhos, lá de Congonhas.

Quem, como este desajeitado memorialista de lances bizarros do comportamento humano, conserva ainda frescos na lembrança velha de guerra elucidativos registros da aurora dessa prática milenar oriental na vida brasileira, está careca de saber que a acupuntura aflorou por aqui rodeada de pesada carga de desconfianças e suspeitas. Sobretudo por conta das severas restrições terapêuticas estabelecidas em redutos médicos. Não poucos viam-na como um extravagante e herético exercício de curandeirismo, abominável ao olhar crítico da hermenêutica científica. Os vanguardeiros aplicadores dessa técnica alternativa eram olhados de esguelha, em não poucos ambientes. Eram acusados de envolverem com aconselhamento subversivo e anticientífico ingênuos pacientes, espetando-lhes agulhas pelo corpo em excêntricos rituais.

E não é que anos depois, bom pedaço de tempo transcorrido, a história começou a ser narrada de modo totalmente diferente! A acupuntura, como era decantado pelos iniciadores da prática, contrariando – repita-se – as alegações dogmáticas de poderosos opositores, “passou” a possuir, sim senhor, propriedades curativas dignas de nota. Já razoavelmente propagada nos hábitos comunitários, atiçou as atenções de setores que faziam questão fechada de menosprezá-la ostensivamente.

Daí, para ser incorporada à atuação profissional rotineira desses segmentos antes refratários à sua disseminação foi um passo rápido. Ocorreu, então, de os domínios dessa saudável atividade terapêutica passarem a ser palmilhados, ao mesmo tempo, com evidentes vantagens para a clientela cada dia mais volumosa, pelos terapeutas holísticos responsáveis pela sua introdução na praça, ou seja os acupunturistas da primeira hora, por médicos e por outros profissionais da área da Saúde, com realce para farmacêuticos e psicólogos. De repente, chega a público inesperada proclamação de um desses respeitáveis segmentos. A acupuntura – está sendo esclarecido doutoralmente – permite a utilização de agulhas de vários tamanhos, em áreas nobres do corpo. O profissional que maneja esses instrumentos, precisa dominar com precisão cientifica o que é feito. Conclusão inapelável: só os médicos, ouviu moçada?, mostram-se aptos a elaborar diagnósticos e a fazer tratamento por esse salutar processo.

A controversa alegação desaguou, obviamente, em contenda jurídica. O desate surpreendente, sujeito ainda naturalmente a chuvas e trovoadas por força dos recursos legais produzidos pelo compreensível inconformismo dos setores que vêm sendo descerimoniosamente alijados dessa área de atuação profissional, foi a decisão, hilária a mais não poder a considerar os antecedentes históricos narrados, tomada pelos magistrados brasilienses. O ex-presidente do Colégio Brasileiro de Acupuntura, médico Dirceu Sales, tomou da palavra, após a sentença, para explicar que “vamos agora conversar para ver como será a aplicação da decisão judicial”. Adicionou, magnânima e condescendentemente, que “não queremos fazer caça às bruxas ou que consultórios de outras especialidades sejam da noite para o dia fechados”. O vice-presidente do Conselho Federal de Medicina, Carlos Lima, deixou explícito que a decisão judicial representa “um ganho para a saúde, para a segurança do paciente.” Mas não é bem assim que a coisa é vista noutras paragens.

Os Conselhos representativos das demais categorias profissionais prometem brigar, com todas as forças, pelo direito de seus membros continuarem compartilhando a “ex-técnica maldita”, segundo o “veredicto” implacável do passado, com os colegas médicos. Taí um tipo de luta que encontra – é fácil comprovar – respaldo pra valer na simpatia popular.

Acupuntura, uma especialidade médica? Há sérias controvérsias a esse respeito.

* O jornalista Cesar Vanucci  (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Sexta, 13 Abril 2012 13:46

É possível evitar o câncer

Escrito por

Por Rogério Tuma*

Um estudo publicado na revista Science Translational Medicine, em 28 de março, faz uma revisão de dezenas de outras pesquisas sobre as causas dos tumores mais comuns que afligem a humanidade e conclui que mais da metade deles pode ser evitada. O principal pesquisador do estudo, o Dr. Graham Colditz, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington e diretor de Prevenção e Controle do Centro do Câncer Siteman, em Saint Louis, afirma que está na hora da ciência colocar todo seu conhecimento já adquirido em ação para implantar medidas preventivas que podem reduzir a incidência de câncer na humanidade.

De acordo com o estudo, o que já sabemos sobre estilo de vida e costumes, como tabagismo, dieta e exercícios, tem relevante papel no desenvolvimento de vários tipos de câncer e se conseguirmos de alguma maneira mudar nossos hábitos, mesmo que de maneira forçosa, vamos nos livrar de boa parte deles. O fumo, por exemplo, provoca mais de um terço dos casos de câncer, e a obesidade causa outros 20%. Um estudo feito na Índia, e publicado em março na Lancet Online First pelo professor Prabhat Jha, avaliou as mortes por câncer naquele país em 2010 e concluiu que 42% dos óbitos em homens e 20% em mulheres foram causados pelo fumo.

Os obstáculos para mudarmos isso são vários. O principal é o ceticismo de que o câncer pode ser evitado. Apesar de sabermos que o cigarro é o único causador de 75% dos tipos de câncer no pulmão, é difícil conseguir fazer um fumante parar de fumar ou alguém que nunca fumou entender o cigarro como algo muito perigoso. A dificuldade em se acreditar nisso é de que medidas preventivas, apesar de surtirem efeito imediatamente, demoram um tempo para demonstrar isso. Se abolirmos o fumo hoje, conseguiremos reduzir o tumor que mais mata homens em até 75%, mas esse índice será atingido em 20 anos.

O efeito nas outras doenças crônicas que serão evitadas também ficará bem claro em apenas uma ou até três décadas.

Outro obstáculo é que a ação preventiva em geral é dirigida ao adulto e não ao jovem. Quando ocorre o inverso, o efeito é muito mais eficaz. É o caso da vacinação contra o papilloma vírus, que causa câncer cervical uterino. Se a imunização for feita em meninas antes do início da atividade sexual, é muito melhor e, portanto, mais indicado. Mas poucos pais e governos levam as adolescentes para vacinação.

Outro obstáculo gigantesco é que grande parte dos recursos em pesquisa são gastos na busca do tratamento, e não na prevenção do câncer. Hoje, vale muito mais uma patente na mão do que um Nobel de medicina, mesmo porque não se ganha prêmios Nobel fazendo medicina preventiva. Programas preventivos que salvam milhares de vidas dificilmente são notados pela mídia, mesmo a especializada.

No Brasil, cerca de 300 mil pessoas morrem de câncer ao ano, e mais de 800 mil casos novos aparecem todos os anos. Nossa incidência é proporcionalmente um pouco menor do que nos países desenvolvidos, pois nossa população ainda morre de doenças que já estão sob controle no Primeiro Mundo. Mas aqui, por falta de recurso assistencial, morremos antes pelo mesmo tipo de câncer que os americanos.

Na década de 1990, esperávamos que os seres humanos pudessem nos dias de hoje ter uma expectativa de vida de mais de 120 anos. Isso não aconteceu, principalmente porque não mudamos nossos hábitos. O vício, o sedentarismo e o abuso de calorias na dieta serão por muito tempo nossos maiores algozes.

A coautora do estudo desabafa: “Medidas preventivas são baseadas em mudanças de políticas governamentais, que devem ser implantadas corajosamente. Podemos contar a história, mas se não houver massa crítica suficiente para forçar mudanças continuaremos morrendo à toa”.

* Rogério Tuma é médico neurologista.

** Publicado originalmente no site Carta Capital.

Sexta, 13 Abril 2012 13:29

Quem são os donos do cardápio infantil?

Escrito por

Por Noemia Perli Goldraich*

Atraídas por propagandas fascinantes que prometem um mundo de sonhos em um pacote de salgadinhos ou um pirulito, por brindes-brinquedos e pelas intermináveis coleções, as crianças se tornaram as principais vítimas desses alimentos e passaram a influenciar nas compras de toda a família. Quais as conseqüências de seguirmos ao sabor do vento das grandes corporações fabricantes de alimentos? E de não termos controle sobre a publicidade dirigida ao público infantil?

Há 40 anos trabalho como Nefrologista Pediátrica. Não recordo de ter identificado, antes dos anos 90, um único caso de pressão alta em criança que não estivesse relacionada a algum problema grave como doença nos rins, nas artérias renais, na aorta ou a tumores raros. Pressão alta era uma doença de adultos. Era!

Infelizmente, na última década, mais crianças passaram a sofrer de hipertensão arterial, uma doença crônica, isto é, que se arrasta por toda a vida e que necessita de medicação continuada. E qual a causa dessa repentina mudança? Múltiplos fatores podem causar a pressão alta mais comum – também chamada de hipertensão arterial essencial – mas os principais são a combinação de obesidade e ingestão de quantidades excessivas de sal na alimentação.

Antes de seguir em frente, é preciso que se diga que a pressão alta não é um probleminha qualquer. É fator de risco importante para infarto do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais (os derrames cerebrais), entre tantas outras consequências. E o resultado da obesidade iniciada na infância é o aparecimento de hipertensão arterial em crianças e adolescentes, de diabetes melito, doenças vasculares como infarto do miocárdio, tromboses, derrames cerebrais e todas as suas complicações.

Bem, mas não é de hoje que o sal está presente na alimentação humana. Então, por que agora estaria prejudicando também as crianças? O problema não é exatamente o sal, mas sim o sódio presente nele e é esse último que causa o aumento da pressão. É aí que entram os alimentos industrializados ou altamente processados. Há muita diferença na quantidade de sal (cloreto de sódio) colocado numa refeição cotidiana preparada em casa e os tais produtos industrializados. Nestes, o sódio está presente, além do sal, na estrutura dos conservantes e aromatizantes, usados para aumentar o período de validade ou para realçar o sabor, resultando em quantidades exageradamente grandes de sódio.

Nesse contexto, é preciso considerar que os hábitos alimentares dos brasileiros mudaram significativamente nos últimos anos. Saímos do feijão, arroz e bife para as comidas congeladas, as pré-prontas, os salgadinhos, os biscoitos e refrigerantes. Atraídas por propagandas fascinantes que prometem um mundo de sonhos em um pacote de salgadinhos ou um pirulito, por brindes-brinquedos e pelas intermináveis coleções, as crianças se tornaram as principais vítimas desses alimentos e passaram a influenciar nas compras de toda a família. Sem entender o que leem ou sem ler o que informam os rótulos, os pais também se seduzem pelos coloridos sinais de adição a anunciar + ferro, + cálcio, + vitaminas. Na verdade, estão comprando gordura, sal e açúcar, crentes de que seus filhos estão sendo bem alimentados. É isso mesmo. Em geral, as fantásticas embalagens coloridas contêm muita caloria e baixíssimo valor nutricional.

Estudos que vem sendo amplamente divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que o brasileiro está ingerindo mais que o dobro de sal da quantidade diária recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 5 gramas, o que equivale a uma colher de chá. O brasileiro, em média, está consumindo 12 gramas ao dia, o equivalente a uma colher de sopa. Muitos produtos que hoje fazem parte da dieta usual de crianças contêm quantidades exageradas de sal, sem que os pais percebam o perigo. Você sabe que um pacote de massa instantânea pré-cozida tipo miojo contém 5g de sal, que é a quantidade máxima diária recomendada para um adulto? Haja rins para dar conta!

Pesquisa publicada neste janeiro por um grupo da Filadélfia, no American Journal of Clinical Nutrition, uma importante revista da área, mostrou a relação entre o desenvolvimento da aceitação do gosto salgado e uma alimentação complementar, administrada a bebês, contendo amido (batatas, arroz, trigo, pão, bolachas). Foram comparados dois grupos de lactentes: um recebeu alimentação complementar com amido e o outro só comeu frutas em complemento ao leite. A aceitação para o gosto salgado já estava presente aos seis meses nos lactentes alimentados com amido e ausente nos que receberam só frutas. Os lactentes do primeiro grupo apresentaram maior probabilidade de lamber o sal da superfície dos alimentos na pré-escola, bem como de comer sal puro. Assim, segundo a pesquisa, experiências alimentares bem precoces (primeiros meses de vida) exercem um papel muito importante em moldar a resposta ao gosto salgado de lactentes e pré-escolares.

Sabemos que a formação do hábito alimentar se dá desde a gestação até cerca de dois anos de idade. E uma vez consolidado o padrão de gosto, fica difícil mudar. A isso, é preciso associar o padrão de uma infância sedentária em frente à televisão, computador e vídeo games. O resultado tem sido a obesidade. Dados do IBGE mostram que o excesso de peso e a obesidade são encontrados com grande frequência, aos cinco anos de idade, em todos os grupos de renda e em todas as regiões brasileiras.

Houve um salto no número de crianças de 5 a 9 anos com excesso de peso ao longo de 34 anos: em 2008-2009, 34,8% dos meninos estavam com o peso acima da faixa considerada saudável pela OMS. Em 1989, este índice era de 15%, contra 10,9% em 1974-75. Observou-se padrão semelhante nas meninas que, de 8,6% na década de 70, foram para 11,9% no final dos anos 80, e chegaram aos 32% em 2008-09.

O tempo de exposição à mídia também vem aumentando. Em média, as crianças ficam mais de 5 horas diárias em frente à TV, tempo superior ao permanecido na escola, que é de 4h30min. Além disso, o padrão das crianças de hoje é acessar varias mídias ao mesmo tempo e em quase todas há inserção de propaganda, ou seja, as crianças ficam expostas a um bombardeio mercadológico. Estudo feito pela Universidade de São Paulo, em 2007, mostrou que 82% dos comerciais televisivos sugeriam o consumo imediato de alimentos ultraprocessados, 78% mostravam personagens ingerindo-os no ato e 24% dos alunos expostos a tais mensagens apresentaram sobrepeso ou obesidade. Já um levantamento realizado pelo Ministério da Saúde em 2009 identificou que apenas 25% das crianças entre 2 e 5 anos e 38% das crianças entre 5 e 10 anos consomem frutas, legumes e verduras. Guloseimas como balas, biscoitos recheados, refrigerantes e salgadinhos ocuparam o espaço de refeições principais.

E a água? De repente esse bem essencial ao bom funcionamento do corpo humano foi sendo esquecido. Em creches, escolas e hospitais é comum não encontrarmos bebedouros. A água não está franqueada justamente a quem deveria receber estímulo constante para ingeri-la. O estímulo está focado nos sucos industrializados e nos refrigerantes.

E agora, já podemos responder quem são os donos do cardápio das nossas crianças? E quais as conseqüências de seguirmos ao sabor do vento das grandes corporações fabricantes de alimentos? E de não termos controle sobre a publicidade dirigida ao público infantil?

Se o que queremos para nossas crianças não é um futuro de obesos desnutridos, precisamos tomar as rédeas da situação e já. A informação continua sendo a chave-mestra e, pais, educadores e profissionais da saúde precisam saber identificar o que está escrito nos rótulos.

Se tomamos tantas medidas para a identificação de pessoas que entram nas nossas casas e nas escolas, porque não adotamos estes mesmos cuidados antes de permitir a entrada de substâncias no nosso organismo e das nossas crianças? Nunca é demais lembrar que bons hábitos alimentares começam a ser transmitidos na vida intra-uterina, que criança até dois anos não deve ser exposta ao sal e que não se deve colocar açúcar em chás e mamadeiras de bebês. Muito menos achocolatados, que contém açúcar e gordura em excesso.

Seguindo orientações da OMS, estão surgindo políticas públicas para redução do sal nos alimentos industrializados, assim como campanhas de esclarecimento ao público. Foram identificadas ações em 38 países, sendo a maioria na Europa. Já o Brasil recém está iniciando algumas medidas nessa área. Em janeiro deste ano, a Anvisa fez recomendações não obrigatórias para a redução, até 2014, em 10% no conteúdo de sal do pão francês.

Também em países europeus, há regras rígidas em relação à propaganda dirigida a crianças. Em terras nativas, dispensam-se comentários. Felizmente a sociedade começa a dar sinais de reação.

Acreditando que um outro mundo é possível, que tal a gente sonhar com uma sociedade em que a saúde das nossas crianças esteja acima dos interesses das megacorporações?

* Noemia Perli Goldraich é doutora em Nefrologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), pós-doutora em Nefrologia Pediátrica pela Universidade de Londres, professora-associada do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFRGS, nefrologista pediátrica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Doenças Crônicas na Infância da Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS.

** Publicado originalmente no site Carta Maior.

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