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Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

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castellsPor Jordi Rovira, da Universitad Oberta de Catalunya*

Os meios de comunicação passaram semanas centrando sua atenção na Tunísia e no Egito. As insurreições populares que se desenvolveram após o sacrifício do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi, terminaram em poucos dias com a ditadura de Bem Ali e na sequência, como peças enfileiradas de dominó, com a “presidência” de Hosni Mubarack. Abriram-se processos democráticos em ambos os países. Manifestantes também saem às ruas árabes na Líbia, Iêmen, Argélia, Jordânia, Bahrain e Omã.

Em todos esse processos, as novas tecnologias jogam um papel chave primordial — em especial, as redes sociais, que permitem superar a censura. Ante esse desfecho histórico, Manuel Castells, catedrático sociólogo e diretor do Instituto Interdisciplinar sobre Internet, na Universitat Oberta de Catalunya, aprofunda a reflexão sob o que se passa e oferece chaves para entender um movimento cidadão que tira o máximo proveito dos novos canais de comunicação ao seu alcance.

Jordi Rovira - Os movimentos sociais espontâneos na Tunísia e Egito pegaram desprevenidos os analistas políticos. Como sociólogo e estudioso da Comunicação, você foi surpreendido pela ação da sociedade-rede destes países, em sua mobilização?

Manuel Castells - Na verdade não. No meu livro Comunicação e Poder, dediquei muitas paginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente.

As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de “auto-comunicação de massas”.

JR - Poderíamos considerar estas insurreições populares um novo ponto de inflexão na história e evolução da internet? Ou teríamos que analisá-las como conseqüência lógica, ainda de grande envergadura, da implantação da rede no mundo?

MC - As insurreições populares no mundo árabe são um ponto de inflexão na história social e política da humanidade. E talvez a mais importante das muitas transformações que a internet induziu e facilitou, em todos os âmbitos da vida, sociedade, economia e cultura. Estamos apenas começando, porque o movimento se acelera, embora a internet seja uma tecnologia antiga, implantada pela primeira vez em 1969.

JR - A juventude egípcia desempenhou um papel chave nas insurreições populares, graças ao uso das novas tecnologias. No entanto, segundo os cálculos de Issandr El Amrani, analista político independente no Cairo, apenas uma pequena parte da população egípcia dispõem de acesso a internet. Pensa que esta situação pode criar uma brecha – usando suas próprias palavras, entre “conectados” e “desconectados” – ainda maior que a que se da nos países desenvolvidos?

MC - O dado já esta antiquado. De acordo com uma pesquisa recente (2010), da empresa informação Ovum, cerca de 40% dos egípcios maiores de 16 anos estão conectados à internet — se levarmos em conta não apenas as ligações domiciliares, mas também os cibercafés e os centros de estudo. Entre os jovens urbanos, as taxas chegam a 70%.

Além disso, segundo dados recentes, 80% da população adulta urbana esta conectada por celulares. E de qualquer maneira, estamos falando de um país com 80 milhões de habitantes. Ainda que apenas um quarto deles estivessem conectados, já poderia haver milhões de pessoas nas ruas. Nem todo o Egito se manifestou, mas uma número de cidadãos suficiente para que se sentissem unidos, e pudessem derrotar o ditador.

A história da brecha digital em termos de acesso é velha, falsa hoje em dia e rabugenta. Parte de uma predisposição ideológica de certos intelectuais interessados em minimizar a importância da internet. Há 2 bilhões de internautas no planeta, bilhões de usuários de celulares. Os pobres também têm telefones móveis e existem ainda outras formas de acessar a internet. A verdadeira diferença se dá na banda e na qualidade de conexão, não no acesso em si, que está se difundindo com rapidez maior que qualquer outra tecnologia na história.

JR - Até que ponto o poder dispõe de ferramentas necessárias para sufocar as insurreições promovidas desde a rede?

MC - Não as tem. No Egito, inclusive, tentaram desconectar toda a rede e não conseguiram. Houve mil formas, incluindo conexões fixas de telefone a numero no exterior, que transformavam automaticamente as mensagens em twetts e fax no país. E o custo econômico e funcional da desconexão da internet é tão alta que tiveram que restaurá-la rapidamente.

Hoje em dia, um apagão da rede é como um elétrico. Bem Ali não caii tão rápido, houve um mês de manifestações e massacres. O Irã não pode se desconectar a rede: os manifestantes estiveram sempre comunicando-se e expondo suas ações em vídeos no Youtube. A diferença é que ali, politicamente, o regime teve força para reprimir selvagemente sem que interviesse o exército. Porém as sementes da rebelião estão plantadas e os jovens iranianos, 70% da população, estão agora maciçamente contra o regime. É questão de tempo.

JR - A mobilização popular através dos meios digitais criou heróis da cibernéticos no Egito — como Weal Ghonim, o jovem executivo do Google. Que papel podem desempenhar esses novos lideres no futuro de seus países?

MC - O importante das “wikirrevoluções” (as que se auto-geram e se auto-organizam) é que as lideranças não contam, são puros símbolos.

Símbolos que não mandam nada, pois ninguém os obedeceria, eles tampouco tentariam impor-se. Pode ser que, uma vez institucionalizada, a revolução coopte se algumas destas pessoas como símbolos de mudanças — ainda que eu duvide muito que Ghonim queira ser político. Cohn Bendit era também um símbolo, não um líder. Foi estudante e amigo meu em 68, ele era um autêntico anarquista: Rechaçava as decisões dos líderes e utilizava seu carisma (foi o primeiro a ser reprimido) para ajudar a mobilização espontânea.

Walesa foi diferente, um vaticanista do aparato sindical. Por isso, tornou-se político rapidamente. Cohn Bendit tardou muito mais e ainda assim é, fundamentalmente um verde, que mantém valores de respeito às origens dos movimentos sociais.

JR - A aliança entre meios de comunicação convencional e novas tecnologias é o caminho a seguir no futuro, para enfrentar com êxito os grandes desafios?

MC - Os grande meios de comunicação não têm escolha. Ou aliam-se com a internet e com o jornalismo cidadão, ou irão se marginalizando e tornando-se economicamente insustentáveis. Mas hoje, essa aliança ainda é decisiva para a mudança social. Sem Al Jazeera não teria havido revolução na Tunísia.

Em um artigo intitulado “Comunicação e Revolução”, você recordou que em 5 de fevereiro a China havia proibido a palavra Egito na Internet. Acredita que existem condições para que possa ocorrer, no gigante asiático, um movimento popular parecido com o que esta percorrendo o mundo árabe?

Não, porque 72% do chineses apoiam seu governo. A classe média urbana, sobretudo os jovens, estão muito ocupados enriquecendo-se. Os verdadeiros problemas do campesinato e operários — ou seja, os verdadeiros problemas sociais da China — encontram se muito longe. O governo resguarda-se demais, porque a censura antagoniza muita gente que não está realmente contra o regime. Na China, a democracia não é, hoje, um problema para a maioria das pessoas, diferente do que ocorria na Tunísia e no Egito.

JR - Esse novo tipo de comunicação, globalizada, atomizada e que se nutre se da colaboração de milhões de usuários, pode chegar a transformar nossa maneira de entender a comunicação interpessoal? Ou é apenas uma ferramenta potente a mais, à nossa disposição?

MC - Já tranformou. Ninguém que esta inserido diariamente nas rede sociais (este é o caso de 700 dos 1,2 milhões de usuários) segue sendo a mesma pessoa. Mas não é um mundo exotérico: há uma inter-relação online/off-line.

Como esta comunicação mudou, e muda a cada dia, é uma questão que se deve responder por meio de investigação acadêmica, não através de especialistas em fofocas. E por isso empreendemos o Projeto Internet Catalunha na UOC.

JR - Podemos dizer que os ciber-ataques serão a guerra do futuro?

MC - Na realidade, esta guerra já faz parte do presente. Os Estados Unidos consideram prioritária a ciberguerra. Destinaram a este tama um orçamento dez vezes maior que todos os demais países juntos. Na Espanha, as Forças Armadas também estão se equipando rapidamente na mesma direção. A internet é o espaço do poder e da felicidade, da paz e da guerra.

É o espaço social do nosso mundo, um lugar hibrido, construído na interface entre a experiência direta e a mediada pela comunicação, e sobretudo, pela comunicação na internet.

* Tradução: Cauê Seigne Ameni

Publicado em Viva Mundo
Domingo, 27 Fevereiro 2011 14:51

Anseios ardentes

Por Cesar Vanucci *

Sem essa de ditadura melhor
ou de ditadura pior. Nenhuma ditadura presta
.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Os anseios ardentes dos autênticos democratas no mundo inteiro são no sentido de que a misericórdia de Alá poupe o povo egípcio da praga de uma nova ditadura. As ameaças de que algo tão insano possa vir a ocorrer não devem ser descartadas assim sem mais nem menos. O clamor libertário que invadiu as ruas e continua a sacudir as estruturas feudais do mundo árabe corre algum risco de se ver, de repente, sufocado pela voragem de acontecimentos situados à deriva da vontade majoritária das populações inconformadas.

A sociedade egípcia sempre viveu sob a guante do despotismo. O regime que se sucedeu à monarquia caquética do rei Farouk assumiu, de princípio, posições nacionalistas que insuflaram o orgulho árabe. Mas não abriu mão, em instante algum, de conservar sob severo controle todo tipo de manifestação da sociedade, reprimindo com virulência protestos e discordâncias. O autoritarismo de Nasser foi absorvido como legado valioso por Sadat e, depois, transferido a Mubarak. A Junta que hoje detém o comando do país representa o poderoso braço militar que garantiu, ao longo (e bota longo nisso) de todo esse tempo, a sustentação do sistema repudiado nessa avalancha de insatisfação popular.

Muitos analistas alimentam, à vista disso, temores de que as promessas de mudanças não se concretizem de imediato, como desejado. O anúncio de algumas reformas sem se avançar na essência dos problemas poderia ser feito com o maroto propósito de não se fazer reforma fundamental alguma. O que acabaria subsistindo, nessa hipotética amarga alternativa, seria apenas uma mera troca de guarda, com os detentores do poder esmerando-se em arranjar denominação diversa, nos atos praticados, para procedimentos detestáveis herdados dos antecessores.

Outra ameaça potencial que os democratas temem, na heróica luta movimentada com fervor e pureza de intenções por parcelas majoritárias da sociedade egípcia, consiste no apetite voraz pela conquista do poder que embala grupos fundamentalistas radicais islâmicos. Esses grupos integram a frente popular que clama nas praças públicas pelas reformas. A visão retrograda que os membros desses segmentos fanatizados têm das coisas do mundo acena fatalmente com o advento de uma era trevosa, caso se viabilizasse a hipótese, altamente indesejável, de conseguirem galgar, por alguma distorção do processo em marcha, o comando político do país.

As avaliações que se tem do perturbador contexto político egípcio se encaixam também na realidade política vivida pelos demais países do convulsionado mundo árabe. A expectativa dos amantes da paz e dos adeptos da causa democrática é de que o movimento mudancista, de características genuinamente populares, que tomou as ruas árabes saiba impor suas regras e emergir amplamente vitorioso dos debates ora  travados a respeito dos rumos a serem trilhados. E que deixe claramente explicitada sua vigorosa postura, antagônica a qualquer manifestação de tendência totalitária que pinte no pedaço.

Das grandes potências o que se aguarda é que se abstenham do frenético afã de garantir alianças de duvidosa eficácia em suas estratégias geopolíticas. Que quebrem a regra de estimular ações que se interponham ao andamento normal do processo de formação das estruturas democráticas almejadas pela maioria. Uma lição que precisa ser aprendida vez por todas: firmar acordos com governos legitimamente constituídos é o melhor meio de se preservar a paz e de se trabalhar pelo bem estar humano.

* Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) e escreve semanalmente para o Blog.

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Domingo, 27 Fevereiro 2011 14:19

Novos Egitos virão

egito21Por Igor Fuser, do Brasil de Fato

As raízes da revolta árabe não se limitam a problemas regionais como autoritarismo e corrupção, mas envolvem os efeitos sociais perversos da globalização capitalista.

O panorama internacional apresenta ao menos quatro tendências importantes:

1 - A queda da influência dos EUA
A derrubada das ditaduras na Tunísia e no Egito representa um novo marco no declínio da capacidade do imperialismo estadunidense em definir as questões mundiais conforme a sua vontade. A derrota se mostra mais grave por ter como cenário o Oriente Médio, região estratégica onde se situam dois terços das reservas petrolíferas. Os EUA tratam de reduzir o prejuízo manobrando para que os novos governantes daqueles dois países permaneçam sob o controle de Washington. O fato é que os EUA terão mais dificuldade em impor suas preferências. Lideranças novas e velhas buscarão maior autonomia em política externa a fim de diluir a imagem de submissão aos EUA. O perdedor mais direto é Israel, que vê sua margem de ação drasticamente diminuída.

2 - Persistência da crise econômica mundial
A recuperação nos EUA é modesta e insuficiente para compensar os empregos perdidos. Na Europa e no Japão, o quadro é ainda mais sombrio. A falta de consenso entre as elites dirigentes globais estimula a guerra cambial entre as potências econômicas. O único ponto comum na reação à crise é a retomada da ofensiva neoliberal contra a classe trabalhadora e os benefícios sociais.

3 - Alta dos preços dos alimentos e da energia
As causas são a especulação financeira, o aumento do consumo nos países “emergentes” e as catástrofes climáticas ligadas ao aquecimento global. Como resultado, agravam-se as condições de vida em boa parte do planeta, criando um terreno propício a rebeliões populares como no norte da África. Ao mesmo tempo, intensifica-se a compra de terras em países periféricos por empresas estrangeiras. O preço do petróleo também está aumentando, o que tornará mais difícil o fim da recessão.

4 - Ascenso das mobilizações populares
As raízes da revolta árabe não se limitam a problemas regionais como autoritarismo e corrupção, mas envolvem os efeitos sociais perversos da globalização capitalista. Trata-se, pois, de um movimento que se articula com a onda de protestos contra as políticas neoliberais em boa parte do mundo, sobretudo na Europa. Vivemos um novo ciclo de lutas sociais em escala internacional. Novas “surpresas” devem surgir, em outros pontos do planeta.

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Terça, 22 Fevereiro 2011 01:16

Lógica coronelística

Por Cesar Vanucci *

Uma nódoa da civilização é o apoio de países que pregam
 a democracia a ditaduras corrompidas e sanguinárias
.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Amigo não tem defeito. Inimigo, se não tem, eu boto. Para a maior parte das pessoas, tais frases, de enunciação simplória, dir-se-á mesmo folclórica, traduzem uma lógica política vigorante apenas em arraiais coronelísticos. Mas a história, desde que contada por inteiro, não é bem assim. Não poucos redutos políticos refinados, até mesmo no plano internacional, costumam pautar também suas ações por essa destrambelhada lógica. É só por tento no que vem relatado no noticiário nosso de cada dia.

Convido o distinto leitor a um esforço de memória pra ver só como os exemplos naturalmente afloram. Das ladeiras da memória recolho uma historinha emblemática. Transcorrida décadas atrás, conserva frescor atual quando comparada com episódios contemporâneos. Naquela importante cidade interiorana, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro, de orientação getulista), à época majoritário em todas as esferas de representação municipal, partiu-se ao meio. Uma ala do partido, comandada por médico que já ocupara o cargo de Prefeito, transferiu-se de mala e cuia, como era de bom tom dizer-se em tempos passados, para a UDN (União Democrática Nacional).

Nessa agremiação se congregavam, naquele tempo, os mais rancorosos adversários do petebismo. Não demorou nadica de nada para que o ex-prócer trabalhista que se bandeou para a “falange inimiga” deixasse de ser tratado pelos recém-correligionários como “Gregório branco” (alusão pejorativa inspirada no célebre guarda-costas de Getulio Vargas) e passasse a ser enaltecido, em verso e prosa, por tudo quanto é canto, como “médico humanitário, adorado pela gente humilde.”

Quantas vezes já não assistimos, vida afora, filmes com esse sugestivo enredo, não importa se em preto e branco, em cores, em versão digital, três dimensões, com atores, diretores, e cenários diferentes? A ambição pelo poder, expressando-se em linguagem mais rústica ali, mais sofisticada acolá, confronta dificuldades, em numerosos momentos, de camuflar o jogo rasteiro dos bastidores. O que o coronelão de um lugarejo plantado nos cafundós pensa, diz e faz conserva notável similitude com aquilo que muitas lideranças influentes, aqui dentro ou lá fora, pensam, dizem e fazem.

Mutatis mutandis, esse tem sido um processo igualmente partilhado, com artifícios requintadissimos, pelos representantes das grandes potências em sua relação com boa parte do mundo. Mundo esse, assinale-se de passagem, do qual elas, as grandes potências, se supõem, por outorga divina, incontestes mandatárias. As artimanhas geopolíticas, impregnadas de maquiavelismo, contemplam todo aliado incondicional como amigo virtuoso.

Não preocupam, não incomodam, as ignomínias cometidas no âmbito doméstico contra indefesos compatriotas que ousem contestar o déspota de plantão. A ele são rendidas todas glórias (e benesses), bem como assegurada, com a prestimosa colaboração – tá claro – dos canais de comunicação de abrangência mundial, blindagem razoável de maneira a impedir fiquem expostas persistentemente, perante a opinião pública global, as felonias praticadas.

O caso de Idi Amim Dada é revelador. Tirano impiedoso, recebeu tratamento de estadista por longo período. Chegou a ser até agraciado com a patente honorífica de brigadeiro do ar pela Força Aérea israelita. Num de seus habituais surtos paranóicos, resolveu mudar de lado, apoiando ações de desvairados terroristas. Só assim é que seu verdadeiro perfil facinoroso passou a ser mostrado com o realce adequado.

Outro caso sintomático, entre muitos, envolve o ditador da Líbia, Muammar Kadafi. Durante bom pedaço de tempo ele figurou na relação dos mais notórios terroristas planetários. E não sem fartas razões. Sua habitação foi alvo, por conta das posições extremadas assumidas, de arrasadores ataques de mísseis. Um determinado dia, em razão de um pacto secreto, que implicou, entre outros itens, no reconhecimento pelo ditador líbio de sua participação em empreitadas criminosas, resolveu-se, sem mais essa, nem aquela, que seu nome seria retirado da lista dos vilões com cabeça a prêmio.

Recebeu, por conta do arranjo, uma carteirinha de bom moço. Suas façanhas despóticas não mais frequentaram o noticiário. Igualzinho, aliás, acontece, desde sempre, com outros aliados incômodos, com toda certeza inconfiáveis, notadamente no mundo árabe,vários deles, neste preciso momento, sob o fogo cerrado de multidões ansiosas por se libertarem das amarras da opressão que, impunemente (pelo menos até agora), patrocinam.

Verdade seja dita. O mundo anseia por uma mea culpa das grandes potências que sirva de ponto de partida para desatrelar de sua atuação no cenário internacional todas essas alianças espúrias firmadas com ditaduras cruéis e corruptas.
* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

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Segunda, 14 Fevereiro 2011 12:17

Convulsão no mundo árabe

size_590_manifestante-egitoPor Cesar Vanucci *

Não queremos um Estado islâmico,

 queremos um Estado democrático.”

(Rached Ghammchi, líder oposicionista tunisiano)

As manifestações de rua que fazem tremer o mundo árabe pedem das grandes potências ocidentais, os Estados Unidos em primeiro lugar, um esforço reflexivo despojado de preconceitos rançosos. Nada de levantar suspeições desvairadas, derivadas de vesguice política ou de conveniências estratégicas mal pensadas e mal pesadas. Nada de decisões estouvadas.

A cumplicidade, por tão largo espaço de tempo, com o despotismo de governantes impopulares, que hoje vêem colocadas estardalhantemente em xeque a sua legitimidade, acumulou ressentimentos sem conta em todos os quadrantes da sociedade árabe. Avaliações açodadas, em dissonância com a realidade dos fatos, em desacordo com o sentimento das populações tomadas de compreensível indignação, só tenderão a aguçar ainda mais as indisfarçáveis e fortes discordâncias existentes, podendo até mesmo torná-las, a partir de certo momento, incontornáveis.

Erros crassos na interpretação das coisas no passado provocaram danos irreparáveis na convivência com os árabes. Isso não pode voltar a ocorrer nessa hora explosiva, segundo alguns especialistas em política internacional muito parecida, sob certos aspectos, com os momentos que antecederam o desmoronamento do império comunista na década de 80. Bom senso e discernimento são requeridos das lideranças mundiais para saber distinguir com exatidão, nesse instante, o que está essencialmente em jogo.

Forças democráticas e facções radicais islâmicas compartilham, na verdade, ações em torno da derrubada de ditaduras esclerosadas.  Mas o que prevalece majoritariamente, como poderoso e primordial anseio dos insurgentes, é a substituição, bem depressa, das pesadas, violentas e anacrônicas estruturas de poder, ainda vigentes, por regimes que defendam as liberdades públicas, os direitos civis e a construção do bem estar social.

O que todos esperam das grandes lideranças internacionais, em dias próximos futuros, são ações políticas capazes de libertar as nações convulsionadas da estagnação econômica e social a que foram condenadas por excesso de inépcia e corrupção. Figuras de proa da inteligência egípcia, tunisiana, jordaniana e de outros países, entre eles até um Nobel da Paz, já deixaram claro ser seu intento e de seus liderados o alinhamento dos futuros governos com as diretrizes da democracia liberal.

Esse posicionamento revela não lhes interessar em absoluto a substituição dos déspotas supostamente laicos, já desalojados ou em vias de sê-lo do comando político, por fanáticos religiosos de formação autocrática. “Democracia, sim, lei islâmica Sharia, não”, proclamavam cartazes empunhados por manifestantes.

O que toca às grandes potências ocidentais agora fazer é procurar entender, com clareza e objetividade, esse saudável propósito de mudanças. Evitar declarações e atitudes que estimulem jogadas clandestinas articuladas com espúrios propósitos, em atendimento a suspeitosas “conveniências estratégicas”. Evitar, ainda, concessões a incômodos aliados, que apesar de destronados, persistem em preservar o “status quo” abominado nas manifestações. Esses ai parecem contar, pra espanto geral, com o apoio surpreendente de poderosas lideranças regionais empenhadas em que tudo permaneça como dantes no quartel de Abrantes.

As grandes potências não podem também ignorar que a  ocasião é mais do que propicia para alertas endereçados a outros tiranos do mundo árabe, ainda não alvejados pelo “efeito dominó” da presente onda mudancista, quanto aos riscos que os ameaçam de iminentes abalos internos violentos com consequências imprevisíveis.

Esses abalos se farão inevitáveis, caso persistam em preservar seus odiosos privilégios feudais, emudecendo pelo terror policial as vozes de discordância. Qualquer pessoa com razoável grau de informações a respeito do que rola hoje no mundo árabe sabe apontar sem vacilações os países em vias de se tornarem “bola da vez”.

* É Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ) e escreve semanalmente para o Blog Viva Pernambuco.

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86745Por Alex Rodrigues e Renata Giraldi, da Agência Brasil

Depois de 18 dias de protesto contra o governo do Egito, o presidente do país, Hosni Mubarak, de 82 anos, renunciou nesta sexta-feira (11) ao cargo. Ele passou quase três décadas no poder. A decisão foi anunciada em um comunicado na rede estatal de televisão.

Após o anúncio de Mubarak, os manifestantes reunidos na Praça Tahrir, que virou uma espécie de símbolo para as manifestações no Egito, e em vários locais do país comemoraram. Os manifestantes prometeram intensificar os protestos, caso Mubarak insistisse em se manter no cargo.

Autoridades egípcias confirmaram que Mubarak e a família deixaram o Cairo, pela manhã, em direção ao resort de Charm el-Cheikh, no Mar Vermelho. O resort fica a 250 quilômetros do Cairo. Helicópteros foram vistos deixando a residência oficial do presidente na manhã desta sexta-feira.

Em Brasília, a Embaixada do Egito no Brasil informou que não prestará esclarecimentos sobre a renúncia de Mubarak nem sobre como será o funcionamento do governo provisório. De acordo com a assessoria da representação diplomática, se houver algum tipo de manifestação, ela será feita por meio de comunicado enviado aos veículos de imprensa por e-mail.

Nos 18 dias de protestos contra Mubarak, a embaixada se manifestou em uma ocasião – em uma nota, na qual pediu desculpas ao governo brasileiro pelo tratamento dispensado pelas autoridades egípcias aos repórteres Corban Costa, da Rádio Nacional, e Gilvan Costa, da TV Brasil. Corban e Gilvan foram presos por 18 horas, tiveram os olhos vendados e os equipamentos apreendidos.

Depois do pedido formal de desculpas, o governo brasileiro decidiu não apresentar uma nota de protesto ao Egito. O embaixador do Brasil no país, Cesario Melantonio Neto, chegou a elaborar uma proposta de queixa formal ao governo egípcio.

*Com informações da Agência Lusa

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ditaduraPor Ignacio Ramonet*

Uma ditadura na Tunísia? No Egito, uma ditadura? Vendo os meios de comunicação se esbaldarem com a palavra “ditadura” aplicada a Tunísia de Bem Alí e ao Egito de Moubarak, os franceses devem estar se perguntando se entenderam ou leram bem. Esses mesmos meios de comunicação e esses mesmos jornalistas não insistiram durante décadas que esses dois “países amigos” eram “Estados moderados”? A horrível palavra “ditadura” não estava exclusivamente reservada no mundo árabe muçulmano (depois da destruição da “espantosa tirania” de Saddam Hussein no Iraque) ao regime iraniano? Como? Havia então outras ditaduras na região? E isso foi ocultado pelos meios de comunicação de nossa exemplar democracia?

Eis aqui, em todo caso, um primeiro abrir de olhos que devemos ao rebelde povo da Tunísia. Sua prodigiosa vitória liberou os europeus da “retórica hipócrita de ocultamento” em vigor em nossas chancelarias e em nossa mídia. Obrigados a tirar a máscara, simulam descobrir o que sabíamos há algum tempo (1), a saber, que as “ditaduras amigas” não são mais do que isso: regimes de opressão.

Sobre esse assunto, os meios de comunicação não têm feito outra coisa do que seguir a “linha oficial”: fechar os olhos ou olhar para o outro lado confirmando a ideia de que a imprensa só é livre em relação aos fracos e aos povos isolados. Por acaso Nicolás Sarkozy não teve a altivez de assegurar que na Tunísia “havia uma desesperança, um sofrimento, um sentimento de angústia que, precisamos reconhecer, não havíamos apreciado em sua justa medida”, ao se referir ao sistema mafioso do clã Ben Alí-Trabelsi?

“Não havíamos apreciado em sua justa medida…” Em 23 anos…Apesar de contar, neste país, com serviços diplomáticos mais prolíficos que os de qualquer outro país…Apesar da colaboração em todos os setores da segurança (polícia, inteligência…) (2). Apesar das estâncias regulares de altos responsáveis políticos e midiáticos que estabeleciam ali descomplexadamente seus locais de veraneio…Apesar da existência na França de dirigentes exilados da oposição tunisiana, mantidos marginalizados como pesteados pelas autoridades francesas e com acesso proibido durante décadas aos grandes meios de comunicação… Democracia ruinosa…

Na realidade, esses regimes autoritários foram (e seguem sendo) protegidos de modo complacente pelas democracias europeias, que desprezaram seus próprios valores sob o pretexto de que constituíam baluartes contra o islamismo radical (3). O mesmo argumento cínico usado pelo Ocidente durante a Guerra Fria para apoiar ditaduras militares na Europa (Espanha, Portugal, Grécia e Turquia) e na América Latina, pretendendo impedir a chegada do comunismo ao poder.

Que formidável lição das sociedades árabes revolucionárias aqueles que, na Europa, os descreviam em termos maniqueístas, ou seja, como massas dóceis submetidas a tiranos orientais corruptos ou como multidões histéricas possuídas pelo fanatismo religioso. E agora, de repente, elas surgem nas telas de nossos computadores e televisores (conferir o admirável trabalho da Al-Jazeera), preocupadas com o progresso social, não obcecadas pela questão religiosa, sedentas de liberdade, cansadas da corrupção, detestando as desigualdades e reclamando democracia para todos, sem exclusões.

Longes das caricaturas binárias, esses povos não constituem de modo algum uma espécie de “exceção árabe”, mas sim se assemelham em suas aspirações políticas ao resto das ilustradas sociedades urbanas modernas. Um terço dos tunisianos e quase um quarto dos egípcios navegam regularmente pela internet. Como afirma Moulay Hicham El Alaoui: “Os novos movimentos já não estão marcados pelos velhos antagonismos como anti-imperialismo, anticolonialismo ou antisecularismo. As manifestações na Tunísia e no Egito são, até aqui, desprovidas de todo simbolismo religioso. Constituem uma ruptura geracional que refuta a tese do excepcionalismo árabe. Além disso, esses movimentos são animados pelas novas metodologias de comunicação da internet. Eles propõem uma nova versão da sociedade civil, onde o rechaço ao autoritarismo anda de mãos dadas com o rechaço à corrupção” (4).

Especialmente graças às redes sociais digitais, as sociedades da Tunísia e do Egito se mobilizaram com grande rapidez e puderam desestabilizar o poder em tempo recorde. Ainda antes de os movimentos terem a oportunidade de “amadurecer” e favorecer a emergência de novos dirigentes entre eles. É uma das raras ocasiões onde, sem líderes, sem organizações dirigentes e sem programa, a simples dinâmica da exasperação das massas bastou para conseguir o triunfo da revolução. Trata-se de um momento frágil e, sem dúvida, as grandes potências já estão trabalhando, especialmente no Egito, para que “tudo mude sem que nada mude”, segundo o velho adágio de O Leopardo. Esses povos que conquistaram sua liberdade devem lembrar a advertência de Balzac: “Se matará a imprensa assim como se mata um povo, outorgando-lhe a liberdade” (5). Nas “democracias vigiadas” é muito mais fácil domesticar legitimamente um povo do que nas antigas ditaduras. Mas isso não justifica sua manutenção. Nem deve ofuscar o ardor de derrubar uma tirania.

A derrocada da ditadura na Tunísia foi tão veloz que os demais povos magrebinos e árabes chegaram à conclusão de que essas autocracias – as mais velhas do mundo – estavam na verdade profundamente corroídas e não eram, portanto, mais do que “tigres de papel”. Esta demonstração está ocorrendo também no Egito.

Daí esse impressionante levante dos povos árabes, que leva a pensar inevitavelmente no grande florescimento das revoluções europeias de 1848, na Jordânia, Iêmen, Argélia, Síria, Arábia Saudita, Sudão e também no Marrocos.

Neste último país, uma monarquia absoluta, na qual o resultado das “eleições” (sempre viciado) é decidido pelo soberano, que designa segundo sua vontade os chamados ministros “da soberania”, algumas dezenas de famílias próximas ao trono continuam controlando a maioria das riquezas (6). Os telegramas divulgados por Wikileaks revelaram que a corrupção chega a níveis de indecência descomunal, maiores que os encontrados na Tunísia de Ben Alí, e que as redes mafiosas teriam todas como origem o Palácio. Trata-se de um país onde a prática da tortura está generalizada e o amordaçamento da imprensa é permanente.

No entanto, como na Tunísia de Ben Alí, esta “ditadura amiga” se beneficia da grande indulgência dos meios de comunicação e da maior parte de nossos responsáveis políticos (7), os quais minimizam os sinais do começo de um “contágio” da rebelião. Quatro pessoas se imolaram, incendiando suas próprias vestes. Produziram-se manifestações de solidariedade com os rebeldes da Tunísia e do Egito em Tânger, Fez e Rabat (8). Acossadas pelo medo, as autoridades decidiram subvencionar preventivamente os artigos de primeira necessidade para evitar as “rebeliões do pão”. Importantes contingentes de tropas do Saara Ocidental teriam sido deslocados aceleradamente para Rabat e Casablanca. O rei Mohamed VI e alguns colaboradores teriam viajado a França no dia 29 de janeiro para consultar especialistas em ordem pública do Ministério do Interior francês (9).

Ainda que as autoridades desmintam as duas últimas informações, está claro que a sociedade marroquina está seguindo os acontecimentos da Tunísia e do Egito, com excitação. Preparados para unir-se ao impulso de fervor revolucionário e quebrar de uma vez por todas as travas feudais. E para cobrar todos aqueles que, na Europa, foram cúmplices durante décadas dessas “ditaduras amigas”.

NOTAS

(1) Ler, por exemplo, de Jacqueline Boucher “La société tunisienne privée de parole” e de Ignacio Ramonet “Main de fer en Tunisie”, Le Monde Diplomatique, de fevereiro de 1996 e de julho de 1996, respectivamente.

(2) Quando Mohamed Bouazizi se imolou incendiando-se em 17 de dezembro de 2010, quando a insurreição ganhava todo o país e dezenas de tunisianos rebeldes continuavam caindo sob as balas da repressão, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoé, e a ministra de Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie consideravam absolutamente normal ir festejar alegremente em Tunis.

(3) Ao mesmo tempo, Washington e seus aliados europeus, sem aparentemente medir as contradições, apoiam o regime teocrático e tirânico da Arábia Saudita, principal sede do islamismo mais obscurantista e mais expansionista.

(4) http://www.medelu.org/spip.php?article711

(5) Honoré de Balzac, Monographie de la presse parisienne, Paris, 1843.

(6) Ler Ignacio Ramonet, “La poudrière Maroc”, Mémoire des luttes, setembro 2008. http://www.medelu.org/spip.php?article111

(7) Desde Nicolas Sarkozy até Ségolène Royal, passando por Dominique Strauss-Kahn, que possui um “ryad” em Marrakesh, os dirigentes políticos franceses não têm o menor escrúpulo em passar suas férias de inverno entre estas “ditaduras amigas”.

(8) El País, 30 de janeiro de 2011- http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat

(9) Ler El País, 30 de janeiro de 2011 http://www.elpais.com/..Mohamed/VI/va/vacaciones y Pierre Haski, “Le discret voyage du roi du Maroc dans son château de l´Oise”, Rue89, 29 de janeiro de 2011. http://www.rue89.com/..le-roi-du-maroc-en-voyage-discret…188096http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

*Ignacio Ramonet é jornalista e presidente da ONG Media Watch Global

Publicado em Viva Mundo

egitoDa EcoD

Para onde vai a água utilizada todos os dias pelos cerca de 80 milhões de egípcios? Atualmente, o governo do país conhecido em razão das famosas pirâmides, reaproveita o recurso natural para regar áreas desérticas no intuito de convertê-las em florestas, segundo informações da Agência EFE.

A intervenção humana já provoca uma diferença significativa na paisagem egípcia, pois onde antes havia uma paisagem desértica e inóspita, agora há áreas verdes cobertas de árvores de alto valor econômico como álamos, papiros e eucaliptos. São as chamadas “florestas feitas à mão”.

“A água residual pode transformar o que não é fértil, como o deserto, em algo fértil, já que contém nitrogênio, micronutrientes e substâncias orgânicas ricas para a terra”, explicou à EFE o professor do Instituto de Pesquisa de Solo, Água e Ambiente Nabil Kandil, especializado na análise de terrenos desérticos adequados para o florestamento.

Opinião semelhante tem o professor do Departamento de Pesquisa de Contaminação da Água, Hamdy el Awady, que ressalta uma suposta superioridade das plantas regadas com água reaproveitada. “Esse tipo de água tem muito mais nutrientes do que a água tratada e, por isso, é uma fonte extra de nutrição que pode fazer com que as plantas resistentes aos climas hostis cresçam mais rápido e, inclusive, tenham folhas mais verdes”, argumentou.

Processo de “construção de florestas”

Atualmente, o Egito produz 7 milhões de metros cúbicos de água residual ao ano. Ao mesmo tempo, o país tem 95% do território coberto por desertos estéreis ou com pouca vegetação. Há 34 florestas em solo egípcio, localizadas em cidades como Ismailia e Sinai, no Norte, e em regiões turísticas do Sul, como Luxor e Assuã, em um total de 71,4 mil quilômetros quadrados (área equivalente à superfície total do Panamá).

De acordo com o governo egípcio, há outras dez florestas em processo de “construção”, em uma área de 18,6 mil quilômetros quadrados. Os mais de 71 mil quilômetros quadrados de floresta plantadas até agora são resultado das análises de solo, clima e água que possibilitaram a escolha das espécies de árvores capazes de sobreviver em condições extremas.

Para Kandil, os resultados positivos da experiência são a prova de que o problema no país não é a terra, que no Egito tem de sobra, mas de onde extrair a água. Obtê-la das estações de tratamento primário, onde são eliminados os poluentes sólidos, foi a saída mais barata, especialmente porque os sistemas de irrigação que transportam e bombeiam o líquido são os mesmos utilizados há anos pelos camponeses egípcios.

Apesar desta água exigir precaução devido à presença de poluentes, além do fato de que os impactos da mudança no ecossistema para a biodiversidade ainda são desconhecidos, o projeto implementado pelo Ministério de Agricultura em parceria com o de Ambiente demonstra sucesso.

De acordo com Kandil, as “florestas feitas à mão” não só combatem as secas, a desertificação e a erosão. “[Elas] aproveitam a água residual, maximizam o benefício para os agricultores e satisfazem as necessidades de madeira do Egito, gerando benefícios econômicos para o país”, acrescentou o especialista.

Publicado em Viva Mundo

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