Editor

.

Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

    Leia mais ...
Quinta, 10 Maio 2012 16:56

Disposição imperial

Por Cesar Vanucci *


"As grandes nações têm atuado sempre como assaltantes."
(Stanley Kubrick)


Nas relações políticas e econômicas com o resto do mundo, temos dito e repetido, as grandes potências deixam claramente configurada sua disposição imperial. "Façam o que eu digo e não o que eu faço": este o teor da determinação por elas transmitida à comunidade internacional. Nesse recado, curto e grosso, manda-se a sutileza às urtigas e escancara-se, para bom entendimento, a considerável disparidade do poderio econômico, tecnológico e militar existente entre eles e os outros.

No Conselho de Segurança das Nações Unidas, o veto de um desses países – Estados Unidos, Rússia, China, Inglaterra e França – é suficiente para tornar inócua qualquer aspiração nascida do consenso da assembléia geral, constituída de centenas de Estados. Em não poucas oportunidades, as chamadas grandes potências desafiam abertamente as deliberações de seus pares, assumindo posições unilaterais que consultam apenas seus egoísticos interesses.

Não raramente também, esse tipo de ação dá vaza a alguma crítica por parte de outro componente do núcleo do veto. Mas o que acaba prevalecendo mesmo, aí, é uma espécie de "acordo de cavalheiros". A condenação acaba sendo expressa em termos que possam ser amortecidos no diálogo diplomático das chancelarias interessadas. Disso resulta uma certa condescendência recíproca com relação aos absurdos praticados por uns e outros.

Os Estados Unidos se recusaram, insensatamente, todo mundo se lembra, a firmar o "protocolo de Kyoto". O governo da Rússia foi, por outro lado, o último a apor assinatura no documento. Não é difícil calcular o tipo de pressão que estaria sendo exercida contra qualquer outro país, da lista dos emergentes e subdesenvolvidos, que se recusasse a figurar entre os signatários de uma decisão de tamanha magnitude, caso os Estados Unidos tivessem optado por apoiá-la.

No capítulo dos avanços tecnológicos espaciais e das experiências nucleares para fins pacíficos, o Brasil e outros países topam pela frente, volta e meia, com toda sorte de obstáculos e sanções externos. Procura-se impedir caminhem com as próprias pernas na busca das políticas que melhor se harmonizem com seus sagrados interesses. O monitoramento com relação ao que concebem e realizam, nesses domínios interditos, é implacável. "Façam o que eu mando e não o que eu faço". A palavra de ordem que chega, dos países com o domínio do conhecimento espacial e atômico, é incisiva. Enquanto torpedeiam com ameaças o desenvolvimento tecnológico dos outros, os "donos do mundo" entregam-se a frenéticos e, por vezes, diabólicos experimentos, ampliando as conquistas tecnológicas com vistas a bons negócios. Na guerra e na paz.

Os EUA romperam o tratado de não proliferação das armas de extermínio em massa, anunciando, logo depois, a criação de um fantástico complexo de blindagem antimíssil, sugestivamente chamado de "guerra nas estrelas". Enquanto isso, a Rússia, retomando o tom façanhudo de que havia se descartado logo após a debacle comunista, fala com espalhafato da construção de novas, inigualáveis e inimagináveis armas.

Não deixa de ser reconfortante perceber, no meio de tudo, que existe hoje uma consciência cívica coletiva altiva e aguerrida, em constante expansão, no Brasil, noutros países e, até mesmo, no seio das nações de presença hegemônica no mundo. É a sociedade humana se confessando inconformada com os rumos desvairados do planeta. Será dai, dos desejos de paz e dos anseios de progresso dominantes no sentimento das multidões, que acabarão brotando, mais na frente, transformações relevantes nas relações internacionais, na ordem econômica e na convivência social. Transformações que possam, finalmente, garantir para todos acesso pacífico aos benefícios do trabalho, do talento e da criatividade humana.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog Viva Pernambuco semanalmente.

Publicado em Artigos
Terça, 14 Fevereiro 2012 20:58

Decisão republicana e democrática

Por Cesar Vanucci *

 

“Compartilho do pensamento de Louis Brandeis:

“Nas coisas do poder, o melhor detergente é a luz do sol.”

(Ministro Carlos Ayres Brito, prestes a assumir a Presidência do STF, numa declaração em que assevera que ganho acima do teto é inadmissível)

 

A momentosa decisão do Supremo Tribunal Federal rejeitando, mesmo por placar apertado, a forte pressão de alguns órgãos representativos da categoria dos magistrados e conservando incólume a autonomia de investigação constitucionalmente assegurada do Conselho Nacional de Justiça, fez muito bem à Democracia. Desfez em parte o indisfarçável mal-estar produzido perante a opinião pública por certas reações corporativistas de claro achincalhe às decisões moralizadoras do Conselho.

Tais decisões – recordemo-nos -, inicialmente adotadas pelo corregedor Gilson Dipp e, mais adiante, com maior ênfase, pela corregedora Eliana Calmon, trouxeram a lume chocantes revelações. Revelações acerca de salários pagos que afrontam as regras gerais de remuneração estabelecidas para os servidores públicos. Revelações referentes a movimentações financeiras suspeitosas e a pagamentos milionários despropositados, à guiza de ajuda de custo, atribuídos a juízes e funcionários.

As auditorias efetuadas permitiram a descoberta de que no Estado do Rio de Janeiro, pra ficar num exemplo, alguns desembargadores, por conta de incabíveis benefícios que eles próprios resolveram se outorgar, chegam a apropriar-se de vencimentos mensais de até 150 mil reais, quantia infinitamente superior aos 26 mil reais instituídos como teto oficial remuneratório para agentes públicos. Teto esse, por sinal, que corresponde à remuneração atribuída ao presidente da mais alta Corte Judiciária do País.

Ainda falando do que acontece apenas no Rio de Janeiro, um servidor judiciário de posto elevado, cujo nome vem também associado a atividades fraudulentas múltiplas, foi pilhado em movimentações na conta pessoal da ordem de 283 milhões de reais, num único exercício. Tem mais: essa avultada soma é parte de um montante apurado de quase 600 milhões de reais em transações bancarias “consideradas atípicas”. São operações que envolvem 205 integrantes do setor judiciário em vários Estados, consoante levantamento feito pelo Conselho de Atividades Financeiras (Coaf), por determinação do Conselho Nacional de Justiça.

Diante dos dados enunciados e de outras irregularidades não menos perturbadoras, outra não poderia ser, em verdade, convenhamos, a atitude dos doutos Ministros, senão preservar o poder de decisão investigatório do CNJ. Seu posicionamento, à altura das melhores tradições da judicatura brasileira, revelou bom senso, sentimento republicano, desejo de saudável transparência e crença nos valores democráticos. Rechaçou argumentos pueris, nascidos de caprichos e excessos corporativistas. Respondeu satisfatoriamente ao clamor altivo da sociedade como um todo. E, certeiramente, atendeu à aspiração da imensa maioria dos magistrados brasileiros. Uma maioria, estamos certos, que vê nessa ação desvirtuada de uma minoria enredada em procedimentos contrapostos aos padrões éticos e retilíneos desejáveis na atuação da nobre categoria um fator de intranquilidade social. Uma gritante distorção, a ser convenientemente extirpada, da imagem impoluta que a opinião pública conserva, por razões de sobra, de sua conduta profissional.

Nessa história toda há que se louvar ainda a postura destemida da Corregedora Eliana Calmon. Os agravos e doestos de que tem sido alvo por parte de um reduzido grupo não ofuscaram, afortunadamente, o brilho do trabalho por ela executado. Um trabalho que rendeu reconhecimento para que pudesse ocupar, com todo mérito, um lugar de realce na admiração e  apreço das ruas.

O que todos os setores sinceramente engajados na discussão do palpitante tema passam a desejar, a partir dessa resolução do Supremo, é que a Reforma Judiciária seja apressada. Seja incluída, ao lado da Reforma Política, da Reforma Tributária e de outras mais, no rol dos estudos prioritários exigidos, neste momento, pela ânsia brasileira de progresso, em nome do aprimoramento do exercício das coisas públicas em nosso País.

*  O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve para o Blog semanalmente.

Publicado em Artigos
Segunda, 06 Fevereiro 2012 14:39

Ápice da boçalidade

Por Cesar Vanucci *

“Pode bisbilhotar. É a fofoca em horário nobre e em escala nacional.

 Não fique de fora, espie à vontade.”

(Pedro Bial, apresentador do BBB)

Nessa mixórdia toda, o que menos conta é o estupro ao vivo e a cores que, aliás, não aconteceu. Vê lá se o BBB carece de qualquer ingrediente escabroso extra para alcançar de forma estrepitosa, como do gosto dos que o produzem, o ápice da boçalidade!

A tal cena de sexo explícito que tanta polêmica rendeu, admitida consensualmente pelos personagens atracados sob as cobertas e, inequivocamente, pelos que conduziram as lascivas filmagens não passa mesmo, no duro da batatolina, de baixaria encaixada no enredo mode fazer crescer ibope. O mau gosto dominante no mais difundido “reality show” em exibição, como todos os demais um desfile de barbaridade e vulgaridade que empobrece culturalmente a televisão, é congênito. Mal de raiz, por assim dizer. Está na essência, no conceito do programa. Não é agora que as barreiras éticas e, até mesmo, legais estão sendo transpostas. Isso vem acontecendo desde o começo da nefasta série. Desde quando a Globo resolveu abdicar de sua privilegiada condição em ocupar o espaço nobre concedido ao BBB com entretenimento de qualidade nascido do engenho e arte da talentosa equipe de produtores, atores, diretores e intérpretes responsável, no passado, pelo assim denominado “padrão global”.

Esquecida de que o padrão global mencionado tem proporcionado à rede e seus colaboradores prêmios sem conta de ressonância mundial, na faixa dos espetáculos musicais, na dramaturgia e no jornalismo. Decisões despojadas de sensibilidade cultural e educativa levaram à desastrada opção de se por no ar, já neste momento em 12ª versão, um produto simplesmente inqualificável. Um programa de origem estrangeira extraído da sarjeta televisiva. Uma “atração” que cria, a todo instante, circunstâncias facilitadoras para que se possa rodar filmete pornô “adaptado ao ambiente familiar”, com o deseducativo intuito de impressionar platéia pouco exigente, que se deixa enredar pela babaquice e indigência intelectual das “celebridades instantâneas” convocadas a “estrelá-lo”.

Não há como deixar de consignar, no episódio, que muitas reações furibundas derivadas das cenas do tal estupro que não houve, entre elas, de força realçante, o ato “moralizador” da Globo excluindo do “palco” o modelo profissional de epiderme escura por haver se comportado de “forma inadequada”, rescendeu a rematada hipocrisia. Puro farisaísmo. O que se viu e se reprovou é o que sempre se vê. Pra fins de “moralização” em regra da coisa, a posição correta a tomar é reformatar o programa por inteiro. Melhor do que isso: retirá-lo para sempre da grade. Ocupar o espaço nobre mal utilizado com produto artístico e cultural de qualidade tolerável. Um produto que possa trazer, sim, resultados lucrativos, mas que não se apreste à disseminação da burrice, da mediocridade, da futilidade e da anti-cidadania.

No mais, é como disse um leitor, outro dia: os “bês” do programa querem dizer babaquice, besteiragem e boçalidade, apenas isso. Ou como lembra, em tirada bem humorada, um outro leitor: não vai demorar muito pra direção do BBB excluir outro figurante pelo fato de haver sido pilhado em flagrante lendo um livro.

 *  O jornalta Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalemnte para o Blog.

Publicado em Artigos
Terça, 24 Janeiro 2012 00:01

Esse tal de Capitão Astiz

Por Cesar Vanucci *

Nas masmorras da ditadura argentina e no campo
 de batalha deixou evidenciado o mesmo desassombro.”

(Antônio Luiz da Costa, professor)

Esse tal de capitão Alfredo Astiz, que vem de ser, juntamente com outros dezessete comparsas, condenado à prisão perpétua pela Justiça argentina, em razão de atrocidades cometidas durante a ditadura militar em seu país, é protagonista de um episódio de estrepitoso surrealismo ocorrido durante a “Guerra das Malvinas”. Algo que produziu duradoura estupefação.

Tristemente celebrizado pela bestial ferocidade empregada no extermínio de criaturas indefesas, entre elas doze fundadoras do movimento “Mães da Praça de Maio”, duas freiras francesas e uma adolescente sueca, detida “por equívoco”; um dos cabeças do terrorismo de Estado que levou à eliminação de milhares de seres humanos nos porões do regime militar, ele foi escolhido a dedo, por sua apregoada condição de “estrategista militar” e de “líder corajoso e resoluto”, para comandar a primeira frente de resistência das tropas argentinas que se posicionaram nas ilhas contestadas com vistas ao inevitável enfrentamento das forças britânicas.

Sua atuação deixou todos, até os próprios inimigos, boquiabertos. Nem bem a primeira fileira dos soldados gurkas, temidos combatentes da legião estrangeira inglesa, botou pra fora dos lanchões de desembarque as cabeças envoltas em turbantes, e já o “desassombrado” chefe militar, aos brados e com gestos frenéticos, danou a agitar a bandeira branca de rendição. A cidadela sob seus cuidados acabou sendo conquistada sem que se disparasse um único tiro.  Capturado nessas condições - extremamente desonrosas para um chefe militar depositário da irrestrita confiança dos ditadores portenhos engajados na tresloucada aventura bélica das Malvinas - o cara por muito pouco não foi extraditado para a França ou Suécia. Nesses países, seus hediondos crimes, julgados à revelia, renderam-lhe penas severas. Negociações, por sinal intermediadas pela Embaixada brasileira em Londres, impediram a entrega do demoníaco “Anjo Loiro” aos tribunais franceses. Um indivíduo asqueroso, pelo que se viu, de extrema “valentia” no trato com presos e desafetos a qualquer título colocados sob sua custódia e de atordoante covardia no campo de batalha na defesa do que acreditava ser parte sagrada do território pátrio.

Da série de crimes “por equívoco” que se lhe é creditada consta também vítima brasileira. Trata-se de um integrante de grupo artístico que acompanhava Vinicius de Moraes em turnê pela Argentina. Ao que se divulgou na época, o músico saiu do hotel, em Buenos Aires, à noite, durante toque de recolher, para compra de cigarros. Teve a infelicidade de topar com uma patrulha militar, pelo que se soube, chefiada pelo próprio Astiz. Nunca mais foi visto.

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Publicado em Artigos
Quinta, 29 Dezembro 2011 20:28

Revendo um filme "maldito"

Por Cesar Vanucci *

“ Os vícios de outrora são os costumes de hoje”

(Sêneca)

De princípio, uma baita curiosidade. Ao depois, certa surpresa, quase derivando para aturdimento. Junto, sorrisos e, pra arrematar, irrefreável riso. Correu assim, sem tirar nem por, o meu reencontro agora com um filme visto com mistura de deleite e sobressalto há mais de meio século. Minha Nossa Senhora da Abadia D’Água Suja, como os costumes se alteram no cotidiano da vida!

Noite dessas, revi na telinha o “ Les Amants”, de Louis Malle, filme apontado como “maldito” quando do lançamento em 1958. Recordo-me bem, vasculhando a jeito as ladeiras da memória, da pororoca de registros desairosos que a fita acumulou em curto período de projeção. A fúria do ultra puritanismo foi de tal monta que as autoridades competentes, de um governo (JK) considerado o mais aberto a manifestações culturais de vanguarda que o País ao longo de sua história já havia experimentado, não tiveram outra alternativa senão a de proibirem a exibição nos cinemas. Uma leve insinuação de cena erótica supostamente nunca dantes mostrada deu origem às reações. Nas portas das salas de projeção fileiras de pessoas de mãos dadas, algumas carregando terços, exprimiam sua zanga com relação àquela obra blasfema, herética, demoníaca, que agredia, segundo se propagou, a moral, os bons costumes, os valores familiares e religiosos mais sagrados.

Em púlpitos, tribunas, colunas de jornais essas reações coléricas também explodiam. Apreciadores de cinema que ousaram, naqueles momentos turbulentos, desafiar o veto dos autoproclamados censores de plantão, assistindo ao filme no curto espaço de tempo em que em foi mantido em cartaz, eram mimoseados com ensurdecedores apupos. Colocaram-se sob ameaça mesmo de constrangimentos físicos. O Chefe de Polícia, que detinha poderes quase equivalentes aos de um Ministro militar, veio a público para assegurar sua total disposição de resolver a pendência, se preciso na marra, caso tardasse a sair a decisão judicial desfazendo aquela pouca vergonha.

Creio chegada a hora de fornecer ao distinto público, sobretudo aos que não viram “ Les amants”, algumas informações acerca da fita. Drama francês, como já dito, dirigido por Louis Malle, expoente da chamada “Nouvelle Vague”, e estrelado pela fascinante Jeanne Moreau, com Alairr Cunn, Jean-Mare Bory e Judith Magre nos demais papéis de realce, o filme, rodado em preto e branco, narra a história de uma relação amorosa extraconjugal. Do ponto de vista estético e das interpretações é uma obra, ainda hoje, digna de louvor, o que explica o “Leão de Ouro” conquistado no Festival de Veneza, um dos muitos prêmios que conseguiu arrebatar.  

A “cena escandalosa”, de cunho amoroso, que provocou a ira santa levada às ruas pode ser apontada hoje, em comparação com as cenas de qualquer filme romântico exibido em vesperais infantis, como uma singela referência pudica enquadrada na mais edulcorada concepção de relacionamento afetivo bolada na literatura de madame Delly. Oportuno relembrar, como outro indicador da atmosfera puritana então vigente, que à mesma época uma reação nesse mesmo tresloucado figurino cercou também outro filme, este brasileiro, “O Padre e a moça”, de  Joaquim Pedro de Andrade.

Depois de haver revisto “Les Amants”, tantos anos decorridos, sinto-me tentado, com absoluta tranqüilidade de espírito, a registrar aqui uma sincera recomendação. Em eventual seleção de fitas visando proporcionar saudável entretenimento a religiosas reclusas, sugiro, respeitosamente, às dignas e zelosas Superioras das congregações que refuguem produções fílmicas românticas produzidas nestes confusos tempos atuais, substituindo-as por sessões corridas dessa terna e lírica criação artística de Louis Malle, por seu conteúdo mais  edificante.              

* O jornalista Cesar Vanucci (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) escreve semanalmente para o Blog.

Publicado em Artigos
Quarta, 21 Dezembro 2011 22:23

Histórias de Natal

natalPor Cesar Vanucci*

“A expansão prodigiosa do mundo atual dá ao mistério do Natal uma dimensão nova.”

(Jacques Joew)

Acho uma baita falta de consideração e muito pouco ético esse negócio das pessoas desencarnarem no Natal ou nas imediações do Natal. Falar verdade, a observação se aplica também a outros instantes de sublimação coletiva, como, por exemplo, vitória na Copa do Mundo. Horas assim não se aprestam a adeuses doloridos, nem separações bruscas. Natal é celebração de vida e não momento de partida. Suas evocações simbólicas falam alvissareiramente de chegada e de permanência. Dependesse de minha vontade, o governo editaria medida provisória proibindo, em caráter irrevogável, que as pessoas morressem nesse dia. As lideranças partidárias no Congresso seriam convocadas para aprovar a peremptória decisão com a mesma ligeireza com que, no apagar das luzes da temporada parlamentar, costumam votar indecorosas vantagens pecuniárias.

Esse meu inconformismo com o "encantamento" que acomete alguns no período de comemoração natalina está associado à lembrança  de um Natal da meninice. Um episódio que deixou marca nas ladeiras da memória. Preparávamo-nos, todos, na mais santa alegria, para os festejos. Os semblantes eram dominados pela idéia da trégua, do repouso, da confraternização em seu significado mais puro e autêntico. O aspecto mercantil do evento não havia atingido ainda patamar que permitisse essas ousadas e modernosas tentativas de se substituir, como símbolo natalino, a meiga figura nazarena da manjedoura pelo peru da sadia. De repente, o impacto  de uma ocorrência brutal. Vieram nos contar que um garotinho da vizinhança, companheiro de inocentes estripulias, havia perdido a vida numa enchente de córrego provocada por chuva forte.

Sentimos, todos, uma dificuldade grande para absorver aquele aparente triunfo da morte sobre a vida, justamente num momento de celebração da vida em plenitude. O incidente, naquela precisa hora, não passava de um tremendo contra-senso. Claro, que a rolagem dos anos trouxe a explicação. Mas o sinal daquela brusca ruptura com a vida ficou.

De outro Natal da infância já trago lembrança doce e terna. Meus pais, Antonio e Antonia, me levaram pelo braço pra ver as prateleiras apinhadas de brinquedos da Livraria São Bento, na rua do Comércio,  Uberaba. Pelo que entendi, o local era uma espécie de entreposto usado por Papai Noel para guardar os presentes que iria enfiar chaminé abaixo nas casas dos meninos de bom comportamento. Deixei minha cartinha, com pedido, nas mãos de da. Sinhá Brasil, gerente do estabelecimento.

Em casa, antes do sono chegar, as mãos postas e a alma feliz, renovei na oração que mamãe ensinou o pedido ao velhinho do trenó. Na manhã seguinte, ao lado da cama avistei o pequeno bilhar que desejava receber como presente. O mano Augusto Cesar jurava haver testemunhado a chegada de Papai Noel  no quarto, de madrugada, pé ante pé,  para fazer a entrega dos presentes encomendados. As reverberações mágicas daquele precioso instante estão presentes em todas as celebrações natalinas deste amigo de vocês. Que se vale do grato ensejo para desejar-lhes um Feliz Natal e um próspero Ano Novo.

* Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) e escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Publicado em Artigos
Terça, 29 Novembro 2011 21:27

O recado de Zumbi

300px-ZumbidospalmaresPor Cesar Vanucci *

"Sou negro, como é negra a noite.

 Sou negro como as profundezas d'África"

(Langston Hughes, poeta negro norteamericano)

De tempos distantes chegam até nós, nesta hora de celebrações, o clamor e a ânsia de liberdade de Palmares. A lendária figura de Zumbi se introduz nas atenções populares, em toda sua grandeza épica, carregando sonhos e esperanças de libertação. São sentimentos válidos não apenas para aquele momento vivido e sofrido do holocausto negro, em que o abençoado irredentismo do herói da raça cravou presença na história. Aproveitam a todos os instantes, épocas e lugares onde a insanidade encontra terreno propício para cultivar o germe da divisão dos homens pela cor e pela etnia.

A mensagem de Zumbi, evocada nas comemorações da "Semana da Consciência Negra", é de ofuscante atualidade. Aborrece o desvario radical, as posturas acomodadas, as reações hipócritas. As atitudes cotidianas que asseguram, em tantas partes e setores deste planeta azul, a cobrança implacável e interminável de um tributo de dor e humilhação às pessoas de epiderme escura. Contra elas, em nome de ostensiva ou encapuzada, mas sempre despropositada e falsa supremacia racial, são colocadas em movimento, mais exacerbadas aqui, mais brandas ali, as engrenagens do ódio, da ignorância e da opressão e, também, da indiferença e da omissão, que conseguem às vezes magoar e ferir tanto quanto.

Sendo de conteúdo universal, dizendo respeito a uma questão de essência no capítulo dos direitos fundamentais do ser humano, o recado de Zumbi dos Palmares foi feito para alcançar todos aqueles territórios do Atlas Geográfico em que se pratica discriminação, em que se cultiva racismo. Serve de reforço no combate ao segregacionismo em que se acha empenhada a poderosa sociedade democrática do país de Martin Luther King. Experimentando alívio diante dos bons resultados já alcançados e alguma expectativa quanto aos futuros desdobramentos, acompanha as evoluções no processo de integração conduzido por Nelson Mandella na África do Sul. Alenta e encoraja grupos minoritários perseguidos e ultrajados em largas extensões desse mundo de Deus onde o diabo costuma plantar seus indesejáveis enclaves.

Confronta clima permanente e dolorido de desconfiança, a partir das inquirições e revistas de bagagens diferenciadas nos postos alfandegários, com que são recebidos em países da Europa e nos Estados Unidos turistas e imigrantes negros ou de outras raças discriminadas. O recado de Zumbi convida a comunidade brasileira a uma séria reflexão. O que remete logo à necessidade de se conhecer nas exatas proporções os problemas enfrentados, nestes nossos pagos, pelos descendentes africanos.

Vamos falar disso na seqüência. Mas, antes, que tal ligar os aparelhos de reflexão para anotar este impecável conceito de Anatole France a respeito do assunto? Assim falou o mestre: “Na maioria das vezes é tão difícil distinguir num povo as raças que o compõem como seguir no curso de um rio os riachos que nele se jogaram. E que é uma raça? Há realmente raças humanas? Vejo que há homens brancos, homens vermelhos, homens amarelos e homens negros. Mas não se trata de raças, senão das variedades de uma mesma raça, de uma mesma espécie, que formam entre eles uniões fecundas e se misturam constantemente.”

*Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ), e escreve semanalmente para o Blog.  

Publicado em Artigos
Sexta, 18 Novembro 2011 21:16

Pobreza de espírito

1321480119364-lula-cancerPor Cesar Vanucci *

“Exibiram outra vez ignorância e grosseria.”

(Cynara Menezes, jornalista, lamentando as reações

de uma aguerrida minoria à notícia da doença de Lula)

“Lula, a doença e a estupidez – o Brasil que se acha inteligente e bem informado exibe outra vez sua ignorância e grosseria”: em texto muito bem lançado, Cynara Menezes comenta na “CartaCapital” as reações impregnadas de rancor - que expõem um Brasil tosco, espalhadas por parte da mídia e nas redes sociais - à noticia do câncer de laringe que acometeu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Como registra a jornalista, “Nunca antes na história do Brasil alguém recebeu tantos ataques pelo simples motivos de anunciar uma doença.” Na verdade, em que pesem as milhares e milhares de comoventes mensagens de solidariedade, levadas ao ilustre brasileiro em seu leito no Hospital Sírio Libanês, incluídas aí as manifestações edificantes e civilizadas das principais lideranças da oposição política, extrapolou todos os limites do bom senso o volume exagerado de alusões ressentidas, preconceituosas e raivosas ao fato, formuladas por elementos que parecem não se haver conformado até hoje com a ascensão desse sindicalista metalúrgico à chefia do governo brasileiro. Esse pessoal pôs pra circular na Internet uma saraivada de diatribes e baixarias, tentando ressuscitar, de certa maneira, o clima de desvairada belicosidade com que uma minoria aguerrida combateu, no passado, a campanha amplamente vitoriosa, do líder popular que conseguiu granjear, por óbvias razões, os maiores índices de popularidade e simpatia já alcançados por alguém na cena pública da crônica política brasileira. Gracejos imbecis, agravos despropositados, declarações estapafúrdias, desrespeitosas, encharcadas de intolerância e irracionalidade, compuseram aquilo que alguém, pertinentemente, classificou de “esgoto de torpezas.”

Um videotape grotesco daquela enxurrada de agravos, que tão penosa lembrança deixou no espírito popular, montada anos atrás com o maquiavélico intuito de incompatibilizar o então candidato com os diferentes segmentos da sociedade, de modo a obstar a ascensão de um genuíno Silva, do andar de baixo da estrutura socioeconômica, às grimpas do poder político. Aconteceu naquela época de boataria maldosa e insistente, alimentada até por influentes próceres classistas da FIESP, de que o Brasil seria inapelavelmente sacolejado, na hipótese da “indesejada” eleição de Lula, por verdadeiro êxodo de empresários, tendo em vista os “tenebrosos” planos de desmantelamento das atividades produtivas tradicionais que seu governo tinha em cogitação implementar.

Essa deplorável forma de reação à enfermidade do ex-presidente traduz pobreza de espírito. Expõe sem rebuços a face desumana de uma porção sabidamente minoritária da comunidade, que mesmo detendo ainda certos instrumentos capazes de influenciar negativamente os rumos das coisas, distanciou-se anos-luz, emotiva, afetiva, psicológica e socialmente do Brasil autêntico. Do Brasil humanística e espiritualmente solidário com os valores que conferem dignidade a vida humana.

* Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) e escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

Publicado em Artigos
Segunda, 14 Novembro 2011 18:57

Missão cumprida

Por Cesar Vanucci *

“Um grande brasileiro, dedicado e apaixonado pelo seu País.”

(Olavo Machado Junior, presidente da Fiemg, referindo-se a José Alencar)

Tenho o prazer de participar que o livro “José Alencar – missão cumprida”, de minha autoria, editado com o apoio cultural da Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais), foi lançado no dia 11.11.11, em Belo Horizonte, na sede da mencionada entidade. Muitos amigos e leitores distinguiram-me com sua presença no ato.

O presidente do Sistema Fiemg, empresário Olavo Machado Junior, assinou o prefácio.

Na introdução do livro, registro as seguintes palavras: 

“Até a morte, tudo é vida.”

(Cervantes, “Dom Quixote”)

A vida humana é finita. Um tremeluzir de relâmpago na vastidão da eternidade. A gente principia a morrer quando nasce. Começa a arrumar a mochila da partida na própria hora da chegada. Richard Bach explica magistralmente o indesvendável e excitante mistério da aventura humana quando registra existir um jeito muito simples de saber se está cumprida a missão de alguém: se está vivo, não está.

No caso de José Alencar Gomes da Silva – o Vice-Presidente que nos conquistou com copiosos exemplos de apreço à causa pública e que nos emocionou com a bravura indômita demonstrada em atos inequívocos de seu dia a dia, mostrando-nos que a vida é um dom precioso a ser desfrutado e preservado – a missão foi cumprida. Esplendidamente cumprida.

É disso que se procura dar notícia no material de leitura da sequência.

Estão aqui enfeixados comentários que lancei, logo após a partida do grande brasileiro, em jornais e blogs com os quais colaboro, com destaque especial para o “Diário do Comércio”, de Belo Horizonte, e artigos, também de minha autoria, divulgados em momentos anteriores à sua morte.

O livro abre espaço para manifestações de outros amigos e colaboradores do querido personagem. Rememora, ainda, momentos em que Lula e Alencar se enxergaram parceiros de épica empreitada. A empreitada que conduziu, numa proeza sem precedentes, dois representantes da imensa legião dos Silvas brasileiros, ambos de origem humilde, desprovidos do verniz doutoral universitário, mas laureados nas ásperas refregas da escola da vida, por dois mandatos consecutivos, ao supremo comando da República. Mandatos esses transcorridos num período de realizações incomparáveis que atraíram as atenções e a admiração do mundo inteiro para o esforço irrefreável de nosso povo na conquista do futuro.

A leitura destas páginas concorrerá, de algum modo, para que o leitor, inteirando-se de mais informações a respeito da obra de Alencar em sua peregrinação pela pátria terrena, conclua como ele certamente o fez, louvado em Cervantes (por sinal,  autor de sua especial predileção), que “até a morte, tudo é vida.”

* Cesar Vanucci, jornalista mineiro (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ), escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

 

Publicado em Artigos

jose_alencar_cesar_vanucciPor Taíza Brito

Saudamos e desejamos sucesso ao jornalista e escritor mineiro César Vanucci – articulista semanal do Blog Viva Pernambuco – pelo lançamento do livro “José Alencar, missão cumprida”, que acontece na próxima sexta-feira, 11 de novembro, às 18h, na Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG), localizada à avenida do Contorno, 4520, 1º andar, Belo Horizonte.

No livro, o jornalista, que é membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro (ALTM), aborda o perfil empreendedor de José Alencar Gomes da Silva, ex-presidente da República do Governo Lula, ex-senador mineiro, e ex-presidente do Sistema FIEMG.

César Vanucci trabalhou como superintendente por muitos anos no Sistema FIEMG, durante a gestão presidencial de José Alencar frente àquela entidade classista, acompanhando de perto a trajetória do ex-vice-presidente.

De Pernambuco, vibrações positivas!

Publicado em Blog
Pagina 1 de 5

twitter

Apoio..................................................

mercado_etico
ive
logotipo-brahma-kumaris