Editor

.

Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

    Leia mais ...
Sexta, 14 Outubro 2011 20:45

Momento glorioso do Nobel

Por Cesar Vanucci *

“As mulheres precisam ter as mesmas oportunidades

que os homens para influenciar nos acontecimentos.”

(Thorbjoern Jagland, do Comitê de premiação do Nobel)

A grande maioria dos viventes deste conturbado planeta azul não saberá por certo explicar, assim à queima roupa, onde estão localizados no mapa o Iêmen e a Libéria. Alguém menos desinformado poderá, talvez, dizer que são integrantes de um grupo de países em que a pobreza crônica da população atinge as raias da calamidade. Com estruturas políticas e administrativas esfaceladas, veem-se sacudidos permanentemente por traumáticos conflitos e submetidos a rígidas e arcaicas normas de convivência social, nascidas de um caldo de cultura política e religiosa, pode-se afirmar, primitivo.

Pois foi justamente desses dois países esquecidos, longínquos e inacessíveis nas dobras geográficas, marcados por inimagináveis desventuras sociais, que emergiram neste ano da graça de 2011 os ganhadores do Premio Nobel da Paz. Melhor afirmando, as ganhadoras da mais cobiçada láurea instituída com o objetivo de galardoar o mérito de homens e mulheres comprometidos com a causa da construção humana.

A presidente liberiana, Ellen Johnson Sirleaf, sua compatriota e militante pela Paz, Leymah Gbowee, e a ienemita Tawakkul Karman, líder ativista do movimento conhecido por “Primavera árabe” - movimento esse que vem emitindo inquietantes sinais de enfraquecimento no próprio Iêmen, à conta de manobras diplomáticas de bastidores – foram as Mulheres escolhidas. A premiação recompensou-as por sua luta pacífica e heróica pela segurança das mulheres e de seus direitos de participação nos processos voltados para o bem estar social, conforme assinalou o Comitê Nobel norueguês, responsável pelas indicações.

O presidente do Comitê, Thorbjoen Jagland, na ocasião do anúncio das ganhadoras do Premio Nobel da Paz, deixou expresso, por sinal, um conceito muito pertinente sobre o papel da Mulher no mundo contemporâneo. Disse o seguinte: “Não podemos jamais alcançar a democracia e a paz duradoura no mundo se as mulheres não obtiverem as mesmas oportunidades que os homens para influenciar nos acontecimentos em todos os níveis da sociedade.”

A liberiana Ellen, contando hoje 72 anos, ganhou um lugar na história ao se tornar, em 2005, a primeira mulher eleita como chefe de Estado no continente africano, em um país de quatro milhões de habitantes traumatizados por guerras civis que, ao longo de várias décadas, deixaram 250 mil mortos, destruíram as já precárias infraestruturas de serviços básicos e arrasaram a economia. A partir da posse trabalhou incansavelmente para garantir a paz no país, retomar os caminhos do desenvolvimento econômico e social e promover a ascensão da mulher no meio comunitário, em sucessivas e corajosas tentativas de desfazer seculares laços de servidão machista. Seu acesso à liderança política foi bastante favorecido pela ação destemida da outra liberiana agraciada.

Com efeito, Leymak, conhecida por “Guerreira da Paz”, notabilizou-se por chefiar um movimento pacífico de Mulheres que eletrizou a nação. Convocou uma “greve de sexo”, numa arregimentação de consciências jamais vista no país, que levou liberianas de todas as confissões religiosas, além das linhas de divisão étnica, a negarem sexo aos homens até que cessassem os combates da interminável guerra civil que devastava a nação. Os “senhores da guerra”, abalados com a insólita e bem sucedida iniciativa, não só apressaram as negociações para por fim ao sangrento conflito, como associaram as lideranças femininas às negociações de paz e garantiram, a partir dali, a participação das mulheres nas eleições, o que acabou conduzindo, depois, Eller Johnson Sirleaf à Presidência.

A ienemita Tawakkul Karman, primeira mulher árabe homenageada com o Nobel, ignorava, até ser surpreendida com o anúncio da premiação, tivesse tido o nome lançado para receber a láurea. “Este premio – asseverou – é dedicado a todos os ativistas da Primavera Árabe. “Trata-se de uma honra para todos os árabes, muçulmanos e mulheres”, acrescentou, lembrando as lutas difíceis enfrentadas, tanto antes como durante a chamada “Primavera Árabe”, que lhe valeram até prisão, em favor dos direitos das mulheres, da democracia e da paz.

A escolha deste ano, conhecidas as edificantes trajetórias de vida das três mulheres africanas contempladas, bem provavelmente permitirá ao Premio Nobel da Paz atingir seu momento mais glorioso na simpatia da opinião pública mundial.

* Cesar Vanucci é jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Publicado em Artigos
Segunda, 09 Maio 2011 16:18

Sabes quem era?

070314_irena_sendler_vlrg_8a_widecPor Cesar Vanucci*

Irena Sendler foi uma heroína.”
(Maria Esther Carvalho Pereira, empenhada
em divulgar a história do “Anjo do gueto de Varsóvia
”)

A mensagem chegada via Internet dizia: - Irena Sendler morreu. Sabes quem era? Nem sempre o Prêmio Nobel é atribuído a quem mais o merece.

Não, eu não sabia, até aquele momento, quem era Irena Sendler. Passei a saber por conta de informação repassada pela amiga Maria Esther Carvalho Pereira. Inteirei-me ai, consultando a Wikipedia – inesgotável manancial de episódios sugestivos da fascinante e tumultuada aventura humana nem sempre trazidos com o realce adequado ao conhecimento do grande público – de uma história heróica e comovente envolvendo uma polaca destemida, enfermeira e assistente social que se transformou, durante a Segunda Guerra Mundial, numa fabulosa ativista dos direitos humanos.

Passo adiante os elementos colhidos, sublinhando com admiração os aspectos edificantes dessa existência iluminada.

Irena Sendler (1910 - 2008), conhecida como "o anjo do Gueto de Varsóvia," foi uma ativista dos direitos humanos durante a Segunda Guerra Mundial. Suas ações contribuiram para salvar 2.500 crianças encarceradas no sinistro gueto de Varsóvia. Quando a Alemanha  invadiu a Polônia, Irena era enfermeira no Departamento Social Varsóvia. Em 1942, os nazistas criaram o tristemente célebre gueto. Irena, horrorizada pelas condições do lugar, ofereceu seus préstimos ao “Conselho para a Ajuda aos Judeus”.

Contou a respeito: "Consegui, para mim e minha companheira Irena Schultz, identificações do gabinete sanitário. Entre as tarefas assumidas estava a luta contra as doenças contagiosas. Mais tarde, consegui passes para outras colaboradoras. Como os alemães invasores tinham medo de que ocorresse uma epidemia de tifo, permitiam que polacos se movimentassem no recinto."

Quando Irena circulava pelo gueto, levava uma braçadeira com a estrela de David, em sinal de solidariedade aos judeus e para não chamar demasiadamente a atenção. Em contato com famílias judias, propôs-se a tentar transportar crianças para fora do gueto, sem poder oferecer-lhes garantia de êxito na arriscada empreitada. Enfrentou momentos difíceis. Procurando convencer os pais a que lhe entregassem os filhos, ouviu de muitos pergunta dolorosa: "Podes prometer-me que o meu filho viverá?". Não podia fazer tal promessa, até mesmo por não estar convencida de que conseguiria sair do gueto com os menores. A única certeza que tinha era de que as crianças morreriam se lá permanecessem.

Muitas mães mostravam-se reticentes na entrega das crianças, algo compreensível, mas que acabaria, deploravelmente, se tornando fatal. Não poucas vezes, quando Irena se dispunha a revisitar as famílias, insistindo para que mudassem de opinião, constatava que todos já haviam sido levados aos campos de exterminio.

Até a evacuação do gueto, verão de 1942, Irena conseguiu resgatar, numa proesa notável, mais de 2.500 crianças, usando vários expedientes audaciosos. Começou a recolhê-las em ambulâncias, “vítimas de tifo”. Valeu-se, depois, de todo o tipo de subterfúgio válido para escondê-las: sacos, cestos de lixo, caixas de ferramentas, cargas de mercadorias, sacas de batatas, caixões. Suas mãos corajosas faziam de qualquer instrumento uma via de fuga.

Irena pensava também nos tempos de paz. Esforçava-se por manter com vida as crianças. Mas almejava pudessem elas, algum dia, recuperar a identidade, suas histórias pessoais e reencontrar os familiares. Bolou um arquivo no qual registrava nomes e dados dos menores retirados do gueto.

Informados dessas ações, em outubro de 1943 os nazistas detiveram Irena Sendler. Na prisão de Pawiak foi brutalmente torturada. Num colchão de palha, encontrou uma pequena estampa de Jesus com a inscrição: “Jesus, em Vós confio”. Conservou-a até 1979, oferecendo-a ao Papa João Paulo II.

Ela era a única pessoa que sabia os nomes e as moradas das famílias que albergavam as crianças judias. Suportou o suplicio dos agentes da Gestapo, negando-se a passar informações que levassem à descoberta do paradeiro dos menores. Quebraram-lhe os ossos dos pés e das pernas, mas não conseguiram quebrar sua determinação. Foi condenada à morte. Enquanto aguardava a execução, um soldado alemão conduziu-a a  um "interrogatório adicional". Ao sair, gritou-lhe em polaco: "Corra!". No dia seguinte, Irena viu seu nome numa lista de polacos executados. Amigos salvaram-na subornando agentes alemães. Irena voltou a trabalhar com identidade falsa.

Em 1944, quando do Levante de Varsóvia, colocou suas listas em dois frascos de vidro, enterrando-os e se assegurando de que chegassem às mãos indicadas caso morresse. No final do conflito, desenterrou-os, entregando as anotações ao “Comitê de salvação dos judeus sobreviventes”. A maior parte das famílias das crianças já não mais estava entre nós.

De principio, as crianças que não tinham famílias adotivas foram cuidadas em orfanatos. Mais tarde, foram deslocadas para a Palestina. Os garotos só conheciam Irena pelo nome de código, "Jolanta". Quando sua fotografia saiu num jornal, depois de ser premiada pelas ações humanitárias praticadas, um homem procurou-a: "Lembro-me da sua cara. Foi você quem me tirou do gueto." Começou a receber chamadas e a ganhar merecido reconhecimento público.

Em 1965, deram-lhe a cidadania honorária de Israel. Em 2003, o presidente Aleksander Kwaśniewski concedeu-lhe a mais alta distinção civil da Polônia: a “Ordem da Águia Branca. Irena Sendler foi apontada também para o  Nobel da Paz pela Polônia. As autoridades de Oświęcim (Auschwitz) manifestaram apoio à candidatura, indicando Irena como um dos últimos heróis vivos de sua geração.

O prêmio, naquele ano, foi atribuido a Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos.

* Jornalista (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. )

Publicado em Artigos

twitter

Apoio..................................................

mercado_etico
ive
logotipo-brahma-kumaris