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Linha Editorial

  • "Mídia Construtiva é também lançar o olhar crítico sobre problemas, apontar falhas, denunciar. Contribuindo para a corrente que tenta transformar o negativo em positivo."

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Desde 25 de novembro (Dia Internacional de Ação Não Mais Violência contra as Mulheres) até 10 de dezembro (Dia Internacional dos Direitos Humanos) mais de 100 países se mobilizarão na 21ª Campanha 16 Dias de Ativismo contra a Violência de Gênero.

A iniciativa foi criada em 1991 por feministas e movimentos de mulheres ligados ao Centro para Liderança Global das Mulheres (CWGL, na sigla em inglês), com a finalidade de evidenciar a violência contra as mulheres como um desrespeito aos direitos humanos.

Durante os 16 dias da Campanha, o Instituto Sou da Paz lembrará algumas das instituições e ações que nos últimos anos contribuíram para dar visibilidade e combater esse tipo de violência no Brasil. A cada dia da Campanha você poderá conhecer quatro referências que atuam ou atuaram na defesa dos direitos das mulheres no país através do link http://www.soudapaz.org/16dias/

Em 2011 o tema da campanha “Da paz no lar à paz no mundo: vamos desafiar o militarismo e acabar com a violência contra as mulheres!”.

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Lenine-Claudia-Ferreira-3

Alcione, Ana Carolina, Beth Carvalho, Carlinhos Brown, Chico César, Daniel, Daniela Mercury, Ed Motta, Elba Ramalho, Lenine,  Margareth Menezes e Martinho da Vila são alguns dos cantores que gravaram o clipe para a campanha Quem ama, abraça, que combate a violência contra as mulheres, a ser  lançado no portal www.quemamaabraca.org.br, no próximo dia 25 de novembro. A ação é uma iniciativa da Rede de Desenvolvimento Humano e do Instituto Magna Mater em comemoração aos 30 anos do Dia Internacional de Luta pela Não Violência contra Mulheres. O primeiro evento de lançamento da campanha, que conta ainda com intervenções urbanas, aconteceu nesta quarta-feira (23),  no Espaço Cultural do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim), no Rio de Janeiro. O segundo acontece na sexta-feira (25),  no Largo da Carioca.

A campanha tem como principal objetivo chamar a atenção da população para os dados alarmantes, extraídos do Mapa da Violência 2011, do Ministério da Justiça, e da pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o Serviço Social do Comércio (Sesc).

A pesquisa constatou que 30% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de violência doméstica; que a cada duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil; que seis em cada dez brasileiros conhecem alguma mulher que foi vítima de violência doméstica; e que a cada dois minutos, cinco mulheres são violentamente agredidas no país.

“Tivemos a preocupação de fazer uma campanha que dialogasse com a sociedade. O que queremos muito é atrair a sociedade, as pessoas, homens e mulheres, para que a gente possa fazer um mutirão. Criar uma grande onda de abraços pelo fim da violência contra as mulheres. Infelizmente, os dados que temos até hoje são assustadores”, ressaltou a coordenadora executiva da Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh), Schuma Schumaher.

Segundo a coordenadora, existem leis que garantem proteção para a mulher que denuncia seu agressor, e é importante denunciar os agressores. Para ela, o movimento busca assegurar os direitos das mulheres e é preciso encontrar meios para que os índices de violência sejam menores na sociedade.

Desde o dia 16 de novembro, sete estatuetas de mulheres estão espalhadas em pontos de grande movimento da cidade. A intervenção faz parte da ação Mulheres pela Cidade, que se propõe, por meio de representação simbólica de estatuetas de madeiras, a mostrar às autoridades e à opinião pública como as mulheres são tratadas.

De sexta-feira (25) ao dia 10 de dezembro, a campanha Quem Ama, Abraça estará na TV, no metrô e nas ruas de importantes cidades brasileiras. Esta é a primeira vez que o movimento se apresenta no Brasil. Além do Rio, foram colocadas estatuetas nas cidades de Porto Alegre, Vitória, Natal e Belém. 

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1149Por Mathilde Bagneres, da IPS

Nações Unidas – “Devemos construir sociedades que compreendam que a violência contra as mulheres e meninas é algo errado e que não é parte de uma cultura ou de um modo de vida”, disse à IPS a diretora global da campanha da Organização das Nações Unidas (ONU) contra esse flagelo, Aldijana Sisic. Neste cargo desde agosto de 2010, Aldijana já exerceu o cargo de especialista em comunicações e mobilização de recursos da ONU, e foi diretora da campanha “Chega de violência contra as mulheres”, da Anistia Internacional. Aldijana conversou com a IPS em Nova York sobre a campanha “Una-se para acabar com a violência contra as mulheres”.

IPS: Quais os principais objetivos da campanha?

ALDIJANA SISIC: Esta campanha, lançada em 2008 pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, é um esforço de muitos anos, que busca prevenir e eliminar a violência contra mulheres e meninas em todo o mundo. “Una-se” chama governos, sociedade civil, organizações de mulheres, jovens, setor privado, mídia e todo o sistema da ONU para unir forças para abordar esta pandemia mundial. Os objetivos gerais são criar consciência pública e aumentar a vontade política e os recursos para prevenir e responder a este flagelo. A campanha trabalha também para contribuir com mudanças positivas na área de legislações e planos de ação nacionais, coleta e análise de dados nacionais, uso de violência sexual em conflitos e mobilização social. Finalmente, até 2015, a campanha espera arrecadar uma contribuição anual de US$ 100 milhões para o Fundo Fiduciário das Nações Unidas para Eliminar a Violência Contra as Mulheres.

IPS: Você disse que milhares de mulheres são assassinadas em nome da “honra”. Isto significa que em alguns países a violência contra as mulheres é considerada justificável e natural?

AS: A violência contra mulheres e meninas é grave, frequentemente oculta e generalizada. Adota muitas formas distintas e não faz diferença por condição étnica, raça ou religião. Isto é resultado direto da desigualdade e da impunidade, do poder, do preconceito e da apatia. A violência contra mulheres e meninas pode ser universal, mas nunca se justifica, nem é natural ou inevitável. E, sem dúvida, pode ser erradicada.

IPS: Que tipo de ação pode ser adotada nos âmbitos local e internacional para acabar com a violência contra as mulheres?

AS: Devemos continuar promovendo a ação e a responsabilidade em todos os planos. Contudo, para que haja uma mudança real nas vidas de mulheres e meninas, isto tem de ocorrer nos âmbitos municipal, estadual e federal. Para criar um futuro sem violência, devemos construir sociedades que compreendam que a violência contra mulheres e meninas é algo ruim, e que não é parte de uma cultura ou de um modo de vida. Com profissionais e líderes em nossas próprias comunidades, escolas e locais de trabalho, todos temos oportunidades de usar nossa influência e responsabilidade para dar às novas gerações exemplos que possam apreender e seguir.

IPS: Acredita que ações e campanhas como a “Una-se” podem conseguir uma mudança real no plano local, também em matéria de leis e comportamentos de longo prazo?

AS: Totalmente. Campanhas com a do secretário-geral nos dão uma ferramenta poderosa para desafiar em todo o mundo aqueles que afirmam que a cultura, a religião ou as leis nacionais justificam a restrição dos direitos humanos das mulheres. Elas proporcionam aos governos parâmetros e padrões que podem implantar sob a forma de leis e políticas. Também fornecem uma ferramenta para que os governos sejam responsáveis e para medir seu desempenho, não apenas com base em seus próprios padrões nacionais e recursos locais, como também segundo regras comuns internacionalmente aceitas. Além disso, proporcionam à sociedade um modelo diferente e aos ativistas um poderoso contexto para lobby. E, sobretudo, dão esperança às mulheres, vítimas e sobreviventes em todo o mundo.

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Com informações da Redação EcoD

O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM/PR) e a Secretaria de Políticas para as Mulheres do Estado da Bahia, assinaram, no último dia 13 de novembro, um acordo de cooperação, que pode servir de exemplo para outros Estados da Federação. O acoro visa reforçar a cidadania e ampliar a autonomia econômica das mulheres do campo e da floresta.

O documento prevê a execução de ações de prevenção e assistência à violência contra a mulher baiana e foi assinado durante a 3ª Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres, que aconteceu em Salvador entre sábado (12) e segunda (14). O evento teve a participação de 1,2 mil mulheres que debateram políticas públicas de enfrentamento às desigualdades entre os gêneros, mercado de trabalho, combate à violência, erradicação da pobreza, presença feminina nos espaços de poder e decisão, entre outros temas.

O acordo terá quatro anos de vigência e estabelece que os governos federal e estadual deverão, juntos, garantir que as trabalhadoras rurais tenham acesso a documentação civil e jurídica, autonomia econômica considerando a dimensão étnico, racial e geracional, com ênfase naquelas que se encontram em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O objetivo é promover a organização econômica e a redução da pobreza extrema, e reforçar o enfrentamento da violência contra as mulheres.

O Programa Nacional de Documentação da Trabalhadora Rural, que possibilita a emissão gratuita de documentos civis, trabalhistas e jurídicos, já atendeu cerca de 36.500 mulheres no estado da Bahia, emitindo o total de 73.374 documentos, de 2004 a 2010.

A parceria entre o MDA e a Secretaria de Políticas para Mulheres da Bahia prevê ações integradas que serão desenvolvidas a partir de quatro estratégias:

• Estimular o exercício da cidadania e autonomia das mulheres por meio da emissão de documentação civil e jurídica;

• Promover processos de formação continuada para fomentar e criar a Rede de Mulheres nos Territórios de Identidade;

• Fomentar a inclusão produtiva dos grupos e organização de mulheres;

• Promover ações de prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres do campo.

Essa parceria reforçará as ações previstas no contrato de repasse que será celebrado entre a Diretoria de Políticas para Mulheres Rurais e SPM/BA no valor de 2,6 milhões para fortalecimento da cidadania e da organização produtiva de mulheres rurais e o seu protagonismo na economia rural.

As ações previstas nestes termos fazem parte do II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, que incluem ações, objetivos e metas para as trabalhadoras rurais pactuadas pelo MDA.

A III Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres da Bahia acontece como processo preparatório para a Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, que será realizada de 12 a 15 de dezembro em Brasília.

*publicado originalmente no site EcoD.

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Mobilização começou em maio deste ano. Número supera em mais de 20 vezes o total recebido de janeiro a abril de 2011

A Campanha Nacional do Desarmamento 2011 – Tire uma arma do futuro do Brasil entrou no ultimo dia 12 de setembro na segunda fase. Novas peças publicitárias – filmes para TV e internet, site, spots de rádio, cartazes, mobiliário urbano – foram baseadas em depoimentos reais de pessoas que perderam familiares. O objetivo é ampliar o diálogo com a sociedade para sensibilizar do perigo de ter armas e assim mobilizar cidadãos a entregarem as suas.

São cinco anúncios diferentes para mídia impressa com situações cotidianas em casa, em bares, no trânsito que, por conta da arma, têm desfecho trágico. As peças serão veiculadas em mobiliário urbano, outdoor, revistas, jornais, ônibus e elevadores.

Balanço – Nos quatro primeiros meses de Campanha (6 de maio a 9 de setembro), foram recolhidas 22,2 mil armas. O número supera em mais de 20 vezes o total recebido, de janeiro a abril deste ano, pela Polícia Federal, órgão responsável por acolher as entregas voluntárias de armamentos fora das mobilizações.

Os revólveres são quase metade das entregas, com 10.828. No total, foram recolhidas 18.489 armas de pequeno porte.

De acordo com o Ministério da Justiça, uma medida dos bons resultados alcançados na mobilização é a entrega das armas de grande porte – o balanço da campanha contabiliza 3.734.

São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Pernambuco e Minas Gerais lideram a lista dos estados com maior quantidade de entrega com: 5.349, 2.641, 2.602, 1.776 e 1.572, respectivamente.

Destruição – O Ministério da Justiça assina com Ministério da Defesa e o Conselho Nacional de Justiça, ainda nesta semana, acordo para viabilizar a destruição armas que estão sob a guarda de fóruns e tribunais em todo o País. Estima-se que o total chegue a 700 mil, incluindo armas brancas. A aliança será um marco importante para a continuidade da implementação da política de desarmamento.

Novidades da campanha 2011

A campanha atual do desarmamento se insere numa política de Estado para a segurança pública. A iniciativa traz quatro novidades: o anonimato para quem entregar a arma; a inutilização imediata do artefato; a ampliação da rede de recolhimento de armas; e a agilidade no pagamento da indenização, que pode ser sacada após 24 horas e em até 30 dias. Cada arma dá direito a indenização de R$ 100, R$ 200 ou R$ 300. O Ministério da Justiça já pagou R$ 2 milhões.

A mobilização contou com a adesão dos estados para a ampliação dos postos de coleta de armas. Vinte unidades da federação já assinaram acordo de cooperação. Assim, a campanha conta com 1.539 postos, divididos da seguinte forma: Polícia Civil (712 postos), Polícia Militar (589), Polícia Federal (127), Polícia Rodoviária Federal (64), Guarda Municipal (35) e Corpo de Bombeiros (2).

Mobilizações - Desde 2004, essas mobilizações foram responsáveis por retirar de circulação cerca de 570 mil armas. A edição iniciada em 2008 foi responsável pela regularização de outras 500 mil.

Acesse www.entreguesuaarma.gov.br ou ligue 194

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0000001440Do Jornal do Professor/MEC

Cultura, lazer e entretenimento são os principais temas estudados pela pesquisadora Ana Lúcia Hazin Alencar, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em Recife (PE). Ex-professora da Universidade Católica de Pernambuco, ela é formada em filosofia, com mestrado e doutorado em sociologia.

Ana Lúcia Hazin participou da pesquisa “Programa Escola Aberta: alternativa de lazer e cultura para a comunidade?”, coordenada por Cleide Galiza, também da Fundaj. Para o estudo, realizado no período de 2007 a 2009, foram ouvidos 490 participantes do programa, distribuídos em 32 escolas.

Jornal do Professor – Em sua opinião, qual é a importância do programa Escola Aberta para as escolas, alunos e para a comunidade?

Ana Lúcia Hazin – O programa Escola Aberta (PEA) é direcionado, sobretudo, aos adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social. Em geral, esses usuários pertencem a famílias de baixa renda e suas casas estão localizadas em bairros que apresentam graves deficiências ou até mesmo inexistência de infraestutura, serviços e lazer. Daí a importância do “Escola Aberta”.

A escola que abre suas portas nos finais de semana disponibiliza um espaço que passa a ser apropriado e ressignificado pelos seus frequentadores. Ao oferecer os diversos tipos de oficinas, a escola está dando continuidade ao processo de formação integral do indivíduo que participa de atividades culturais, esportivas ou de lazer.

Os alunos, por sua vez, ao terem oportunidade de fazer parte de grupos de dança, oficinas de teatro, grafitagem ou de experienciar outras práticas oferecidas pela escola, sentem-se inseridos e valorizados. Alguns deles, inclusive, após algum tempo de participação e aprendizado, passam a colaborar com o programa na condição de oficineiros.

O programa Escola Aberta beneficia também a comunidade, já que as consequências da carência de equipamentos culturais e de lazer são amenizados, pois os jovens passam grande parte do seu fim de semana na escola. Os pais, em especial, sentem que seus filhos estão em um lugar seguro, diferente da rua que é relacionada à insegurança, à violência e ao medo.

JP – Que tipo de atividades devem ser oferecidas pelo programa?

ALH – As atividades oferecidas nas escolas devem responder aos anseios dos jovens e contribuir para seu desenvolvimento oferecendo atividades lúdico-recreativas-formativas. São exemplos os cursos de informática, oficinas de capoeira e artesanato, aulas de atividades circenses, dança popular, moderna e futebol. Não se pode esquecer que um aspecto determinante na escolha das atividades a serem oferecidas é a disponibilidade de espaço na escola e a existência de pessoal (oficineiros e voluntários) que marque presença e atue junto aos usuários do PEA nos finais de semana.

JP – Qual o papel do programa no lazer e na socialização? Sabe-se que os moradores de comunidades carentes não dispõem de recursos para esse fim.

ALH – O PEA cumpre um importante papel nas comunidades ao fomentar o direito dos cidadãos ao lazer e à cultura, estimulando-os a repensarem suas práticas e a utilizarem seu tempo livre de forma criativa. Nesse contexto, as oficinas oferecidas, por sua própria natureza, possibilitam o encontro com o outro, uma vez que agregam pessoas em torno de diferentes atividades desenvolvidas nos espaços escolares nos fins de semana.

JP – Quais os principais benefícios gerados pelo programa?

ALH – Em que pese algumas deficiências técnico-estruturais o programa vem gerando, em graus diferenciados, a sociabilidade lúdica que o lazer permite estabelecer: há em geral um aumento do círculo de amizades e uma melhoria no convívio social com familiares, colegas e professores. Também possibilita o aprendizado de novas atividades, o que pode resultar em oportunidades de inserção no mercado e o despertar de talentos não revelados na escola regular.

JP – A sociedade enfrenta uma série de problemas que se refletem diretamente na escola, como a violência, por exemplo. Abrir as portas da escola para a comunidade pode contribuir para minimizar ou resolver estes problemas? Ou pelo contrário: abrir as portas da escola pode aumentar a vulnerabilidade dessas instituições?

ALH – Na minha concepção, abrir as portas da escola para a comunidade ajuda a minimizar o problema da violência, sobretudo a relacionada aos jovens que têm sido seu alvo principal. Quando se leva em conta as condições de moradia das famílias de baixa renda, observa-se um processo de expulsão progressiva, muitas vezes percebido como “natural”. Os moradores, especialmente o segmento infanto-juvenil, expropriados de espaços em suas próprias residências, assumem a rua como local de convivência social, ainda que inadequado. O “Escola Aberta” passa então a ser um “porto seguro”, lugar propício para se ocupar o tempo e a mente.

JP – A senhora participou de uma pesquisa que avaliou o trabalho do programa Escola Aberta em escolas de Recife. Quais as principais conclusões obtidas?

ALH – A pesquisa a que se refere denomina-se “Programa Escola Aberta: alternativa de lazer e cultura para a comunidade?” e foi desenvolvida por Cleide Galiza (coordenadora) e por mim, ambas pesquisadoras da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife. Foram entrevistados 490 participantes do Programa Escola Aberta, distribuídos em 32 escolas visitadas.

A investigação, realizada para verificar as interferências do programa no cotidiano dos beneficiários, apresentou resultados que apontam mudanças no comportamento e um olhar crítico sobre o desenvolvimento do referido programa.

· Ao frequentarem as oficinas, os beneficiários têm a oportunidade de ampliar conhecimentos e conhecer novas profissões ligadas à arte cênica, como teatro e dança, ao áudio visual e à informática;

· Conhecer pessoas, ampliar as relações sociais são situações proporcionadas pela função integrativa do lazer;

· Oportunidade de sair da rua;

· Democratização do acesso à cultura propicia a “cidadania cultural”.

(Jornal do Professor/MEC)

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01_junhoEntre os dias 13 e 19 de junho, mais de 70 países estarão mobilizados na Semana de Ação Global contra a Violência Armada. Esta será a 10ª edição da semana organizada pela IANSA , uma articulação internacional composta por 250 organizações de diversos países que lutam pela redução da violência armada.

No Brasil, a ação é coordenada pelo Instituto Sou da Paz , que fará uma cyberaction para sensibilizar a população sobre os riscos das armas de fogo. Para participar basta tirar fotos com a mensagem #desarme e enviá-las para o e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. . Quem tiver perfis em redes sociais pode digitar #desarme no Twitter , participar e curtir o evento no Facebook , ou divulgar no Orkut .

Por quê controlar o comércio de armas no mundo?

As transações internacionais de compra e venda de outros produtos como, por exemplo, os alimentos, são altamente controladas. No caso das armas, este comércio não tem controle global algum.

Diariamente somos surpreendidos por notícias sobre atos violentos, conflitos e violação de direitos humanos pelo mundo que foram provocados por armas de fogo e munições fabricadas e comercializadas sem restrição entre os países.

Para combater esta situação, existe um processo sendo articulado na Organização das Nações Unidas para construção de um Tratado Internacional de Controle de Comércio de Armas. As organizações que fazem parte da campanha Control Arms, e promovem há uma década a Semana de Ação Global contra a Violência Armada, pedem aos governos que negociem um Tratado que faça a diferença nas ruas e comunidades, protegendo suas populações do comércio irresponsável de armas. Para conhecer melhor esta ação internacional pela redução da violência acesse: www.soudapaz.org/controlarms.

 

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Por Leonardo Boff (*)

O leitor ou leitora pensará que foi uma tragédia o fato de o diretor-gerente do FMI, Strauss-Kahn, ter dado asas ao seu vício, a obsessiva busca por sexo perverso, nu, correndo atrás de uma camareira negra na suíte 2806 do hotel Sofitel em Nova York, até agarrá-la e forçá-la a praticar sexo, o que a Promotoria de Nova Iorque descreve em detalhes e que, por decência, me dispenso de dizer. Para ele não era uma tragédia. Era uma vítima a mais, entre outras, que fez pelo mundo afora. Vestiu-se e foi direto para o aeroporto. O cômico foi que, imbecil, esqueceu o celular na suíte e assim pôde ser preso pela polícia ainda dentro do avião.

A tragédia ocorreu não com ele, mas com a vítima que ninguém se interessa em saber. Seu nome é Nifissatou Diallo, da Guiné, africana, muçulmana, viúva e mãe de uma filha de 15 anos. A polícia encontrou-a escondida atrás de um armário, chorando e vomitando, traumatizada pela violência sofrida pelo hóspede da suíte, cujo nome sequer conhecia. A maior parte da imprensa francesa, com cinismo e indisfarçável machismo, procurou esconder o fato, alegando até uma possível armadilha contra o futuro candidato socialista à Presidência da República.

O ex-ministro da cultura e educação, Jacques Lang, de quem se poderia esperar algum esprit de finesse, com desprezo, afirmou: “Afinal não morreu ninguém”. Que deixe uma mulher psicologicamente destruída pela brutalidade do Mr. Strauss-Kahn não conta muito. Finalmente, para essa gente, se trata apenas de uma mulher e africana. Mulher conta alguma coisa para este tipo de mentalidade atrasada, senão para ser mero “objeto de cama e mesa”?

Para sermos justos, temos que ver este fato a partir do olhar da vítima. Ai dimensionamos seu sofrimento e a humilhação de tantas mulheres no mundo que são sequestradas, violadas e vendidas como escravas do sexo. Só uma sociedade que perdeu todo o sentido de dignidade e se brutalizou pela predominância de uma concepção materialista de vida que faz tudo ser objeto e mercadoria, pode possibilitar tal prática.

Hoje, tudo virou mercadoria e ocasião de ganho desde o bens comuns da humanidade, privatizados (commons como água, solos, sementes), até órgãos humanos, crianças e mulheres prostituídas. Se Marx visse esta situação ficaria seguramente escandalizado, pois para ele o capital vive da exploração da força de trabalho, mas não da venda de vidas.

No entanto, já em 1847 na Miséria da Filosofia intuía: “Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico e podia alienar-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas jamais trocadas, dadas, mas jamais vendidas: adquiridas mas jamais compradas como a virtude, o amor, a opinião, a ciência e a consciência, em que tudo passou para o comércio. Reina o tempo da corrupção geral e da venalidade universal….em que tudo é levado ao mercado”.

Strauss-Kahn é uma metáfora do atual sistema neoliberal. Suga o sangue dos países em crise como a Islândia, a Irlanda, a Grécia, Portugal e agora a Espanha como fizera antes com o Brasil e os países da América Latina e da Ásia. Para salvar os bancos e obrigar a saldar as dívidas, arrasam a sociedade, desempregam, privatizam bens públicos, diminuem salários, aumentam os anos para as aposentadorias, fazem trabalhar mais horas. Só por causa do capital. O articulador destas políticas mundiais, entre outros, é o FMI, do qual Strauss-Kahn era a figura central.

O que ele fez com Nafissatou Diallo é uma metáfora daquilo que estava fazendo com os países em dificuldades financeiras. Mereceria cadeia não só pela violência sexual contra a camareira, mas também pelo estupro econômico ao povo, que ele articulava a partir do FMI. Estamos desolados.

(*) Teólogo, filósofo e escritor

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Quarta, 18 Maio 2011 14:27

O mediador

JJ_250Jacqueline Farid, para a Página 22

Fundador e coordenador-executivo do AfroReggae, José Júnior é um personagem central no processo de pacificação do Rio de Janeiro, um dos protagonistas na tentativa de conectar socialmente a cidade brasileira mais conhecida no mundo.  Há 18 anos, ele criou o grupo que hoje é referência no desenvolvimento de tecnologia social e que realiza um trabalho único no País, resgatando jovens e criminosos do tráfico.  Aos 42 anos, admirador de Che Guevara e Winston Churchill, apresentador de programas de televisão e mediador do conflito entre o asfalto e a favela, José Júnior é requisitado por organizações sociais e governamentais de todo o planeta.

Polêmico, franco e apaixonado pelo trabalho, José Júnior reúne um grupo eclético de amigos que inclui banqueiros, políticos, artistas e traficantes.  A crença de que todo vilão carrega a semente do bem e pode se transformar em herói o levou a formar um “antifã-clube”, mas também a colecionar milhares de admiradores e seguidores.

O AfroReggae, que tem início em 1993, nasceu como um jornal, o AfroReggae Notícias, com informações ligadas à cultura afro.  Hoje participa de 50 projetos político-socioculturais no Brasil e no exterior e beneficia, direta e indiretamente, mais de 10 mil pessoas.

Para o senhor, o que é uma cidade inteligente (assunto principal nesta edição de Página22)?

Uma cidade conectada, seja pela questão urbanística, seja pelo lado virtual, da tecnologia.  O Rio caminha para ser uma cidade inteligente, mas ainda está muito longe disso.  Ainda é difícil localizar endereços pelo GPS no iPhone, por exemplo.  Ontem fui visitar uma pessoa na Barra (da Tijuca) e não conseguia encontrar o lugar.  O Rio ainda é mal sinalizado.  E, no caso da tecnologia, há dificuldade para aquisição de equipamentos e de assistência técnica.  Sou um entusiasta da cidade, mas sei das suas limitações.  É difícil encontrar taxistas que conheçam o Rio, às vezes é difícil se movimentar por aqui.

O senhor tocou nessa questão da mobilidade, que tem tudo a ver com o conceito de cidade inteligente.  Mas e a violência, a desigualdade social, que problemas trazem para o desenvolvimento inteligente da cidade?

A desigualdade social no Rio é menor do que em São Paulo, do que na Bahia.  Não é no Rio que estão os maiores registros de homofobia.  A violência aqui existe, mas é menor do que em São Paulo, por exemplo, não se compara.  Mas aqui existe uma violência declarada e transparente.  Qual é a maior população carcerária do Brasil?  Está em São Paulo.  Mas lá a periferia está longe, aqui está no coração da cidade, em Ipanema.  Aqui não tem periferia, a cidade é periferia.  Se os moradores da Rocinha fizerem greve, a Zona Sul do Rio para.

Esse é um aspecto positivo ou é só uma apropriação que a Zona Sul faz dessa força de trabalho sem dar nada em troca?

Acho que tudo vem mudando muito, a situação é muito diferente de quando eu era mais novo.  Meus amigos todos morreram na adolescência.  Eu não morri.  Tem muita violência hoje, só que naquela época também tinha.  A violência hoje é mais transparente.  E as pessoas também estão cada vez menos tolerantes em certos aspectos.  Antes todo mundo fazia vista grossa, hoje urinar na rua é delito, as pessoas usam cinto de segurança.  Há uma mudança cultural.

O que o senhor chama de violência transparente? Você vê tudo o que acontece aqui.  Em outras grandes cidades brasileiras não se vê.

Será que vê mesmo?  Veja aquela situação da entrada da polícia no Complexo do Alemão.  Todos ficaram surpresos com as imagens mostradas na TV, dos bandidos em fuga.  Muitos afirmaram, naquele momento, que tinha vindo à tona algo que ninguém imaginava que seria daquele tamanho. Realmente, aquilo nunca tinha acontecido.  Nada foi mais transparente do que aquela fuga do Alemão, com o mundo inteiro assistindo.  Aquilo é transparência.  Não é aquela situação de índices de violência maquiados.  Nunca tivemos tanta gente deixando o tráfico.  Você não vê isso em Florianópolis ou em São Luís do Maranhão.  E não é porque lá não existe tráfico, tem, sim, e muito.  Aqueles caras do Alemão, se você conseguisse fotografar e colocar no sistema policial, veria que mais de 50% não tiveram passagem por delegacia nenhuma.

Por que não são bandidos ou por que ninguém chegava até eles? As duas coisas.

O senhor, que transita da favela à Zona Sul do Rio, que efeitos acredita que os eventos esportivos como Copa do Mundo e Olimpíadas terão na cidade?

O Rio está seguindo o exemplo de Barcelona, onde houve o projeto de legado social e olímpico com maior repercussão em todos os tempos.  O Rio bebe na fonte de Barcelona na arquitetura, nas ideias.  Há grandes investimentos que serão feitos aqui, o Rio tem melhorado muito.

Barcelona é uma das cidades consideradas inteligentes no mundo, porque há inovação tecnológica e as coisas estão mudando de lugar, o lixo virando luxo.  O Rio tem como se tornar uma cidade inteligente?

Acho que está no caminho, mas ainda não é.  Empresas que tinham deixado a cidade estão voltando e outras, novas, estão se instalando por aqui.  Há uma gestão pública que está estimulando isso.  O Rio está conseguindo ocupar espaços como cidade inteligente, mas ainda está muito longe.  Um exemplo pequeno, mas de grande relevância, é o novo Museu da Imagem e do Som, que não deixará nada a dever aos melhores museus do mundo.  Há muitos projetos em vias de concepção ou execução.

O senhor acredita que hoje há um marketing eficiente no governo federal e no governo do Rio, pintando o País e o estado com tintas cor-de-rosa, como se já fôssemos Primeiro Mundo?  O marketing tem sido crucial em todos os projetos sociais e governamentais?

Não acho.  Você já viu alguém falar mal de si próprio?  Pense em empresários, políticos, ninguém fala mal de si.  Quando você podia imaginar, há 15 anos, um grupo como o AfroReggae, que tem a favela como uma de suas bandeiras, que trabalha tirando gente do tráfico, ter a estrutura que a gente tem?  Quando, há alguns anos, um grupo como o nosso geraria tanto interesse?  Isso virou assunto de interesse porque está em pauta.  Quando eu criei o AfroReggae, quem aparecia na mídia trabalhava com meninos de rua.  Ninguém tinha interesse pelos meninos do tráfico no País.  O que tomamos muito cuidado, hoje, é para não virar arroz de festa.  Não dou palestras, não vou a eventos de celebridades.  Todo ano o fórum de Davos (Fórum Econômico Mundial, na Suíça) me convida, não vou a nenhum.  Acho o fórum importante, mas para o AfroReggae.  Eu não sou o AfroReggae.  Se o grupo for convidado, alguém vai, eu não vou.  Eu recebo convites de milhões de reais para trabalhar com meio ambiente, dependência química, mas não aceito, nós trabalhamos com o que a gente sabe.

O número de pessoas com interesse em trabalhar para o tráfico está caindo?

Sim, e há um conjunto de fatores que reduzem esse interesse.  Se antes havia 30 crianças querendo entrar para o tráfico, hoje tem de 7 a 10.  Há também uma diminuição da quantidade de armas nas favelas.  Droga, tráfico, você encontra até em escola de Nova York, em metrô na Holanda.  Mas a diferença é que, lá, os caras não estão armados.  É muito fácil falar em drogas, e não falar em armas.  Quando você fala em drogas, está falando de Colômbia, Bolívia, Peru.  Quando fala em arma, toca nos países ricos.  Quem mata mais: drogas ou armas?  E por que não há intervenção nos países que produzem as armas?  Com que instrumento são produzidos os grandes conflitos no mundo, quem ganha com eles?  Quanto custa um grama de cocaína e quanto custa uma pistola?  Tudo tem um interesse maior por trás.

E como o AfroReggae consegue sobreviver em meio a tantos interesses?

Nós temos grandes patrocinadores, muitos parceiros institucionais.  A primeira agência Santander no mundo em uma favela foi implantada por nós.  A nossa produtora de TV não tem dinheiro de patrocinador nenhum.  A metade dos recursos de aquisição do nosso imóvel e as reformas foram geradas por shows e a nossa produção em TV.  Tenho sonhos românticos e utópicos, como não ver mais nenhuma criança no tráfico e não ter mais patrocínio.  Não é abrir mão das parcerias com empresas, mas sim gerar os próprios recursos.

Por que as empresas se interessam pelo AfroReggae?

Por causa do trabalho que a gente desenvolve em vários lugares.  Também há muitos interesses comerciais, as empresas querem ganhar mais dinheiro nas comunidades, melhorar a sua imagem.  Há uma certa generosidade das empresas, mas não é assistencialista, há um interesse de ambas as partes.  Acho que é fundamental hoje as pessoas terem acesso a produtos e serviços.

O senhor acredita que o acesso é fundamental para tornar uma cidade inteligente?

Sem dúvida.  Inclusive o acesso para o deficiente físico.  Gastamos R$ 250 mil adicionais para incluir acesso a cadeirantes em uma obra em Vigário Geral.  Estamos discutindo o que fazer para permitir o acesso dos deficientes visuais.  Como trabalhar com energia limpa?  Discutimos isso também.  Trabalhamos com cultura, questão social, as mesmas ações de 18 anos atrás, quando o AfroReggae foi criado.

O que é o trabalho de tecnologia social que o AfroReggae desenvolve?

Acho que é um trabalho social responsável, juntar um ex-traficante com um policial civil no trabalho, realizando coisas para o bem comum.  Criar encontro entre dois indivíduos que há algum tempo se odiavam e, se pudessem, até matavam um ao outro.  Isso é tecnologia social, parar de culpar os outros e resolver você mesmo o problema.  Você reconhecer a si mesmo como problema, porque é mais fácil culpar o outro.  Estamos levando isso para o mundo inteiro.  É a mediação de conflito, é como usar a percussão, ou o circo, para interagir com pessoas ligadas à violência, fazendo com que possam ganhar dinheiro, elevar a autoestima.  Eu criei o grupo e não sei tocar, não sei fazer circo, não sei fazer teatro.  Já criei até coreografia sem dançar.  Caetano (Veloso) já gravou música minha e eu não sei tocar nada.  Hoje eu tenho de gerenciar o meu tempo, sou convidado a trabalhar mais fora do Brasil do que aqui.  Sou vaidoso, mas tomo cuidado para não virar vedete.

Qual o seu principal talento, na construção dessa tecnologia social?

Meu maior talento é não ouvir as pessoas.  Se eu ouvisse não teria entrado em Vigário Geral em conflito, por exemplo.  Já me disseram que se eu entrasse em favela iam me matar, se eu trabalhasse com a polícia iam me matar, e eu não ouvi.  Se ouvisse, não teria feito 7% do que eu fiz, juro por Deus.  São percepções.  Eu sou um cara da rua, eu não estudei além do ensino fundamental, a minha escola é a rua.  O nome do AfroReggae poderia ser fundação da rua, ou instituição da rua.  Eu percebo, eu olho.  A gente não é uma organização ocidentalizada, por isso estamos presentes na Índia, na China, eles se identificam com a gente.  No mundo ocidental você é obrigado a apresentar números, estatísticas, você pode dizer qualquer número, pode mentir.

Eu valorizo muito a intuição.  Às vezes tenho reunião com alguém que tem doutorado, que me diz pra fazer coisas e eu não faço.  Aí chega um maluco e diz que seu coração está falando que eu devo fazer.  Aí eu acredito.  O argumento intuitivo pra mim tem um peso enorme.  Eu não morri porque meu coração me dizia, em alguns momentos, para ir embora de um lugar.  Para mim, a intuição vale mais do que qualquer coisa.  Algumas das pessoas mais bacanas que conheço, inclusive grandes empresários, como Guilherme Leal (copresidente do conselho de administração da Natura), Fabio Barbosa (ex-presidente da Febraban), são muito intuitivos.  São pessoas que estudaram muito e seguem a sua intuição, que é uma coisa muito apurada, a sua conexão com o cosmos, o seu coração.

Muitas vezes as pessoas vinculam a origem social aos problemas sociais, à violência.  Atribuem a violência à miséria.  O senhor acha que estão diretamente ligadas?

Se estivessem, a Índia seria o lugar mais violento do mundo.  Veja o Complexo do Alemão, onde vivem 170 mil moradores.  Bem menos de 1% dessas pessoas estão envolvidas com o crime.  Como 0,4% ou 0,6% das pessoas de um único lugar fazem tanto barulho?  Uma coisa não está ligada à outra.

Então o que gera violência?

Tem a ver com questões culturais, sociais, familiares.  Há também o cara de classe alta que é tão bandido quanto quem rouba carteira na rua.  Isso é o quê?  Um crime de colarinho-branco, o cara que usa dinheiro da merenda escolar ou desvia dinheiro da saúde.  Ele é mais assassino que o assassino.  O problema é que no nosso País a pena desse cara é menor do que a de um assassino.  Ele matou milhares de pessoas e nada acontece.  Eu vi muito Guerra nas Estrelas, a trilogia.  Todo mundo tem um pouco de Darth Vader, que foi de vilão a herói.  Todo mundo tem uma centelha de Darth Vader.

E a questão da Justiça?  O senhor transita em meios que não estão exatamente dentro da lei.  Existe Justiça?

Sim, existe.  A questão é como funciona.  Não é como deveria.  Por exemplo, deveria haver uma anistia para quem quer largar o crime.  Acho que, se o cara se entrega, se quer deixar o crime, qual o estímulo que ele tem?

Mas muitos vão argumentar que quem já matou muita gente não deve ter esses direitos.

Não anistiaram os responsáveis pela ditadura militar?  Ninguém matou mais do que eles.  Ninguém torturou mais do que eles, ninguém fez mais mal a qualquer ser humano neste país do que a ditadura militar.  E eles não foram anistiados?  O momento que a gente vive hoje é muito especial.  Conheci um juiz que trabalha em presídios, que tem uma percepção social grande, que me disse que tem amigos que viraram traficantes.  Se houvesse mais juízes com essa percepção social que esse cara tem, eu acho que a Justiça seria mais justa.

E as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs)?  O senhor acha que elas têm contribuído para a diminuição da violência, para a melhora do Rio, até mesmo para a realização do seu trabalho?

Meu trabalho é pequeno perto das UPPs, que conseguem criar algo que nunca ocorreu.  Dizem que as UPPs estão fazendo um resgate, mas como você vai resgatar alguma coisa que nunca existiu?  Disseram que o sentimento de paz foi devolvido no Alemão.  Devolvido como, se lá nunca teve paz?  Acho que a UPP está criando, não resgatando.  Simbolicamente, ela cria a autoestima, valoriza os imóveis, faz com que minimamente se busque um ordenamento urbano, social.  Acho um trabalho benfeito, estimo muito o coronel Robson (Rodrigues, coronel da Polícia Militar), comandante das UPPs, que considero meu amigo.  Olha (mostra um envelope fechado).  Olha essa carta que chegou hoje (mostra o remetente, no qual está escrito Elias Pereira da Silva).  É do Elias Maluco, é a quinta, sexta carta que ele me manda.  Conheço ele, me dou bem com ele, se pudesse visitava todo mês.  Conheço a família dele, já tirei várias pessoas do crime com a ajuda dele, com o aconselhamento dele.  Eu falo com o governador, o presidente do Santander, o presidente da Natura e o Elias Maluco.

E por que acha que isso acontece com o senhor?

Porque lutei muito pra desenvolver uma marca que é diferenciada.  Tenho uma produtora de TV que produz hoje cinco programas de televisão diferentes.

Tudo bem, essa é a marca AfroReggae, que leva pessoas que estão no poder a se interessarem por você.  Mas o senhor diz que gosta do Elias Maluco.  Para quem está de fora, pode parecer estranho. Mas eu conheci ele muito antes (do crime).  Aqui tenho ex-milicianos, gente do Comando Vermelho, do Terceiro Comando.  São grupos inimigos que aqui trabalham juntos e para tirar gente do crime.  Os que comandam o crime lá fora continuam inimigos, mas aqui dentro não temos esse negócio de grupo A ou C. Agora, se eu fizesse isso há 15 anos, eu seria preso.

Mas o senhor não teme por isso, não tem medo?

Sou muito transparente.  Quando subi o Alemão para negociar a rendição dos traficantes, sei que meu antifã-clube cresceu, mas o meu fã-clube aumentou em uns 10 milhões.

Por que fez aquilo?

Eu estava aqui, um dos chefes do Comando Vermelho me telefonou, eu achei que precisava ir.

Mas por que eles te respeitam?

Porque eu sou um cara maneiro (sic), entendo, reclamo.  Eu brigo muito com os caras dentro do crime.  O cara mais procurado do Rio me mandou um e-mail ontem, está me esperando, porque quer se entregar.  Ele quer um aconselhamento, se deve se entregar ou não.  Eu já disse que deve, mas ele quer ir comigo e quer ter garantias.  Garantias que eu não posso dar.

Por que alguns traficantes querem se entregar?

Acho que ficam de saco cheio (sic).  Eu já entrevistei vários traficantes que disseram que o maior sonho deles é levar os filhos na escola.  Eu moro do lado da escola dos meus filhos e nunca os levei à escola, eu não dou valor.  Tem coisas que a gente não valoriza, porque é fácil, e eles valorizam muito.  Eu já entrevistei grandes traficantes famosos no meu programa Conexões Urbanas (exibido no canal Multishow).  Se alguém for lá no presídio comigo, vai ficar assustado com a receptividade que eu vou ter, vão achar que estou envolvido com os caras, que eu sou bandido também.

O senhor não tem medo de ser alvo de uma queima de arquivo, por exemplo?

Arquivo de quê, se eu não sei nada?  Não sei que horas a droga chega, quem vende arma, não me interessa saber isso.  Outro dia uma coluna de jornal publicou que eu ando com segurança.  Aqui no AfroReggae tem uns negões enormes.  Eles me veem com eles e dizem que estou com segurança.  Só porque o cara é preto, bonito, grande, é segurança?  Eu não tenho receio, mas se porventura um dia você souber que eu fui assassinado, ninguém vai ficar assustado, porque o que eu faço é pra acontecer isso mesmo.  Se alguém me disser que te mataram, eu vou ficar assustado, mas se um cara como eu, fazendo o que eu faço, morrer assassinado, é normal.  Não é anormal eu aparecer morto, o anormal é eu continuar vivo.  Eu não sei nada, mas, dentro do que eu faço, geralmente você morre.  Eu não faço esquema, não faço acordo.

A diferença de mim pra muita gente é que eu não estudei, só tenho Ensino Fundamental.  Quando você não tem formação nem informação, não sabe o risco que está correndo.  Quando você não tem nada a perder, já é um derrotado por natureza, você perder mais uma vez não faz diferença.  Eu sei o que é derrota, perdi meus amigos, parte da adolescência, só fiz uma coisa na minha vida que deu certo, que é o AfroReggae.

Deve ser difícil tirar gente do tráfico, porque supostamente há uma certa facilidade nessa atividade em relação ao mercado de trabalho formal, lícito.  Ou não?

Hoje tirar uma pessoa do tráfico é fácil.  Houve uma época em que era muito difícil, hoje não.  Porque há todo um glamour em torno da marca AfroReggae, em torno do que a gente faz.  Eu tenho aqui, por exemplo, pessoas que foram muito altas nas suas hierarquias no crime.  Um dos caras que trabalharam com a gente até março do ano passado era sócio do Marcinho VP no Complexo do Alemão, era patrão, hoje trabalha aqui com empregabilidade, que é um projeto que encaminha pessoas de favelas e egressos do sistema penal para trabalhar em empresas.

Agora, para essas pessoas se integrarem à sociedade, elas dependem muito daqui, não é?  Porque lá fora deve ser muito difícil.

Cada vez mais esse assunto está em moda, gera interesse na sociedade, na imprensa, nas rodas de discussão.  Até porque tem uma coisa muito boa que aconteceu: quando a violência veio para o asfalto, as pessoas tiveram realmente que se preocupar.  Porque, enquanto os pretinhos estavam se matando nas favelas, ninguém se importava.

Hoje existem guetos urbanos, formados pelos ricos.  A questão do gueto ficou muito forte na época da Segunda Guerra Mundial, com o nazismo, e depois cresceu nas periferias do mundo inteiro, especialmente nos Estados Unidos, na África e na América Latina, muito por causa da questão racial.  Hoje, quem está no gueto é quem tem dinheiro, que vive murado, cercado.

O que o senhor gosta de fazer no Rio?

Gosto de correr.  E, como fui taxista, tenho o hábito de pegar o carro e andar a esmo pela cidade.  Eu trabalho muito e meu trabalho me dá prazer.  É um lazer pra mim.  Tirar alguém do crime me dá prazer.  Eu já acordo trabalhando.  Não vejo o que faço como trabalho, mas como minha vida.  Eu gosto do Rio, mas adoro também ficar em São Paulo, Nova York, ou na Índia.  Eu sou urbano, mas, quando eu fico no mato, depois de umas 12, 14 horas, começo a me adaptar.  Quando fico sem telefone e internet em algum lugar, no começo dói, mas depois acostumo.  Adoro internet e uso desde 1995, 1996.  Recebo de 800 a 1.200 emails por dia.

Quem são seus ídolos, suas referências?

Eu não diria que tenho ídolos.  Mas admiro Che Guevara como pessoa, Winston Churchill como mediador, tenho uma grande afinidade com Nelson Mandela, o João Jorge, fundador do Olodum, o (poeta) Waly Salomão me influenciou muito.  Tenho admiração pelo senhor Roberto Marinho – que fundou a TV Globo com 60 anos –, também tenho admiração pelo Zico.

Publicado em Viva Brasil

jovens250A organização não governamental (ONG) Viva Rio está lançou um guia que reúne 55 experiências bem sucedidas em diversos países no combate e na prevenção do envolvimento de crianças e adolescentes com violência armada. A publicação foi desenvolvida com base em pesquisas realizadas por dois anos.

De acordo com o coordenador de projetos da Viva Rio, Francisco Potiguara, o objetivo do material é difundir essas iniciativas para que outras instituições envolvidas na temática possam adaptá-las às suas realidades.

“Não precisamos inventar a roda. Em vários lugares do mundo temos instituições e pessoas trabalhando com essas crianças para recuperá-las para a sociedade. Por isso, o objetivo dessa compilação de boas práticas é socializar essas ações na própria rede de quem atua no enfrentamento desse problema e permitir que instituições privadas ou públicas qualifiquem suas ações, adaptando as práticas de outros países”, afirmou.

“Criança com armas não combina. Criança tem que estar na escola, tem que brincar e começar a construir de forma lúdica o seu caráter”, acrescentou.

Potiguara destacou que em diversas experiências listadas no guia, o esporte aparece como instrumento de inclusão social. Um dos exemplos brasileiros apresentados no livro é o projeto Luta pela Paz, que utiliza o boxe e as artes marciais para afastar da violência jovens do Complexo da Maré, um conjunto de 19 favelas, na zona norte do Rio.

“Por meio da cultura do esporte, eles se afastam do narcotráfico, ampliam seu capital cultural e social e percebem que é possível viver uma nova estética, longe da violência e do crime”, ressaltou.

Além do esporte, atividades culturais também aparecem em destaque. Na Colômbia, um grupo de jovens afrodescendentes realiza oficinas artísticas e de orientação psicossocial baseadas na cultura do hip hop para crianças e adolescentes em situação de risco. O objetivo da Fundação Família Ayara, que atualmente atende cerca de 1,5 mil pessoas, é oferecer melhores oportunidades e estimular o ativismo cidadão na luta por direitos.

O Guia de Boas Práticas COAV (sigla em inglês para Crianças e Jovens em Violência Armada Organizada) será distribuído a organizações sociais pela Viva Rio. O conteúdo também está disponível, gratuitamente no site da ONG (http://www.vivario.org.br/).

Publicado em Viva Brasil
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